Eixo temático patrimônio Educativo e Cultura Material Escolar corpos escolares, leitura de imagens: o uniforme escolar na escola técnica federal de santa catarina – 1964 a 1985i



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EIXO TEMÁTICO

Patrimônio Educativo e Cultura Material Escolar
CORPOS ESCOLARES, LEITURA DE IMAGENS: O UNIFORME ESCOLAR NA ESCOLA TÉCNICA FEDERAL DE SANTA CATARINA – 1964 A 1985i
Ivanir Ribeiro – UDESC

ivanir@ifsc.edu.br

Luani de Liz Souza – UDESC



luani@uniplac.net
Palavras-chave: cultura material escolar; fotografias, uniformes escolares, disciplina do corpo.
O presente trabalho caracteriza-se como um dos desdobramentos de estudo em curso acerca dos uniformes escolares que foram usados pelos alunos da Escola Técnica Federal de Santa Catarina, no período entre 1964 a 1985. Busca-se, pela exploração das potencialidades da fotografia – neste estudo tomada como fonte – uma aproximação da história e da memória da referida instituição, apontando sentidos simbólicos que recaem sobre o uniforme escolar. Conforme um conjunto de trabalhos tem indicado, o uniforme se constitui em artefato que disciplina, normatiza condutas e corpos e concorre para homogeneizar o espaço escolar. Como fontes para a presente reflexão, serão então utilizadas imagens fotográficas recolhidas no acervo da instituição, em formato digital e impresso, e outras conservadas em arquivos pessoais de ex-professores. Nas fotografias estão representadas imagens do corpo docente e discente em diferentes situações: na realização de trabalhos práticos nas diversas oficinas, em salas de aula, em atividades esportivas e em comemorações de datas nacionais. Além da leitura do conteúdo das imagens procura-se aqui estabelecer um diálogo do documento fotográfico com outras fontes historiográficas disponíveis. Tomamos como um dos pontos de referência para a análise iconográfica os estudos de Panofsky, que salienta o perceptível, o visível, mas que adentra nas construções simbólicas que aproximam o olhar para as relações invisível traçadas diante do disciplinamento corporal, das normatizações e dos conflitos entre a tentativa de homogeneização do espaço escolar e as relações cotidianas das instituições escolares e dos sujeitos. Cotejadas com referenciais da sociologia da imagem nas premissas de José de Souza Martins, as cenas capturadas pela câmera parecem identificar certa homogeneidade de uniformização dos alunos nos registros referentes aos desfiles cívicos, diferentemente dos aspectos percebidos nas fotos em que os alunos encontram-se em salas de aula ou em atividades práticas nas oficinas, onde aparecerem, muitas vezes, sem uniformes. Essa característica pode indicar o que um conjunto de pesquisas já existentes, considera tal qual uma intencionalidade do registro fotográfico e de seu duplo sentido: o de expor e o de ocultar. O exercício de exploração deste acervo coloca-se, pois, como desafiante e promissor no sentido de desvelar alguns aspectos da cultura escolar e da cultura material que a compõem. O viés da cultura material é dado pela filiação da presente proposta que se configura como um dos desdobramentos de pesquisa de mestrado em andamento, na linha História e Historiografia da Educação do PPGE da UDESC e integra a pesquisa “Objetos da Escola: cultura material da escola graduada (Santa Catarina, 1870-1950), UDESC/CNPq, que vem sendo desenvolvida de forma articulada com o Projeto Nacional “Por uma teoria e uma história da escola primária no Brasil: investigações comparadas sobre a escola graduada (1870–1950)” (CNPq).

1 A institucionalização do uniforme escolar da Escola Técnica Federal de Santa Catarina: Possibilidades de leitura através de imagens fotográficas
O exercício de exploração da fotografia tem constituído, nas últimas décadas, fonte promissora para as pesquisas em história da educação, bem como para outras áreas de conhecimento, como a antropologia e a sociologia. No início do século XIX, até aproximadamente a década de 1930, os pesquisadores consideravam como fonte privilegiada de pesquisa os documentos ditos oficiais, ou seja, aqueles emanados da máquina pública, considerados confiáveis e “expressão da verdade”. A influência das novas correntes historiográficas trouxe novos aportes ao campo da história da educação, redimensionando as possibilidades de compreensão dos temas estudados e das fontes de pesquisa.

Este novo contexto da história da educação possibilitou o desenvolvimento de instrumentos de pesquisa, que incluem o uso da imagem fotográfica como fonte de pesquisa, e não mais como mera ilustração. A fotografia ganhou espaço como recurso metodológico importante, constituindo-se num meio que tem permitido desvelar alguns aspectos da cultura escolar. Constitui também uma rica fonte de pesquisa para a compreensão da arquitetura escolar, do mobiliário, do cotidiano das escolas, bem como da memória de alunos e professores, dentre tantas outras possibilidades de análise. Contudo, a ampliação dos recursos historiográficos não tem resolvido todos os desafios da pesquisa, como destaca Souza (2000). Um deles diz respeito ao levantamento e à localização das fotografias. Nas instituições educativas, muitas vezes, são mantidas e conservadas pela boa vontade de alguns ou pela casualidade. Os arquivos, em geral, encontram-se em mau estado de conservação; as imagens apresentam poucos dados de identificação (como: referência temporal, espacial, dos figurantes e dos motivos que levaram à sua produção).

