Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Em Gênesis 9.24-28, por que Noé amaldiçoou seu filho mais novo e disse que Canaã deveria tornar-se escravo? Teria sido esse o início da escravidão? A escravidão era coisa justa aos olhos de Deus? [d]

A razão por que Noé amaldiçoou seu filho Cam foi que ele zombou de seu pai, a quem também



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desonrara, ao vê-lo nu, no estupor de uma forte bebedeira. Cam deveria ter cuidado de seu genitor com todo respeito, ainda que, bêbado (aparentemente nunca antes havia provado uma gota de álcool), se fizesse de tolo. Devemos notar com o máximo cuidado que apenas um dos filhos de Cam, especificamente Canaã, foi escolhido para sofrer as conseqüências do pecado da maldição lançada contra o pai. Gênesis 9.25 cita Noé, que teria dito: "Maldito seja Canaã! Escravo de escravos [heb., ‘eḇed aḇādîm] será para seus irmãos".

Cam tinha outros filhos, além de Canaã, a saber, Cuxe, Mizraim e Fute (Gn 10.6); entretanto, a penalidade foi aplicada apenas a Canaã, o ancestral das cananeus da Palestina, e não a Cuxe e Fute, que provavelmente se tornaram os ancestrais dos etíopes e dos povos negros da África. O cumprimento dessa maldição fez-se à época da vitória de Josué (cerca de 1400 a.C.) e também por ocasião da conquista da Fenícia e dos demais povos cananeus pelos persas. É provável que estes fossem descendentes de Jafé, mediante Madai. Parece que essa é a mais antiga ocorrência da palavra ‘eḇed, no sentido de "escravo", nas Escrituras.

No que concerne ao status moral da escravidão nos tempos antigos, devemos reconhecer que era praticada por todos os povos antigos de que temos registros históricos: egípcios, sumérios, babilônios, assírios, fenícios, sírios, moabitas, amonitas, edomitas, gregos, romanos, e todos os demais. A escravidão fazia parte da vida e da cultura antigas, tanto quanto o comércio, os impostos e os cultos no templo. Só depois do surgimento de um conceito mais elevado do ser humano e de sua dignidade inata como pessoa criada à imagem de Deus, o qual permeou o mundo em decorrência dos ensinos da Bíblia, é que surgiu também um forte sentimento na cristandade contra a escravidão. Passou-se a questionar a razão da existência do escravo. Não se tem conhecimento de um movimento equivalente favorável à abolição da escravatura em nenhuma civilização não-cristã.

Em Gênesis 9.25 ‘eḇed é palavra usada no sentido de um povo estar politicamente sujeito a outro, estrangeiro, mais poderoso. De acordo com a lei de Moisés, os escravos hebreus deveriam ser libertos após seis anos de cativeiro; jamais seriam obrigados a servir a vida inteira, a menos que por vontade própria escolhessem permanecer escravos, por amor a seus patrões (Êx 21.2-7). Havia casos em que eles eram dignos de grandes honradas e assim tratados; os nobres eram chamados em geral "servos" (aḇādîm) do rei — um título honorífico, algo a que Paulo faz referência ao falar de si mesmo como "escravo de Jesus Cristo".

Nos tempos do nt, os escravos que aceitavam a Cristo eram considerados verdadeiros irmãos dos outros cristãos livres e co-herdeiros do Reino de Deus. Eram admoestados a servir seus senhores com toda a fidelidade, com todo o respeito e de boa vontade, como se servissem ao próprio Jesus (Ef 6.5-8) — ainda que devessem procurar ganhar ou comprar sua liberdade sempre que possível (1 Co 7.21).

No entanto, é inerente no conceito bíblico do homem como pessoa criada à imagem de Deus e candidato ao céu (sob a condição de arrepender-se do pecado, de exercer a fé no Senhor e a ele entregar-se totalmente) um princípio dinâmico que extirpa a escravidão. Esse fato encontrou expressão primeiramente no mundo evangélico e, a seguir, em outras religiões e culturas, envergonhadas pelo exemplo cristão de abolição da escravatura em seus domínios. Assim é que o propósito último de Deus tem sido instituído e usufruído.


Que significa a profecia de Noé segundo a qual Jafé haveria de morar nas tendas de Sem (Gn 9.27)?

