Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Êxodo



Como poderia Deus abençoar Sifrá e Puá por mentirem ao faraó?

Êxodo 1.16 contém as instruções do rei egípcio às parteiras hebréias com respeito ao assassinato dos meninos recém-nascidos: "Quando vocês ajudarem as hebréias a dar à luz, verifiquem se é menino. Se for, matem-no; se for menina, deixem-na viver". Portanto, temos aqui uma ordem para que cometessem infanticídio (e genocídio). Prossegue a narrativa, e informando-nos que, a fim de evitar a perpetração de um ato tão hediondo, as parteiras usaram uma estratégia, a da demora. Em outras palavras, demoravam a atender ao chamado de uma hebréia em trabalho de parto, de modo que o bebê nascia antes de elas chegarem, estando já colocado no berço.

E assim explicaram as parteiras ao Faraó: "As mulheres hebréias [...] são cheias de vigor e dão à luz antes que cheguem as parteiras" (Êx 1.19). Provavelmente era verdade que elas chegavam tarde demais. Apenas não divulgavam que a demora delas era proposital. A polícia egípcia tê-las-ia prendido facilmente se fossem vigiadas durante as 24 horas do dia, pelo que tais parteiras correram o grave risco de serem apanhadas, julgadas e executadas sumariamente. Entretanto, ao enfrentar a decisão de perpretar infanticídio contra seu povo e enganar o rei, aplicando-lhe uma meia-verdade com o objetivo de evitar uma grande calamidade, escolheram acertadamente o mal menor a fim de evitar o maior. Deus não honrou e aprovou essas bravas mulheres pelo fato de haverem retido parte da verdade; antes, o Senhor as abençoou pelo fato de estarem prontas a incorrer no risco de morrer a fim de salvar a vida de bebês inocentes.

No que diz respeito a essa questão específica, às vezes alguém faz a pergunta: "Como poderiam duas parteiras servir a uma comunidade de dois milhões de pessoas durante uma época de alto índice de natalidade entre os hebreus?". É claro que elas não teriam atendido a tantas mães hebréias sem dispor de numerosas assistentes. Mas era prática normal entre os egípcios estabelecer uma cadeia burocrática de comando ligada a quase todas as agências ou atividades governamentais. Cada departamento tinha seu supervisor responsável perante um chefe de governo provincial ou, talvez, nacional. No caso em apreço, o rei teria nomeado duas profissionais experientes, maduras em seu ofício, capazes de gerenciar um serviço de obstetrícia regular sob a supervisão governamental. Não podemos dizer quantas assistentes Sifrá e Puá teriam, mas é bem provável que houvessem instruído suas assistentes com todo cuidado a respeito da técnica de chegar atrasadas à chamada do parto, a fim de preservarem a vida dos bebês. Assim foi que o Faraó só dispunha de duas supervisoras espertas a quem investigava, e desejava suplantá-las em espírito ardiloso. Por isso, Deus lhes concedeu a bênção de serem bem-sucedidas, como recompensa pela coragem em arriscar a própria existência para salvar a vida dos bebês.


Como poderia um Deus bondoso e justo instruir os hebreus no sentido de despojar os egípcios (Êx 3.22)?

Não lhes era desonroso tomar emprestado jóias que não pretendiam devolver jamais?

Em primeiro lugar, há uma questão de tradução, que precisa ser esclarecida. A nvi e a Versão atualizada traduz o primeiro trecho da seguinte


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forma: "Todas as israelitas pedirão às suas vizinhas e às mulheres que estiverem hospedando em casa, objetos de prata e de ouro, e roupas". O verbo que a nvi traduziu por "pedirão" no hebraico é šā’al, que é o verbo comum para "pedir, solicitar, requerer, inquirir". (F. Brown, S. R. Driver & C. A. Briggs [Hebrew and English lexicon of the Old Testament, Oxford, Clarendon, 1968, p. 981] citam três exemplos em que o sentido é o de "tomar emprestado": Êxodo 22.14 [13heb.], 2Reis 4.3 e 6.5. Nessas passagens, o contexto deixa bem claro que os artigos pedidos seriam para uso temporário, da parte da pessoa que os solicitasse e os mantivessem sob custódia, devendo ser devolvidos posteriormente a seus proprietários.) No caso de Êxodo 3.22; 11.2; 12.35 (em que šā’al também é empregado), não está claro que estava implícito o uso temporário daqueles artigos. Portanto, o sentido de "pedir" é o que se deve atribuir a 3.22. Pediram esses artigos como "presentes" (indenizações?), fazendo preparativos para sair do Egito e jamais voltar. Os egípcios estavam bem cientes dessas intenções e não alimentavam ilusões a respeito de reaver suas jóias e vestimentas.

Mas, por que os egípcios estariam tão dispostos a doar seus tesouros aos que até então haviam sido seus escravos? O contexto deixa bem claro que eles estavam amendrontados, imaginando que o desastre da décima praga pudesse repetir-se e que eles viessem a perder mais filhos e gado, conforme afirma Êxodo 12.33: "Os egípcios pressionavam o povo para que se apressasse em sair do país, dizendo: 'Todos nós morreremos!'". E prossegue a narrativa, nos versículos 35 e 36: "Os israelitas obedeceram à ordem de Moisés e pediram aos egípcios objetos de prata e de ouro, bem como roupas. O Senhor concedeu ao povo uma disposição favorável da parte dos egípcios, de modo que lhes davam o que pediam; assim eles despojaram os egípcios".

O verbo hebraico equivalente a "despojaram" no versículo 36 é wayyenaṣṣe, oriundo de nasal, cuja raiz significa "despir, despojar, livrar alguém do [perigo] ". Este não é o termo que se utiliza comumente referindo-se a despojar o inimigo depois de esse ter sido morto no campo de batalha; nesse caso, usar-se ia o verbo šālal. Mas está bem claro que temos aqui niṣṣēl em sentido figurado, visto que a narrativa declara que os israelitas apenas fizeram um pedido verbal: que os egípcios lhes dessem um presente de despedida; e receberam o que haviam solicitado. É certo que havia um fator poderosíssimo, o medo, motivando-os a serem generosos ao entregar seus tesouros. Então, é certo que em algum sentido eles foram despojados pelos israelitas. Os egípcios tremiam de pavor em face do extraordinário poder do Deus de Israel e do golpe de seu anjo destruidor, que provocara tanta desgraça na noite da Páscoa.

Quanto à questão moral sobre se tal ato de espoliação (se é que podemos chamar de espoliação a entrega voluntária de propriedades) teria sido eticamente justificável ou compatível com a bondade e justiça de Deus, devemos manter em mente que durante muitas gerações, alguns séculos, a população israelita no Egito havia sido sujeita à escravidão opressiva, verdadeiramente brutal. Israel sofrera infanticídio e genocídio (seus recém-nascidos do sexo masculino eram sistematicamente mortos), tinham sido obrigados a trabalhar sem ordenado, na construção das cidades do tesouro do faraó e demais edifícios públicos. Em certo sentido, aquelas jóias de prata e ouro e a vestimentas eram devidas aos israelitas; os egípcios ofereceram apenas uma pequena compensação por toda a angústia e trabalho a que haviam submetido os hebreus. Desse ponto de vista, não pode haver dúvida quanto à legitimidade do ato israelita; por isso, não se pode levantar uma questão moral legítima sobre essa transação.


