EducaçÃo no brasil império: um olhar dos viajantes-educadores ana Paula Seco1



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EDUCAÇÃO NO BRASIL IMPÉRIO: UM OLHAR DOS VIAJANTES-EDUCADORES

Ana Paula Seco1


  • Primeiros passos da pesquisa

A apresentação, neste seminário, do trabalho intitulado Educação no Brasil Império: um olhar dos viajantes-educadores, faz parte do projeto em desenvolvimento no programa de pós-graduação em Educação, na UNICAMP. Tal projeto tendo como fontes os relatos deixados pelos viajantes estrangeiros, em especial, os educadores, que estiveram no Brasil durante o século XIX, pretende buscar elementos, nos discursos desses, sobre a educação, a fim de que se torne possível compreender o fenômeno que envolve a mesma, ou seja, buscar nesses relatos contribuição para o enriquecimento da historiografia brasileira, em particular, para o enriquecimento da História da Educação.

Este projeto nasceu do desejo de continuar um trabalho de pesquisa de iniciação científica, sob o título de “Levantamento e Catalogação para estudo histórico das Obras deixadas pelos Viajantes que estiveram no Brasil durante o Período Colonial e o Império”, que se insere em um projeto de caráter nacional denominado “Levantamento e Catalogação de Fontes Primárias e Secundárias da Educação Brasileira”, cujo principal objetivo é o levantamento e a posterior catalogação das fontes primárias e secundárias da educação brasileira, fundamentais para a pesquisa historiográfica no Brasil.

Torna-se relevante ressaltar aqui o entendimento do grupo sobre os conceitos de fonte primária e secundária como sendo o conjunto de documentos existentes em arquivos, bibliotecas, museus e centros de documentação, incluindo qualquer documento, desmembrado, originário de locais dispersos, que se torne objeto de estudo, e que se coloque a serviço da pesquisa educacional e sirva como testemunho histórico.

Nesta perspectiva, o Grupo de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil” - denominação esta que se vincula a um entendimento que remete ao historiador como aquele que exercita a História com seus métodos, teorias e instrumentos, dedica-se, entre outros objetos e problemas de investigação, à educação que, por sua vez, não é mera abstração, mas é social, geográfica e historicamente determinada - entende que não basta um simples levantamento das fontes existentes, mas que, devido à dispersão das mesmas, é necessário que a UNICAMP como centro coordenador do grupo, constitua um núcleo de documentação histórico-educacional.

Uma vez realizado o levantamento e a catalogação das obras dos viajantes, abriu-se um caminho para o inicio de um estudo sobre os relatos deixados pelos mesmos, direcionando o olhar para os relatos que se refiram à educação no Brasil Império (1822-1889), buscando entender qual o papel que a educação ocupava nesse período, contribuindo para a melhor compreensão da História da Educação no Brasil, compreensão do seu processo de formação e evolução.

A pesquisa revelou que muitos viajantes de diversas proveniências, de diferentes profissões e interesses escreveram sobre a educação feminina; a escassez de escolas; a falta de livros didáticos e de leituras, o ensino superior e a instrução da elite; enfim sobre a situação da educação nas diversas regiões do Brasil. Frente ao que se levantou, percebe-se a amplitude e a magnitude dos escritos deixados pelos viajantes e sua importância para a construção da História da Educação no Brasil.




  • Caracterização de viajantes

O século XIX, no Brasil, foi marcado pela presença de viajantes de diversas proveniências e variadas formações: da Rússia, da Alemanha, da Áustria, da França, da Itália, de Portugal, da Inglaterra, da Suécia e da Dinamarca. Entre os viajantes que visitaram o Brasil, deixando testemunhos escritos sobre o que viram, ouviram, leram e refletiram estão: representantes diplomáticos, cultivando relações políticas e econômicas; naturalistas, exploradores e cientistas, deslumbrados com a nossa flora e fauna; homens de negócio, vislumbrando lucros; artistas, que souberam captar o “elemento novo”, a situação diversa, os traços e os passos da brasilianidade em formação; foram religiosos, missionários e educadores que sobretudo se dedicaram à população indígena; capelões de missões européias; profissionais liberais; oficiais da marinha; técnicos; geógrafos; aventureiros; professores; governantas; pintores; artesãos; jornalistas; foragidos; engenheiros e médicos e também educadores que enfrentaram grandes distâncias tentando transmitir às crianças brasileiras a educação européia.