A declaração completa de Noé foi a seguinte: "Amplie Deus o território de Jafé; habite ele nas tendas de Sem, e seja Canaã seu escravo" (Gn 9.27). Essas palavras vêm logo depois do versículo 26 e indicam que os descendentes de Canaã serviriam como escravos tanto dos semitas quanto dos jafetitas, ou povos indo-europeus. Provavelmente isso se cumpriu em 330 a.C., quando Alexandre, o Grande, subjugou todo o território do império persa, anexando-o a seus extensos domínios. Como conquistador dos fenícios, samaritanos,



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assírios e babilônios, ele assumiu as rédeas do governo e instituiu deputados especiais, espalhando suas tropas veteranas em vários campos por todo o território conquistado. O império por ele fundado durou mais de três séculos. Nesse sentido, pois, Jafé (ancestral de Javã, ou dos gregos) "habitou nas tendas de Sem".

Antes da conquista de Alexandre, é claro, Canaã havia sido invadida e tomada pelos exércitos de Josué, em torno de 1400 a.C. Quer dizer que, nesse sentido, Canaã tornou-se escravo de Sem, bem como de Jafé (no tempo da conquista de Alexandre). Entretanto, se o antecedente do pronome ambíguo "lhe" em "e Canaã lhe seja servo" (ra, grifo do autor) for "Jafé", — como é mais provável — a profecia aponta de modo particular para o domínio dessa área toda de Canaã, isto é, a Palestina, pelos gregos e macedônios do exército de Alexandre. Assim foi que o filho de Cam tornou-se o "servo" de Jafé.


Gênesis 10.5, 20, 31 parece indicar que a humanidade falava vários idiomas. Mas Gênesis 11.1 afirma que "no mundo todo havia apenas uma língua, um modo de falar". Como podemos harmonizar essas duas declarações opostas?

Gênesis 10 descreve o desenvolvimento de uma diferenciação racial e de uma dispersão ocorrida depois do Dilúvio, quando os descendentes de Noé começaram a repovoar a Terra. Tudo isso teria ocorrido ao longo do iii milênio a.C, um pouco antes do surgimento de Abraão.

Depois dessa pesquisa genérica, o autor de Gênesis volta-se para um episódio que teria ocorrido bem cedo, na era pós-diluviana: a confusão das línguas que se seguiu à vã tentativa de se construir a torre de Babel (Gn 11.1 -9). Isso teria acontecido uns poucos séculos depois do Dilúvio.

As várias tribos que descendiam de Cam, Sem e Jafé falavam a mesma língua (presumivelmente a do próprio Noé), mas preservaram as distinções tribais com todo cuidado. Quando Deus colocou um ponto final no humanismo arrogante e na política quimérica do "mundo unificado" que ostentavam (uma tentativa rebelde de viver independentemente do Criador), o Senhor lhes confundiu a língua, de tal modo que uma tribo não conseguia entender a outra; e isso impossibilitou que continuassem a desenvolver aquele projeto coletivo.

Não temos meios de saber se a língua mundial anterior ao episódio de Babel foi preservada, Prosseguindo em meio aos demais idiomas surgidos na confusão. (Alguns sugerem que o hebraico poderia ter sido essa língua original e nela temos as palavras originais de Adão, Eva, Caim e outras personagens preservadas em Gênesis 3 e 4. Todavia, segura e comprovadamente esse idioma é um dialeto posterior, derivado de uma língua semítica do noroeste ou de um grupo de falares cananeus oriundos daquela divisão. Parece, pois, improvável que o hebraico bíblico tenha sido o idioma original do qual se derivaram todas as línguas humanas.

Só podemos conjecturar que, dentro das várias subtribos e dos diversos grupos humanos, a nova distribuição de línguas, ou a diferenciação que se fez não foi completa, total, de tal modo que parentes consangüíneos ficaram impedidos de entender-se entre si. O fato de essas tribos continuarem a manter sua integridade, de acordo com sua linhagem, é um forte indício de que cada uma dessas subdivisões recebeu uma língua, e seus membros a podiam entender bem, ainda depois da confusão em Babel.


Se Gênesis 11.28 coloca a origem da família de Abraão em Ur dos caldeus, por que ele em Gênesis 24.4 localiza seu país e sua gente em Harã?