O segundo desafio refere-se à necessidade de o pesquisador:
submetê-la a uma crítica que leve em consideração a interação fotógrafo, tecnologia empregada na produção da fotografia e objeto registrado. Portanto, a análise exige uma crítica externa, isto é, das condições de produção da fotografia, e uma crítica interna relacionada ao conteúdo da imagem. A crítica ao conteúdo, por sua vez, demanda uma análise dos contextos humanos e das relações sociais subjacentes à imagem fotográfica (SOUZA, 2000, p. 20).
Sob a perspectiva sociológica, como destaca Martins (2008), na análise da imagem fotográfica há que se considerar o olhar do fotógrafo, do fotografado e do espectador da fotografia. O modo de ver do fotógrafo não é diretamente próprio daquilo e daqueles que são fotografados. Há, no ato de fotografar, uma dimensão de imaginação, que envolve um modo de produção da imagem, que procura juntar no espaço fotográfico o que e como a fotografia deve mostrar. Envolve, também, a intenção de sua composição e perspectiva, o apelo a recursos técnicos para definir a profundidade de campo, enfim, os aspectos de composição que farão parte do instante fotográfico. Além da imaginação do fotógrafo, há que se considerar que o fotografado também imagina (imagina-se e personifica as estruturas e os processos sociais). O leitor da fotografia, por sua vez, apreende a imagem a partir de seu próprio código de leitura e de suas experiências. Para o autor, “a fotografia não documenta o cotidiano. Ela faz parte do imaginário e cumpre funções de revelação e ocultação na vida cotidiana” (MARTINS, 2008, p. 47). Portanto, o desafio que se coloca às pesquisas que utilizam a fotografia como fonte requer que se decifre o que se esconde por trás do visível.

Raquel Abdala (2003) destaca, ainda, que a análise da fotografia como fonte para a história da educação requer a desvinculação da contemplação meramente estética que a imagem suscita; a superação de sua utilização como ilustração nos trabalhos históricos e a tendência em considerá-la como representação fiel da realidade. A fotografia é um documento histórico que informa sobre determinada sociedade, e faz-se necessário, para sua análise, estabelecer um diálogo com a imagem, bem como articulá-la com outras fontes.

Para a análise proposta no presente artigo, selecionamos algumas imagens fotográficas da Escola Técnica Federal de Santa Catarina do período compreendido entre 1964 e 1985. Procuraremos retratar, por meio delas, alguns aspectos históricos da educação profissional em Santa Catarina referentes ao período.

A educação profissional no Brasil tomou força com o advento da República e pela pressão, como destaca Santos (2003), de diversos grupos da sociedade que nutriam a ideologia da criação de um projeto de nação baseada no desenvolvimento da industrialização. A partir de então, foram criadas medidas que viriam a fortalecer a educação profissional no País. A primeira ação do governo republicano para a implantação das escolas profissionais se deu com o Decreto 7.566, baixado em 23 de setembro de 1909, pelo presidente Nilo Peçanha, que, na ocasião, criou, em cada capital dos estados, uma escola de aprendizes e artífices. A intensificação da industrialização a partir da década de 1930 e a mudança no perfil da sociedade, que gradativamente se tornou urbana, ajudaram a consolidar a política de educação profissional no País articulada ao processo de industrialização.

No início da década de 1960, o cenário apresentado pelas escolas técnicas federais, devido ao significativo investimento do governo e, ao alto padrão de ensino por ela oferecido, era de amplo prestígio junto ao empresariado. Grande parte dos técnicos formados em seus cursos era contratada pelas grandes empresas, tanto privadas quanto estatais, diferentemente da situação do ensino profissionalizante de segundo grau, que, a partir da reforma educacional que se efetivou com a Lei 5.692/71, registrou um enorme fracasso, justamente por não conseguir produzir nem a profissionalização nem o ensino propedêutico almejado. Nas escolas técnicas federais, ao contrário das escolas profissionalizantes de segundo grau, registrava-se um crescimento acelerado.

Em Santa Catarina, a Escola Técnica Federal foi uma instituição educacional que, durante um século de históriaii serviu como estratégia educacional para diversos governos em épocas distintas. Em cada uma dessas gestões administrativas fizeram-se adaptações não somente em sua denominaçãoiii, mas também na organização pedagógica, na configuração de suas disposições curriculares e em seus dispositivos legislativos, constituindo-se, desde sua criação e, especialmente após a década de 1960, como instituição propulsora do desenvolvimento econômico do estado de Santa Catarina.

Em 1962, a escola passou a ocupar um novo prédio, com uma arquitetura mais moderna, novos mobiliários e oficinas mais bem equipadas. Foram implantados também, nesse mesmo ano, os cursos industriais técnicos, visto que até então só se ofereciam cursos industriais básicosiv. Nesta nova fase, e tendo em vista o destaque da educação profissional no País, a escola começou a alcançar maior prestígio junto à comunidade florianopolitana e catarinense.

