Elisangela roxo magarotto



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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – USP

ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES – ECA

CURSO DE GESTÃO INTEGRADA DA COMUNICAÇÃO DIGITAL EM AMBIENTES CORPORATIVOS

Edição na Cultura da Convergência – Um Estudo de Caso da Folha de S. Paulo

ELISANGELA ROXO MAGAROTTO


SÃO PAULO

2012


ELISANGELA ROXO MAGAROTTO


Edição na Cultura da Convergência – Um Estudo de Caso da Folha de S. Paulo

Monografia apresentada à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo como requisito básico para obtenção de título de especialista em Comunicação Digital.

Orientador: Marcelo Coutinho

SÃO PAULO

2012

Autorizo a divulgação e reprodução total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.
FICHA CATALOGRÁFICA
MAGAROTTO, Elisangela Roxo. Edição na Cultura da Convergência – Um Estudo de Caso da Folha de S. Paulo. Especialização em Comunicação Digital. Escola de Comunicações e Artes.

Universidade de São Paulo.2012.

Palavras-chave: convergência, jornal, edição, internet, Folha de S. Paulo

ELISANGELA ROXO MAGAROTTO

Edição na Cultura da Convergência – Um Estudo de Caso da Folha de S. Paulo
Trabalho de conclusão do curso de especialização em Gestão Integrada da Comunicação Digital em Ambientes Corporativos, pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
Aprovado em ______de___________ de 2012.
Aprovado por:
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___________________________________________
(Marcelo Coutinho)

Agradecimentos a Gersi Roxo Magarotto por ter me ensinado o que é fé e Francesca Angiolillo, por ter tido fé em mim.



INTRODUÇÃO
Não é exagero dizer que o computador revolucionou o jornalismo, tanto para o jornalista quanto para o leitor. Transformou os processos de produção e de consumo de notícia. Obviamente, a mecanização em si não era a novidade, mas a máquina digital que baniria a máquina de escrever, a montagem manual e a revelação fotográfica, sim.

E, é claro, deixaria a importância do jornal impresso em segundo plano na vida de milhares de leitores, estimulando as empresas de informação a investirem no conteúdo digital como alternativa ao papel. O computador baniu a máquina de escrever e os processos de montagem e revelação, mas foi a conexão entre eles que alterou o modelo de produção e distribuição do conteúdo.

Nos Estados Unidos, desde os anos 1980 já se falava exploração de outros ambientes não impressos.
“From the early 1980s to the mid 1990s, American dailies tinkered with a array of alternatives to print, from stand-alone videotex systems to web editions. I have argued that the 1980s was a decade of exploration of multiple technical, editorial, and comercial options. While newspapers continued to explore these options during the first half of 1990s, they progressively narrowed down their efforts around products delivered to personal computers conncected to online services until they finally settled on the web circa 1995.” (BOCZKOWSKI, 2005:48)

Por causa da reserva de mercado, as máquinas de escrever cederam lugar aos chamados “personal computers” no Brasil nos anos 1990. O papel se tornou um objeto de trabalho secundário para o jornalista, que podia até usar blocos para rascunhar ideias, mas não teria o papel como suporte para suas reportagens, fotos e manchetes. Antes de ir para a gráfica, a montagem do jornal, finalmente, seria feita via computador.

Além da facilitar essa demanda técnica do trabalho, os computadores também serviram de plataforma para a disseminação da internet nas redações, essa, sim, o carro-chefe da revolução no modo de fazer jornalismo.

A internet tornou-se não apenas uma fonte de informação para o jornalista como um meio de hospedagem para diversos jornais que até então eram apenas impressos e hoje estão disponíveis em computadores, celulares e tablets – ou praticamente qualquer aparelho conectado.

Ela também ampliou a comunidade de leitores, que podem acessar de qualquer lugar mundo, com conexão à internet, webjornais locais.

Todo o sistema de trabalho do jornalista e das empresas jornalísticas ainda seria afetado pela ampliação do acesso da internet, que começou a se popularizar com força no Brasil, principalmente a partir dos anos 2000.


“As constantes reestruturações e reengenharias efetuadas nas empresas informativas ao longo da década de 1990 no país reduziram muitos cargos como o de copydesk ou de o produtor gráfico, mas as etapas de produção jornalística ainda estavam divididas em cargos bem demarcados, como acontece até hoje nas grandes corporações. Em menos de cinco anos de funcionamento da internet, aquela noção de ordem e de rotina produtiva ditada pelos meios industriais – em que o trabalho do repórter é apenas uma etapa na cadeia de produção que termina nas rotativas e na distribuição do produto ao leitor – foi subvertida pelo ritmo frenético do noticiário no ciberespaço, que passou a buscar a instantaneidade para a mensagem jornalística escrita.” (MARTINEZ, 2007:15)

O papel perdeu espaço como plataforma para a produção jornalística e deu lugar aos ambientes virtuais. E transformou também a forma de “ler”. BARDOEL e DEUZE (2000) consideram que a notícia on-line possui a capacidade de fazer com que o leitor/usuário sinta-se parte do processo jornalístico.

Se os primeiros jornais eram compostos apenas de texto e imagens ilustrativas, hoje as plataformas que abrigam as notícias se tornaram híbridas (ou convergentes, como se verá mais à frente): uma mesma notícia pode ter texto, vídeo, hiperlinks, fotos, galeria de fotos e espaço de interação (compartilhamento via Twitter e Facebook, por exemplo, e também espaço para comentários de leitores).

Faz-se interessante lembrar que quanto à interação com leitores, quando se tratava do impresso, havia apenas, basicamente, dois canais diretos: telefone ou cartas. Era principalmente por meio de seções de cartas do jornal que se media a reação dos leitores à publicação. E, obviamente, elas passavam por mais de um filtro antes de serem publicadas.

A internet reduziu o poder dos filtros. Os leitores podem nos jornalísticos disponíveis na web comentar quantas vezes desejarem uma notícia no espaço virtual reservado para comentários (geralmente disponíveis logo abaixo dos textos publicados). Também podem repercuti-las publicamente via redes sociais, sem qualquer tipo de filtro ou controle das empresas de comunicação.

O papel hoje sofre ainda concorrência da internet nos computadores, nos telefones celulares, em tablets e diversos displays de conteúdo virtual, como televisores em elevadores e transporte público – isso sem citar os meios tradicionais, como TV e rádio. A informação parece estar em qualquer lugar.

Daí vem a ideia de que a web pegou a instantaneidade emprestada do rádio. O tempo de apuração de uma notícia encurtou para se aproximar do tempo real.

Se antes um repórter tinha ao menos um dia para confirmar uma informação, escrever seu texto e tê-lo editado pelo editor, o mesmo processo hoje pode tomar apenas alguns minutos. E nem sempre há um editor presente no processo.

A internet, no entanto, não é apenas um novo meio, como foram o rádio e a TV, cada um acrescentando um canal sensorial à comunicação existente: o sentido da audição, no caso do rádio, e o da visão, no da TV. A web representa uma mudança de paradigma comunicacional muito mais ampla que a adição de um sentido. Ela oferece um alcance global, rompendo barreiras de tempo e espaço lineares.

Na era digital, portanto, distâncias não são mais medidas em quilômetros, já que a web permite um encontro simultâneo em plataformas virtuais, independente de onde estão fisicamente os interlocutores. Assim, a produção de um jornal na internet também tem seus processos e ciclo produtivos afetados no ciberespaço.


“Um jornal tem hora específica diária para terminar seu ciclo produtivo, ou “fechar”, e ir para a gráfica. É a etapa final e mais mecanizada de um processo eminentemente industrial (ou seja, cada parte é independente e a junção das partes com a interferência da máquina é que resulta no produto). Na web, várias dessas funções e máquinas são numa só figura – o jornalista digital, que acumula todo o processo com um computador na mão e algumas ideias na cabeça. O tempo da produção industrial é o tempo das rotativas, determinado pelas máquinas, enquanto o fazer é dividido entre repórteres, redatores, editores, fotógrafos, artistas gráficos e diagramadores, função assumida por muitos editores e editores-assistentes na década de 1990.” (MARTINEZ, 2007: 24)

1. A ORGANIZAÇÃO DAS CIBERNOTÍCIAS

O ambiente digital também trouxe uma nova hierarquia para a organização das notícias. O papel tem diversas limitações de espaço, determinado pelo próprio tamanho padrão das folhas (se standard ou tabloide, por exemplo), anúncios, fotografias e artes gráficas.