Por que o Senhor foi ao encontro de Moisés, em Êxodo 4.24, e procurou matá-lo? Qual a ligação entre as minúcias dos versículos 25 e 26 e o assunto do versículo 24? [d]

Em Êxodo 4.24, o pronome "o" junto ao verbo encontrar, "encontrou-o" (ra), refere-se a Moisés. Por que lhe teria o Senhor infligido uma doença quase fatal? É muito provável que isso tinha acontecido por causa da negligência de Moisés quanto ao sinal da aliança divina, representado pela circuncisão. Gérson, seu filho, não havia sido circuncidado. Sou levado a essa conclusão pelo fato de o legislador ser incapaz de salvar-se da morte que o ameaçava, enquanto Zípora não realizou o rito cerimonial em seu filho (v. 25). Torna-se óbvio que a esposa só



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cumpriu o ritual por obrigação, tão grande era a aversão nela despertada. Parece que ela o deixou, depois de repreendê-lo por ser para ela "marido de sangue". É possível que a prática entre os midianitas fosse esperar a puberdade para executar a circuncisão nos rapazes, em vez de praticá-la em bebês recém-nascidos. No entanto, a prática abraâmica era circuncidá-los quando estavam com oito dias de vida (Gn 17.12). Deixar de praticar a circuncisão equivalia a fazer com que o menino fosse "eliminado do meio do seu povo".

Visto que Moisés havia sido nomeado líder do povo, era de seu estrito dever servir de exemplo perante Israel e demonstrar fidelidade nas obrigações ligadas à aliança herdada por Abraão. A única forma pela qual Moisés poderia ser forçado a dar esse passo decisivo — contra os desejos de sua esposa — seria a ameaça de morte. E foi isso mesmo o que Deus fez.


Como poderiam os israelitas ter peregrinado durante 430 anos no Egito, se houve apenas três gerações entre Levi e Moisés (Êx 6.16-20)?

Em harmonia com quase todas as genealogias desse tipo registradas no Pentateuco (cf. Nm 26.28-34), Êxodo 6 adota a prática geral de relacionar os parentes da pessoa pela tribo e grupo familiar. Como D. N. Freedman salienta (The Bible and the ancient Near East, org. por G. E. Wright [London, Routledge and Kegan Paul, 1961, p. 206-7]), esse tipo de listagem era comum no Oriente Próximo antigo. Nas genealogias egípcias, verificamos que vários elos são omitidos entre Ramessés ii da xix e os reis da xxi dinastia, na "Genealogia de Berlim", publicada por Borchardt (in Kitchen, Ancient Orient, p.54-5).

É óbvio que, se na época de Moisés (segundo Nm 3.27, 28), o total combinado de anramitas, izaritas, hebronitas e uzielitas era 8600 pessoas — sendo todos descendentes de Coate — o anramita de quem se originou talvez uma quarta parte desses 8600 "filhos" (igual a 2150) não seria o pai de Moisés e Arão. De maneira alguma podia haver mais de dois mil irmãos nessa família! É possível que o pai de Moisés tenha sido um homem chamado Anrão, o que produziu tantos descendentes.

Felizmente, dispomos em 1Crônicas de genealogias mais completas, que indicam terem existido nove ou dez gerações entre os filhos de Jacó e a época de Moisés. Por exemplo: 1) 1Crônicas 7.25 diz-nos ter havido dez elos entre Efraim e Josué: Berias, Refa, Resefe, Telá, Taã, Ladã, Amiúde, Elisama, Num e Josué; 2) Bezalel, que desenhou o tabernáculo (Êx 31.2-11), pertencia à sétima geração de Jacó (cf. 1Cr 2.1, 4, 5, 9, 18-20); 3) Elisama, mencionado em Números 1.10, estava na nona geração de Jacó (1Cr 7.22-27).

Nove ou dez gerações entre Jacó e Moisés harmonizam-se bem com o cativeiro de 430 anos dos israelitas no Egito (i.e., entre 1875 e 1445 a.C). Isso dá uma média de 43 anos por geração. (A teoria esposada pelos que seguem o texto de Êxodo 12.40 conforme se acha na lxx concede apenas 215 anos para o cativeiro israelita no Egito, dando uma média de 21 anos por geração. No caso de Bezalel e Josué, isso seria incrível. Da mesma forma, é o aumento do grupo de emigrantes chefiado por Jacó de 70 ou 75 pessoas para mais de dois milhões no tempo de Moisés.)
Êxodo 6.26, 27 e 16.33-36 não indicam que o biógrafo de Moisés seria outra pessoa que não ele próprio?

Êxodo 6.14-27 é um longo parágrafo que registra os nomes dos três primeiros filhos dos doze que Jacó teve, suas primeiras gerações e descendentes, os quais se tornaram os chefes das várias subtribos pelas quais se reconheceu a descendência geneológica na época do Êxodo. Mas a maior atenção é dedicada à tribo sacerdotal de Levi e à linhagem de Arão e Moisés. A pesquisa conclui com as seguintes palavras: "Foi a este Arão e a este Moisés que o Senhor disse: 'Tirem os israelitas do Egito, organizados segundo as suas divisões'. Foram eles, Moisés e Arão, que falaram ao faraó, rei do Egito, a fim de tirarem os israelitas do Egito" (v. 26, 27). Esses comentários certamente soam como os de um historiador, como memórias pessoais de Moisés; pelo menos é a suposição que faz a maioria dos críticos da Bíblia de persuasão subevangélica ou liberal. Entretanto, para os especialistas no campo da



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literatura comparada, o uso que um autor faz da terceira pessoa do singular, ao escrever suas próprias ações é questão de convenção literária estabelecida, que depende do gênero envolvido. Em certas modalidades, como na autobiografia, é costume a pessoa referir-se a si mesma na primeira pessoa do singular. Todavia, no caso de um registro histórico de maior destaque, era mais usual o autor referir-se a todos os demais em cena na terceira pessoa, em vez de na primeira, ainda que escrevesse a respeito de um ato em que estivesse envolvido pessoalmente.

Os numerosos registros históricos concernentes a vários reis do Egito e suas façanhas normalmente eram redigidos na terceira pessoa, exceto nos casos em que se mencionavam diretamente as palavras do próprio faraó. O historiador grego Xenofonte, em sua obra Anabasis, de modo característico refere-se a si mesmo na terceira pessoa; semelhantemente age Júlio César em suas obras Guerras gálicas e Guerras civis. No entanto, ninguém questiona a autenticidade das obras desses dois autores.

Além do mais, seria estranho ao leitor hebreu (bem como a nós, leitores modernos) se o autor subitamente colocasse a si mesmo dentro do texto em uma redação mais ou menos assim: "Estes forma os chefes das famílias dos levitas, conforme seus clãs. Fomos nós, na verdade, Moisés e Arão, a quem o Senhor dissera: 'Tirem os israelitas do Egito...'. 'Nós falamos ao faraó rei do Egito, a fim de tirarmos os israelitas do Egito'." (Êx 6.25, 26). Nada poderia soar mais estranho que essa súbita intrusão de formas da primeira pessoa no meio de um relato tão objetivo. Daí deduzir-se que a confirmação às convenções usuais que governam o gênero da narrativa histórica não dá evidências contra a autoria mosaica desses versículos.

Quanto a Êxodo 16.33, 34, aplica-se o mesmo princípio: "Então Moisés disse a Arão: 'Ponha numa vasilha a medida de um jarro de maná, e coloque-a diante do Senhor, para que seja conservado para as futuras gerações'. Em obediência ao que o Senhor tinha ordenado a Moisés, Arão colocou o maná junto às tábuas da aliança, para ali ser guardado". Qualquer historiador, de modo especial um que não fosse monarca do Egito ou da Mesopotâmia, cheio de jactância, registraria atos em que estivesse pessoalmente envolvido usando um estilo objetivo semelhante a esse. Moisés estava escrevendo um documento oficial para benefício de toda a nação. Ele não tinha a intenção de converter seu registro num memorial de auto-exaltação.


