Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



Baixar 2.12 Mb.
Página14/62
Encontro19.07.2016
Tamanho2.12 Mb.
1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   62

Por que a Bíblia emprega termos não-científicos como "ao nascer do sol" e "os quatro cantos da terra"?

Certos críticos que não aceitam a autoridade da Bíblia consideram evidência de falta de exatidão certas expressões pré-científicas, certos modismos, como em Gênesis 15.17: "Depois que o sol se pôs", e Gênesis 19.23: "O sol já havia nascido sobre a terra". Se essa acusação for justa, ela se aplica de igual modo a nosso século, visto que nós — até mesmo os cientistas — ainda empregamos as expressões "nascer do sol" e "pôr-do-sol" em nossa conversação diária, embora estejamos todos bem cientes de que na verdade é a Terra que gira ao redor do Sol. Trata-se de um exemplo perfeitamente aceitável de terminologia fenomenológica, que se emprega em todas as línguas e em todos os períodos da história. Na verdade, as palavras que designam "leste" e "oeste", na maior parte das línguas semíticas, significam literalmente "lugar de subir" e "lugar



  • 83

de descer". Portanto, esse tipo de argumento é pueril e revela espantosa ingenuidade da parte dos críticos que o empregam.

O mesmo vale para o mito moderno, segundo o qual a Bíblia ensina que a Terra é um retângulo, em vez de uma esfera, visto que emprega a expressão "quatro cantos da terra" (e.g., Is 11.12). A palavra para "cantos" é kenāpôṯ, que significa "asas", i.e., pontas de asa, à guisa de setas, como se usa nas bússolas (até mesmo em nossos dias) para indicar as quatro direções: norte, sul, leste e oeste. No que concerne ao formato da Terra, Jó 22.14, Provérbios 8.27 e Isaías 40.22 falam dela como sendo um ḥūg ("círculo", "disco", ou possivelmente "esfera"). Jamais alguém apareceu para mostrar cantos, ou esquinas, num círculo, nem mesmo um hebreu antigo ou um cientista moderno!


Por que Deus ordenou que se praticasse a circuncisão em Gênesis 17?

Gênesis 17 não nos dá um raciocínio lógico que justifique o estabelecimento desse rito obrigatório para a família e descendentes de Abraão. Deus simplesmente diz: "Terão que fazer essa marca, que será o sinal da aliança entre mim e vocês" (v. 11). Todo e qualquer descendente de Abraão que se recusasse ou conscientemente negligenciasse a circuncisão deveria ser cortado da aliança da graça de Deus (v. 14). Isso significa que a circuncisão era considerada de grande importância por Iavé, no que dizia respeito à nação de Israel. Romanos 4.9, 10 explica que a salvação não depende da circuncisão, mas, antes, da graça de Deus, que chega ao pecador culpado mediante a aceitação das promessas divinas e da fé no Senhor. A justiça de Deus foi atribuída a Abraão antes de ele ser circuncidado (cf. Gn 15.6; 17.23, 24). Mas o apóstolo Paulo explica o propósito da circuncisão em Romanos 4.11: "Assim ele recebeu a circuncisão como sinal, como selo da justiça que ele tinha pela fé, quando ainda não fora circuncidado. Portanto, ele é o pai de todos os que crêem, sem terem sido circuncidados, a fim de que a justiça fosse creditada também a eles" (grifo do autor).

O rito da circuncisão (i.e., a remoção cirúrgica do prepúcio) teve o objetivo de ser um sinal e selo da aliança estabelecida entre Deus e o crente. Assim como um anel — uma aliança — é sinal e selo de um compromisso mútuo, total e exclusivo entre a noiva e o noivo enquanto viverem, também a remoção sacramentai dessa parte do órgão masculino era um testemunho cruento, ou um pacto selado com sangue, pelo qual o crente entregava sua vida a Deus, prometendo solenemente viver para ele, em plena dependência de sua graça para o resto de sua vida terrena. Sendo um selo, o ato da circuncisão era igual a um atestado de propriedade no at. Testificava que a pessoa pertencia não ao mundo, a Satanás ou a si própria, mas ao Senhor Deus, que lhe provera a redenção.

Em Colossenses 2.11-13, encontramos maiores explicações sobre a função da circuncisão: "Nele também vocês foram circuncidados, não com uma circuncisão feita por mãos humanas, mas com a circuncisão feita por Cristo, que é o despojar do corpo da carne. Isso aconteceu quando vocês foram sepultados com ele no batismo, e com ele foram ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos. Quando vocês estavam mortos em pecados e na incircuncisão da sua carne, Deus os vivificou com Cristo. Ele nos perdoou todas as transgressões". Incluem-se nesses versículos três importantes conceitos concernentes à circuncisão:


1. A circuncisão envolvia a remoção simbólica do "corpo da carne" como instrumento de perversidade; sem a circuncisão, o corpo do pecador permanecia em estado de "incircuncisão da carne".

2. A circuncisão pressupõe a fidelidade e o empenho à santidade. Moisés admoesta a congregação em Deuteronômio 10.16: "Sejam fiéis, de coração, à sua aliança; e deixem de ser obstinados". Isso indica que a circuncisão envolvia a fidelidade no coração, a santidade ao Senhor e a obediência à sua Palavra. (O oposto era a dureza de coração e a teimosa e voluntariosa disposição ao mal, da parte da pessoa). Levítico 26.41 fala de uma geração futura de israelitas levada ao cativeiro. Essa passagem também se refere ao perdão e restauração, com retorno à sua terra "se o seu



  • 84

coração obstinado [ou incircunciso] se humilhar, e eles aceitarem o castigo do seu pecado". Um pouco antes do cativeiro babilônico, o profeta Jeremias (Jr 4.4) exortou seus compatriotas — todos os quais sem dúvida haviam sido fisicamente circuncidados quando crianças: "Purifiquem-se para o Senhor, sejam fiéis à aliança [ou 'circuncidem os seus corações'], homens de Judá e habitantes de Jerusalém! Se não fizerem isso, a minha ira se acenderá e queimará como fogo, por causa do mal que vocês fizeram". Então, a circuncisão envolvia a fidelidade a uma vida santa, uma vida de fé em Deus e obediência aos seus mandamentos.

3. A circuncisão representava para o crente do at o que o batismo significa para o cristão: aceitação ou adoção na família dos redimidos. Os benefícios da expiação futura de Cristo no Calvário pela graça de Deus foram distribuídos ao crente circuncidado antes do evento da cruz, assim como o mérito da expiação de Jesus e os benefícios salvíficos de sua ressurreição vitoriosa se aplicam ao crente do nt. Em ambas as dispensações, o sinal sacramental, ou selo, foi imposto ao crente (e também sobre as crianças, filhas de crentes, para quem as promessas da aliança eram garantidas pela fé). O mesmo Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo ordenou a circuncisão ao crente do at e o batismo com água da nova aliança — que é uma circuncisão espiritual, de acordo com o versículo 11.


Havia filisteus na Palestina na época de Abraão?

Gênesis 20 relata a viagem de Abraão a Gerar, onde ele apelou para a mentira sobre seu verdadeiro relacionamento com Sara, a fim de livrar-se do perigo de ser assassinado, caso viessem a saber que ela era sua esposa. O capítulo 21 registra o episódio em que ele assegura os direitos de propriedade do poço de Berseba. A seguir, lemos: "Firmado esse acordo em Berseba, Abimeleque e Ficol, comandante das suas tropas, voltaram para a terra dos filisteus" (v. 32). Em Gênesis 26.1, somos informados de que "Isaque foi para Gerar, onde Abimeleque era rei dos filisteus". (Podemos presumir com segurança que, tendo havido um intervalo de mais de sessenta anos entre os capítulos 21 e 26 [cf. 25.26], o Abimeleque mencionado em 26.1 era filho ou neto do outro cujo nome herdara, costume freqüente entre os nobres das dinastias egípcias e fenícias.)