A família de Abraão originou-se em Ur, mas depois migrou para Harã, localizada no rio Belique, no extremo norte do Crescente Fértil. Todos partiram para o norte da Mesopotâmia, inclusive Abraão, Naor e Ló (filho do falecido Naor). Por isso, estabeleceram-se como um grupo coeso em Padã-Harã, de que Harã era a capital. Ali viveram durante várias décadas, onde lhes nasceram filhos, que foram educados naquele ambiente sírio. Seria de se esperar que Abraão olhasse para trás, para a longa viagem a partir de Harã, como seu



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segundo lar, de onde ele migrara aos 75 anos de idade (Gn 12.4). Também era natural que ele se referisse aos filhos de seus irmãos como sua "família" (môledeṯ) — conquanto ainda houvesse parentes mais distantes morando em Ur (cf. 12.1).

Alguns têm sugerido que Ur a que se refere a Escritura como sendo o lar ancestral da família de Abraão poderia ter se localizado mais perto de Harã, na área de Padã-Harã. Há referências a "Uru" nos tabletes Eblaite, de acordo com Giovanni Pettinato ("bar Interviews Giovanni Pettinato", Biblical Archaelogy Review 6, nº 5 [Setembro-Outubro de 1980]: 51), localizada no norte da Mesopotâmia. Mas "Uru" era apenas um termo sumério ou acadiano que significa "cidade". Se assim for, poderia referir-se a mais de uma região daquela localidade. Gênesis 11.28 diz explicitamente, no entanto, que a cidade de onde veio Abraão era a "Ur dos caldeus", que se localizava bem perto da linha costeira do golfo Pérsico, nos tempos antigos, a quase 160 quilômetros a noroeste da atual linha costeira. Assim, era suscetível de ser atacada por corsários caldeus de regiões vizinhas, onde hoje se localiza o Kuwait.

Assim como a costa leste da Inglaterra finalmente viria a tornar-se conhecida por Danelaw, por causa da crescente infiltração dos víquingues dinamarqueses, Ur tornou-se conhecida por Ur Kaśdîm (à época de Moisés, pelo menos, quando Gênesis foi escrito), por causa do estabelecimento de uma esfera de influência ali, da parte dos caldeus. Portanto, não seria possível que alguma cidade com esse nome, na vizinhança de Harã, viesse a tornar-se submissa a uma hegemonia caldaica, visto que os caldeus jamais penetraram naquela região do Oriente Próximo. (A sugestão de que isso seria reflexo dos cassitas, estabelecidos na Babilônia em 1500-1200 a.C., tem apoio muito escasso. Jamais houve um terceiro radical d anexado ao substantivo Kassi).

Como poderia Deus permitir que Abraão ficasse rico por meio da mentira?

Em duas ocasiões (Gn 12.10-20; 20.1-18), Abraão apresentou sua esposa Sara como sua irmã, a fim de salvar a própria pele. A primeira vez ele assim procedeu quando a fome afligia Canaã de modo tão severo que ele achou necessário mudar-se para o Egito a fim de sobreviver (Gn 12.10). Mas, ao aproximar-se daquela nação pagã e corrupta, percebeu que estaria à mercê de uma sociedade que não titubearia em assassiná-lo a fim de conquistar sua bela esposa: o rei a levaria para seu harém. Abraão achou que os egípcios o matariam, caso soubessem que era casado com aquela formosa mulher. Por isso, ele persuadiu Sara a mentir com ele, achando que esse era o único jeito de ser poupado. Pode-se compreender bem que Sara agiu dessa forma premida pelas circunstâncias e por seu marido. No entanto, foi um pecado que ambos cometeram, o qual lhes furtou a possibilidade de testemunhar a verdade de Deus perante a sociedade idólatra do Egito.

Os agentes do faraó agiram da forma que Abraão havia previsto; levaram Sara perante o rei acreditando que ela seria um enriquecimento extraordinário do harém real (Sara ainda era bonita, embora tivesse bastante idade!). Mas Abraão ficou grandemente constrangido porque o faraó lhe deu muitas riquezas — na forma de servos, gado, prata e ouro (Gn 12.16; 13.2). Mas, até mesmo depois de o rei ser derrubado por uma doença repentina, tão logo Sara penetrou em seu palácio, e de ser levado a inquirir de seus feiticeiros as razões de sua aflição, foi ele impedido de vingar-se de Abraão pelo fato de este tê-lo enganado. É possível que o faraó tenha entendido o constrangimento enfrentado pelo seu hóspede: percebeu que o patriarca temera pela sua vida, pois seria morto por causa de sua esposa. O próprio faraó sentiu-se mal pelo fato de quase ter se envolvido em pecado de adultério — o que era severamente proibido até pela religião egípcia (cf. Book of the dead, cap. 125, sec. b19, em Pritchard, anet, p. 35, em que o falecido precisa declarar que jamais cometeu adultério). O faraó estava maravilhado diante do poder do Deus de Abraão, que fora capaz de golpeá-lo com tanta rapidez de tal modo que nem sequer conseguira levar Sara para sua cama, pois caíra mortalmente enfermo. Por essas razões, o rei permitiu que o patriarca saísse


