Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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A expressão "filhos de Deus" em Gênesis 6.2 refere-se a anjos?

Gênesis 6.1, 2 diz: "Quando os homens começaram a multiplicar-se na terra e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram bonitas, e escolheram para si aquelas que lhes agradaram". O termo "filhos de Deus" (benê ’elōhîm) é empregado no at para anjos ou homens, verdadeiros crentes, compromissados totalmente com a obra de Deus. Entre as passagens que se referem a anjos como benê ’elōhîm estão Jó 1.6; 2.1; 38.7; Salmos 29.1; 89.6 (89.7 no tm). O tm não contém esta frase em Deuteronômio 32.43, mas um fragmento do hebraico encontrado na caverna quatro de Qumran diz: "Clamai alegremente, ó céus, com ele, e adorai-o, ó filhos de Deus [benê ’elōhîm], e a ele tributai poder, todos vós, filhos do Todo-Poderoso [benê ’ēlîm]. Clamai de alegria, ó nações, e a ele tributai poder, todos vós, anjos de Deus [kol-mal’akê ’ēl]". Esse texto é consideravelmente maior que o hebraico (tm) nesse versículo, mas pode ser o original. Provavelmente teria sido o texto citado em Hebreus 1.6 — embora Salmos 97.7 também tenha sido a fonte desse versículo.

Mas as ocorrências de benê ’elōhîm com referência a homens que têm um relacionamento de aliança com Deus são tão numerosas no at quanto aquelas que se referem a anjos (cf. Dt 14.1; 32.5; Sl 73.15; Os 1.10 [em tm 2.1 ] — e, cremos, Gn 6.2 também). As razões por que entendemos que Gênesis 6.2 refere-se a membros da família da aliança,


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descendentes da linhagem de Sete, são muito fortes. As Escrituras ensinam com clareza que os anjos são espíritos, "espíritos ministradores, enviados para servir aqueles que hão de herdar a salvação" (Hb 1.14). Embora possam de vez em quando aparecer sob forma corpórea semelhante a homens, não têm corpo físico e, por isso, não conseguem manter relações sexuais com mulheres. A especulação rabínica de que Gn 6.2 faz referência a anjos constitui uma curiosa intrusão de superstição pagã sem nenhuma base nas Escrituras. A idéia de seres humanos incomuns dotados de estatura gigantesca (neppilîm, v. 4) terem resultado desses casamentos não se baseia em nenhuma evidência de paternidade angelical. Não consta que os filhos de Anaque ou Golias e seus irmãos tivessem ligação com os anjos por causa de sua grande estatura; tampouco há razões para supor que os gigantes antediluvianos tinham ascendência angélica.

O que Gênesis 6.1, 2, 4 registra é a primeira ocorrência de casamento misto entre crentes e incrédulos e o resultado característico de tais uniões: total falta de testemunho do Senhor e pleno desprezo pelos padrões morais. Em outras palavras, os "filhos de Deus" dessa passagem eram descendentes da linhagem piedosa de Sete. Em vez de permanecer fiéis ao Senhor e leais à sua herança espiritual, permitiram-se ser tentados e seduzidos pela beleza de mulheres ímpias, as "filhas dos homens" — a saber, as seguidoras da tradição e do exemplo de Caim. O resultado desses casamentos foi a depravação da natureza humana, no tocante às gerações mais jovens, até que as civilizações antediluvianas se afundaram na iniqüidade e na perversão. "O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal" (v. 5). O resultado inevitável foi o julgamento, a terrível destruição pelo Dilúvio.

