Eixo 5: Pesquisa em Pós-Graduação em Educação, Linguagem e Mídias a criançA, o desenho e a arte: o início da construçÃo do conhecimento



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Eixo 5: Pesquisa em Pós-Graduação em Educação, Linguagem e Mídias

A CRIANÇA, O DESENHO E A ARTE:

O INÍCIO DA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO

Maria Efigênia de Souza-Lima. Dr Júlio Flávio de Figueiredo Fernandes

Faculdade de Educação (FAE). Mestrado em Educação. Universidade Federal de Minas Gerais (UEMG). Rua Paraíba, nº 29. Bairro Funcionários, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

RESUMO

Esta pesquisa tem por objeto a comparação do desenho no campo da representação gráfica infantil com o desenho no campo da Arte, considerando ambos como uma forma intelectual da expressão em imagem. Serão consideradas, no desenho infantil, a apropriação dos elementos plásticos visuais e a qualidade da representação figurativa, para verificar se há nesses desenhos um modo de elaboração do seu pensamento que seja indicativo da construção do conhecimento. Nesse aspecto, pretende-se averiguar em que os desenhos das crianças se aproximam e se distanciam da arte para ser uma forma de expressão de reconhecimento do mundo. Buscar-se-á compreender, também, quais aspectos influenciam a escola a considerar os desenhos infantis como arte e as relações disso com o simultâneo desprezo pelo seu uso pedagógico. Serão analisados os desenhos de crianças das escolas públicas e particulares, na faixa etária entre três a dez anos e os discursos orais que os acompanham.



Palavras Chaves: Desenho infantil. Arte e Educação. Desenho.

Eixo 5: Pesquisa em Pós-Graduação em Educação, Linguagem e Mídias

A CRIANÇA, O DESENHO E A ARTE: O INÍCIO DA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO

Maria Efigênia de Souza-Lima. Dr Júlio Flávio Figueiredo Fernandes

Faculdade de Educação (FAE). Mestrado em Educação. Universidade Federal de Minas Gerais (UEMG). Rua Paraíba, nº 29. Bairro Funcionários, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.

INTRODUÇÃO

O objeto desta pesquisa é o desenho infantil interpretado como um registro imagético intelectual do ser humano e, nesse sentido, aproximado ao campo da Arte. Na contextualização do desenho no universo da arte, será necessário defini-lo e conceituá-lo como objeto de arte e trazer a esta pesquisa o que o caracteriza como tal. Desse modo, o desenho será, inicialmente, abordado a partir da sua relevância na História da Arte, seus envolvimentos com os aspectos sociais, políticos e estéticos. Nesse percurso, tanto o modo de representação inerente à obra de arte, como o olhar do observador (leitor), serão considerados para compreender como os indivíduos ─ tanto o artista como o observador ─ estabelecem os diálogos com a obra de arte e os objetos do mundo real. Isso, nesta investigação, importa para compreender os níveis de entendimento do que seja arte, a distinção entre arte e desenho infantil e as finalidades de cada um desses modos de expressão, para a pessoa e para o mundo.

Do ponto de vista do desenho infantil, a investigação voltar-se-á para elucidar a origem dessa primeira forma de expressão plástica da criança ─ trazendo para a discussão sua importância processual como parte reveladora da formação do sujeito. Com relação a isso, procurar-se-á analisá-lo como uma experiência de aprendizagem de alguém que lê o mundo, e o registra intuitivamente, com imagens, num constante diálogo com o objeto de sua leitura.

Na sequência, serão trazidos ao discurso, os tipos de individuação que determinam a singularidade subjacente tanto na obra do artista plástico como no desenho da criança. Isso equivale a dizer que, das discussões podem emergir a compreensão sobre o que há de próprio no artista, cuja análise de sua obra, traz aspectos sobre o estilo e concepções plásticas, inusitadas do universo, e que transformam o seu fazer em arte. No desenho da criança, por outro lado, buscar-se-ão aspectos que mostrem sua identidade e sua história. Deste ponto em diante, espera-se que as leituras do desenho da criança permitam estabelecer quais são as relações dela ─ enquanto sujeito ─ com seu desenho e de ambos com o mundo.

Todas as civilizações deixaram suas marcas no mundo através da arte. A arte faz parte da cultura produzida pelos povos nos vários estágios de construção das civilizações. Pelo fato de ser recorrente em todos os tempos e lugares, a arte nas sociedades, participa da sua identidade visual e espiritual, e com isso, tem a intenção de valorizar o melhor da humanidade e, nessa valorização, a arte gera um movimento em direção a ser percebida como preciosidade. A visibilidade da arte convida à fruição estética da obra, sendo esse o aspecto que se conecta à sensibilidade. Para Rancière (2005), o mundo sensível pertence às manifestações artísticas.

