Em nome da Civilização: as (astúcias das) histórias de Ninguém1



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Em nome da Civilização:

as (astúcias das) histórias de Ninguém1


Francisco Murari Pires
1. O Herói contador de histórias
Em meio a uma das maravilhosas histórias de seu regresso errante de Tróia, a jornada ao Hades, Odisseu interrompeu o relato: lá sediavam tantas figuras de heroínas que nem avançando pela noite toda teria tempo para narrar o que vira. Preocupava-se com a hora já tardia daquela jornada, a recomendar seu encerramento, porque todos se recolhessem a gozar o sono repousante! Ao ensejo dessa interrupção, o herói não deixou de lembrar a seus hóspedeiros o permanente desejo de volta a Ítaca que o angustiava, destino este que, dizia ele, agora dependia da vontade dos feáceos aliada à decisão divina.

O reparo de Odisseu então situa os desvios divergentes dispostos por aquela situação em que nele se imbricavam as condições de herói e aedo de suas histórias: as premências intrigadas pela figuração do primeiro, o herói, projetavam o término daquelas histórias a encaminhar a mais imediata solução do regresso, contra as solicitações da figuração do segundo, o aedo, que, pelo contrário, projetavam regozijos tais de prosseguimento renovado a postergá-lo indefinido.

Dilema tanto mais intrincado quanto totalmente circunscrito pelos deveres dos nexos de hospitalidade que o determinavam.

Assim, a rainha, Arete, assentiu ao alusivo pedido, de que reconhecia todos os princípios de devida honorabilidade: que todos os nobres feáceos, pois, o gratificassem por dons de condizente riqueza. Pela voz do venerando ancião, Equeneu, a concordância da comunidade conciliava-se com a decisão régia.

Assim também se dispunha o desígnio do rei, Alcino, a referendar a palavra da rainha. Todavia, para melhor responder por tais deveres de honorabilidade hospitaleira, o rei reclamava retardar ainda a volta do herói, marcada para o dia seguinte, pois então completaria seu dom. Por ora, entretanto, que ele prosseguisse com suas histórias despreocupando-se do horário: a noite será bem longa, inimaginável, e nem são horas de ir dormir no palácio.2 Rogava, pois, ao herói que lhes contemplasse com mais outras histórias, tanto mais que as interrompera em ponto deveras intrigante, a seduzir fascinantes desdobramentos: que revelasse quem ele lá, no Hades, também vira dentre os divinos companheiros que o acompanharam em Ílion e aí findaram seu destino.3 Integrada a essa trama de persuasões, o rei fundamentara uma primeira razão porque afiançava em Odisseu o domínio primoroso da arte narrativa, como se fosse aedo divino:

"Odisseu, contemplando-te, certamente não julgamos que semelho a algum impostor e larápio sejas, desses muitos que amplamente espalhados a terra negra nutre, artífices de mentiras, de que ninguém mesmo percebe. Tu és exterior de palavras graciosas e interior de nobres pensamentos. Uma história, como se fosses cantor perito, contastes, com os teus mesmos pesarosos infortúnios e os de todos os argivos".4


A mais costumeira prudência bem recomenda, pondera Alcino, a desconfiança perante desconhecidos: por todos os lugares da terra vicejam inúmeros impostores e larápios, artífices de mentiras. E princípio de suspeita tanto mais necessário dada a precariedade da situação de suas eventuais vítimas: as mentiras que tais desqualificados contam não são detetáveis por quem as ouve.5

Todavia, excepcionalmente outro, assevera com firmeza Alcino, era o caso de Odisseu. Já pela consideração dos valores de que sua pessoa dava manifestas provas de dignidade, assegurava-se tal certeza: ações, todas elas, que bem conciliavam as virtudes de encantadora conformação discursiva com as de devida nobreza de espírito.

E a certeza deste conhecimento do caráter de seu hóspede Alcino firmara permanentemente ao longo de todo o tempo de sua presença atuante no palácio. A confiança que depositava na honorabilidade de sua pessoa advinha pela excelência de todos os seus atos, manifestação cabal da nobreza de sua condição aristocrática, certamente um dos áristoi que se distinguem superiormente entre os homens. E, confiança tão plena da apreciação de sua nobreza, que se dispusera a comprometer vínculos familiares, oferecendo-lhe mesmo a mão de sua filha.

Conhecimento da qualidade excepcional de Odisseu não apenas restrito a Alcino, mas partilhado também por Arete, que externara já perante os nobres feácios sua melhor apreciação quanto à boa figura física e à virtuosidade de espírito de seu hóspede. E, conhecimento ainda também amplamente difundido pela comunidade feácia, seja ao nível superior de suas autoridades conselheiras partícipes da vida palaciana, nível este bem reapresentado pelas intervenções do ancião Equeneu, seja no âmbito mais genérico do povo enquanto assistência de assembléias.

Assim, desde o princípio, gozava Odisseu da mais favoravelmente receptiva disposição dos feácios todos. Precisamente, tal era a obra da graça que Atena concedia à presença do herói em Ítaca. Obra da predileção do favor divino que justamente finalizava propiciar-lhe a conquista das devidas mercês honoríficas com que os feácios o agraciariam. E assim, o respeito reverente destes pela honra do herói ensejaria também igual respeito reverente da parte dos itacenses ao seu exitoso rei regressante.

