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HIPÓTESE
Seria possível descrever a traços largos a história da «idéia de ciência» descrevendo as alterações de estatuto da noção de hipótese. Por certo, em virtude da extensão sem precedentes dos domínios atualmente explorados, com sucesso, pela ciência, do refinamento sempre mais audacioso das abstrações a que recorre, o pensamento contemporâneo parece ser particularmente sensível ao problema da natureza e do valor das hipóteses cientificas.

A palavra hypotheses em grego liga-se ao verbo tifheni ‘ponho’ e à partícula hypo ‘por baixo’. A palavra de origem latina ‘suposição’ é, portanto, o seu decalque literal; o seu sentido envolve simultaneamente a idéia de ‘conjetura’ e a de ‘princípio’, de ponto de partida de um raciocínio. Na ciência tal como se nos apresenta hoje em dia, é difícil e certamente artificial pretender distinguir em todos os casos, à viva força, hipóteses isoláveis e sistemas teóricos complexos. Portanto, iremos tratar de hipóteses num sentido lato, abrangendo o que por vezes se chama «princípios» e mesmo as grandes teorias que constituem o seu desenvolvimento.

É certo que os Antigos não ignoraram a presença de hipóteses na ciência. Mas o papel que lhes reconheciam é característico justamente das profundas diferenças entre a sua concepção entre a sua concepção da ciência e a nossa. Para Platão, o método «por hipóteses» consiste em propor uma definição do objeto estudado para em seguida extrair as suas conseqüências, ou seja, procurar as condições que tornam efetiva esta definição. Se chamarmos «círculo» a figura plana cujos pontos são eqüidistantes dum centro, ela possuirá determinadas propriedades; o objeto que se pretender identificar a um «círculo» deve, portanto, possuir essas propriedades. Método que, segundo Platão, é o das matemáticas, mas de que a dialética, única verdadeira das essências, apenas pode fazer um uso provisório, como mostra o exemplo do Méron, em que a tentativa para definir por esse modo a virtude conduz a uma aporia. É que o ideal platônico da ciência é justamente o de um conhecimento absoluto, não-hipotético.

Nos Analíticos Posteriores, de Aristóteles, a hipótese aparece entre os princípios da ciência. É então definida como uma proposição admitida sem demonstração e que estabelece que uma coisa é ou não é. Distingue-se da simples definição por comportar uma afirmação de existência. É essencialmente indemonstrável, e se, na discussão, proposições demonstráveis forem tomadas como hipóteses, é na medida em que aparecem provisoriamente como aceitáveis, mas indemonstráveis para o interlocutor. A hipótese é assim um elemento legitimo e inelutável da ciência aristotélica, mas não comporta nenhum aspecto propriamente conjetural e pertence ao fundo último, radicalmente primeiro, do conhecimento.



Uma aquisição definitiva da epistemologia antiga foi, sem dúvida, a constatação de que a ciência se deve apoiar em proposições que escapam a qualquer demonstração direta e de que é necessário um limite na procura dos princípios. Mas a tomada de consciência de uma situação nova nas ciências da Natureza, desde o início do século XVII, provocou uma reflexão crítica sobre o caráter absoluto destas hipóteses. Aquilo que hoje em dia, no discurso científico, qualificamos de hipótese, apenas pode ser considerado como uma paragem provisória do pensamento, seja por conjeturar um fato descrito então de modo a ser suscetível de ser estabelecido ou refutado no quadro dos termos que o definem, seja por propor um conceito que justifique provisoriamente a sua coerência e eficácia no raciocínio explicativo dos fenômenos observados ou provocados. Antes de examinarmos mais precisamente a natureza e o papel destas hipóteses e o caráter que conferem à ciência, iremos tratar do caso limite que as Matemáticas representam. É indubitável que se encontram na história desta ciência algumas hipóteses-conjeturas: elas consistem na enunciação de uma propriedade dos objetos matemáticos sugerida pelo exame de casos particulares mas cuja validade universal não se sabe demonstrar. A mais célebre é, sem dúvida, o «Grande Teorema de Fermat»: a equação xn + yn = zn não tem solução em números inteiros para n > 2. Num caso como este poder-se-ia, aliás, perguntar se se trata duma conjectura propriamente dita cuja verificação nos escapa ainda ou de uma proposição arbitrária (enquanto proposição universal) que o corpo das Matemáticas permitiria sem contradição admitir ou rejeitar. Ambas as circunstâncias se produziram no curso da história. Foi assim que as «conjecturas de André Weil» na teoria das variedades algébricas sobre os corpos finitos foram recentemente demonstradas (P. Deligne) e na teoria dos grafos foi demonstrada a conjectura das «quatro cores» (K. Appel e W. Haken). Em contrapartida, a «hipótese do contínuo» formulada por Cantor revelou-se independente da Teoria dos Conjuntos onde tinha sido enunciada (Cohen) e, por conseqüência, arbitrariamente recusável ou admissível a título de novo axioma. Neste último caso, a hipótese reveste o sentido muito particular de axioma eventual, próprio das Matemáticas. Posicionam-se a existência ideal e as propriedades constitutivas dum objeto de pensamento donde seguidamente se irão deduzir novas propriedades. A cláusula de existência, bem sublinhada por Aristóteles, deverá então ser interpretada ou como simples não contradição dos termos que se encontram associados na hipótese ou, num sentido mais forte, como possibilidade de construção efetiva do objeto. Esta natureza eminentemente liberal da hipótese-axioma revelou-se tardiamente na história das Matemáticas quando, após mais de vinte séculos de esforços para demonstrar «V Postulado» de Euclides, sistemas tão coerentes e fecundos, como a geometria clássica, foram edificados sobre hipóteses diferentes.O reconhecimento de tal fato epistemológico, tão escandaloso no seu gênero como a descoberta da irracionalidade de diagonal do quadrado a longo prazo a concepção das Matemáticas. Mas repercute-se igualmente sobre a própria idéia que temos dum conhecimento da Natureza, sugerindo que se deve reexaminar o estatuto das suas hipóteses.