Por que os mágicos egípcios demonstraram poderes (de acordo com Êx 8.7) de modo que podiam realizar milagres parecidos com os de Moisés e Arão? (Cf. tb. Êx 7.11, 22.) [d]

As Escrituras nos dizem que Satanás tem poderes para realizar "sinais e [...] maravilhas enganadoras" (2Ts 2.9), mediante seus agentes perversos, tendo em vista o propósito expresso de desorientar a humanidade. Cristo nos advertiu: "... aparecerão falsos cristos e falsos profetas que realizarão grandes sinais e maravilhas para, se possível, enganar até os eleitos" (Mt 24.24). Por Êxodo 7 e 8, ficamos sabendo que o Diabo demonstrou esse poder e empregou o mesmo estratagema até mesmo nos dias de Moisés. Satanás continuará a agir dessa maneira até o final da Grande Tribulação (Ap 13.13), quando o seu agente, o falso profeta, realizará "grandes sinais, chegando a fazer descer fogo do céu à vista à terra, dos homens".

Portanto, falsos milagres são a marca registrada de Satanás. No entanto, é preciso que se enfatize que os realizados por ele baseiam-se em grande parte na mentira e na ilusão e envolvem, em geral, algum tipo de subterfúgio malicioso. Os mágicos do faraó apresentaram façanhas habilidosas não muito diferentes das dos profissionais de nossos dias, que sabem tirar coelhos de cartolas e pombos de chapéus. As varas que se transformaram em serpentes quando atiradas ao solo poderiam ter sido previamente encantadas para ficarem rígidas, parecidas com cajados, mas, quando foram atiradas ao chão, moveram-se como cobras. As rãs que fizeram surgir aparentemente eram em número reduzido, em comparação com a nuvem gigantesca produzida pela vara de Moisés, teriam sido escondidas de início, à semelhança dos coelhos no chapéu de um


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mágico. Mas, quando eles falharam, não conseguindo apresentar os piolhos de ferrão aguçado que a vara de Arão produziu, tiveram de admitir perante o faraó que a arte a qual praticavam era meramente humana (ou meramente satânica, quando muito). É que o novo milagre só poderia ser explicado pelo "dedo de Deus" (Êx 8.19).

O mais importante é que o poder daqueles mágicos era totalmente inadequado para imitar o sangue e as rãs produzidos pelos líderes hebreus. Tampouco puderam eles expulsar esses elementos perturbadores da terra do Egito. Por isso, as manobras falsas, enganadoras, foram totalmente inúteis e impotentes diante dos verdadeiros milagres realizados por Deus nas dez pragas.



Por que Deus matou todos os primogênitos do Egito, uma vez que o povo egípcio não tinha controle algum sobre as decisões do faraó quanto a deixar que israelitas abandonassem o Egito? (Êx 12.29, 30) [d]

Não há forma de negociar com as nações senão em base coletiva. O destino de cada cidadão de qualquer país está ligado ao governo, que determina a política nacional, seja uma democracia, uma ditadura, seja uma monarquia. Um governo sábio e bem-sucedido passa seus benefícios a todos os cidadãos, como quando suas forças armadas derrotam um exército invasor nos campos de batalha.

Um governo tolo ou perverso, como o do rei Acaz nos dias do profeta Isaías, traz o desastre e a tristeza sobre os súditos, a despeito dos méritos pessoais. Foi o que aconteceu ao Egito nos dias de Moisés. As conseqüências da decisão tomada pelo faraó e sua corte responsabilizaram todo o povo egípcio. Ao longo da história, desde o momento em que os governos foram estabelecidos pela primeira vez, essa realidade tem sido demonstrada.

Assim foi que, quando o rei do Egito decidiu quebrar sua promessa solene, por meio de atos reiterados de perjúrio, e lançar um desafio ao Todo-Poderoso Senhor do Universo, nenhum outro resultado poderia ter sido esperado senão a desgraça horrenda a respeito da qual Moisés o havia admoestado. Segundo os termos do julgamento divino, todos os primogênitos masculinos de todo o Egito, fosse um ser humano, fosse um animal, perderia a vida, assim como todas as nove pragas anteriores haviam de alguma forma afetado a vida da população do vale do Nilo.

Seria concebível que um golpe de Estado pudesse derrubar o faraó do trono a tempo de desviar a catástrofe que se aproximava, mas seus súditos estavam satisfeitos em deixar a decisão final nas mãos de representante legal. A perda de uma só vida na família real — ou até mesmo nas casas dos aristocratas — dificilmente teria sido suficiente para obrigar o Egito a conceder a liberdade a toda a nação de Israel e todo o seu gado. Só uma calamidade abrangente, recaindo sobre todo o povo, serviria para induzir as egípcias a libertar o povo de Deus do cativeiro que sofria naquele país.

De que maneira as várias pragas deixaram ilesos os israelitas quando recaíram sobre todos os egípcios, se aqueles estavam espalhados por toda a terra do Egito, como afirma Êxodo 8.16 e 9.22?

No que concerne à Bíblia, ou qualquer outro documento literário, não temos a liberdade de tomar certos termos, como "todo" e seus cognatos, num sentido absoluto se o contexto claramente indica uma nítida restrição. Em Êxodo 9.6, por exemplo, lemos: "No dia seguinte, o Senhor o fez. Todos os rebanhos dos egípcios morreram, mas nenhum rebanho dos israelitas morreu". A exceção refere-se de modo expresso aos hebreus que moravam em Gósen, que aparentemente era habitada apenas pelos israelitas que tinham servos (dos quais talvez nem todos fossem israelitas; cf. 12.38).

Não se faz exceção explícita aos hebreus no que concerne às primeiras três pragas, a do sangue (7.17-25), a das rãs (8.1 -14) e a dos piolhos (8.16-19); no entanto, não há menção de que tais castigos tivessem afligido os israelitas também. Mas,


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pelo menos no tocante às duas primeiras, lemos a declaração de que os egípcios sofreram seus efeitos (7.21; 8.4), sem que haja referência aos hebreus. Com respeito à quarta praga, a das moscas, traça-se uma linha bem distinta em 8.21: "Enviarei enxames de moscas para atacar você, os seus conselheiros, o seu povo e as suas casas. As casas dos egípcios e o chão em que pisam se encherão de moscas". De modo semelhante, no caso da pestilência: "Mas o Senhor fará distinção entre os rebanhos de Israel e os do Egito. Nenhum animal dos israelitas morrerá".

Quanto à sexta praga, está registrado claramente que os tumores afligiram os mágicos e todos os egípcios, mas não há menção dos israelitas (9.11). Quanto à sétima, a da chuva de pedras e fogo, está expressamente escrito que ela "Em todo o Egito o granizo atingiu tudo o que havia nos campos, tanto homens como animais; destruiu toda a vegetação, além de quebrar todas as árvores. Somente na terra de Gósen [...] não caiu granizo" (v. 25, 26). De modo semelhante, durante a nona praga, a das trevas, "houve densas trevas em todo o Egito por três dias [...] Todavia, todos os israelitas tinham luz nos locais em que habitavam" (10.22, 23). A respeito da décima, é indiscutível e inquestionável que a morte dos primogênitos ocorreu em todas as casas, exceto nas de Gósen, nas que apresentavam o sangue do cordeiro pascal nas vergas e ombreiras das portas (12.29, 30).

Portanto, não existe confusão nem contradição em toda a narrativa. As pragas que afligiram o Egito não caíram sobre Gósen, lugar da habitação dos israelitas. Elas feriram "todos" os egípcios, em "toda" a sua terra, mas não atingiram os filhos de Israel nem o território onde residiam.

Existem evidências de que algum filho do faraó teria morrido por causa do êxodo israelita?

Êxodo 12.29 registra esse episódio com os seguintes termos: "Então, à meia-noite, o Senhor matou todos os primogênitos do Egito, desde o filho mais velho do faraó, herdeiro do trono, até o filho mais velho do prisioneiro que estava no calabouço, e também todas as primeiras crias do gado". Levanta-se, todavia, a pergunta quanto a se existiria alguma evidência na arqueologia egípcia que pudesse confirmar uma perda tão trágica, a do príncipe, o que haveria de ser rei e teria morrido num período que correspondesse ao do êxodo bíblico? A resposta a essa pergunta é afirmativa, visto estar implícita no Sonho, na Pedra de Tutmés iv.