Agora, ainda por esta outra ação - a narrativa de suas histórias -, dava igualmente Odisseu manifestação de suas virtudes, pois revelava dominar com mestria também a ciência a ela apropriada: a arte dos aedos. Quando, então, Alcino comenta elogiosamente a excelência do desempenho narrativo do hóspede ao contar as histórias de sua viagem, a confiança na veracidade de suas palavras estava dada já desde o princípio. Suas razões confluem e condensam-se pela progressiva consciência afirmadora da condição aristocrática e identidade heróica do estrangeiro: este princípio afiança aquela qualidade discursiva.

O ser aparente manifestado pelas ações de Odisseu, afirma Alcino, compõe, em geral, a forma apropriada das palavras externadas com a nobreza devida dos pensamentos por ele concebidos.6 Assim, também, em sua performance narrativa: "Uma história, como se fosses cantor perito, contastes, com os teus mesmos pesarosos infortúnios e os de todos os argivos". 7

O relato de Odisseu é similar, por suas virtudes, aos cantos narrativos dos aedos: dotado igualmente de perita ciência, epistamenós.8 Assim, comenta Walsh, se “descreve a competência do cantor: narra com conhecimento porque diz a verdade, e com perícia porque a diz com perceptível beleza”.9 A duplicidade de denotações que epistamenós supõe, então, bem qualifica apropriadamente a excelência narrativa do cantor: a arte formal da composição poética, mais a veracidade do conhecimento factual. E veracidade da história narrada porque éticamente comprometida pela lealdade da disposição pessoal do herói. Assim, sempre que Alcino solicitou os desempenhos narrativos do herói, bem o advertiu a observar esse condigno preceito.10 E, novamente agora, nem bem acabara de elogiar sua excelência narrativa, mais uma vez o reiterou, ao reclamar-lhe o prosseguimento de suas histórias: Mas, vamos, diga-me isto e veridicamente discorras.11

Pelo que assim insistem as advertências de Alcino, ficavam implicados naquela situação narrativa os imperativos de dever e dignidade requeridos pela reciprocidade dos nexos da ética da hospitalidade. O acolhimento hospitaleiro que Alcino dispensa ao herói prima pela magnanimidade generosa. Assim, então, igualmente a reclama do hóspede. Tal magnanimidade de disposição benévola ao firmar vínculos de hospitalidade compõe também a honorabilidade dos que são áristoi, quer Alcino quer Odisseu. Os nexos da hospitalidade dispõem assim harmonias de benesses mútuas de dons ofertados entre seus polos nobres: o hospedeiro festeja magnificamente seu hóspede, dotando-o de bens honoríficos, e o hóspede alegra o hospedeiro, fascinando-o pelas histórias maravilhosas de suas viagens. Há assim também razões subjetivas envolvidas no elogio de Alcino a Odisseu a confundir sua figura de herói com a de aedo de suas próprias histórias: tanto da parte de Alcino, desejoso de que Odisseu as prossiga, encantando-os pelas maravilhas dos feitos narrados, teleologia mesma que dá a razão de ser dos cantos poéticos a indiciar também sua veracidade, quanto da parte de Odisseu que, contando suas histórias não só firma a fama que o glorifica quanto também manifesta mais outra excelência heróica a angariar-lhe acúmulos de presentes honoríficos por que finalizava o êxito de sua campanha troiana.

Entrelaçamento, pois, nas histórias contadas por Odisseu na corte dos feáceos, dos nexos de (in)veracidades miticamente intrigados por referências de tríplice temporalidade factual: percepção retrospectiva de acontecimento passado por narrativa de comunicação presente12 consoante meditação prospectiva de desígnio futuro. Narrativa cuja arte (con)funde, pois, virtualidade previsiva por realidade teleológica. Por tais modos de memorização de uma narrativa mítica13 expõem-se histórias paradigmáticas cujos sentidos são determinados por esse imbricamento de temporalidades (con)fundidas.


2. Polifemo
Dentre as histórias contadas por Odisseu, de que Alcino acabara justo de afiançar a veracidade, ele dizia de sua visita à ilha dos Ciclopes, notadamente marcada pela disputa contra o monstruoso Polifemo. Mito exemplar de lições a recomendar os nobres preceitos da hospitalidade, firmados pela ordem cósmica de Zeus, como o modo piedoso de relacionamento reclamado entre viajantes. E história de viagens memorizadora de singular percepção helênica de conceber os traços de sua alteridade cultural, construindo a figura do outro pelos dados de inteligibilidade de si mesma.14
Alteridade marcada logo ao encontro com aquele desconhecido, quando este, de volta ao término do dia, adentrara a gruta acompanhado pelo rebanho. Figura de aparência amendrotadora: um homem gigantesco, monstruoso, nem sequer se assemelhava a um homem comedor de pão, mas a um cume arborizado, que aparece isolado entre as altas montanhas.15 Figura de descrição apropriada antes por imagens de natureza selvagem.16 Primeiro gesto ao adentrar a morada, brutalmente arremessando o pesado molho de lenha ao chão, por que atualiza pavor em todos, impelindo-os de imediato a abrigarem-se nas sombras do fundo da caverna. Sobretudo força descomunal, logo conscientizada quando ele fecha a entrada por bloqueio de grosseira porta similarmente gigantesca ("agarrou e pos no seu lugar um grande bloco de pedra, o qual erguera no ar apesar de ser tão pesado; vinte e dois cavalos atrelados a bons carros de quatro rodas não poderiam deslocá-lo do solo; foi esse bloco abrupto que ele colocou diante da entrada").17 Impressões ainda reforçadas quando de seu pronunciamento primeiro que, embora formulado por teor da fala consoante tratamento de inquérito convencional de estrangeiros ("quem sois? Donde vindes por sobre os úmidos caminhos? Fazeis algum comércio, ou errastes à aventura, como os piratas que vão arriscar a sua vida sobre o mar e levam a desgraça à gente de outros países?"), indiciava ainda brutalidade congênita, igualmente aterradora, fazendo "consumir de medo o coração por causa da voz rouca e da estatura monstruosa".18