  1. Diferentes tipos de hipóteses

Efetivamente, até que ponto deve uma hipótese das ciências da Natureza ser interpretada como referindo-se à realidade? Parece claramente impossível que se possa usar nestas ciências uma liberdade de construção do objeto idêntica à das Matemáticas. Contudo, se é certo que as hipóteses, bem como qualquer proposição da ciência, visam uma «representação manipulável» do real, os seus modos de representação e graus de acoplamento a esta realidade são diversos. O que três exemplos significativamente diferentes vão mostrar.

I) A hipótese de Maxwell sobre o campo electromagnético. Na seqüência dos trabalhos experimentais de Faraday, e em oposição às concepções dos cientistas alemães que explicam os fenômenos eletromagnéticos a partir de uma acção à distância, sobre o modelo da teoria newtoniana da gravitação, Maxwell propõe uma concepção diferente destas ações mecânicas. Explicar-se-iam então por um estado do meio intermediário, definido em todos os seus pontos através de dois seres matemáticos de natureza vectorial, graças aos quais se podem calcular as forças que aí se exercem sobre uma dada carga elétrica. Formula assim «hipótese de que a ação mecânica observada entre corpos eletrizados se exerce através do meio e graças a ele, como nos exemplos familiares da ação de um corpo sobre um outro mediante a tensão de um cabo e a pressão de uma barra» [1873, trad. it. p.236].

Evidentemente que uma tal hipótese é determinada em termos matemáticos, constituindo as propriedades formais dos dois vectores do campo as célebres equações de Marwell, graças às quais é possível deduzir e calcular os efeitos eletromagnéticos. Mas, sob a forma que o autor lhe confere, trata-se explicitamente de uma hipótese analógica, que fornece uma imagem sensível da natureza profunda das coisas. Esta imagem sensível serve de ponto de partida para a imaginação criadora, ao sugerir-lhe a aplicação, até certo ponto, de métodos já comprovados em outros domínios; não formulam diretamente qualquer conjetura relativamente aos fatos, a acontecimentos observáveis. Constituem antes um quadro geral de representação, sem que, notemo-lo bem, o cientista lhe atribua um valor absoluto. Com efeito, Maxwell exprime-se com notável moderação a respeito da outra concepção dos fenômenos: «Eu assumi mais o papel de um advogado do que de um juiz» [ibid, p. 134]. De resto, ele sublinhou em várias oportunidades no seu Tratado o caráter dominador da estrutura matemática de uma teoria física em relação aos avatares do fenômeno e, afortiori, às suas representações.

2) A hipótese da evolução por seleção natural. Elaborada por Darwin entre 1837 e 1859 sob uma forma que pode ser resumida por duas proposições: as espécies não foram criadas de uma só vez e separadamente; o principal (mas não único) agente da transformação foi a «seleção natural», ou seja, o predomínio progressivo dos tipos que apresentam características mais favoráveis para a sobrevivência e o sucesso.

Trata-se neste caso de uma hipótese-conjetura que enuncia fatos e acontecimentos, observáveis directamente ou através dos seus vestígios. Aliás, ela é sugerida por uma coleta de fatos que parecem estabelecer a sua validade. Darwin, originariamente adepto do fixismo, reconhece, no decurso da sua viagem à volta do mundo, o caráter original adquirido pelas espécies que vivem em ilhas há muito tempo privadas de qualquer contato exterior e interpreta a diversidade dos seus traços como adaptações seletivas ao meio. O caso da seleção artificial praticada voluntariamente e com êxito sobre os animais domésticos serve ainda de caução a esta explicação.

Se tentarmos imaginar o mecanismo preciso da evolução, não podemos deixar de nos lançar em hipóteses de um tipo análogo ao do exemplo precedente, pois pretende anunciar um fato e não apenas um método de representação dos fatos.

3) Indicaremos um último exemplo de hipótese, escolhido em virtude do seu caráter muito mais «local» e circunstancial. Pasteur, ao constatar que, dos dois isômeros ópticos da asparagina, somente um tem o gosto açucarado, avança a hipótese que a dissemetria da molécula na disposição dos átomos em torno do carbono, que permite distinguir os dois isômeros, tornaria a molécula de aparagina capaz ou não de adaptar, por assim dizer geometricamente, a um receptor biológico. Em termos mais gerais, Ehrlich (1845-1915) e, mais recentemente, vários bioquímicos contemporâneos formulam a hipótese de que a atividade farmacológica de uma molécula depende de determinados traços morfológicos e eletroquímicos da sua estrutura. Donde deriva a idéia de fabricar por substituição outras moléculas conservando esses traços, eventualmente mais eficazes que a molécula de partida.

Trata-se aqui duma hipótese representativa, dependendo de todo um sistema teórico anterior sobre a natureza dos edifícios moleculares. O seu alcance próprio é, contudo, relativamente restrito, «local», no conjunto da ciência química, e as suas ligações à experimentação são perfeitamente imediatas. Uma hipótese como esta serve, sobretudo, pelo menos à partida, de esquema muito provisório para um conjunto de fenômenos assaz particulares e de guia heurístico ajustável a uma ação tateante.

A partir destes três exemplos, parece claro que imaginação científica cria hipóteses de tipos e de funções muito diferentes. No entanto, esta heterogeneidade - que seria ainda melhor revelada por uma história pormenorizada das ciências - não deve ocultar uma oposição muito nítida entre dois aspectos fundamentalmente distintos, mesmo que apareçam freqüentemente como conjugados e particularmente confundidos na prática científica. Por um lado, o aspecto conjectura de fato, eu conferi à hipótese a aparência de uma antecipação imediata da experiência; por outro lado, o aspecto modelo abstrato, através do qual a hipótese se apresenta como edifício conceitual, modo de representação que se não encontra directamente submetido à experiência.