A fim de estabelecer os limites do tempo, devemos lembrar que o Êxodo, de acordo com 1Reis 6.1, ocorreu cerca de 480 anos antes do lançamento da pedra fundamental do templo de Salomão, em Jerusalém. Visto que o seu reinado iniciou-se em 970 a.C. e que ele começou a edificar o santuário quatro anos depois (em 966), o Êxodo deve ter ocorrido em 1446 ou 1445 a.C. Segundo a cronologia mais aceita a respeito da xvii dinastia, Tutmés iii (que provavelmente era o "faraó da opressão aos israelitas", do qual Moisés fugira após haver assassinado um egípcio [Êx 2.11 -15 ]) morrera em 1447 a.C. Seu filho Amenotepe ii, que subiu ao trono, é (se nossa cronologia estiver exata) o faraó do Êxodo. Ele reinou até 1421 a.c, quando foi sucedido pelo seu filho Tutmés iv (1421-1410 a.C).

Mas foi descoberta uma inscrição em pedra num relicário relacionado à grande esfinge em Gizé, em que se registrou o sonho no qual apareceu o deus Harmaquis, que solenemente prometeu o trono a Tutmés quando este era apenas um príncipe da família, ainda no reinado de seu pai: "Eu sou teu pai [i.e., patrono divino, não pai biológico], Harmaquis-Quepri-Re-Atum. Eu te darei meu reino na terra [i.e., o Egito] à frente de todos os viventes" (Pritchard, anet, p. 449). Essa elevação ao trono real, de acordo com as instruções do deus egípcio, deveria ser seguida da piedosa remoção de toda a areia do deserto que fora soprada contra a figura que representava a esfinge deitada. (A areia acumulada impedia o acesso à capela edificada entre as gigantescas patas da esfinge às pessoas que ali quisessem entrar para a adoração).

Existe a possibilidade de que esse oráculo, que Tutmés mais tarde registraria na inscrição


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votiva, teria sido apenas a certeza de que ele próprio seria preservado da morte até que seu pai morresse, o que o faria ascender como príncipe digno da coroa do Egito. Visto que essa seria a seqüência normal dos eventos, que dificilmente exigiria o favor incomum dos deuses, é muito provável que Tutmés não fosse o príncipe herdeiro da coroa, à época desse sonho. Deveria haver um irmão mais velho e, portanto, com maior possibilidade ao trono e mais próximo na linhagem com direito à realeza. Portanto, que providência foi tomada que Tutmés se tornasse o sucessor de seu pai como se iria determinar a morte prematura do irmão mais velho? De que maneira ele teria morrido? Êxodo 12.29 parece responder a essa pergunta.

Como se pode conciliar o segundo mandamento com as instruções de Deus quanto à ornamentação pictográfica do tabernáculo (Êx 25-27) e do templo (1 Rs 6; 7.13-51)?

O segundo mandamento (Êx 20.4, 5) trata do pecado da idolatria e por isso se relaciona ao artesanato de imagens "de qualquer coisa no céu [...] na terra [...] nas águas debaixo da terra" com o propósito de serem adoradas como poderes e divindades. A conexão entre o primeiro mandamento ("Não terás outros deuses além de mim", v. 3) e o segundo é muito íntima e fornece um contexto no qual se pode entender o intento real e total dessa proibição. A ordem tem prosseguimento no versículo 5 e especifica: "Não te prostrarás diante deles, nem lhes prestarás culto". Em outras palavras, não se deveria produzir imagens de pessoas ou coisas que pudessem tornar-se objetos de culto, como se fossem sobrenaturais ou divinas. As passagens citadas a respeito dessa questão esclarecem muito bem que Deus tencionou extirpar a idolatria. Êxodo 25.17, 18, 20 especifica: "Faça [...] dois querubins de ouro batido nas extremidades da tampa. [...] Os querubins devem ter suas asas estendidas para cima, cobrindo com elas a tampa. Ficarão de frente um para o outro, com o rosto voltado para a tampa".

No grande templo de Salomão, o lugar santíssimo deveria ser guarnecido por duas imagens de querubins 4, 5 metros de altura ("dez cúbitos") e com envergadura de 9 metros (1 Rs 6.23-27). É claro que eles não seriam vistos pelo público por causa de sua localização no Santo dos Santos; uma cortina, ou véu, os protegia dos olhos do povo lá fora. Por isso, não havia a possibilidade de virem a tornar-se objetos de adoração. Mas havia também figuras de querubins gravadas, isto é, entalhadas nas paredes do Lugar santíssimo, ao lado de palmeiras e flores abertas (6.29, 32). Aparentemente não havia a menor possibilidade de essas imagens virem a tornar-se objetos de culto, ao serem usadas como ornamentação, segundo um padrão repetitivo. Portanto, elas não podiam ser consideradas suscetíveis de adoração, pois não eram repreensíveis nem contrárias ao que determina o segundo mandamento.

Como pode o domingo substituir o sábado do quarto mandamento?

Em Êxodo 20.8, o povo de Deus recebeu a seguinte ordem: "Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo". O sétimo dia da semana deve ser separado para comemoração do término da criação de Deus (o v. 11 conclui: "... o Senhor [...] no sétimo dia descansou. Portanto, o Senhor abençoou o sétimo dia e o santificou"). Esse mandamento junta-se aos demais a fim de formar o Decálogo, e não existe a mínima idéia, nem mesmo em todo o nt, de que os Dez Mandamentos deixaram de vigorar na consciência dos crentes em Cristo ou de que seu número passou de dez para nove. Na ausência de instruções divinas específicas em contrário, podemos presumir que o quarto mandamento (à semelhança de todos os demais) ainda vigora. Todavia, a verdadeira questão é se a ordem sobre o sétimo dia, o sábado do Senhor, foi transferida, no nt, para o primeiro dia da semana, o domingo, que a igreja em geral (exceto os grupos sabatistas) honra como o Dia do Senhor. De fato, ele também é conhecido por "sábado cristão".



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Evidências do nt do culto cristão dominical

O âmago ou cerne da pregação apostólica ao mundo gentio e judaico, a partir do Pentecostes era a ressurreição de Jesus: "Deus ressuscitou este Jesus, e todos nós somos testemunhas desse fato" (At 2.32). O ressurgimento de Cristo era a comprovação de Deus, perante o mundo, de que o Salvador da humanidade havia pago o preço válido e suficiente pelos pecadores e superado a maldição da morte. O sacrifício expiatório eficaz de Jesus e sua vitória sobre a maldição da morte introduziu uma nova época, um novo tempo, o da igreja. Assim como a Ceia do Senhor substituiu a Páscoa, na antiga aliança, a morte de Cristo, o sacrifício de animais no altar, o sacerdócio supremo de Jesus "segundo a ordem de Melquisedeque" substituiu o sacerdócio de Arão e fez com que cada crente renascido se tornasse um sacerdote diante de Deus, também o quarto mandamento, dentre os dez, que pelo menos em parte era de natureza cerimonial, deveria ser substituído por outro símbolo, mais apropriado à nova dispensação — o domingo, como os fatos seguintes parecem ensinar:

1. Jesus ressuscitou dentre os mortos no primeiro dia da semana, de acordo com todos os evangelistas (Mt 28.1; Mc 16.2; Lc 24.1; Jo 20.1). Assim foi que o domingo assumiu importância especial como o dia da semana em que se celebrava a ressurreição.

2. Jesus apareceu pessoalmente a seus seguidores em forma visível, física, e conversou com eles no domingo da Páscoa. 1) Primeiro ele apareceu a Maria Madalena (Jo 20.11 -18). 2) A seguir, às demais mulheres que haviam levado especiarias para embalsamar-lhe o corpo (Mt 28.7-10). 3) Apresentou-se pessoalmente a Simão Pedro (Lc24.34).4) Caminhou ao lado de Cléopas e seu companheiro, com quem conversou, no caminho de Emaús (Lc 24.15-32). 5) Encontrou-se com dez discípulos e seus amigos no mesmo domingo, à noite — sua primeira aparição perante um grupo de crentes.

