Em busca de homens históricos: historismo e narrativa biográfica na obra de Octávio Tarquínio de Sousa



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Em busca de homens históricos: historismo e narrativa biográfica na obra de Octávio Tarquínio de Sousa
Márcia de Almeida Gonçalves1
A consciência histórica da finitude de toda manifestação histórica, de todo estado humano e social, da relatividade de todo gênero de crença constitui o último passo para a libertação do homem. (...) Assim surge da vivência, da compreensão, da poesia e da História uma visão da vida. (...) Estamos abertos às possibilidades, já que o sentido e o significado surgem primeiramente no homem e na sua história. Mas não no homem individual, senão no homem histórico. Pois o homem é algo histórico...
Wilhelm Dilthey2
Em 1958, Octávio Tarquínio de Sousa (1889-1959) publicou, pela Editora José Olympio, a coleção História dos Fundadores do Império do Brasil, obra que reunia, em especial, as biografias históricas elaboradas pelo autor entre 1937 e 1952. O projeto de agrupar suas biografias históricas e outros textos de sua autoria na forma de uma coleção, inegavelmente, perenizou os trabalhos de Octávio Tarquínio de Sousa sob uma clave diferente daquela que havia, nos anos quarenta, qualificado-o como o historiador das Regências. Com a História dos Fundadores, novos sentidos foram imputados a cada uma de suas biografias de dirigentes políticos imperiais, em função do pertencimento a um conjunto particular – a coleção -, marcadamente comprometida com a análise de um tema e de uma época, qual seja: a emergência e a consolidação do Estado Imperial brasileiro.

Na Introdução à História dos Fundadores do Império do Brasil, Octávio Tarquínio, entre outras referências, declarou que, quando esteve em suas possibilidades, sua tarefa biográfica inspirou-se em boa parte das lições de Dilthey3. De fato, como pudemos constatar, suas possibilidades estiveram associadas à leitura de El mundo historico4. Em sua biblioteca, a primeira edição em espanhol do referido livro, datada de 1944, ainda guarda as anotações e os marcadores de páginas, pequenas nesgas de papel amarelecidas, a denotar vestígios de leitura de um autor em diálogo com outros intelectuais.

O objetivo desse trabalho é analisar a apropriação de algumas das idéias e conceitos do historismo de Wilhelm Dilthey, na forma realizada por Octávio Tarquínio de Sousa, relacionando-os à elaboração de uma concepção particular acerca dos usos da narrativa biográfica para a escrita da história da nação.

Cumpre explicitar que nossa pretensão esteve menos próxima da possibilidade de apresentar o que e como veio a ser interpretada a obra em questão pelo nosso biógrafo, do que da intenção de sistematizar reflexões a partir das marcas de leitura deixadas por Octávio Tarquínio. Nesse sentido, partes sublinhadas no texto, anotações marginais, marcadores de páginas um tanto improvisados, guiaram o nosso roteiro de análise numa tarefa deveras arriscada: dialogar com as idéias de um texto, valendo-se da mediação figurada pelos vestígios da passagem de seu leitor original.

Pelo que pudemos observar na biblioteca de Octávio Tarquínio e Lúcia Miguel Pereira, nosso autor costumava sublinhar partes dos textos lidos, sendo menos freqüentes a escrita de anotações marginais. Estas eram mais numerosas quando as discordâncias se manifestavam, variando, em função das últimas, em quantidade e extensão. Exemplares com marcadores de página foram poucos. Nossa hipótese é que as marcas de leitura de Octávio Tarquínio de Sousa materializam os vestígios de um encontro entre o biógrafo de estadistas do Império do Brasil e o pensador alemão, autor de uma extensa e pouco sistemática obra.

Octávio Tarquínio de Sousa pareceu ter percorrido as páginas de El Mundo Historico à procura de idéias e argumentações que fundamentassem sua maneira de compreender a narrativa biográfica, nas suas interseções e pertinências com a produção do conhecimento histórico. Sem dúvida, encontrou-as, adequando-as às modulações do seu fazer biográfico. O biógrafo, e historiador, após anos de muita empiria na feitura de suas biografias históricas, deparou-se com o filósofo alemão que, no seu combate à metafísica, havia buscado fundamentar, entre outros questões, uma crítica da razão histórica e uma filosofia da vida5. Se as discussões sobre a biografia guiaram a leitura de Octávio Tarquínio no texto do filósofo, outras tantas, em maior ou menor grau correlacionadas a essa, nos sugeriram que o historismo diltheyano6 deixou suas marcas numa determinada maneira de conceber o valor do conhecimento histórico.