Talvez fosse necessário aqui um último comentário sobre os anjos. Se admitíssemos que os espíritos conseguem, de alguma forma, manter relações sexuais com seres humanos — e eles não podem — nem assim deveriam enquadrar-se na passagem que estamos estudando. Caso fossem demônios, isto é, seres decaídos que seguiram Satanás, de modo algum poderiam ser chamados "filhos de Deus". Os espíritos maus destinados ao inferno jamais são assim designados ("filhos de Deus") nas Escrituras. Tampouco poderiam ter sido anjos de Deus, visto que estes vivem em obediência total ao Senhor. Não têm outro objetivo ou desejo senão o de fazer a vontade de Deus e glorificar seu nome. Portanto, está fora de cogitação qualquer envolvimento sórdido de anjos, como "filhos de Deus", com jovens mulheres impiedosas. Portanto, a única explicação viável é a que apresentamos no parágrafo anterior.
Gênesis 6.7 registra as palavras de Deus: "Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, os homens e [...] animais. Arrependo-me de have-lôs feito". Essas expressões parecem incoerentes, não se coadunam com a imagem que em geral temos do Senhor, que ele fosse capaz de arrepender-se de alguma coisa — ou precisasse arrepender-se, pois teria visto com antecedência o resultado de sua criação. O pronome usado parece incluir homens e animais. O que os animais teriam feito para merecer a ira de Deus? [d]

É verdade, sem sombra de dúvida, que Deus em sua onisciência sabe todas as coisas por antecipação, e nada que acontece o apanha de surpresa. No entanto, é erro inferir disso que o Senhor não pode ter emoções nem deve reagir de acordo com a depravação voluntária de suas criaturas. As Escrituras jamais o apresentam como um Ser impassível, incapaz de demonstrar tristeza ou ira, mas, bem ao contrário, o Senhor é um Deus que se preocupa, demonstra interesse e ama até os filhos de Adão mais ingratos, os que mais zombaram de suas promessas graciosas e tripudiaram sobre sua misericórdia.

As profundezas da corrupção em que a raça humana havia mergulhado nos dias de Noé eram revoltantes demais diante do Senhor, do Deus de justiça e santidade, pelo que o Todo-Poderoso reagiu com ira perante esses excessos segundo a exigência de sua pureza. Ele lamentou ter criado uma geração tão abominável de pervertidos morais,


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em que se haviam convertido os seres humanos antediluvianos. "Então se arrependeu o Senhor" (heb. wayyinnāḥem, niphal de nāḥam) certamente é antropomórfico (ou antropopático), visto que serve para comunicar a reação de Deus em face do pecado, mediante uma analogia com o ser humano (assim como quando a Bíblia se refere a Deus como tendo mãos, olhos, ou boca, como se ele dispusesse de um corpo físico dotado de órgãos).

É claro que, diante do inesperado, do que não se aguarda, é impossível verificar a surpresa num ser onisciente; todavia, sua resposta à humanidade envolveu um ajuste necessário à mudança que se verificou na atitude dos seres humanos para com Deus, a quem abandonaram. Visto que os seres humanos teimosamente rejeitaram ao Senhor e dele escarneceram à vontade, foi necessário que Deus os desprezasse. Qualquer alteração na atitude do povo para com o Todo-Poderoso requeria uma mudança correspondente na atitude de Deus para com a humanidade, mudança que se expressa pela palavra hebraica niḥam ("arrepender-se", "sentir muita tristeza por causa de", "mudar de idéia a respeito de").

De modo semelhante, no tempo de Jonas, está registrado a respeito de Deus que ele se arrependeu (niḥam) do julgamento que ameaçara trazer sobre a cidade de Nínive, visto haver o Senhor observado o arrependimento sincero e ardoroso dos ninivitas depois de o profeta haver pregado a eles. A mudança de atitude deles para com eles Senhor fez com que o Todo-Poderoso mudasse sua atitude para com eles. Portanto, para enorme desgosto de Jonas, Deus permitiu que quarenta dias passassem e cancelou a destruição que ameaçara trazer-lhes. Isso demonstra que o Senhor pode mudar sua reação, deixando de lado a severidade para tratar do ser humano com graça e misericórdia, desde que as pessoas se acheguem em arrependimento e súplica.

