EducaçÃo transdisciplinar e desenvolvimento humano pedro Franz Oliveira Leite1 resumo



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EDUCAÇÃO TRANSDISCIPLINAR E DESENVOLVIMENTO HUMANO

Pedro Franz Oliveira Leite1



RESUMO
O presente artigo através do método dedutivo apresenta a Educação Transdisciplinar como alternativa para um maior desenvolvimento humano. Apresenta a transdisciplinaridade como oportunidade de trabalhar o fenômeno do sagrado nos processos cognitivos e psíquicos, buscando a realização do ser humano consigo e com os demais seres. Mostra o diálogo como base para a educação transdisciplinar e enfatiza a arte de aprender e a pedagogia do autoconhecimento como princípios fundamentais para um maior crescimento do ser humano/humanidade e desenvolvimento humano.

Palavras chave: Educação transdisciplinar. Autoconhecimento. Desenvolvimento humano. Aprender a aprender. Diálogo.
ABSTRACT
This article presents through the deductive method Transdisciplinary Education as an alternative to a higher human development. Presents the opportunity to work transdisciplinarity as the phenomenon of the sacred in cognitive processes and mental, seeking the realization of the human being with you and other beings. Shows the dialogue as a basis for transdisciplinary education and emphasizes the art of learning and pedagogy of the self as guiding principles for further growth of the human / human and human development.

Keywords: Transdisciplinary education. Self. Human development. Learning to learn. Dialogue.

1 INTRODUÇÃO

O presente artigo apresenta propostas teórico-metodológicas que possibilitam aos seres humanos promoverem um maior desenvolvimento humano da humanidade.

A sobrevivência do ser humano humanidade no século XXI também depende da construção de uma ação educativa transdisciplinar, direcionada para a vivência do autoconhecimento ou arte de aprender, que possa cuidar e iniciar o processo de cura da coletiva e grave doença psicológica humana. Sem a vivência da arte de aprender é impossível o acontecimento de um desenvolvimento humano equânime, na medida necessária à sobrevivência da nossa humanidade planetária do terceiro milênio.

Afirma Sampaio (2010), a importância que se dá nos dias de hoje às questões externas e materiais fez desaparecer a pessoa, o ser humano, o amor, o sonho e os ideais; veio do fascínio de tecnologia e da ciência e de suas promessas do ideal da objetividade.

O grande desafio dos profissionais nos dias atuais é saber administrar sua própria formação contínua, por meio do autodesenvolvimento, da competência técnica e do conhecimento específico de sua área de atuação, para que possa administrar com lucidez profissional.

A importância do investimento na formação contínua busca integrar as áreas do conhecimento, pois não existem partes isoladas, mas um todo harmônico que se completa pela contribuição de todas as partes. Assim são superadas as barreiras disciplinares, conteudistas e isolacionistas em direção à transdisciplinaridade e, ao mesmo tempo, amplia-se a percepção do profissional nos mistérios da natureza humana, desenvolvendo a sinergia grupal que o alimenta e aperfeiçoa.

Como diz Dalai Lama (2000), o ser humano é responsável por tornar o mundo cada vez melhor, com base nas mudanças em seu próprio íntimo. Afirma ainda que a importância da Educação já foi compreendida, mas cérebro brilhantes também podem produzir grandes sofrimentos.

É preciso, portanto, educar os corações com os corações.



2 EDUCAÇÃO TRANSDISCIPLINAR SEGUNDO AUTORES

Segundo Random (2000), a transdisciplinaridade não é uma nova religião social como marxismo. É o paradigma de uma visão holística que germina no vazio pleno e no silêncio fértil que reina entre as disciplinas. Não é uma pesquisa elitista, pois o apelo à autotransformação para o autoconhecimento diz respeito ao coração de todo ser humano. Ao coração e não à cabeça. De onde provêm os quatros princípios do processo de aprendizagem concebidos pela Comissão Internacional da Unesco sobre a Educação para o século XXI: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver junto e a aprender a ser.