A partir da expansão da Escola Técnica Federal de Santa Catarina, começa-se a pensar na implantação efetiva do uniforme escolar para os alunos. Foram várias as tentativas e estratégias utilizadas, culminando, em 1969, em uma pesquisa realizada com os pais, visando solucionar esse problema há tantos anos em pauta na escolav. O novo modelo, que seria efetivamente cobrado a partir de 1970, foi comunicado aos pais. Foram adotados uniformes de uso diário, para uso nas oficinas e na educação física, tanto para os meninos quanto para as meninas.

Entendemos que o uniforme escolar se constitui artefato que disciplina, normatiza condutas e corpos e concorre para homogeneizar o espaço escolar. Tais artefatos, imbricados na cultura material escolar, fazem parte de toda uma simbologia que permeia as instituições educativas, como destaca Silva (2006) e é nesta estaria que se desenrola o presente estudo.

Analisar os uniformes escolares pelas imagens fotográficas significa enfrentar um duplo desafio. Uma deles, diz respeito ao número restrito de pesquisas sobre tal objeto. O outro, o próprio desafio que se coloca às pesquisas com imagens fotográficas, conforme assinalado anteriormente. No entanto, acreditamos que, através da exploração das fotografias, será possível estabelecer uma aproximação da história e da memória dessa instituição, apontando sentidos simbólicos expressos no uniforme escolar.


2 A Seleção das Fotografias
Para a presente reflexão, foram selecionadas algumas fotografias recolhidas no acervo da instituição, em formato digital, e outras conservadas em arquivos pessoais de ex-professores.

A exemplo da maioria dos acervos documentais encontrados nas escolas públicas, as fotos e documentos identificados na instituição encontravam-se em estado precário. Os documentos, dispersos e sem o devido acondicionamento. A maioria das imagens fotográficas, sem qualquer indicação de data, dos figurantes ou do espaço. A identificação de alguns dados das imagens foi possível por meio de conversas com professores que vivenciaram tal período e que tinham conhecimento do registro fotográfico. Outras informações foram obtidas por Alcides Vieira de Almeida, em pesquisa que resultou no livro “Da escola de aprendizes e artífices ao instituto federal de Santa Catarina”, reeditado em 2010. No entanto, muitas imagens não permitiram uma identificação mais precisa. Apenas alguns dados puderam ser aproveitados para a análise que ora empreendemos.

Nas fotografias selecionadas estão representadas: uma imagem do corpo discente em comemoração à data cívica e duas imagens dos alunos realizando atividades em sala de aula. Apesar de não haver a indicação do fotógrafo, há uma perceptível diferença entre as imagens dos desfiles cívicos e as das salas de aula, indicando uma intencionalidade do registro fotográfico.

Apresentadas estas informações iniciais, passaremos ao exame das imagens selecionadas, tomando como referência para a análise iconográfica os estudos de Panofsky, que salienta o perceptível, o visível, adentrando as construções simbólicas a partir da construção da obra de arte. Limitaremos nossa análise às imagens fotográficas que retratam o uniforme escolar numa determinada configuração histórica. A intenção é aproximar o nosso olhar, e o do leitor, para às relações invisíveis do disciplinamento corporal, das normatizações e dos conflitos entre o esforço de homogeneizar o espaço escolar e as relações cotidianas da instituição e dos sujeitos que dela participam.


3 Análise Iconográfica e Iconológicavi
O que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha. Inelutável porém é a cisão que separa dentro de nós o que vemos daquilo que nos olha.

(Didi-Huberman, 1998)
A análise empreendida por Panofsky (2004) acerca da iconografia e da iconologia aplicada às artes plásticas é relevante para o presente estudo, porque permite adentrar significados convencionais ou intrínsecos a que a imagem fotográfica nos remete. Reconhecemos, contudo, que a fotografia difere do principal objeto de estudo analisado por Panofsky, a obra de arte, porém, mesmo operando uma relação maquinal e mecânica com o evento registrado, a fotografia permite que se interprete o que, no momento da obturação da imagem, fora um acontecimento natural e social dentro do tempo e em um espaço específico sob o ponto de vista histórico. A fotografia, contudo, permite entender o posicionamento do nosso olhar e de outros olhares, uma vez que não o concebemos como uma ação desinteressada, mas como um desafio de deslocamento e de posicionamento do pesquisador frente às imagens selecionadas.

Partimos, então, da análise iconográfica e iconológica sobre a imagem fotográfica, porque ela envolve experiências cotidianas escolares pontuais, formal e intencionalmente registradas. Assim, as imagens fotográficas revelam determinadas manifestações que podem ser associadas a um rol de acontecimentos que definem os parâmetros de uma cultura escolar específica. Procuramos, com isso, conforme a referida metodologia, contemplar as experiências e as familiaridades possíveis na observação e nas interpretações abstraídas a partir de imagens fotográficas relacionadas aos valores simbólicos que carregavam os uniformes escolares.