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do Egito com todas as riquezas fabulosas que havia concedido a ele, como guardador de Sara.

Parece-nos claríssimo que o relato do fracasso de Abraão é uma alusão honesta à falta de fé que ele manifestara no desenrolar de todo o episódio. Houvesse ele acreditado que Iavé não poderia protegê-lo com honra e dignidade se ele descesse ao Egito, jamais teria ido a esse país. Pelo seu mau procedimento, ele trouxe desonra sobre si mesmo e à causa que representava e desacreditou a si próprio diante dos padrões de moralidade egípcia. Quanto ao seu enriquecimento por meio da generosidade do faraó, foi num sentido muito bem definido pelo qual o rei estava sob a obrigação de indenizá-lo pelo constrangimento iníquo que sua sociedade corrupta impunha sobre os estrangeiros que visitavam a terra do Egito. Quando o faraó descobriu a verdade, admitiu que Abraão agira com lógica ao mentir, pois tentava livrar-se de um perigo mortal. Por isso, dificilmente diríamos que Deus é o responsável pelo enriquecimento do patriarca. Foi obra do próprio rei, que não viu razão para exigir a devolução das dádivas, mesmo depois de descobrir que Abraão lhe mentira. Ele conservou em seu poder as possessões recebidas, ao regressar a Canaã, a terra que Deus lhe havia prometido. Pode ser que aqueles anos subseqüentes de agonia, de demora torturante (até estar ele com cem anos de idade), em parte se deveram ao seu fracasso e falta de fé em Deus, no poder protetor do Senhor, tanto no Egito quanto (mais tarde) em Gerar.

Gênesis 20 nos diz como Abraão bem depressa caiu no mesmo subterfúgio em Gerar, quando de novo percebeu que sua segurança estava em perigo por causa de sua mulher. Como ele mais tarde explicaria a Abimeleque, rei de Gerar, "Eu disse a mim mesmo: Certamente ninguém teme a Deus neste lugar, e irão matar-me por causa da minha mulher" (v. 11). E prosseguiu, afirmando que de fato Sara era sua meia-irmã (v. 12), mas fora-lhe dada por esposa, e com ela vivia. De novo Abraão fracassou ao revelar sua desconfiança no poder de Deus para preservá-lo do perigo mortal, deixando de honrar ao Senhor perante os olhos de um mundo incrédulo. Ainda que recebesse mil siclos de prata à guisa de indenização pelo fato de Abimeleque haver levado Sara para seu palácio,

Abraão teve de sair da terra coberto de desonra. De novo devemos observar que esse relato não o exonera de seu pecado, tal como não o livrou a aventura semelhante no Egito. Ele saiu de ambos os fracassos cheio de desonra e vergonha, tendo anulado sua boa influência sobre os filisteus, assim como no caso dos egípcios.


É real e digna de confiança a história da derrota que Abraão infligiu sobre os reis da Mesopotâmia, em Gênesis 14?

