Empresas inovadoras, cultura regional e agentes sociais hábeis: estudo de caso sobre a incubadora celta, Florianópolis, sc



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Empresas inovadoras, cultura regional e agentes sociais hábeis: estudo de caso sobre a incubadora CELTA, Florianópolis, SC.
Nas últimas décadas, constatou-se mundialmente o esgotamento de um padrão de acumulação baseado na produção em larga escala de cunho fordista, utilização intensiva de matéria e energia e capacidade finita de gerar variedade (Lastres; Ferraz, 1999). No lugar do antigo padrão de acumulação capitalista, começa a se consolidar uma nova indústria e uma nova economia, nas quais o conhecimento é o recurso mais estratégico e o aprendizado, o processo mais importante. Considerando-se que as economias mundiais não usufruem de condições iguais para o desenvolvimento de inovações, torna-se problemática a possibilidade de existência de um desenvolvimento tecnológico auto-sustentável em países nos quais há um processo histórico de dependência tecnológica, como é o caso do Brasil. Neste sentido, empreendimentos como incubadoras e parques tecnológicos passaram a representar tentativas de aglutinar políticas e atores sociais distintos e canalizar esforços e recursos a fim de promover um ambiente econômico que favoreça um desenvolvimento sócio-econômico sustentado e competitivo.

Neste estudo, pretende-se analisar uma experiência bem sucedida de incubação de empresas que vem se desenvolvendo no Brasil, no Centro Empresarial para Laboração de Tecnologias Inovadoras (CELTA), localizado na cidade de Florianópolis, SC. O interesse deste caso justifica-se por ter sido uma das primeiras incubadoras do Brasil e desde o início destacou-se pelo desempenho inovador de suas empresas. O estudo procura compreender como foi possível a constituição de uma cultura de inovação em uma região sem tradição industrial. Optou-se por uma metodologia qualitativa, a partir da realização de entrevistas semi-estruturadas, durante o período de julho a agosto de 2009 e análise de dados documentais. As entrevistas foram feitas junto a empresários, gerente da incubadora e representante da Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (Certi). Já os dados documentais constituíram-se, basicamente, de publicações e matérias referentes à Universidade Federal de Santa Catarina e a sua interação com a incubadora CELTA.

A análise aqui empreendida baseia-se nas formulações teóricas de Muller et al. (2009) sobre cultura regional de inovação, e o conceito desenvolvido por Fligstein de “atores estratégicos hábeis”, referindo-se aos atores capazes de induzir a cooperação de outros para criar novas ordens e significados. O conceito de cultura regional de inovação constitui-se a partir de três dimensões: capacidade criativa - referente ao grau de abertura de uma região à novidade, ou seja, idéias, recursos humanos, práticas e capitais; comunidades de conhecimento - corresponde às modalidades de cooperação inter-atores ligadas e conduzidas para a inovação; e governança – referente à aptidão de uma parte ou de um conjunto de atores presentes no território a constituir, para além das cooperações e recursos existentes, uma “região aprendiz”. Assim, tem-se com este conceito uma tentativa de incluir à análise dos aspectos tecnológicos, organizacionais e territoriais, também aspectos culturais e referentes às trajetórias dos atores envolvidos nos processos inovativos.

A partir desta perspectiva, uma questão torna-se pertinente de ser levantada: como a cooperação inter-atores, mais especificamente, entre atores com capacidades inovativas, para além das interações constantes, emerge e se institucionaliza em um grupo? Uma possibilidade explicativa é encontrada nas contribuições de Fligstein (2002). Segundo o autor, é a habilidade social de atores-chave (atores estratégicos) que permite que os grupos funcionem, que os interesses e as identidades coletivas sejam definidas e possibilitem o surgimento e reprodução das instituições. Esses atores estratégicos, ao compreender a percepção dos conjuntos de atores de seu grupo em relação às múltiplas concepções de interesse e identidade, utilizam essa compreensão em situações específicas para proporcionar a interpretação coletiva da situação e determinar ações que estejam de acordo com os interesses compartilhados.