Cronologicamente, a composição do universo físico da escola, tomando como referência diferentes períodos históricos, sempre apresentou padrões de normatização e regulação que operaram modos distintos de conceber os dispositivos de formatação do ambiente escolar. Lançando mão das imagens fotográficas, sua riqueza interpretativa consiste em que se podem notar determinadas características sobre a estrutura interna de funcionamento da escola em questão ou sobre as manifestações públicas por ela promovidas. Apropriamo-nos de uma lógica da experiência e da familiaridade com os ritos e os hábitos que caracterizam a escola a partir da escolha das fotografias que remontam a um período peculiar de sua organização e funcionamento.

Neste sentido, a perspectiva nos permite fazer uma análise iconográfica/iconológica dos elementos históricos que possam contribuir com o enredo da interpretação de valores simbólicos presentes na fotografia e com outros, eventualmente relevantes na leitura de tais imagens. Admite-se também ser impensável uma neutralidade no ato de registrar imagens fotográficas e que o recorte historiográfico que queremos abranger se compõe de recortes e fragmentos distintos, derivados de intencionalidades que estruturam a composição fotográfica.

Deste modo, não podemos deixar de ressaltar que a fotografia é um ato intencional. Ao mesmo tempo que registra alguns aspectos do cotidiano escolar ao expor o corpo escolar para além do tempo em que a fotografia foi capturada e revelada, cria a perspectiva de que o que é revelado pela fotografia constitui uma referência compartilhada quanto ao registro da ação e um documento que suscita um significado intrínseco, tanto para o grupo de pessoas que vivenciou o momento retratado, quanto para as gerações posteriores que o interpretam subjetivamente.

Algumas pesquisas indicam que tanto a imagem trabalhada pela obra de arte, como defende Panofsky (2004), quanto a fotografia, na interpretação de Martins (2008), podem ser vistas como resultado de processos produzidos intencionalmente, de modo que as imagens não se fazem sem um determinado olhar, implicando, por uma lado, a existência de um sujeito histórico, tanto quanto a circunstância de sua produção, e, por outro, o despertar de um determinado desejo que leva a atrair e insinuar a existência de uma determinada situação, aguçando a percepção de uma criação de imagem a ser guardada como memória de um momento registrado.

Neste caso, o desafio de Panofsky (2004) diz respeito à leitura da imagem produzida em tempos distintos, mesmo que possam ser recorrentes no contexto histórico. De acordo com tal abordagem, é necessário recorrer à observação dos lugares, das culturas, dos movimentos e problemas decorrentes da realidade que compõem a imagem apresentada pela fotografia. Outra forma de lidar com essa situação é a possibilidade de recorrer a elementos primários, secundários, a estórias e alegorias, cujo conteúdo contribui para uma descrição iconográfica que aproxima do significado das relações iconológicas e possibilita uma interpretação a partir da composição da imagem.
4. Rito Cívico e Regulação do Corpo Escolar
A abordagem sobre a imagem e a realização de sua leitura, constitui-se como uma atividade intelectual e teórica complexa, principalmente se inserida em um determinado movimento histórico, quando o foco de pesquisa é o olhar humano. Tal como observado nas experiências de Panofsky (2004), reapropriadas com o propósito de compor o nosso repertório de análise, as fotografias servem aqui como um parâmetro para o entendimento mais detido dos ritos escolares experienciados na formação de uma narrativa específica, pondo em evidência as memórias relacionadas aos períodos de organização do espaço escolar.

Toma-se como escopo principal o fato de que as fotografias produzidas no espaço escolar possuem a devida relevância para a história da instituição. O estudo de Panofsky (2004) nos leva a reconhecer a ilação entre a experiência prática no ambiente da imagem e a leitura de imagem a partir dos registros fotográficos desse mesmo ambiente. Assim, as experiências práticas com o cotidiano escolar e com os eventos escolares remetem a estratégias que privilegiam o corpo escolar como uma representação dos valores simbólicos elaborados em determinada situação ou momento histórico.

Pode-se afirmar que a composição fotográfica evidencia alguma familiaridade entre os objetos e as subjetividades da época em que ela foi produzida. A familiaridade com os elementos que compõem a fotografia instiga o nosso olhar a buscar um significado factual relacionado àquela determinada experiência prática; porém, não nos atemos prontamente ao que é manifestado como imagem produzida, mas buscamos sentidos interpretativos das imagens, deslocando a atenção para os simbolismos esboçados nas delimitações formais e nos limites possíveis da leitura mais pormenorizada da imagem.

Para Panofsky (2004), as artes visuais admitem o tema primário ou natural, o secundário ou convencional e o significado intrínseco ou de conteúdo das composições visuais. Cada um desses níveis de observação cobre uma função dentro das significações que as artes visuais permitem, do mesmo modo que determinam uma função específica que preenche as etapas de análise da significação da obra de arte e da interpretação do tema. O empréstimo que é feito para o presente trabalho nos permite analisar as fotografias associando-as a momentos distintos do cotidiano escolar. Esta interpretação admite, implicitamente, que os trajes escolares que apareceram na fotografia foram conformados a uma disposição física, ideológica, sociológica e histórica específica.