Encontro, pois de Odisseu e Polifemo que configura limiar indeciso de virtual civilidade confusa de brutalidade, cujas angústias o herói logo buscou resolver encaminhando os modos indutores daquela primeira condição hospitaleira contra esta última inóspita: proclamou a identidade heróica de aqueus vencedores de Tróia ("feito guerreiro portentoso tão poderosa era a cidade a quem Agamêmnon, o filho de Atreu, pôs saque e tão numerosos os povos que ele destruiu"); a tais alusões de poderio guerreiro, acresceu os temores reverentes (da companhia) do poder de Zeus, por quem garantia a súplica de piedosa hospitalidade ("Nós chegamos até aqui e tocamos os teus joelhos, esperando que tu albergues os teus hóspedes, e lhes dês além disso um presente, o que é lei da hospitalidade. Muito poderoso, respeita os deuses; nós dirigimo-nos a ti como suplicantes; Zeus é o vingador dos suplicantes e dos hóspedes; é o deus da hospitalidade; ele acompanha os estrangeiros que o veneram").19

As razões do desejo logo, entretanto, se desfizeram revelando seus equívocos, pois a retórica de Odisseu enveredara por via de persuasão a (co)mover o (des)entendimento daquele gigante, à qual este, Polifemo, replicou compondo os argumentos da retórica justo oposta. No espaço dos Ciclopes, nem figura de poder é causa mobilizadora de medo nem tampouco a de Zeus é assim impositiva de cuidados reverentes. Cálculo errado de Odisseu ao equacionar realidades de temor e de reverência que supõem hierarquia de poder superior contra destino de subordinação: "os Ciclopes não se preocupam com Zeus portador da égide, nem com os deuses bem-aventurados, pois nós somos-lhes, certamente, muito superiores". Lugar ciclope, portanto, que desconhece a lei de Zeus, pois não reconhece seu poder superior. Não, o Ciclope configura em si mesmo o poder, realizado como fato de seu arbítrio, disposição de seu querer: "Eu próprio não te pouparia nem a ti nem aos teus companheiros para evitar o rancor de Zeus, mas apenas se o meu coração a isso me impelisse".20
A via civilizada das deferências da hospitalidade estava afastada das relações com aquele estrangeiro porque recusados, negados, seus fundamentos axiológicos pelo Ciclope. Entre os Ciclopes os modos e as normas de vida eram outros, mais primevos, pré-agrários: "esses gigantes sem leis, que se fiam nos deuses imortais e não fazem com seus braços qualquer plantação, qualquer lavoura; lá, tudo nasce sem que a terra tenha recebido semente ou amanho: o frumento, a cevada e as vinhas que dão o vinho dos pesados cachos, inchados para eles pelas chuvas de Zeus. Também pré-comunitários: Não têm assembléia deliberantes nem leis; habitam nos cumes de altas montanhas em antros côncavos, e cada qual impõe a lei a seus filhos e a suas mulheres, sem cuidar dos outros".21

Viviam, assim, dos frutos da natureza, por artes de trabalho conhecendo apenas as requeridas pelo pastoreio. Já pelo cenário interior da caverna se as reconhecia, fonte de maravilhamento às atrações do olhar por imagens de abundância e ordem artesanais: "grades de vime vergavam sob o peso dos queijos, e os estábulos transbordavam de anhos e cabritos; cada idade estava cercada por vedações; de um lado, os mais velhos; de outro, os médios; do outro, enfim, os novos; o soro saía por fora das vasilhas, todas elas, escudelas e tarros, bem feitas para a ordenha". Artes praticadas por Polifemo, conforme sequência cotidiana costumeira, mesmo rudimentar, de procedimentos ordeiros, quer ao início de cada jornada a levar os rebanhos para as pastagens, quer a seu encerramento recolhendo-os ao abrigo: alojamento de animais machos e fêmeas em lugares separados organizando a ordenha ("debaixo da ampla abóboda as gordas ovelhas, todas as que ordenhava, com machos, carneiros e bodes deixados à porta, no interior da alta cerca"); ritual de ordenha dos animais balantes por quem conhece as manhas da arte ("sentado, efetuando tudo em ordem, e punha uma cria sob cada fêmea"); disposição do provimento de leite em sua dualidade alimentar ("metade logo talhado e guardado aos cestos para o consumo futuro de queijo, metade fresco recolhido nas vasilhas para a refeição do dia"); então, lume ateado encerrando aqueles trabalhos, por ainda ambígüo (des)conhecimento das artes do fogo, valioso por iluminação e aquecimento), inútil para cozimento dos alimentos22.