Essas referências aos filisteus como existentes antes de 2050 a.C. (no caso de Abraão) têm sido consideradas impossíveis por muitos estudiosos. A Encyclopaedia Britannica (14a ed., s.v. "Filistia") declara categoricamente: "Em Gênesis 21.32, 34 e Êxodo 13.17; 15.14; 23.31, as referências à Filistia e aos filisteus são anacrônicas". A base dessa assertiva encontra-se na circunstância de que até o presente momento, pelo menos, a mais antiga referência a filisteus nos registros egípcios encontra-se nos relatos de Ramesés iii, com respeito à sua vitória sobre os "povos do mar" numa batalha naval travada no rio Nilo em 1190 a.C. Supõe-se que depois de os P-r-s-t (como os egípcios grafavam o nome deles) e seus aliados terem sido expulsos pelo faraó, retiraram-se para a região costeira da Palestina e ali se estabeleceram permanentemente como colônia militar. Entretanto, não se pode concluir, a partir desse mero fato, e que as referências mais antigas aos filisteus nos registros egípcios (que datam de mais ou menos 1190 a.C.) constituem prova objetiva de que jamais houve imigrantes filisteus de Creta, na Palestina, em tempo algum, antes dessa data; tal conclusão seria violação irresponsável da lógica.

As Escrituras Sagradas constituem o registro mais digno de confiança, mais que os documentos arqueológicos, visto que aquelas estão investidas da confiança divina do princípio ao fim e afirmam com toda a clareza que os filisteus moravam na Filistia pelo século xxi a.C. Afirmam também as Escrituras que as fortalezas filistinas que guardavam a rota do norte do Egito para a Palestina eram tão poderosas nos dias mosaicos (em 1140 a.C), que o caminho mais seguro



  • 85

para os israelitas em sua jornada para a Terra Prometida era o do sul (Êx 13.17). É óbvio que esse registro feito por Moisés foi composto séculos antes do de Ramsés iii, não havendo razão para supor-se que, quanto mais antigo for um documento, menos digno de confiança deve ser. (Até recentemente usava-se o argumento do silêncio por alguns críticos para desacreditar as referências em Gênesis 18 e 19 a Sodoma e Gomorra, que teriam sido meras lendas destituídas de historicidade. Agora, depois de terem sido descobertas as tabuinhas de Ebla, datadas do século xxiv a.C., que contêm informações sobre o relacionamento comercial de ambas as cidades com Ebla, aquele argumento contrário tornou-se absurdo. G. Pettinato ["bar Interviews Pettinato", p. 48], a respeito de referências a Si-da-mu e a I-ma-ar). De novo se comprovou que o argumento baseado no silêncio é enganoso. As cinco principais cidades dos filisteus, ou pelo menos aquelas que foram escavadas, demonstram igualmente a existência de uma ocupação que se estende até os tempos dos hicsos, e mesmo antes. O nível mais antigo descoberto em Asdode é com toda certeza, do século xvii a.C. (cf. H. F. Vos, Archaeology in Bible lands [Chicago, Moody, 1977], p. 146). Selos encontrados em Gaza trazem os nomes da décima segunda dinastia de reis do Egito, como Amenemhat iii (ibid., p.167). Daí não pode haver dúvida de que essa área foi ocupada por reinos poderosos antigos na era dos patriarcas. é possível que suas populações tenham sido pré-filistéias, mas não existe prova disso.

A costa sul da Palestina com toda certeza teria sido uma região favorável ao comércio e ao estabelecimento definitivo dos povos, no que diz respeito à população cretense. As Escrituras referem-se aos filisteus como pertencentes a vários grupos, como os caftoritas, os queretitas e os peletitas. As atividades comerciais de Creta Minoana teriam sido intensas; seus marinheiros teriam descoberto ainda antes do tempo de Abraão que o litoral filisteu era dotado de clima ameno, solo rico e dadivosas chuvas para as colheitas de cereais. Aparentemente emigraram para lá em levas sucessivas, mais ou menos da forma como os dinamarqueses emigravam para a costa leste da Inglaterra ao longo de um período de séculos até que "Danelaw" alargou-se a ponto de cobrir toda a região da fronteira escocesa até a própria Londres. As migrações das populações que saem de sua terra natal, atravessando mares, são um fenômeno freqüente por toda a história do mundo; por isso, não deveria causar surpresa a migração contínua dos povos cretenses e sua fixação ao longo de vários séculos, a partir da época anterior a Abraão até o período da expedição naval fracassada contra o Egito, no início do século xii a.c. Portanto, podemos concluir que não existem evidências verdadeiramente científicas para que se classifiquem as referências aos filisteus no Pentateuco como destituídas de veracidade histórica ou anacrônicas.


Como poderia Deus condenar os sacrifícios humanos em Levítico 18 e 20, mas ordená-los em Gênesis 22, ou pelo menos aceitá-los, como em Juízes 11?

É errado interpretar Gênesis 22.2 como uma ordem emanada de Deus para que Abraão sacrificasse seu filho Isaque num altar. Ao contrário, o Senhor na verdade impediu (mediante seu anjo) que o patriarca matasse seu filho: "Não toque no rapaz", disse o Anjo. "Não lhe faça nada. Agora sei que você teme a Deus, porque não me negou seu filho, o seu único filho." (v. 12). É verdade que o Senhor instruíra Abraão anteriormente para que oferecesse a Isaque em sacrifício (‘ōlāh), e o patriarca sem dúvida alguma entendeu ser aquela uma ordem para que matasse seu filho no altar, porém a questão mais importante era se o pai amorosíssimo estava disposto a apresentar seu unigênito (gerado por Sara) ao Senhor, como prova de sua entrega total. Mas o versículo 12 mostra que Iavé não tencionou jamais que Abraão realizasse um sacrifício humano, matando o próprio filho. Tratava-se apenas de um teste da fé do patriarca.

Quanto ao episódio da filha de Jefté, em Juizes 11, veja-se o artigo que trata dessa passagem. Há boas razões para crermos que tanto no caso dessa menina quanto no de Isaque (em ambos os


  • 86

casos o termo ‘ōlāh é empregado; cf. Jz 11.31) não houve afinal a morte de um ser humano em "oferta queimada". Em vez disso, a moça foi oferecida e devotada ao serviço do Senhor como virgem para servir no tabernáculo pelo resto de seus dias.

Levítico 18.21 define o sacrifício de crianças como profanação ao nome de Iavé, o Deus de Israel. Levítico 20.2 prescreve a pena de morte para todo pai que o praticar — de modo particular na adoração a Moloque, que exigia o sacrifício de crianças. Portanto, é indefensável pela lógica a presunção de que Deus esperaria ou aprovaria o sacrifício humano da parte de Abraão, de Jefté ou de quaisquer de seus servos, havendo uma proibição terminante e severa dessa prática na lei de Moisés.


Existem evidências arqueológicas de que os hititas habitavam o sul da Palestina nos tempos dos patriarcas?