3. Exatamente uma semana depois, no domingo à noite, Jesus de novo apareceu a seus discípulos. Dessa vez, o cético Tomé (que estivera ausente no domingo anterior) estava presente. Jesus mostrou a esse discípulo as evidências físicas de suas mãos e pés perfurados a cicatriz de seu lado ferido pela lança e a fim de convencê-lo de que revivera e ali estava com o mesmo corpo que havia sido crucificado na sexta-feira anterior.

4. O derramamento do Espírito Santo sobre a igreja ocorreu no Pentecostes. Visto que a crucificação acontecera na sexta-feira, o oferecimento do molho das primícias (tipo da ressurreição) acontecia, como nos informa a Palavra, "o sacerdote moverá [...] o feixe no dia seguinte ao sábado" (Lv 23.10-12), isto é, no domingo. Isso significa que 49 dias depois era o dia da Festa das Semanas (conhecida na língua grega como Pentēkostē, que quer dizer "qüinquagésimo [dia]", que também caía num domingo. Obviamente o próprio Senhor Deus decidiu honrar o domingo ao trazer a vitória e o "aniversário" da igreja para o primeiro dia da semana.

Depois do Pentecostes, parece que a igreja, isto é, a comunidade cristã, continuou a celebrar o sábado, ou sétimo dia, como antes, reunindo-se com os judeus para a leitura da Torá, pregação e oração. Entretanto, não existe referência explícita de que crentes se reunissem no sábado judaico a fim de celebrar a Ceia do Senhor ou um culto distintivamente cristão. Eles freqüentavam as sinagogas aos sábados para participar das reuniões porque ainda se julgavam judeus, embora crentes em Cristo. De fato, acreditavam ser melhores e mais autênticos que aqueles que haviam rejeitado a Esperança de Israel. Mas também se reuniam nas manhãs de domingo para o culto e para a Ceia do Senhor, e provavelmente à noite de novo, quando havia pregação e participação na refeição chamada agapē, ou "festa do amor" (At 20.5-12).

5. Em 1 Coríntios 16.2, Paulo instrui a igreja coríntia: "No primeiro dia da semana, cada um de vocês separe uma quantia [lit., 'ponha por si mesmo'], de acordo com a sua renda, reservando-a para que não seja preciso fazer coletas quando eu chegar". Essa coleta deveria ser enviada aos cristãos hebreus da Judéia, dolorosamente atingidos pela fome. Dificilmente



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Paulo estaria se referindo ao hábito de poupar dinheiro, que os crentes praticariam apenas no lar, em particular, visto que nesse caso não haveria a mínima necessidade de ele referir-se a um determinado dia da semana para isso. Qualquer pessoa que esteja economizando com vistas a determinada causa, colocando algum dinheiro à parte, num "cofrinho", está livre para guardar esse dinheiro em qualquer dia da semana. Dificilmente lhe seria pedido que esperasse até o domingo para mexer no "porquinho". Só existe uma razão plausível para que Paulo determinasse um dia especial da semana: todos os crentes "reunidos" nesse dia poderiam contribuir para a tesouraria beneficente da igreja (observemos o uso da palavra thēsaurizōn, "poupar", que significa na verdade "colocar dentro de um tesouro [thēsauros]". (Esse é o mesmo termo usado para o gazofilácio colocado à entrada do pátio do templo em Jerusalém.) Proporcionalmente aos rendimentos da semana anterior ("conforme a sua prosperidade"), presumivelmente os 10% prescritos no at. O fato de juntar todas as contribuições individuais num receptáculo comum possibilitava àqueles crentes obter uma soma considerável para o socorro dos necessitados. Tendo em mente todos esses fatores, é mais seguro para nós concluir que a igreja coríntia mantinha o hábito de reunir-se aos domingos, quando recolhiam ofertas em dinheiro para certas finalidades, em relação ao culto de adoração e louvor dominical.

Depois de Paulo ter passado toda uma semana em Trôade, de acordo com Atos 20.5-12, encerrou sua estada entre aquela comunidade de cristãos presidindo o culto de domingo à noite. Dificilmente se trataria de um culto especial marcado para propósitos evangelísticos ou estudo bíblico, pois de outra forma não haveria motivo para o apóstolo permanecer ali sete dias (v. 6). Paulo estava sendo pressionado pelo tempo, pois precisava estar em Jerusalém a tempo para a Festa de Pentecostes (v. 16). Devemos, portanto, concluir que Paulo esperou até o culto regular de domingo à noite, em Trôade, de modo que pudesse contar com a maior congregação que lhe fosse possível conseguir. (Não cabe a mínima dúvida quanto a se "primeiro dia da semana" poderia referir-se ao sábado à noite — como argumentam alguns — visto que Trôade era uma cidade grande, um centro comercial importante e, com toda a certeza, a maior parte de seus habitantes era formada de gentios. Portanto, para eles, o "primeiro dia da semana" teria começado à meia-noite, como era a determinação no mundo romano — e também no nosso, hoje). A seguir, o apóstolo pregou a uma igreja cheia no andar superior; o culto demorou muito, estendendo-se noite adentro, até à madrugada de segunda-feira. Nesse momento, iniciaram a celebração de uma agapē, ou festa simples do amor, antes das despedidas (v. 11). A instituição do culto dominical estava firmemente estabelecida em Trôade, obviamente com a aprovação de Paulo.

7. A última referência do nt ao domingo como dia de significado especial para os cristãos encontra-se em Apocalipse 1.10: "No dia do Senhor achei-me no Espírito e ouvi por trás de mim uma voz forte". Era a voz do Cristo glorificado, que havia chegado a fim de ter comunhão com João, num domingo. "No dia do Senhor" está expresso no caso dativo: tē kyriakē hēmerā. Não existe base válida para que se questione se trata de fato do domingo. Até hoje essa é a expressão regular para "domingo" no grego moderno. E a intenção plena é essa desde as testemunhas mais antigas pós-bíblicas (Didaquê, 14.1, primeiros 25 anos do século ii d.C; Epístola de Barnabé, 15.1, início do século ii). Justino Mártir (meados do século ii) descreve uma ordem de culto típica num culto cristão "no dia chamado domingo" (Primeira Apologia 67). Em seu Diálogo com Trifão, Justino argumenta que a ordem em Gênesis 17 para que se circuncide uma criança "no oitavo dia" foi estabelecida por Deus como "figura da verdadeira circuncisão, com a qual Jesus Cristo nosso Senhor, ressuscitado no primeiro dia da semana, nos circuncidou do erro e da maldade" (cap. 41). No início do século iii, Tertuliano chegou a afirmar


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que "nós [os cristãos] nada temos com o sábado, nem com outras festas judaicas, e menos ainda com as celebrações dos pagãos. Temos nossas próprias solenidades: o Dia do Senhor, por exemplo, e o Pentecostes" (On idolatry 14). Em De oratione (23), Tertuliano insiste na cessação do trabalho no domingo para que seja preservado como dia de culto para o povo de Deus.

Encontramos um testemunho muito interessante na obra siríaca O ensino dos apóstolos, que data da segunda metade do século iii, segundo a qual os apóstolos de Cristo foram os primeiros a designar o primeiro dia da semana como o dia do culto cristão. "Os apóstolos determinaram, ainda: no primeiro dia da semana deve haver culto, com leitura das Escrituras Sagradas e a oblação. Isso porque no primeiro dia da semana o Senhor nosso ressuscitou dentre os mortos, no primeiro dia da semana subiu aos céus, e no primeiro dia da semana vai aparecer, finalmente, com os anjos celestiais" (Ante-nicene fathers, 8668). (Pela maior parte das citações dos pais da igreja, considero-me em dívida com Henry Waterman, pelo seu magnífico artigo "The Lord's Day" [Tenney, Zondervan Pictorial Encyclopedia, 3: 965-6]).

