Educação para a cidadania global /planetária e Africanidade: a nova moda do século XXI por Madza Ednir e Dinah Frotté



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Educação para a cidadania global /planetária e Africanidade: a nova moda do século XXI

Por Madza Ednir e Dinah Frotté (1)

Colaboração: Claudius Ceccon, Débora Maria Macedo e Roberto de Sá (2)
Ao entrarmos na segunda década do século XXI, em plena crise ética, econômica e ambiental, vemos por toda parte indícios do fortalecimento de valores tradicionais da Mãe África, como o respeito pela força sagrada da Vida em todas as suas manifestações e a consciência da solidariedade básica entre todos os humanos, por mais diferentes que sejam. Saiba o que é Educação Global e como um Currículo Global para a Sustentabilidade começa a ganhar forma também no Brasil.
Seres Humanos: cidadãos planetários por natureza?
Há cerca de 7 milhões de anos, no vale da Grande Fenda, que atravessa a Tanzânia, o Quênia e a Etiópia, a espécie humana começou a se diferenciar dos outros primatas. Muito tempo depois, homens e mulheres partiram da África e povoaram os outros continentes: foram os precursores da planetarização...

Deixando o berço africano, alcançaram regiões que mais tarde nomeariam como Egito, Mesopotâmia, Índia, chegando à Europa, à China e de lá à Oceania e às Américas. Nesses territórios, criaram as primeiras civilizações. Mas, na longa travessia, iniciada há trezentos mil anos, a lembrança de sua origem se apagou. Esqueceram–se de que eram membros da mesma família – a humanidade. Essa memória, no entanto, permaneceu viva no inconsciente coletivo, refletindo-se em ideias, sonhos, mitos comuns. Imagens que se repetiram com regularidade, em diferentes variações, nas culturas tradicionais dos cinco continentes, que por milênios permaneceriam isolados: a árvore da vida; a água que dissolve e cria; a serpente cósmica; o touro ou o boi sagrados; o círculo como símbolo de harmonia, unidade, perfeição...

Durante séculos, civilizações humanas permaneceram ignorantes umas das outras, até que o espírito de aventura e a necessidade de conquistar novos territórios e de comerciar começaram a abrir rotas entre elas. Mapas do mundo puderam então ser desenhados e sucessivamente aperfeiçoados por gerações de cartógrafos. E, no século XV, graças à audácia e interesses expansionistas dos portugueses e espanhóis que se lançaram a mares “nunca dantes (por eles) navegados”, o processo se completou. Nos mapas, as antigas Terras Incógnitas foram identificadas como as Américas.

Os continentes se interligaram, mas seus habitantes não se re-uniram. Civilizações como as Inca, Azteca e Maia, ricas culturas Africanas e indígenas foram espezinhadas. As leis do mercado predominaram sobre as do humanismo de um Montaigne (“Todos os homens são meus compatriotas”) ou de um Erasmo de Rotterdam (“Sou homem e nada do que é humano me é estranho”). A ordem comercial se agigantou até culminar no capitalismo selvagem global e excludente. Embora, ao longo dos séculos, em todas as partes tenham se erguido vozes relembrando a fraternidade entre os humanos e entre eles e os demais seres do planeta - como as de Gautama Sidarta na Índia, Jesus de Nazaré na Palestina, ou Francisco de Assis na Europa- a globalização, até hoje, vem sendo norteada pela ânsia do lucro e pelo individualismo, fazendo com que indivíduos, grupos e nações tratem-se uns aos outros como objetos e estejam em constante competição por espaços e recursos.

O mercado, triunfante em nível mundial, não fez desaparecer a pobreza e aprofundou o fosso entre ricos e pobres. Como diz Jacques ATTALI, (Uma Breve História do Futuro, E. Novo Século, 2008), nesse contexto, “... cada um se torna o rival de todos. Conflitos locais se multiplicam, as vidas não têm mais valor (...)”. A democracia se torna uma ilusão quando os mais ricos concentram em suas mãos o poder de entreter, vigiar, orientar, decidir. A democracia de mercado não é senão uma gigantesca fraude moral. O chamado progresso baseado no individualismo destruiu a natureza e as bases de sobrevivência da humanidade.


