Em torno da biografia como um gênero histórico: apontamentos para uma reflexão epistemológica



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Guimarães, Valéria Lima – UFRJ
EM TORNO DA BIOGRAFIA COMO UM GÊNERO HISTÓRICO: APONTAMENTOS PARA UMA REFLEXÃO EPISTEMOLÓGICA

Introdução


A biografia, um gênero bastante requisitado desde os gregos antigos, foi desde então, utilizada com diferentes propósitos e tem transitando entre o campo literário e a história. Durante muitas décadas do “breve século”, parafraseando Hobsbawn, o gênero biográfico recebeu um pesado estigma, estando associado ora como um recurso literário com forte apelo à ficção, mascarando a verdade, o que a distanciaria da História; ora associada como um eficiente instrumento utilizado para a promoção do culto à personalidade de políticos, santos, reis e rainhas, enfim de personagens históricos eminentes, de elevado prestígio político, social ou religioso, desprezando portanto a história dos “de baixo”, dos vencidos; ora como um recurso menor, um acessório para o trabalho do historiador recorrer sempre que necessário para incrementar e corroborar as suas pesquisas.

Tais conotações, aliadas às teorias macrossociais, em grande evidência nos idos dos anos 60, preocupadas com o estudo das minorias, da coletividade que punha o indivíduo no anonimato, puseram em dúvida a validade da biografia enquanto um gênero para a História e transformaram-na num recurso menor, desprestigiado justamente pela crença de que o gênero biográfico possuía uma componente ideológica comprometida com as elites políticas, interessadas no culto à sua personalidade e na manutenção do seu status quo. Biografia, hagiografia e história de vida são diferentes abordagens que foram consideradas como expressões correlatas, numa confusão semântica que contribuiu, sem dúvida, para o decréscimo da biografia nos trabalhos historiográficos.

Nos últimos anos, observa-se uma retomada do interesse da comunidade de historiadores pela biografia, em especial nos trabalhos que se ocupam da história política, que também emerge após um longo período em desuso, em parte pelos mesmos argumentos aplicados ao gênero biográfico. Entretanto, uma nova confusão se instala: será a biografia um gênero histórico, ou antes disso, ela é um recurso metodológico, que começa a ganhar espaço neste final de século? A sua ascensão seria um indicativo de um modismo, um uso efêmero de um “novo” instrumental metodológico, um filão recém-reinventado? Inclinados a considerar a biografia enquanto um gênero de grande importância para a História, é forçoso admitir, contudo, que falta-lhe um referencial, um estatuto capaz de lhe conferir esse status de gênero a que estamos postulando. O lugar da biografia na História – esta observada sob a ótica de Certeau enquanto um saber que implica uma escrita, um lugar social de quem a escreve – o historiador – e um compromisso com a verdade1 – ainda está por se consolidar. O retorno da narrativa na escrita da História, a revalorização do papel do indivíduo na História e a renovação da história política são fortes atrativos para que a biografia, desvinculada dos estigmas que a acompanharam por muito tempo, ocupe um lugar de destaque na História. Entretanto, uma reflexão sistemática que procure definir o que é exatamente uma biografia, que tipo de tratamento metodológico admite, qual o lugar que ocupa na História enquanto um saber científico e a sua própria historicidade e aplicabilidade ao longo dos tempos, qual a sua importância e por que utilizá-la é um primeiro passo para a construção de uma necessária teoria que discuta e assegure à biografia a sua importância enquanto um gênero de conhecimento da História.

Não temos aqui a pretensão de darmos a palavra final, de elaborarmos uma epistemologia acerca do gênero biográfico, tarefa de grande magnitude que requer muitos debates, mas interessa-nos lançar algumas reflexões que possam atentar para a importância da biografia na História e encaminhar esse debate com vistas a dar uma pequena contribuição às discussões em torno da construção de uma teoria que ampare e valorize o uso da biografia na História. Discutiremos brevemente neste artigo temas imprescindíveis ao gênero biográfico, como a questão da memória, da oralidade, da narrativa, do tempo e da afinidade coletiva, como a identidade de classe ou de categoria social, que caracterizam as biografias coletivas.