É verdade que até o presente momento não temos confirmação direta, arqueológica, desse episódio na carreira de Abraão, mas não existe nenhuma base científica válida para que o rejeitemos por falta de historicidade: o caso está registrado em Gênesis 14. A não ser os documentos da Ur do século xx a.C, não se dispõe de nenhuma outra informação com respeito a esse período, a não ser o que o próprio livro de Gênesis nos afirma — pelo menos no que diz respeito à Mesopotâmia. O nome de Quedorlaomer, rei de Elão, contém elementos elamitas familiares: kudur significa "servo" e Lagamar era o nome de uma deusa do panteão elamita. Kitchen (Ancient Orient, p. 44) em geral prefere a vocalização kutir em vez de kudur e dá as referências de pelo menos três nomes reais elamitas desse tipo. Ele iguala Tid'al ao nome hitita Tudkhaliya, atestado desde o século xix a.C. Quanto a Arioque, um rei de Larsa, ou Elasar ("El-lasar"), era Eri-aku ("servo do deus-lua") cujo nome em acádio era Arad-Sin (com o mesmo significado). As tabuinhas de Mari referem-se a pessoas com o nome de Ariyuk. O original cuneiforme de Anrafel, antigamente igualado ao de Hamurábi da Babilônia, não é aceito como do século xx (Hamurábi data do século xviii), mas é possível que haja uma conexão com os nomes amoritas como Amud-pa-ila, de acordo com H. B. Huffmon (v. nota de rodapé de Kitchen, à p. 44, quanto à documentação).

Todas essas informações vieram à tona desde os dias áureos da Hipótese Documentária, quando estudiosos conceituados desdenhosamente colocaram de lado o relato bíblico, considerando-o de


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data recente e de caráter totalmente fictício. Mas até peritos de grande gabarito como H. Gunkel e W. F. Albright, em nosso século, concluíram que Gênesis 14 repousa em bases autênticas na história do início do II milênio a.C. Na obra de H. C. Alleman e E. E. Flack, Old Testament commentary (Filadélfia: Fortress, 1954, p. 14), W. F. Albright observa: "A despeito de nossa falha até o momento em estabelecer o horizonte histórico deste capítulo, podemos ter certeza de que seu conteúdo é bem antigo. Há várias palavras e expressões que não se encontram em parte alguma na Bíblia e que agora se sabe pertencerem ao segundo milênio. Os nomes das cidades da Transjordânia também se sabe que são muito antigos". Deve-se acrescentar que, de acordo com G. Pettinato, principal epigrafista dos documentos de Ebla, datados de 2400-2250 a.C., faz-se menção às tabletas de Ebla de Sodoma (que se escreve Si-da-mu), Gomorra (registra os sinais cuneiformes sumerianos I-ma-ar) e Zoar (Za-e-ar). Ele acha bem possível serem essas as mesmas cidades mencionadas na narrativa abraâmica (cf. "bar Interviews Pettinato", p. 48).

A autenticidade do contexto se estabelece com elevado grau de probabilidade mediante a evidência mencionada anteriormente, até do ponto de vista da erudição objetiva — ou mesmo à parte da confiabilidade das Escrituras, com que todos os verdadeiros crentes estão comprometidos por questão de fé. Mas, no que concerne à credibilidade do episódio em si, devemos reconhecer que foi excepcional a ousadia da parte de um nômade pacífico como Abraão: tentar derrotar o grande exército invasor, formado por profissionais militares vindos da Mesopotâmia. Após a brilhante vitória sobre as forças coligadas da confederação sodomita (14.8-10), os conquistadores-saqueadores, carregados de despojos e rapinagem, teriam bem depressa dado cabo dos 318 empregados de Abraão e seu insignificante pelotão de aliados amoritas que não chegavam a mil homens.

Em condições normais e à luz do dia, teria sido uma ofensiva suicida da parte do exército de Abraão atacar os soldados mesopotâmicos, em qualquer campo de batalha. Mas o patriarca alcançou a vitória mediante marchas forçadas e caiu sobre eles à noite, de surpresa, estando os inimigos totalmente desprevenidos e despreparados para o combate. Dividindo suas forças em vários grupos (Gn 14.15), aparentemente Abraão usou uma tática parecida com a de Gideão, que expulsou um exército maior ainda, constituído de midianitas, pelo uso estratégico de apenas trezentos soldados (Jz 7.19-22). O segredo do sucesso, do ponto de vista humano, foi a indução ao pânico das forças heterogêneas do inimigo, divididas em várias línguas, que não sabiam quantos atacantes deveriam enfrentar e dificilmente tinham noção do caminho da fuga. É claro que a razão real da conquista foi o poder miraculoso de Deus, que concedeu a Abraão uma vitória completa nessa ocasião — não só para que pudesse libertar seu sobrinho Ló, mas também como sinal do triunfo final de seus descendentes, sob a liderança de Josué, 570 anos mais tarde.

Melquisedeque foi uma pessoa histórica, real, ou uma figura mitológica?