Mas o Ciclope também era dotado de certa inteligência ou esperteza, pois antes de qualquer outra atitude acautelou-se sondando do desconhecido quais as circunstâncias de sua vinda e estada lá: "mas diz-me onde foi que, ao chegar, amarraste a tua sólida nave? Foi no extremo da ilha, ou perto daqui? Gostaria de o saber!". Odisseu, de espírito atilado, logo se deu conta do terreno em que então se jogavam os destinos daquele encontro: as artes da simulação ludibriadora. Ao teste, respondeu-lhe por astuciosas palavras, pois ciente dos intuitos da isca jogada pelo adversário: "Posidon, o Sacudidor da Terra, quebrou a minha náu, a qual lançou contra rochedos no extremo da vossa terra, aproximando-a de um cabo; o vento havia-a arrastado do mar alto, mas eu e estes que aqui estão escapamos à brusca morte".23

Confiança desanuviada de qualquer entrave, o monstro liberou os modos de sua natureza selvagem, de ânimo impiedoso: "deitou as mãos aos meus companheiros, apanhou dois ao mesmo tempo e bateu-os contra o solo como cachorros, escorrendo-lhes os miolos pelo chão e a regar a terra; decepou-lhes os membros e deu início à ceia, devorando-os como leão montês, sem poupar nem entranhas, nem carnes, nem ossos cheios de medula, associando-lhes a bebida do leite". Banquete não só reverso dos modos da hospitalidade24, como composto de desvios desumanos por suas iguarias. Assim farto, entregou-se ao sono, (con)sequência inerente de digestão de comilança, deitando no fundo do antro no meio de suas ovelhas, adequada companhia animal a encerrar tais modos.

Oportunidade primeira, porque imediata, abriu-se ao herói: tramou matar o gigante, assim indefeso, descuidado, enterrando-lhe, golpe infalível, a espada em centro letal do corpo, onde o diafragma envolve o fígado, apenas tendo-o tateado. Lance em si certeiro, mas falto de melhor previsão, pois selaria também a morte deles mesmos, a ficarem lá trancados, prisioneiros da morte, sem ter como escapar: seus braços não seriam capazes de afastar da porta elevada a pesada pedra que ele colocara a obstruí-la. Definitivamente aquela não era disputa a vencer propriamente no terreno da força, campo de superioridade do adversário. Ao ímpeto da ação imediata haveria que dar tratos à inteligência para que descortinasse a saída daquele impasse paralisante.

Amanhecer do dia seguinte, entreato de episódios reiterados de ordenha, almoço canibal de mais dois companheiros, e saída com o rebanho a alcançar os pastos da montanha: nenhum esforço para mover o penedo, quer abrindo quer fechando novamente a passagem como se pusesse a tampa num carcaz. E lá se foi, contentamentos de vitorioso, glorificando-se por rudimentares cantos assobiados.

Odisseu, encerrado no destino sombrio da gruta, desejava vingança, então iluminando seu espírito pela lembrança do favor de Atena. Viu na moca, o pau de oliveira ainda verde que o ciclope ocasionalmente lá deixara a secar encostado a um cercado, o plano de um desígnio: arma de cegamento do gigante, fincada em seu (único) olho quando dormisse. Preparado habilmente o recurso (corte no tamanho apropriado, casca retirada, alisamento e ponta aguçada e endurecida ao lume chamejante), ocultou-o sob o estrume espalhado no antro.

Ao retorno de Polifemo à caverna e ceia renovada de mais dois companheiros, Odisseu ativou a trama de seu ataque: ofereceu-lhe uma gamela do doce vinho de Marão que, precavido, trouxera consigo, (dis)simulando a exposição do motivo por que lhe fazia aquela libação: "na esperança de que te apiedasses de nós e me deixasses partir para a minha casa, mas a tua demência está longe de ser suportável. Cruel! Como é que algum dos outros homens, por muito numerosos que eles sejam, há de querer um dia aproximar-se de ti, se ages com desprezo por todas as leis?"25

O gigante aceitou de bom grado e sorveu-a de imediato: mordera a isca! A sedução da bebida fincou a presa em fisga inquebrantável: ansiava por mais doses, pois alegava que, embora os ciclopes conhecessem "o vinho dos pesados cachos, os quais incha a chuva de Zeus, nada se comparava àquele, puro suco de ambrosia e de néctar!" Amenizou sua postura, agora tratável, então promovendo os ritos que Odisseu dele antes reclamara: "Tem a gentileza de me dar mais, e diz-me sem demora o teu nome; quero oferecer-te um presente de hospitalidade que te agrade".26

Mas o herói, antevendo desígnio doloso, neutralizou o fundamento de sua astúcia, revertendo-o contra o adversário ao sobrepor-lhe contra-ludíbrios: "Ciclope, tu perguntas qual o meu nome famoso; vou então dizer-to. Por teu lado, dá-me o presente de hospitalidade, tal como prometeste. Ninguém, eis meu nome. É Ninguém que me chamam minha mãe, meu pai e todos meus companheiros".27 O dolo da dissimulação de um dom (não) prometido por Polifemo é contrariado, em seu nexo de hospitalidade, pelo dolo da simulação de um (não) nome declarado por Odisseu.

O imprudente, espírito turvo, não se dava conta dos rumos do jogo astucioso, iludindo-se por pretenso domínio com que, sarcástico, finalizou-o: "Ninguém, comer-te-ei depois dos teus companheiros; sim, todos os outros antes de ti; será o meu presente de hospitalidade".28 Assim embriagado de vinho e (pretensa) vitória, apenas caiu de sono ao chão, deitado de barriga para o ar, inerte, por ações não passando dos arrotos por que vomitava os excessos daquele festim enícola de carnes humanas. Efeitos de vinho portentoso, o vinho de Ísmaro, cuja potência humanos suportam apenas se fortemente diluída em mistura aquosa (por uma taça de vinho, vinte medidas de água), de modo sua força bem condizia com a natureza daquele gigante29.