À luz desses testemunhos cristãos primitivos, podemos ver a insensatez da contenda levantada por alguns adeptos do sabatismo, segundo os quais o domingo não foi escolhido para substituir o sábado, como dia do culto cristão, o que só ocorreria na época de Constantino, o Grande (308-337). Desde os tempos apostólicos, o domingo tem sido reconhecido pelos cristãos como o dia de culto e de descanso. O que Constantino fez foi promulgar um édito especial em que prescrevia o domingo como sendo o dia oficial de descanso na semana em todo o Império Romano.

Santificação do Dia do Senhor

Depois de termos estudado a base do nt para a adoção do primeiro dia da semana como o dia distintivo do culto cristão, voltamos a atenção para a questão de como o Dia do Senhor era — e deve ser — santificado pelo povo de Deus.

Se nossa premissa inicial estiver correta e o Dia do Senhor foi criado basicamente com a finalidade de perpetuar a santidade especial do dia de descanso, segue-se que nossa reverência pelo domingo deveria igualar-se à dos primitivos crentes hebreus pelo sétimo dia, ou sábado.

De que modo o Dia do Senhor deve ser santificado? Muito bem: se consultarmos o Decálogo, descobriremos que esse dia deve ser marcado pela cessação de todo serviço que a pessoa faz a si própria e todo empreendimento lucrativo que seria adequado em quaisquer dos seis dias remanescentes (Êx 20.9, 10). Deve ser também, de acordo com Levítico 23.3, um dia de culto público, dia de "reunião sagrada", dia de significado especial para os ministros oficiantes (no antigo Israel, os sacerdotes). Os sacerdotes deviam substituir os pães da proposição velhos por pães novos" perante o Senhor" no santuário (Lv 24.8) e dobrar a oferta regular sobre o altar de sacrifício ("holocausto contínuo", ra), de acordo com Números 28.9, 10. Entretanto, a passagem mais esclarecedora do at concernente à verdadeira celebração do sábado encontra-se em Isaías 58.13, 14: "'Se você vigiar seus pés para não profanar o sábado e para não fazer o que bem quiser em meu santo dia; se você chamar delícia o sábado e honroso o santo dia do Senhor, e se honrá-lo, deixando de seguir seu próprio caminho, de fazer o que bem quiser e de falar futilidades, então você terá no Senhor a sua alegria, e eu farei com que você cavalgue nos altos da terra e se banqueteie com a herança de Jacó, seu pai.' É o Senhor quem fala".

O essencial do conceito transmitido por essa passagem encontrou uma expressão clássica no Breve catecismo de Westminster:

P. 60: De que modo se deve santificar o Domingo?

R.: Deve-se santificar o Domingo como um santo repouso por todo esse dia, mesmo das ocupações e recreações temporais que são permitidas nos outros dias; empregando todo o tempo em exercícios públicos e particulares de adoração a Deus, exceto o tempo suficiente para as obras de pura necessidade e misericórdia.

Esse era o padrão ideal do movimento puritano, que representava a fina flor da Reforma protestante no mundo de fala inglesa. Embora esse



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padrão hoje se caracterize muito mais pela quebra que pela obediência, seria difícil provar que a atitude moderna permissiva, que se distancia tanto da santificação do Dia do Senhor, tem algum fundamento nas Escrituras.

Com freqüência, os que advogam o uso opcional do domingo, à vontade da pessoa, alegam que Colossenses 2.16 aboliu todas as sanções do quarto mandamento, conforme aparecem no at. Assim diz esse versículo: "Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração das luas novas ou dos dias de sábado". Essa tradução de sabbatōn, "sábados" é acurada e exata — plural, em vez de singular. É um pormenor importante aqui, visto que o calendário religioso hebraico tinha como sábado apenas o sétimo dia da semana, mas certas festividades também eram denominadas "sábados", as quais deveriam ser celebradas da forma exata como o sábado (sétimo dia da semana) era celebrado, não importando em que dia da semana caísse o primeiro e o último dia da festividade chamada sábado (de modo especial a Festa dos Pães Asmos e a Festa dos Tabernáculos, que duravam oito dias completos).

O propósito geral de Colossenses 2.16 é ensinar que os dias santos distintivos do at não devem mais ser observados pelos crentes do nt, porque tais festas eram "sombra do que haveria de vir; A realidade, porém, encontra-se em Cristo" (v. 17). Daí entendermos que o versículo 16 parece referir-se primordialmente às estipulações obsoletas do at, uma das quais é o sábado, como sétimo dia da semana, e a outra, a festa chamada sábado.

Não existe uma boa razão para crer-se que Paulo pretendia incluir a versão cristã do quarto mandamento, i.e., a guarda do domingo pela igreja de Cristo, entre as "sombras" — todas as "sombras" foram cumpridas em Cristo. Dificilmente a guarda do domingo, Dia do Senhor, poderia ser classificada como "sombra" proveniente do at. De fato, o domingo é um mandamento cristão contemporâneo zelosamente observado por todos quantos confiam em Cristo, que é a "Realidade" (sōma literalmente significa "corpo"), em vez de confiar em tipos (ou "sombras") obsoletos, ultrapassados. Portanto, as Escrituras não permitem que o crente assuma total liberdade para usar o Dia do Senhor da forma que mais lhe agradar nem tampouco esse versículo lhe serve de apoio para tal profanação. Acredita-se de modo geral que a freqüência à igreja e o estudo da Bíblia em grupo são os elementos mais importantes da guarda do domingo; entretanto, o princípio do descanso, pelo qual o crente deixa de cuidar de seus próprios interesses nesse dia (exceto os trabalhos que envolvem necessidades reais ou a prática da misericórdia), com toda certeza está no âmago da santificação do Dia do Senhor — ainda que a cultura secularizada ao nosso redor entenda que o domingo não precisa ser observado com tanta santidade.

Quanto a um estudo adicional desse tópico, veja-se de From sabbath to Lords day, de D. A. Carson, Grand Rapids, Zondervan, 1982).

Por que há menção na Bíblia de tanto morticínio de seres humanos ao lado de freqüentes referências a sacrifícios de animais? De que forma isso se enquadra com o mandamento "Não matarás"? (Êx 20.13) [d]

Visto que a Bíblia é um livro a respeito do homem em seu estado pecaminoso e que há tão grande violência e derramamento de sangue na sociedade humana, é inevitável a freqüente menção de assassinatos nas Escrituras. Todavia, a tradução obscura de Êxodo 20.13, constatada na maior parte das versões em inglês tem provocado muita confusão. O texto original hebraico emprega uma palavra específica para assassinato (rāṣaḥ) no sexto mandamento, que deveria ser traduzido de maneira mais adequada assim: "Não cometerás assassinato" (como na nasb). Esse mandamento não é uma proibição da pena de morte para os crimes capitais, visto que o verbo usado não é genérico, não se refere a simplesmente tirar a vida, como fica implícito no verbo português "matar". Êxodo 21.12, no capítulo seguinte, diz: "Quem ferir um homem e o matar, terá que ser executado". Temos aqui, pois, um



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mandamento divino que o prescreve a pena de morte para o assassino, a fim de que se obedeça a Gênesis 9.6: "Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus foi o homem criado".