Globalização e Planetarização
Não haverá, então, esperanças para a nossa espécie? Será nosso destino inexorável sucumbir à catástrofe ambiental, à guerra nuclear ou bacteriológica? Edgar Morin responde, em seu livro “Os Sete Saberes necessários à Educação no Futuro”, que a única certeza é a de não haver certezas: “O esperado não se realiza e ao inesperado os deuses abrem as portas”. E o nosso Paulo Freire cuja Pedagogia da Autonomia é também a Pedagogia da Esperança, propõe que “um dos saberes indispensáveis... é o saber do futuro como problema e não como inexorabilidade. É o saber da História como possibilidade e não como determinação. O mundo não é - mundo está sendo!”. (Pedagogia da Autonomia, p. 85)

A verdade é que a ordem comercial e a globalização predatória estão em crise, o que representa uma oportunidade única de mudança. A partir de meados do século XX, no marco da Declaração Universal dos Direitos Humanos, forças novas, de coesão e solidariedade entre todos os habitantes do planeta – embora ainda tão discretas que mal são percebidas diante da estridência do capitalismo destruidor, da xenofobia e do belicismo - começam a operar com intensidade crescente. À crença em um desenvolvimento sem limites, contrapõe-se a noção de sustentabilidade; a Economia Solidária surge como alternativa à Economia capitalista dominante, promovendo a cooperação entre pessoas, famílias, comunidades e países. O comércio justo começa a ser praticado a nível regional e internacional. Milhões aderem aos princípios de uma vida simples, ao consumo responsável, às formas de economia relacional onde se produzem e trocam serviços gratuitos. Multiplicam-se as cooperativas, onde, em vez de patrões e empregados, chefes e subordinados, há participação coletiva nas tomadas de decisão, com ganhos e perdas igualmente compartilhados. Diante da guerra sem fim entre islâmicos, cristãos, judeus e palestinos, os primeiros adeptos do conceito de Ecumenismo - eles existem, pasme, também na Palestina e em Israel, nos Estados Unidos da América e nos países árabes - propõem o apaziguamento das grandes Religiões do Livro, além de resgatar as Religiões Africanas, antes consideradas pelos europeus como meras superstições. A cultura da Paz e da transformação de conflitos expande-se e infiltra-se nos sistemas de justiça e educação, com práticas de Justiça Restaurativa substituindo procedimentos punitivos, baseados na retribuição do dano causado. A Internet, que em menos de quatro décadas de existência conectou pessoas e cidades de ponta a ponta do planeta, proporciona formas de mobilização política e cooperação intelectual nunca dantes imaginadas. Considerar essas novas – e ainda incipientes - dinâmicas é admitir a possibilidade de um cenário alternativo ao de uma humanidade que se autodestrói pelo consumismo, intolerância à diversidade e belicismo.


Pessoas de todas as condições, nacionalidades e culturas acreditam, como ATTALI, que “nosso mundo pode tornar-se uma democracia planetária tolerante, pacífica, diversa, porém reunida, onde cidadãos planetários serão hospitaleiros e respeitosos do mundo, altruístas, longe do egoísmo e do desejo de destruir, percebendo que não são proprietários da Terra, mas só tem o seu usufruto. Eles terão a fraternidade como ambição, e encontrarão a felicidade no prazer de dar prazer, em particular às crianças pelas quais são responsáveis”. Organizações como Cruz Vermelha, Greenpeace, Médicos Sem Fronteiras, World Wild Fund, Creative Commons e tantas outras, além de embriões de instituições de governo planetário como ONU e UNESCO, já se pautam por essa ética.
Africanidade e valores planetários

As imagens da África que dominam na mídia nos mostram um continente devastado por conflitos, doenças, pobreza extrema. Grande parte desses problemas da desgraça da colonização, negadora de direitos e humanidade. Além disso, vitoriosos os movimentos de libertação, a corrupção, em governos das mais diversas regiões do planeta instalou-se também na maioria dos países na África. No entanto, a Mãe África de Leopold Segnhor, Jomo Keniatta, Mandela e tantos outros é maior que todos os seus problemas e há valores básicos que sustentam milhares de micro-iniciativas africanas bem sucedidas (e muito pouco divulgadas) no sentido de enfrentá-los de forma autônoma e responsável.