O desenho, dentro das artes plásticas pode ser entendido como uma compreensão da forma ou como uma revelação dos modos de ver a forma, sendo isso verdade também para o desenho infantil. Em ambos os casos a linha, a luz, a cor, o volume e a superfície, são os elementos plásticos a revelar a forma. Esses elementos, segundo Ostrower (2004), se encontram em todas as obras de arte plástica, mas não necessariamente todos eles reunidos simultaneamente num mesmo objeto. Vale lembrar, igualmente, que todo o sistema de comunicação visual utiliza esses mesmos elementos na construção da imagem. Compreender o papel do desenho, no universo histórico da arte, e depois transpor o que se absorveu dessa compreensão para o desenho infantil, exigirá esclarecer a função dos elementos que predominam nas duas manifestações. Nesse caso, buscar-se-á principalmente entender a linha, isto é, o efeito visual que ela assume, realçado pelos recursos compositivos da construção total da obra. Assim, o estudo privilegia a linha no desenho como base da compreensão e da construção expressiva. A trajetória, então, deve começar do início das civilizações. Da pré-história às gravuras japonesas e dessas ao art nouveau, o elo é a linha trabalhada ao máximo de sua expressão. Nesse sentido, os materiais e instrumentos utilizados pelo desenhista restringem a liberdade de escolha da forma de expressão (GOMBRICH, 1986; ILLING, 1976), e do uso do elemento linha. Desse modo, a linha parece ser o recurso mais relevante no conformar a imagem aos motivos das gravuras japonesas e aos desenhos do período art nouveau. Imprimir sentido à imagem através da linha tornou-se a meta primeira da Arte Nova. Segundo Henry van de Velde (apud SEMBACH, 1993), “A linha é a força”, sendo a partir dela que se pode compreender a intenção do artista e o sentido da obra.

No caso do desenho infantil, a pesquisa partirá da descoberta da linha pela criança como um acontecimento acidental que surge com o movimento das mãos de posse de um objeto riscante. Arnheim (1995) argumenta que nessa fase a criança rabisca pelo prazer decorrente do próprio movimento e dos resultados gráficos que acompanham os gestos. Nesse momento, não há ainda a intenção de formar um desenho. A forma como desenho, segundo Luquet (1969, p. 57), só aparece durante as fases de “intenção”, “interpretação”, “tipo”, “modelo interno” e “cor”. Isso significa que o desenho se constrói à medida que a criança supera os desafios existentes entre o que ela vê e o que ela compreende do que vê. Em todas essas etapas, a linha é o elemento mais relevante e é por meio dela que criança irá enfatizar os aspectos do objeto que mais lhe chamaram a atenção, isto é, numa perspectiva de interesse, numa constante interlocução entre o objeto, o que ela dele compreende e que parte desse desenho a impressiona.

O desenho da criança é, pois uma manifestação plástica que desponta junto com o crescimento, e, então, pode-se dizer que a linha é a verdade da forma. Ela é o recurso que transpõe o que é visível no objeto para o espaço bidimensional, numa forma que o representa. Uma ação solitária, aparentemente “fácil” ─ provavelmente partilhada com o que Vigotski (2001) chama de linguagem interior, ─ que expõe as relações da criança com o objeto e o modo de percebê-lo. Desenhar tem a ver com a concepção do que se vê, nesse caso, a criança pode estar buscando na forma gráfica a compreensão de objetos, de pessoas e do meio circundante.

Nem sempre o desenho da criança derivará da observação direta de um determinado objeto, pois, às vezes ele será fruto da sua imaginação. Imaginação, aqui usado no sentido de uma ideação do objeto ausente (Sartre, apud Iser, 1996), ato que permite à criança trazer a imagem para a superfície do papel pela consciência que ela tem do objeto bem como pela capacidade que ela adquire de formar imagens que ultrapassam a realidade (BACHELARD, 1986).

Enfim, entre a arte e o desenho infantil, as discussões serão alicerçadas pelos elementos que os constituem. Nas implicações envolvendo o dialogismo entre o pensamento e as imagens construídas pela criança, buscar-se-á um paralelo no estudo da formação do pensamento e da linguagem, cujos suportes se encontram na teoria de Vigotski (2001). Assim, os sentidos e os significados envoltos no objeto, na imagem e na palavra usada pela criança, no processo de construção do desenho infantil poderão ser clareados a partir desse estudo paralelo.

