EducaçÃo musical: território para a produçÃo musical infantil



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EDUCAÇÃO MUSICAL: TERRITÓRIO PARA A PRODUÇÃO MUSICAL INFANTIL
Teca Alencar de Brito


Resumo

Integradas com o ambiente e a cultura, as crianças interagem com sons e músicas, escutando, reproduzindo e criando. A produção musical infantil é, além de forma de expressão e comunicação, um jogo essencial à construção do ser que revela - e transforma- a percepção e a consciência, em cada etapa. Em que medida a “educação musical” escuta, respeita e estimula a produção musical das crianças?



Introdução

O ser humano interage com sons, silêncios e com a música em sintonia com seu modo de perceber, pensar, sentir, conhecer..., enfim, em consonância com sua maneira de ser e estar no mundo. Como uma das manifestações da consciência, a realização musical – jogo de sistemas sonoros simbólicos - reafirma a condição de integração entre o ser humano e o ambiente, bem como, entre a natureza e a cultura.

Definições e análises que, ao longo do tempo, procuram explicar a presença da música, quer por suas características estruturais, quer pelos fins a que se destina ou os efeitos que provoca, falam de música como arte, como jogo (Molino,1986; Delalande, 1984) como ritual e magia (Blacking, 1974), como linguagem (Sloboda, 1985, Koellreutter, 1997), forma de expressão e comunicação, como conteúdo do espírito ou da matéria, como meio para o desenvolvimento integral do ser humano ou para a organização social (Beyer,1993), entre outras questões.

Ainda que a produção musical, em sua diversidade, apresente estruturas organizadas a partir de sistemas assimilados, reconhecidos e reproduzidos pela maioria dos sujeitos envolvidos nos sistemas sociais, é importante atentar para o fato de que o grau de estabilidade adquirido por um ou outro sistema de criação musical não deve (nem pode) ser confundido com a música, ela mesma.

Entendemos que os processos de ação/cognição, que se tornam mais e mais complexos no curso do desenvolvimento humano, determinam, também, transformações contínuas e dinâmicas no que se refere à interação dos seres humanos com sons e músicas; dessa feita, coexistem diferentes modos de produção/reflexão musicais, próprios a cada pessoa em cada estágio, em cada ambiente característico.

Se a formação especializada na área amplia as possibilidades de escuta, produção e análise musicais, o fazer musical 1 não é, como sabemos, privilégio dos músicos, realizando-se de maneiras e por motivos diversos, com diferentes níveis de competências, conhecimentos, possibilidades e recursos.

Desse modo, o que varia é o grau de complexidade. Este se revela por meio de um conjunto de aspectos que podem incluir: a atitude para escutar, relacionar e estruturar sons e silêncios; o domínio técnico para produzi-los com qualidades diversas e em diferentes meios; a mestria para construir instrumentos musicais; a possibilidade de codificar e decodificar os produtos musicais; a capacidade de conhecer, analisar e interagir com os sistemas de produção musical vigentes na cultura; a capacidade de superar e transformar tais sistemas e – aspecto de grande importância – a maneira de entender e significar a atividade musical dentre as ferramentas de expressão, comunicação e representação do mundo.

O que se mantém, para músicos ou não-músicos, é a essência que caracteriza e gera formas musicais: sons e silêncios, no continuum tempo-espaço, revestidos de sentidos e significados conferidos por aquele que produz e/ou escuta. .



A produção musical da criança

Pesquisas e teorias indicam que o relacionamento com o sonoro tem início na etapa da vida intra-uterina, com os sons provocados pelo corpo da mãe e também com estímulos vindos do ambiente externo. E o bebê ouve e produz sons e silêncios, realizando, à sua maneira, um jogo que parece apontar para a gênese do fazer musical.

O que muda - comparando as experiências realizadas por um bebê com a voz ou com um pequeno tambor, à improvisação ou interpretação de um músico - é, sem dúvida, o grau de complexidade, como já apontamos anteriormente.

Entendemos que a construção do significado da música por cada sujeito (a “re-invenção da música” ) se dá pela interação interno/externo ( “eu-meio-construção de relações sonoro-musicais”), sempre em consonância com a percepção e consciência. Dessa feita, é muito importante observar e respeitar o modo como as crianças assimilam e internalizam a “idéia da música”, sintonizando o fazer musical à sua maneira de ser e estar, em dinâmica e permanente transformação. Especialmente, é importante reconhecer que as crianças são produtores musicais.