No ano de 2011, instituído pela ONU como o Ano Internacional do Afrodescendente, é bom lembrar que as forças altruístas e universalistas, atuantes a nível local e global, são também tributárias de valores e princípios tradicionais africanos. Nesse sentido, representam um início de retorno às origens - uma reconciliação da humanidade consigo mesma.

Ilustração 1 Portal do Não Retorno - Ricardo Teles - Exposição O Lado de Lá - http://www.flickr.com/photos/ricardoteles/


Portal do Não Retorno, construído na praia do mesmo nome em Ouidá, Benin, em memória dos africanos que daí foram arrastados, como escravos, para países como o Brasil, onde ajudaram a forjar o nosso povo e a nossa cultura.

Autores como Kabenguele MUNANGA (Origens Africanas do Brasil Contemporâneo, E. Global, 2009) e Azoilda Loretto TRINDADE, (Ensino Fundamental: um novo olhar sobre o pluralismo cultural, SME-SP, 2008, acreditam que, a diversidade africana – 56 países, cerca de duas mil línguas –convive com aspectos comuns que subjazem à multiplicidade de culturas. Essa comunidade de valores, percepções e práticas – a Africanidade – pode ser observada nos mais diversos pontos das regiões abaixo do Saara. São princípios que se assemelham de forma impressionante, àqueles acima descritos, anunciadores da cidadania planetária do futuro:




  • Axé, Energia Vital: É generalizada a crença na Força Vital que irriga o universo: “tudo o que existe e é vivo possui axé, energia vital- planta, água, pedra, gente, ar, bicho, tempo, tudo é sagrado e está em interação” (TRINDADE). Essa crença fortalece o respeito ao outro e à vida, inclusive a do planeta.

  • Circularidade - a roda como porta para o fortalecimento da coletividade. No passado, a democracia africana baseava-se na construção do consenso: a tomada de decisão acontecia por meio de longas horas de discussão em círculo sob uma árvore, até se conseguir unanimidade.

  • Ludicidade - alegria, gosto pelo riso, celebração da vida por meio da música e da dança, com ausência da noção de culpabilidade ou de pecado original.

  • Cooperatividade - cultura do plural, do coletivo, da cooperação, com forte consciência da primazia do coletivo sobre o indivíduo.

Esse último princípio encontra sua tradução mais perfeita no conceito tradicional de Ubuntu, palavra de origem banto que tem sido traduzida como “Eu sou o que sou por aquilo que todos somos” (Lia DISKIN), ou como a crença no compartilhamento que conecta toda a humanidade. Essa crença está no fundamento do provérbio africano “É preciso uma aldeia para se educar uma criança”, sempre citado quando se fala nas Cidades Educadoras, onde todas as agencias sociais, e não apenas as escolas, tem consciencia de sua responsabilidade na formação das novas gerações.


Uma Educação para a Cidadania Planetária

O ano de 1992, quando se realizou a Conferencia Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Rio 92 – a Cúpula da Terra – marcou o surgimento de iniciativas para sintonizar a Educação à exigência de se fortalecer, nas crianças e jovens de todas as nações, a consciência de que somos Ubuntu, compartilhamos a mesma humanidade. Nessa ocasião, foi aprovada, por representantes do mundo inteiro - mais de mil e trezentas ONGs - a Carta da Terra. Nesse documento, os signatários se comprometem a “construir sociedades democráticas, justas, participativas e sustentáveis e democráticas, adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem estar comunitário, erradicar a pobreza como imperativo ético, social e ambiental, promover uma cultura de tolerância e não violência”, além de “integrar na educação formal e no aprendizado ao longo da vida inteira, os valores e as habilidades necessárias para se ter uma forma de vida sustentável”.

A partir daí o Instituto Latino Americano de Pedagogia da Comunicação, da Costa Rica, lança os conceitos de Ecopedagogia e Cidadania Planetária, sistematizados por Francisco Gutierrez e Cruz Prado.

No Brasil, o Instituto Paulo Freire, por meio de Ângela ANTUNES e Moacir GADOTTI, passa a disseminar e desenvolver esses conceitos, influenciando a prática de escolas públicas em municípios como S. Paulo e Osasco, dentre outros. Para GATDOTTI e ANTUNES, “A noção de uma cidadania planetária sustenta-se em uma visão unificadora do Planeta e de uma sociedade mundial. Ela se manifesta em expressões como Nossa Humanidade Comum, Nosso Futuro Comum, Nossa Pátria Comum. Tem a ver com a consciência de que somos habitantes de uma única morada, de uma única nação. Temos uma identidade Terrena, somos terráqueos”.

Enquanto isso, na Europa, a Educação para Cidadania Planetária do Hemisfério Sul é denominada Educação Global. A Declaração de Maastrich (2002) define Educação Global como “a educação que abre os olhos e as mentes das pessoas para a s realidades do mundo globalizado e as desperta para construir um mundo de maior justiça, equidade e direitos humanos para todos. Falar de Educação para a Sustentabilidade, Educação para a Paz e Transformação dos Conflitos, de Educação Intercultural, é falar de Educação Global. Educação Global é a dimensão global da Educação para a Cidadania”.

A Educação Global já se tornou uma política pública da União Europeia, incentivada por meio dos Centros de Educação Global, que apoiam escolas e agências educativas não formais, na implementação de processos de aprendizagem transformadora, estimulando o trânsito de uma cultura do individualismo, associada com a dominação, para a uma cultura da parceria, baseada no diálogo e na cooperação entre indivíduos, povos, culturas. Pretende-se renovar os currículos escolares, desenvolvendo nos aprendizes competências para criar novas formas de pensar e de agir em uma sociedade globalmente interconectada, rumo a um futuro sustentável.



Para incentivar mudanças no nível local que influenciem o global, as escolas são convidadas a utilizar métodos participativos, integrando movimentos sociais e processos de aprendizagem não formal a processos educativos formais. A metodologia da Educação Global na Europa tem muitos pontos de contato com a abordagem freireana de leitura do mundo. Parte-se de um problema do momento presente e retorna-se ao passado para analisar a sua história, a sua gênese-e, então, levantam-se alternativas de ação que podem moldar o futuro. Os educadores ajudam os estudantes a fazerem a ponte entre os problemas em um micro contexto e a dimensão global, indo da realidade mais próxima - a família, a vizinhança, a escola, a cidade - para a realidade intermediária I a região, o estado. E daí, para a realidade mais ampla (o planeta). Investigam-se as relações entre o micro e o macro, compartilham-se ideias sobre possíveis soluções e parte-se para a ação.
A Educação Global para a Sustentabilidade propicia, assim, a aprendizagem de conhecimentos, habilidades, valores e atitudes.

  • Conhecimentos: conceitos e conteúdos da programação normal, enriquecidos por informações sobre processo de globalização, desenvolvimento da sociedade planetária, princípios e acordos globais, pontos comuns e diferenças entre culturas e conceitos que expressam a dimensão global/planetária como os de Justiça social, Cultura de Paz, Economia Solidária, Comércio Justo, Cidadania, Diversidade e outros.




  • Habilidades: Pensamento crítico, perspectiva múltipla (saber olhar a mesma situação sobre diferentes pontos de vista); reconhecimento de estereótipos e preconceitos; empatia para com os que pertencem a diferentes grupos, culturas e nações; diálogo, assertividade (afirmar-se sem ser agressivo), compreensão da complexidade, das contradições e da incerteza; manejo e transformação de conflitos.




  • Valores e atitudes: autoestima, autoconfiança, autorrespeito e respeito pelos outros; Responsabilidade social; Responsabilidade ambiental; Mente aberta; Atitude Visionária; Pertencimento comunitário participativo e proativo.