Gênesis 23 declara que hititas controlavam a região de Hebrom nos tempos de Abraão. Cinco ou seis séculos mais tarde, os doze espias relataram a Moisés e ao povo hebreu (Nm 13.29) que havia assentamentos hititas na parte montanhosa da terra de Canaã. No entanto, visto que o principal centro do poder desse povo estava na Ásia Menor, sendo sua capital Hattusas (Boghazkoy) e visto que ele se deslocou pela primeira vez ao Oriente Próximo no reinado de Mursilis i (1620-1590 a.C.) e saqueou a grande metrópole de Babilônia, por volta de 1600, muitos estudiosos modernos têm questionado a presença de hititas na Palestina, nessa época (2050 a.C), quando Sara foi enterrada na caverna de Macpela. No entanto, evidências arqueológicas indicam também que os hititas subjugaram muitos dos reinados da Síria ou impuseram-lhes vassalagem; e nos dias de Ramessés ii, do Egito, houve uma declaração de intenções séria com Muwatallis (1306-1282 a.C), do novo reino hitita, e celebrou-se um notável pacto de não-agressão entre os dois superpoderes, cujo texto se preservou nas línguas egípcia e hitita. Esse tratado foi redigido de modo que o norte da Síria coube aos hititas, e o sul, mais a Palestina inteira, ficou sob a influência do Egito (cf. G. Steindorff e K. C. Seele, When Egypt ruled the East, Chicago, Univ. de Chicago, 1942, p. 251).

Descobertas arqueológicas mais recentes indicam que houve uma conquista maior na direção do sul, além da que esse tratado mostra, com atividades mais antigas da parte dos hititas, anteriores ao antigo e ao novo reino desse povo. Foram recuperadas umas tantas tabletas com escrita cuneiforme, de natureza comercial, em Kültepe (antiga Kanesh), na Capadócia, ali deixadas por primitivos comerciantes assírios, entre 1950 e 1850 a.C. (Vos, Archeology, p. 314). Mas até mesmo antes da chegada de imigrantes indo-europeus anatólios (que falavam nesili), havia uma raça primitiva dos descendentes de Hete, cuja origem não se situava no contexto indo-europeu. Eles foram conquistados por invasores em 2300-2000 a.C. que, subseqüentemente, adotaram o nome de "filhos de Hete" (ra) para si mesmos, a despeito das diferenças lingüísticas e culturais entre eles e seus antecessores.

O. R. Gurney, eminente especialista em estudos hititas, sugere que os filhos de Hete ter-se-iam espalhado por outras regiões além da Ásia Menor e estabelecido colônias em áreas longínquas, ao sul, na Palestina (Tenney, Zondervan pictorial encyclopedia, 3: 710). (Observe-se que "Hati" e "Hiti" eram grafados com as mesmas consoantes antes da era cristã; as vogais só eram conhecidas pela tradição oral.) Em 1936, E. Forrer propôs, com base num texto hitita do rei Mursilis ii (cerca de 1330 a.C), que um grupo desse povo havia migrado para o território egípcio (i.e., regiões da Síria e da Palestina sob controle do Egito) mais cedo, no segundo milênio (cf. Encyclopaedia Britannica, 14. ed., s.v."hititas"; Tenney, Zondervan pictorial encyclopedia, 3: 169-170).

A conquista militar ao sul da cordilheira de Tarso iniciou-se no século xvii a.C, sob Labarnas; Mursilis i conseguiu destruir Alepo, na Síria, chegando a invadir Marti e saquear os hurrianos na parte superior do Eufrates. Todavia, os "hititas" de Gênesis teriam tido pouca coisa em comum com esse povo indo-europeu,


  • 87

os conquistadores de língua nesili, mas é provável que tenham sua origem nos filhos de Hete, os quais historicamente os precederam na Ásia Menor. Pouco se pode concluir a partir dos nomes que se encontram em Gênesis 23, visto que Efrom e Zoar aparentemente são semíticos e cananeus — indicativos de uma assimilação fácil da cultura regional por esses colonos "hititas" de Hebrom.

Há referências posteriores aos hititas na história de Israel. Na invasão comandada por Josué, eles se opuseram às tropas israelitas (Js 9.1, 2; 11.3), mas provavelmente foram aniquilados pelos conquistadores hebreus. No entanto, nos dias de Davi, havia pelo menos alguns hititas, os quais forneciam soldados para o exército de Israel. Dentre eles estava Urias, marido de Bate-Seba, um crente piedoso que adorava a Iavé (2Sm 11.11). Salomão julgava que os neo-hititas tinham suficiente importância política para admitir em seu harém algumas de suas princesas (1Rs 11.1). Posteriormente, por volta de 840 a.C., Ben Hadade de Damasco conduziu suas tropas numa fuga precipitada do cerco de Samaria, ao afirmar: "O rei de Israel contratou os reis dos hititas [...] para nos atacarem" (2Rs 7.6).

No início do ano 1000 a.C. vários reis do norte da Síria (cujos territórios haviam feito parte do império hitita em séculos anteriores) tinham nomes como Sapalulme (Supiluliumas), Mutalu (Muwatalis), Lubarna (Labarnas) e Catuzili (Hatusiles). Daí se deduz que teriam prosseguido até certo ponto na tradição hitita, embora por essa altura já houvessem adquirido sua independência. Dentre as figuras de destaque "neo-hititas" da Síria estavam Tuwana, Tuna, Hupisna, Shinuktu e Ishtunda (Tenney, Zondervan pictorial encyclopedia, 3: 168). Esses nomes aparecem nos registros em escrita cuneiforme (em grande parte assíria) do tempo da monarquia hebraica dividida.
Quetura teria sido a segunda esposa de Abraão (Gn 25.1) ou meramente sua concubina (1Cr 1.32)?

Gênesis 25.1 declara que, após a morte de Sara, Abraão tomou para si uma esposa (’iššāh), cujo nome era Quetura (Qeṭûrāh). O versículo 2 dá-nos os nomes dos seis filhos que ela lhe deu em sua velhice. O patriarca perdeu Sara quando ela estava com 127 anos, tendo ele 137 (Gn 23.1; cf. 17.17). Não temos meios de saber quanto tempo depois da morte de sua primeira esposa Abraão casou-se com Quetura. Mas os seis filhos que ela lhe deu tornaram-se os ascendentes de vários povos, sendo ela honrada até o dia de hoje pelos árabes como ancestral deles.

Na verdade, não existe discrepância entre 1Crônicas 1.32 e o relato de Gênesis, ainda que o termo pîlegeš seja usado na primeira passagem, em vez de ’iššāh. Gênesis 25.6 também se refere a Quetura como sendo a pîlegeš de Abraão; é que depois de o versículo 5 ter deixado claro que Deus havia confirmado Isaque, filho de Sara, como o principal herdeiro, o versículo 6 registra: "Mas para os filhos de suas concubinas [O plural pîlagešîm presumivelmente inclui Hagar, assim como Quitura] deu presentes; e, ainda em vida, enviou-os para longe de Isaque, para a terra do oriente". É óbvio que o termo pîlegeš era usado para indicar que, embora Quetura fosse a única esposa legal de Abraão (era sua ’iššāh) no período crepuscular da vida dessa, esta mulher ocupou um lugar secundário em relação a Sara, visto que essa é que tinha sido escolhida por Deus para ser a mãe de Isaque e este fora o único herdeiro de Abraão segundo a promessa da aliança. Quanto à palavra pîlegeš, trata-se de um termo não-semita de origem desconhecida, que teria aparentemente o significado básico de "esposa secundária" (Ludwig Koehler e Walter Baumgartner, Lexicon in Veteris Testament libros, [Leiden: E.J. Brill, 1958], p. 761).
Que conceito de imortalidade está implícito na expressão "e foi reunido aos seus antepassados" (Gn 25.8) e "descansou com os seus antepassados" (1Rs 11.43)? Existiria aí uma conexão com a descrição de Jesus do falecido Lázaro no seio de Abraão (Lc 16.22)? [d]

A expressão "foi reunido aos seus antepassados" implica claramente algo mais que a mera proximidade de cadáveres em um cemitério ou



  • 88

ossário. Concebia-se a figura de Abraão reunido aos seus queridos que haviam morrido numa espécie de comunhão ou associação pessoal. Visto que todos os vizinhos de Israel acreditavam na existência da alma após a separação do corpo (por exemplo: sumérios, babilônios, egípcios e gregos homéricos), seria de surpreender se os hebreus fossem os únicos a descrer na vida consciente da alma após o falecimento. É altamente significativa a declaração de Davi, a esse respeito, acerca de seu filhinho cuja morte lhe fora anunciada (2Sm 12.23): "Eu irei até ela [a criança], mas ela não voltará para mim". Em outras palavras, ele sabia que a alma do filho não voltaria a seu corpinho para reatar sua existência entre os vivos. Mas o rei aguardaria com toda expectativa o momento de ir ao encontro da criança depois que ele próprio houvesse morrido.