Compreender e respeitar a produção musical infantil, no entanto, implica em reconsiderar a concepção de música, entendendo-a em sua condição de sistema aberto e dinâmico, conforme propusemos.

Quando nos referimos à relação da criança com sons e músicas, consideramos aspectos que dizem respeito à escuta, ao gesto, às condutas de produção (priorizando a criação) e – especialmente – à idéia de música que ela tem, ou seja, o que pensa sobre, como lida com os conceitos envolvidos e, principalmente, que significados ela confere ao fazer musical.

A interação entre a construção pessoal e os modelos tradicionais de estruturação musicais vigentes e/ou dominantes no meio social em questão, que ocorre seja qual for o grau de complexidade da realização musical, fortalece os modelos tradicionais ao mesmo tempo em que provoca transformações. Em se tratando da produção musical das crianças, parece se estabelecer um jogo dialogal entre o fazer que emerge de suas estruturas internas e os sistemas musicais que apreendem do meio externo, acompanhados de todos os comportamentos relacionados à expressão musical (como, por exemplo, o caráter de show e espetáculo fortemente veiculado pela mídia nas sociedades contemporâneas).

Fazendo música as crianças não apenas representam simbolicamente suas percepções, pensamentos, sentimentos.... como reproduzem, num “faz-de-conta”, os modelos que observam e assimilam.2

Com freqüência escutamos crianças inventando canções, imitando gestos e toques de instrumentos musicais (com ou sem materiais à mão) ou explorando possibilidades e criando livremente quando em contato efetivo com instrumentos musicais. E estas atitudes não são restritas às crianças que têm aulas de música, já que atendem às necessidades de expressar e brincar que são próprias ao universo infantil.

O brincar musical da criança, sua forma de experienciar, de desenvolver recursos e de construir conhecimento nessa área, encaminha as experiências para níveis mais elaborados, num processo que se enriquece e assume maior significado quando o verdadeiro e efetivo fazer musical infantil está presente no espaço escolar.


Educação musical como território de produções musicais das crianças
A música convive com sistemas de transmissão e renovação que, se apontam para a tradição oral ou para um saber intuitivo, também indicam a presença de métodos de ensino-aprendizagem, quer com o objetivo de formar músicos, quer como parte da formação geral dos indivíduos. Estes métodos, em sua maioria, ainda se apóiam em concepções que parecem não compreender o fato musical como sistema emergente e dinâmico, focando quase que unicamente sua característica de estabilidade e manutenção de características.

A música costuma ser entendida (e transmitida) como linguagem a priori, que “já vem pronta”, com estruturas e modelos que, a despeito de sua condição de produtos culturais, são tratados quase como dados naturais Outrossim, tem importância considerável o fato de que nossa educação musical ainda traz marcas do modelo europeu que se instalou no século XIX e que dissociou a formação de intérpretes e compositores, pela ênfase na formação dos virtuoses.

Convivemos com sistemas de ensino musical que pouco ou nenhum espaço costumam reservar às atividades de criação, considerando que a “aula de música” é o espaço para a transmissão de conceitos, de repertórios tradicionais e de realização de atividades seqüenciadas, com fins específicos.

Defendo e desenvolvo um projeto de educação musical que considera a música como sistema dinâmico de interações e relações entre sons e silêncios no espaço-tempo e o processo de musicalização como processo de construção de vínculos com essa linguagem.

Para tanto, é preciso permitir que a experiência musical no plano da educação seja território para o jogo do perceber, do intuir, do sentir, do refletir, do criar, do transformar...entendendo que não existe dissociação entre corpo e mente.

As atividades de criação – que incluem jogos de improvisação, composições, arranjos, formas de registro e grafia - fazem parte do cotidiano musical dos alunos da escola, em cada fase, com base na tradição e também na pesquisa de novas possibilidades, realizando-se em contextos de intersecção com os conteúdos trabalhados e também com as demais formas de realização musical.