Ora, à medida que as ciências da Natureza se desenvolvem, o aspecto conjetura fatual torna-se cada vez menos presente, porque cada vez menos significativo no discurso científico. Será necessário concluir que a hipótese tem finalmente a contar a uma ligação com a realidade? A questão da Natureza e limites do arbitrário da hipótese é certamente um dos problemas mais importantes sobre que se debruçou a filosofia contemporânea da ciência.


  1. Hipótese e experiência

A interrogação sobre a relação entre a hipótese e a realidade é, de resto, um dos modos de abordar o problema do sentido da experiência e do sentido do pensamento. Um bom exemplo concreto desta questionação é nos fornecido pelo desenvolvimento da « revolução coperniciana» que marca, para o historiador da ciência, no decurso da segunda metade do século XVI, o início duma renovação da astronomia e da concepção do Cosmo, mas que se apresenta primeiramente aos olhos do epistemólogo como uma verdadeira crise da hipótese.

No mundo antigo, as hipóteses destinadas a explicar os movimentos dos astros foram interpretadas segundo duas tendências alteradas. Uma delas, que triunfa com Aristóteles, encara-as como hipóteses físicas, ou seja, como diretamente representativas de movimentos reais. Aliás, o filósofo julga dever acrescentar às esferas em rotação de Eudóxio e de Calipo, que ele concebe como seres físicos contíguos, outros seres cujas rotações contrárias compensam e anulam os movimentos de arrastamento indesejáveis gerados por esses contactos. Na outra concepção, que atinge o seu apogeu com Ptolomeu, toda a maquinaria dos movimentos circulares é puramente matemática. A composição destas rotações tornou-se, aliás, muito complexa desde que Heráclides e Hiparco tiveram a idéia de descentrar as trajetórias circulares em relação à terra e de as combinar entre si por meio dos epiciclos. Compreendeu-se então a equivalência cinemática de várias representações distintas de um mesmo movimento observado. Para Ptolomeu, a complicação e a irregularidade do fenômeno, daquilo que é visto da Terra e que é real, explica-se por meio do sistema matemático puramente representativo, em que se recorre aos princípios metafísicos de uniformidade e de circularidade dos movimentos. Se, para «salvar os fenômenos», é necessário admitirem-se rotações não uniformes em determinadas trajetórias, introduzir-se-ão no traçado do movimento figuras novas, sem qualquer realidade física, em que, indiretamente, se encontra restabelecida a uniformidade da rotação (teoria do equante). Tal imagem representativa - tal hipótese - é tanto melhor quanto melhor satisfazer as exigências a priori da metafísica dos movimentos naturais, que é em termos gerais ainda a de Aristóteles; ao mesmo tempo, ela permite calcular com maior exatidão a marcha dos movimentos observados.

Copérnico, ao retornar a hipótese de Aristarco, muito embora se continue a apoiar no esquema geométrico muito mais apurado de Ptolomeu, vai redescrever o sistema do mundo, tomando o Sol e não a Terra como ponto de referência imóvel. A hipótese de mobilidade da Terra opõe-se manifestamente à experiência imediata. Tratar-se-à assim de uma hipótese puramente matemática - como sugerirão aqueles que, mais tarde, tentarão salvar Galileu da condenação papal - ou de uma hipótese de facto? Copérnico, que conserva os princípios aristotélicos de circularidade e de uniformidade do movimento, bem como da geometria ptolomaica dos epiciclos, excêntricos e equantes, é, contudo, decididamente realista. Mas faltam-lhe provas empíricas convincentes que possam contrabalançar com sucesso a aparente evidência da imobilidade da Terra. Encontra-se, portanto, como mais tarde Kepler, na difícil situação de manter como hipótese de fato uma proposição que apenas pode justificar através de considerações de ordem conceptual. E será necessário esperar que Kepler, cortando enfim com os princípios de Aristóteles, tenha a idéia das trajetórias elípticas para que a hipótese heliocêntrica produza verdadeiramente uma simplificação decisiva da imagem representativa do universo e permita efetuar a economia do arsenal ptolomaico. A convicção de Kepler não podia fundar-se solidamente em dados empíricos; estes evidenciar-se-ão e serão convenientemente interpretados só no interior do sistema newtoniano da dinâmica (diminuição dos pesos no equador devido à força centrífuga [1679] e desvio do pêndulo de Foucault pela aceleração de Coriolis [1851]) e graças ao aperfeiçoamento da instrumentação (paralaxe das estrelas fixas [1837]). No entanto, a revolução «coperniciana» é tanto mais o triunfo da hipótese realista quanto as hipóteses conceituais se encontram por assim dizer recalcadas, em Kepler, no domínio duma imaginação pitagórica quase mística (por exemplo, a idéia de que as distâncias dos planetas seriam proporcionais aos raios das esferas inscritas e circunscritas aos cinco poliedros regulares sucessivamente encaixados ... Por outro lado, a relação entre a velocidade angular de um planeta no afélio e no periélio é interpretada por Kepler como um intervalo musical, de modo que o sistema do mundo pode ser descrito como «harmonia das esferas»).

Foi sem dúvida Galileu quem resolveu a crise da hipótese ao associar conscientemente a conjectura de fato, por princípio empiricamente verificável - tal como o movimento da Terra-, e as hipóteses conceptuais que são os esquemas matemáticos a que ele pretende reduzir a explicação dos fenômenos. Compreende-se assim eu tenha podido, sem ser platônico, proclamar no Saggiotore, que as leis da Natureza estão escritas em linguagem matemática. A experiência sensível dá-nos de fato uma primeira representação da realidade, mas mediatizada pelas reações do nosso corpo, como o ensina, um pouco mais tarde e independentemente dele, o seu contemporâneo Descartes. Ela constitui seguramente o critério último de verificação das hipóteses de fato que se formulam na sua linguagem; mas não devemos deter-nos no seu conflito aparente com o edifício conceptual das hipóteses que permitem dar dela uma representação mediata racional. É neste sentido que Galileu marca verdadeiramente o início da idéia moderna de uma ciência da Natureza.