Assim, para a evolução desta pesquisa, levantam-se questões acerca do desenho infantil na escola, considerando as possibilidades de elaboração do pensamento e construção do conhecimento. Isso manterá o foco da pesquisa nas seguintes questões: o que representa o desenho no campo intelectual da criança? É possível ter na qualidade da representação figurativa elementos que indiquem de construção e elaboração do seu pensamento? Durante a representação gráfica, a criança constrói algum conhecimento? Considerando que uma série de desenhos infantis pode revelar a história da criança, seria possível e pertinente considerá-los parte da sua identidade?

Os principais objetivos desta pesquisa são, pois, analisar o desenho infantil, no contexto do crescimento da criança, como um registro imagético intelectual do ser humano, e nesse sentido, aproximá-lo ou distanciá-lo do desenho no campo da Arte, considerando que a criança usa elementos plásticos visuais que são, no desenho como arte, expressão da intelectualidade do artista.



METODOLOGIA

Considera-se que pesquisa qualitativa será o processo mais relevante para avaliar as relações existentes entre o objeto de estudo e os sujeitos nele envolvidos, bem como a verificação do elo entre o mundo objetivo e a individualidade desses sujeitos. Esses aspectos são impossíveis de serem traduzidos apenas em números. A interpretação e a atribuição de significados aos desenhos das crianças serão fundamentais, neste processo, e justificarão o uso da pesquisa qualitativa. Em decorrência disso, o instrumento de pesquisa será a entrevista narrativa que, segundo Flick (2004), compõe-se de perguntas semi-estruturadas, centradas no problema de pesquisa, cujo interesse do pesquisador encontra-se no ponto de vista subjetivo e na opinião do entrevistado, partindo-se de uma “questão gerativa narrativa” (Ibid. 2004, p. 110). Será associada a este instrumento técnicas de observação para sondar como se processa a construção do desenho pelas crianças pequenas e daquelas até dez anos. Serão selecionadas três crianças: uma de três anos, uma de seis e uma dez anos. Nessa seleção amostral, duas crianças virão de uma escola pública e uma de escola particular da região metropolitana, na educação infantil e no ensino fundamental respectivamente.



RESULTADOS ESPERADOS

Espera-se, com esta pesquisa, esclarecer: 1º ─ quais aspectos do desenho contribuem para o desenvolvimento intelectual da criança; 2º ─ em que medida o desenho da criança revela níveis de elaboração do pensamento e de construção do conhecimento; e, finalmente se o desenho revela alguma forma de identidade dessas crianças.



REFERÊNCIAS

ARNHEIM, Rudolf. Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora. Trad. Ivone Terezinha de Faria. São Paulo: Edusp/Pioneira, 1995.

BACHELARD, Gaston. O direito de sonhar. Trad. José Américo Motta Pessanha, Jacqueline Rass et al. São Paulo: Difel, 1986.

FLICK, Owe. Uma introdução à pesquisa qualitativa. 2ª Ed. Trad. Sandra Netz. Porto Alegre: Bookman, 2004.

GOMBRICH, Ernst. Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictórica. São Paulo: Martins Fontes, 1986.

ILLING, Richard. Obras primas da estampa japonesa. Lisboa/São Paulo: Editora Verbo, 1978.

ISER, Wolfgang. O fictício e o imaginário: perspectivas de uma antropologia literária. Trad. Johannes Kretschmer. Rio de Janeiro: Ed UERJ, 1996.

LIMA, Luiz Costa. Mímesis: desafio ao pensamento. RJ: Ed. Civilização Brasileira. 2000.

LOMMEL, Andreas. O mundo da arte: a arte pré-histórica e primitiva. Trad. Álvaro Cabral, Áurea Weissenberg, Donaldson Garschagen. RJ: Ed. Expressão e Cultura, 1978.

LUQUET, Georges- Henri. O desenho infantil. Trad. Maria Tereza Gonçalves de Azevedo. Porto: Ed. Minho, 1969.

OSTROWER, Faiga. Universos da Arte. 3º ed., RJ: Editora Campus, 2004.

SEMBACH, Klaus-Jürgen. Arte Nova: a utopia da reconciliação. Trad. Luís Milheiro (Lisboa) Germany: Benedikt Taschen, 1993.

RONCIÈRE, A partilha do sensível: estética e política. Trad. Mônica Costa Neto. São Paulo: EXO Experimental org./Editora 34, 2005.

VIGOTSKI, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. Paulo Bezerra. São Paulo: Ed. Martins Fontes. 2001.



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Doutor em Filosofia


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