Eles são loucos, esses criadores!



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Encontro03.08.2016
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Asterix faz 50 anos

Há 50 anos que o grande bigode louro e o capacete alado de Asterix, que as tranças ruivas, os calções gauleses de Obelix encantam pequenos e grandes. Refletindo qualidades e defeitos dos franceses, os gauleses da história em quadrinhos cristalizam os estereótipos nacionais.


Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses resiste ainda e sempre ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum e Petibonum... O cenário está criado: vai haver briga, os romanos aterrorizados vão voar, lançados com tanta força para o ar que suas sandálias ficarão no chão, os javalis têm todo o interesse em se esconder. Júlio César em tomar tranquilizantes, os piratas em remar depressa e o bardo Chatotorix em se calar, por Tutatis!

Nascidos no dia 29 de outubro de 1959, com o primeiro número da revista Pilote, a verve e o humor de Asterix desde então conquistaram o planeta. Os álbuns foram traduzidos em 83 línguas e 29 dialetos – entre os quais o português, o mirandês, o esperanto, o latim – e conhecem um real sucesso: cerca de 300 milhões de exemplares vendidos, 100 milhões dos quais na França.

“Asterix é a rebeldia, o espírito sagaz, a esperteza (...) Toda a comédia humana está nisso, com nossas esperanças, nossos sonhos. São provocadores e gosto muito deles. Não há nada de egoísta nessa gente; são lúcidos e cheios de humor”, escreveu o homem de teatro Robert Hossein, no jornal dos 35 anos. Eis o fenômeno Asterix explicado. Pois tudo está nisto: o público mantém uma relação afetiva com ele. E de divertimento, tornou-se acontecimento cultural. Pierre Tchernia, pioneiro da TV, se lembrava até de uma época em que se oferecia aos amigos uma “dose de poção mágica” – na verdade vinho branco – e que, em coro, eles respondiam, “oui, mercix”.
Eles são loucos, esses criadores!

Tudo começou, num dia de verão, numa sacada do subúrbio parisiense. François Clauteaux queria criar Pilote, um semanário de informação para os jovens – conceito então novo. Um grupo de amigos havia montado uma agência de imprensa especializada nas histórias em quadrinhos. Entre eles o cenarista René Goscinny, seu humor ácido e sua imaginação esfuziante, e Albert Uderzo, de que seu cúmplice dirá: Ele é capaz de desenhar claramente e com talento seja o que for, até mesmo um combate de polvos na geléia de groselha. Única imposição para esses talentosos criadores: heróis franceses.

Cinzeiros cheios, calor sufocante, copos e copos de pastis. Tratos à bola, tensão, ideias extravagantes, ditos picantes, gargalhadas. Concentração. Refaçamos uma cronologia histórica; dê-me as grandes épocas da História, diz Goscinny. Enumeração... Paleolítico... Ora bolas! Os gauleses... Vejamos: o que fizeram? Seu chefe, Vercingetorix depôs as armas aos pés de César. É quase isso. Só que, em vez de depor ele as jogará em cima dos pés e o imperador dará um berro de dor! Os primos de Vercingetorix não se entregarão. É preciso escrever a história de novo. Haverá algo exaltante para dois marginais? As ideias pululam, transbordam.

Os gauleses terão nomes que terminam em – ix, os romanos em – us. Quantos trocadilhos em perspectiva (e a angústia para os tradutores!). Os romanos serão vítimas, incapazes de vencer um punhado de rebeldes. Por que? Porque os gauleses são corajosos, mas têm também a porção mágica do druida Panoramix. Os esboços se sucedem. Asterix é um guerreiro enfezado, ranheta, brigão, pândego... Quanto a Obelix, é alto, gordo, bonachão e ainda faz entrega de menires.