"Ir a alguém" então não implica proximidade física apenas entre os mortos, num cemitério. Asafe, contemporâneo de Davi, afirmou no salmo 73.24 o seguinte: "Tu [ó Deus] me diriges com o teu conselho, e depois me receberás com honras" — que aparentemente diz respeito à presença gloriosa de Deus no céu. Há uma implicação semelhante em Salmos 49.15: "Mas Deus redimirá a minha vida da sepultura e me levará para si". Pensamos em Enoque, que depois de trezentos anos de comunhão com o Senhor foi tomado (o mesmo verbo — lāqaḥ — é usado em ambas as passagens), saindo desta vida, e não deixou seu corpo aqui.

A expressão "descansou com os seus antepassados" (1Rs 11.43), que ocorre com muita freqüência em relação ao falecimento dos reis, parece relacionar-se à situação do corpo do crente que espera a revivificação do túmulo — assim como o termo "dormir" é ocasionalmente utilizado no nt para referir-se à morte dos cristãos. Essa expressão contém em si a feliz expectativa de que o corpo desfeito um dia despertará do sono da morte. Isaías 26.19 declara: "Mas os teus mortos viverão; seus corpos ressuscitarão. Vocês, que voltaram ao pó, acordem e cantem de alegria. O teu orvalho é orvalho de luz; a terra dará à luz os seus mortos".

À luz da história de Lázaro e do homem rico (Lc 16.19-31), não há a menor dúvida de que

Jesus afirmava estarem as almas de ambos, a do perverso e a do justo, vivas do outro lado dessa vida e que um crente humilde como Lázaro se encontrava em um lugar de conforto e descanso abençoados, onde estava Abraão. Assim o Senhor confirmou a confiança dos santos do at que afirmavam: "Tu me farás conhecer a vereda da vida, a alegria plena da tua presença, eterno prazer à tua direita" (Sl 16.11), que se segue ao grande versículo da ressurreição: "Pois não me abandonarás no sepulcro, nem permitirás que o teu santo sofra decomposição" (v. 10).
Quantas esposas teve Esaú, e quem foram elas?

Gênesis 26.34 diz-nos que estando com quarenta anos de idade, Esaú casou-se com duas mulheres hititas — Judite, filha de Beeri, e Basemate, filha de Elom. Visto que Gênesis 36 não menciona o nome da primeira, podemos concluir que ela não lhe deu filhos; não se sabe se morreu jovem ou se era estéril. No entanto, era a esposa número um.

A esposa número dois era, conforme mencionado acima, Basemate. Mas Gênesis 36 refere-se a ela como sendo Ada, o que pode significar que esse seria outro nome da mesma mulher. (São numerosos no at os casos de homens e mulheres que têm dois nomes, tanto entre israelitas quanto no meio dos gentios.) Visto que mais tarde Esaú casou-se com a filha de seu tio Ismael, que tinha também o nome de Basemate (parece que esse era um nome comum na região edomita, naqueles dias; Salomão deu esse nome a uma de suas filhas [1Rs 4.15]), foi necessário que se chamasse a segunda esposa por outro nome, Ada. Ela deu a Esaú um filho, Elifaz (36.4).

A esposa número três era Oolibama, filha de Zibeão, um hivita. Ficamos sem saber quando eles se casaram e em que circunstâncias. Só sabemos que o pai dela era Aná, filho de Zibeão. [ Portanto, Zibeão era avô dela, em vez de pai — como poderíamos entender de Gênesis 26.34. O hebraico não tem uma palavra específica para avós, nem para netos; simplesmente usa as mesmas palavras para "pai" ou "mãe" (com o significado de



  • 89

avós) e "filho" ou "filha" (com o significado de netos).] É provável que Esaú tenha se casado com Oolibama antes de desposar Basemate, a filha de Ismael. Ele foi pai de três filhos: Jeús, Jalão e Corá — nessa ordem.

A esposa número quatro foi Basemate, filha de Ismael, que deu a Esaú apenas um filho, Reuel (Re‘û’ēl, provavelmentesepronunciava "Raguel") — o mesmo nome de Jetro, o sogro de Moisés [cf. Êx 2.18; Nm 10.29]). Devemos dizer que essa mulher, Basemate, também tinha outro nome: Maalate (cf. Gn 28.9). Mas, aparentemente, ela (ou Esaú) preferia Basemate (que tem conotação de fragrância, na forma masculina bōśem, ou "bálsamo"), pois é assim que ela é chamada sempre em Gênesis 36.

Essa é, pois, a lista completa das esposas de Esaú, e dos filhos que elas lhe deram. A ele também se dá em Gênesis 36 o nome de "pai de Edom" (v. 9, 43), mas, nesse caso, "pai de" é equivalente a "fundador de" — assim como Jacó foi o fundador da nação de Israel.

Talvez seja apropriado observar aqui que a recorrência de nomes favoritos, ou da moda, reflete-se por todo o capítulo 36 de Gênesis como uma das características da cultura horita-hivita, dentro da qual Esaú procurou esposas na região edomita. Há, pelo menos, cinco exemplos disso, inclusive as duas esposas chamadas Basemate que mencionamos.

O primeiro exemplo é Aná, filho de Zibeão, mencionado acima como o pai de Oolibama. O Texto massorético traz bat ("filha de"), tanto em 36.2 como em 36.14. Mas, aparentemente se trata de um erro do escriba, em que bat ficou no lugar de ben ("filho de"), porque todos os demais pais a que se faz referência nessas cadeias genealógicas sempre são do sexo masculino, em vez de feminino (talvez a abreviação do escriba b-n [ben] estivesse muito parecida com b-t [bat] de modo que causou essa confusão. É bem provável que o texto hebraico samaritano aqui traga b-n ("filho de"), em vez de b-t ("filha de"), e a lxx e a Peshita também seguem esse paradigma. Notamos também que no versículo 24 a um "filho" de Zibeão, filho de Seir (v. 20) foi dado o nome de Aná. Era comum um sobrinho receber o nome de seu tio (foi o que aconteceu a Aná em relação a Zibeão, o hivita), mas incomum um sobrinho ter o nome de sua "tia". Por isso concluímos que o Aná mais velho na verdade era um homem, e não uma mulher.

Segundo, o nome Zibeão, como notamos acima, originalmente fora dado ao avô de Oolibama, esposa de Esaú. Pelo que sabemos não havia uma aproximação sangüínea entre Zibeão, filho de Seir, o horita, e Zibeão, o hivita, mas apenas um parentesco distante, por afinidade, talvez, por uma ligação comum a Esaú, pelo casamento.

Terceiro, o nome Oolibama fora dado não somente à filha de Aná, que se casara com Esaú, mas também à filha de um Aná mais novo (o sobrinho, segundo Gn 36.25). Eram nomes que tendiam a ocorrer na mesma linhagem familiar.