Um Currículo Global para a Sustentabilidade, a Democracia e a Diversidade
Em plena Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014), quase na reta final do período de acompanhamento e cobrança pela realização dos ODMs (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio) que se encerra em 2015, educadores brasileiros e de mais quatro países, em 40 escolas, mostrarão como um currículo significativo pode contribuir para que os estudantes e comunidade desenvolvam atitudes e práticas cidadãs, e ecorresponsáveis, com impacto na melhoria da qualidade de vida, na comunidade, na cidade, numa perspectiva planetária. Trata-se do Projeto Currículo Global para a Sustentabilidade, financiado pela União Europeia e desenvolvido por ONGs da Áustria (Südwind, líder internacional); do Benin (Nego-Com), do Brasil (CECIP), do Reino Unido (Leeds DEC) e da República Checa (Arpok), em cooperação com as autoridades educacionais de cada país.
Um Currículo Global deve estar afinado com os princípios e metodologias acima descritos, voltando-se à construção de uma cidadania planetária, onde os conceitos de justiça social, sustentabilidade, interdependência/solidariedade entre países dos hemisférios Norte e Sul, estão embutidos nas aulas de todas as disciplinas. Assim, o desafio dos 800 professores participantes - 100 deles no Brasil, com liderança de 25 - consiste em examinar as programações de suas disciplinas e identificar oportunidades para relacionar os conteúdos já estabelecidos aos conceitos que expressam a dimensão global/planetária, produzindo Planos de aula, Sequências Didáticas e Projetos interdisciplinares, que culminem em ações rumo à justiça social , ao incentivo do comércio justo, do consumo consciente, da tolerância e respeito às diferenças, da preservação do ambiente. Com esses materiais, o coletivo internacional de docentes construirá um Modelo de Currículo Global on line, multilíngüe.
Um Modelo para apoiar e subsidiar docentes da Áustria, Benin, Brasil, Reino Unido e República Checa, que desejam ensinar a dimensão global/planetária. No Brasil, contribuirá para que os conceitos de Justiça Social, Direitos Humanos, Sustentabilidade, Diversidade, Cultura de Paz e Transformação de Conflitos, Cidadania Global, deixem de ser tratados de forma periférica, em eventos, e passem a inserir-se de forma processual no corpo da programação das diferentes disciplinas. Isso tornará o currículo mais significativo, integrado à realidade, capaz de promover aprendizagens poderosas, com incremento da qualidade da educação.

Outra característica inovadora do Projeto é o diálogo horizontal entre professores de três continentes, ligados a escolas as mais diversas - públicas e privadas, grandes e pequenas, laicas e religiosas - por meio da Internet e em Visitas de Estudo dos quais participam representantes das 40 escolas participantes.


Ilustração 2 - Professores brasileiros e beninenses em Leeds.