No entanto, quando estão envolvidos propósitos de alguma aliança que Deus celebrou com seu povo, o Senhor verdadeiramente é incapaz de arrepender-se — como Balaão salientou em Números 23.19: "Deus não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa. Acaso ele fala, e deixa de agir? Acaso promete, e deixa de cumprir?" O contexto diz respeito ao propósito firme de Deus de abençoar a Israel, a despeito de todas as maquinações do rei Balaque, de Moabe, que tentou subornar Balaão para que este lançasse uma maldição sobre a nação hebraica. Nessa situação, o Senhor verdadeiramente é incapaz de arrepender-se.

No que diz respeito a pássaros e animais, o contexto de Gênesis 6.7 nada diz quanto a terem desagradado ou irado a Deus; por isso não se justifica que se interprete o propósito do julgamento como estando igualmente dirigido a eles, como se pertencessem à raça depravada dos homens. Era apenas uma conseqüência inevitável do dilúvio vindouro: ele deveria destruir não só a humanidade, mas também toda a criação animal que vivesse no ambiente do homem. O pronome "os" refere-se na verdade aos homens (heb. hā’ādām) — ou a raça humana — e não às várias espécies de aves e bestas que conviviam com a humanidade. Na verdade, a solicitude de Deus quanto à sobrevivência de todas as espécies de aves e animais expressou-se em sua ordem a Noé para que preservasse pelo menos um casal de todas as formas de vida, para que se propagassem.
Como podemos harmonizar Gênesis 6.19 com Gênesis 7.2?

Gênesis 6.19 relaciona-se à ordem de Deus a Noé: "Faça entrar na arca um casal de cada um dos seres vivos, macho e fêmea, para conservá-los vivos com você". Gênesis 7.2, 3 é o registro das instruções adicionais do Senhor: "Leve com você sete casais de cada espécie de animal puro, macho e fêmea, e um casal de cada espécie de animal impuro, macho e fêmea, e leve também sete casais de aves de cada espécie, macho e fêmea, a fim de preservá-las em toda a terra". Alguns têm sugerido que essa diferenciação de números, dois e sete, é uma espécie de contradição e indica a existência de duas traduções, mais tarde associadas por algum redator que não percebeu a diferença entre elas.

Parece-nos estranho que essa questão seja levantada, visto que a razão para que se tenham sete pares de animais limpos é perfeitamente evidente: deveriam ser usados no sacrifício, durante o culto, após o término do Dilúvio — e de fato


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foram utilizados, de acordo com Gênesis 8.20: "Depois Noé construiu um altar dedicado ao Senhor e, tomando alguns animais e aves puros, ofereceu-os como holocausto, queimando-os sobre o altar". É óbvio que, se não houvesse mais que dois de cada espécie de animais limpos, eles teriam sido extintos pelo fato de serem ofertados no altar sacrificial. Todavia, no caso de animais e aves imundos, um único par era suficiente, visto que não seriam oferecidos em sacrifício.
Há provas geológicas convincentes de ter havido um Dilúvio universal?

O registro bíblico de Gênesis 7 e 8 descreve não uma inundação local, circunscrita ao vale da Mesopotâmia (como alguns estudiosos têm sugerido), mas o nível das águas cobriu os picos das montanhas mais altas. Gênesis 7.19 declara: "As águas dominavam cada vez mais a terra, e foram cobertas todas as altas montanhas debaixo do céu" [literalmente, "que estavam debaixo de todo o céu"; grifo do autor). A seguir, o versículo 20 informa que o nível da água ergueu-se quinze côvados acima dos montes (quinze côvados equivalem a dez metros).