Tempo, ocasião, do feito heróico por agressão contundente de estaca-dardo de oliveira manejada como por quem domina as técnicas das artes conjugadas de marceneiro e ferreiro por modos primorosos de eficiência fulminante, tão infalível, a não deixar quaisquer resquícios de visão, quão, entretanto, apenas instantânea, pois assim crucialmente reclamada para aproveitar o kairós daquele ataque: "os companheiros apoiaram-lhe a ponta sobre o globo do olho; eu, carregando em cima todo o peso do meu corpo, fazia-a girar sobre si mesma: quando se fura a madeira de um navio com um trado, enrola-se na base do instrumento uma correia, pela qual se puxa de ambos os lados para o mover, e ele rodopia sempre no mesmo sítio; assim, segurando a estaca aguçada ao lume, nós fazíamo-la voltear no olho, e o sangue jorrava em torno da ponta abrasadora, e por toda a parte, em cima das pálpebras e das sobrancelhas, a pupila tostada estrugia, e as raizes encarquilhavam-se sob a chama. Quando um ferreiro molha uma grande acha ou uma machadinha em água fria para a endurecer, o metal assobia fortemente, mas em seguida é grande a resistência do ferro. Assim assobiava o olho do monstro em torno da estaca de oliveira".30

Quando, em transe furioso de dor e cegueira, o monstro clamou pela ajuda dos demais ciclopes contra aquele perverso adversário, atualizou-se a eficácia do ludíbrio disposto pelo nome capcioso31 de Ninguém. Pois, à inquirição feita pelos ciclopes acorridos em socorro de Polifemo a aventarem qual a causa de sua terrível gritaria quebrando o silêncio da natureza noturna ("Acaso um mortal se apossa contra a tua vontade dos teus rebanhos, ou procuram matar-te por manha ou violência?"), o desgraçado formulou resposta que supunha ser clara e plenamente afirmativa, pois não só identificava-lhes o mortal por seu nome como declarava o modo da agressão de que fora vítima (Quem mata, amigos? Ninguém por manha; não há violência). Os ciclopes, entretanto, (des)entenderam a resposta tomando-a por estranhamente negativa, só (in)compreensível como manifestação de estado de demência: "Se ninguém te faz violência e tu estás sozinho, é sem dúvida uma doença que te envia o grande Zeus e que tu não podes evitar; invoca então nosso pai, o poderoso Posidon!".32
Começa então o segundo tempo do jogo de disputas ardilosas, pois o impasse logo interposto por Polifemo agora respeitava à saída e fuga a salvo da caverna: abriu a porta removendo o bloqueio da rocha, assim seduzindo-os a precipitarem o escape. Mas se dispusera lá sentado de través como novo obstáculo, simulacro de rede gigantesca por que contava apanhá-los no intento apressado de fuga em meio às ovelhas. Odisseu, entretanto, resistiu ao apelo daquele logro, armadilha apenas de estultos e para tolos. Contra tais reações impulsivas, novamente ativou a reflexão da mente inteligente que descortinasse desfechos seguros. De modo que a astúcia de Polifemo atuou cúmplice de sua derrota, pois agora, assim removendo o penedo, o único ser com força capaz para tanto, viabilizara o livramento.

A visão inteligente do herói deparou agora no único recurso de saída possível por aquela passagem, que a (des)atenção do monstro permitisse: o rebanho. Precisamente, as ovelhas. Assim, Odisseu tramou os modos por que ocultariam nelas o translado de seus corpos, escondidos agarrados sob seus ventres felpudos. Juntas de três animais por enlaces de vime contrabandeavam um dos companheiros para fora, enquanto o carneiro maior o fazia para Odisseu por harmoniosa condignidade de figuras distintivas de comando, animal e heróico. Outro ludíbrio perpetrado contra o inglório gigante, de agora apenas precária vigilância por ambígüa (des)atenção, pois suas suspeitas desconfiaram apenas do translado animal como montaria: tateava o vazio dos costados das ovelhas!


Por tais desfechos honoríficos finalizava o encontro de Odisseu com Polifemo: meia dúzia de companheiros trucidados a menos, a glória de um feito heróico altivamente proclamado a mais em sua trajetória errante de regresso a Ítaca. De modo que o sacrifício da comunidade responde pela honorabilidade do rei!
Narração de episódio que, assim, compõe uma figura teleológica de herói plena de descortinos previsivos de inteligência astuciosa mais zelos cautelosos de precavida prudência. Graças à conjugação oportuna dos recursos de tais artes sapientes o herói helênico supera e vence adversário, entretanto, deveras portentoso, dotado de força imbatível, por que gigante brutal consoante modos ímpios de crueldade selvagem.

Para a trama narrativa dessa vitória no horizonte da métis, traços da mesma respingam na composição também do adversário, Polifemo, projetando figuração híbrida não só por suas (in)definições conceituais de monstruosidade - meio besta meio humano -, como ainda pelas ambigüidades de seu caráter, cujas ações o dotam tanto de laivos de cautelas solertes contra outros de descuidos obtusos, de inteligência cínica contra de estupidez simplória, de ironia espirituosa contra de parvoíce pateta, de polidez e sutileza esperta contra de brutalidade grosseira, de solipsismos isolacionistas insciente de obrigações contra reclamos de laços de solidariedade, de intuição vigilante contra de estultície tapada, de astúcia dissimulante contra de ingenuidade medíocre.33

Pelo nome doloso de Ninguém, a mente astuciosa de Odisseu concebia uma trama a confundir a semântica referenciadora de toda definição onomástica, assim negada ao identificar ambigüamente a presença de (nenh)um indivíduo, antes induzindo o fato de sua ausência pelo (des)entendimento da codificação genérica. Mas, pelo diálogo então travado pelo (representante) Ciclope com Polifemo, a história contada por Odisseu novamente transita por divergência de alcances no (des)entendimento do outro, o Ciclope: suposto em pleno âmbito de abstração conceitualizadora da semântica onomástica para o caso dos Ciclopes como uma entidade coletiva, contra a ingênua rudimentaridade de sua aferição apenas pela concretude para o caso de Polifemo. Não poderiam os ciclopes (des)entender a resposta que lhes fora dada pelo nível mesmo do entendimento da linguagem de Polifemo? Se Polifemo é concebido por Odisseu-Homero como o nível do outro, selvagem estúpido, os Ciclopes o são pelo nivel do mesmo, herói helênico?
Mas como principiara toda aquela aventura? Por que desígnios Odisseu a empreendera? Por quais razões etiológicas e teleológicas transita sua história?