Em defesa da biografia


De acordo com o Dicionário Aurélio, biografia é sinônimo de descrição ou história de vida de uma pessoa.2 Para os historiadores, a definição torna-se inoperante, uma vez que existem diferenças capitais entre história de vida e biografia, além do que a expressão descrição camufla a possibilidade de se estabelecer relações entre a vida do biografado e o contexto em que este se inscreve. Uma história de vida não tem necessariamente o compromisso de estabelecer articulações entre a vida do sujeito com a sua vida social e as relações sociais que o cercaram, procurando não só compreender mas também posicioná-lo em relação ao seu contexto. O seu propósito está na reconstrução feita pelo historiador junto com o próprio depoente da vida pregressa daquele que está prestando o depoimento. Uma outra modalidade que se ocupa da trajetória de vida é a ego-história, um recurso que internaliza de forma absoluta a história de vida de alguém, isolando o personagem do seu contexto. Georges Duby, em sua ego-história, intitulada O prazer do historiador, manifesta o seu desconforto em escrever a sua história, confrontando-se com o dilema de escrever em primeira ou terceira pessoa, tornar a narrativa pessoal ou impessoal, terminando por optar por escrever em primeira pessoa mas decidindo por manter o seu afastamento. No texto, são narradas várias fases de sua vida pública, pois o autor prefere não falar da sua afetividade nem de seus gostos e atividades culturais. A sua trajetória intelectual torna-se a sua ego-história. O historiador, por ofício acostumado a estudar a vida do sujeito em seus vários aspectos e conhecer as diferentes relações sociais que o cercam, opta por ocultar uma significativa parcela de sua vida, resumindo-a à sua trajetória intelectual. Ainda que tenha optado por falar de como é ser historiador no século XX a partir de sua própria experiência, não se pode excluir as suas relações extra-muros da universidade. Narrando desde a sua entrada na escola na infância até a posição de historiador titular de universidade francesa, passando pela opção pela história, a especialização em história medieval e o gosto pelo ofício, a ego-história de Duby mais parece um curriculum vitae, como afirmara Paul Valéry, e ela não nos permite compreender satisfatoriamente as teias que o cercam e explicam a sua própria história e que tipo de inserção tivera no seu contexto. O desconforto do autor se explica em parte pela sua própria opção em não se expor, em não tornar pública a sua vida privada, a sua afetividade e outras relações travadas no próprio âmbito público, mas que foram cuidadosamente protegidas. Nas palavras de Duby, “estou insatisfeito com o que acabo de escrever (...) se alguém mais tarde procurar informar-se do que foi em França, no segundo terço do século XX, a profissão de historiador, que critique severamente este testemunho.”3

Escrever uma biografia, para além de reconstituir uma história de vida centrada na individualidade do ser, descrever a trajetória de alguém ou introjetar-se, numa ego-história, implica em construir várias redes de relações que ajudam a explicar não só a importância do biografado no seu contexto como também revelar valores que o biografado traz consigo e mesmo lançar uma luz sobre uma série de questões que extrapolam a periodicidade delimitada, permitindo diversas ligações entre um tempo remoto, que se vivifica a partir de um outro tempo, o tempo do presente.



O tempo da [na] biografia

O tempo, assim, se torna um elemento indispensável nas reflexões acerca do gênero biográfico. Norbert Elias, em Sobre o Tempo (1998), ressalta os usos diferenciados que as sociedades fazem em relação ao tempo, destacando que a visão de mundo dessas sociedades e a sua apreensão da realidade está intimamente relacionada à sua concepção do que seja o tempo, esse ente de significados múltiplos, que tem sido um referencial fundamental para as sociedades ao longo da história. O tempo, seguindo o autor, é uma grande síntese, que contém em si diversos outros tempos, os quais são interagentes. O tempo físico, o tempo biológico e o tempo social, assim, atuam de forma combinada e se relacionam a um espaço e a um horizonte, também contidos naquele grande leque.