Analisando as criações das crianças, constatamos que as mesmas refletem características próprias às diferentes fases do desenvolvimento (não só musical), revelando níveis de percepção e consciência, expressando seu modo de ser pelo jogo simbólico de sons, silêncios, palavras, formas... Se criam canções, suas letras falam de brinquedos, da troca de dentes, dos conflitos com a família, do mundo do faz-de-conta etc, trazendo para o cantar sua maneira de se relacionar consigo mesmas, com o outro, com a família, com a sociedade, com valores, símbolos etc. As criações instrumentais evidenciam o tratamento que é dado aos materiais sonoros e suas características, ao silêncio, aos elementos da linguagem musical em suas estruturações e formas. Intuição e conhecimento específico, liberdade e domínio de regras, exploração, invenção e imitação, convivem em criações que enfatizam um ou mais aspectos, dependendo da vivência e da maturidade dos alunos, ou seja, de sua experiência.

Produzindo, as crianças exercitam sua relação com o mundo e assim crescem, vivenciando um processo pedagógico-musical significativo. O sentido e o prazer que o fazer musical confere aos que experimentam, ousam, criam, e, principalmente, tem seus produtos musicais reconhecidos e valorizados em seu meio, seja ele qual for, tem importância fundamental. Quando as crianças percebem que são autoras de sua própria história, todo o percurso se transforma.

Não restam dúvidas acerca da necessidade e importância da produção musical (de qualidade!) que os adultos ofertam às crianças; é certo, também, que devemos garantir a elas o acesso à produção musical da cultura, em sua diversidade e riqueza. Mas é fundamental reconhece, respeitar e valorizar o fazer musical das crianças (superando preconceitos e valores pré-estabelecidos), um dos caminhos para a formação de seres humanos sensíveis, criativos e reflexivos. “O humano como objetivo da educação musical”, como disse Koellreutter.
Bibliografia:

AKOSCHKY, Judith – La musica en el nivel inicial – Diseño curricular para la educación inicial. Buenos Aires: GCA-BA, Secretaria da Educação, 1996/2000.

BEYER, Esther (Org.) – Idéias em educação musical. Porto Alegre: Mediação, 1999.

BLACKING, John – How musical is man? 2ed. Washington: University of Washington Press, 1974.

BRITO, Teca Alencar de – Koellreutter educador: o humano como objetivo da educação musical.São Paulo: Editora da Fundação Peirópolis, 2001.

____________________ Música na educação infantil: propostas para a formação integral da criança. São Paulo: Editora da Fundação Peirópolis, 2003.

CAGE, John – De segunda a um ano, São Paulo: Hucitec, 1985.

DELALANDE, François – La musique est un jeu d’enfants . Paris: Éditions Buchet/Chastel, 1984.

DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix – Mil platôs vol5, tradução de Peter Pál Pelbart e Janice Caiafa, São Paulo: Editora 34, 1997

FERRAZ, Silvio - “Elementos para uma análise do dinamismo musical”, in Cadernos de Estudo/ Análise Musical, n. 6/7, São Paulo, Atravez, 1994, p. 18.

KOELLREUTTER, Hans-Joachim – Terminologia de uma nova estética da música. Porto Alegre: Movimento, 1990.

__________________________“Por uma nova teoria da música, por um novo ensino da teoria musical”. In: Educação musical: Cadernos de Estudo nº6, organização de Carlos Kater, Belo Horizonte: Atravez/EMU/FMG/FEA/FAPEMIG, 1997, pp.45-52.

MOLINO, Jean – “Facto musical e semiologia da música”, In: Semiologia da música , Nattiez, J.J, Eco, U., Ruwer, N., Lisboa: Vega, Universidade, s/d

PIAGET, Jean – Para onde vai a educação?, tradução de Ivete Braga- 15ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 2000.

SLOBODA, John – The musical mind. Oxford: University Press, Oxford, 1985.

Teca Alencar de Brito é pianista e educadora musical. Coordena, há 19 anos, as atividades da TECA-Oficina de Música, em São Paulo. Publicou Koellreutter educador: o humano como objetivo da educação musical (Ed.Peirópolis, SP,2001) e Música na educação infantil (Ed.Peirópolis, SP, 2003).




1 Entendemos por fazer musical, , o contato entre a realização acústica de um enunciado musical e seu receptor, seja este alguém que cante, componha, dance ou simplesmente ouça”, segundo o compositor Silvio Ferraz.


2 Haja visto o fascínio exercido pelo microfone, pelo palco, pela imitação dos ídolos do rádio e TV.



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