Os viajantes seriam estrangeiros, com diferenças culturais e sem maiores ligações com a população local, e que por não serem nativos do Brasil; tiveram uma permanência às vezes breve, outras vezes mais extensa, mas limitada; e que conservaram certa autonomia diante do espaço ocupado pela população; que não estiveram presos por hábitos e afetos ao grupo com que entravam um contato. Também viajantes devido às travessias dos oceanos e por continuar explorando as grandes dimensões do território brasileiro.

Tais indivíduos percorreram longas distâncias em busca do desconhecido e do conhecimento, deixando como herança impressões registradas em magníficas obras, cartas e relatos, que foram fundamentais para a construção da cultura brasileira, e também responsáveis por estereótipos que aderiram à nossa historiografia. São obras que representam seu olhar de estrangeiro, que nomeou, catalogou e retratou o Brasil, em sua diversidade e suas riquezas.

Em outras palavras, impelidos pelo acaso ou pela inquietude; pela ciência, pela arte ou pela fé; pela ambição ou pelo fastio; estes viajantes mantêm entre si o denominador comum de estrangeiros imersos numa realidade totalmente outra daquela de onde provieram. Qualquer que seja o caso, esses viajantes registraram, de uma forma ou de outra, aspectos de um Brasil antigo, que em alguns casos, ainda estão presentes em nossos dias.

Na pesquisa foram levantadas obras de homens que apenas passaram pelo Brasil, em incursões rápidas; outros que vieram para estudar e explorar o Novo Mundo em expedições, missões ou por conta própria2, ficando aqui durante anos, e de outros que aqui chegaram ainda jovens e permaneceram conosco acabando por se fixarem no Brasil ou aqui encontrando a morte, por acidente ou já idosos, sendo enterrados em solo brasileiro.

Os viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil desde o descobrimento até o século XIX, qualquer que seja sua nacionalidade, seus objetivos e interesses - cada qual procurando os aspectos de seus conhecimentos que tinham sido acrescidos de inúmeros dados novos, com a descoberta de novas terras, mas também observadores menos especializados, em geral senhores poderosos cuja imaginação queriam pôr em confronto com a realidade, mas com um cuidado de observar e registrar sobre nossa cultura - ofereceram contribuição valiosa ao estudo de vários aspectos do Brasil de ontem. Por mínima que seja a parcela visitada do vasto território até as mais demoradas e extensas expedições, seus testemunhos nos forneceram um painel do nosso passado e neles teremos sempre o que aprender.

Seus relatos são modos de ver, são olhares que legaram testemunhos sobre a flora, a fauna, a populações e seus costumes. Os diversos olhares estrangeiros não perfazem um modo de ver homogêneo e coerente. O viajante, fosse ele cientista, diplomata, comerciante ou artista, era também, como hoje, indivíduo que pertencia a uma determinada classe social, a uma determinada família, rede de relações e religião.

O Brasil foi representado por tais homens e mulheres através de textos e de imagens, umas mais outras menos aderentes à realidade, mas importando, nesses relatos, as diferenças, as multiplicidades de sentidos.

O tempo das grandes viagens ficou para trás, o que restou foram os relatos deixados ao longo desses séculos - registro da História política, social, cultural, econômica e geográfica do Brasil. As expedições científicas trouxeram homens que olharam para a natureza, a sociedade e as cidades brasileiras. Nas imagens, nas crônicas e nas cartas produzidas por esses viajantes é possível ver um Brasil de muitas visões e de muitas versões, a partir do olhar dos estrangeiros.


  • A importância desse tipo de fonte histórica

A importância dos textos e ilustrações deixadas pelos viajantes que estiveram no Brasil é inegável, seja sob a forma de narrativa de viagem ou como inventário científico, que fala sobre o homem da época e sua complexa atividade social, econômica, cultural e política. O alcance e a divulgação se ampliaram através das muitas reedições e traduções, ajudando inúmeras disciplinas como instrumento de trabalho e contribuindo para construir as distintas imagens que os brasileiros tem de si mesmos e do próprio passado; foram responsáveis por estereótipos que aderiram à historiografia do século XIX, como por exemplo: a hostilidade, a indolência do brasileiro, a imoralidade dos negros e a falta de cultura e interesse pelo saber por grande parte da população brasileira. Os relatos de viajantes cada vez mais estão sendo utilizados como documentação em trabalhos de História, Antropologia, Sociologia, Economia e Literatura, e porque não como documentação para trabalhos na área da História da Educação.