As notícias mais importantes também tendem a aparecer nas primeiras páginas e no alto de cada uma delas. Então, se um determinado caderno de jornal tem, por exemplo, seis páginas, o que está na capa ou primeira página é o que ali foi considerado informação mais nobre.

Da mesma forma, o que está na parte de cima de cada página é mais importante do que está embaixo. A informação da terceira página é mais importante do que é a da quinta. É claro que seções fixas fazem variar esse juízo de valor. Se a página quatro, por exemplo, traz diariamente o texto de um colunista cujo trabalho repercute sempre entre os leitores, pode ser que o conteúdo que divida o espaço com o referido tenha sido escolhido para estar ali para ter mais visibilidade.

Na internet, por outro lado, fala-se em árvore informativa (MARTINEZ, página 29). Uma notícia principal seria o “galho”, que sustenta a informação, as demais notas que surgem são “penduradas” em hiperlinks ao redor (principalmente no caso de coberturas especiais, como um festival de música ou um acidente de avião), seria um tipo de organização rizomática.

Há diversas hierarquias, porém que podem se dar no ambiente digital. Um portal de notícias tem a “home” como sua primeira página, onde a regra se assemelha ao papel. O que está no alto é mais importante do que o que está embaixo. Porém, o que aparece do lado esquerdo é menos nobre (geralmente o espaço é reservado para menus de navegação, como índices – isso porque a leitura se dá do centro para a direita da tela, seguindo a sequência de leitura da escrita ocidental) do que o que está ao lado direito.

Além da “home”, as notícias também podem ser acessadas via redes sociais, onde os grandes veículos mantém perfis corporativos, e ainda por compartilhamento espontâneo dos próprios leitores –que podem retuitar um conteúdo via, é claro, Twitter, ou ainda republicar e repercutir conteúdos via Facebook, entre outras redes sociais.

O percurso da navegação dentro de um site noticioso, aliás, também é uma fonte de construção de sentido para o leitor:


“O ambiente digital oferece informações que são topologicamente distribuídas em arquiteturas que podem, inclusive, simular ambientes físicos em que há a ilusão de circulação espacial. […] O percurso de navegação entre sites diferentes ou dentro de um mesmo site também produzem sentidos para o leitor e interferem na construção do sentido final. A navegação se constrói por percursos do usuário através de sequências de lexias, isto é, as sequências de textos ou parte de textos, imagens ou sons, percorridos pelo usuário por meio de links, e que constituem o que Lemke denomina de 'texto lido'.” (BRESSANE, 2007:153)
A migração do conteúdo de jornais impressos para o ambiente on-line, segundo CASTELLS, foi motivada pelo interesse das empresas jornalísticas em não perder seus leitores. E, além disso, os jornais têm a credibilidade, conquistada ao longo de anos, como um diferencial no mar de informação da internet.

Ora, o ciberjornalismo nada mais é do que uma prática que usa o ciberespaço para investigar, produzir e difundir conteúdos jornalísticos (SALAVERRÍA, 2005: 21).


1.2 A ECONOMIA DO PAPEL

O mercado de jornais, que, é claro, surgiu com o papel como plataforma, discute há muito tempo qual seria a melhor solução para a manutenção do negócio.


“Nos últimos anos, inúmeras reportagens amplamente divulgadas em diversas mídias deram conta de uma “crise” que se instalara no modelo de negócios do jornalismo tradicional, principalmente relacionadas à queda na circulação dos jornais impressos (principalmente nos Estados Unidos, mas também no Brasil) – um possível efeito colateral da popularização da internet como forma de buscar ou receber notícias ” (GUERRA, 2011:18)

Dados compilados pelo Instituto Verificador de Circulação (IVC) apontam que, em 2009, a circulação somada dos 20 maiores jornais brasileiros caiu 6,9%. Segundo o Último Segundo, os jornais cariocas O Dia e Meia Hora apresentaram queda de 31,7% e 19,8%, respectivamente. (Portal Imprensa, 2010 – apud GUERRA, 2011)


Apesar de esta continuar sendo uma preocupação legítima das empresas jornalísticas em todo o mundo, no Brasil, em 2012, a situação parece ter melhorado um pouco para o impresso. Depois de o mercado assistir por anos uma queda vertiginosa na circulação dos jornais impressos, neste ano, ela voltou a crescer.
A circulação de jornais no Brasil aumentou 2,3%, em média, no primeiro semestre deste ano, informou o IVC (Instituto Verificador de Circulação).

Conforme os dados desse período, foram consumidos em todo o país, em média diária, 4.543.755 jornais, maior número já registrado pelo IVC. (Folha de S. Paulo, 2012)


O processo de convergência, no entanto, independente do aumento ou queda da circulação, se mantém em curso. Não se trata aqui de discutir o desaparecimento do papel, mas, sim, o surgimento de fluência de várias mídias para a mesma plataforma virtual. O caminho da convergência de meios parece hoje inevitável.
1.3 A CONVERGÊNCIA

JENKINS discute a relação entre o conceito de convergência dos meios de comunicação, cultura participativa e inteligência coletiva.

“Por convergência, refiro-me ao fluxo de conteúdos através de múltiplas plataformas de mídia, à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação que vão quase a qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam. Convergência é uma palavra que consegue definir transformações tecnológicas, mercadológicas, culturais e sociais, dependendo de quem está falando e do imaginam estar falando.” (página JENKINS, 2008:29)
De forma geral, a convergência é um híbrido ou mescla de mídias, mas o autor preocupa-se em defini-la também como “um processo”.

É um processo de produção e de consumo de mídia. A convergência cruza meios (como texto, áudio e vídeo, por exemplo, ou mesmo conteúdos complementares de jornal impresso e jornal on-line) para formar uma mídia híbrida. Neste trabalho, o conceito se aplica ao jornalismo praticado via web (seja qual for o suporte de navegação ou leitura).

Num primeiro momento pensou-se que a convergência seria um fenômeno que uniria diferentes aparelhos eletrônicos, um tipo de controle remoto universal que reunisse diversos suportes. Nos anos 1980, era usada em referência ao desenvolvimento tecnológico e digital, período em que não se sabia se um meio iria ou não se sobrepor a outro – a referência é a velha discussão sobre se o rádio vai “matar” o cinema, a TV vai “matar” o rádio, e hoje, se a internet “mataria” todos eles.
“A palavra 'convergência' foi sendo subsequentemente aplicada a organizações e processos, em especial a junção das indústrias de mídia e telecomunicações. Ela também teve empregos diversos e abrangentes em relação a sociedades e culturas, inclusive na sociedade e cultura britânicas durante a década de 1930...” (BRIGGS & BURKE, 2006:267)
Mais tarde, o conceito ficou ligado definitivamente à convergência de conteúdos e não de formas.

“Professores de história dizem-nos que os velhos meios de comunicação nunca dormem nem desaparecem, necessariamente. O que morre são apenas as ferramentas que usamos para acessar seu conteúdo – a fita cassete, a betacam. São o que os estudiosos dos meios de comunicação chamam de tecnologia de distribuição. […] As tecnologias de distribuição tornam-se obsoletas.” (JENKINS, 2008: 41)


JENKINS destaca que a circulação de conteúdos depende da participação ativa dos consumidores e que, portanto, a convergência deve ser compreendida como um processo tecnológico que contribui para a união de diversas funções dentro dos mesmos aparelhos, além de também representar uma transformação cultural, na qual os consumidores aprendem e se habilitam a fazer novas buscas de informação e conexões entre conteúdos dispersos.

O autor explica ter utilizado em sua teoria a definição de “protocolo” da pesquisadora Lisa Gitelman, a qual ele aplica em seus estudos de convergência sobre a produção e o consumo de mídia. Enquanto ele foca em macroaspectos da produção midiática, este trabalho pretende olhar para os protocolos do ciberjornalismo em ambientes convergentes.