A posição de Newton, embora possa parecer ambígua, constitui o seu remate. No célebre penúltimo parágrafo do Schlium gnerale que conclui os Principia [1687], Isaac Newton escreve: «Não consegui até este momento, partindo dos fenômenos, descobrir a causa destas propriedades da gravidade e não imagino hipóteses, pois tudo o que não é deduzido dos fenômenos deve ser chamado hipótese e as hipóteses, quer metafísicas, quer físicas, introduzindo qualidades ocultas ou mecânicas, não têm lugar na filosofia experimental [1713, trad. it. pp.795-96]. No entanto, na sua Optica [1794], admirável monumento de física matemática e experimental, propõe uma explicação dos fenômenos por meio de hipóteses sobre a natureza da luz. O conjunto da sua obra permite, com efeito, dar um sentido mais matizado e fecundo ao anátema lançado pelos Principia: I) todo o conhecimento da Natureza deve partir absolutamente da experiência; só esta permite «estabelecer as propriedades das coisas e procurar depois hipóteses para as explicar» [carta a Oldenburg, 1672]; 2) a ciência apresenta-se em definitivo como um esquema dedutivo a partir de axiomas e de definições donde é possível extrair as leis dos fenômenos. É esse o caso da astronomia dos Principia e da exposição da Optica.

Assim, as hipóteses surgem não como qualidades ocultas da matéria, mas como «leis gerais na Natureza, pelas quais as próprias coisas se formaram, sendo a sua verdade mostrada pelos fenômenos, embora as suas cousas não estejam ainda descobertas» [1794, query 31]. Newton, contudo, não deixa de filosofar sobre estas causas e de as remeter ao poder divino, embora o faça em textos que destaca do corpo da exposição científica, em apêndice aos seus grandes tratados. De fato, longe de rejeitar a hipótese enquanto esta constitui o quadro de um sistema de representação racional dos fenômenos (tal como a atração universal, que, neste sentido, é bem uma hipótese), Newton quer preservá-la simultaneamente de qualquer confusão com a imaginação sensível e do dogmatismo das ontologias.


  1. Hipóteses e convenções

Embora desde então formas de hipóteses tenham efetivamente exercido esse papel a diferentes níveis do edifício científico, grande é para o filósofo a tentação de considerar aquelas que parecem totalmente irredutíveis a conjecturas factuais como puras e simples convenções. Trata-se, evidentemente, de hipóteses fundamentais, denominadas com freqüência «princípios», como em física a hipótese da conservação da energia. Enunciada inicialmente da consideração dos movimentos (energia cinética, energia potencial) essa hipótese é mantida nos casos em que a experiência e a teoria parecem pô-la em xeque graças a uma extensão da definição do termo (energia térmica, energia química, energia do campo electromagnético e, por fim, assimilação da massa a uma energia). Será que essas hipóteses valem, portanto, da massa a uma energia). Será que essas hipóteses valem, portanto, apenas porque regem a gramática da linguagem científica, por serem apenas «definições disfarçadas»?

A tese radical defendida por Edouard Le Roy considera que a ciência não é mais do que a expressão numa determinada linguagem, dum conjunto de regras de ação e que essas regras de ação são, em larga medida, convencionais. São, é certo, convenções que «têm êxito», e compreende-se bem que toda a questão reside na natureza, extensão e razão deste êxito. Poincaré [1904], cuja filosofia é com freqüência qualificada de «convencionalismo», criticou com grande lucidez esta forma extrema de nominalismo e de anti-intelectualismo significa apenas, segundo afirma [La valeur de la science,1905], que a linguagem em que referenciamos e descrevemos os fatos permanece uma criação provisória do pensamento. Quanto à linguagem se revela inadequada para formular de modo suficientemente preciso e coerente novos resultados de experiências, ela é modificada. Mas deve concluir-se daí que toda e qualquer hipótese não é mais do que uma definição nominal? Seria esquecer que, por um lado, se um princípio não é propriamente uma conjectura que possa ser refutada pela experiência, é contudo a experiência que, em última instância, sugere uma análise mais fina dos termos em que aquele é enunciado. E esquecer igualmente, por outro lado, que essas hipóteses são estabelecidas para permitirem a dedução de novas conseqüências e de modo algum para reduzir as proposições da ciência a tautologias.



É assim que, no próprio momento em que Einstein elaborava a sua teoria da relatividade restrita, Poincaré, examinando a incompatibilidade da electrodinâmica maxwellina e da mecânica clássica, encara a eventualidade duma reconstrução desta, e da enunciação duma nova hipótese fundamental, segundo a qual, crescendo a inércia com a velocidade, a velocidade da luz tornar-se-ia um limite intransponível. A linguagem da antiga dinâmica não seria então mais do que uma expressão aproximada, mais simples, dos fenômenos, perfeitamente válida, no entanto, para as velocidades até então encontradas; de modo que «não há razão para se lamentar ter acreditado nos princípios» clássicos. É importante observar-se aqui que os termos deste exemplo - ‘inércia’, ‘velocidade da luz’ - não designam de nenhum modo fatos imediatos de experiência. O princípio ou hipótese fundamental da relatividade restrita, sugerido por Pincaré com tanta perspicácia, não é, portanto propriamente uma conjectura incidindo sobre fatos. Não se reduz, contudo, a uma simples redefinição arbitrária dos termos. Postula uma forma geral de funcionamento da Natureza que Einstein, justamente, vai explicitar: neste caso particular, ele estabelece que a descrição dos fenômenos até então estudados pela mecânica deve inscrever-se no mesmo quadro que o dos fenômenos eletromagnéticos e deve permanecer a mesma para observadores animados de movimentos relativos retilíneos e uniformes.