Na sua “version” em espanhol El Mundo Historico agrupava textos, subdivididos em partes e capítulos, onde figuraram os seguintes títulos: Fundação das Ciências do Espírito (página 5 a 87), Estruturação do mundo histórico pelas Ciências do Espírito (página 91 a 318), Hermenêutica (página 321 a 342), Historiografia ( página 345 a 410), Apêndice (O desenvolvimento histórico – página 413 a 415). A maior parte do livro, cerca de 227 páginas entre as 430 totais, corresponderam à “Estruturação do mundo histórico pelas Ciências do Espírito”. Coincidência ou não, nessa parte, originalmente escrita por Dilthey em 1910, Octávio Tarquínio concentrou grande parte de suas marcas e anotações. Passemos a elas.

O leitor Octávio Tarquínio percorreu as 122 páginas iniciais de El mundo historico sem deixar rastros. Suas marcas à lápis – trechos sublinhados, linhas verticais destacando parágrafos, um “x” ou dois ao lado desses parágrafos destacados -, apareceram ao lado de considerações de Dilthey acerca do percurso histórico da diferenciação entre Ciências da Natureza e Ciências do Espírito. A argumentação de Dilthey percorreu diversos autores e obras, na perspectiva de inventariar aquelas que apresentaram concepções em diálogo, nas suas especificidades, com o mundo histórico.

Os grifos de nosso leitor destacaram trechos em que Dilthey analisou a relevância de Ranke, de Carlyle e de Tocqueville, entre os autores que decisivamente consolidaram obras exemplares na compreensão do mundo histórico.

As anotações de Octávio Tarquínio não seguiram, todavia, as considerações de Dilthey que, por muitas páginas, desenvolveram reflexões acerca dos estilos e assuntos próprios dos diversos pensadores que puseram em xeque as possibilidades de conhecer a realidade histórica. Kant, Hegel, Schleiermacher, Humboldt, Ficht, Droysen foram discutidos por Dilthey sob a ótica do que chamaríamos de uma história das concepções de história e das filosofias da História. O esforço de Dilthey caminhava no sentido de construir argumentos epistemológicos, submetidos ao curso de uma história da filosofia, em muito centrada nas realizações do idealismo alemão, com o intuito de embasar sua proposta de uma estruturação gnoseológica e metodológica das ditas Ciências do Espírito.

Os interesses do leitor Octávio Tarquínio, no que se referiu a esses vôos filosóficos de Wilhelm Dithey, não vieram a se materializar em marcas a lápis sobre o texto impresso. Essas retornaram nos trechos onde figuraram discussões sobre “o caráter geral dos nexos efetivos do mundo espiritual”. Antes dessas marcações mais numerosas em grifos, uma pequena passagem havia sido assinalada por Octávio Tarquínio. No todo, por seu turno, ela também se relacionaria com idéias presentes nos diagnósticos sobre “o caráter geral dos nexos efetivos do mundo espiritual”. Dilthey discutia o que ele denominou de “unidades ideais como suportes de vida e de experiência vital”. A primeira dessas unidades seria o próprio indivíduo. Nas palavras do filósofo alemão:
Na existência individual de cada pessoa se desenvolve uma riqueza vital infinita graças às suas relações com o meio, com os outros homens e com as coisas. Contudo, cada indivíduo é, ao mesmo tempo, um ponto onde se cruzam conexões que o atravessam e nele subsistem, mas que ultrapassam sua vida e que, em virtude do conteúdo, do valor, do fim que nelas se realiza, possuem uma existência autônoma e um desenvolvimento próprio.7
Em linhas imediatamente subseqüentes, Dilthey esclarecia o lugar do que denominava de “conexões” para a produção e análises do saber histórico, ou a História, com letra maiúscula, como aparece na tradução espanhola:
O historiador deve compreender toda a vida dos indivíduos tal como se manifesta em um determinado tempo e lugar. Toda conexão que marca os indivíduos, sobre a qual orientam o desenvolvimento de suas próprias existências, os sistemas culturais e as comunidades, até alcançar, finalmente, a humanidade, constitui precisamente a natureza da sociedade e da história. Os sujeitos lógicos sobre os quais se pronunciam os enunciados da História são tanto os indivíduos, quanto as comunidades e as conexões.8
A idéia de indivíduo como ponto de cruzamento e como uma das unidades a ser conhecida pelo historiador forneceu para Octávio Tarquínio argumentos que o auxiliaram na fundamentação do valor de suas biografias para a escrita da história. A idéia adquiriu, nas palavras do filósofo alemão, estatuto conceitual mais amplo e veio a ser desdobrada em reflexões sobre os “nexos efetivos do mundo histórico”.