“The instrument and all of its supporting protocols (norms about how and where one uses it, but also standards like units of measure) have become self-evident as the result of social processes that attend both laboratory practice and scientific publication. Media technologies work this way too. Inventing, promoting, and using the first telephones involved lots of self-conscious attention to telephony. But today, people converse through the phone without giving it a moment’s thought. The technology and all of its supporting protocols (that you answer “Hello?” and that you pay the company, but also standards like touch-tones and twelve-volt lines) have become self-evident as the result of social processes, including the habits associated with other, related media. Self-evidence or transparency may seem less important to video games, radio programs, or pulp fiction than to telephones, yet as critics have long noted, the success of all media depends at some level on inattention or “blindness” to the media technologies themselves (and all of their supporting protocols) in favor of attention to the phenomena, “the content,” that they represent for users’ edification or enjoyment.8 When one uses antique media like stere- oscopes, when one encounters unfamiliar protocols, like using a pay telephone abroad, or when media break down, like the Hubble Space Telescope, forgotten questions about whether and how media do the job can bubble to the surface.(GITELMAN)
Ela explica ainda que os denominados protocolos servem para explicação de relações sociais, econômicas e materiais. Assim, se na telefonia dizer “alô” é um protocolo, também o são cabos que conectam materialmente os interlocutores, e o ciclo de contas mensais cobrados dos clientes.

No ciberjonalismo, as perguntas-bases da pirâmide invertida (quem, o quê, quando, onde e por que?) são protocolos de práticas on-line e offline, mas dominar as ferramentas do computador, colocar hiperlinks que também ajudem a compor a pirâmide o são. Este trabalho foca os protocolos que fazem o deslocamento de um mesmo conteúdo por mais de uma mídia.

Hoje, não basta apenas responder às questões centrais de construção do lead, mas também entender o destino final do conteúdo, a qual suporte ele se destina primeiro e, definido este destino inicial (que pode ser o jornal impresso ou o site de notícias), para onde mais ele pode e deve ser distribuído.

Para tanto, como se verá mais a frente, foi levantado o estudo de caso da Folha de S. Paulo, que começou como um jornal impresso há mais de 90 anos, e hoje tem como suporte de conteúdo, além do papel, celular, tablet, computador e televisão.

Assim, quando se fala em mídia, há duas dimensões que podem ser consideradas. A primeira se refere ao meio tecnológico que permite a comunicação (o suporte). O segundo é o conjunto de práticas [associadas entre si e/ou ligadas a atividades sociais e culturais] que se desenvolvem em torno da tecnologia (a prática do jornalismo, propriamente dito).

Da mesma forma como Jenkins usou os conceitos de convergência dos meios de comunicação, cultura participativa e inteligência coletiva para olhar para produtos culturais como o filme Matrix ou a série Heroes, este trabalho pretende aplicá-los para uma análise dos produtos jornalísticos nas diferentes mídias em que atua a Folha de S. Paulo.


“Empresas de mídia estão aprendendo a acelerar o fluxo de conteúdo de mídia pelos canais de distribuição para aumentar as oportunidades de lucros, ampliar mercados e consolidar seus compromissos com o público.” (JENKINS, 2008)
A narrativa digital das notícias nos suportes on-line também é objeto de estudo deste trabalho, que entende serem os quatro básicos aspectos do elemento mídia: configuração, tipo, ritmo e edição.
“A configuração diz respeito à combinação de mídias usadas por quem desenvolve o conteúdo. Textos, fotos, gráficos, áudio, vídeo e animação podem ser usados sozinhos ou combinados.” (NORA, 2007:123)

2. O MERCADO CONVERGENTE E A FOLHA

A Folha de S. Paulo é uma escolha para estudo de caso deste trabalho não somente pela dimensão jornalística, mas também por suas iniciativas on-line. Originalmente um jornal diário, a empresa tem apostado na convergência como uma solução mercadológica para se manter na liderança do mercado.

Os conteúdos jornalísticos da empresa se dividem em jornal impresso, site de notícias, aplicativos para tablet e celulares, replicação em redes sociais e um programa semanal na TV Cultura de São Paulo. O conteúdo do jornal pode usar, então, como suporte computador, celular, tablet e televisão. Também há distribuição de conteúdo via Folhapress, empresa que comercializa a produção de notícias da empresa. Por se tratar apenas de um ramo de distribuição, este trabalho não irá abordar a Folhapress.

O jornal diário impresso foi criado em 19 de fevereiro de 1921 como Folha da Noite. Em 1925, o veículo se estendeu como Folha da Manhã. Em 1949, após ser adquirida por um novo grupo surgiu também a Folha da Tarde. Os três jornais em 1960 foram agrupados sob o nome.

Em 1995, surgiu o site de notícia Folha Web, que foi chamado de Folha Online e Folha.com, até a última mudança em junho de 2012, quando adotou o mesmo nome do jornal impresso, Folha de S. Paulo, para consolidar o modelo de integração dos conteúdos de impresso e em 2011, o jornal passou a ter sua produção noticiosa integrada ao programa TV Folha, que vai ao ar aos domingos na TV Cultura.

A Folha replica ainda seus conteúdos via aplicativos para tablet e celular e SMS, e por meio de perfis no Twitter, Facebook, Instagram.


2.1 FOLHA DE S. PAULO EDIÇÃO IMPRESSA

A versão impressa da Folha de S. Paulo é atualmente o segundo jornal de maior circulação no país, segundo dados de 2011 do IVC (Instituto Verificador de Circulação), com tiragem média de 286.398 exemplares diários. Perde apenas para o periódico mineiro Super Notícia, um veículo que tem um exemplar comercializado por R$ 0,25. O exemplar da Folha de S. Paulo é comercializado localmente por R$ 3 durante a semana e R$5 aos domingos (os valores são para o estado de São Paulo, praça de origem do jornal).

O jornal é distribuído para todo o país, mas seu foco de atuação é o estado de São Paulo. Nesse contexto, seu principal concorrente é o jornal O Estado de S. Paulo.

Hoje tem cinco cadernos diários: o primeiro caderno concentra as editorias de Opinião (que traz os editorias e artigos de convidados, além da carta ao leitor e a seção de erramos), Poder (com as notícias políticas nacionais), Mundo (com as notícias de política internacionais) e Ciência+Saúde; Mercado é o segundo caderno, que traz reportagens sobre economia; Cotidiano concentra os assuntos ligados à cidade de São Paulo, como crimes e política local, educação e comportamento em geral – o caderno em sua última página tem ainda a chamada Folha Corrida, um formato aparentemente inspirado em sites da web, em que toda a página é composta de fotos e remissões para matérias do jornal em versão on-line e para reportagens e colunas publicadas na edição do dia; Esportes tem a cobertura da principais modalidades esportivas, em especial para os campeonatos de futebol; Ilustrada traz as reportagens de temas culturais, como música, literatura, artes plásticas, teatro e televisão.

O jornal tem também os cadernos publicados periodicamente uma vez por semana. É o caso de Tec, que circula às segundas-feiras, com assuntos sobre tecnologia. No mesmo dia também é distribuído o The New York Times, caderno fruto de uma parceria com o jornal americano, que traz notícias de destaque daquele diário. Equilíbrio circula às terças, com conteúdo de saúde e bem-estar. Às quartas, é a vez do semanal Comida, com reportagens sobre gastronomia. Às quintas, Turismo aborda matérias sobre destinos turísticos, como sugere o nome. O Guia da Folha circula às sextas, com conteúdo voltado ao entretenimento no fim de semana. O jornal reserva aos sábados a circulação do semanal voltado ao público infantil, a Folhinha.

Domingo é o dia em que o jornal tradicionalmente tem mais páginas. Isso por conta dos cadernos de classificados, que são Empregos, Imóveis, Negócios e Veículos. Cada um deles, além dos anúncios, trazem também reportagens relativas a cada área. Aos domingos também circulam a Ilustríssima, suplemento cultural, a revista São Paulo (de circulação restrita à capital do Estado). Uma vez por mês, aos domingos, é distribuída com o jornal (ainda com circulação restrita a cidade de São Paulo) a revista Serafina, que traz perfis e reportagens culturais e de comportamento.