O mais elementar conhecimento das leis da física leva-nos à observação de que a água procura seu nível exato. Uma enorme onda pode temporariamente atingir uma grande altitude, acima do nível normal do mar, mas o episódio aqui descrito durou cerca de um ano, pelo que não se trata de uma torrente súbita, temporária. Se o nível da água subiu dez mil metros, cobrindo o pico do monte Evereste, o mais alto do mundo, deve ter atingido esse patamar em toda a terra. Até o monte Ararate, onde a arca de Noé pousou, a água elevou-se a mais de seis mil metros. A água que subisse a tão elevados níveis certamente cobriria toda a superfície da terra, exceto os mais elevados picos dos Andes e do Himalaia, mais algumas cordilheiras da América e da África. Portanto, ou concluímos que o Dilúvio foi universal ou o registro bíblico está lamentavelmente errado. É verdade, sem a menor dúvida, que a elevação das montanhas ainda está em processo na América do Norte, mas nem mesmo a redução de alguns milhares de metros na altitude de cordilheiras tão elevadas como os Andes e o Himalaia mudaria substancialmente a distribuição das águas do Dilúvio no âmbito mundial.

A questão das evidências geológicas é muito debatida entre os cientistas, de acordo com a posição que assumem quanto à validade do registro bíblico. Certos geólogos cristãos acham que alguns dos maiores distúrbios sismológicos indicados em várias partes do globo, nos níveis cenozóicos, explicam-se melhor como tendo origem no Dilúvio (cf. Gn 7.11: "No dia em que Noé completou seiscentos anos, um mês e dezessete dias, nesse mesmo dia todas as fontes das grandes profundezas jorraram, e as comportas do céu se abriram". Algumas camadas contêm grandes blocos de argila saibrosa, no meio de areia grossa, o que se pode plausivelmente atribuir a violentos movimentos ondulares de água em agitação, algo que nunca se viu em nossa época. Mas é possível que as evidências mais impressionantes da violência do Dilúvio por toda a terra encontrem-se na espantosa profusão de animais da era quaternária, ou recente, cujos ossos teriam sido violentamente estraçalhados, e foram descobertos em depósitos escavados em várias localidades da Europa e da América do Norte.

Rehwinkel (The flood) indica que esses depósitos estão presentes até mesmo em montanhas de grande altitude e estendem-se a uma profundidade que vai de 45 a cem metros. Visto que nenhum esqueleto se acha completo, pode-se dizer com certa segurança que nenhum desses animais (mamutes, ursos, lobos, bois, hienas, rinocerontes, bisões, veados e muitos mamíferos de menor porte) caiu vivo nessas fendas e tampouco foram empurrados ali pelas torrentes. No entanto, devido à cimentação de cálcio verificada nesse conjunto de ossos heterogêneos, necessariamente foram todos depositados ali sob água. Tais fendas foram descobertas em Odessa, perto do mar Negro, na ilha de Quitera, ao largo do Peloponeso, na ilha de Malta, na rocha de Gibraltar e até nas fontes de Ágata, no Nebraska (que foram escavadas em 1876, numa área de dez acres).

Essas evidências geológicas têm importância decisiva, embora raramente sejam mencionadas pelos cientistas que rejeitam a exatidão das Escrituras. Tudo isso é exatamente o tipo de prova



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que um episódio curto, mas violento — como um dilúvio universal — deixaria, após uma ação de mais ou menos um ano. É claro que haveria pequena precipitação sedimentaria num período de tempo tão curto. É certo que existem algumas evidências negativas, como por exemplo os cones de escória solta e cinza de vulcões da região de Auvergne, França, que se alega ter milhares de anos mais que a idade estimada do Dilúvio. Mas, enquanto não ficar decisivamente comprovado que esses vulcões são anteriores ao Dilúvio (a data real do Dilúvio ainda não foi determinada) e não for demonstrado que, mediante a submersão durante um ano em águas salobras, tais formações vulcânicas haveriam de apresentar mudanças notáveis na aparência, as quais seriam perceptíveis ao investigador moderno, parece-nos prematuro afirmar que esse tipo de evidência é mais convincente que os depósitos de esqueletos mencionados acima, os quais testificam definitivamente a universalidade do Dilúvio descrito em Gênesis 7.