Na medida em que assenta em tais postulados, toda a ciência é radicalmente hipotética, mas o caráter arbitrário das hipóteses consiste apenas no fato de delinearem os quadros dum conhecimento cujo conteúdo apenas pode ser extraído, ao fim ao cabo, de uma experiência bruta, sob pena de degenerar em fantasmagoria. Nesta perspectiva, a obra do geómetra é simultaneamente exemplar e enganadora. Julgou-se durante muito tempo que ele se limitava a produzir, sob uma forma explícita e pormenorizada, leis duma realidade original, única, e constitutiva de qualquer representação dos fenômenos. A construção das geometrias não euclidianas, ao mostrar a pluralidade dos sistemas de representação divergentes da espacialidade, ensinou-se que as «hipóteses que fundam a geometria» não são enquanto tais verificações de fatos, mas regras de representação de objetos abstratos. Poincaré pretendeu ver nisso variantes duma mesma estrutura que pré-existiria no nosso espírito, a estrutura geral de grupo, entre as quais a forma euclidiana seria escolhida como a mais cômoda para organizar as nossas percepções e a representação dos nossos movimentos. Seja ou não verdadeira esta tese sobre a organização primitiva do nosso comportamento, parece que, de fato, ao nível do conhecimento científico reina essa pluralidade de sistemas de referência. A história das ciências mostra-nos constantemente tal multiplicidade, quer em períodos sucessivos, quer mesmo simultaneamente. As hipóteses conceptuais da ciência são regras que fornecem a armação do sistema da nossa representação dos fenômenos; despendem do modo como recortamos esses fenômenos e definimos os nossos conceitos, num dado estado dos nossos meios de observação e manipulação experimental. Não constituem da experiência, deduzir através das cadeias de raciocínios e das sucessões de procedimentos. A orientação positiva do progresso da ciência significa que a revisão das hipóteses se verifica sempre, em última análise, no sentido duma sistematização mais completa e duma eficácia crescente da dedução. Comparando por exemplo as hipóteses atomistas dos Antigos, de Descartes, de Rutherford, de Bohr, o que ressalta é o desenvolvimento duma imaginação criadora cada vez mais rica e sutil, bem como o poder de reconhecer e produzir efeitos novos. Mas a hipótese também se estabelece sobre um terreno cada vez mais afastado da experiência imediata e torna-se cada vez menos interpretável numa linguagem destinada a descrever o mundo sensível. Kuhn [1962] insistiu recentemente numa concepção da história da ciência que manifestaria uma sucessão descontínua de sistemas de constrições encerrando a ciência, numa época e sociedade determinada, num quadro rígido. A forma dos problemas levantados, das soluções esperadas, das operações efetuadas, seria ditada pela necessidade de se conformar com esses «paradigmas» oficinas. No interior deste quadro, a formulação das hipóteses seria assim orientada por um mesmo estado para uma fecunda renovação. Não é possível negar-se este aspecto estabilizador do desenvolvimento da ciência: o progresso é condicionado em primeiro lugar pela manutenção provisória das grandes formas de equilíbrio, determinadas justamente por hipóteses conceituais suficientemente largas e ricas de conseqüências. Pode falar-se genericamente de uma ptolomaica, de uma física newtoniana, de uma economia paresctiana. Mas não é possível concordar-se com Kuhn, quando afirma que esses paradigmas constituem sistemas incomunicáveis e que o conteúdo da ciência newtoniana, por exemplo, seria intraduzível nos conceitos einsteinianos. Um sistema de hipótese nasce, pelo contrário, dum sistema anterior e só o destrói porque, de certo modo, revela o seu sentido e o situa numa perspectiva que o permite dominar.


  1. A verificação das hipóteses

Compreende-se claramente que não é possível qualificar a hipótese científica em geral como verdadeira ou falsa. Uma conjectura referente a um fato diretamente acessível à nossa percepção depende sem dúvida, de modo convincente, dum tal juízo: por detrás desta folhagem, no ramo que oscila, está um pássaro; basta lá ir ver. Mas, se afirmar que a terra se move, o sentido empírico da minha conjectura é já mais complexo de estabelecer. Contradiz a observação imediata: não se manifesta nenhuma das sensações que acompanham usualmente uma rotação. Mas no quadro duma representação mais larga posso conceber e organizar experiências com resultados imediatamente sensíveis que irão ou não concordar com os fenômenos característicos desse movimento, por exemplo, a rotação lenta do pêndulo de Foucault.

Quanto a uma hipótese como a de Avogrado – um mesmo volume dum gás qualquer contém o mesmo número de moléculas nas mesmas condições de temperatura e de pressão -,a sua validade parece à primeira vista depender duma operação empírica elementar: uma contagem de objetivos ou, pelo menos, a manifestação evidente da igualdade dos dois números. Sabe-se como, na realidade, um tal procedimento é neste caso desprovido de sentido e que a validade da hipótese não depende de uma observação, mesmo indireta, do fato que parece afirmar; depende da experiência apenas mediante conseqüências muito elaboradas no interior dum sistema conceptual complexo. Poderia defender-se que na ciência se apresentam todos os graus intermediários entre estes três exemplos e que mesmo a hipótese factual aparentemente mais acessível à experiência imediata faz já apelo a convenções conceituais desde que se queira determinar com previsão o conteúdo pertinentes desta experiência. O que, em rigor, é indesmentível. No entanto, estas diferenças de grau originam diferenças epistemológicas funcionais e não se pode deixar de verificar que existem, nas ciências, hipóteses locais e pontuais que exercem o papel de um reenvio direto a fatos e se encontram submetidas à eventualidade de uma rejeição pura e simples, e hipótese-quadro, para as quais se deve reservar por excelência o nome de conceptuais, suscetíveis de elaborações, de reinterpretações, de integração em sistemas que as renovam.

