Elementos de psicologia no pensamento oriental



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ELEMENTOS DE PSICOLOGIA

NO PENSAMENTO ORIENTAL

Autora:

Analyce Claudino dos Santos, Psicóloga, Especialista em Acupuntura

Revisor


Prof. Marcelo Fabian Oliva

INTRODUÇÃO

Tem sido crescente o interesse ocidental a respeito do estudo e pesquisa da Psicologia sob o paradigma oriental. Mas particularmente de uns anos para cá esta curiosidade não só pela Psicologia, mas por tudo o que vem do extremo oriente tem ficado mais evidente. Notamos a introdução no nosso cotidiano de conceitos antes inexistentes, a utilização de símbolos e ideogramas orientais, o interesse crescente pelas artes marciais, a aplicação na arquitetura de princípios como os do feng shui, entre outros.

A necessidade da busca de alternativas em uma sociedade de modelos tão diferentes dos nossos evidencia, de certo modo, a falência dos nossos próprios recursos para lidar com algumas questões e o desejo de ir além do nosso conhecimento que muitas vezes se mostra insuficiente. Demonstra também a tentativa de um resgate, um retorno à essência que se perdeu, a busca de uma conexão com uma sabedoria humana mais integrada com seu meio-ambiente, que a China ainda traz até o presente apesar dos muitos anos de história e evolução.

A diferença na visão de mundo, nas origens e na história existente entre o ocidente e o oriente nunca foi, nem deve ser considerada, um empecilho que desencoraje o estudo ou impeça a aplicação prática dos conceitos orientais à nossa realidade. É pela própria diferença que se podem encontrar alternativas para questões até agora insatisfeitas e para certos problemas aos quais a psicologia ocidental apresenta limitações.

Este projeto de estudo acerca do paradigma oriental não pretende procurar por semelhanças ou tentar igualar teorias orientais com escolas e teorias psicológicas ocidentais. Ele vai, antes disso, oferecer mais uma alternativa, e delinear as respectivas implicações na concepção do ser humano e nas suas relações, acreditando que assim pode colaborar para se ir além no trabalho cotidiano de decifração e entendimento do homem.

Sem dúvida que é tentador fazer paralelos já que, como veremos, a própria ciência ocidental levou a conclusões muito semelhantes a conceitos orientais antigos. Constatamos que questões como a Psicossomática, teorias como as da Física Quântica a respeito das interações sistêmicas, entre outros tópicos de psicologia moderna, já vem sendo faladas pelo oriente, de outra maneira e em outro contexto, por séculos. Ou seja, parece que caminhamos por anos na ciência para acabar voltando ao essencial. Redescobrimos o oriente quando passamos a reconhecer que poderíamos estar falando todos a mesma coisa, mas em linguagens diferentes.

No entanto, quando tentamos juntar conhecimentos de diferentes origens e distintas naturezas corremos o risco de amputar os conceitos, de deturpá-los, para que uns caibam nos outros, se igualem e formem um todo coerente, perdendo muitas vezes o sentido básico inicial.

Assim, este projeto de estudo tem pretensões mais modestas. Objetiva apenas relacionar tópicos e elementos necessários para a compreensão geral da psicologia sob o paradigma oriental, sem elaborar confrontos de idéias ou pretender esgotar o assunto. Não cabe aqui fazer uma revisão do relacionamento dos sistemas oriental e ocidental de pensamento, portanto a explicação de conceitos de domínio da psicologia ocidental será feita somente na medida em que se tornar necessária para a compreensão do próprio pensamento oriental.

Nos perguntamos finalmente, que validade teria o conhecimento da psicologia oriental quando inserida numa cultura diametralmente oposta em tantos aspectos como o é a nossa? Em primeiro lugar, tem como validade facilitar a tarefa de diagnóstico e tratamento para aqueles que tentam conceber o homem dentro das premissas da Medicina Tradicional Chinesa e já estão aplicando o pensamento oriental no trabalho diário. Num sentido mais amplo, acredito que o contato com outra realidade nos possibilita um verdadeiro questionamento de valores, a abertura de novos horizontes de compreensão, e talvez até a aprendizagem de uma maneira diferente de se ver, ser e estar no mundo.

Sempre que o profissional encontra limitações na sua prática, quando seu conhecimento não alcança o pretendido, é a hora de exercitar uma pequena mudança na ótica, na maneira como se vê e se aborda um problema, para que se descortine uma nova seqüência lógica. As teorias são como ferramentas: são tão diferentes as compreensões do fenômeno psicológico humano quanto o são os homens.

A China é certamente o país mais antigo ainda existente na terra, possuindo assim a mais longa e contínua história escrita de todas as nações, estimada em mais de 5.000 anos. Muitas mudanças ocorreram em tantos anos de história, questionamentos e evoluções a respeito do que é o homem, suas relações e seu papel no universo. O que temos atualmente na China é um conhecimento acumulado, revisado, criticado, e milenarmente aplicado na prática.

Este trabalho estará voltando a este ponto de partida. Não vai vir do familiar ocidente em direção ao estranho oriente: vai partir do oriente, até que possamos reconhecer que é preciso “percorrer muitas estradas/voltar para casa/e olhar tudo como se fosse pela primeira vez” (T. S. Elliot).