Quarto, o nome Timna fora dado a uma filha de Seir, que se tornara concubina de Elifaz, filho de Esaú com Basemate-Ada (36.12, 22). Fora também o nome dado a um descendente de Esaú cuja paternidade não é conhecida, mas tal pessoa é tida como "príncipe" de Edom numa geração posterior (36.40). Portanto, nesse caso, deu-se a um descendente do sexo masculino o nome de uma mulher que lhe era aparentada, numa geração anterior. Outro exemplo notável disso vemos em um príncipe de Edom, chamado Oolibama (v. 41). Esse exemplo último é excepcionalmente notável porque o nome termina com o sufixo feminino -ah, que dificilmente se encontra em um nome de homem. (Os numerosos nomes masculinos que terminam em -iah — Isaías, Jeremias, Zacarias etc. — não contêm terminações femininas, mas constituem uma espécie de sufixo abreviado do nome de Iavé, o nome de Deus segundo a aliança.)

Outro par de nomes é quase idêntico: Disom e Disã (36.21). Os que terminam em -ān no aramaico, árabe ou acadiano em geral aparecem como -ôn (segundo a assim chamada mudança cananéia, que tendia a arredondar um a- longo mudando-o para ô, no hebraico e nos demais dialetos cananeus). Parece que Seir teria tido grande apreciação por esse padrão de nomes próprios, pois o usou para dar nome a dois filhos, havendo uma pequena diferença entre eles apenas na vogal final.


  • 90

Quando foi Raquel dada a Jacó — depois da semana de núpcias de Lia ou após quatorze anos, segundo o novo contrato celebrado entre Labão e Jacó?[d]

Ao ler-se Gênesis 29.27 parece claro que Raquel foi dada a Jacó sete ou oito dias depois de seu casamento com Lia: "Deixe passar esta semana de núpcias", disse Labão a Jacó, "e lhe daremos também a mais nova, em troca de mais sete anos de trabalho". É verdade que a palavra traduzida por "semana da noiva" (em algumas versões) literalmente significa apenas "semana" (ou simplesmente "sete"); no entanto, à parte Daniel 9.24-27, não parece que essa palavra signifique outra coisa senão "semana de sete dias" no at.

O decorrer da narrativa subseqüente sugere fortemente (em Gn 30) que as duas irmãs estavam empenhadas em uma competição entre si no número de filhos, e Lia ganhava tranqüilamente até que, por fim, depois de muitas tentativas, Raquel deu à luz José. Só após esse evento é que se faz menção do período final em que Jacó trabalhava a fim de adquirir seu rebanho, em vez de esposas (Gn 30.25-32; 31.38).
Como foi possível que Deus abençoasse a conduta de Jacó e a mentira de Raquel em Gênesis 31?

Na verdade, a evidência de que Deus abençoou a "mentira de Raquel" é improvável. Certamente, Raquel não viveu muito tempo depois desse episódio em Gileade, pois morreu ao dar à luz seu segundo filho, Benjamim (Gn 35.16-19). Isso significa que ela tivera mais uns poucos anos de vida depois de haver roubado (inutilmente, sem um propósito definido) os ídolos da casa de seu pai — os quais com certeza acabaram enterrados debaixo do carvalho, perto de Siquém, juntamente com os da própria casa de Jacó (v. 4).

No que concerne à "conduta de Jacó", Deus continuou a abençoá-lo, a despeito de seu procedimento ardiloso, porque o Senhor viu nele os traços de um verdadeiro homem de fé. Foi só pela misericórdia divina que Jacó pôde vencer a ira oriunda dos enganos que seu sogro Labão praticou contra ele, ao atirar-lhe a filha mais velha, em vez de dar-lhe Raquel, a quem ele amava, como esposa (provavelmente ao embebedá-lo de tal modo que Jacó foi para a cama sem conseguir distinguir uma mulher da outra). Depois de quatorze anos, Labão ainda conservava seu genro sem lhe pagar um centavo, mas celebrou um acordo sobre salários, mediante o qual esperava explorar Jacó e mantê-lo para sempre na pobreza. Ele só permaneceria com Labão durante os seis ou sete anos seguintes. Por isso, disse a seu sogro, no encontro em Gileade: "Foi assim nos vinte anos em que fiquei em sua casa. Trabalhei para você catorze anos em troca de suas duas filhas e seis anos por seus rebanhos, e dez vezes você alterou o meu salário. Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão, o Temor de Isaque, não estivesse comigo, certamente você me despediria de mãos vazias" (Gn 31.41, 42).

Jacó não estava simplesmente expressando seu ponto de vista. Gênesis 31.12 registra a declaração do anjo de Deus: "... tenho visto tudo o que Labão lhe fez". Torna-se claro quando lemos os versículos seguintes que o método usado por Jacó — galhos de duas cores, descascados — a fim de induzir o nascimento de ovelhas malhadas, foi um artifício planejado e utilizado por Deus a fim de prover justiça nas negociações dos dois homens. É verdade, pois, que nesse caso o espertalhão, Labão, saiu perdendo, pelas manobras de Jacó que, por fim, aprendeu a superar o sogro. Só assim poderia acumular riquezas e mudar-se para sua terra natal, a terra de seus pais, saindo de Padã-Arã para reinstalar-se na Palestina.

A queixa de Labão de que Jacó agira mal ao deixar de contar-lhe que planejava ir-se embora, negando-lhe a oportunidade de oferecer ao genro e às filhas um banquete de despedida, dificilmente expressava suas verdadeiras pretensões. Ele alegou em voz alta que sempre tivera a melhor das intenções para com todos e que lhes teria propiciado uma despedida condigna, real, mas nenhum indício existe de que Labão agiria dessa forma. Ao contrário, o filho de Isaque tinha boas razões para ter medo do sogro e manter sua partida em segredo, pelo que disse Jacó a Labão: "Tive medo, pois pensei que você tiraria suas filhas de mim à força." (Gn 31.31). Não há razão para que duvidemos de que seu sogro não teria feito isso mesmo, visto que os versículos 1


  • 91

e 2 deixam bem claro que Labão alimentava fortes suspeitas e hostilidades contra Jacó, por causa do incidente relacionado às ovelhas. Só por pura hipocrisia Labão declarou que teria feito uma grande festa de despedida.

Resumindo, é verdade que Jacó nunca notificou seu sogro a respeito de seus planos de partir; nesse sentido, ele enganou Labão, o sírio, ao deixar de dizer-lhe que estava prestes a fugir. No entanto, não aplicou uma mentira descarada ao seu sogro, segundo o registro das Escrituras Sagradas. E assim procedeu porque tinha certeza de que Labão jamais lhe permitiria partir voluntariamente. Pelo contrário, teria obrigado o genro a ficar, ainda que graves tensões e hostilidades tivessem surgido entre Jacó e os filhos de Labão, seus cunhados (Gn 31.1), tendo a atmosfera ficado tensa demais; o filho de Isaque não poderia ter permanecido ali em segurança e harmonia. Escamotear informações não é a mesma coisa que mentir. (É certo que Jesus não mentiu ao permanecer em silêncio diante de Herodes Antipas, em Jerusalém [Lc 23.9]. Nesse sentido, Cristo guardou para si mesmo informações que Herodes teria gostado de receber.) As circunstâncias incomuns ditaram a Jacó a sábia decisão de partir sem notificação prévia a seu sogro; de outra forma, ele jamais teria conseguido sair. Além disso, a promessa de Deus a Jacó em Gênesis 28.15 jamais se teria cumprido. Portanto, a resposta à pergunta "Como pôde Deus abençoar a conduta de Jacó?" é: "Porque o Senhor é justo e fiel a seus filhos, até mesmo aos que são menos que perfeitos".