É nessa dinâmica que a biografia ganha relevância, no sentido de que ao procurar debruçar-se sobre a história (na acepção mais completa do termo) compreendida no espaço de vida de alguém, esse tempo vital, relacionado às outras dimensões que o tempo encerra, é evocado como um lugar de aprendizagem, um patrimônio adquirido no decorrer dos anos e na experimentação de vivências diferentes. Na linguagem piagetiana, cada experiência se acumula em assimilação e acomodação. Esquemas anteriores somam-se a novos esquemas e é formado então um ‘conhecimento maior’4. A reconstrução desse somatório de conhecimentos, dessas experiências diferenciadas construídas ao longo do tempo, constituir-se-á num desafio para o escritor da biografia, já que este conjunto de saberes não lhe é familiar, é intrínseco ao biografado. Penetrar nesse tempo do biografado implica no reconhecimento das formas particulares com que o personagem se relaciona com a sua época, superando uma postura incoerente e até mesmo teleológica de projetar ou justificar as ações do biografado pelo próprio contexto em que vivera. O biografado não é uma simples resultante de seu contexto histórico. Não cabe aqui uma relação de causalidade. O contexto não é o determinante – ou pelo menos não é o único fator decisivo – das atitudes e valores do personagem, seja ele alguém de grande vulto, seja um personagem desconhecido. O indivíduo relaciona-se com esse contexto, conservando-o e/ou transformando-o – e mesmo apresentando uma postura aos olhos externos incoerente com as condições que o cerca, uma atitude de indefinição, um comportamento ambigüo, enfim, o indivíduo apreende o seu contexto de acordo com seus interesses e com a sua cultura política. Somam-se a isso os elementos subjetivos, a afetividade, a personalidade do biografado. O indivíduo não é uma mera tábula rasa a ser moldada pelo seu contexto, não é um mero produto do seu tempo, mas alguém que está constantemente dialogando e mesmo se confrontando com ele. É necessário saber reconhecer que no indivíduo existe uma multiplicidade e que o geral e o particular não são mutuamente excludentes, ao invés disso, a relação é de complementaridade.

Memória e oralidade


Dois outros elementos bastante caros à biografia são a oralidade e a memória. Quer se trate de personagens vivos ou não, os depoimentos orais dão forma a memórias que estão em constante processo de criação e atualização, num exercício permanente de seleção e valoração dos acontecimentos. A afetividade é mais uma vez um elemento de grande importância nesse jogo valorativo do que deve e o que não deve ser considerado. Os personagens já falecidos ganham aos olhos do depoente uma certa respeitabilidade e veneração que são conformadas justamente em função das circunstâncias atuais, isto é, o fato de o indivíduo já estar morto. Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito, em sua antológica canção Quando eu me chamar saudade, captaram com maestria esse fenômeno: Sei que amanhã quando eu morrer/ Os meus amigos vão dizer/ Que eu tinha um bom coração/ Alguns até hão de chorar/ E querer me homenagear/ Fazendo de ouro um violão (...) Depois que eu me chamar saudade/ Não preciso de vaidade/ Quero preces e nada mais.

Cabe ao biógrafo estar atento a essas “interferências” valorativas, não no afã de depreciá-las por serem “contaminadas” por julgamentos post- mortem mas no cuidado de relativizá-las, de confrontá-las com outras fontes e depoimentos – e isto também se aplica a biografias de personagens vivos –, procurando perceber que é justamente nessa “contaminação” que reside uma considerável rede de informações, que estão conectadas ao tempo, à afetividade, às experiências do depoente, enfim. A memória individual e a memória coletiva estão em constante diálogo. Cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória da coletividade, e esta, por sua vez, é conformada por um somatório de memórias individuais. É no conjunto dessas relações que vai se conhecendo o imaginário acerca dos personagens, sem, no entanto, que este se torne um axioma, que se acredite nele, reproduzindo-o como sendo o próprio discurso do biógrafo. A absolutização dos depoimentos comprometem a qualidade da biografia, na medida em que não são feitas as necessárias conexões que possam ajudar a tornar o indivíduo mais próximo da realidade.