Ocasionalmente se mencionam a violência e o derramamento de sangue no registro da história da humanidade, por toda a Escritura, sem que esses crimes, todavia, recebam aprovação. No entanto, houve ocasiões em que comunidades inteiras (como a cidade de Jericó) ou tribos inteiras (como a dos amalequitas) tiveram que ser exterminadas pelos israelitas, em obediência às ordens de Deus. Em todos os casos semelhantes a esses, os ofensores haviam ido tão longe em sua degeneração moral que a continuação de sua existência resultaria na disseminação do terrível câncer do pecado até no meio do povo da aliança de Deus. Assim como o cirurgião sábio remove o câncer perigoso do corpo do paciente, com o bisturi, também Deus usou os israelitas para que removessem a chaga maligna da sociedade humana. No que concerne aos animais destinados ao sacrifício, esse tipo de culto simbolizava o sacrifício vindouro do Filho de Deus na cruz, tendo sido ensinado a nossos antepassados, desde o tempo de Adão. Esse culto sacrificial foi sistematizado para a comunidade de crentes nas leis de Moisés. "Sem derramamento de sangue não há perdão" (Hb 9.22).



Por que ainda houve casamentos múltiplos (poligamia) em Israel após a concessão dos Dez Mandamentos?

Assim diz o sétimo mandamento: "Não adulterarás" (Êx 20.14). De que modo essa ordem teria afetado a vida de patriarcas como Abraão, que recebeu Hagar da parte de sua própria esposa, Sara, para ser sua substituta no leito conjugal? Ou a existência de Jacó, que não só se casou com Lia e Raquel, mas também tomou como concubinas a Bila e Zilpa, servas de suas esposas, e com elas teve filhos? É possível que o fato de o Decálogo não vir a Israel senão cinco séculos mais tarde pudesse ter atenuado o complexo de culpa oriundo da posse de muitas esposas. Mas que diremos do rei Davi, que viveu séculos depois da outorga da lei? Lermos em 2 Samuel 12.7, 8 que Deus lhe deu "as mulheres de seu senhor [Saul]", como se o próprio Senhor admitisse a poligamia. De que modo poderíamos conciliar esse fato com a monogamia que Jesus ensinou com tanta clareza em Mateus 19.9 e como entender seu ensino segundo o qual o Criador teria planejado uma só esposa para o homem desde o começo da raça humana?

Gênesis 2.23, 24, versículos que Cristo salientou, ensina que a monogamia é a vontade de Deus para o homem. Tendo Adão sido presenteado com uma esposa, Eva, assim desejou o Senhor, segundo registra a Bíblia: "Disse então o homem: 'Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada'. Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne". Portanto, não é possível que um marido constitua uma unidade com seu cônjuge, se tiver outra mulher — ou outras esposas. Esse ponto é bem esclarecido numa analogia de Efésios 5.23: "Pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo do qual lhe é o Salvador". A implicação aqui é que só existe uma única igreja, a qual tem um relacionamento com o Noivo celestial semelhante ao de uma esposa com seu marido. Jesus não é o cabeça de muitas igrejas diferentes; ele tem apenas um corpo místico — não vários —, pelo que sua única igreja é vista como o antítipo de um casamento monogâmico. Exclui-se, pois, a poligamia, de modo absoluto.

Quando examinamos o registro escriturístico, percebemos que todos os casos de poligamia ou concubinato representaram sério fracasso do homem na observância do modelo e do plano originais de Deus. A primeira referência à poligamia encontramos em Gênesis, na vida de Lameque, filho de Metusael, que, além de ostentar um espírito terrivelmente vingativo contra as pessoas com quem tivera atritos, segundo Gênesis 4.23, 24, gabava-se de ter duas esposas. Depois dele, não há menção de outro casamento poligâmico senão na época de Abraão.



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No caso de Abraão, Sara é sempre mencionada como sua única esposa, enquanto ela viveu. Mas, ao convencer-se de que não poderia dar filhos a seu marido, o presenteou com sua serva Hagar, para que a representasse no leito conjugal. Isso significa que a escrava tornou-se concubina de Abraão, e não sua esposa legítima. No entanto, até mesmo essa tentativa de "ajudar a Deus" a cumprir sua promessa, segundo a qual Abraão se tornaria o pai de uma grande nação, veio a tornar-se causa de amargura e de dissenção dentro de sua própria casa; por fim, Hagar precisou ser mandada embora, carregando seu filho Ismael (Gn 21.12-14).

O filho de Abraão, Isaque, casou-se com uma única esposa, Rebeca, sendo fiel a ela durante toda a sua vida. No entanto, o filho deles, Esaú, voluntarioso e egoísta, amargurou o coração de seus pais ao praticar a poligamia, e com mulheres de fé diferente: ambas eram pagãs (Gn 26.34). Mais tarde, Esaú tomou uma terceira esposa, Maalate, filha de seu tio Ismael (Gn 28.9), e Oolibama (cf. Gn 26). Pelo seu mau procedimento, ele não é exemplo que os crentes de hoje possam seguir.

No caso de Jacó, seu grande amor concentrava-se numa única mulher, Raquel, filha de Labão. Foi só por causa da traiçoeira manobra de seu sogro que ele caiu num laço e casou-se também com Lia. Mais tarde, surgiu entre as irmãs uma rivalidade por causa da fertilidade de Lia e da esterilidade de Raquel. E ambas usaram o expediente infeliz de Sara: presentearam Jacó com suas servas Bila e Zilpa, as quais passaram a partilhar o leito conjugal no lugar das esposas legítimas. Entretanto, no que dizia respeito a ele, não houve de sua parte nenhum desejo de tornar-se um polígamo. O que fez, na verdade, foi apaixonar-se por Raquel; a seguir, uma coisa conduziu a outra, e ele acabou tendo quatro "jogos" de filhos, ou quatro "ninhadas", que se tornaram os ancestrais das doze tribos de Israel. Deus foi soberanamente gracioso em aceitá-los segundo seu plano para multiplicar a descendência de Abraão. Mas o lar de Jacó foi infeliz, pelo menos de início, dilacerado pelo ciúme e pela dissensão e marcado pela crueldade e falsidade.

Não é fácil tratar o problema da poligamia nos tempos do at. No entanto, esse tipo de procedimento não deve ser considerado adultério, de modo que representasse real violação do sétimo mandamento; é que, nos tempos passados, quando alguém tomava uma segunda esposa, ligava-se a ela tão completamente quanto estava unido à primeira. Desse modo, todas as mulheres de Davi eram igualmente a "senhora Davi", por assim dizer. De maneira semelhante, o homem tinha a obrigação de agradar e sustentar as concubinas e a elas atender em tudo e por tudo. Isso era totalmente diferente de ele estabelecer um relacionamento ilícito com a esposa do próximo. No que concerne às mulheres de Saul — ou às de qualquer outro rei falecido, quanto a essa questão —, elas geralmente recebiam o encargo de proteger e cuidar do sucessor do marido. De outra forma, o casamento posterior de alguém com a viúva de um rei poderia conceder ao novo esposo o direito ao trono. (Essa foi a razão por que Salomão ficou alarmado diante da proposta de Adonias de casar-se com a viúva mais jovem do rei Davi, Abisague. Ele entendeu esse ato como uma esperta manobra, como parte de um complô para derrubá-lo [1Rs 2.22].) Portanto, essa norma funcionava desde que uma mulher se tornasse a esposa de um rei (como rainha, esposa secundária ou concubina). Era seu o direito reter esse status ainda que o marido tivesse falecido. O sucessor do monarca tomá-la-ia. Presumivelmente, porém, os filhos tratariam de todas as esposas de seu pai como pensionistas respeitáveis, no palácio, evitando um relacionamento incestuoso com elas.