Tratando-se do objeto deste estudo, a incubadora CELTA, indica-se, a partir da análise dos dados obtidos referente às interações estabelecidas entre ambiente acadêmico – Centro Tecnológico da UFSC - e ambiente empresarial em Florianópolis, que o contexto de ausência de um parque industrial na região, aliado a presença de atividades turísticas, possibilitou que a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) desempenhasse já na sua origem um papel central na promoção de uma capacidade criativa para a região. Essa capacidade estabeleceu-se pelo fornecimento de “Tecnologia”, através dos incentivos governamentais e parcerias internacionais estabelecidas; atração de “Talento” através dos docentes e discentes de outras regiões e instituições do país que se ligaram à universidade e passaram a morar na região; e constituição de uma “Tolerância”, através do surgimento de um ambiente com significativa “autonomia acadêmica” para a implantação de um modelo universitário fortemente ancorado na interação com o setor industrial.

Na constituição dessa capacidade criativa, há a emergência do líder Caspar Stemmer, que com sua habilidade social engendrou um campo acadêmico com características distintas às existentes em outras universidades do país. A habilidade social de Stemmer pode ser observada a partir de sua atuação, já na criação dos cursos de Engenharia Mecânica e Elétrica da UFSC, como mediador e promotor de interações entre o setor industrial e os docentes e discentes da universidade. Essa atuação conformou-se com base em um discurso de promoção do desenvolvimento tecnológico regional, por um lado, e visibilidade dos departamentos de Engenharia, por outro. Essa motivação coletiva é essencial para que um ator se torne de fato um ator social hábil em um determinado grupo.

A reconstrução da história realizada pelos atores, tanto os que participaram da criação das instituições como os que se agregaram mais recentemente, traduz uma identidade coletiva fundada na glorificação do esforço pessoal e voluntário dos docentes e discentes que participaram do processo, no sentido de expressar uma significativa autonomia destes em relação à comunidade universitária como um todo. Essa comunidade de conhecimento que se conformou na UFSC impulsionou a criação de entidades como a Fundação Certi e a incubadora CELTA, que se constituíram em suporte para o surgimento de empresas regionais de base tecnológica.

Tanto pelos dados documentais levantados acerca do surgimento da incubadora CELTA, a partir da Fundação Certi, como pelas entrevistas realizadas com as empresas que foram consideras cases no quesito inovação tecnológica, percebe-se que a não existência inicial de um mercado regional, assim como a forte troca de conhecimentos com instituições estrangeiras, através dos contatos pessoais de acadêmicos, favoreceu o surgimento de empreendimentos com características competitivas ancoradas em mão-de-obra qualificada e comprometida com as atividades de pesquisa - o que induz ao desenvolvimento de imitações tecnológicas criativas.

A constituição de uma rede de instituições – Fundação Certi, Incubadora CELTA, ACATE, etc. – estabelecida através da comunidade de conhecimento, mostrou-se como um indicativo da presença de uma governança regional, uma vez que pelos atores envolvidos no desenvolvimento de inovações tecnológicas ela é apontada como fator importante para a consolidação e competitividade de seus empreendimentos, tanto com relação ao mercado nacional como o internacional. Não obstante, a dificuldade em alguns momentos de diferenciação por parte dos entrevistados entre sua atuação enquanto acadêmicos e empresários, indicam a necessidade de fortalecimento dessas redes, de maneira a garantir a sua sustentabilidade.

Portanto, o que se apresenta como relevante para análise, a partir do caso específico aqui tratado, é o de que o aspecto cultural é fator relevante para o desenvolvimento de empresas tecnologicamente inovadoras. E, para além disto, que a presença de atores sociais hábeis torna-se central para a constituição de uma identidade coletiva, a partir da qual as interações passam a ser compreendidas, pelos atores envolvidos, como fundamentais para o processo inovativo. Para a região de Florianópolis pouco êxito poderia se esperar da implantação de incubadoras e/ou parques tecnológicos como simples parte do cumprimento de uma agenda política estatal. A proximidade física apresenta sim forte relevância para a sustentação dos empreendimentos, mas não é suficiente.



Referências Bibliográficas:

FLIGSTEIN, Neil. Social Skill and the Theory of Fields. In: Sociological Theory, vol. 19, n°2, p.105-125, 2002.



LASTRES, Helena Maria Martins; FERRAZ, João Carlos. Economia da Informação, do Conhecimento e do Aprendizado. In: LASTRES, Helena M. M.; ALBAGLI, Sarita (Org.). Informação e globalização na era do conhecimento. Rio de Janeiro: Campus, 1999. cap. 1, p. 27-57.

MULLER, Emmanuel; HÉRAUD, Jean-Alain; RAFANOMEZANTSOA, Tiana. Culture régionale d'innovation: une revue du champ de recherche. evoREG, 2009. 49p.
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