2.2 A FOLHA DE S. PAULO NA INTERNET

A internet comercial no Brasil começou a funcionar em 1994 (PRADO), por iniciativa da Embratel. No mesmo ano, foi lançado (o já extinto) navegador Netscape. Nesse mesmo ano, estima-se que 52% das redações americanas já se utilizavam de recursos on-line e o pioneiro naquele país a lançar uma versão online foi o jornal San Jose Mercury. No Reino Unido, o Telegraph também entrava na onda.

O primeiro jornal brasileiro a se posicionar on-line foi o Jornal do Brasil, em 1995, e, desde 2010, circula apenas com uma versão para web. No mês seguinte, o diário gaúcho Zero Hora, também lançou uma versão online. No mesmo ano, a Folha de S. Paulo lançou a Folha Online, sua versão na internet. O New York Times apostou na web apenas um ano depois (PRADO).

A história da Folha Online começou em 1995, quando o Grupo Folha colocou na Internet um site, à época chamado de FolhaWeb, que publicava parte dos textos do jornal impresso Folha de São Paulo, e não era atualizado nos finais de semana. No ano seguinte o Grupo lançou o provedor Universo Online, que acabou por se fundir com o Brasil Online, do Grupo Abril, constituindo uma nova empresa, o Universo Online S.A. (UOL). Desta fusão, surge em agosto de 1999 o primeiro canal de notícias em tempo real do Brasil: A Folha Online. Paralelamente, a versão eletrônica da Folha de São Paulo continuou sendo inserida no site. O site passou por diversas mudanças desde seu lançamento.

Mesmo tendo surgido em decorrência da experiência de uma edição impressa, a Folha Online extrapola a ideia de ser uma versão online de um jornal convencional. A Folha de S. Paulo, inclusive, é apenas um dos itens disponíveis no site, mas que só pode ser acessada por assinantes do UOL ou do jornal, diferentemente da Folha Online, que pode ser acessada por qualquer internauta. E, apesar do jornal impresso produzir matérias e colunas que são publicadas na Folha Online, o site possui uma equipe de reportagem própria para criação, produção e desenvolvimento de conteúdo jornalístico para o meio digital.

Em maio de 2006, o site estreou um novo projeto gráfico. Observa-se que as mudanças vão de encontro com o a terceira fase de desenvolvimento do jornalismo na Web. Segundo matéria publicada na Folha Online (5), as páginas passaram a adotar um formato mais largo (1.024 pixels) para explorar melhor a resolução dos monitores mais modernos. As mudanças visuais também ocorreram para combinar mais com o ritmo do noticiário online. Novas ferramentas que aumentam a interação e a participação dos leitores também foram incluídas no novo projeto do site. (LIMA, 2006)


Desde 2010, a Folha Online e a Folha de São Paulo passam por um processo de integração das redações. Num primeiro momento houve a aproximação física das equipes voltadas à produção de conteúdo impresso e on-line. Em maio daquele ano, o processo de integração, que previa também uma reforma editorial e visual do jornal impresso e do site foi concluída.

“O objetivo é que ambas as plataformas noticiosas passem a conversar de maneira ágil e completa do que já ocorre hoje, ampliando as possibilidades de acesso do leitor a informações e serviços de seu interesse e necessidade... Sem desconsiderar a identidade de cada plataforma, a Direção de Redação da Folha acredita que uma maior sintonia entre os dois meios é, mais do que simplesmente inevitável, benéfica ao leitor. A integração impõe ao jornal o desafio de oferecer um noticiário que seja ágil e ao mesmo tempo preserve sua qualidade.” (Matéria da Folha em 11 de abril de 2010)

Em junho de 2012, a Folha Online adotou o paywall – muro de cobrança poroso, em livre tradução para o português, já adotado por outros jornais no exterior como o The New York Times –, e passou tomou para si a alcunha de Folha de S. Paulo.

Todo o conteúdo do jornal impresso agora está disponível também no site. O acesso funciona da seguinte forma: qualquer usuário pode acessar livremente 20 matérias; depois disso, o sistema faz uma requisição de cadastro de e-mail, que dá acesso a mais 20 matérias; depois do acesso a 40 matérias, portanto, de acesso gratuito, o usuário é avisado de que precisa assinar o serviço se quiser continuar lendo o conteúdo do site.

A assinatura custa R$ 29,90 mensais, valor que é uniforme para qualquer lugar do planeta. O primeiro mês é oferecido por R$ 1,90.

Essa assinatura digital também dá acesso à livre navegação pelo conteúdo disponível por celulares e tablets. Quem é assinante da versão impressa da Folha de S. Paulo, cujo o valor mensal é de R$ 70 tem acesso a todo o conteúdo online, em qualquer plataforma.

“A lógica que a empresa tomou nos últimos anos, como fizeram muitos jornais no mundo todo, é de unificar o processo de produção de notícias. Até abril de 2010, as redações de impresso e papel eram separadas, agora os processos de apuração da notícia se juntam em um só. Começou a se pensar na redundância de ter muita gente fora da redação, se de fato seria necessário que isso ocorresse. Achamos que seria possível coordenar melhor as pessoas que a gente tem para haver um fluxo único de apuração de notícia e a partir desse caldeirão de notícias descobrir quais são aqueles que você quer publicar. É um caminho que todo está tomando”, explica o editor de novas plataformas Roberto Dias sobre a unificação das redações de impresso e on-line.

Ele reflete ainda, porém, que este é um processo complexo. “É claro que isso é mais complicado do que isso que estou falando. Você não vai conseguir levar um determinado conteúdo para o TV Folha, se não sair com uma câmera que grave vídeos. Não vai conseguir publicar uma galeria de fotos, se não tiver um fotógrafo junto com o repórter de texto. Essa coordenação exige um processo maior para funcionar e a Folha está trilhando este caminho, mas ainda tem muita estrada para avançar”, ele completa.

A divisão por editorias é mantida também na versão on-line no site da Folha de S. Paulo. A edição do conteúdo no site, porém, varia de editoria para editoria.

Na internet, o texto do impresso é produto da convergência e pode ganhar hiperlinks, galerias de foto ou ainda ter “embedado” vídeos relacionados ao originalmente publicado no online. Outros conteúdos podem ser agregados à árvore informativa, como íntegra de entrevistas, áudios ou mesmo podcasts com comentários dos autores de um determinado texto.

Há também produção de conteúdo exclusivo para o site, que não “caberia” no jornal impresso – pela limitação do papel e por conta da urgência de algumas informações, as quais todos os veículos costumam publicar ao mesmo tempo no meio online, como notícias oficias de governo, por exemplo, ou resultado da loteria.

Há ainda uma versão digital do jornal, que adota o formato do jornal de um tipo de animação, feita pela empresa Digital Pages, que reproduz online o conteúdo do papel no mesmo formato de publicação do impresso.

O site da Folha de S. Paulo tem atualmente cerca de 250 milhões de páginas vistas por mês. Boa parte desse tráfego vem dos visitantes do portal Uol, do qual a Folha é parceira. Segundo o Ibope, o portal é líder em audiência no país, com cerca de 4,9 bilhões de páginas vistas por mês.

Cabe notar que essa audiência vinda do portal, assim como também dos assinantes, a Folha de S. Paulo acaba investindo pouco em indexação e SEO (search engine optmization), que é processo de melhorar a visibilidade de um site em ferramentas de busca como o site Google oferece; em geral, os primeiros resultados em buscadores costumam ter mais visitantes.

Roberto Dias explica: “Usamos muito pouco [SEO], mas não é por conta do nosso sistema de publicação, mas por uma decisão conjunta de todos os jornais, não apenas a Folha, que tomaram a decisão de sair do Google News por conta da política do Google e propriedade intelectual. Como ele é aberto, o usuário não vinha para o site e os jornais ficavam sem essa audiência. Essa é uma posição da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), que continua valendo até agora. O paywall reabre a discussão porque se publicarmos uma informação de tamanho menor, a publicação não é gratuita, já que o conteúdo não é totalmente aberto. Quem entrar já vem sob o regime de paywall. O Google é muito importante para o Estadão e O Globo, mas a gente tem um tráfego importante que vem do Uol, que é grande”.
2.2.1 A FOLHA DE S. PAULO EM CELULARES E TABLET

Desde janeiro de 2012, a Folha de S. Paulo passou a utilizar a tecnologia de HTML5 para unificar o acesso a seu conteúdo por celulares e tablets. O HTML5 é uma linguagem de apresentação de conteúdo para a web, que atende a diferentes sistemas operacionais, como o Windows e Mac OS.