Por que Gênesis 31.49 é chamado de "bênção" de Mispá? Houve realmente aí a intenção de uma bênção ou teria sido esse espisódio mera expressão de desconfiança entre Labão e Jacó, em que se envolveu um apelo a Deus no sentido de assegurar que ambas as partes observassem fielmente as cláusulas do acordo? [d]

Uma leitura cuidadosa de Gênesis 31.22-48 indica a existência do seguinte contexto para esse versículo de tanta notoriedade: "Que o Senhor nos vigie, a mim e a você, quando estivermos separados um do outro". Labão havia alcançado Jacó, depois de este haver fugido de Padã-Arã de forma surreptícia, e o sogro repreendeu o genro por sair sem dar-lhe a oportunidade de dizer adeus às filhas, Lia e Raquel. A seguir, Labão procede a uma busca cuidadosa, mas infrutífera, de seus terafins desaparecidos (os ídolos da família) que na verdade haviam sido roubados por Raquel. Jacó, desconhecendo o fato de sua esposa amada haver praticado o roubo, pôs-se a censurar o sogro com severidade, relembrando quantas vezes o velho havia tentado enganá-lo naqueles anos todos, mudando continuamente as condições de trabalho, de modo que sempre favorecessem a Labão.

O resultado da discussão foi um acordo entre os dois homens, que decidiram erigir um pilar de pedras como testemunho de um pacto de não-agressão. Labão lhe deu o nome aramaico "Jegar-Saaduta" ("pilar de pedras do testemunho"); e Jacó o batizou pelo equivalente em hebraico, "Galeed" ("Gileade"). Chamaram-no também "Mispá" (torre de vigia), dizendo: "Que os Senhor nos vigie [uma forma do verbo ṣāpāh, de que deriva o nome miṣpāh], a mim e a você, quando estivermos separados um do outro". O marco serviria de testemunho de que nenhum deles passaria além daquele limite com a intenção de fazer mal ao outro (Gn 31.52).
Visto que os dois filhos de José — Efraim e Manasses — foram relacionados entre as doze tribos de Israel, o verdadeiro número de tribos parece que era treze. Por que, então, a Bíblia continua a mencionar as tribos como doze, em vez de treze? Que tribo foi posta de lado nessa contagem? [d]

Jacó foi pai de doze filhos, não de treze. Mas em Gênesis 48.22 ele concedeu a José uma porção dobrada de sua herança, em vez de uma quantidade menor, como aos demais filhos. Isso significava que embora não houvesse uma tribo com o nome de seu filho querido,



  • 92

haveria duas relacionadas a José: a de Efraim e a de Manassés. Em outras palavras, a primeira seria a tribo a e Manassés a tribo b. Ambas de José.

A tribo de Levi seria sacerdotal e cuidaria da parte espiritual de todas as demais. Ela não deveria receber território tribal (os levitas seriam distribuídos pelas cidades e vilas espalhadas por toda a Canaã após a conquista). Isso significa que deveriam existir apenas onze territórios, em vez de treze, não fosse o fato de as duas tribos de José compensarem a subtração da de Levi do número agraciado com território. No entanto, o plano de Deus era que Israel se constituísse de doze tribos, em vez de onze apenas. A duplicada honra atribuída a José quando se concedeu a seus dois filhos uma herança dobrada, deveu-se aos serviços excepcionalmente valiosos que ele prestou ao preservar toda a sua família da morte, naquele tempo de fome, ao dar-lhe abrigo e refúgio na terra do Nilo.


De que forma as bênçãos e predições de Gênesis 49 e Deuteronômio 33 podem ser harmonizadas?

Gênesis 49 é uma revelação divina a Jacó, ao aproximar-se o fim de sua vida (cerca de 1860 a.C). Deuteronômio 33 foi composto por Moisés 455 anos mais tarde (cerca de 1405 a.C). Portanto, a profecia de Jacó reflete um período de anos mais longo que o de Moisés, no que concerne à futura carreira de Israel. Além disso, o cântico de louvor do legislador é composto em sua maior parte de orações em que se rogam bênçãos futuras, que expressavam seus desejos e esperanças, mas não são profecias. Esses fatos devem ser mantidos em mente quando comparamos as duas passagens, no que concerne às referências às doze tribos. Para maior facilidade, seguiremos a ordem de Gênesis 49 ao falar das várias tribos, em vez de seguir a relação que encontramos em Deuteronômio 33, o oráculo posterior.

Rúben

A tribo de Rúben não usufruiria de preeminência sobre as demais, a despeito do status especial de primogenitura (Gn 49.4). Moisés ora para que ela sobreviva e espera que seus descendentes sejam suficientemente numerosos para firmar-se em seu território (Dt 33.6). Na verdade, a tribo de Rúben foi uma das primeiras a serem subjugadas; aparentemente foi conquistada por Moabe no século ix, como esclarece a inscrição da pedra Mesha (anet, Pritchard, p. 320). As cidades de Medeba, Baal-neom, Quiriataim e Dibom pertenciam a essa tribo, segundo a divisão original feita por Josué.



Simeão

Essa tribo seria dispersada, junto com a de Levi, entre as demais (Gn 49.5-7). Não há menção de Simeão em Deuteronômio 33. Embora sua população fosse numerosa (59300 homens em armas) à época do Êxodo (Nm 1.23), Simeão não conseguiu manter sua força nem seu número após seu estabelecimento na região semi-árida que lhe coube, ao sul e sudoeste de Judá. Por isso, para fins práticos, essa tribo foi absorvida por Judá, que se tornou sua defensora e aliada antes mesmo do reinado de Saul. No entanto, sua identidade original não se perdeu de todo, visto que, até mesmo nos tempos de Davi, esse rei colocou Sefatias como chefe dos simeonitas (lCr 27.16).

Levi

Jacó uniu Levi e Simeão numa profecia comum de dispersão entre as tribos de Israel (Gn 49.5-7). Aconteceu, porém, que os levitas foram espalhados por todo o território, em 48 cidades, com o objetivo de ensinar os estatutos do Senhor às demais tribos. Foram dispersos não por causa de atrito ou de diminuição em número, mas porque era o plano do Senhor que houvesse o alimento espiritual em toda a comunidade israelita. Deuteronômio 33 exalta o seu status como tribo sacerdotal — exaltação que aparentemente Jacó não previu — ficando ela responsabilizada de ensinar a lei de Deus a todo o Israel e de apresentar diante do Senhor o incenso e as ofertas queimadas. (Não há contradição entre as duas profecias, mas apenas a valorização do fato de Levi não possuir terras como grato e elevado privilégio de uma tribo líder, responsável pela vida espiritual da nação.)



  • 93

Judá

Gênesis 49.8-12 retrata Judá como se fora um leão, ou um campeão dotado de realeza; seria uma tribo preparada para ocupar posição de destaque, de governo em toda a nação, a partir do tempo do primeiro rei vindo da Judéia (a saber, Davi), até a manifestação de Siló, o Messias. Deuteronômio 33 não contém predições concernentes ao futuro de Judá, mas apenas uma oração para que o Senhor a ajude a vencer seus adversários.

Zebulom

Gênesis 49.13 prediz a localização desta tribo: perto da praia. Isso possibilitaria uma passagem conveniente para as cargas dos navios que ancorassem nas docas, na costa do Mediterrâneo, para posterior transporte ao mar da Galiléia, até Damasco e adjacência. (O caso é que Zebulom não se localizava na faixa litorânea, mas o vale de Jezreel era cortado por uma estrada excelente para o transporte de mercadorias importadas, que precisavam ser levadas aos mais importantes mercados do interior.) A fronteira ao norte apontava para as grandes cidades comerciais da Fenícia, de que Sidom era na época o principal abastecedor. Quanto a Deuteronômio 33.18, nada mais definido diz a respeito dessa tribo, senão que se regozijará: "Alegre-se, Zebulom, em suas viagens".