Foto1: Desfile Cívico (década de 1960)

Fonte: LIO – Laboratório de Imagem e Oralidade – Escola Técnica Federal de Santa Catarina (Foto digitalizada).
Como exemplo de conformação dos corpos escolares pela estética registrada por meio de referência fotográfica, valorizada pelas autoridades e educadores, na década de 1960, observa-se o contingente perfilado e organizado conforme uma disposição militar uniformizada, típica das formações de desfile promovidas pelo Estado Novo. Martins (2008) interpreta a rua como um lugar de sociabilidade e lócus de transitoriedade. Neste caso, consideramos o espaço do desfile cívico como um locus que permite a passagem dos alunos, ao mesmo tempo em que tais corpos escolares exibem uma demonstração pública de ordem, seguindo uma lógica política que os perfila. Trata-se, neste caso, da incorporação institucional de valores simbólicos nos corpos escolares, em que o sujeito é secundário em relação a valores simbólicos da instituição escolar, que os enfatiza como elemento importante para o desenvolvimento sadio da própria juventude. Podemos observar, desse período histórico, o ideal de demonstração da vitalidade da juventude ou da cultura de uma juventude saudável, repleta de corpos regulados, normatizados e padronizados. Tal demonstração pode ser percebida nas camisetas dos alunos, porque elas se voltam para o soerguimento dos valores simbólicos associados ao trabalho industrial, principalmente ao destacar determinado símbolo no dorso superior do uniforme dos jovens, representando um sistema de engrenagem em meio a inscrições da instituição escolar.

O uniforme escolar, no contexto do lugar transitório da rua, passa a ter o efeito panoptizador.vii A rua não pode ser considerada um lugar panóptico por excelência, mas se caracteriza por servir como uma extensão do poder regulador que atua sobre os corpos através do uniforme escolar, uma vez que os sujeitos que o vestem (os alunos) representam a instituição através dos trajes, dos símbolos, das cores do uniforme e da organização espacial e física.

Como temos observado nas fotografias que trazem o tema dos ritos e dos atos cívicos, os corpos escolares regulados pelos trajes admitem formas institucionalizadas de representatividade dos ideários de uma cultura. Os trajes comportam, também, tanto a finalidade da instituição escolar em centrar a formação desses corpos para o campo do trabalho e da industrialização, quanto o modo de pensar e de agir das forças políticas que atuavam no Brasil naquele momento.

Nas fotografias analisadas é notável a ausência de jovens mulheres nos desfiles cívicos. Atitude considerada sexista, uma vez que, desde 1959, as mulheres já participavam da formação na instituição escolar em questão. Na fotografia que apreciamos, apenas uma jovem aparece na lateral esquerda. Em outra fotografia que aqui não apresentamos, há outra jovem na mesma posição na outra lateral. Com exceção dessas aparições, quase todos os pelotões que seguem são compostos somente por jovens homens.

Ainda em referência à idéia de passagem e transitoriedade presente nos ritos cívicos, observa-se que o movimento corporal dos jovens tende a reproduzir uma distribuição dos corpos escolares, alinhando-os a partir do ato de marchar que marca a incorporação de valores militares na cultura escolar. Fica igualmente demonstrado que a regulação e a normatização do corpo escolar deveriam estar em conformidade com as atitudes esperadas de cada um dos alunos. Assim, o objetivo principal era que o corpo do estudante expressasse um protótipo (na postura correta, no uso dos trajes, nos movimentos controlados), condicionado a operar conforme uma determinada regulação

Assim, o uniforme escolar, visto como um instrumento de poder que atua sobre o corpo, representa uma forma de controle e vigilância que acompanha o indivíduo onde quer que ele esteja. Para Foucault (1993), esse controle vigilante se fundamenta na idéia de que o poder político ou de qualquer outra natureza tenta dominar a vida dos indivíduos, seja através de mecanismos que definem o corpo como uma máquina, integrando-o aos sistemas de controle das instituições, seja por meio da disciplina tipo corpo-espécie submetido a uma bio-políticaviii que dá suporte aos processos biológicos da população.

Dessa forma, a abordagem dos corpos escolares na fotografia apresentada requer que os definamos de acordo com o período histórico analisado. A manifestação de patriotismo que se percebe para essa época deixa transparecer uma espécie de unidade formal, que abarca alguns princípios de hierarquia representados pela presença das autoridades públicas e militares no palanque central e de subordinação de indivíduos minuciosamente observados.

Um aspecto importante da composição da referida fotografia diz respeito à semelhança dos uniformes escolares com os uniformes das instituições militares. A adoção do uniforme como estratégia de homogeneização dos sujeitos (alunos) na escola e fora dela marca fundamentalmente a necessidade de marcar os lugares sociais, reforçando, por sua vez, o papel da instituição escolar na sociedade de massa e nos planos políticos do governo militar em relação ao processo de desenvolvimento do País. Todas essas escolhas fazem parte de um movimento de exclusão e/ou inclusão em favor de uma pretendida homogeneização que representaria uma determinada cultura cívica. Esta composição elementar na fotografia, de corpos regulados para portar os valores da cultura escolar mesclados a uma projeção de um modelo de juventude concebida pelos governos militares, de identificação entre a instituição escolar e a corporação militar, estabelecia um padrão regulador dos trajes, identificadores das instituições e não dos sujeitos.