Há um aplicativo disponível nas lojas de apps de sistemas operacionais android e iOS, que orienta o usuário a salvar na área de trabalho o ícone que dá acesso ao conteúdo.

Segundo Roberto Dias, a iniciativa de usar a tecnologia veio para resolver de uma forma simples a questão de desenvolvimento de um aplicativo para os diferentes sistemas adotados por aparelhos.

Pela iTunes Store, também possível baixar em formato PDF a edição do dia do jornal. Para assinantes das versões impressa e digital, o download é gratuito. É possível comprar a edição por US$ 1,99.

Ainda é possível acessar o conteúdo pelo browser mobile. Há, nesse caso, um layout simplificado (pelo m.folha.com.br) e também a versão semelhante à do site, acessível a partir de navegadores mobile.

A empresa ainda disponibiliza um serviço de atualização de notícias pelo celular, desenvolvido apenas para assinantes da operadora Claro, cujos pacotes de notícia via SMS custam R$ 9.

O celular e o tablet têm sido uma grande aposta da empresa. Camila Marques, secretária-assistente digital da Folha de S. Paulo explica: “O número de gente que acessa o jornal via tablet e celular cresce de uma maneira exponencial. O acesso via tablet e celular está em 5% do site e crescendo muito rápido. Então se a gente tem 250 milhões de pageviews, 10 milhões vem de quem está em via internet no celular. Em relação a isso a Folha primeiro criou um aplicativo para iPad, que estava disponível na loja da Apple e esse ano criou o aplicativo com linguagem HTML5, que é uma tecnologia leve tem a vantagem de não servir para apenas um tipo de equipamento.”

Roberto Dias explica que o sistema do celular antecipa uma intenção da Folha de S. Paulo em unificar também seus sistemas de publicação. Atualmente, o sistema utilizado para a produção do jornal impresso não tem interligação com o publicador da versão on-line, tampouco esse guarda conexão com qualquer outro sistema.

“A gente tentou dar no celular este passo que precisamos dar em relação aos outros sistemas, então, a gente alimenta e ele mesmo faz uma versão para tablet e uma para celular, a partir de uma única atualização.”

O interesse da empresa em investir em conteúdo mobile também reside no entendimento de mercado de que a quantidade de celulares está aumentando e essa é uma mídia que pode atrair público para a empresa.

Roberto Dias explica: “Na questão do mobile, o aumento da renda da população que se viu nos últimos anos, mais o avanço tecnológico e o barateamento de equipamentos fez com que a gente desse um salto muito rápido no que diz respeito a celular. Tem mais de um celular por habitante no Brasil hoje do que há um ano. A gente 240 milhões de linhas hoje. Claro que muitas são fantasmas, cemitério, mas linhas vendidas mesmo se aproxima desse número. Por outro lado, o acesso de banda larga fixa tem se estagnado, se você olhar a curva, a minha opinião é de que dificilmente ela deve voltar a crescer tanto quanto nos últimos anos. O salto vai se dar pelo celular, principalmente entre os mais pobres, espelhando o que aconteceu na África. Muita gente que entrou na internet pela primeira vez na vida por lá foi via celular. E acho que isso acontece também com a gente no Brasil”.



2.2.2. PERFIL DA FOLHA DE S. PAULO NAS REDES SOCIAIS

A empresa mantém perfis ativos no Facebook, no Twitter e no Instagram. Os dois primeiros são mantidos por uma equipe que responde pelas redes sociais da Folha de S. Paulo. Segundo o editor de novas plataformas do jornal, Roberto Dias, o Twitter é atualizado automaticamente principalmente com conteúdo. Os perfis acompanham a mesma divisão das editorias e é equipe da redação que os mantém atualizados.

O direcionamento sobre o posicionamento on-line é dado pela editoria de mídias sociais. Também é esta equipe que mantém por processo manual a atualização das notícias da página da Folha de S. Paulo no Facebook. As notícias que são escolhidas para publicação nessa rede social são aquelas que têm potencial para suscitar o debate na rede.

A atualização da rede social de imagens feitas por celular fica sob responsabilidade da editoria de fotografia da empresa. Ali, é diariamente publicada a primeira página do jornal, algumas imagens que compõem a edição do dia e muitas fotos de bastidores do jornal. O direcionamento pouco noticioso se justifica, explica a secretária-assistente da Folha de S. Paulo Camila Marques pela natureza afetiva do Instagram, que é uma rede social de imagem em celulares, em que os usuários costumam postar cenas do cotidiano.

A página da Folha de S. Paulo no Facebook em setembro de 2012 reunia cerca de 1,1 milhão de fãs, enquanto o Twitter principal da empresa (@folha_com) tinha 550 mil seguidores. O perfil no Instagram registrava 10k de seguidores.

Há pouco mais de um ano, em junho de 2011, o perfil da Folha no Facebook tinha 394.390 fãs na página oficial no Facebook, segundo GUERRA. Os número de seguidores no período praticamente triplicou.


2.3 A TV FOLHA

A TV Folha começou como uma central de produção de vídeos para a internet no ano início de 2011. Nesse período uma equipe do jornal produzia reportagens em vídeo que complementavam o conteúdo do impresso ou mesmo conteúdo exclusivo para publicação no site. A ideia era produzir pequenos documentários.

Em 2012, a convite da TV Cultura, emissora pública de São Paulo, a editoria passou a produzir conteúdo para um programa na TV Cultura, que é exibido aos domingos, às 19h30, com reprises à meia-noite, explica Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha de S. Paulo. Com duração de meia hora, a atração traz versões impressas de matérias que foram publicadas durante a semana e adiantam notícias que devem ser publicadas ao longo da semana seguinte. Segundo João Wainer, editor da TV Folha, o programa buscou inspiração também no formato de documentário para encontrar uma linguagem para seu conteúdo na televisão.

Desde sua estreia, o programa tem registrado média de audiência na televisão de 1 ponto no Ibope, sendo que 1 ponto representa 60 mil domicílios na região da Grande São Paulo. O programa também fica disponível para ser assistido pela internet após sua transmissão na TV.

O site de hospedagem de vídeos YouTube é a principal fonte de armazenamento dos vídeos produzido pela empresa. Até o fim de setembro de 2012, o canal da Folha de S. Paulo no YouTube registrava mais de 12,4 milhões de views.

Para a secretária-assistente digital Camila Marques, o investimento da Folha de S. Paulo em televisão não está no âmbito da inovação, mas abre mais uma frente de atuação para o jornal. “O programa na Cultura passou a existir porque a Folha conseguiu fazer e criar uma marca de televisão e vídeo na internet. É um desafio. Não é inovar, mas é mais uma frente de exposição para o produto.”

O caminho do conteúdo do TV Folha da internet para a TV, explica Sérgio Dávila, não foi um recurso ideológico, mas motivado por carência de recursos. “A ideia era fazer a TV Folha para produzir para o site. Eram vídeos de qualidade e tinham linguagem própria. Isso atraiu a TV Cultura, que nos convidou a fazer um programa. O jornal não tem recursos para fazer tudo o que gostaria, então, naquele momento, a gente teve de fazer uma ‘escolha de Sofia’ de interromper a produção exclusiva na internet porque a gente nunca havia estado na TV. Depois, podemos retomar se for o caso, por isso, essa espécie de 'downgrade'. Não era a troca por uma mídia mais estabelecida, mas uma em que não tínhamos experiência.”
3. PROTOCOLOS TRANSMÍDIA NA FOLHA

Os protocolos de produção do notícia – independente da mídia para onde são feitos – seguem os mesmos padrões na Folha de S. Paulo, serão desenvolvidos a seguir.