Ao repouso revigorante da descida na ilha, o olhar de Odisseu, de descortino civilizado e acuidade heróica, fizera despontar um sítio atraente de visita por ítens mínimos de ameno acolhimento hospitaleiro: "na ponta extrema (da ilha), perto do mar, uma alta caverna coberta de loureiros. Estava ali amalhado um numeroso gado, ovelhas e cabras; a toda a volta fora construído um alto muro de cerca com pedras enterradas no solo, pinheiros esguios e carvalhos de elevada copa".34 Porque figura humana que projeta na experiência cognitiva do mundo terrestre, habitat que abriga diversidade intrigante de modos e costumes culturais vários, um dos valores constitutivos da honorabilidade da vida heróica, Odisseu dispusera-se àquela aventura em um espaço desconhecido, ignorando o acolhimento que encontraria, se amistoso de civilidade ou se inóspito de selvageria. Ancorava, todavia, por teleologias de boa cautela o desafio com que enfrentasse as incertezas da empresa: levava consigo odre de vinho puro, bebida divina, doce como mel, de apelo irresistível já por aroma magnífico, pois seu grande coração pressentira imediatamente que surgiria um homem dotado de uma enorme força, um ser selvagem, e mal instruído acerca da justiça e das leis. Pelo sentido teleologicamente concebido, o herói calculava, então, que contra o emprego da força bruta monstruosa há que contar com o poder inebriante do vinho que a neutraliza.

Assim, apressou-se para lá. Encontrou a entrada aberta, gruta vazia. Esplêndida despensa de queijos e animais. Dois modos de (re)ação conflitam seus desígnios. Por um lado, tacanhas limitações dos impulsos ignorantes da tropa de comandados, contentes por aproveitar os ganhos fáceis e medíocres de um feito apenas furtivo (surrupiar alguns queijos mais outros cabritos e anhos: cuidavam apenas de satisfazer as necessidades de que as Musas espezinham como horizontes de ventres só), logo resguardado por fuga imediata a alcançar as naus e partir. Por outro, o desígnio heróico, contrapositivo por outros entendimentos, bem discordantes: queria ver o ocupante e esperava que ele me daria presentes de hospitalidade.35 O fato da honorabilidade heróica impõe valores a mais, distintivos, para o viver: noblesse oblige. Pela axiologia da vida heróica conjugam-se posses de tesouros por experiências de conhecimentos buscados mais honrarias de dons e riquezas almejadas: as viagens, pontuadas de hospitalidade, os finaliza, ambos.36

Assim, todavia, em espaço civilizado! Pois, afinal, que ganhos de dons honoríficos de hospitalidade poderia o herói ambicionar ao descortino daquele antro de (alg)um pastor das cavernas: cestos, queijos, cabras ou ovelhas? Prenunciava aquele cenário uma sede de civilidade heróica que ensejasse tais modos e brindes dignificantes por que os nobres se presenteiam entre si? Divergia, assim, por projetar um marcado telos superior, o desígnio de Odisseu, em razão do qual rechassara a proposta banal de simples furto desejada por seus vulgares comandados? O que Odisseu recusa por elementaridade tacanha de fins da parte dos comandados não é justamente ao que se reduz o que ele, entretanto, acaba obtendo também por furto?

A história contada por Odisseu não (con)funde, como aliás o argumentou já Pietro Pucci37, (in)consistências de representações de lugares, civilizado por selvagem, transferindo (des)entendimentos de um pelo outro?
Já quando iniciava a fuga salvadora com o barco avançando pelo mar a afastar-se da terra dos Ciclopes, Odisseu entendeu completar a finalização de seu feito heróico selando por quais termos e sentidos se definiam os ensinamentos exemplares daquela empresa. Primeiro apostrofou o gigante, a espezinhar-lhe, sarcástico, o orgulho, ele que proclamara, impávido, não temer qualquer dano advindo do poder de Zeus por que devesse observar reverentes modos de piedosa hospitalidade: "Ciclope, não era pois desprovido de valentia aquele cujos companheiros tu entendeste devorar no fundo do teu antro com a tua violência feroz! Não podias fugir a terríveis represálias, ó cruel, que não temias comer hóspedes em tua casa. Por isso Zeus e os outros deuses se vingaram".38

A proclamação odisséica, assim ditada por imperativos de ética heróica a lastrear ideologicamente os ordenamentos dispostos pelo poder de Zeus, arriscava, entretanto, novamente o êxito do empreendimento no limiar do perigo ruinoso, pois, pela voz indiciadora da localização dos trânsfugas ensejava ao monstro, de reações agressivas então reduzidas aos disparos caóticos de sua cegueira, reorientar os sentidos espaciais por disparos mais certeiros: tiro de enorme penedo arrancado à montanha só não alvejou o barco por um triz, causando tal torvelinho contíguo que o arrastou de volta às costas da ilha.