Consideramos, portanto, que as fotografias revelam diversos aspectos do imaginário do cotidiano escolar. Nesse sentido, nas reflexões empreendidas por Martins (2008), as fotografias que mostram os alunos e os procedimentos escolares podem ser interpretados como indícios de um ideário social. Nelas, por exemplo, é possível fazer a leitura histórica, sociológica e política do uso do uniforme escolar. As imagens que se seguem nos auxiliam no sentido de nos aproximar de determinadas configurações no espaço escolar que tendiam à homogeneização dos corpos escolares, considerando sua distribuição física em sala de aula. Para um maior esclarecimento acerca da dimensão iconológica, ou seja, interpretativa da fotografia, Panofsky (2004) diz ser necessário no ato iconológico visualizar os aparatos que circundam o evento, as atividades externas que compõem o ideário do momento e da condição histórica a que a fotografia se refere. Neste caso, atemo-nos ao modo como se constituíram alguns regimes de ordenamento e de disciplinamento da juventude com vistas aos valores simbólicos associados à pátria e ao rito cívico, estendendo-se ao ambiente interno da escola.

Temos por critério, então, que, para a definição do cotidiano escolar dessa época, necessitaríamos cruzar diversas informações oriundas de documentos produzidos pela própria escola e pelo sistema de ensino que a administrava. Por outro lado, o registro fotográfico permite que nos aproximemos, sob o ponto de vista estético, de algumas disposições físicas que nos remetem à cultura material de um período histórico em que ocorreu o funcionamento da escola. A fotografia, contudo, não consegue capturar o cotidiano quadro a quadro, mas parte dele. A questão é que, como afirma Burke (2004), as imagens capturadas nos permitem imaginar, constituindo-se no melhor guia para empreender o poder de representar visualmente as culturas do presente e do passado, ao expressar pela fotografia algumas expectativas, certos preconceitos e, principalmente, ao fazer surgir um ponto de vista.

Podemos também ressaltar, através da leitura metodológica de Panofsky (2004), que a interpretação iconológica das fotografias se fixa nos valores simbólicos dos sintomas da cultura escolar percebida na fotografia, uma vez que mobiliza objetos que identificam, pela experiência prática do observador, aquilo que permanece ou que não aparece na composição do cotidiano escolar.

Outro fator relevante na observação desse cotidiano escolar, imaginado e capturado nas fotografias, é a intencionalidade de fazê-lo memória. Na análise das fotografias, percebemos os registros do cotidiano em tempos distintos, ao mesmo tempo em que permitiram observar a existência de uma determinada organização das atividades escolares.


Foto 2: Aula desenho na Escola Técnica Federal de Santa Catarina (final da década de 1960)

Fonte: LIO – Laboratório de Imagem e Oralidade – Escola Técnica Federal de Santa Catarina (Foto digitalizada).

Foto 3: Escola Técnica Federal de Santa Catarina - Aula desenho (segunda metade da década de 1970)

Fonte: LIO – Laboratório de Imagem e Oralidade – Escola Técnica Federal de Santa Catarina (Foto digitalizada).

A análise desse locus – a escola – está pautada em uma comparação de dois períodos distintos do cotidiano escolar. A fotografia 2 remonta ao período escolar de 1969, período próximo ao da primeira fotografia analisada. Identificamos aqui uma tentativa de constituir historicamente a cotidianidade escolar, deslocando-se do real móvel para a fixação das mediações materiais e simbólicas como afirma Martins (2008). Nessa imagem, pode-se visualizar a ausência do regramento ou da normatização do uso obrigatório do uniforme. Podemos também ressaltar a distinção entre obrigatoriedade e não-obrigatoriedade do uso do uniforme escolar para os alunos dos cursos diurnos e noturnos. Como forma de aproximação de elementos primários da iconografia analisada na fotografia 1, os símbolos da industrialização, tão expressos na comemoração cívica, não aparecem nas camisas dos alunos nas fotografias 2 e 3.

O registro do ensino em sala de aula aparece mais como uma demonstração do valor simbólico atribuído às atividades desenvolvidas (caso da presente fotografia), em que os aparatos da imagem mostram a composição da sala de aula (materiais, mobiliário e posicionamento dos jovens). Os trajes sociais dos jovens também remetem a uma forma de valorização simbólica da atividade escolar.

Os fatores de identificação dos trajes e dos aparatos que compõem a fotografia 2 remetem aos valores simbólicos da época: a postura do professor no centro da foto denota observação e controle sobre as atividades desenvolvidas pelos alunos; os jovens, por sua vez, parecem atender prontamente à regulação imposta aos seus corpos, caracterizando-se pela individualização das carteiras e pela concentração requerida pela atividade. Assim, tanto o silêncio quanto o controle sobre as ações em sala de aula servem como táticas de homogeneização do espaço escolar. Porém, mesmo que nesse momento a instituição, estivesse em dificuldades de impor o uniforme a todos os alunos indistintamente, devido à condição financeira das famílias ou por outro motivo, não teriam faltado mecanismos de padronização e regulação do corpo discente.