Suas obras podem ser livros de muita utilidade para aqueles que se interessam por assuntos que se referem à nossa história. Muitas contêm informações preciosas sobre o Brasil, que já no século XVI despertou o interesse de europeus e norte-americanos, os quais ao retornarem às suas respectivas pátrias procuraram divulgar suas impressões muitas vezes com sucesso extraordinário, outras nem tanto, sendo ridicularizadas pela “percepção inadequada” da realidade brasileira, dos aspectos de nossa natureza, flora, fauna e os costumes e o modo de vida dos “selvagens”.

Recentemente estudiosos, utilizando as fontes literárias, deixadas aqui por tais aventureiros, vêm analisando a influência, na construção da identidade nacional, das representações européias do território e do povo brasileiro nos âmbitos geográfico, histórico, etnográfico e literário. Esses estudos iluminam os modos segundo os quais idéias originadas na Europa, como, por exemplo, as infindáveis riquezas naturais, a indolência e ignorância do povo, foram assimiladas pela elite intelectual e moldadas aos interesses nacionais.

As narrativas e testemunhos - sofrendo o natural crivo do etnocentrismo, da deformação advinda da distância cultural e do choque inevitável de valores - representam uma fonte de conhecimento da realidade de uma época, realidade que captada e reproduzida por observadores fortuitos, de passagem, mesmo prolongadas ou não, mas observadores alheios a ela.

As obras dos viajantes constituem um rico filão para a pesquisa histórico-educacional: vastos repositórios de fontes primárias (bibliográficas, documentais, iconográficas...), pois constituem depoimentos a respeito de situações testemunhadas, isto é, que resultam dos acontecimentos testemunhados, imobilizados ou isolados na memória do autor, onde se estabeleceu a totalização de seu sentido, por explicações, discussões, comparações ou confrontamento. Sendo assim, abrem inúmeras possibilidades para o entendimento histórico da educação brasileira, notadamente de aspectos pouco ou nada estudados e que dizem respeito à educação local e regional, nos diversos períodos da história brasileira.

Com o exposto acima é possível vislumbrar vários caminhos para novos estudos, onde a literatura de viagem pode ser utilizada como instrumento de trabalho.




  • Cuidados com este tipo de fonte

Por mais importante e precioso que o testemunho dos viajantes possa ser, por melhor fonte para o estudo de hábitos e costumes do passado que possa constituir, por mais ricas fontes para o conhecimento da realidade do Brasil, em diferentes épocas passadas, as descrições desses viajantes não podem ser utilizadas sozinhas para informar sobre os diversos aspectos da região visitada, ou da cultura e dos costumes dos habitantes locais. São fontes de dados, mas dispersas e fragmentadas, não apresentando um encadeamento, mas sim dados breves, exteriores e desconexos, onde a narrativa é freqüentemente composta de momentos fixados pelo mundo interior do viajante (lembrando ainda que os aspectos da vida observados são vistos de acordo com os padrões sociais do autor). Elas devem ser colocadas lado a lado com outras fontes, afim de se confrontar informações, ver o que trazem de novos dados, o que trazem de dúvida ou de questionamento, no sentido de se tentar transpor o problema da fragmentação, da experiência e pela percepção do novo.