Com o advento da internet, houve uma ampliação do espaço para a publicação de notícias. Elas não são mais limitadas ao espaço do papel, mas podem também ir para o site ou ainda ter desdobramento no programa de televisão produzido pela empresa.

O sistema de produção de notícias da Folha de S. Paulo mira um única árvore de produção de conteúdo, cujos produtos são repassados às mídias com as quais o grupo trabalha: basicamente internet (site, celulares e tablets), papel e TV Folha.

A distribuição desse material prioriza o jornal impresso, segundo o editor-executivo Sérgio Dávila. “Nosso principal cliente hoje ainda é o assinante do jornal impresso, por isso, nós privilegiamos guardar a informação exclusiva para esta mídia”, ele explica.

Leonardo Cruz, editor do caderno de tecnologia Tec, explica que há dois caminhos na avaliação da publicação de uma notícia.

“Acho que tem duas coisas principais: o primeiro caminho são as pautas exclusivas, nossos investimentos, sabemos não correr o risco de tomar furo [no jargão jornalístico, furo é a notícia exclusiva, a qual nenhum outro concorrente tem acesso]. O círculo do noticiário dessas matérias começa no papel, então, ela é feita para sair no caderno e no momento que sai no caderno vai também para o site. Então, resumindo, ela começa no papel e vai para o site. A outra possibilidade é o que o jornal todo chama de noticiário “commodity”, que são as notícias “hard news”, no caso do Tec, representam os lançamentos de produtos, novidades de redes sociais e coisas que surgem durante a semana, pautas inesperadas ou que a gente sabe que vão surgir em datas específicas e não podem esperar o papel. Essas vão para o site primeiro e depois para o papel. Se há muita urgência, elas são publicadas no dia no caderno Mercado [o caderno diário de economia da Folha de S. Paulo]. Ou no Tec na semana seguinte, geralmente aí com uma roupagem diferente. Há notícias que surgem no site e depois vão para o papel, com desdobramentos diferentes.”
3.1 A ORIGEM DA INFORMAÇÃO

As reportagens, portanto, começam pelas seguintes entradas na Folha de S. Paulo:



  1. . Agência Folha: Editoria que concentra equipe de produção de notícias em todo o país, com exceção das sucursais de Brasília, Rio de Janeiro e Ribeirão Preto. Há uma equipe baseada em São Paulo que divide a produção de conteúdo sobre os estados brasileiros, além de repórteres alocados em Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, Manaus, Belém, Recife e Campinas.

  2. . Escuta: Acompanhamento de todas as editorias de rádios, sites, emissoras de TV e redes sociais. Geralmente, o profissional responsável pela pauta, que responde por impresso e on-line, faz um monitoramento constante de outros meios, mas toda a equipe é orientada a se manter alerta, segundo sua própria área de cobertura. Por exemplo, o caderno de notícias da cidade, Cotidiano, tem repórteres especializados no acompanhamento de um determinado tema, que pode ser assuntos policiais ou arquitetura, entre outros relativos à cidade.

  3. . Agências noticiosas e jornais internacionais: Atualmente, a empresa detém os direitos de reprodução de material de agências como a Reuters e a Associated Press, e dos jornais Financial Times e New York Times, entre outros.

  4. . Correspondentes internacionais: O jornal também mantém repórteres em Buenos Aires, na Argentina, Washington, Nova York e Los Angeles, nos Estados Unidos, Londres, na Inglaterra, Jerusalém, em Israel, Pequim, na China, e Teerã, no Irã.

  5. . Reportagem: Reúne os profissionais da Folha de S. Paulo na sede da empresa na capital, além dos correspondentes e das sucursais

  6. . Colunistas: Trabalham com informações noticiosas (caso das colunas Monica Bergamo (política e sociedade), Painel (política), Mercado Aberto (economia) e Outro Canal (televisão), opinativas e de interpretação (caso de Janio de Freitas, Clóvis Rossi, Carlos Heitor Cony, por exemplo).



3.2 FILTRO DE PUBLICAÇÃO

A partir dos fatos levantados pelas seis fontes possíveis citadas, a informação passa por um sistema de avaliação e checagem, feito em conjunto por reportagem e edição.

A apuração é feita por um repórter ou redator e simultaneamente é avaliada por um editor que define em qual mídia o conteúdo deve ser publicado primeiro. Então, a história passa por três tipos básicos de filtro: o da relevância, o da precisão, o da tipificação.

“Em relação a papel e site os profissionais estão ficando cada vez mais treinados e aprendendo na prática a pensar para as diferentes plataformas, cada vez mais a gente discute em como fazer uma matéria para o papel ou para o site”, explica Cruz.

O primeiro se refere aos fatos de interesse geral ou também de utilidade pública. O segundo demanda cruzamento de fontes variadas para certificar a veracidade da informação. O terceiro, por fim, leva em consideração critérios de urgência, ineditismo, exclusividade, apelo, interesse, empatia e proximidade.

Assim, uma notícia pode ser: urgente e não exclusiva; urgente e inédita; não exclusiva; exclusiva da Folha de S. Paulo. Todas elas serão publicadas no site, e o que deve mudar é a ordem de publicação. Em geral, as informações não exclusivas devem sair primeiro no site, de onde rumam para os demais suportes (celular – via aplicativo ou SMS, perfis de redes sociais). As exclusivas, sempre que houver certeza de que a concorrência de fato não dispõem da informação, são guardadas para uma primeira publicação no impresso.

Todas as informações urgentes e não exclusivas devem ser publicadas com rapidez na Folha de S. Paulo. A rapidez garante credibilidade ao site e pode ser uma garantia de audiência. A parceria estabelecida entre a Folha e o Uol determina que o portal chama em sua home a notícia que tiver menor horário de publicação entre seus parceiros. Por isso, a velocidade pode ser um grande diferencial de audiência.

3.2.1 PROTOCOLO DO REPÓRTER E DO REDATOR

De acordo com a urgência da informação, a publicação no site é praticamente imediata e o tamanho da matéria cresce conforme a apuração se dá.

Os protocolos básicos nessa fase são, além da checagem, contextualização, questionamento, repercussão, redação, padronização e correção. O tempo despendido para a produção varia de acordo com a complexidade e a relevância do assunto abordado em uma determinada matéria.

Assim, o primeiro procedimento é checar com uma fonte segura se a informação tem fundamento. Se sim, é preciso contextualizar em qual cenário ela ocorre, então, se for o caso ouvir o outro lado da história e repercutir com fontes da área consequências que a informação pode acarretar. Todos os textos da Folha de S. Paulo devem seguir os preceitos do Manual da Redação, por isso, a padronização é um processo bastante cobrado da equipe. Suas regras e o projeto editorial orientam idealmente a publicação em todas as mídias da empresa.

“O tamanho de um texto, seja no on-line ou no impresso, varia de acordo com a história sobre a qual estamos falando. O que valeria apenas uma nota de registro na edição impressa não deve entrar com um tamanho muito diferente disso no impresso”, explica Leonardo Cruz.

“É muito comum também a gente publicar uma matéria sobre algo que acontece no dia e depois ao longo do tempo a gente vai melhorando essa matéria, conforme temos mais informações. Para o leitor saber que aquela matéria foi atualizada, ele tem que olhar o último horário de atualização que vai no alto daquela matéria”, ele diz.



3.2.2 PROTOCOLO DE EDIÇÃO

Uma vez que a publicação no site estiver certa, confirmada pelo editor, que é quem dá a palavra final, o conteúdo cabe um processo de edição para organizar este material. No próprio site, a matéria pode ser complementada por fotos, galerias de imagens, vídeos e links para notícias relacionadas.

Roberto Dias explica o que entende ser uma das grandes diferenças de edição transmídia: “A diferença entre os meios é que o papel tem um constrangimento de espaço, e a internet, não. Dá para pensar, fazer uma galeria de fotos, ir além da estrutura do papel.”

Uma vez publicada no site, a notícia segue seu caminho pelo celular e pelas redes sociais. Enquanto isso, a edição posiciona a notícia em sua “subhome” e comunica aos editores da “home”, se ela tiver potencial para este meio – assim também acontece com o Uol.