A fotografia 3 representa o cotidiano da segunda metade da década de 1970. É mais clara a obrigatoriedade do uso do uniforme escolar. Valoriza-se a aparência de igualdade de acesso e de permanência no ambiente escolar. Ao comparar as duas fotografias, a obrigatoriedade do uniforme escolar não implica necessariamente individualização das atividades, como foi visto na fotografia 2. Vê-se que os alunos uniformizados tinham uma maior liberdade para a realizar as atividades em sala de aula, podendo se reunir com um ou outro colega. A disposição e o formato do mobiliário indicam uma maior aproximação entre os alunos. A impressão que se tem é de que diminuíra a relação de rigidez do corpo escolar no que diz respeito ao posicionamento físico dos alunos, existindo aparentemente maior flexibilidade, apesar do uso obrigatório do uniforme.

Reconhecendo que as imagens apresentadas se diferenciam em um espaço de tempo de pouco menos de dez anos, a semelhança possível entre as duas fotografias pode sugerir a idéia de continuidade, mas há diferenças - desde o mobiliário escolar à organização didática, uma vez que o professor da fotografia 3 está bem próximo do aluno e lhe fala direta e horizontalmente. Quanto ao aspecto físico, desaparecem os armários e outros aparatos científicos, dando lugar a cartazes e diagramas esquemáticos.

Na fotografia 3 aparece o uniforme escolar, conhecido pelos discentes e pela comunidade em geral como “Mostardão”. Esse uniforme foi instituído após a reforma educacional de 1971. Ele destoava do tradicional uniforme anterior, tanto na cor quanto no modelo. A camisa era cor mostarda e a calça, apresentava um padrão xadrez nas cores marrom e mostarda. Os calçados deviam ser fechados, acompanhados de meias; porém, na fotografia 3, notam-se alguns alunos calçados com sandálias. Aparentemente, há certa homogeneização, mas os detalhes revelam que uma ou outra peça do uniforme não estava de acordo com as normas, justamente em um período do governo militar em que a exigência de cumprimento das normas era maior e mais intensa em todas as instituições do governo e, principalmente, nas instituições escolares.

Como afirma Panofsky (2004), as imagens podem ser descritas, classificadas e consideradas em parte e no todo. Considera-se que a fotografia não substitui o momento histórico, mas contribui para a elucidação da historicidade do referido momento. Como podemos notar, existem, nos três momentos fotográficos, formas de regulação do corpo discente. É possível intuir que em todas as fotografias aqui analisadas, há uma tendência em captar um momento de homogeneização, que se revela nas estratégias de uniformização e padronização do aluno em sala de aula e nos eventos públicos.



Considerações Finais

A educação se efetivou, durante o regime militar, como um lugar de discursos e de ações articuladas no processo de reorganização do País. Assim, através da escola foram expressamente reforçadas as noções de nação e de pátria brasileiras, que deviam ser reconstruídas, preservando a unidade territorial, redimensionando o patrimônio cultural e insistindo na possibilidade de fazer com que o Brasil constasse do rol de nações desenvolvidas.

Criou-se, no regime militar, uma aura de otimismo econômico e social, associado a um discurso de progresso econômico e de ordem social. Ampliou-se, por sua vez, o sentido social da escola e se aplicou uma metodologia que vinculava seus conteúdos pedagógicos às necessidades do desenvolvimento técnico e tecnológico do País, com a devida incidência sobre os assuntos de ordem prática (problemas da saúde, de ajustamento à família e ao trabalho) que requeriam o suporte adequado de instituições auxiliares (como a escola). Estabeleceu-se que o sistema de ensino deveria priorizar o atendimento aos estudantes jovens, cuja faixa etária condissesse com o período de ingresso nas atividades laborais, redirecionando-os a uma crescente consciência da necessidade de ajustamento das novas gerações à revisão dos novos valores morais e sociais pretendidos pela política militar.

A fotografia nos auxiliou na observação de que, no período estudado, o uniforme escolar constituía um meio de uniformização e homogeneização dos jovens através da instituição escolar. Constatamos que se exigia o uso do uniforme escolar nas dependências da escola e também nos espaços públicos. Por outro lado, as fotografias revelaram que nos espaços internos, mesmo que institucionalmente fosse exigido, o uniforme não era por todos utilizado. Já nos espaços públicos, como desfiles cívicos, todos os alunos se apresentavam devidamente uniformizados. Diante das autoridades civis e militares e da sociedade (pais, vizinhos, amigos), o uniforme escolar, para o aluno, expressava um sentimento de pertencimento a uma instituição reconhecida de modo positivo pelo governo e que o projetaria socialmente, principalmente ao lhe assegurar uma melhor colocação no campo do trabalho.

A análise, por nós empreendida, constituiu-se por um olhar critico sobre as imagens fotográficas, reconhecendo sua confluência com vários fatores: a subjetividade do fotógrafo, do fotografado e do espectador da fotografia, bem como o momento social e histórico de sua materialização. É importante, todavia, considerar que o acesso a outras fontes permite maior clareza desse mesmo registro e, eventualmente, um exame mais apurado de seus significados.