A primeira Visita ocorreu entre 11 e 16 de Outubro de 2010 em Leeds, no Reino Unido, cidade onde os conceitos de Comercio Justo e Convivência com a Diversidade já fazem parte do cotidiano. Cinco escolas foram visitadas, com observação de ambientes educativos e de práticas diretamente ligadas á realização de uma cidadania planetária.
Nessa ocasião, professores brasileiros puderam aprender e ensinar. Por exemplo, Isa Mello, da Escola Estadual Julia Pantoja, mostrou como os alunos construíram de forma interdisciplinar, com liderança do professor Roberto, de Artes, projetos de casas sustentáveis, e Sérgio Ferreira, da Teia/ Politeia, mostrou aos participantes como usar uma aula de Capoeira para despertar a Africanidade dos estudantes. O representante da EMEF Guilherme de Almeida, Eduardo Villalpando, trouxe consigo um exemplo de como trabalhar Sentimentos e Afetos na construção de uma cultura de Paz e de um projeto interdisciplinar coordenado pela professora de Português Débora Macedo, onde parte-se do problema do mal-uso dos espaços públicos, para se discutir sustentabilidade e justiça social. As professoras Daniela Lastoria e Paula Rabello levaram  consigo a proposta de Educação para a Sustentabilidade do Colégio Bandeirantes. Sueli Nonato mostrou a interação de sua escola, Luiza Hidaka, com a cultura nipônica, forte na cidade de Suzano.
A segunda Visita de Estudos ocorrerá em Outubro de 2011, ao Benin, onde os participantes poderão vivenciar os princípios da Africanidade que impulsionam a construção da democracia planetária que desejamos. A colaboração entre professores do Norte e do Sul do planeta contribui para desfazer antigos estereótipos e preconceitos cristalizados ao longo de séculos de colonialismo. Para os docentes e estudantes brasileiros, a presença do Benin nesse Projeto é um presente maravilhoso e uma grande oportunidade de incrementar a autoestima das crianças e jovens, em especial os afrodescendentes. Afinal, grande parte de nossos ancestrais vieram do antigo Reino do Daomé, trazendo consigo valores, crenças e princípios das culturas Fon, Ewé, Iorubá e Fulani, que tornaram o Brasil o país musical, dançante, criativo, espiritual, alegre e resiliente que é.
Cinco escolas brasileiras  vivenciando a diversidade e outros conceitos da Dimensão Global/ Planetária
No Brasil, o CECIP decidiu, por razões financeiras e estratégicas, oferecer o Projeto Currículo Global para a Sustentabilidade a escolas da Grande S. Paulo, cujos Projetos Político Pedagógicos já contemplassem, na prática cotidiana, a formação para a cidadania ativa e a sustentabilidade. Para tanto, foram contatadas a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, por meio da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas e a Secretaria Municipal de Educação e São Paulo, por meio da Chefia de Gabinete. As autoridades educacionais apresentaram o Projeto a dirigentes e diretores interessados e três escolas públicas foram escolhidas, por contar com o maior número de docentes que já inseriam conceitos globais em suas aulas, dispostos a atuar de forma voluntária, tendo como recompensa o prazer de criar algo novo e contribuir para a melhoria da educação brasileira. As escolas públicas de excelência selecionadas e seus diretores são: EMEF Guilherme de Almeida (Angela Bellinatti); EE Prof. Julia M Pantoja (Monica Cavalcanti) e EE Luiza Hidaka (Arnaldo Teixeira). A elas se juntaram duas escolas particulares de excepcional qualidade, com as quais o CECIP já desenvolvera parcerias: o Colégio Bandeirantes (Mauro Aguiar) e a Escola Teia/Politeia (Georgya C. Correa, Rosa Bertholini, Carolina Sumiê).
Em torno do propósito de se construir um Modelo de Currículo Global para a Sustentabilidade no Brasil, uniram–se mais de 25 educadores interessantes e interessados, cada um com um talento e uma história única, uma habilidade especial, disposto a trocar e compartilhar essa riqueza, para produzir em comunhão ações transformadoras. Assim, temos especialistas em Português - Débora Maria Macedo, Laura Nogueira, Lenira A. Buscatto, Marlene P. Campos, Neuza Fabro,Rosangela Mainente; em Inglês- Eduardo Villalpando e Valeria Lopes; em Artes - Cleide Lopes e Roberto de Sá; em Educação Física - Daniela C. Lastoria e Sergio Ferreira; em História e Geografia - Denise M. Pires, Lucia Mitiko Hirata, Sueli Nonato; em Ciências, Ana Paula Zilla, Cristiana Mattos Assumpção, Rogério Fagundes Filho, Rosmeire Giacomelli, em Matemática- Isa C. de Mello, Osvaldo de Souza, Paula C. Rabello, Suzana Hosomi; em Multi/Interdisciplinaridade - Vera Lucia Tavares de Mello, Glaucia Palmieri.
Esse grupo encontrou-se presencialmente pela primeira vez em Agosto de 2010, e desde setembro, vem se comunicando via Internet, para afinar seus instrumentos. Um processo riquíssimo e desafiador, que possibilita a aprendizagem profissional cooperativa entre docentes de diferentes idades, gêneros, formação, religiões, personalidades, atuando nos sistemas público e particular de ensino.

Em 2010, primeiro ano do Projeto Currículo Global para a Sustentabilidade, dedicado à identificação das escolas e alinhamento conceitual dos participantes, as 5 unidades que o representam no Brasil já conseguiram comunicar, à maioria dos professores e estudantes, a importância de se incluir no currículo a dimensão global, por meio de conceitos como direitos humanos, justiça social, diversidade, cultura de paz/resolução de conflitos, sustentabilidade e outros.