Como a denominação sugere, os nexos efetivos corresponderiam às diversas ligações, vínculos e elos entre o indivíduo – unidade e ponto de cruzamento – e suas experiências históricas. Nexos efetivos, diríamos nós, traduzidos em feixes de relações com outros indivíduos, com o meio, com a cultura. As Ciências do Espírito teriam como objeto tais nexos efetivos em suas respectivas historicidades. Para Dilthey, haveria formas mais simples e mais complexas de nexos efetivos. Entre as mais complexas estariam situadas conexões históricas amplas: as nações, as épocas, os períodos históricos. O historiador deveria abarcar os valores, os fins, as vinculações que se apresentariam tanto nessas conexões históricas mais amplas, quanto nos indivíduos, nas comunidades, nos seus sistemas de relações. O historiador deveria elaborar sínteses dos diversos nexos efetivos. A ênfase, como explicou Dilthey e como destacou em sinais a lápis o leitor Octávio Tarquínio, estaria centrada na dimensão relacional. Nas palavras do filósofo alemão:


(...) o objeto da análise histórica é encontrar a coincidência em algo comum, que rege uma época, em seus fins, em seus valores, em seus modos de pensar. Assim, pois, cada ação, cada pensamento, cada criação comum, em uma palavra, cada parte deste todo histórico, teria seu significado por intermédio de sua relação com o todo de uma época ou período9.
Segundo Dilthey, por intermédio da relação parte/todo, o historiador julgaria e constataria o que houvesse realizado um indivíduo, avaliando tais realizações a partir de um duplo sentido complementar: sua inserção nos nexos efetivos de suas conexões históricas e as especificidades de suas ações e visões na medida em que essas ultrapassassem os condicionamentos do meio histórico.

Como argumentou Maria Nazaré de Camargo Pacheco Amaral, o indivíduo diltheyano só existiria na dimensão de suas relações com outros, fossem esses as contingências históricas, fossem esses outros indivíduos. Segundo essa autora, a idéia de indivíduo como ponto de cruzamento, cara às formulações diltheyanas, já havia sido apresentada em texto do autor datado de 1880 – Elaboração de Psicologia Descritiva – e responderia pelo esforço diltheyano de somar, nas suas reflexões sobre a vida, o psicológico e o sócio-histórico. Nesses termos, Dilthey teria categorizado o indivíduo como, de um lado, um elemento nas ações recíprocas da sociedade, no qual se cruzariam os diferentes sistemas dessas ações recíprocas, e, por outro, seria simultaneamente a vontade e a inteligência que conceberia e pesquisaria tais sistemas. Maria Nazaré de Camargo Pacheco Amaral destacou, de forma pontual, as interseções entre essa maneira de conceituar o indivíduo e algumas das formulações do existencialismo de Jose Ortega y Gasset10.

Pelo que podemos concluir, a concepção diltheyana de indivíduo esteve intimamente relacionada ao conceito de nexo efetivo, tendo informado grande parte de suas formulações acerca da especificidade do objeto e da metodologia das então denominadas Ciências do Espírito. De difícil precisão, entre tantas circularidades do pensamento diltheyano - a repisar idéias sempre lhes acrescentando mais alguns adendos -, o conceito de nexo efetivo pareceu abarcar, em linhas gerais, a realidade histórica naquilo que esta responderia pela totalidade das vivências humanas.

Em outra passagem do El mundo historico, assinalada pelo leitor Octávio Tarquínio, a questão dos nexos efetivos voltou à baila, desta feita para assumir aplicações metodológicas. Segundo Dilthey, a unidade de um objeto que viesse a constituir o tema de um historiador representaria uma seleção que, em si mesma, permitiria a tarefa de abordar o próprio objeto. Segundo o filósofo alemão, a delimitação do objeto histórico não só estaria condicionada pela sua separação da amplitude do nexo efetivo concreto, como o próprio objeto conteria, em suas especificidades, um princípio de seleção. O historiador que viesse a operar com nexos efetivos teria que separá-los e agregá-los, posto que a singularidade das experiências históricas se manifestaria nas características de seus nexos efetivos. Ver a parte no todo e esse em cada uma de suas partes, não só consistiria na arte de exposição do historiador, como também na sua maneira de ver11.

Para Dilthey, o trabalho analítico do historiador estaria centrado na decifração do que ele denominava de nexos efetivos. Decifração, em larga medida, como foi exposto no parágrafo precedente, vincada na premissa de separar, agrupar e relacionar as partes e o todo. Os nexos efetivos, como categorias plasmadoras das vivências humanas, também informariam e comporiam o que Dilthey designava por sistemas culturais. A distinção dos variados tipos de nexos efetivos se misturava com a identificação dos sistemas culturais. Entre esses últimos, pela complexidade e pela atualidade na época em que Dilthey formulara suas considerações, o filósofo destacara as nações organizadas politicamente.

Assumindo as dificuldades inerentes à especificação e à correlação dos nexos efetivos configurados como nações politicamente organizadas, Dilthey lançava mão da chave interpretativa baseada nas relações entre o todo e as partes. Assim, “o homem de uma nação” passava a figurar como parte privilegiada entre as que compunham a totalidade nacional. Nas palavras de Dilthey, sublinhadas pelo leitor Octávio Tarquínio,


É o homem de uma nação, em uma época determinada, quem, em cada manifestação de vida, em um determinado domínio da cultura, lhe entrega algo da particularidade de seu ser. (...) O homem inteiro atua sempre em cada uma de suas ocupações e lhe comunica sua particularidade. E como a organização política abarca diversas comunidades até chegar a família, assim também o amplo círculo da vida nacional abarca nexos menores, comunidades que tem seu próprio movimento; e todos esses nexos efetivos se cruzam no indivíduo.12
O conceitos de “nexos efetivos” e de “conexões estruturais” foram devidamente apropriados pelo leitor Octávio Tarquínio de Sousa, em especial, em passagens de sua introdução à História dos Fundadores. Eles fundamentaram argumentos sobre a proposta de Octávio Tarquínio de estudar uma época e um tema – a emergência e a consolidação do Estado Imperial brasileiro – a partir das biografias de alguns de seus homens mais representativos. Para tanto, nosso biógrafo elegeu os homens de uma nação como ponto de cruzamento de nexos efetivos da própria comunidade nacional.

Como afirmou Octávio Tarquínio, “um José Bonifácio, um D. Pedro I, um Bernardo Pereira de Vasconcelos, um Evaristo da Veiga, um Diogo Antônio Feijó foram vistos e capturados no mundo histórico”, “delimitados por um sistema particular de vida”, na conexão estrutural de uma época ou de um período”, “a partir do nexo efetivo em virtude do qual as figuras estudadas foram determinadas pelo meio em que viveram e como sobre ele reagiram”13. O conceito de nexos efetivos, tão central nas formulações diltheyanas para a compreensão do mundo histórico, veio a ser instrumentalizado por Octávio Tarquínio como chave de decifração das relações entre indivíduo e sociedade, nos termos de uma escrita biográfica, apresentada no lançamento da História dos Fundadores, como historiografia da nação.

Importante destacar que Dilthey derivou da discussão sobre nexos efetivos uma outra que, igualmente, veio a ser assinalada por Tarquínio de Sousa, qual seja: a do sentido do mundo histórico. Para Dilthey, o todo teria sentido em si mesmo e cada uma de suas partes assim também se manifestaria14. Pelo que podemos perceber, o conceito de nexo efetivo funcionava também como lastro para resolver a problemática questão do sentido da história, respondendo, em parte, pelo relativismo historista das formulações diltheyanas.

Tal perspectiva resvalava em outra que também chamou a atenção do leitor Octávio Tarquínio, e que interferia, diretamente, nos procedimentos de determinação das épocas e dos períodos históricos. Os nexos efetivos também instrumentalizariam a delimitação, ou melhor, a individualização de “seções temporais”. Nas palavras do filósofo alemão, com direito às anotações de Octávio Tarquínio, o conceito de espírito de época entrava em cena:


O que em primeiro lugar caracteriza as gerações, os períodos e as épocas são grandes tendências dominantes que as atravessam. Trata-se (...) do padrão para julgar, para apreciar os valores, para caracterizar as pessoas (...), padrão que imprime seu caráter a uma determinada época. Os indivíduos, as comunidades encontram seus significados neste todo por sua relação interna com o espírito da época. E como cada indivíduo se encontra encarnado em determinado espaço de tempo, disso deriva o fato de que sua significação para a História reside na sua relação com a época.

É neste sentido que se fala de espírito de uma época (...). Com isto temos que cada uma das épocas encontra seu limite em seu horizonte vital. Entendo por tal delimitação em que vivem os homens de uma época aquilo que se refere a seu pensar, sentir e crer. Existe nela uma relação entre vida, referências vitais, experiências de vida e formação de idéias que sustenta e vincula os indivíduos dentro de um determinado círculo de percepção dos objetos, de formação de valores e de proposição de fins. Existem totalidades inexoráveis que regem os indivíduos.15
Na análise do “espírito de uma época”, acrescentou Dilthey, o historiador deveria considerar, ao lado das tendências dominantes, todas as que a elas se opuseram, posto que os sentidos dessas oposições também interfeririam na própria estrutura da época. A exemplificação dessas proposições foi desenvolvida por Dilthey a partir da conexão estrutural interna da Ilustração alemã. Haveria um espírito (Geist) caracterizador desse tema/época e Dilthey se dispôs a identificar as tendências dominantes e suas respectivas oposições.