Quanto ao procedimento metodológico, confirmamos que a produção de uma imagem fotográfica nunca é desinteressada, admitindo-se a intervenção de interesses individuais ou coletivos. Por isso, é necessário ir além do objeto fotográfico e de sua comunicação imediata. Contudo, nessa modalidade de análise torna-se imprescindível o entrelaçamento dos elementos de composição da fotografia com outras fontes historiográficas.



REFERÊNCIAS
ABDALA, Raquel Duarte. A fotografia além da ilustração: Malta e Nicolas construindo imagens da reforma educacional no Distrito Federal (1927-1930). 2003. Dissertação (Mestrado) – Universidade de São Paulo - USP. São Paulo.
BURKE, Peter.Testemunha ocular: história e imagem. Bauru, SP: EDUSC, 2004.
FOUCAULT, Michel. Historia da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1993.
______. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. 14ª ed. Petrópolis: Vozes, 1996.
MARTINS, José de Souza. Sociologia da fotografia e da imagem. São Paulo: Contexto, 2008.
PANOFSKY, Erwin. O significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 2004.
SILVA, Katiene Nogueira. “Criança Calçada, criança sadia!”: sobre os uniformes escolares na escola pública paulista entre os anos de 1950 a 1970. 2006. Dissertação (Mestrado) - Universidade de São Paulo - USP. São Paulo.

SOUZA, Rosa Fátima de. Um itinerário de pesquisa sobre a cultura escolar. In: CUNHA, Marcus Vinicius da (Org.). Ideário e imagens da educação escolar. Campinas, SP: Autores Associados, 2000.





i A parceria de elaboração desse artigo se articula entre a proposição de pesquisa de Ivanir Ribeiro, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação da UDESC, a respeito dos uniformes escolares que foram utilizados pelos alunos da Escola Técnica Federal de Santa Catarina, no período entre 1964 a 1985.e a interlocução com Luani de Liz Souza, em virtude da sua experiência na temática de pesquisa das políticas da educação profissional e a juventude.

ii Em 26 de setembro de 2009, o atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina completou cem anos de atividade educacional.

iii Em seus cem anos de existência, a instituição já passou por várias denominações, dentre elas: Escola de Aprendizes Artífices (1909); Liceu Industrial de Santa Catarina (1937); Escola Industrial de Florianópolis (1942); Escola Industrial Federal de Santa Catarina (1965); Escola Técnica Federal de Santa Catarina (1968); Centro Federal de Educação de Santa Catarina (2002) e, atualmente, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (2009).

iv O objetivo principal dos cursos industriais básicos era propiciar conhecimentos e iniciação em atividades produtivas, enquanto os cursos técnicos tinham o objetivo de formar técnicos para o desempenho de funções de imediata assistência a engenheiros ou a administradores para o exercício de atividade em que as aplicações tecnológicas exigem profissional dessa graduação (ALMEIDA, A. V. de, 2010).

v Relatório de 1969, elaborado pelas áreas administrativa, educacional e social e assistencial da Escola Técnica Federal de Santa Catarina – ETEFESC.

vi Iconografia: “ramo da história da arte que trata do tema ou mensagem da obra de arte em contraposição à sua forma” (PANOFSKY, 2004, p. 64). Deste modo, significação iconográfica é apreendida nas determinações que revelam atitudes básicas de um período social, histórico, de um povo, de crenças e outros, de acordo com composição do método (PANOFSKY, 2004, p. 65); entendemos a análise iconológica por meio da fotografia, a partir de Panofsky, como um método pelo qual a interpretação da fotografia advém da familiaridade com os objetos e fatos que adquirimos pela experiência própria e que requerem certa familiaridade também com os conceitos ou temas específicos para que se faça a interpretação baseada no significado intrínseco da imagem – “A descoberta e interpretação desses valores simbólicos (que, muitas vezes, são desconhecidos pelo próprio artista e podem, até, diferir enfaticamente do que ele conscientemente tentou expressar) é o objeto do que se poderia designar por iconologia (...)”.

vii Queremos registrar como uma ação panoptizadora o que Foucault define como “vigilância que se apóia em um sistema de registro permanente”. Sob o ponto de vista do espaço físico, a vigilância panóptica se dá quando se estabelece um espaço fechado, recortado e vigiado em todos os seus pontos, em que os indivíduos estão inseridos em um lugar fixo, em que os menores movimentos são controlados e registrados como acontecimento. Nele, também, o centro está ligado ao espaço periférico por um trabalho ininterrupto de escrita e pela valorização do poder hierarquicamente distribuído. Nesse espaço, cada individuo é constantemente localizado, examinado e distribuído (FOUCAULT, 1996, p. 174-178).

viii Segundo Foucault, a bio-política, remontada ao século XVIII; constitui-se como uma série de estratégias voltadas ao poder e está presente em todos os níveis do corpo social, sendo utilizada por instituições bem diversas, tais como a família, o exército, a escola, a polícia, a medicina individual e a administração das coletividades. A bio-política age, nesse sentido, no nível dos processos econômicos e das forças que estão em ação em tais processos, seja operando como fatores de segregação e hierarquização social, seja na articulação do crescimento dos grupos humanos na expansão das forças produtivas e a repartição diferencial dos lucros (FOUCAULT, 1993, p. 133).


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