O pesquisador necessita, também, de grande atenção no uso dessas fontes devido a heterogeneidade dos escritos. Além disso, é muito importante que se conheça o autor da obra para apreciar o valor do depoimento - o esquema de percepção do outro, das coisas e da natureza provem da experiência social do viajante no seu grupo de origem. Para compreender e explicar os motivos pelos quais privilegiaram certos aspectos e não outros da realidade brasileira, é preciso observar a origem social dos autores, formação intelectual, profissão de cada um deles e o motivo de sua visita, a época de estada no Brasil; o tempo de permanência; a repercussão e importância dos escritos para a época; seus interesses; os tipos de contatos estabelecidos; status social e religião; os locais visitados e outras obras que, por ventura, produziram - dados estes lacunosos, falhos e dispersos, mas de muita importância para uma melhor análise de seus escritos, possibilitando compreender melhor o que e como observaram, descreveram e classificaram o mundo social e refletiram sobre a vida quotidiana do grupo visitado - já que o modo de ver e sentir o que nos cerca carrega um pouco do que somos. Por exemplo, dependendo da profissão do viajante, este mantinha contado com a Corte; já os naturalistas se misturavam mais com a população local, e os educadores conseguiram penetrar nos inter-relacionamentos familiares e dos vários grupos sociais no Brasil.

Outro cuidado a se ter em mente é a “inadequação” inerente desse tipo de documento, que é o da tradução e das diversas reedições que apresentam modificações e incorreções. Tais obras também carregam consigo “mal-entendidos” devido à incompreensão por parte dos viajantes de uma realidade social desconhecida, além das dificuldades de se traduzir em expressões lingüísticas uma realidade diferente, pois deparavam-se com uma variedade de condições sociais e raciais que até então desconheciam.

O fato de serem estrangeiros traz vantagens e desvantagens quando da descrição e interpretação da sociedade brasileira. Os viajantes, como já colocado anteriormente, na qualidade de estrangeiros e por não fazerem parte do grupo cultural visitado, não estavam presos por hábitos, afetos, nem precedentes ao grupo com que entraram em contato, e, portanto, não se identificavam com seus sistemas de orientação - linguagem, etiqueta, cores, leis, modas e cultos. Sendo assim, tinham condições de perceber aspectos, incoerências e contradições da vida cotidiana; diferentemente dos habitantes locais, que pensam de acordo com as convenções de seu grupo, que incorpora, com suas contradições e ambivalências, sem delas tomar consciência, que a considera como natural e permanente. Mas, por outro lado, os viajantes eram presos as suas culturas de origem, o que constituía um obstáculo para observar e repensar a população visitada; além disso, a visão desses viajantes era prejudicada pela falta de convivência com o grupo, sendo uma visão fragmentada e precária, pois muitos desconheciam a história do povo local.

As obras dos viajantes oferecem detalhes que são incidentais ao principal propósito dos registros, o que impossibilita a distorção dos mesmos, como é o caso dos diários. Já os documentos, como os relatos encomendados pelo governo, trazem uma forte carga ideológica. Daí a importância do uso de filtros na hora da leitura, além da confrontação com outras fontes, outros tipos de documentos.

Outro fator que não se pode deixar de levar em conta, ao utilizarmos as obras dos viajantes estrangeiros como fontes históricas, é o aspecto das naturais limitações desses depoimentos: nenhum autor esgota nenhum aspecto da sociedade ou da cultura por ele descrita.

As observações acima apresentadas não desmerecem nem minimizam a importância dos relatos de viagem, mas servem como um alerta quanto ao uso de tais documentos históricos, pois a própria seleção dos fatos e objetos observados é, em si mesma, influenciada por toda uma série de fatores, alheios ao objeto, ligados à personalidade, as experiências, as necessidades e motivações pessoais do observador, e que dependem, ainda, de seus próprios quadros de referência. Ou seja, a posição de todo observador é relativizada pela transposição feita do sistema de valores pessoais, sua percepção do outro, das coisas e da natureza provém da experiência social do viajante no seu grupo de origem, deformando inevitavelmente a objetividade da realidade observada, enfatizando sobremaneira certos aspectos e chegando a conclusões às vezes por demais unilaterais.


  • O que dizem e quem são esses viajantes

Os viajantes passaram pelas mais diversas regiões do Brasil, mas principalmente e mais freqüentemente passavam pelo Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo, e seus arredores, por vilas e regiões da Amazônia, do Pará e Maranhão, pelas regiões das Minas Gerais e pelos mais importantes rios (Tapajós, Madeira, Negro, São Francisco, Trombetas, Tietê, rio do Peixe, rio Doce, entre outros). Destes locais visitados, da visão maravilhosa da chegada, o “enfrentamento” da natureza exuberante, dos índios e do seu modo de vida, dos rituais pagãos e da religião, do governo, da recepção por parte dos “nativos” e da hospedagem, dos edifícios e construções e das riquezas naturais, além de muitos outros aspectos da vida brasileira, como a moral, a educação, a alimentação e as vestimentas, os viajantes tiravam inspiração para o registro de suas aventuras.