O leitor Octávio Tarquínio, a repetir um certo desinteresse por questões no campo da história da filosofia, não deixou marcas sobre o texto diltheyano, nas passagens em que o autor buscou caracterizar o espírito de época da Ilustração alemã. Suas marcas de leitura retornaram nas digressões de Dilthey agrupadas sob o subtítulo “A vivência e a autobiografia”. O importante conceito de vivência aparecia em caracterizações que despertaram a atenção de nosso biógrafo. O viver, segundo Dilthey, seria compreendido como


(...)um transcurso de tempo, no qual, cada estado, antes de se converter em objeto, logo sofre uma mudança, pois, cada momento subseqüente se constituiria sobre o anterior, e, nesse transcurso, cada momento – ainda não apreendido – torna-se passado.16
A imagem que socorreu Dilthey para a explicitação de suas idéias foi a do rio heracliteano. O curso da vida pareceria ser o mesmo, mas de fato, não seria. Aquele que desejasse estudar o que dissesse respeito às vivências humanas deveria ter em conta uma paradoxal incongruência, qual seja, a de aprender e analisar a vida do homem pelo que nela houvesse de passado.

As argumentações do filósofo alemão caminharam no sentido de sobrepor as categorias vivência e compreensão ao próprio devir histórico. No uso e nas significações desses dois conceitos manifestar-se-ia o caráter imanente das formulações de Dilthey sobre a história na sua dupla dimensão de experiência e conhecimento. Maria Nazaré de Camargo Pacheco Amaral reiterou esses aspectos do pensamento diltheyano. Como mencionou essa autora, Dilthey, em um de seus últimos textos – Os tipos de concepção do mundo e sua configuração nos sistemas físicos -, datado de 1911, ano da morte do filósofo, afirmara que: o que o homem é somente a sua história lhe diz17. Na frase aparentemente simples, síntese emblemática do valor da história entre as formulações diltheyanas, visualizamos um certo encontro de perspectivas entre o filósofo alemão e o biógrafo Octávio Tarquínio, naquilo que a produção do conhecimento histórico guardaria de fundamental para a própria compreensão da vida humana, nas suas variadas dimensões.

A frase, por seu turno, igualmente nos auxiliou no entendimento de algumas das avaliações de Dilthey sobre a autobiografia, assinaladas por Octávio Tarquínio em sua leitura de El mundo historico. Segundo o filósofo alemão, a autobiografia seria a forma suprema e mais instrutiva em que se viabilizaria a compreensão da vida; seria também a expressão literária do autoconhecimento do homem sobre o curso de sua vida18.

Após marcar curtas passagens onde Wilhelm Dilthey arrematava e correlacionava os conceitos de vivência e de vida, o leitor Octávio Tarquínio deparou-se com as análises do filósofo sobre a biografia. Para Dilthey, a tarefa do biógrafo consistiria em compreender, sobre bases documentais, o nexo efetivo a partir do qual um indivíduo se acharia determinado por seu meio e, ao mesmo tempo, reagiria sobre esse. Toda a História, e também a biografia, por seus pertencimentos a esse campo, deveriam captar esses nexos efetivos. Vendo no curso da vida de um indivíduo a célula principal da História, Dilthey dignificava o estudo sobre vidas individuais e aplicava, sem explicitá-lo nominalmente nessa passagem do texto, o conceito de indivíduo como ponto de cruzamento onde se manifestariam os nexos efetivos configuradores das vivências de cada um no mundo histórico. Valendo-se de considerações sobre a autobiografia, Dilthey especificava valores e usos para a biografia. Entendendo a primeira como expressão literária da reflexão do indivíduo sobre o curso de sua vida, a segunda seria o translado dessa reflexão para a compreensão de vidas alheias, constituindo-se em um valioso instrumento de decifração do mundo histórico.

Nas formulações do filósofo alemão, toda vida poderia ser descrita, a dos mais modestos e a dos mais poderosos, a vida de todos os dias e as mais extraordinárias. Tudo o que dizia respeito ao homem poderia ser convertido em documento e viabilizar alguma atualização das infinitas possibilidades de existência humana. A biografia teria, por um lado, uma dimensão documental, ao reunir e relacionar vestígios das ações e percepções de um indivíduo. Por outro lado, em tudo complementar, a biografia, como expressão literária, como registro construído, como obra de arte, permitiria aos homens revividos em suas páginas, seguir vivendo. Wilhelm Dilthey fazia operar, de uma forma desdobrada, o conceito de revivência, tão caro ao funcionamento próprio do ato de compreender. “Viver de novo”, ou “Continuar vivendo” poderiam ser materializados na expressão literária da narrativa biográfica.