Há um elemento notável no registro bíblico que o coloca em lugar de destaque, separado de todas as demais narrativas do Dilúvio existentes em outros povos. Relatos desse acontecimento têm sido preservados entre as mais diferentes tribos e nações por todo o mundo: os babilônios (que chamavam de Utnapishtim ao seu Noé); os sumérios, que tiveram o seu Ziusidru; os gregos com seu Deucalion; os hindus com seu Manu; os chineses com seu Fah-he; os havaianos com seu Nu-u; os índios mexicanos com seu Tezpi; os algonquinos com seu Manabozho. Todos esses relatos dizem que o sobrevivente solitário (talvez com sua esposa, filhos e noras) salvou-se da destruição provocada por um dilúvio universal e depois enfrentou a tarefa de povoar de novo a terra devastada, tão logo as águas desapareceram da superfície do solo. Entretanto, de todos os registros, só o de Gênesis indica com a exatidão de um diário de bordo a data do início do Dilúvio (quando Noé estava com exatamente 600 anos de idade, no dia dezessete do sétimo mês desse ano), a duração das chuvas (40 dias), o tempo durante o qual a água permaneceu no máximo de volume (150 dias), a data em que os topos das montanhas tornaram-se visíveis de novo (no primeiro dia do décimo mês), a extensão de tempo decorrido até que a primeira evidência de novas plantas foi levada a Noé no bico de uma pomba (47 dias, de acordo com Gênesis 8.6-9) e o dia exato em que ele saiu da arca pousada no monte Ararate (estava ele completando 601 anos de existência; era o primeiro dia do primeiro mês). Temos aqui um registro pessoal que aparentemente tem a idade do próprio Noé.

O registro babilônico contém minúcias vividas de como Utnapishtim construiu sua arca, sem haver menção de datas específicas. À semelhança da maioria das lendas passadas verbalmente ao longo dos séculos ou dos milênios, o poema épico de Gilgamés (Tabuinha 11) nada menciona a respeito do ano, ainda que o deus-sol, tão amigo, Shamas, houvesse advertido sobre o exato dia em que os sobreviventes deveriam entrar na arca. Parece-nos que esse relato babilônico fica bem mais próximo do registro de Gênesis que as demais histórias do Dilúvio. Assim foi que um deus amigo adverte o herói antecipadamente e ordena-lhe que construa uma arca, de modo que possa salvar não só a própria família, mas também uma seleção de animais representativos. A arca finalmente aterrissou num monte chamado Nisir, na cordilheira de Zagros, a nordeste da Babilônia, e Utnapishtim enviou uma pomba, uma andorinha e um corvo para que trouxessem notícias das condições lá fora. Finalmente ele saiu com sua família a fim de oferecer sacrifícios aos deuses famintos, por causa das longas semanas em que o Dilúvio cobrira a terra.

Alguns estudiosos de religiões comparadas têm sugerido que o mito babilônico antecede o dos hebreus e que os compiladores de Gênesis 7 e 8 o tomaram emprestado. Entretanto, essa hipótese torna-se improvável à vista do contraste significativo existente entre ambos. Assim é que a arca construída por Utnapishtim era cúbica, dotada de seis conveses, onde os animais seriam confinados. É impossível imaginar-se uma embarcação menos prática e menos apropriada para navegação no mar. A arca de Noé, no entanto, tinha 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura — medidas ideais para um transatlântico moderno. Se o côvado medisse cerca de 45 centímetros naquela época (e provavelmente essa seria a medida, num



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período em que os homens eram de estatura maior do que seriam após o Dilúvio — cf. Gênesis 6.4), a arca de Noé teria tido 135 metros de comprimento, de largura 22, 5 metros, de altura 13, 5 metros). Se tivesse o formato de uma caixa (como provavelmente deveria ter, em vista dos propósitos especiais a que serviria, teria tido condições para abrigar dois mil vagões de gado, em cada um dos quais cabem de dezoito a vinte animais, ou sessenta a oitenta porcos, ou de oitenta a cem ovelhas.