Nessa etapa, nas “homes”, é feita a hierarquização e seleção das informações de forma articulada. É interessante notar nesse ponto que apesar do aumento das possibilidades que o meio on-line oferece na hora de compor uma matéria, as “homes” costumam ser mais engessadas do que a edição em papel. Por exemplo, os tamanhos de foto são sempre fixos, assim como as caixas de texto, enquanto o papel guarda mais flexibilidade para a edição dentro desse mérito.

“Em três minutos é possível diagramar uma página para que ela tenha por exemplo uma foto grande e um texto pequeno. Mas não dá pra fazer a `home` inteira com uma foto estourada, de uma hora para outra. O site é muito mais engessado do que pensam. É contraintuitivo. Não dá pra ficar mudando a template da “home”, tem alguns layouts prontos, mas não é como no papel. É um trabalho muito grande, a gente até faz, mas apenas em momentos emblemáticos, como quando morreu o astronauta Neil Armstrong”, lembra dias.

Dias explica que por conta da velocidade de conexão via celular e tablet, as notícias produzidas para o HTML5 não costumam levar tantas ramificações no site.

“No celular gente não coloca galeria, porque se não demora muito para carregar, além do problema da telinha em si, a coisa física do espaço tem ainda a questão da velocidade da conexão. É um pouco mais lento, não tem todos os anúncios, você precisa simplificar a tela para ganhar em velocidade aceitável de navegação esse é o sentido da diferença de aplicativo.”

Ainda no processo de edição, podem ser requisitados a colaboradores especialistas textos explicativos ou analíticos que complementem uma reportagem. A editoria de fotografia e a de arte complementam, com produção de imagens e infográficos.

A partir daí se inicia o processo de fechamento, como define o jargão jornalístico, o processo anterior à publicação de uma matéria.

Para o jornal impresso ela costuma durar algumas horas – do risco da página, que consiste na diagramação do espaço físico do papel, rechecagem das informações, até os ajustes finais de texto, que será adaptado à norma culta e ao padrão determinado pelo Manual de Redação.

O on-line demanda um processo mais acelerado e rápido, também por requerer menos detalhes. Não é preciso acionar uma equipe de diagramação, por exemplo, para publicar uma história no site. A edição depende mais do editor em si e do que ele pretende desenvolver na árvore informativa, ou seja, onde devem ser alocados os hiperlinks, se deve ou não acompanhar uma galeria de fotos e onde a matéria deve ser publicada em sua “subhome” ou se ela deve ser oferecida como destaque na “home”.




4. A INOVAÇÃO CONSERVADORA DA CONVERGÊNCIA

CUSOMANO define em quatro níveis a liderança de empresas quanto a plataformas.

1. Scope: Scope comprises the amount of innovation the company does

internally and how much it encourages outsiders to do. Managers of

companies that are platform leaders — or that want to be (wannabes)

— must weigh whether it is better to develop an extensive in-house

capability to create their own complements, let the market produce

complements or follow a middle road.



2. Product technology: Platform leaders and wannabes must make decisions

about the architecture of a product and the broader platform,

if the two are not the same. In particular, they need to decide how

much modularity they want, how open their interfaces should be, and

how much information about both platform and interfaces to disclose

to outsiders who might become complementors — or competitors.*



3. Relationships with external complementors: Managers must determine

how collaborative or competitive they want relationships to be

between platform producers and complementors. Platform producers

also need to work on creating consensus and handling potential

conflicts of interest (for example, how to behave when the move to a

complementary market turns former collaborators into competitors).



4. Internal organization: The right internal structure can help platform

producers manage external and internal conflicts of interest.

Organizational options include, first, keeping groups with similar

goals under one executive or putting them in distinct departments

if they have outside constituencies or potentially conflicting goals;

second, addressing organizational culture and processes; third.

improving internal communication of corporate strategy. Because

of the ambiguity of innovative, modular industries, a company culture

that encourages debate can accelerate strategy reformulation

when it's needed.”


Se considerarmos o primeiro nível como sendo a abrangência, é possível entender melhor a escolha adotada pela empresa. O caminho da produção jornalística se mostra convergente – no entendimento de que o leitor já não se concentra apenas na versão impressa do jornal. A Folha estimula então sua equipe soluções para os novos desafios. O exemplo do desenvolvimento do aplicativo em HTML5 é um exemplo por ser uma tecnologia que atende a celulares com diferentes sistemas operacionais, assim como a tablets.

Segundo o editor do TV Folha, João Wainer, a empresa estimula seus profissionais a dominarem mais de uma plataforma para o trabalho. Isso quer dizer que o idealmente, o jornalista que atua na empresa deve buscar aprender a atuar na produção e edição de conteúdo para internet, papel e televisão.

Apesar de ser uma empresa que comercializa notícias, a Folha de S. Paulo optou por internalizar a produção do aplicativo e equipe de tecnologia foi responsável por encontrar a solução que no momento foi considerada adequada para resolver a questão de disponibilização do conteúdo para celulares e tablets de diferentes sistemas, que pudesse ser alimentado por uma única fonte.

A Folha foi também o primeiro grande jornal brasileiro a adotar o modelo do paywall para o seu negócio, medida que é tendência entre jornais americanos e, se bem-sucedido, pode ser adotado também pelos concorrentes.

Quanto à tecnologia do produto, nesse momento a empresa entende que o mercado está numa “encruzilhada”, termo utilizado pelo editor-executivo em entrevista a este trabalho. Assim, a empresa tem adotado a estratégia de dividir o investimento em mais de uma plataforma, além da original, para manter o interesse de seu público.

No que concerne ao relação com parceiros externos, a Folha tem acordo com o portal Uol, que apesar de competir por atenção do público em alguns conteúdos, garante também uma boa audiência para o site. Um caminho encontrado para evitar o conflito de interesse é a adoção do paywall, com o objetivo de manter a operação econômica da empresa saudável.

Quando ficou claro para o jornal que o modelo convergente para a produção de conteúdo era um caminho a ser seguindo, a empresa apostou na integração das equipes de impresso e on-line, mantendo perto os repórteres, redatores e editores de uma mesma área de cobertura, como saúde ou educação, produzindo em conjunto para mais de uma plataforma. Esse processo começou em 2010, com a criação dos editores-assistentes do on-line.

O editor executivo Sérgio Dávila explicou a este trabalho como entende a questão da inovação na Folha de S. Paulo.

“A Folha busca ter tradição em vanguarda, isso é verdade também nesse universo atual, multiplataforma e multiconteúdo. A preocupação da Folha sempre foi em ter a inovação como algo no DNA do jornal. Sempre houve uma equipe pensando nos caminhos que a empresa deveria seguir. Neste momento em que o jornalismo como modelo de negócios está numa encruzilhada, ninguém sabe muito bem para onde o vento irá soprar, o posicionamento da Folha tem sido estar presente em diversas iniciativas que podem ou não vingar e, se elas vingarem, como o jornal já está presente em cada uma delas, pode escalar mais gente para dar continuidade aos processos. Vou dar três exemplos. A Folha foi o primeiro jornal a criar uma editoria de mídias sociais, então, nos temos uma editora na área que se preocupa com a presença da empresa nas redes. Se mídias sociais daqui a cinco anos representar 50% do nosso leitorado, a gente até lá, terá escalado essa editoria para ser maior. Se essa mídia morrer e o Facebook, por exemplo, tiver o mesmo destino do Orkut no Brasil, ou se acontecer a mesma coisa ao Linkedin, a gente cancela essa operação. A Folha tem presença também em novas plataformas e há um editor na área, que pensa na presença da empresa nos tablets, principalmente no iPad, nos smartphones, principalmente no iPhone, e no conteúdo enviado via SMS. Se isso se tornar muito representativo, a gente escala essa equipe e aumenta conforme a representatividade. Hoje isso equivale a um dígito da audiência, mas pode crescer. A inovação é um conceito muito presente no cotidiano do jornal e enquanto a gente conversa a empresa está colocando seus pés em diversas áreas para ver qual vinga, sem descuidar nunca do ‘core business’, que, por enquanto, é o jornal impresso diário. Então temos uma presença muito vigorosa na internet, mas a gente ainda preza muito o impresso diário. O negócio da Folha não é imprimir o jornal, isso é só um subproduto do que a Folha faz, o objetivo é produzir conteúdo. Por isso temos todo domingo a TV Folha na TV Cultura, ali tem conteúdo da Folha na plataforma televisão. Era um meio onde antes não havia presença e agora tem.”