Ecléia Bosi enfatiza que quanto mais sociabilizado estiver o indivíduo, mantendo relações de trabalho, relações sociais, políticas, mais perene será a sua memória. Uma vez que a memória é seletiva, ao lado dos fatores biológicos que a influenciam, contribuem também para essa seleção os fatores sociais, culturais e históricos que envolvem o indivíduo. Pessoas com maior vivência, que estabelecem diversas relações interpessoais, articulam mais facilmente os fatos do que aquelas que têm um universo limitado de relacionamentos, como as que abdicam de criar novos vínculos sociais em nome de uma causa. A renúncia ao relacionamento social em favor de uma dedicação exclusiva, seja à clausura, à ortodoxia política ou religiosa, ou a qualquer tipo de fundamentalismo, termina por influenciar numa visão excludente da realidade e conseqüentemente numa memória também excludente e muitas vezes condicionada às regras e clichês produzidos no interior daquele organismo.



Menocchio, o moleiro friulano brilhantemente estudado por Carlo Guinzburg, fora incompreendido e processado pela Inquisição justamente por divulgar na sua comunidade uma visão cosmológica bastante diferente das convenções e convicções religiosas que se esperava de todos os cristãos no século XVI, o que lhe rendeu a delação de um indivíduo de sua própria comunidade. Certamente a sua versão para as explicações da criação do universo estavam imbricadas por uma memória cumulativa e seletiva, uma memória que leva em conta as suas vivências e experiências pessoais, incluindo-se aí interferências de um paganismo sobrevivente nas comunidades camponesas européias daquele período. Ao referir-se ao Universo como uma substância composta de queijo, que putrefato deu origem a vermes, Menocchio estava confluindo em sua memória referências adquiridas com um limitado acesso que tivera ao saber científico e as suas vivências como um moleiro, construindo uma racionalidade bastante estranha aos demais. Ainda que se tenha que considerar o contexto da época, onde a intolerância característica de um projeto de dominação política da Igreja tenha ocupado um lugar decisivo, procurando estabelecer hábitos e valores à totalidade da população Ocidental, é preciso considerarmos as diferentes apreensões que são feitas sobre uma mesma realidade. Menocchio não era um subversivo da ordem religiosa. A todo momento afirmava a sua devoção e reverência, não conseguindo, portanto, compreender o porquê de seu arrolamento como herege no processo inquisitorial. A incompatibilidade de sua teoria com a explicação eclesiástica advém exatamente da inclusão de elementos externos (e nesse caso malditos) aos cânones e à própria instituição religiosa, fruto das suas experiências pessoais.

Biógrafos e biografias


Como um gênero que implica no recurso à memória e à oralidade, a biografia, em especial a biografia política não só é composta como também pode compor a memória sobre alguém, forjando uma imagem do personagem condizente com as intenções políticas e as opiniões do biógrafo. A biografia de Carlota Joaquina, por exemplo, é derivada dos escritos de Laura Junot, espécie de cânone literário para os demais biógrafos.5 Mme Junot, pouco afeita à Carlota e sua posição de liderança no processo de negociações de paz com a França, traça um perfil bizarro da mulher de D. João VI. A obra contém uma série de juízos de valor a partir da cultura francesa sobre a cultura ibérica. E todos esses valores e idiossincrasias políticas penetram nos demais trabalhos biográficos que atravessam o tempo e chegam até os nossos dias, como no filme Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, de Carla Camuratti, que reproduz vários clichês e estereótipos em torno da figura de Carlota, representada nas telas como uma ninfomaníaca e com comportamento por vezes andrógino, reforçando uma imagem ideologicamente há muito construída e acrescentando novos juízos de valor decorrentes de uma observação pouco crítica das fontes.

Um esforço do biógrafo em ratificar uma imagem construída sobre o personagem, confirmando um mito ou mesmo construindo-o, seja essa imagem positiva ou negativa, é uma prática não pouco freqüente. Tomamos como exemplo a obra Custódio Mesquita, Prazer em Conhecê-lo, de Bruno Ferreira Gomes. Por diversas vezes o autor procura contradizer e desmentir os depoimentos a respeito do ilustre sambista, desqualificando-os ou dando justificativas que abonem a conduta de Custódio, evitando deixar uma má impressão. Melindrosamente tenta não chocar, não ofender e procurar reforçar que os depoimentos, quando comprometedores ou não muito simpáticos, não podem ser regra geral, são meras opiniões ou especulações do depoente. As virtudes reveladas pelos depoimentos, essas sim, correspondem à verdade sobre o biografado, sem que haja necessidade de interpelação do autor, como na passagem que reproduziremos mais adiante, onde fica patente a surpresa do biógrafo em relação a alguns costumes do personagem que beiravam a marginalidade, como o uso de navalha, não escondendo a ansiedade do autor em confirmar ou não tal suspeita. Diante da impossibilidade de negar o uso da navalha, o autor lança mão de uma estratégia generalizante, do tipo quem não a usa?, justificando que capoeira e navalha – dois signos da marginalidade na virada do XIX e primeiras décadas do século XX – eram muito apreciadas pelos brasileiros, ou seja, era difundido e muito comum ao montante da população e por isso Custódio não poderia ser um “fora da lei”.