Na verdade, a poligamia era contrária à vontade de Deus, ao ideal estabelecido pelo Senhor; no entanto, por causa do que Cristo chamou de "dureza de coração de vocês" (Mt 19.8), ela era tolerada — de modo especial no procedimento de um líder político cuja dinastia se desfaria, caso ele não conseguisse tornar-se pai de um filho com sua primeira esposa. Essa situação poderia dar origem a uma guerra civil, com derramamento de sangue e esfacelamento do reino. Todavia, de vez em quando se ouviam referências ocasionais a homens que tomavam várias esposas, até mesmo no caso de cidadãos comuns, como foi o exemplo do pai de Samuel, Elcana. Entretanto, com o passar do tempo, prevaleceu no seio do povo de


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Deus uma compreensão melhor a respeito da vontade do Senhor a respeito do casamento. A partir da época do retorno do exílio babilônico (cerca de 537 a.C), deixa-se de ouvir sobre poligamia entre o povo de Deus; os livros pós-exílicos do at não a mencionam. À época de Cristo, a monogamia era a regra geral entre os gregos e romanos, bem como no meio dos judeus. A afirmação de Jesus do princípio de "uma só carne" no casamento (que só faz sentido num contexto de monogamia) encontrou pronta aceitação entre seus irmãos israelitas (Mt 19.5, 6).

Norman Geisler tem um excelente resumo da posição bíblica sobre esta questão:

Existe ampla evidência, até mesmo no at, de que a poligamia não era o ideal de Deus para o ser humano. Vê-se que a monogamia era o desejo óbvio do Senhor para o homem, quando examinada de diversas perspectivas. 1) Ele fez uma só esposa para Adão e, assim, estabeleceu um precedente ideal para a humanidade. 2) A poligamia é mencionada pela primeira vez como elemento constitutivo da civilização depravada fundada por Caim (Gn 4.23). 3) Deus proibiu com máxima clareza a todos os reis de Israel a prática da poligamia, ao dizer: "Ele não deverá tomar para si muitas mulheres, se o fizer, desviará o seu coração" (Dt 17.17); entre os líderes houve os que se tornaram polígamos. 4) Os santos que se tornaram polígamos pagaram caro esse atrevimento pecaminoso. Diz 1 Reis 11.1, 3: "O rei Salomão amou muitas mulheres estrangeiras, além da filha do faraó. Eram mulheres moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hititas [...] Casou com setecentas princesas e trezentas concubinas, e as suas mulheres o levaram a desviar-se". 5) A poligamia usualmente insere-se no contexto do pecado, no at. A união de Abraão com Hagar foi sem dúvida alguma um ato carnal de incredulidade (Gn 16.ls). Davi não estava no clímax de sua vida espiritual quando desposou Abigail e Ainoã (1Sm 25.42, 43), e tampouco Jacó quando se casou com Lia e em seguida com Raquel (Gn 29.23, 28). 6) O relacionamento poligâmico de modo algum é o ideal. Criava grande ciúme entre as esposas. Jacó amava a Raquel mais que a Lia (Gn 29.31). Uma das esposas de Elcana era considerada a "rival", ou a adversária, da outra, que "a provocava continuamente, a fim de irritá-la..." (1 Sm 1.6). 7) Quando há referência à poligamia, usa-se o tempo verbal presente do subjuntivo, em vez de o imperativo ou o presente do indicativo. "Se o senhor tomar uma segunda mulher para si, não poderá privar a primeira de alimento, de roupas e dos direitos conjugais" (Êx 21.10). A poligamia nunca foi o ideal moral, mas o polígamo deve ser moralizado. (Ethics: alternatives and issues, Grand Rapids, Zondervan, 1971, p. 204-5.)

Qual a explicação de Êxodo 24.9-11 os anciãos de Israel que acompanharam Moisés ao monte Sinai viram Deus entronizado? [d]

De acordo com Êxodo 24.1, o Senhor convidou os setenta anciãos nomeados dentre as doze tribos para que acompanhassem Moisés, Arão e seus dois filhos, e galgassem a montanha até certa altura, seguindo o legislador e mantendo uma distância conveniente atrás de seu líder. O propósito dessa audiência diante do Rei Supremo do Universo era de consagrá-los para o serviço santo de governar o povo de Deus.

Deve-se manter em mente que de acordo com a proclamação anterior, em Êxodo 19.1, 2-13, nem ser humano nem o animal tinham permissão para tocar, ou pôr o pé na montanha sagrada, sob pena de morte. No entanto, nessa ocasião solene, os setenta anciãos, ao lado de Arão e seus filhos, tiveram permissão de contemplar a glória de Deus assentado em esplendor luminoso num trono de safira. Normalmente teriam sido mortos na hora, por terem começado a subir o monte Sinai; nesse momento, porém, haviam recebido permissão especial para galgá-lo. Normalmente teria sido impossível que um homem mortal contemplasse a gloriosa presença de Deus de modo direto, sem ser fulminado por morte instantânea: ... "homem nenhum verá a minha face e viverá" (Ex 33, 20). Está registrado em Êxodo 24.11: "Ele não estendeu a mão sobre os escolhidos dos filhos de Israel; porém eles viram a Deus, e comeram, e beberam". Isso quer dizer que a todos foi permitido participar da


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refeição sagrada, à vista do trono de Deus no monte Sinai; e sobreviveram após terem sido expostos à presença santa do Senhor; não sofreram dano, nem perderam a vida.

Deveríamos talvez acrescentar que o que se viu nessa teofania foi uma representação gloriosa de Deus em seu esplendor real, e não a essência do próprio Criador. Os olhos humanos jamais poderiam contemplar o Senhor; isso não é permitido ao mortal (1 Jo 1.18).



Como podemos conciliar Êxodo 33.20, em que o Senhor diz a Moisés: "Você não poderá ver a minha face, porque ninguém poderá ver-me e continuar vivo", com Êxodo 33.11, que registra estas palavras: "O Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala com seu amigo"? [d]

A Bíblia faz uma distinção clara entre contemplar a Deus em sua glória descoberta, e ver uma representação ou um reflexo do Senhor numa entrevista pessoal com ele. João 1.18 declara: "Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou". Acrescenta o apóstolo Paulo que Deus, o Pai "resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo" (2 Co 4.6).

Contemplamos a face de Deus pela fé, quando olhamos para Cristo, "Quem me vê a mim vê o Pai" (Jo 14.9). Portanto, o Senhor mostrou sua face e declarou sua glória mediante seu filho, o Deus encarnado. Todavia, nos tempos do at, Ele mostrara suas costas mediante um anjo (como na entrevista com Moisés diante da sarça ardente [Êx 3.2-6], ou mediante a nuvem de glória, a qual conduzia o povo do Senhor pelo deserto, após o êxodo do Egito).

Na festa da dedicação dos tabernáculos (Êx 40.34, 35), essa nuvem de glória (kābôd) repousou sobre o assento da misericórdia da arca da aliança. Todas as semanas doze pães sagrados eram oferecidos a Iavé sobre a mesa dos "pães da proposição", a qual era chamada em hebraico šulḥān weeḥem pānîm ("a mesa com o pão da Presença"), porquanto era apresentada à frente da cortina interna (pārō-ke-t) que tapava a arca da aliança, de modo que essa não era vista pelo público. A Presença (de Deus) permanecia sobre o assento da misericórdia (kappōreṯ), representado pelo propiciatório.

Devemos entender, pois, que Iavé se encontrava com Moisés e conversava com ele sob a forma de alguma gloriosa representação; não se tratava de modo algum da face de Deus descoberta. Nesse sentido, Deus falava com Moisés face a face — algo como um jornalista na televisão falando diante das câmeras com o seu público.

O que Moisés pede em Êxodo 33.18, porém, era algo que vai além dessa presença velada; para obter total segurança a respeito da graça renovada de Deus para com ele, e a nação toda, o legislador pediu para ver a face real do Todo-Poderoso. O Senhor o advertiu que diante de tal visão, ele morreria instantaneamente (v. 1Tm 6.16, segundo o qual Deus "habita em luz inacessível"). No entanto, à guisa de confirmação especial de sua presença e favor, Iavé prometeu que revelaria suas costas a Moisés (Êx 33.23), sem mostrar sua face. Foi o que Iavé fez quando passou "por diante dele" e pronunciou seu nome gracioso e glorioso (Êx 34.6, 7).



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