Os professores Daniela Coelho Lastoria e Paula Rabello (Bandeirantes), Eduardo Villalpando, (EMEF Guilherme de Almeida) , Isa Camargo de Mello, (EE Julia M. Pantoja) , Sueli Nonato (EE Luiza Hidaka) e Sérgio Ferreira , (Teia/Politeia), que representaram suas escolas em Leeds, compartilharam suas aprendizagens e mostraram as imagens das escolas britânicas visitadas. Contando com a liderança dos diretores, das equipes “Currículo Global” e dos coordenadores do Projeto em cada escola (Cristiana Assumpção no Bandeirantes, Eduardo Villalpando e Denise Pires na Guilherme de Almeida, Rosmeire Giacomelli na Julia Pantoja, Lucia Hirata na Luiza Hidaka e Georgya Correa na Teia/Politeia), a devolutiva conseguiu beneficiar todos os professores das escolas.
Em  várias delas,  como no Bandeirantes, os  “Viajantes de Leeds” possibilitaram aos colegas vivenciar dinâmicas experimentadas no Reino Unido. Em uma, a Guilherme de Almeida, todos os alunos participaram da elaboração de pôsteres sobre conceitos implícitos na dimensão global,  que foram expostos no pátio e visitados por toda a comunidade escolar, inclusive os pais. Os estudantes criaram ainda um vídeo onde  refletem sobre a importância de se preservar os espaços da escola, como os banheiros.  Em outra, a Julia Pantoja, os estudantes foram envolvidos na criação de um "logo" da unidade para o projeto e os professores trabalharam de forma interdisciplinar, com uma culminância  envolvendo atividades de conscientização da comunidade, pelos alunos, sobre comportamentos sustentáveis. A escola foi convidada a  expor no metrô trabalhos dos alunos sobre "casas sustentáveis". Em outra ainda, a  Luiza Hidaka, a Feira de Ciências foi toda voltada a ressaltar a dimensão da Sustentabilidade com alunos apresentando os seus trabalhos sobre o tema. No Bandeirantes, Sustentabilidade e Cidadania  estão presentes nas aulas  das mais diferentes matérias, de Ciências e Educação Física  a  Português, onde até a leitura do Frankenstein de Mary Shelley pode servir para discutir conceitos como Diversidade e  Valores/Percepções. Na Politeia, todas as crianças, independente de idade e presença de deficiências físicas ou mentais, criaram e apresentaram juntas uma peça que incluía muitas dos conceitos Globais - O Mágico de Oz - e  realizaram vídeo onde a questão do consumismo era criticada e causas da situação dos moradores de rua  eram afloradas.

Conexões internacionais começam a  acontecer, com correspondência entre  escolas brasileiras e Republica Checa, Benin,  Reino Unido.

  
Cooperação Brasil-África rumo à superação do preconceito e da discriminação

No momento em que o Brasil emerge como uma das grandes potências no cenário mundial, é urgente que aprendamos a valorizar as diferenças, a conviver com elas e transformar em mudanças positivas os conflitos que elas provocam. Uma aprendizagem que precisa ser aplicada na escola, na cidade, no país e no mundo, gerando sustentabilidade.


O  Brasil é exemplo  de convivência com a diversidade e de intolerância á diversidade. Por um lado, temos a Parada Gay, uma das maiores e mais bonitas do mundo. De outro, sucedem-se abomináveis manifestações de homofobia. Somos capazes de um sincretismo religioso que concilia o inconciliável, unindo santos da religião católica, baseada na divisão severa entre o bem e o mal e orixás da religião africana onde bem e mal são faces de uma mesma moeda. Todavia, o racismo se manifesta na diferença de condições de vida, salários e esperança ao nascer entre cidadãos de pele branca e de pele escura, mostra que a diferença, no Brasil, ainda inferioriza.

Ilustração 3: Representação da ideia de Diversidade elaborada pelos alunos da EMEF Guilherme de Almeida

A Visita de Estudos ao Benin representará para os professores brasileiros, um banho de Africanidade. O pequeno país (menor que Portugal) é hoje um modelo de democracia entre as nações africanas. Nela convivem pacificamente cristãos, islâmicos e praticantes do Vodu - que em iorubá significa Espírito, Deus - religião africana , matriz do Candomblé e da Umbanda brasileiros, distorcida e vilipendiada por Hollywood. O Benin já foi governado por poderosos soberanos autóctones, superou galhardamente o regime colonial francês, viveu duas décadas de um governo autoritário marxista e é herdeiro de tradições culturais, religiosas e artísticas milenares. Berço de escritores como Jean Pliya, e Bhely-Quénum, o Benin, ao receber seus filhos e filhas e além mar, irá contribuir para fortalecer o orgulho e consciência negros nas escolas e comunidades brasileiras.