Antes que se chegasse à conclusões impróprias, Bruno Gomes se apressa em ressaltar o bom caráter do personagem, utilizando a expressão mas, convém lembrar como um recurso que, com a força da conjunção adversativa, pretende contradizer ou eliminar a estranha impressão que lhe foi causada pelo fato de o biografado portar uma arma branca no tal bolsinho do lenço, um eufemismo que é também um atenuante. O seu espírito valente e o seu bom caráter em resolver problemas, ressaltam as suas virtudes, destacadas também pelo contraponto com a atitude dos demais diretores da SBAT no “dia do vale”:

Quisemos saber primeiramente se de fato Custódio usava navalha, e ficamos surpresos ao Arnô [Carnegal] garantir que ele usava sempre uma ‘três coroas’ no bolsinho do lenço do paletó. E garantiu também que ele era brigão, desaforado e metido a dar decisões (...) Mas Arnô insistiu que Custódio era decidido. Em dias de vales na SBAT, dias perigosos, pois os ânimos ficam exaltados (...),Custódio estava sempre presente e era quem decidia quem podia levar dinheiro. E não tinha medo, enfrentando a ‘turma da pesada’, enquanto os demais diretores preferiam não ir nunca à sociedade naqueles ‘terríveis dias...’

Temos a impressão de que a navalha no bolsinho do lenço surgiu com a entrada de Custódio para a diretoria da SBAT. Aliás, a navalha e a capoeira sempre foram do inteiro agrado dos brasileiros desde o século passado até a década de trinta do século XX (...)

Mas convém lembrar que, no fundo, Custódio era bom e não odiava ninguém. Mário Lago contou-nos que [Jorge] Faraj teve uma recaída na sua condição de tuberculoso e crônico. Ao saber de sua internação num sanatório, Custódio se impressionou. E por várias vezes pediu a Mário Lago que levasse dinheiro para Faraj, mas não dissesse de forma alguma que era ele o doador. 6


Por toda a obra percebe-se uma necessidade de positivação da imagem de Custódio, que obriga o biógrafo a dar constantemente explicações ao leitor em relação aos fatos – verídicos ou não – que vão sendo revelados pelos depoimentos de seus contemporâneos. O autor se apressa em defender o personagem diante da afirmação de que este era um viciado em drogas. Na realidade, segundo o biógrafo, Custódio não era um drogaditivo, mas sim um hipocondríaco. Tudo o que ingeria eram remédios.

Uma afinidade coletiva


As biografias coletivas também são um importante campo de trabalho para o historiador. Peter Burke, ao estudar o Renascimento italiano, usou o método prosopográfico, estabelecendo uma série de conclusões a partir da biografia coletiva de seiscentos artistas, escritores e intelectuais do período.

Eric Hobsbawm ocupou-se magistralmente em biografar um grupo social, os sapateiros do século XIX, demonstrando a coesão do grupo e procurando analisar as suas relações internas e externas. Segundo o historiador, os sapateiros do Oitocentos têm motivado, como nenhum outro grupo social, a realização de inúmeras biografias coletivas exatamente pela sua coesão e pelo seu radicalismo político, tendo à sua época uma reputação de ativistas e radicais tanto nos assuntos referentes a seu ofício quanto nos protestos de caráter social. Mesmo na era pré-industrial e em sociedades distantes da Europa, a reputação do sapateiro como filósofo popular e político é conhecida. O nível intelectual e a capacidade argumentativa dos sapateiros causavam grande desconforto às elites pensantes, afinal, numa sociedade fortemente estratificada, os papéis econômicos e sociais estão delimitados, cabendo aos sapateiros cuidar de seu ofício, do trabalho manual e não enveredarem por um campo que não lhe dizia respeito, pertencente a uma elite pensante, a intelectualidade ilustrada.