Os viajantes enfrentavam muitas dificuldades, como muitos deles contam em seus próprios escritos. Enfrentavam cortes nos financiamentos das pesquisas; a precariedade das comunicações terrestres e marítimas; a deficiência no oferecimento de hospedarias; as dificuldades e os perigos do transporte feito em mulas e cavalos pelos caminhos e trilhas; a desconfiança dos habitantes locais e muitas vezes das autoridades estabelecidas aqui no Brasil, além dos perigos das matas e a falta de resistência a doenças tropicais.

Na sua grande maioria, os viajantes iniciaram seus escritos com o intuito de informar sobre os negócios políticos e financeiros, sobre as riquezas naturais, a flora e a fauna brasileiras. Contudo, contando com farta documentação e informações, passaram a ter a intenção de escrever uma obra que relatasse suas experiências e suas impressões sobre o povo, os hábitos e costumes, a religião, a alimentação e habitação e, também, como alguns o fizeram, falar sobre a educação e a moral, além de deixarem rico material iconográfico que nos revela o Brasil de ontem.

Muitos deles, de diversas profissões e interesses, acabaram por escrever sobre a educação no Brasil da época em que estiveram aqui, como podemos ver nos relatos de:



  1. Charles Ribeyrolles – publicista, republicano e político francês, que esteve no Brasil em 1859-60 e deixou registrado, em sua obra, Brasil Pitoresco, vários aspectos da vida brasileira e críticas à forma de governo;

  2. Ida Pfeiffer – viajante por profissão que analisou a “diferença de inteligência” e educação entre os brancos e os negros;

  3. Daniel Parish Kidder – que chegando no Rio de Janeiro em 1837 e ali ficando por bastante tempo, retratou a sociedade, o conjunto das instituições, a vida brasileira, conhecendo pessoas de vulto;

  4. Hermann Burmeister – professor catedrático de zoologia da Universidade de Halle, esteve no Brasil em 1850, deixando-nos seu relatório de viagem e impressões pessoais sobre o país;

  5. Thomas Ewbank – norte-americano que esteve no Brasil em 1846, observou as características básicas do povo brasileiro através da vida cotidiana (política, administração, educação, costumes, instituições), “tudo que constitui o substrato da nacionalidade”;

  6. George Gardner – esteve no Rio de Janeiro em 1836, fazendo uma descrição de diversos aspectos do país;

  7. Louis Agassiz – naturalista, que veio ao Brasil em 1865 com muitos acompanhantes, escrevendo sua obra juntamente com sua esposa Sra Agassiz;

  8. Charles Expilly – embora casado com uma brasileira deixa transparecer em sua obra um certo ressentimento para com o Brasil, pois desejara abrir uma escola normal, mas não conseguiu e fracassou em tudo que fez;

  9. Carl von Koseritz – esteve no Rio de Janeiro e em outras localidades brasileiras em 1883, e deixou um diário de viagem com datas e lugares precisos, com comentários e descrições dos mais variados aspectos da vida nacional;

  10. Joseph Hörmeyer – alemão que produziu um livro propagandista para atrair imigrantes alemães no período do Império, criando um personagem que narra, em primeira pessoa, sua trajetória pelo território brasileiro em 1851;

Viajantes-educadores, que constituíam um grupo menos numeroso, também estiveram no Brasil e nos deixaram registros de suas passagens. Sua profissão permitiu a penetração nos relacionamentos familiares e dos vários grupos sociais no Brasil, como foi o caso de:

  1. Maria Graham, que foi governanta da princesa D. Maria da Glória e de cuja educação ficou encarregada, indo buscar na Europa o material necessário para desempenhar tal função;

  2. Elizabeth Cabot Cary que escreveu em seu diário de viagem sobre a educação quando diretora pioneira de um colégio superior para meninas;

  3. Wright e Humphrey, professores norte-americanos que direcionaram seus escritos para relatar o desenvolvimento do sistema americano de escolas que começava a penetrar no Brasil no final do Império;

  4. Ina von Binzer que foi contratada para lecionar em um colégio para moças no Rio de Janeiro, onde ensinaria as línguas alemã e inglesa e a tocar piano.