CONCEITOS DE BASE



1) MUTAÇÃO: o aspecto imutável


A Mutação é um conceito de base para a compreensão da visão de mundo chinesa. E para falar da Mutação, é necessário citar o I Ching – O Livro das Mutações.

Alguns consideram o I Ching apenas um oráculo, para outros é um clássico da literatura mundial, para outros ainda é um poderoso instrumento para a compreensão da cultura que se desenvolveu na China em anos de história.

Segundo Richard Wilhelm, tradutor e estudioso do Livro das Mutações, “tudo o que existiu de grandioso e significativo nos três mil anos de história cultural da China ou inspirou-se nesse livro ou exerceu alguma influência na exegese do seu texto. Assim, pode-se afirmar com segurança que uma sabedoria amadurecida ao longo de séculos compõe o I Ching1. Ele é uma fonte importante e indispensável para a compreensão do pensamento chinês.

A origem do I Ching não é exata, nos remete a uma antiguidade mítica, mais certamente a uma época anterior à dinastia Chou (1150 – 249 a.C.). Nele estão dispostas figuras lineares, compostas da combinação de linhas inteiras (——) e linhas interrompidas ( – – ), chamadas de ‘kua’.

São possíveis 8 combinações entre as linhas para formar trigramas diferentes, e estes 8 signos são considerados como imagem de tudo o que ocorre no céu e na terra. A partir da combinação destes 8 trigramas o I Ching traz 64 combinações de seis linhas (hexagramas), consideradas as 64 “possibilidades de destino”2.

O importante de se notar, entretanto, é a característica simbólica dos ‘kua’. O fundamental dos trigramas e dos hexagramas do I Ching, é que eles não representam entidades estáticas e sim mutáveis estados de transição. Os trigramas não focalizam as coisas em seus estados de ser, e sim seus movimentos de mudança. Portanto, “não são representações das coisas enquanto tais, mas de suas tendências de movimento”3. E essas tendências são aplicadas a tudo o que acontece entre o céu e a terra, desde os ciclos da natureza até os ciclos de vida cotidianos dos homens.



YIN

— —


YANG

———




Verão
———

———


Outono
———

— —


Inverno
— —

— —


Primavera
— —

———






Céu
———

———


———

Criativo

forte


Lago
— —

———


———

Alegria

jovial

Vento
———

———


— —

Suavidade

penetrante

Água
— —

———


— —

Abismal

perigoso

Terra
— —

— —


— —

Receptivo

maleável

Montanha
———

— —


— —

Quietude

repouso

Fogo
———

— —


———

Aderir

luminoso

Trovão
— —

— —


———

Incitar

incitante





OS 64 HEXAGRAMAS

ou

AS 64 POSSIBILIDADES DE DESTINO


Fig. 1 - Acima os trigramas e suas respectivas qualidades e tendências de movimento
Os ‘kuaencontrados no I Ching, procuram reproduzir de maneira interessante os movimentos e mutações do macro e do microcosmo e assim passam a idéia de que no fundo da aparente complexidade do universo está oculta uma organização. A observação cuidadosa da natureza e dos seus padrões de transformação leva o chinês à constatação de que há um fluxo contínuo ao qual nada escapa, e à necessidade de compreender os modos e estágios dessa mutação.

“No fundo da complexidade aparente do universo, jaz oculta uma ‘simplicidade’. Ela consiste nas tendências opostas e complementares em que sempre oscila a mutação. Atividade e repouso, movimento e inércia, ascensão e declínio são os eternos e mesmos caminhos que sempre o irrepetível percorre. Muda constantemente a natureza, porém sempre ao longo das mesmas estações, Nunca as mesmas flores, mas sempre a primavera. Os fenômenos são incontáveis e distintos uns dos outros, porém regidos, em suas tendências de mudança, pelos mesmos e constantes princípios. Apreendendo-os, descobre-se o simples por detrás do complexo, o que implica também no fácil, que é a trajetória e o percurso de tudo o que acompanha o ciclo em vigência. Fluindo de acordo com as circunstâncias, evita-se o atrito, escapa-se ao desgaste. O caminho do fácil é duradouro e espontâneo, pois não exige esforço. Assim como a água descendo a montanha, diante de nada recua, diante de nada insiste; mergulha, desvia, contorna, adapta-se sem resistência e chega, pois, infalivelmente ao que lhe corresponde”4.

Percebendo o significado da mutação, sua universalidade e onipresença, o chinês nota que não tem mais importância fixar a atenção sobre os entes transitórios e individuais A pergunta básica a se fazer é então: sob que lei o universo se regula? Os fenômenos em sua totalidade perdem em importância em relação à questão sobre como os fenômenos se condicionam uns aos outros, a partir de que princípio eles se modificam, e para onde segue a sua transformação.

E então o chinês desenvolve outros conceitos para explicar a contínua alternância entre os opostos: o conceito de Yin Yang. E por fim percebe a imutável e eterna lei que atua em toda a Mutação, o que Lao-Tsé veio a chamar de Tao.


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