Hobsbawm vai descortinando o universo dos sapateiros e mostrando que dentro desse universo, movido por uma identidade que gera uma afinidade coletiva, existem clivagens, diferenciações que não podem ser desprezadas e que não comprometem a coesão social, ao contrário, agrega a coletividade. De acordo como o historiador, nem todo sapateiro era intelectualizado, ainda que o nível de sapateiros intelectuais fosse alarmante, e que os sapateiros intelectuais não necessariamente eram radicais, embora a coletividade o fosse.

Um outro estudo biográfico desenvolvido pelo autor, que empenha-se em considerar na coletividade a importância individual de homens e mulheres como os principais atores da história, é o estudo dos camponeses e a sua relação com a política.

A biografia política e coletiva dos camponeses construída por Hobsbawn nos chama atenção para algumas considerações fundamentais, como a geração de uma consciência a partir do reconhecimento mútuo pelos camponeses, da semelhança de sua relação com a natureza, com a produção e com o sentimento de um distanciamento comum em relação aos não-camponeses, agregando camponeses de regiões diferentes, dialetos, costumes e religiões, fazendo com que se reconhecessem uns aos outros como camponeses. A consideração se essa coletividade é motivada por fatores econômicos ou não, não é um fator relevante para Hobsbawn, que considera que ela não implica em igualitarismo, ainda que venha a facilitar a ação comunal e possa construir algum mecanismo inibidor da acumulação irrestrita de recursos por cada uma das famílias camponesas. Seus movimentos, segundo o historiador, “são tão breves quanto ecumênicos no seu alcance, precisamente porque se baseiam no reconhecimento de semelhança ou de identidade, mais do que sobre a base mais firme de um sistema concreto de inter-relações econômicas e sociais”7.

Quer se tratando de biografias coletivas de um grupo social, como os sapateiros e os camponeses ou biografias de instituições “totais”, como partidos políticos, igrejas ou outros organismos, é necessário ter em conta que o indivíduo não se dilui na coletividade, ele é portador de valores que são anteriores a essas instituições ou grupos sociais. Existe uma relação de complementaridade entre o fator individual, as relações de classe e o corporativismo que essas instituições ou grupos podem exercer. O coletivo, como afirmamos anteriormente, é o resultado de inúmeras memórias individuais, que por sua vez também são um ponto de vista sobre a memória coletiva.


Conclusão


Procuramos trazer neste trabalho algumas discussões relevantes para a busca da consolidação da biografia como um campo de conhecimento fundamental para a História. Para além de uma definição imprecisa que (des)qualificava a biografia como um gênero na fronteira entre a Literatura e a História, “uma certa arte de escrever para o grande público para fazer esquecer a sua insuficiência científica”, como entendiam Jacques Le Goff e Pierre Nora8, o gênero biográfico apresenta grande importância para o saber histórico. O próprio Le Goff, que nos idos dos anos 70 olhava pejorativamente para a biografia histórica, já em 1981 passa a admitir o papel relevante da biografia:

Considera-se de modo geral que a história dita ‘nova’, e em particular a École des Annales, não estão especialmente interessadas na biografia. Isto é ignorar que Lucien Febvre escreveu um Luther, e que a grande tese de Fernand Braudel sobre Filipe II e o Mediterrâneo é também, à sua maneira, uma biografia. 9

Com a redescoberta da noção histórica de indivíduo, gerada com a crise do estruturalismo e do marxismo, história política e história social, redimensionadas, voltam-se à importância do indivíduo na História.10 É nesse terrreno fértil que o interesse pela biografia emerge, ganhando maior relevância ainda com as discussões em torno dos trabalhos de história oral, história das mulheres e estudos sobre a cultura popular. Os estudos dos “excluídos”, das minorias, abre um significativo espaço para a discussão da biografia na História. Um outro aliado na valorização da biografia histórica tem sido o interesse crescente do público pelas histórias individuais, com a já mencionada renovação do individualismo, o que tem motivado a proliferação das biografias.