Acreditamos que essas idéias tenham inspirado Octávio Tarquínio de Sousa a apropriar-se das proposições diltheyanas sobre poesia e história, então assinaladas por ele no corpo impresso do texto do filósofo alemão, e o tenham auxiliado na afirmação de certos valores para a biografia. Essa, na sua dimensão artística, promoveria uma revivência que, ao sensibilizar leitores, os levaria à compreensão da vida humana, no seu drama individual e histórico. Na apropriação de Octávio Tarquínio de Sousa, enunciada na sua introdução à História dos Fundadores, em nenhuma tarefa o historiador se aproximaria mais do artista do que na biografia. Assim, o historiador, o biógrafo e o poeta poderiam exercitar a interseção maior da função de suas obras, qual seja, compreender a vida.

Dilthey cuidou, todavia, de apontar as especificidades, e de certa forma, a especialidade da biografia na compreensão do mundo histórico. Segundo suas formulações;
Não é possível negar que a biografia revela uma significação especialíssima para a compreensão da grande conexão do mundo histórico. O que opera em cada ponto da história é, precisamente, a relação entre a profundidade da natureza humana e a conexão universal da vida histórica em desenvolvimento. Aqui teremos a conexão primária entre a vida e a história. (...) O curso de vida de uma personalidade histórica é um nexo efetivo no qual o indivíduo recebe as ações do mundo histórico, sob elas se constituindo, e por sua vez, sobre elas reagindo. Nisto reside, precisamente, a possibilidade da biografia ser uma contribuição científica (...).19
A perspectiva de compreender o homem somente por aquilo que a sua história permitisse dizer adquiria mais uma aplicação nas formulações diltheyanas sobre a fundamentação das Ciências do Espírito. A biografia, ao centrar-se no curso de vida de um único indivíduo, explicitaria sua constitutiva dimensão história, permitindo compreender o que Dilthey denominava de conexão primária entre vida e história. A narrativa das ações, idéias, percepções e valores de um indivíduo denotaria sua inserção no mundo, e explicitaria o quanto cada um existiria, na medida desse inexorável pertencimento. A concepção diltheyana de biografia enxergava a singularização de cada vida individual, construída pela narrativa biográfica, como a singularização do mundo histórico. A relação metonímica entre a parte e o todo voltava a ser aplicada, desta feita, na menção explícita ao valor científico da biografia.

Por todas essas implicações, a biografia como obra de arte, como produto de uma criação, como contribuição científica na decifração do mundo histórico, não poderia levar a cabo sua tarefa primeira, escrever a vida de um indivíduo, sem, ao mesmo tempo, recorrer a história da época em que o indivíduo em questão houvesse vivido. Essa condição de existência para a biografia, levava Dilthey a concluir que somente as personalidades históricas forneceriam os materiais que consubstanciariam a tarefa maior da narrativa biográfica: compreender, sobre bases documentais, o nexo efetivo de um indivíduo com o mundo histórico.

Para Dilthey, haveria muitas dificuldades inerentes a esse fazer biográfico comprometido com a interseção de análises entre um panorama histórico geral e a experiência de um único indivíduo. A despeito disso, sua avaliação era de que a posição da biografia dentro da historiografia fora realçada extraordinariamente. Como recurso inserido na compreensão do mundo histórico, como possibilidade de decifração de uma vida individual, a biografia guardava em si o valor de sua pertinência à historiografia.

Entre tantas das marcações do leitor Tarquínio de Sousa sobre El mundo historico caberia destacar, nos limites desse trabalho, uma, em especial: aquela que figurou na conclusão do texto do filósofo alemão. Por mais que algumas das idéias ali contidas repetissem formulações anteriores, havia nelas a presença do estilo diltheyano: repetir para acrescentar uma ou outra ponderação. Um pouco antes de alinhavar essa conclusão, o filósofo alemão listou de forma tópica alguns dos pressupostos de sua reflexão sobre o valor da história e da crítica dos valores na história. Nas palavras de Dilthey:


O caminho que empreendo se define a partir das seguintes proposições:

1.Da vida surge o conceito de valor.

2.O padrão de todo juízo, etc., o encontramos nos conceitos relativos ao valor, ao significado e ao fim da nação e da época.

3.A tarefa que se apresenta consiste em expor como estes conceitos relativos se converteram em algo absoluto.