A verificação das hipóteses de tipo factual, embora reconduzindo-se de direito a constatações, levanta contudo o problema clássico da indução. Com efeito, um enunciado científico refere-se sempre a um fato genérico, despojado das singularidades que, numa experiência real, fazem dele um acontecimento individual. Verificar estritamente uma conjectura exigiria assim que se recenseassem todos os casos individuais de realização desse fato. O movimento indutivo decide que a observação dum número finito de casos é suficiente para fundar a hipótese. Uma atitude mais radical e mais formal consiste em não reconhecer como plenamente válida senão a argumentação inversa: para a refutação duma hipótese basta estabelecer um único contra-exemplo; mas a sua verificação através de casos favoráveis nunca é senão plausível. Popper [1959] extraiu desta observação um critério de admissibilidade: para eu um enunciado seja admissível como cientifico, é necessário que se possa conceber uma experiência suscetível de fornecer um seu contra-exemplo, ele deve ser acessível à refutação. O que se aplica seguramente e sem restrições às hipóteses factuais; no que se refere às hipóteses conceituais, voltaremos à questão para introduzir algumas restrições a esta tese.

Se a hipótese factual genérica não pode ser, em rigor, estabelecida pela experiência, esta não deixa de poder fundar a sua plausibilidade. As teorias da indução, partidas de considerações lógicas com Stuart Mill, desenvolveram-se posteriormente sob a forma de construções lógico-matemáticas utilizando o cálculo das probabilidades e a teoria dos jogos. Baseiam-se na idéia duma estratégia das opções entre várias hipóteses, fundada na atribuição de «valores» e de «custos» aos sucessos e aos erros, e sobre a definição de regras de decisão que maximizam um critério ligado aos resultados aleatórios da conjectura. O recurso a testes estatísticos é, evidentemente, essencial para a estimulação do valor dos parâmetros e das constantes em todos os domínios. Mas a sua extensão parece ser tanta mais lata - se não tanto mais segura - quanto se trate de partes da ciência ainda mal desenvolvidas, em particular nas ciências do homem. Um processo de validação deste tipo assume mais o aspecto de procedimento heurístico, pois as hipóteses, mesmo factuais, da ciência são sempre virtualmente o ponto de partida duma elaboração que as relaciona com estruturas fortemente conceitualizadas, cujo tipo de validade, embora menos imediato, é o único capaz de satisfazer completamente um ideal racional. A hipótese - factual, no entanto - do duplo movimento na hipótese conceitual de uma teoria da gravitação.

O que nos remete para o problema da validação deste último tipo de hipóteses. A maior parte das vezes apresenta-se sob a forma complexa de «teorias» e não podem ser formuladas como enunciados isolados. E, caso o fossem, tratar-se-ia duma simplificação só aparente, pois o aparelho conceptual sem o qual esta formulação não teria sentido permaneceria subentendido. É o que acontece, por exemplo, com o seguinte enunciado: «a entropia dum sistema isolado não pode decrescer.» O que se pede a tais hipóteses não é tanto serem directamente confirmadas por resultados experimentais, mas permitirem deduções longínquas, explicando de modo coerente fenômenos novos. Einstein, a partir das hipóteses da relatividade geral, verifica a anomalia (na hipótese newtoniana) do movimento do periélio de Mercúrio. Não é, pois possível dizer que essas hipóteses são verificadas pela experiência enquanto proposições isoladas. Duhem [1906] já o tinha assinalado quando notava que é o «sistema em que se integram» que é submetido em bloco ao controle experimental. Quine [1960] irá mais longe, ao sustentar que os próprios sistemas teóricos se encontram largamente subdeterminados em relação a qualquer observação possível, e que vários conjuntos de hipóteses logicamente incompatíveis poderiam, contudo ser empiricamente equivalentes. Mas nos exemplos em que se poderia pensar - como as duas teorias da emissão e da ondulação para o fenômeno luminoso e a sua «síntese» em mecânica quântica - só seria possível falar de incompatibilidade lógica se se afirmasse que um objeto é simultaneamente uma onda e um corpúsculo; ora trata-se de dois meios de representação constituindo universos conceituais diferentes, e não de propriedades perceptíveis de objetos; não são, por exemplo, mais incompatíveis logicamente do que a teoria métrica apoloniana das cônicas e a teoria projetiva. Por outro lado, não é totalmente exato que os dois sistemas sejam empiricamente equivalentes: os seus poderes explicativos são complementares e só em parte se recobrem. A história das ciências mostra-nos que, quando se retém uma das hipóteses concorrentes, ela se revela sempre mais poderosa, quer pela amplitude dos resultados que permite abarcar, quer pela interpretação que sugere dos aspectos positivos e negativos das hipóteses que elimina.

Mas, em contrapartida, é sempre verdade, como Popper assinalou com vigor, que o sucesso de uma hipótese só tem valor se for formulável em termos tais que a experiência a possa refutar. Sem o que a informação que fornece seria nula, vista que compatível com qualquer dada pela Natureza às questões que seria possível por-lhe. No entanto, a experiência não pode levar-nos a rejeitar uma hipótese conceptual tão claramente como uma conjectura de fato. Neste último caso, é possível dizer-se que a experiência responde sim ou não ou, pelo menos, caso se trate dum dado estatístico, que nos fornece o meio de escolher calculando os riscos de erro. Tal não e verifica no caso da hipótese conceitual, que pode sempre ser «imunizada», segundo a expressão de Popper [1959]. É uma questão de imaginação e de engenho. A história dos sistemas geocêntricos é disso um excelente exemplo: são salvos através da invenção dos excêntricos e dos epiciclos para corrigirem os desvios entre os movimentos observados e os movimentos representados. Do mesmo modo, em concorrência com a relatividade restrita, há físicos que imaginam hipóteses sobre o comportamento do éter que permitem explicar a constância da velocidade da luz e imunizam aparentemente a hipótese clássica do éter contra o resultado negativo da experiência de Michelson e de Morley. É certo que se trata de exemplos negativos, pois que, em ambos os casos, uma nova hipótese virá a ser decididamente adaptada. Mas pode-se citar casos positivos, dos quais o mais conhecido será talvez a descoberta de Neptuno. As hipóteses newtonianas da mecânica celeste não conseguem aparentemente calcular a órbita observada de Urano; poderia concluir-se que por isso se encontravam refutadas. Mas Le Verrier tenta mantê-las, graças a uma conjectura de fato: a presença dum objeto perturbador desconhecido, cuja órbita pode justamente ser calculada pelas hipóteses newtonianas. Hipótese de fato introduzida como complemento do domínio experimental em que surgiu a hipótese conceitual e que releva naturalmente de uma verificação empírica e decisiva: Le Verrier designa o local do céu e o momento em que o telescópio de Gall devia descobrir o planeta Neptuno.


  1. A hipótese nos confins da ciência

Na maior parte dos domínios em que recolhemos os nossos exemplos, o caráter duvidoso da hipótese encontra-se relegado para segundo plano; ele é suplantado pela sua virtude de construção e predição. Contudo, a hipótese, no seu fundo, permanece sempre um produto duma imaginação audaciosa, que aceita empenhar-se sem a segurança de um apoio. A situação, a este respeito, das ciências do homem poderia recordar-nos esse fato, bem como a situação, particularmente instrutiva, da cosmologia moderna, essa disciplina nos confins da astrofísica e da física matemática.

Nas ciências do homem, tal como atualmente se tenta constituí-las, a hipótese conserva ainda com freqüência características arcaicas semelhantes às que possuía nas ciências da Natureza antes da revolução epistemológica do século XVII.

1) São, por exemplo, simples constatações do senso comum, certamente válidas no seu nível, mas impossíveis de utilizar desde que se procure conferir uma forma e um conteúdo suficientemente precisos às noções para que os seus termos remetem. Tais aforismos podem de fato servir de guias para uma prática concreta e individualizada, mas então essa prática é uma arte, em que os preceitos não exercem mais do que a função de um enquadramento assaz impreciso. No conhecimento científico - que, uma vez constituído, pode obviamente multiplicar os nossos poderes de acção nas situações concretas particulares -, o sistema das noções só tem eficácia se estas tendem a desenhar-se em conceitos com contornos distintos e encadeados uns aos outros. Ora, correspondendo a formulação de hipóteses à descrição que anteriormente avançamos, choca neste domínio dos fatos humanos com a dificultada de constituir conceitos suscetíveis, ao mesmo tempo, de entrarem numa combinatória abstrata e de se articularem imediata ou mediatamente, por meio de procedimentos normalizados, com a experiência.

2) As hipóteses, nas ciências do homem, são também, com grande freqüência, teses filosóficas disfarçadas em maior ou menor grau, de constatações factuais. Isto significa que elas são interpretações do vivido, que lhe conferem um sentido, e cujas conseqüências são apresentadas como um conhecimento objetivo dos fatos, quando constituem antes uma ética ou uma estratégia para modificar ou dominar a nossa condição humana. O entrave que assim se cria à marcha da ciência provém o fato de tais hipóteses se encontrarem pela sua natureza subtraídas a qualquer verificação. Não só são formuladas em termos que se relacionam com idéias e não com objetos de experiência como também nessa qualidade se acham a priori «imunizadas» contra qualquer insucesso: o malogro das conseqüências que delas se extraem poderá sempre ser atribuído mais a circunstâncias desfavoráveis do que a de um defeito dos princípios. A incomparável atracção de um «conhecimento» global do homem instituído a partir deste modelo é hoje um dos principais obstáculos ao pensamento científico - e justamente na medida em que o prestígio que o desenvolvimento das ciências da Natureza confere ao pensamento científico leva a que se pretenda de qualquer modo fazer passar por ciência do homem filosofia da condição humana.

3) Por fim, quando se tenta escapar às duas tentações que acabamos de denunciar e se procura verdadeiramente formular hipóteses de tipo científico, a sua abstração e a sua aridez contrastam a um tal ponto com a complexidade da experiência que elas não podem senão ser decepcionantes. O exemplo mais acabado e conseqüente de um tal empreendimento poderia ser o da economia política, tal como foi concebida no fim do século XIX pelos marginalistas e desenvolvida pelos neoclássicos. O estatuto da hipótese é aí comparável ao dos princípios da mecânica e da física, que se prestam à aplicação das matemáticas. Mas enquanto o edifício abstrato das ciências da Natureza mantém relações constantes e operatórias com a experiência, os sistemas elaborados neste estilo pelo economista permanecem-lhe, sem esperança, estrangeiros. Poderia concluir-se pela impossibilidade de constituir ciências do homem; mas as transformações das próprias ciências da Natureza no decurso de sua pré-história autorizam antes a pensar que não foi ainda descoberto, nas ciências do homem, o modo adequado de formação das hipóteses.

O outro exemplo de um estilo não convencional e contestado de hipóteses científicas seria fornecido pela cosmologia e pela cosmogonia contemporâneas. As especulações sobre a natureza global, a evolução e a própria origem do universo tornaram-se, com efeito, matéria de ciência, devido a dois acontecimentos epistemológicos decisivos: o desenvolvimento duma teoria do campo de gravitação na relatividade geral (Einstein) e a interpretação de Hubble e Humason do fenômeno do red shift (deslocação no sentido do vermelho da luz proveniente das galáxias longínquas) como uma «expansão do universo» [1929]. A partir de então sucedem-se «modelos» de universo, desde si mesmo e de curvatura constante, até aos modelos cosmogônicos de Lemaitre [1931], de Gamow[1949], de Hoyle [1948]m que descrevem a formação do universo a partir de uma origem dos tempos. Para mostrar a extraordinária audácia deste estilo de hipóteses, limitar-nos-emos a indicar a articulação de algumas delas.