Estas mulheres e estes homens enfrentaram grandes dificuldades tentando transmitir às crianças brasileiras a educação européia. Outros autores-educadores realizaram viagens de estudos, sozinhos ou com sociedades de estudos, em navios equipados.

Nos diversos trechos selecionados que tratam sobre educação no Brasil os viajantes que aqui estiveram durante o século XIX, falaram sobre:



  • o isolamento da colônia frente à idéias que circulavam pela Europa e da “ignorância” da maior parte da população _ “... bem verdade que Portugal, (...), mantinha mais que nunca, a sua bela possessão na ignorância e no isolamento”. (Ribeyrolles, 1980,); “Aqui o estado da educação geral é tão baixo que é preciso mais do que o talento comum e o desejo de conhecimentos para alcançar um bom nível (...)”. (Graham, 1990); ignorância do povo brasileiro - “(...) não haver o menor índice de cultura em ponto algum das terras do local”, Vila Macau, (Kidder, 1941);

  • o envio de jovens da elite para terminar os estudos na Europa, em Coimbra ou Lisboa _ “partiam moços que iam estudar e se formar em Coimbra”. (RIBEYROLLES, 1980);

  • o Instituto Histórico e Geográfico _ “O Instituto Histórico e Geográfico, fundado no Rio de Janeiro, em 1838, contribuiu consideravelmente para despertar o gosto literário dos brasileiros. A instituição tem por finalidade precípua colecionar, organizar e publicar ou conservar documentos que sirvam de subsídio à história e à geografia do Brasil (...)”. (Kidder, 1980);

  • a Academia de Belas Artes _ “O Rio de Janeiro possui ainda outro instituto de cultura muito pouco freqüentado, mas que talvez seja de grande importância. Trata-se da Academia de Belas Artes (...)”. (Burmeister, 1980);

  • o Museu Nacional _ “O Museu Nacional, no Campo de Santana, é outro instituto científico de valor e foi fundado também por D. João VI, (...)”. (Burmeister, 1980); o Museu e suas peças arqueológicas - “O que mais me interessou, porém, foram os restos de animais primitivos”, (Koseritz, 1943);

  • a Biblioteca Nacional _ “Quando se visita o Rio de Janeiro não se deve deixar de ir à Biblioteca Nacional. Foi ela organizada com os livros procedentes da Biblioteca Real de Portugal, trazidos por D. João VI (...)”; o acervo da Biblioteca Nacional - “A Biblioteca é constantemente aumentada e recebe todas as novidades que aparecem e que sejam de importância para os homens de letras e cientistas”, (Koseritz, 1943);

  • a Escola Militar _ “O governo creou ainda as Escolas Naval e Militar para a instrução sistemática dos jovens que pretendam ingressar na marinha ou no exército (...)”. (Kidder, 1980);

  • a Academia de Direito _ “A Academia de Direito, ou como é freqüentemente denominada, UnSP, ocupa o primeiro lugar entre os estabelecimentos de ensino do Império. (Kidder, 1980), a Faculdade de Direito - “A Academia de Direito, ou como é freqüentemente denominada, UnSP, ocupa o primeiro lugar entre os estabelecimentos de ensino do Império”, (Kidder, 1941);

  • o Jardim Botânico _ “O Jardim Botânico, de que devo falar, é um instituto de cultura para o povo (...)”. (Burmeister, 1980);

  • a Escola Central _ “A Escola Central merece uma referência especial. Corresponde ao que entre nós se denomina “Scientific School”, e em nenhuma outra parte do Brasil vi um estabelecimento de instrução onde os métodos aperfeiçoados sejam tão altamente apreciados e tão generalizadamente adoptados”.(Agassiz, 1938);

  • a Academia de Medicina _ “Não há universidades no Rio de Janeiro, mas apenas uma Academia de Medicina, onde, ao lado dos portugueses, encontram-se professores franceses e ingleses”. (Burmeister, 1980); a Faculdade de Medicina - “A escola recebeu últimamente um grande impulso pelo recebimento de todo o material necessário e pela extensão dada ao curso, bem como pela liberdade de ensino”, (Koseritz, 1943);