4.Em poucas palavras isto quer significar o reconhecimento completo da imanência daqueles valores e normas que se apresentam como absolutos na consciência histórica.20
A passagem acima, mesmo não tendo sido grifada por Octávio Tarquínio, esclareceu, de forma sintética, o que seria a medula do relativismo historista do filósofo alemão, e, nos permitiu compreender melhor suas derradeiras considerações, essas sim, sublinhadas e destacadas com um X , nas margens do texto impresso:
A consciência histórica da finitude de toda manifestação histórica, de todo estado humano e social, da relatividade de todo gênero de crença constitui o último passo para a libertação do homem. Assim o homem adquire soberania para poder arrebatar de cada vivência o seu significado, entregar-se a ela despreocupadamente, como se não existisse nenhum sistema de filosofia e de fé que pudessem aprisioná-lo. A vida se livra do conhecimento conceptual, o espírito se torna soberano perante as teias de aranha do pensamento dogmático. Toda beleza, toda santidade, todo sacrifício, revivido e interpretado, abre perspectivas que descobrem uma realidade. E também o mal, o terrível, o odioso em nós mesmos, passa a ter um lugar no mundo, uma realidade que pode ser justificada na ordem do mundo. Algo que não pode ser posto de lado. E, frente a relatividade, se faz valer a continuidade da ação criadora como fato histórico central.

Assim surge da vivência, da compreensão, da poesia e da História uma visão da vida. (...) A vida e a história tem sentido como as letras de uma palavra. Na vida e na história ocorrem momentos sintáticos como em uma partícula ou em uma conjugação, e ambos possuem seu significado. (...) A vida se dá unicamente na vivência, na compreensão e na captação histórica. (...) Estamos abertos às possibilidades, já que o sentido e o significado surgem primeiramente no homem e na sua história. Mas não no homem individual, senão no homem histórico. Pois o homem é algo histórico...21
A citação, um tanto longa, cumpre a função não só de explicitar os últimos grifos do leitor Octávio Tarquínio, mas, em particular explicitar o que havíamos mencionado no início desse capítulo acerca de uma das dimensões centrais do pensamento diltheyano, apontadas por Gadamer e, mais detalhadamente, por Maria Nazaré de Camargo Pacheco Amaral, qual seja, a sua tentativa de construir uma filosofia da vida.

Se a consciência histórica permitiria constatar a relatividade de todos os valores, mesmo os que passaram a ser tratados como absolutos, se a consciência histórica seria a condição para a libertação do homem e a possibilidade de afirmar sua força criadora, tais premissas derivaram-se de uma concepção diltheyana de vida intimamente relacionada ao valor da história, enquanto experiência, e da História, enquanto conhecimento. A possibilidade de apreensão cognitiva de ambas, da vida e da história, remeteria à decifração de seus significados – as letras de uma palavra -, em operações interpretativas centradas no uso das categorias vivência e compreensão.



A premissas diltheyanas do homem como algo histórico e da sua vida como algo cujo sentido só poderia ser captado por meio da História, delegou ao texto biográfico, na sua acepção de escrita da vida de um homem, um valor intrínseco entre narrativas voltadas para o estudo do que “realmente havia acontecido”. As narrativas biográficas, contudo, deveriam configurar-se como textos que ao decifrarem seus protagonistas como sujeitos individuais, viessem, acima de tudo, apresentá-los como homens históricos. Nesse ponto, o encontro do biógrafo e historiador Octávio Tarquínio de Sousa com as formulações historistas do pensador alemão Wilhelm Dilthey permitiram ao autor brasileiro reiterar e lapidar o valor de suas narrativas biográficas para a escrita da história do Estado Nacional, em terras brasileiras. José Bonifácio, D. Pedro I, Feijó, Evaristo da Veiga, Bernardo de Vasconcelos foram todos, numa certa apropriação das idéias de Dilthey, nos retratos em papel e letras de Octávio Tarquínio de Sousa, homens históricos.


1 Professora da UERJ e da PUC-RJ. Doutora, pelo programa de pós-graduação, área de História Social, da FFLCH/USP.

2 Cf. Wilhelm Dilthey. El mundo historico. Tradução de Eugenio Imaz. México: Fondo de Cultura Economica, 1944, p. 318.

3 Cf. Octávio Tarquínio de Sousa. José Bonifácio. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1960, p. 14. (Coleção História dos Fundadores do Império do Brasil, v. I).