5. UMA NOTÍCIA CONVERGENTE

Este trabalho acompanhou o caminho de uma pauta que teve um desdobramento convergente.

Após o convite de duas assessorias de cinema em fevereiro, os repórteres Matheus Magenta e Lúcia Valentim Rodrigues, da editoria de cultura da Folha de S. Paulo, a Ilustrada, foram acompanhar as gravações de dois filmes, que estavam sendo produzidos no polo cinematográfico de Paulínia, no interior de São Paulo.

Seguindo a lógica do protocolo, como as histórias eram exclusivas não havia necessidade de publicação imediata no on-line. A novidade estaria em escrever uma história a partir do acompanhamento das filmagens, que daria a oportunidade de obter entrevistas exclusivas e contar o clima da produção.

Cada um viajou até os sets de gravação em dias diferentes e, de volta à redação em São Paulo, conversaram sobre terem achado estranho o fato dos sets de gravação não serem propriamente na cidade de Paulínia, mas em Campinas.

O edital de Paulínia que fomenta a produção audiovisual na cidade permite gravações em cidades da região. Uma fonte A partir daí, os repórteres começaram a apurar se a falta de locações estava acompanhada de problemas estruturais em outras áreas, como aluguel de equipamentos e disponibilidade de pessoal capacitado.

“A gente começou a apurar também por causa de uma denúncia de sucateamento do festival por uma fonte interna que não quis aparecer depois”, conta Lúcia.

Inicialmente a visita rendeu duas matérias, publicadas antes da empresa adotar o paywall, portanto, ambas tiveram então publicação restrita ao papel.

As matérias sobre cada um dos dois filmes (Inventando Passados e Procura-se) foram publicadas em 11 de março de 2012. Nenhuma das duas foi considerada pela editoria de mídias sociais como potenciais para suscitar a discussão em rede, por isso, não tiveram publicação de links no Facebook (lembrando que nessa época, o jornal ainda não tinha aderido ao paywall).

Em seguida, com a aprovação dos editores, eles passaram a investigar a situação do polo de cinema de Paulínia, cidade que também realizava um festival de cinema que começava a ganhar relevância no contexto atual de produção do país. A apuração tinha como destino final o jornal impresso.

Ao longo de um mês, entrevistaram produtores por telefone e pessoalmente, além de moradores de Paulínia, os gestores do polo e especialistas da indústria cinematográfica. Após conversa dos repórteres sobre a apuração com os editores, foi definido que eles seriam também acompanhados por um fotógrafo, que também iria fazer gravações de imagens do polo de produção sucateado.

Uma semana antes da publicação da matéria sobre a decadência do polo de cinema no papel, em 13 de abril, a prefeitura anunciou que o festival seria cancelado, que costumava ser realizado sempre no primeiro semestre. Essa informação seria antecipada na matéria, mas com o pronunciamento oficial, o imediatismo se fez presente, então a história do cancelamento foi publicada no site.

Com a avaliação dos editores da relevância da história, a publicação foi feita no dia seguinte também no jornal impresso, no dia 14 de abril.

A partir das novas informações, os repórteres retomaram a apuração e cinco dias depois, em 19 de abril, foi publicada na capa da Ilustrada a reportagem sobre a decadência do polo cinematográfico, com a contextualização da história, a partir da apuração da filmagem e do cancelamento do festival.

O tema tinha potencial para despertar o debate e para complementar o material, foi encomendada uma análise de André Sturm, diretor-executivo do Museu da Imagem e do Som de São Paulo.

No domingo daquela semana, dia 22 de abril, foi ao ar no TV Folha uma matéria de dois minutos, desdobramento da reportagem sobre o desmantelamento do polo de cinema.

Nesse mesmo domingo, o perfil da Folha de S. Paulo no Facebook publicou a notícia em sua página e teve como repercussão 53 compartilhamentos, 57 comentários e 128 usaram a ferramenta do botão “curtir” para notícia.

Em 2 de maio, pouco mais de uma semana depois o prefeito de Paulínia publicou um artigo na seção Tendências e Debates, onde saem artigos assinados opinativos, sua justificativa para a desativação do polo de cinema e cancelamento do festival.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Folha de S. Paulo surgiu como um jornal impresso, num período em que o papel era o único suporte disponível para seu conteúdo, a informação. O meio de produção da notícia nos primeiros anos de jornal, no início do século 20 era completamente analógico, já que o meio virtual ainda não era uma realidade. O avanço dos computadores nas redações brasileiras seria observado apenas nos anos 1990.

Com o avanço da informatização e o surgimento da internet, a empresa teve que se adaptar a uma nova realidade. Para isso, deixou de se colocar apenas como um jornal e adotou a postura de produtora de conteúdo informativo, que produz independente do suporte.

A partir da tendência do mercado de jornais de se posicionar no ambiente on-line, a Folha de S. Paulo também criou site e criou formas de publicação via site e também com conteúdos voltados para tablets e celulares, com a observância de que seus leitores tinham interesse em consumir ali seus produtos.

Como a natureza do produto da empresa é a informação, as velhas formas de produção de notícias tiveram de ser adaptadas ao cenário convergente de conteúdo. Para isso, a Folha de S. Paulo adotou a postura de integração entre suas plataformas.

De forma geral, a equipe é dividida entre produtores de conteúdo – repórteres e redatores – e editores que organizam a produção nas diferentes plataformas com as quais a empresa hoje trabalha.

O protocolo de produção aqui segue uma lógica simples e comum ao jornalismo desde a época em que o papel era única plataforma para prática. É preciso averiguar a precisão das informações e contextualizá-las, descrevê-las em texto que siga o padrão da norma culta e também de terminologia determinada pelo Manual de Redação.

A diferença agora é que o processo de edição não cabe apenas em tamanho standard ou tabloide, ou seja, cabe aos editores e aos produtores de informação cuidar para o deslocamento de uma história para fora do papel.

Não basta apenas uma foto para ilustrar uma página de jornal, é preciso pensar num álbum que possa acompanhar a versão on-line de um texto ou ainda mobilizar uma equipe de produção de TV. As histórias de jornal transcendem os suportes.

Da mesma forma, a produção de conteúdo é feita em três níveis: site, impresso e televisão. São as equipes destes três meios que se mobilizam para a produção de conteúdo. O que é oferecido ao público em outras plataformas é produto da edição deste material original.

A Folha de S. Paulo ainda tem desafios nesse caminho. Um deles é integrar os sistemas de publicação em suas diversas plataformas, processo que segundo seu editor-executivo, Sérgio Dávila, está em curso. Ele explica que a integração dos sistemas deve ser capaz de gerar um índice único de notícias, que possa ser acessado pelos editores de cada uma das plataformas com as quais o jornal trabalha.

Com o modelo de negócios do jornal ainda em encruzilhada o investimento em tecnologia também se mostra um desafio, já que o caminho a ser adotado – se algum suporte será capaz ou não de substituir o papel ainda é incerto.

Hoje a empresa tem diferentes softwares para a edição on-line, impressa e de versão para tablet e celular, o que mantém os processos manuais, no sentido de que uma mesma publicação precisa ser executada em diferentes programas ou ambientes para ser visualizada pelo público.

A única ferramenta de gestão integrada é a que alimenta o aplicativo de HTML5, direcionado para a publicação de conteúdo em celulares e tablets.

Está nos planos da empresa, a partir de 2013, adotar um sistema integrado de publicação para as diversas plataformas com as quais trabalha.

Ao contrário de processos que podem ser observados em produtos da cultura popular da convergência, como a divisão narrativa que pode ser acompanhada na série Matrix, que instiga seu público a juntar pedaços de uma mesma história em diferentes plataformas, o jornalismo tem uma natureza que demanda respostas completas em cada uma das mídias em que atua.

Para 2013, a empresa tem planos de adaptar seu projeto editorial e o Manual de Redação para orientar seu quadro de profissionais na produção de jornalismo em diferentes plataformas.

BIBLIOGRAFIA

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