Issacar

Gênesis 49.14, 15 prevê a época em que o povo trabalhador dessa tribo estaria sujeito à servidão estrangeira — ao lado do resto de Israel e Samaria —, o que veio a acontecer de fato em 732 a.C., quando Tiglate-Pileser iii anexou esse território ao Império Assírio, colocando-o sob seu governo (cf. 2Rs 15.29; Is 9.1). Deuteronômio 33.18, 19 contempla um estágio anterior, mais glorioso, do futuro de Issacar, quando Débora e Baraque — que eram nativos dessa tribo (Jz 5.15) — conclamariam os defensores de Israel a que se reunissem na montanha (i.e., no monte Tabor [Jz 4.12]), de onde atacariam os exércitos de Jabim e Sísera, pondo-os em fuga.) À semelhança de Zebulom, Issacar também estaria localizado na rota do vale de Jezreel, o que lhe proporcionava o privilégio de praticar o comércio com os navios ancorados no Mediterrâneo e aproveitar a prática da pesca no mar da Galiléia ("a abundância do mar"). É claro que as condições de prosperidade de Issacar antes do período das invasões assírias cederam lugar à servidão, após a capitulação da Samaria pelos assírios em 732. Dez anos mais tarde, esse território seria capturado e condenado à destruição. Israel seria exilado permanentemente no Oriente Médio (2Rs 17.6).

Gênesis 49.16-18 prevê Sansão (embora ele não seja mencionado pelo nome), como sendo um dos mais conhecidos "juízes" de Israel. (O nome "Dã" vem da raiz dîn que quer dizer "julgar"). Mas a seguir menciona-se a agressão perversa que Dã — ou parte da tribo — faria contra uma pessoa, atacando-a com a fúria de uma serpente venenosa. A referência é àquele episódio sórdido narrado em Juízes 18, em que uma força expedicionária de seiscentos danitas roubam Mica, o efraimita, tirando o seu ídolo de prata, tomando-lhe o seu sacerdote e levando-os presos para o norte. A seguir, os soldados caem sobre a cidade de Laís, sem que houvesse provocação ou aviso prévio, e assassinam todos os seus habitantes, antes de tomar a cidade para si, dando-lhe novo nome: Dã. Quanto a Deuteronômio 33.22, essa passagem descreve simplesmente Dã como um leão que salta — o que ficou ilustrado acima.



Gade

Gênesis 49.19 indica que Gade, estando localizada na Transjordânia, estaria sujeita a invasões e ataques, mas conseguiria reunir forças para expulsar o inimigo. Deuteronômio 33 explora mais o tema de sua resistência vitoriosa e apresenta o guerreiro gadita como sendo ousado como um leão e instrumento da justiça de Deus contra seus inimigos. O principal episódio destacado aqui deve referir-se ao cidadão obscuro e marginalizado que se transformou em aclamado patriota: Jefté. Foi ele quem conseguiu expulsar os amonitas e aplicar uma punição severa aos soldados efraimitas que não se preocuparam em ajudar a impedir aquela invasão. Depois, os descendentes de Efraim se sentiram tão ofendidos por não terem sido especialmente convocados para a luta contra os inimigos que fizeram o juramento de matar Jefté, mas acabaram trucidados nos vaus do Jordão (Jz 12.4-6).



  • 94

Aser

Gênesis 49.20 refere-se apenas à prosperidade futura dessa tribo do norte; seus membros usufruiriam de comida sofisticada, até mesmo de "manjares de rei". Deuteronômio 33.24, 25 explora mais um pouco o tema da prosperidade e refere-se à abundância de azeite e à beleza de seus portais e "trancas de suas portas", que seriam "de bronze", o tipo mais luxuoso. De fato, os aseritas suplantariam as demais tribos na riqueza material e seriam poupados da devastação ocasionada pela guerra. (Só em 732 a.C. é que viria o desastre, e Aser seria invadido e levado cativo pelo império assírio.)

Naftali

Gênesis 49.21 declara que Naftali seria como uma gazela solta e que proferiria "lindas palavras", isto é, seria eloqüente. Em outras palavras, essa tribo desfrutaria de uma vida relativamente livre e fácil, no cultivo da arte, da literatura e da oratória. Deuteronômio 33.23 coloca ênfase no seu enriquecimento como derivado da pesca e do comércio — em grande parte oriundos do mar da Galiléia e da rota terrestre que a liga à Fenícia, no norte. Naftali estenderia sua influência às regiões que lhe ficariam ao sul (i.e., Zebulom, Issacar e Manassés). É presumível que essa referência diga respeito a relacionamentos comerciais felizes com seus patrícios vizinhos.



José

É interessante que nas duas passagens as tribos de Efraim e Manassés (esta também se dividira em duas partes) seriam tratadas como se fossem uma, tanto nas predições de Jacó como no cântico de Moisés. Visto que a divisão em três porções tribais separadas ocorreu após a conquista, sob Josué, podemos concluir com razoável segurança que nenhum desses dois capítulos foi escrito após esse acontecimento (como julgam os estudiosos liberais, impensadamente). Devemos lembrar, contudo, que o estabelecimento desses dois filhos de José como chefes tribais originou-se na bênção do próprio Jacó, conforme registro de Gênesis 48. Ele havia tomado a decisão de dar a José uma porção dobrada de sua herança, em vez de a Rúben, seu primogênito (Gn 48.13-22).

Gênesis 49.22-26 prediz o futuro cheio de prosperidade e grande produtividade das tribos oriundas de José, quando enfrentassem com muito sucesso os inimigos, a fim de assegurar suas porções herdadas nas terras elevadas, cobertas de bosques, no centro da Palestina. Os "arqueiros" que o atacaram "com rancor" (ao atirar contra José) podem ser uma referência às tropas em carruagens dos cananeus do litoral e aos soldados aquartelados em Bete-Seã (Js 17.15-18). Juízes 1.22-25 fala-nos dos ataques infelizes que os efraimitas desencadearam contra Betel (cujas muralhas sem dúvida eram guarnecidas por muitos arqueiros). Outra possibilidade, que tem o apoio de alguns autores, é que os "arqueiros" seriam tropas egípcias invasoras que controlavam as rotas comerciais mais importantes e algumas cidades-fortalezas estrategicamente localizadas em várias épocas, no período dos juízes, de modo particular durante o reinado de Seti i (1320-1300 a.C.) e de Ramsés, o Grande (1299-1234). Na correspondência mais antiga de Tell el-Amarna (1400-1370), os reis cananeus continuamente rogaram aos faraós que lhes enviassem "arqueiros" (pi-da-ti) selecionados dentre os soldados do exército egípcio para fortificar suas defesas contra os "habiru" invasores (ou sa.ga), (cf. Pritchard, anet, p. 488). Qualquer que seja a explicação que adotarmos quanto a tais "arqueiros", estes receberiam tratamento adequado da parte dos efraimitas, com a ajuda do Senhor. Eles também seriam abençoados com muitas chuvas e abundantes colheitas ("bênçãos das profundezas [...] dos seios e do ventre" [v.25]). Efraim seria uma tribo que se distinguiria muito de seus irmãos; essa promessa se cumpriria na esplêndida liderança de Josué, filho de Num, o efraimita. (Esse versículo demonstra a impossibilidade de datar-se Gênesis 49 como sendo de qualquer período depois do


  • 95

reinado de Salomão, visto que nenhum autor judeu teria incluído um elogio tão elevado ao grande rival de Judá como o que temos nessa passagem.)