Uma questão se coloca: escrever para o grande público, motivado por esse gosto por biografias significa desprezar a seriedade científica e render-se a interesses puramente mercadológicos? A revalorização da biografia vinculada à História está ligada exclusivamente a esse boom editorial? A primeira pergunta nos remete mais uma vez a Certeau, preocupado com a História enquanto um saber que implica numa escrita, num compromisso ético e num lugar social. Essa escrita pode ligar-se a uma narrativa que ressurge com força total, sem contudo comprometer a cientificidade da História. Narrativa não confunde-se com ficção, um recurso literário que não tem compromisso com uma verdade científica. Esse seguramente é um dos elementos diferenciais entre a biografia histórica e a biografia literária.

Claude Langlois, preocupado com os efeitos da edição sobre a pesquisa histórica, chama a atenção para o grande interesse editorial na produção de obras comemorativas: bicentenário da Revolução Francesa, aniversários de personagens históricos, enfim uma voraz procura pelos historiadores a fim de produzirem trabalhos sob encomenda, no formato e prazo interessantes ao mercado editorial, resultando numa produção em série de trabalhos historiográficos muitas vezes desencarnados, descontextualizados, desfigurados pelos padrões e interferências editorais. A publicação de capítulos de tese, ao invés da tese completa, a produção de biografias “de bolso”, pode vir a condicionar os trabalhos dos historiadores aos interesses das encomendas, transfigurando o saber científico ao sabor dos interesses mercadológicos.

Philippe Levilain vai mais longe, acrescentando que para além das aparências do sucesso comercial do suposto retorno à biografia na França, na realidade o que se coloca é o problema das relações de uma sociedade com a História, podendo significar o sinal de uma mutação na historiografia (não motivada pelo ritmo mercadológico, como acredita Langlois), mas uma evolução, da qual a biografia é o testemunho mudo e significativo das relações entre a História e as outras ciências.

E é justamente aí que a biografia histórica ganha relevância, pois ao invés de pretender esgotar o “eu” ou criar tipos, ela

é o melhor meio de mostrar as ligações entre passado e presente, memória e projeto, indivíduo e sociedade, e de experimentar o tempo como forma de vida. Seu método, como seu sucesso, devem-se à insinuação da singularidade nas ciências humanas, que durante muito tempo não souberam o que fazer dela.


Encerrando esta breve reflexão, reproduzimos as palavras de Levilain, que afirma com muita propriedade que “a biografia é o lugar por excelência da pintura da condição humana em sua diversidade, se não isolar o homem ou não exaltá-lo às custas de seus semelhantes”11.

1 Nossas considerações em torno da verdade como um compromisso da História estão relacionadas a uma verdade que condiga com as crenças do historiador, o seu comprometimento com o rigor metodológico e uma ética. Nesse sentido, são referências importantes os trabalhos de Carlo Guinzburg, em especial Just One Witness e O retorno de Martin Guerre, e a própria obra de Michel de Certeau, a Escrita da História.

2 HOLANDA, Aurélio Buarque de. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989 , p. 207.

3 DUBY, Georges. O Prazer do Historiador. In: NORA, Pierre (org.). Ensaios de Ego-história. Lisboa: Edições 70, 1987, p. 137.

4 Apud BECKER, Fernando. Epistemologia do Professor: o cotidiano da escola . Petrópolis: Vozes, 1993.

5 Cf. AZEVEDO, Francisca L. N. Biografia e Gênero. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, s/d. (mimeo).

6 GOMES, Bruno Ferreira. Custódio Mesquita, Prazer em Conhecê-lo. Rio de Janeiro, Funarte, 1986, pp. 44-45.

7 HOBSBAWN, Eric. Pessoas Extraordinárias : resistência, rebelião e jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999, p.220.

8 Apud LEVILLAIN, Philippe. Os protagonistas: da biografia. In: RÉMOND (org). Por uma História Política. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996, pp. 142-143.

9 Idem, idem. P. 143.

10 Lawrence Stone, citado por LORIGA, Sabina. A biografia como problema. In: REVEL, Jacques (org.) Jogos de Escalas – a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999.

11 Op. cit, p. 176.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002




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