4 Cf. Wilhelm Dilthey. El mundo historico. Op. cit.. Em nota bibliográfica, ao final do livro, o tradutor esclareceu que a edição em espanhol havia sido elaborada, com modificações, a partir do volume VII das Obras Completas de Dilthey, editado por Groethuysen, em 1927, com o título Der Aufbau der Geschichtlichen Welt in den Geisteswissenschften. Precisando e justificando o que havia de diferente entre as duas edições, Eugenio Imaz destacou o fato de que ambas, contudo, na sua parte central, reproduziam texto do autor, datado de 1910, intitulado A construção do mundo histórico nas Ciências do Espírito. A publicação das obras completas do filósofo, em alemão, iniciada por alguns de seus discípulos, após sua morte em 1911, não seguiu um plano unitário, tendo sofrido interrupções, rearranjos e mudanças de editores, ao longo de uma temporalidade estendida entre as décadas de 1910 e 1980. Talvez isso nos permita compreender a relativa liberdade dos editores espanhóis em elaborar planos próprios para os volumes das obras completas de Wilhelm Dilthey que se dispuseram a traduzir. Para uma descrição sintética da história da publicação das obras de Dilthey em alemão ver Maria Nazaré de Camargo Pacheco Amaral. Dilthey: um conceito de vida e uma pedagogia. São Paulo: Perspectiva; Editora da Universidade de São Paulo, 1987, pp. XVII-XXVIII.

5 As avaliações sobre os significados intrínsecos à obra do pensador alemão são variadas. A enunciação da crítica da razão histórica é o principal argumento de Dilthey por ele anunciado como sentido maior de suas análises em sua Introdução às Ciências do Espírito (Introducción a Las Ciencias del Espítitu. Traduccion de Julián Marías. Madrid: Revista de Occidente, 1956). A ênfase em ser a obra de Dilthey uma filosofia da vida, o que transformava essa última num conceito axial nas formulações do filósofo, foi feita por um de seus discípulos, Georg Misch. Hans-Georg Gadamer, em suas avaliações sobre a obra diltheyana, recuperou e valorizou essa dimensão do pensamento do filósofo (Hans-Georg Gadamer. “Extensão e limites da obra de Wilhelm Dilthey”. In Pierre Fruchon (org). O problema da consciência histórica. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 1998, pp. 27-38). Reflexões mais detalhadas sobre tal questão foram promovidas por Maria Nazaré de Camargo Pacheco Amaral, em seu livro, já citado, Dilthey: um conceito de vida e uma pedagogia. Ver também José Carlos Reis, no livro, Wilhelm Dilthey e a autonomia das ciências histórico-sociais. Londrina: Eduel, 2003.

6 O conceito de historismo está aqui sendo utilizado de acordo com as formulações de Sérgio Buarque de Holanda no ensaio “O atual e o inatual em Leopold Von Ranke” (In Ranke. São Paulo: Ática, 1979, pp. 7-62). Como esclareceu o autor, os termos historicismo e historismo foram intercambiáveis fora da Alemanha, sendo que, nesse país, houve a prevalescência do último. Segundo Friedrich Meinecke (El historicismo y su génesis. México, Fondo de Cultura Económica, 1943), o conceito de historismo esteve associado a uma produção filosófica alemã onde procedeu-se, sob ênfases variadas, a substituição de considerações generalizadoras sobre as forças históricas humanas por considerações individualizadoras. A despeito dos intercâmbios entre as duas formas – historismo e historicismo – a caracterização feita por Meinecke manteve, entre diversos autores, sua aplicabilidade. Vale assinalar que a primeira edição do texto de Meinecke, publicada em alemão, em 1936, respondia pelo título Die Entstehung des Historismus, ao passo que a tradução para o espanhol, como podemos constatar, utilizou a expressão historicismo. Sérgio Buarque de Holanda ponderou que após a publicação de obra do filósofo Karl Popper – A miséria do historicismo – o uso do conceito de historicismo tornou-se objeto de algumas confusões em função do sentido imputado pelas reflexões de Popper. Tal fato levou o ensaísta brasileiro a optar pelo uso do conceito de historismo, e assim também decidimos fazê-lo ao nos referirmos às reflexões de Wilhelm Dilthey sobre o conceito de história.

7 Cf. Wilhelm Dilthey. El mundo historico. Op. cit., p. 158.

8 Idem, ibidem.

9 Idem, p. 179.

10 Cf. Maria Nazaré de Camargo Pacheco Amaral. Dilthey: um conceito de vida e uma pedagogia. Op. cit., pp. 33-34.

11 Cf. Wilhelm Dilthey. El mundo historico. Op. cit., p. 189.

12 Idem, pp. 195-196.

13 Cf. Octávio Tarquínio de Sousa. José Bonifácio. Op. cit., pp. 10-17.

14 Cf. Wilhelm Dilthey. Op. cit., pp. 196-197.

15 Idem, pp. 201-202.

16 Idem, p. 219.

17 Cf. Maria Nazaré de Camargo Pacheco Amaral. Dilthey: um conceito de vida e uma pedagogia. Op. cit., p. 19.

18 Cf. Wilhelm Dilthey. El mundo histórico. Op. cit., pp. 224-225.

19 Idem, pp. 272-273.

20 Idem, p. 317-318.

21 Idem, p. 318.



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