  • a atuação do governo com assuntos de educação _ “A educação pública, que atualmente exige o mais apurado desvelo do governo, será atendida com quanta eficácia couber em Meu poder, Príncipe Regente”. (Graham, 1990); e os gastos referente a ela - “Há 48 escolas públicas na Corte, trinta e uma para meninas e 17 para meninos, que custam ao Governo 18.460 dólares. Já no último orçamento esta verba subiu a 19.220 dólares”. (Ewbank, 1976); a participação do Imperador em assuntos de educação - “Com uma justa compreensão da verdadeira situação do país chegou o Imperador à conclusão de que o problema capital do Brasil era a difusão da cultura pela instrução e educação literária (...). O maior esforço do Imperador se orienta, assim, para a melhoria da instrução e alagamento da cultura geral”, (Koseritz, 1943);

  • os modelos de educação, os currículos e programas _ “No Brasil, na Espanha, em Portugal, os programas das escolas são mais ou menos como os nossos. Todas as raças latinas cultivam, como em Paris, a flor grega e o loureiro romano”. (Ribeyrolles, 1980); “... vigorava então o sistema lancasteriano (...)”. (Kidder, 1980);

  • as necessidades educacionais; dos números e descrição de escolas e colégios, como o Colégio D. Pedro II _ “O estabelecimento de ensino que mais interesse tem despertado na capital do país é o Colégio D. Pedro II, fundado em fins de 1837, destina-se a proporcionar perfeita instrução secundária e corresponde, no seu plano geral, aos liceus existentes em diversas províncias,(...)”. (p.269, Kidder); “É arejado com vastas salas e belas paisagens. O programa anuncia sérios estudos preparatórios”. (Ribeyrolles, 1980);

  • a influência e atuação da Igreja na instrução _ “O Seminário de Mariana, (...), tem, na sua atual organização, finalidade dupla: nele funciona a escola para a população da cidade e dos arredores e também o seminário (...)”. (Burmeister, 1980);

  • o ensino superior ministrado principalmente na Bahia e em São Paulo _ “... falta cátedras e escolas de altos estudos”. (Ribeyrolles, 1980, pp. 285);

  • as diferenças entre a educação feminina e a masculina _ “Em geral no Brasil, pouco se cuida da educação da mulher; o nível da instrução dadas nas escolas femininas é pouquíssimo elevado, (...). (Agassiz, 1938);

  • a educação dos negros _ “... mesmo os pretos livres, aos quais assiste igual direito de freqüentar as escolas que tem os brancos e os mulatos”. (Burmeister, 1980); “Em Congonhas, vivia um mestre-escola preto, que gozava de toda a consideração, mas seu instituto era particular e freqüentado por crianças de cor”. (Burmeister, 1980);

  • a educação em colônias estrangeiras _ “Escolas alemães, em 1859, tem 5. Essas escolas são coloniais e estão sob a inspeção da Diretoria, contando entre si 455 (...)”. (Ribeyrolles, 1980);

  • a escassez de livros, principalmente na língua portuguesa _ “... um tanto surpreendido ao saber que na cidade não havia nem livreiros nem bibliotecas (...)” (Gardner, 1942); “... aqui como alhures pouca gente encontrei com gosto da leitura e os poucos livros que possuem são pequenos livros de reza”. (Gardner, 1942); “... os livros, como o saber, eram raros”. (Kidder, 1980); a falta de livros didáticos - “Finalmente, não se esqueçam de levar para as crianças os necessários livros didáticos”, (Hörmeyer, 1966); “Um literato não tem colocação no Brasil. Contudo, faltam-nos livros de educação. Aprenda o português e fará traduções” (Expilly, 1977);

  • a imprensa local com seus jornais e revistas científicas _ “O Rio tem quatro diários (...)”. (Ewbank, 1976); “Há boas lojas, mas nenhuma livraria. Ufana-se de duas tipografias e quatro jornais, dois do ministério e dois da oposição”. (Gardner, 1942); “Surgiu o prelo e, com ele, a Gazeta Real”. (Kidder, 1980, pp.42); “A imprensa do Rio é bastante prolífica. Edita quatro diários, dois jornais tri-semanais e de seis a dez semanários e jornais de publicação irregular”. (Kidder, 1980); a imprensa - “Toda imprensa daqui é somente de especulação; nenhum jornal tem um programa definido, nenhum pertence a qualquer partido, nenhum representa qualquer idéia”, (Koseritz, 1943);