O relato de Gênesis 14.18-20 parece um episódio eminentemente histórico, da mesma forma que o resto do capítulo. A passagem nos fala da existência de um rei-sacerdote de Salém (isto é, Jerusalém, com toda a probabilidade) chamado Melquisedeque, o qual achou-se na obrigação de saudar Abraão, que voltava da guerra e do morticínio dos reis da Mesopotâmia, entre Dã e Hobá (v. 15), e fornecer provisões para os soldados fatigados da guerra. Deu-lhe os parabéns pela vitória heróica e derramou uma bênção sobre ele, em nome do "Deus Altíssimo" (’El ‘Ēlyôn) — título jamais aplicado nas Escrituras a alguém que não o próprio Iavé. É óbvio que Melquisedeque era um verdadeiro crente que permanecia fiel ao culto ao autêntico e único Deus (da mesma forma que Jó e seus conselheiros do norte da Arábia, Jetro, sogro de Moisés, e Balaão, vindo de Petor no vale do Eufrates). O testemunho de Noé e de seus filhos evidentemente fora mantido em outras partes do Oriente Médio, além de Ur e Harã.

Houve, todavia, um aspecto de grande importância a respeito da maneira como Melquisedeque


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foi introduzido na narrativa: seus pais não são mencionados, não havendo declaração alguma a respeito de seu nascimento e morte. A razão dessa falta de informações se torna clara em Hebreus 7.3: "Sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias nem fim de vida, feito semelhante ao Filho de Deus, ele permanece sacerdote para sempre". O contexto esclarece que Melquisedeque entrou em cena como um tipo do Messias, o Senhor Jesus. A fim de salientar essa característica típica desse sumo sacerdote, o registro bíblico omite de propósito a menção de seu nascimento, filiação, parentesco e linha genealógica. Isso não quer dizer que ele não teve pai (pois até o antítipo, Jesus de Nazaré, teve o Espírito Santo como seu Pai — e sua mãe, Maria, é mencionada nos evangelhos) nem que ele jamais nascera (pois até Cristo, em sua forma humana, teve seu natal). É que o aparecimento dramático e repentino de Melquisedeque ficou mais saliente quando ele foi apresentado como porta-voz do Senhor a Abraão, servindo como arquétipo do futuro Cristo, que derramaria bênçãos sobre o povo de Deus.

Melquisedeque apresentou-se como precursor ou tipo do grande Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, que desempenharia uma função sacerdotal muito mais elevada e eficaz que Arão e os levitas. Isso foi ensinado nos dias de Davi, em Salmos 110.4, referindo-se ao futuro Libertador de Israel: "O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque". Hebreus 7.1, 2 salienta as características de Melquisedeque como tipo de Cristo:


1. Melki-sedeq de fato significa "rei da justiça".

2. Ele era rei de šālēm, que vem da mesma raiz de šālōm, "paz".

3. É apresentado sem menção de nascimento, filiação ou genealogia, como convém ao tipo do Verbo, o Deus eterno, que não tem começo nem fim, que se encarnou em Jesus de Nazaré.

4. Como o Sumo Sacerdote eterno, segundo a "ordem de Melquisedeque" (Sl 110.4), Cristo desempenharia um sacerdócio que substituiria de modo total o de Arão, estabelecido sob a lei de Moisés, o qual duraria para sempre, por causa da eternidade do Sumo Sacerdote divino, e era por isso imperecível (Hb 7.22-24).

A despeito das tradições fantasiosas mantidas e ensinadas por alguns rabinos (que apareceram bem cedo, ao surgir a seita de Qumran — cf. Fragmento de Melquisedeque da caverna 11), segundo a qual Melquisedeque teria sido uma espécie de anjo ou ser sobrenatural, os dados da própria Escritura apontam com clareza para a historicidade desse homem como sendo o rei de Jerusalém nos dias de Abraão. Sua descrição em Hebreus 7.3 como apatōr, amētōr, agenealogētos ("sem pai, sem mãe, sem genealogia") não pode significar que Melquisedeque jamais teve pais ou linha de ancestrais, visto que ele era um tipo de Jesus Cristo, a respeito de quem nenhum desses adjetivos é literalmente verdadeiro. Antes, o texto simplesmente está dizendo que nenhum desses itens de informação foi incluído no registro de Gênesis 14 e que foram omitidos de propósito a fim de enfatizar a natureza divina e a impossibilidade de o Messias, o antítipo, vir a perecer.

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