Ilustração 4: Complexo Escolar Protestante





Ilustração 5: Colégio Católico Notre-Dame de Loudes









Ilustração 6: Colégio de Ensino Geral de Gbegamey










Ilustração 7: Liceu Toffa









A Visita de Estudos, da qual também participarão os docentes da Áustria, Reino Unido e República Checa, será precedida pela interação entre as escolas brasileiras e as beninesas, localizadas em Porto Novo e Cotonou. São unidades de ensino também muito diversas: Colégio Católico Notre Dame de Lourdes, fundado por missionários franceses, particular, dedicado à formação intelectual e espiritual de seus alunos; Colégio de Ensino Geral de Gbegamey – público, criado em 1964, de renome nacional, centro de exames e concursos; Complexo Escolar Leopold Senghor, público; Complexo Escolar Protestante, particular, criado pela Igreja protestante em 1951; Liceu Toffa (público), só de meninas, funcionando desde 1972 .



Ilustração 8: Casa do Benin - Salvador - Bahia - Brasil



Ilustração 9: Vida e Fertilidade - Acervo Casa do Benin - Salvador Bahia – Brasil



Ilustração 10: Cerâmicas beninenses - Acervo Casa do Benin - Salvador - Bahia Brasil


Ao mesmo tempo, as escolas brasileiras entrarão em contato com os recursos da Casa do Benin, em Salvador. Esse equipamento público, inaugurado em 1988, abriga uma rica coleção de objetos e obras de arte da região do Golfo do Benin, de onde veio a maioria dos negros que povoaram o Recôncavo Baiano. A maior parte do acervo foi colecionada pelo antropólogo fotógrafo e cidadão planetário Pierre Verger, em suas andanças pelo continente africano.

Navegando Rumo ao Futuro

Os educadores envolvidos no Projeto Currículo Global para a Sustentabilidade no Brasil estão construindo ferramentas para que as escolas e comunidades possibilitem às crianças e adolescentes compreender como injustiças do passado afetam as políticas contemporâneas locais e globais, identificar interconexões entre as esferas sociais, econômicas e ambientais, perceber que as pessoas, lugares, economias e ambientes estão todos intrinsecamente relacionados, e que escolhas e eventos locais tem repercussão em escala global. Esses educadores convidam, os estudantes, por meio de suas situações de aprendizagem cuidadosamente planejadas, a desafiar o racismo e outras formas de discriminação, desigualdade e injustiça, percebendo que somos todos parte de uma só humanidade, que a força do Axé nos une e que o sofrimento ou a felicidade de um, impacta a comunidade inteira.

Trata-se de um projeto que conta com recursos financeiros muito limitados. Os profissionais da Educação nele engajados estão sendo movidos por valores e princípios alternativos, altruístas e solidários. Também pelo prazer gratuito de cooperar e aprender com o outro, com o diferente. Eles remam a favor do futuro, rumo às praias da democracia planetária que nossos bisnetos talvez alcancem.

Muitos parceiros já se juntaram a nós. Desde o início do processo, o CECIP vem contando com a generosa e gratuita consultoria de especialistas como Ângela Antunes e Erick Morris, do Instituto Paulo Freire, Helena Singer, do Instituto Politeia, Mônica Mumme, de seus próprios quadros - além do apoio de Vilma Guimarães, da Fundação Roberto Marinho. Você também pode remar conosco. Afinal, cada um de nós é o que é por aquilo que todos somos: Ubuntu.





  1. - CECIP- Coordenadora Pedagógica e Coordenadora Administrativa do Projeto Currículo Global para a Sustentabilidade no Brasil

(2) Diretor Executivo do CECIP; Professora de Português- EMEF Guilherme de Almeida e Professor de Artes. EE Julia M. Pantoja, membros da equipe Brasileira do projeto Currículo Global para a Sustentabilidade.






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