Por reiterado empenho de remagem o barco novamente se afastou, e quando agora alcançava o dobro da distância, o herói terminou sua proclamação, assinalando também a fama do poder heróico então afirmado: "Ciclope, se alguma vez um homem mortal te perguntar quem te infligiu a vergonha de te vazar o olho, diz-lhe que foi Ulisses o saqueador de cidades, o filho de Laertes, cuja morada é em Ítaca".39 Assim, também naquele espaço inóspito e selvagem reinaria a glória do herói, graças ao memorial que a cicatriz da cegueira monstruosa assinalava no corpo mesmo de Polifemo, como que (con)figurando espécie de paradoxal sema vivo de um feito heróico odisséico.

A réplica então contraposta por Polifemo compõe rico tesouro de significações entremescladas: "Ah!, céus! Eis pois que se cumprem para mim os antigos oráculos! Havia aqui um adivinho, nobre e grande, Télemo, filho de Eurimides; ele era exímio a predizer, e até à sua velhice falou como oráculo aos ciclopes. Anunciara-me que tudo o que me está a contecer se consumaria um dia, que seria privado da vista pelas mãos de Ulisses. Mas eu esperava sempre a vinda de um ser alto e belo, revestido de uma força portentosa; e agora foi um pigmeu, um miserável, um enfermo, que me vazou o olho, depois de me ter dominado pelo vinho".40

Um primeiro sentido, logo antecipado pelos dizeres com que Odisseu-Homero poetou aquela fala ("ele respondeu-me com um gemido"), maximiza a infâmia de Polifemo, cuja vergonhosa derrota era (in)digna de apenas auto-comiseração de gigante agora em choro compungido! Certamente que a fala comporta também outro sentido conflitante, a (des)entender aquele primeiro enquanto afirmado apenas por penalização (dis)simulada, visando à trama com que intentava ludibriar a (des)atenção do herói atraindo-lhe mais outra vez por novas ofertas de dons hospitaleiros por que a encerrava: "Mas vem cá, Ulisses, para que eu te ofereça os teus presentes de hospitalidade e solicite ao ilustre Sacudidor da Terra que te conceda um acompanhamento!, pois sou seu filho; ele honra-se de ser meu pai. Só ele, se assim o entender, me curará, já que nenhum outro o poderá, nem deuses bem-aventurados nem homens mortais".41

Mas os teores da resposta de Polifemo articula também significativa dialética axiológica da ideologia heróica, todavia assim formulada paradoxalmente pela fala de um suposto selvagem. De nada lhe valera a advertência oracular que prenunciava seu destino de infame cegueira, dada a miopia do horizonte de valores do gigante: disputa (pres)supõe, pelo seu (des)entender, apenas o domínio da grandeza corpórea por que os seres são dotados da força e violência em que fundam coragem, destemor e demais virtudes guerreiras. Polifemo, aguardava, pois, um (pretenso) igual com quem medir-se! Ora, Odisseu, pelo contrário, só aparentava insignificância: um pigmeu, um miserável, um enfermo que, pois, não revelava mais que desvalia: fora sim o poder do vinho que o domara, para (de)mérito de Odisseu.

Os modos da fala de Polifemo são assim similares aos dos discursos apresentados por representantes helênicos, de estatura heróica ou heroicizada, quer de memorização homérica quer de suas reminiscências clássicas. Tais foram os modos, por exemplo, por que guerreiros negaram reconhecimento de superioridade a adversários que o agrediram por recursos indignos, como o fez Diomedes a Páris42 ou o espartíata prisioneiro de Esfactéria ao aliado ateniense43. Modos ambíguos da memória helênica (des)considerar a métis por virtude bélica, consoante astucioso jogo de (des)atualização axiológica por que a ela atribui (des)valia de referenciação a si mesma ou ao outro de sua identidade cultural.
Pelas fórmulas versificadas que a epopéia utiliza na Invocação à Musa, a referência à pessoa do aedo é antes ambígua, fazendo supor tanto uma individualidade humana quanto sua ausência. O que projeta na representação épica deste agente de memorização dos cantos uma (con)fusão de subjetividade com objetividade. O eu do aedo aí comparece desprovido de nome próprio, de modo que pode ser assumido por qual outro aedo que, em tempos vindouros, venha a recitar os poemas.44

Mas o nome da Musa não é o único a estar associado tradicionalmente à emissão dos cantos épicos. Há também o de Homero, para a Ilíada e a Odisséia. Este paralelismo onomasiológico implicado pela tradição da epopéia remete assim a uma representação dual do ato de composição dos cantos: há um sujeito divino que revela seu conhecimento e há também um agente humano que transmite sua memória. Homero assim representa um nome de aedo paralelo aos de Demódoco e Fêmio. Nome que, entretanto, permanece exterior ao poema, antes obliterado, assim elidido justamente por essa representação em contrapartida de uma entidade mítica nomeada Musa. A presença narrativa deste nome mítico vale a ausência narrativa daquele nome autoral.