Em nossa época, existem apenas 290 espécies de animais terráqueos maiores que uma ovelha. Há 757 cujo tamanho varia da ovelha ao rato e 1358 menores que o rato. Dois representantes de todas essas espécies caberiam confortavelmente em dois mil vagões de gado, havendo ainda muito espaço para a ração. O mesmo talvez não se pudesse dizer do navio esquisito de Utnapishtim, sujeito a naufragar em mar bravio por causa de seu formato cúbico. Além disso, o violento contraste entre os deuses ciumentos e briguentos do panteão babilônico e a santidade majestosa de Iavé, o absoluto soberano do Universo, fornece-nos a mais robusta base para que classifiquemos o relato de Gilgamés como fábula politeísta, derivada do mesmo episódio contido em Gênesis 7 e 8. O registro hebraico é redigido no estilo de história sóbria e precisa, que reflete uma fonte derivada de pessoas que estiveram realmente envolvidas no episódio. A narrativa épica de Gilgamés é substancialmente vaga e cheia de mitos.

Para os leitores que desejam ler mais a respeito das versões folclóricas espalhadas pelo mundo inteiro, derivadas da narrativa do dilúvio em Gênesis, veja James Frazer, Folklore in the Old Testament, vol. 1 (Londres, Macmillan & Co., 1918), ou a substancial obra de Richard Andree, Die Flutsagen ethnographisch betrachtet (Brunswick, 1891). Quanto ao épico do Dilúvio babilônico, veja Alexander Heidel, The Gilgamesh epic and Old Testament parallels, 2. ed., Chicago: Univ. de Chicago, 1949.
É ainda proibido aos cristãos comer sangue?

Depois do Dilúvio, o Senhor renovou sua aliança com Noé e deu-lhe linhas mestras para orientar a sociedade pós-diluviana (Gn 9.1-16). O versículo 4 contém esta importante proibição: "Não coma carne com sangue, que é vida [nepeš]". A "santidade" especial do sangue conduz ã um mandamento que determina a pena capital para qualquer pessoa que cometer homicídio. Posteriormente, em Levítico 17.10, 11, especifica-se com maiores minúcias as razões por que se deve evitar o sangue como alimento: "Todo israelita ou estrangeiro residente que comer sangue de qualquer animal, contra esse eu me voltarei e o eliminarei do meio do seu povo. Pois a vida [nepeš]* da carne está no sangue, e eu o dei a vocês para fazerem propiciação por si mesmos no altar; é o sangue que faz propiciação pela vida". Os versículos seguintes prosseguem, especificando que até a caça selvagem deve ter o sangue escorrido totalmente, antes de ser comida.

A questão com a qual se defrontam os crentes da época do nt é se essa proibição se refere a nós também. A revelação que Deus concedeu a Pedro em Atos 10.10-15 ensinou-lhe que as antigas restrições da lei mosaica concernentes a alimentos proibidos não deveriam mais ser observadas. Todos os quadrúpedes, todos os seres rastejantes e todas as aves deveriam ser considerados limpos e próprios para consumo humano. O fator importante aqui era a aplicação desse princípio por analogia a todas as raças humanas, tanto aos judeus como aos gentios — todos os homens considerados aptos ao alcance da salvação e da graça, mediante o sangue derramado por Jesus. Permanece, entretanto, a questão: a remoção das categorias de alimentos limpos estabelecidas com tantas minúcias em Levítico 11.1-45 e Deuteronômio 14.3-21 verdadeiramente elimina as restrições contra o uso do sangue? Agora que Cristo derramou seu precioso sangue, esse fato removeu toda a santidade do sangue dos animais? Ou esse sangue deve continuar a ser respeitado como sendo precioso, por causa de seu simbolismo do Calvário? Em outras palavras, a permissão para comermos de todos os animais e aves, sem discriminação, envolve a licença para comermos o sangue desses animais? Ou esses deveriam ser primeiro sangrados, ao serem mortos, antes de assados ou preparados de outra forma para o consumo humano?