Os caracteres logo evoluem: Asterix se transforma em verdadeiro herói, um guerreiro de espírito sagaz, inteligência viva, apesar de ser sempre pequeno e feio; seu inseparável amigo, Obelix, herda defeitos bem franceses: glutão (gosta de comer javalis), colérico, suscetível... Com efeito, não suporta que digam que é gordo (somente tem o peito um pouco baixo (sic)!. Além disso está sempre disposto a dar pancada num romano, tanto mais que, quando ainda era um bebê, caiu no caldeirão da poção mágica, daí adquiriu permanentemente a super-força, e por isso não tem medo de nada!

A seu lado, Panoramix passa seu tempo a colher zimbro, uma planta que serve para fazer beberagens, o valente chefe Abracurcix só teme uma coisa: que o céu caia na sua cabeça. Chatotorix vive como um artista lírico incompreendido. Ordalfabetix vende peixe nada fresco, Automatix, o ferreiro, vigia o bardo, com uma maçã na mão, para impedi-lo de cantar...

As legendas são redigidas numa linguagem contemporânea, com um humor caustico. Os desenhos se enchem de alusões históricas ou políticas, citações latinas, anedotas satíricas. Caricaturas de celebridades (Lino Ventura, Sean Connery, etc.) entram sutilmente em alguns desenhos.
Milhares de sestércios

Em 1961, Asterix, o Gaulês, primeiro álbum, é publicado com uma tiragem de 6.000 exemplares. Seguem A foice de ouro, Asterix e os Godos, Asterix gladiador. Em 1965, o famoso guerreiro já conquistou os franceses, mas também o céu, visto que dá seu nome ao primeiro satélite do país. Publica-se Asterix em uma volta pela Gália, onde surge Ideiafix, pequeno cãozinho que só pensa em roer enormes ossos, acompanhar Obelix, e chora quando uma árvore é arrancada (snif!). Em 1966, Asterix entre os bretões tem enorme êxito, e L’Express consagra sua capa ao Fenômeno Asterix, a nova coqueluche dos franceses. No ano seguinte, se torna star de cinema. E diante dos cinemas, um druida distribui às crianças a poção mágica. Asterix inspirou 11 adaptações para cinema (8 de animação e 3 de imagem real), jogos, brinquedos e um parque temático.

Os títulos se multiplicam, o sucesso aumenta. Mas em 1977, Goscinny morre. Uderzo continua a aventura sozinho. Dois anos mais tarde, cria as Edições Albert René, misturando seus dois nomes. Em 1989, perto de Paris, é inaugurado o Parque Asterix, inspirado nos de Disney onde, instruindo-nos sobre o mundo greco-latino e a história romana, divertindo-nos com efeitos cômicos e espetáculos bem franceses. Em 1991, a rosa e o gládio bate todos os recordes: em três meses, mais de sete milhões de exemplares vendidos na Europa.

Para festejar os 35 anos, criou-se uma grande quantidade de objetos sobre o universo de Asterix, organizou-se uma exposição em Paris, a televisão apresentou programas. Um filme foi lançado, Asterix na América. Agora, no aniversário de 50 anos, aconteceram diversas comemorações, inclusive uma exposição no Museu de Cluny.

Texto: Florence Reynal

Dessin réalisé par Albert Uderzo pour le Figaro Magazine


L’exposition Astérix au Musée de Cluny
Até os dias de hoje foram lançados 33 álbuns com o personagem, um dos quais é uma compilação de histórias curtas. Asterix também inspirou 11 adaptações para cinema (8 de animação e 3 de imagem real), jogos, brinquedos e um parque temático.

Asterix reside com seus amigos em uma pequena aldeia gaulesa situada em uma península na Armórica, ao norte da antiga Gália. Para resistir ao domínio romano, os aldeões contam com a ajuda de uma poção mágica que lhes dá uma força sobre-humana, preparada pelo druida Panoramix. A exceção é Obelix, que caiu dentro de um caldeirão cheio da poção quando ainda era um bebê, e daí adquiriu permanentemente a superforça.


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