  • o ensino da música e habilidades manuais como o canto, o bordado - “Haverá também uma escola de música na qual se ensinará gratuitamente aos meninos colonos e brasileiros a prática dos instrumentos e a cantar”. (Ribeyrolles, 1980, pp. 278);

  • as escolas para meninas, retiradas muito cedo das escolas - “Existe ainda uma casa para educandas, na qual estão internadas 18 mocinhas”, (Kidder, 1941);

  • as melhorias advindas da vinda família Real - “Foram fundadas a Escola de Medicina e a Academia de Belas Artes”, (Kidder, 1941);

  • o colégio D. Pedro II - “A o Barão de Tautphaeus deve a juventude brasileira ser principalmente grata, em matéria de instrução. Ele possue desde longos anos o mais famoso instituto de ensino da cidade [Rio de Janeiro], e atua também desde muito tempo no Colégio D. Pedro II, que ele enriqueceu extraordinariamente (...), com o seu excelente sistema de ensino”; “O imperial colégio D. Pedro II é um estabelecimento modelar”, (Koseritz, 1943);

  • o Congresso Pedagógico - “Como se sabe o Congresso Pedagógico estava em preparativos”; “(...), a Exposição Pedagógica está já bem freqüentada”; “(...), minha primeira visita para a Exposição Pedagógica, aberta anteontem, que oferece realmente muita coisa interessante e vale a pena ser observado e estudada”, Rio de Janeiro, 31 de julho de 1883, (Koseritz, 1943).

A análise pretendida, através de uma visão crítica e não apenas relatando fatos e personagens da educação, objetiva estudar a educação não em si mesmo, mas, na sua dimensão histórico-cultural, pois, a educação é uma prática social histórica, possui e produz sua história.

O período que engloba o processo de independência e o período posterior é marcado pelo surgimento de questões quanto a construção de um sistema nacional de instrução pública, de acordo com as novas idéias da época, onde a instrução era vista como meio de trazer a modernidade. O país havia chegado à emancipação política destituído de qualquer forma organizada de educação escolar. Saíra do período colonial com algumas poucas escolas e Aulas Régias, insuficientes e sem um currículo regular e com algumas escolas de nível superior criada na fase Joanina. O crescimento da elite proprietária de terras e o desenvolvimento de uma vida urbana, onde se concentravam o aparelho administrativo e as atividades comerciais, favoreceu a procura por instrução por parte da elite brasileira.

A realidade econômica, política e social após a independência, que não sofreria profundas transformações até o final do Império, explica, em parte, as dificuldades, a demora e o descaso, o desajuste entre discurso e prática e a total omissão do poder central em relação à instrução popular.

Dois aspectos sobre a educação se destacaram neste período selecionado: o interesse econômico, político e social dos grupos dominantes no ensino superior e as mudanças educacionais dependentes da boa vontade de grupos, pois para a classe dominante não interessava transformações na estrutura social geral e educacional.

Analisar esses aspectos, além da questão do processo de construção de um sistema nacional de instrução pública, com seus projetos, dificuldades, poucas realizações e a real situação da educação no Brasil independente, dentro do quadro econômico, social e político da época, através do olhar do estrangeiro, ou seja, usando como fontes para tal análise as obras deixadas pelos viajantes é o objetivo do projeto em andamento, dentro do programa de pós-graduação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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EWBANK, Thomas. A Vida no Brasil; ou, Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976.

GARDNER, George. Viagens no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1942.

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RIBEYROLLES, Charles. Brasil Pitoresco. São Paulo, EDUSP, 1980.

1 Aluna do programa de pós-graduação em Educação, na área de História da Educação, da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP.

2Muitas expedições eram financiadas pelos tesouros estatais, outras com fortunas pessoais; também eram patrocinadas pela nobreza de sua terra de origem, contratados pelas autoridades portuguesas e brasileiras para exploração mineral ou para incentivo à imigração.



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