Este vínculo que a epopéia estabelece entre o aedo e a Musa, dadas as referenciações de ordem geral supostas por essas duas categorias – Musa e aedo – suscita uma figura de paradoxal anonimato para caracterizar tanto o sujeito de composição do canto quanto seu agente de memorização poética. A relação aedo-Musa articula o duplo aspecto pressuposto por um tal processo de memorização que remete, de um lado, a uma figura de subjetividade, por meio desse indivíduo humano que atualiza a récita a cada presente, e de outro, a uma figura de objetividade, por meio da deusa que consagra o saber atemporal do canto. Tem-se assim uma espécie de dialética figurada pela representação do sujeito da narração que tanto confunde quanto distingue aedo humano de Musa divina.
As histórias que então Odisseu conta a Alcino bem se definem pela astúcia de sua onomástica ludibriante com que turvou a (des)atenção de Polifemo: Odisseu é também Ninguém. A perfeição de arte previsiva porque conduz sua disputa contra o Ciclope antecipando a cada instante seu desenrolar progressivo confunde-se com a da arte narrativa do aedo que as trama teleologicamente. São histórias de Ninguém. Pelo que essas histórias (des)vendam dos modos do Ciclope, o outro dessas histórias, assim os confundindo com os modos da identidade cultural do narrador helênico, teríamos, então, nelas as histórias de ninguém outro (que os helenos), como tal conceitualmente nomeado Homero.
Quantas monstruosidades em histórias astuciosas não se desfiguram em nome das pilhagens e ufanismos da civilização!

1 Toda a primeira parte deste ensaio foi originalmente publicada em Mithistória (Murari Pires, 1999: 248-254).

2 Homero, Odisséia XI.373-4.

3 Homero, Odisséia 375-6.

4 Homero, Odisséia XI.362-376.

5 Para a análise destas considerações remetemo-nos a nosso estudo em Mithistória, p. 248-254.

6 Confiram-se os comentários de N. Austin (Archery..., p.199-200) a esta passagem odisséica: “Alcino igualmente cumprimenta o poeta substituto, e a ênfase é posta novamente tanto no espírito interior quanto na aparência física exterior: Não és um daqueles furtivos embusteiros que costuram mentiras. Há em tuas palavras uma forma (morphe: compare-se o dito mesmo de Odisseu sobre a capacidade das palavras de conferirem morphe: VIII.170) e teus phrenes interiormente são bons”. O mesmo autor lembra ainda que, similarmente a esse louvor da figura de Odisseu enquanto contador de histórias por que se harmonizam em plena congruência a beleza da forma exterior das palavras com a correção moral de seus pensamentos e desígnios interiores, também Arete assim tece loas ao herói, por sua vez apontando essa mesma congruência harmônica de sua beleza física exterior com a moralidade de seu espírito interior: XI.336.

7 Homero, Odisséia XI.369.

8 Além de Alcino na presente passagem, também Eumeu louva a excelência poética das histórias odisséicas, equiparando o herói pela competência do aedo: confiram-se XVII.518 e XXI.404.

9 G.B. Walsh, Varieties..., p. 7.

10 Homero, Odisséia, VIII.388; 548.

11 Homero, Odisséia, XI.370.

12 Heubeck, v. 182-192

13 Para estas considerações rementemo-nos a nosso ensaio “A Vigia do Acontecer e a História do Acontecimento” incluído em Mithistória, p. 15-17.

14 François Hartog, O Espelho de Heródoto, p. 229-271.

15 Homero, Odisséia IX.190-192.

16 Ch. Segal, Singers..., p. 33.

17 Homero, Odisséia IX.233-236.

18 Homero, Odisséia IX.252-257.

19 Homero, Odisséia IX.259-271.

20 Homero, Odisséia IX.273-280.

21 Homero, Odisséia IX.106-115.

22 Homero, Odisséia IX.237-250. (confiram-se os comentários de Heubeck ao v. 233).

23 Homero, Odisséia IX.252-271.

24 “...ao invés de oeferecer uma refeição a seus hóspedes, o Ciclope faz de seus hóspedes sua refeição” (P. Pucci, Song of the Sirens, p. 117).

25 Homero, Odisséia IX.347-352.

26 Homero, Odisséia IX.355-359.

27 Homero, Odisséia IX.364-367.

28 Homero, Odisséia IX.369-370.

29 Confira-se o comentário de Heubeck aos v. 208-11.

30 Homero, Odisséia IX.375-394.

31 M. Edwards, Homer..., p. 120.

32 Homero, Odisséia IX.403-412.

33 P. Pucci insistiu em seu ensaio The I and the Other in Odysseus’s Story of the Cyclopes (The Song of the Sirens, p. 113-130) sobre estes aspectos.

34 Homero, Odisséia IX.182-187.

35 Homero, Odisséia IX.172-176.

36 Pela história exemplar que Heródoto conta da visita de Sólon a Creso, saber e riqueza são dados, para a figura do bárbaro, como bens dissociados e em oposição, de modo que a sabedoria helênica então se mede superiormente contra as pretensões da fama da riqueza lídia. Já Plutarco em sua biografia do sábio ateniense gurdou a memória de que nos tempos arcaicos da Hélade tais finalidades de constituição de conhecimento e obtenção de riquezas conciliavam-se pela empreendimento das viagens, de que a de Sólon ao Egito era a melhor prova.

37 Confira-se, nesse sentido, o estudo de Pietro Pucci, cap. 8 de The Song of the Sirens (passagem inaugural, p. 113: In examining the themes and modes...

38 Homero, Odisséia IX.475-479.

39 Homero, Odisséia IX.502-505.

40 Homero, Odisséia IX.507-516.

41 Homero, Odisséia IX.517-521.

42 Homero, Ilíada XI.368-400.

43 Tucídides, A Guerra dos Peloponésios e Atenienses IV.40. Confiram-se nossos comentários em Mithistória, p. 335-337.

44 Estas considerações foram já argumentadas em Mithistória, p. 207-223.


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