1) Partindo da teoria da relatividade geral, que constitui ela própria um cerrado tecido de hipóteses conceptuais, de deduções, de cálculos e de confirmações empíricas, resulta que: a) Qualquer lei física deve poder exprimir-se sob a mesma forma em qualquer sistema de coordenadas. Dado que os objetos matemáticos chamados tensores são tais que, se as coordenadas que os descrevem num sistema se anulam nesse sistema, elas anulam-se em todos, uma lei física, pode exprimir-se cômoda e naturalmente escrevendo-se que um certo tensor é nulo. b) A estrutura geométrica do espaço-tempo, que define as constrições a que se encontram submetidas as alterações de coordenadas realizáveis, depende unicamente da distribuição da energia sob todas as suas formas no universo. Estas constrições, modificando a representação das trajetórias inerciais das massas livres, equivalem à postulação dum campo variável de gravitação universal.

2) A «equação do campo», que liga a estrutura geométrica do espaço-tempo à distribuição de energia, é estabelecida ao dizer-se que um tensor que caracteriza essa distribuição é idêntico a um tensor que caracteriza a geometria do universo. A escolha da forma deste último tensor é determinada por uma analogia com a equaçào newtoniana do campo de gravitação e mediante considerações matemáticas puramente formais com , afirma Einsteins [1916], «um mínimo de arbitrário».

3) Para que se passe à construção de hipóteses precisas sobre a estrutura espaço-temporal do universo, é necessário introduzir na equação simplificada importantes, algumas das quais são sugeridas pela observação astronômica (distribuição aparentemente homogênea das galáxias) e outras são hipóteses «físicas» coerentes com a forma matemática do sistema (identificação do conteúdo material do universo a um «fluido perfeito» de matéria e de radiação). As equações assim obtidas (Robertson, Friedman) permitem então dar conta do red shift e possibilitam ainda a escolha, consoante o valor dos parâmetros, entre duas hipóteses diversas sobre a forma, o devir e a idade do universo.

4) A partir do que conhecemos sobre a física nuclear e sobre as condições termodinâmicas deduzidas dos modelos, imaginam-se cenários mais ou menos precisos de interações, criações de átomos, emissões de radiações. Os fenômenos observáveis susceptíveis de serem interpretados como pontos de ligação empíricos dessas formas cosmogonias são constituídos, sobretudo pelas radiorigens longínquas e pela radiação de fundo descoberta em 1965 e identificada ao resíduo da radiação emitida pelo núcleo original do universo no início da sua história.

Sem dúvida que a hipótese científica continua, neste caso, sujeita ao controlo do pensamento dedutivo. Ela encontra-se preparada para se submeter às imposições extremamente exigentes da observação e da experiência, que se acham, aliás, bem longe de poderem fornecer uma base de confirmação ou de informação imediata. Mas a liberdade excepcional aqui deixada à imaginação e à audácia intelectual deve fazer-nos compreender a que ponto a formação e o desenvolvimento das hipóteses, mesmo nos domínios mais tranqüilos e mais terra-a-terra da ciência, permanece no seu princípio uma obra criadora e sempre aventurosa da razão. [G.G.G.]
Duhem, P


  1. La therie phisyque, son objet et as structure,Chevalier et Riviere, Paris (trad. it. I) Mulino, Bologna 1978.

Einstein, A.



  1. Die Grundlage der allgmeire Relativitatstheorie, in «Annalen der Physik», (4), 49, pp.769-822 (trad. it. in M. Pantaleo (org), Cinquant’anni di relatività, Editrice Universitaria, Firenze 1955)

Kuhn, Th. S.

  1. Thu Structure of Scientific Revolutinos, University of Chicago Press, Chicago (trad. it. Einaudi, Torino 19763)

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  1. Treatise on Eletricity and Maguetism, Clarendon Press, Oxford (trad. it. Utet, Torino 1973).

Newton, I.



  1. Optickes: or, a Treatise of the Reflexions, Refractions and Colours of Light, Smith and Walford, London.

  2. Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, Crownfield,Cambridge 17132 (trad. it. Utet, Torino 1965).

Poincaré, H.



  1. La valeur de la science, Flammarion, Paris.

Popper, K.R.



  1. The Logic of Scientific Discovery, Hutchinson, London (trad. it. Einaudi, Torino 19763).

Quine, W. van Ornam



  1. Word and Object, Mit Press, Cambridge Mass (trad. it. II Saggiatore, Milano 1970)

As hipóteses consistem tanto em conjecturas sobre fatos como, em nome da sua coerência e eficácia explicativa (cf. explicação), na proposição de um conceito; neste último caso, a hipótese apresenta-se como um modelo abstrato (cf. abstrato/concreto). Tal conjectura pode ser provada, mas, nas matemáticas, pode dar-se que se converta num novo axioma (cf. axioma/postulado).

As modalidades de representação do real diferem segundo os tipos de hipóteses. Estas podem ser analógicas (cf. analogia e metáfora), fornecendo uma imagem sensível (cf. sentidos), na origem da imaginação, da criatividade; podem também anunciar fatos, ou podem ser formuladas a partir de uma teoria (cf. teoria/prática) estabelecida (cf. antecipação, acaso/probabilidade).

Entre os problemas postos pelas hipóteses, devemos considerar a sua relação com a empiria/experiência de que se afastam em diferentes graus, e além disso a medida da sua convencionalidade (cf. convenção, paradigma) e a sua verificação/refutação (cf. também indução/dedução, lei). No sistema da ciência, a hipótese é o domínio em que a invenção intervém ao mais alto grau e em que se verifica o mínimo de redução, como se verifica em numerosos exemplos das cosmologias contemporâneas (cf. universo).








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