Diz Sai Baba (1999) que a verdadeira educação deve permitir que uma pessoa utilize o conhecimento que adquiriu para enfrentar os desafios da vida e para fazer todos os demais seres humanos felizes.

A Educação, como diz Freire (1979), para ser verdadeiramente humanista, tem que ser libertadora, através da conscientização.

Conforme Nicolescu (2005), a atitude transcultural, transreligiosa e transnacional pode ser aprendida. Ela é inata na medida em que dentro de cada ser há um núcleo sagrado, intangível. Esta é a base fundamental da educação transdisciplinar: ir além do que se espera os indivíduos, vendo no outro o reflexo de si mesmo. A educação transdisciplinar se inicia ao nascer e continua pela vida inteira.

De acordo com Palavizini (2008), a transdisciplinaridade traz em si a oportunidade de trabalhar o fenômeno do sagrado nos processos cognitivos e psíquicos, buscando a religação do ser humano consigo, com os demais seres, com suas culturas e religiões e com toda a natureza planetária e universal, construindo a conexão transcendente que é condição necessária para sua existência e felicidade.

Soares (2007) considera que a educação transdisciplinar também pode ser compreendida como um termo sinônimo da educação correta, preconizada e praticada por Krishnamurti. Diz que um dos eixos pedagógicos do princípio trans desta educação é a vivência da arte de aprender ou da arte de autoconhecer-se. Ao educar o ser humano para conhecer o funcionamento da mente velha condicionada em sua próxima existência, a educação transdisciplinar também objetiva ajudá-lo a reconhecer e a compreender a realidade existencial da sua vida interior psicológica.

3 PRINCÍPIOS FILOSÓFICOS DA EDUCAÇÃO TRANSDISCIPLINAR

De acordo com os fundamentos filosóficos da educação transdisciplinar nenhum ser humano é visto como um aluno, ou seja, como um ser luz. Na práxis pedagógica desta educação, todo indivíduo é reconhecido como um ser luzente, que possui o direito de apropriar-se da vocação ontológica de ter luz própria em consonância com o pulsar originário da Luz Criadora, também presente no pulsar da respiração de todo ser humano. O movimento de assumir o direito desta vocação ontológica lhe possibilita ser, simultaneamente, educando e educador na relação dialógica do processo de toda e qualquer aprendizagem.

Alguns princípios filosóficos desta educação estão alicerçados na compreensão educacional de Jiddu Krishnamurti a respeito da arte de aprender. De acordo com este educador, a vivência arte de aprender, apesar de ser totalmente distinta da vivência do processo da aquisição/acúmulo de conhecimentos, proporciona ao ser humano possibilidades existenciais para que possa adquirir e usar os conhecimentos, sem ter que submeter-se à condição de prisioneiro-vítima das diferentes modalidades do funcionamento da programação da mente velha condicionada em sua psique.

Na compreensão desse autor, o ato de aprender é uma arte que pode ser comparada com a arte de ver. A vivência do aprender, o ato de aprender é uma arte que pode ser comparada com a arte de ver. A vivência do aprender, assim como a vivência do ver, acontece sempre no aqui-agora de cada experiência existencial inusitada, em um momento presente irrepetível. Portanto, a vivência da arte de aprender é o acontecimento existencial ontológico, onde o ser humano vivencia a independência do passado de todo e qualquer conhecimento, arquivado na programação da memória da sua mente velha condicionada.

Krishnamurti entende que para aprender é também necessário saber ouvir. Na sua compreensão, o ato de ouvir é o ato de aprender e, para ouvir e ver, é necessário que haja atenção.

Na sua perspectiva, a arte de aprender implica também o processo da “observação para” ou da “observação apaixonada” de instante a instante, que não é contínua. Portanto, uma observação sem memória, uma observação sem o observador, uma observação viva. Nesta “observação para” ou “observação apaixonada” o ser humano vivencia uma das modalidades da arte de aprender, que implica o processo de observar, integralmente, no aqui-agora do presente ativo, o movimento do conhecimento acontecendo em suas experiências existenciais da relação.

A vivência da “observação pura” acorda a “mente apaixonada – mente nova, criadora – do ser humano”, que é apaixonada porque sempre está aprendendo, ou seja, sempre está viva/presente – sem nenhum referencial passado – na vivência – acontecimento existencial do aqui-agora único e irrepetível.

A atitude pedagógica da ação educacional transdisciplinar objetiva educar o indivíduo não somente para que ele possa ativar a capacidade de adquirir conhecimento filosóficos/científicos/técnicos, como também para que possa ativar a capacidade de conhecer, através da vivência do autoconhecimento ou da arte de aprender, o funcionamento da programação da mente velha condicionada em sua própria existencialidade. Portanto, ocupa-se tanto com o processo da aquisição – assimilação – memorização de conhecimento teóricos e técnicos, como também a vivência da arte de aprender. Assim compreende-se que a vivência do autoconhecimento ou da arte de aprender, a partir da perspectiva de Jiddu Krishnamurti, é o eixo filosófico e pedagógico da educação transdisciplinar.


4 O DIÁLOGO NA PRÁTICA DA EDUCAÇÃO TRANSDISCIPLINAR

A transformação humana se processa através do diálogo que os homens se aproximam uns dos outros, desarmados de qualquer preconceito ou atitude de ostentação.

No diálogo, as pessoas são livres para desejar, cultivar e estabelecer encontros. Transitando na construção de sua visão de mundo, na situação dialógica, os indivíduos são seres coisificados, mas sujeitos que se humanizam totalmente.

Na perspectiva de David Bohm, no diálogo ninguém objetiva fazer prevalecer o seu ponto de vista particular, assim como ninguém objetiva ganhar, pois no seu exercício todos ganham se alguém ganhar. Por outro lado, todos ganham quando qualquer erro é descoberto por parte de um dos participantes. No diálogo predomina o que este físico educador denomina de ganhar-ganhar, em oposição do jogo da discussão onde predomina o ganhar-perder.

Percebe-se que na atualidade na organização prevalece a discussão em vez do diálogo. Segundo (Soares, 2007:401):

A discussão implica a quebra de significado. Esta quebra acontece, por exemplo, no processo de imposição de ponto de vista (ou interpretações), através da manipulação velada ou desvelada, através da consciente ou inconsciente auto-afirmação do eu psicológico.

Na maioria das vezes uma discussão é desenvolvida entre duas ou mais pessoas, que adotam pontos de vistas definitivos e desejam convencer-se mutuamente ou comparar seus pontos de vista com a intenção de impor e fazer prevalecer uma opinião particular.

Enfatiza (Soares), comumente, as pessoas que se consideram no direito de manipular o outro, utilizando o mecanismo de imposição das suas idéias, estão comprometidas com certa ideologia, crença religiosa, crença filosófica, crença culinária, crença familiar, crença científica, crença política, ou qualquer outra crença. Tal comprometimento alimenta a ilusão da existência de uma segurança psicológica, que as levam a ficarem cada vez mais escravizadas ao vício de não questionarem suas crenças fundamentais. Tal escravidão lhe condiciona a serem viciadas no hábito de sempre estarem centradas no próprio ponto de vista, sem reconhecê-lo como uma interpretação em meio a tantas outras interpretações.

Na vivência do diálogo ninguém objetiva fazer prevalecer o seu ponto de vista particular. A atitude existencial dialógica de quem apresenta uma opinião, um ponto de vista é totalmente diferente da atitude de quem defende ou impõe uma opinião. A atitude existencial de quem tem consciência que o seu ponto de vista é uma interpretação, no meio de tantas outras, é totalmente diferente daquele que não têm consciência que o seu ponto de vista é apenas uma interpretação a mais, proveniente da síntese da leitura da sua cultura pessoal, inserida e interagindo em uma cultura coletiva.

No diálogo deve prevalecer o ato de escutar que é a qualidade humana na qual a percepção está latente. Diferentemente de ouvir, o escutar proporciona a sensação da descoberta, que se efetiva num ato sensitivo. Trata-se da capacidade de ouvir o educando para compreendê-lo e, deste modo, falar com ele e não apenas falar para ele – assim, escutar é tarefa a ser aprendida por que está sendo educado. É um “abrir-se”, uma percepção ampliada do outro; envolve reflexão e posicionamento.

Conforme (Freire), o diálogo é o encontro amoroso dos homens que, mediatizados pelo mundo, o “pronunciam”, isto é, o transforma, e, transformando-o o humanizam para a humanização de todos.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O indivíduo é um elo de toda uma história desde o início dos tempos até o momento presente que determina seu próprio comportamento. Sua ação é o resultado do processamento da recuperação dessas informações que constituem as memórias individuais, genética e cultural. O futuro é o resultado de suas vontades, desinibições, projeções e motivações.

A educação transdisciplinar traz em si a oportunidade de uma educação integral do indivíduo, a importância de conceber o ser humano em sua totalidade, defendendo a noção da comunidade de aprendizagem, como um conjunto que aprende e cresce à medida que dialoga e crescem seus elementos.

Reforçando Sampaio a educação transdisciplinar, portanto, responde com urgência, por meio de uma ação concreta, ao sistema que ameaça nos destruir.

O conhecimento transdisciplinar estabelece a correspondência e a integração entre os mundos interior e exterior do ser humano, superando a contradição, a dualidade e a exclusão. É uma educação que permite que a pessoa que adquiriu o conhecimento possa enfrentar os desafios da vida e possa fazer todos os demais seres humanos felizes.

Portanto, a educação transdisciplinar fundamenta-se no processo de expansão da consciência, que permite a integração de todas as dimensões da relação humana, contribuindo para que todo ser humano humanidade tenha um autodesenvolvimento e promova relações saudáveis para melhoria da humanidade.



REFERÊNCIAS
BARRETO, Sirlene. O papel da consciência em face aos desafios atuais da Educação. Salvador: Sathgarte, 2005.

BOHM, David. Sobre el dialogo. Barcelone: Kairós, 1997.

D’AMBRÓSIO, UIbiratam. Transdisciplinaridade. São Paulo: Palas Athenas, 2001.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.

KRISHNAMURTI, Jiddu. A educação e o significado da vida. São Paulo, Cultrix, 2001.

LAMA, Dalai. Uma ética para o milênio. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.

NICOLESCU, Basarab. O manifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 2000.

PALAVIZINI, Roseane. O fenômeno do sagrado na formação transdisciplinar. In: Congresso Internacional Transdisciplinaridade, Complexidade e Ecoformação; 02.05.11. Brasília:UnB, 2008.

RANDOM, Michel. O pensamento transdisciplinar e o real. São Paulo: Trio-m, 2000.

SAI.BABA. A transformação pela educação espiritual. Rio de Janeiro: Sri Satyasai, 1999.

SAMPAIO, Dulce Moreira. Educação e a reconexão do ser: um caminho para a transformação humana e planetária. Petrópolis, RJ. Vozes, 2010.

_______. A pedagogia do ser: Educação dos sentimentos e dos valores humanos. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.



SOARES, Noemi Salgado. Educação transdisciplinar e arte de aprender. Salvador: Edufba, 2007.


1 Mestrando em Desenvolvimento Humano e especialista em Metodologia do Ensino Superior. Graduado em Ciências pela Universidade Federal da Bahia e Pedagogia pela Faculdade de Educação Olga Metti. Professor de Graduação e Pós-Graduação na Fundação Visconde de Cairu.



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