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Parece que a resposta a essa pergunta é sim. Alguns anos depois de Pedro haver recebido instruções especiais de Deus, mediante uma visão, o Concilio de Jerusalém reuniu-se a fim de deliberar se dos novos convertidos dever-se-ia exigir que adotassem as cerimônias judaicas antes de tornar-se cristãos. Por ser o presidente do Concilio, Tiago declarou: "Portanto, julgo que não devemos pôr dificuldades aos gentios que estão se convertendo a Deus. Ao contrário, devemos escrever a eles, dizendo-lhes que se abstenham [1] de comida contaminada pelos ídolos, [2] da imoralidade sexual, [3] da carne de animais estrangulados e do sangue" (At 15.19, 20). Essa determinação foi aprovada pelo resto da assembléia. E assim foi que se decidiu a respeito da seguinte resposta a ser dada aos convertidos de Antioquia, Síria e Cilícia: "Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nada além das seguintes exigências necessárias: Que se abstenham de comida sacrificada aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual. Vocês farão bem em evitar essas coisas" (At 15.28, 29).

Dessa passagem entendemos que 1) a admoestação para que se evitasse comer sangue veio depois da visão de Pedro e, portanto, não teria sido modificada nem abrogada pela revelação anterior de Atos 10; 2) a proibição estava ligada a outra, concernente à fornicação — uma restrição que jamais poderia ser considerada obsoleta, mas, ao contrário, é um princípio permanente a ser obedecido por todos os cristãos; 3) que essa insistência na santidade contínua do sangue foi decretada não por meros homens, apenas, mas pelo próprio Espírito Santo. Na verdade, alguns especialistas têm inferido da discussão posterior de Paulo, em 1 Coríntios 8, com respeito à carne oferecida aos ídolos, que a proibição contida na carta do Concilio de Jerusalém não teria validade por todo o tempo, no futuro. Mas o fato é que a objeção de Paulo centralizava-se não tanto na pecaminosidade inerente ao consumo de tais alimentos, mas na pedra de tropeço representada por tal exemplo aos pagãos recém-convertidos que, até pouco tempo, sacrificavam animais aos ídolos.

Em 1 Coríntios 10.27, 28, Paulo discorre mais sobre esse tópico, dizendo: "Se algum descrente o convidar para uma refeição e você quiser ir, coma de tudo o que lhe for apresentado, sem nada perguntar por causa da consciência. Mas se alguém lhe disser: 'Isto foi oferecido em sacrifício', não coma, tanto por causa da pessoa que o comentou, como da consciência". Isso implica que o crente participe ou não, em particular, da carne que houver sido oferecida aos ídolos, mas se ele comer dela perante outras pessoas estará colocando diante delas uma pedra de tropeço. Portanto, comer dessa carne ainda seria algo proibido ao cristão, no nt, por causa do dano espiritual que poderia causar aos novos convertidos gentios. Parece que a implicação é muito clara: devemos respeitar a santidade do sangue, visto que Deus o escolheu para ser símbolo do sacrifício expiatório de Cristo. Portanto, se um crente quer ser obediente às Escrituras, não deve comer sangue.

A solene declaração de Cristo em João 6.53-58 a respeito de os crentes participarem de seu corpo e de seu sangue, pela fé, obviamente se refere apenas à reação espiritual dos verdadeiros cristãos com respeito ao sacrifício expiatório de Jesus no Gólgota. Nós nos apropriamos de seu corpo e sangue pela fé, e tomamos os benefícios da salvação ao confiar inteiramente na vida imaculada de Jesus e na oferta de seu sangue inocente como expiação vicária de nossos pecados. No entanto, esse fato não tem relação alguma com a admoestação de Deus quanto ao comer sangue de animais e aves como ingrediente de nossa alimentação, e muito menos a anula.

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