Quanto a Deuteronômio 33.13-17, Moisés prediz que a terra de José seria abençoada pelo Senhor com chuvas abundantes e grandes colheitas em um solo fértil. Das colinas ao redor, derramar-se-iam as torrentes de água para aguar os campos semeados, que dariam boas semeaduras. Mediante o favor especial de Deus, que falou com Moisés na sarça ardente, os guerreiros de Efraim e Manassés estariam capacitados a repelir e subjugar os inimigos. Assim vemos que existe um acordo formal entre os dois capítulos com respeito ao futuro dessas duas tribos.

Benjamim

Gênesis 49.27 refere-se de modo sucinto à grande bravura e coragem dessa tribo pequenina. Ela se parece com o "lobo" voraz "que devora" a presa e divide o despojo. (É provável que essas palavras sejam uma predição da capacidade militar de Benjamim em enfrentar todas as tropas das outras onze tribos, durante a guerra benjamita [Jz 20], até que finalmente foram atacados de surpresa perto de Gibeá, e a tribo foi quase aniquilada. Sobraram os seiscentos soldados que fugiram.) Mas, em Deuteronômio 33.12, Moisés roga a Deus que demonstre seu amor por Benjamim e o proteja dia e noite. Devemos, porém, entender que existe uma diferença substancial entre uma predição e uma oração. O legislador orou pedindo proteção sobre essa tribo; todavia, a súplica não garantia que o interesse amoroso de Deus e seu cuidado se estendessem indefinidamente pelo futuro, caso os benjamitas abandonassem suas obrigações relacionadas à aliança celebrada com o Senhor e permanecessem no pecado.

Enquanto Benjamim fosse obediente e fiel, é certo que contaria com o livramento de Deus — como no caso de Eúde, o benjamita que conseguiu matar Eglom, rei de Moabe. Ele usou de um artifício. Depois de se livrar da vigilância dos guardas moabitas, conseguiu chegar com segurança às terras montanhosas de Efraim, onde reuniu um exército de patriotas corajosos e esmagou as tropas moabitas, recuperando assim a independência de Israel (Jz 3.15-30). Entretanto, anos mais tarde, Benjamim cometeu a infame atrocidade de Gibeá, e toda a tribo decidiu proteger os sodomitas degenerados que haviam estuprado a concubina do levita, matando-a; foi quando necessária e compreensivelmente o favor de Deus se retirou dos benjamitas. Finalmente, as demais tribos de Israel conseguiram reparar esse crime hediondo, ainda que isso significasse ser praticamente toda a tribo de Benjamim eliminada (Jz 20), como mencionamos acima.

No entanto, restaurou-se o favor de Deus pelos benjamitas, depois que sua maldade foi totalmente reparada. Os seiscentos sobreviventes voltaram a ter comunhão com Israel e com o Senhor. E aumentaram tanto em número que à época de Saul (séc.xi a.C.) constituíam outra vez uma força considerável. Deus escolheu uma pessoa dessa pequenina tribo, tão maltratada, para ser o primeiro rei de Israel: Saul, filho de Quis (1Sm 9 e 10). Assim foi que o Senhor respondeu à oração de Moisés sem comprometer sua integridade e santidade divinas.

Concluímos este estudo comparativo com uma observação: não se encontram discrepâncias ou contradições reais entre a profecia de Jacó (Gn 4) e a oração de Moisés (Dt 33).
É Gênesis 49.10 na verdade uma predição de Cristo? Qual é o sentido real de Siló?

Gênesis 49.10 é o verso de uma estrofe das profecias de Jacó, a respeito de seus doze filhos. De Judá se fala nos versículos de 8 a 12. Essa tribo é apresentada em termos que dão idéia de elementos bélicos, quando lemos, por exemplo: "Sua mão estará sobre o pescoço dos seus inimigos" (v. 8), e "Judá é um leão novo [...] como um leão [...] quem tem coragem de acordá-lo?" (v. 9). O versículo 10 enfatiza o papel futuro de Judá como líder real sobre todas as demais tribos de Israel e, possivelmente, sobre nações estrangeiras também. Lemos o seguinte: "O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando de seus



  • 96

descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence, e a ele as nações obedecerão [‘ammîm]". Há grande ênfase na bravura militar e no status real dessa tribo estabelecida como a principal, havendo afirmação clara de que esse aspecto de realeza prossiga até o aparecimento da figura-chave a que se dá a denominação de Siló. O cetro e o bastão de legislador (meḥōqēq) estarão nas mãos dessa tribo até que venha o pacificador.

Surge, porém, a pergunta: Quem ou o que é Siló? O Targum aramaico traduz o versículo 10 assim: "Até que venha o Messias, a quem pertence o reino". Parece que isso identifica Siló como sendo um título do Messias, mas aponta também para uma interpretação desse nome que envolve a frase "quem a ele" ou "a quem". A lxx, que data do século iii a.C, traduz assim essa cláusula: "Até que venham as coisas que foram preparadas (apokeimena) para ele". Isso sugere que šîlōh era interpretado como se houvesse uma pontuação vocálica diferente, ie., šellô ("alguém a quem"). As traduções do grego, de Áquila e Simaco, do século ii d.C redundaram num texto mais sucinto: "[aquele] para quem se estocou", ou "se reservou", usando-se o mesmo verbo grego, mas na forma apokeitai. A Vulgata de Jerônimo fê-lo derivar (incorretamente) do verbo šālaḥ ("enviar") e traduziu: "o que está prestes a ser enviado" (qui mittendus est).

Entretanto, é lícito afirmar-se que a maior parte das autoridades modernas, formada tanto de conservadores quanto de liberais, tende a preferir esta tradução: "aquele a quem [pertence]", fazendo com que o regente vindouro seja o antecedente, e o "cetro", o objeto que lhe pertence. Em outras palavras, traduzem o trecho desta forma: "O cetro não sairá de Judá [...] até que venha aquele a quem ele pertence; e a ele todos os povos tributarão obediência".

Entretanto, se esse termo se refere à palavra mística aplicada ao Messias (algo como o nome de Jesurum, que se aplica à nação de Israel [Dt 32.15; algumas versões trazem: "o meu amado", em vez de Jesurum]) ou deve ser entendido como "quem a ele" (šellô), então é clara a alusão ao Messias e também, talvez, a Davi, o tipo ancestral de Cristo, o Rei. (Entretanto, relacionar tal promessa ao segundo rei de Israel estabelece a grande dificuldade de que o cetro na verdade não saiu de Judá, quando Davi chegou; ao contrário, o cetro só "começou" a ser brandido por essa tribo quando o filho de Jessé assumiu o trono e a coroa do reino de Israel.)

Não podemos encerrar esta discussão sem mencionar uma passagem paralela bastante intrigante — Ezequiel 21.27 (32 heb.), que aparentemente se refere a Gênesis 49.10: "Desgraça! Desgraça! Eu farei dela uma desgraça [i.e., a Jerusalém, prestes a ser atacada por Nabucodonosor em 588 a.C.]. Não será restaurada [ou "não acontecerá" (lō hāyāh)], enquanto não vier aquele a quem ela pertence por direito [lit., "aquele a quem o julgamento" (ašer lô hammišpāṭ)]; a ele eu a darei". Dificilmente a semelhança dessa redação seria acidental, ašer lô é o texto normal equivalente a šellô ("que a ele"). Na declaração de Ezequiel, encontramos hammišpat ("o direito de julgamento"), substituindo o conceito afim de "cetro" (sete) em Gênesis 49.10. Portanto, se Ezequiel 21.27 tenciona edificar sobre o alicerce de Gênesis 49.10 e revelar sua aplicação última ao Messias — como é certo que parece aplicar-se em Ezequiel — que descenderá da casa real de Judá, estaremos pisando em solo firme ao interpretar Gênesis 49.10 como sendo uma referência ao Filho divino, Jesus Cristo, o descendente messiânico de Davi.


  • 97



1   ...   10   11   12   13   14   15   16   17   ...   62


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal