Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Levítico


O coelho rumina?

Levítico 11.5, 6 refere-se ao šāpān (ou Hyrax syriacus) como um animal imundo (i.e., impróprio para consumo humano e sacrifício), porque "embora rumine, não tem casco fendido". Os animais limpos precisavam ruminar e ter unhas fendidas, para poder servir de alimento e holocausto no altar. A questão em debate é a ruminação do coelho. Será que de fato o realmente rumina (hebr., ma‘algērāh; lit., "levantar o que foi engolido")? De modo semelhante, em Levítico 11.6, a mesma declaração se faz a respeito da ’arnebeṯ ("lebre"). A lebre rumina? A resposta, no que concerne a ambos os animais, é não, do ponto de vista de seu processo digestivo. Os verdadeiros ruminantes apresentam quatro estômagos; o alimento processado neles é regurgitado de volta à boca, para ser mastigado novamente.

No sentido técnico, nem o coelho nem a lebre, podem ser chamados ruminantes, mas, na verdade, eles dão a impressão de que estão ruminando, porque agem da mesma forma que os verdadeiros ruminantes. Essa aparência é tão convincente que até o próprio Lineu de início classificou esses animais como ruminantes, embora lhes falte o sistema estomacal de quatro cavidades. Entretanto, convém lembrar que essa lista de animais proibidos deveria ser usada como um guia prático para o israelita comum que saía ao campo ou ao deserto a fim de procurar alimento. Ele poderia chegar à conclusão, ao ver os movimentos das mandíbulas desses animais, que eles estariam ruminando, à semelhança do gado; e, visto que comiam o mesmo tipo de capim e ervas, talvez também servissem de alimento para o povo de Deus. Então, era necessário acrescentar que tais animais não tinham cascos (nem fendidos nem inteiriços), pelo que não serviam para alimento ou sacrifício.

G. S. Cansdale dá esta informação interessante a respeito dos hábitos da ’arnebeṯ (lebre):

A lebre, como o coelho, pratica o que se poderia chamar "refecção": em certos momentos do dia, quando o animal descansa, ingere os próprios excrementos de textura diferente, e o faz muito depressa. Parece, então, que o coelho está ruminando, sem ter colocado capim fresco na boca. Quando a ração passa pelo sistema digestivo pela primeira vez, certas matérias vegetais indigestas sofrem a ação de bactérias e, depois disso, podem ser assimiladas melhor ao passar pelos intestinos uma segunda vez. É quase o mesmo princípio envolvido na ruminação ("Hare" ["lebre"), em Tenney, Zondervan pictorial encyclopedia, 3: 33).

Como pode a lepra afetar o vestuário (Lv 13.47-59) ou as paredes de uma casa (Lv 14.33-57)?

A doença comumente chamada "lepra" hoje é conhecida como mal de Hansen. Mas o termo hebraico ṣāra‘aṯ é muito mais genérico: especifica qualquer tipo de doença ou alteração patológica da pele. Muitos dos tipos descritos em Levítico 13.2-42 mostram sintomas próprios do mal de Hansen, como manchas brancas e áreas infectadas no couro cabeludo. O versículo 6 refere-se a um tipo de doença que, segundo se sabia, podia apresentar melhoras espontâneas dentro de uma semana, pelo menos em alguns casos (o que não é verdade a respeito do mal de Hansen). Os versículos 7 e 8 parecem referir-se a uma úlcera com gangrena; o versículo 24 faz menção a uma infecção numa área queimada da pele. O versículo 30 diz respeito ao couro cabeludo, em geral, quando apresenta descamação, que parece tratar-se de psoríase.



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Dos dados acima, pode-se concluir legitimamente que ṣāra‘aṯ não se refere a nenhum tipo particular de doença da pele (embora a enfermidade de Naamã com toda a certeza era algo relacionado ao mal de Hansen [2Rs 5]; da mesma forma o mal que afligiu Azarias, atacado pela lepra no templo [2Rs 15.5; 2Cr 26.19, 20]); antes, trata-se de um termo de ampla significação, que cobre todos os tipos de doenças e alterações estranhas da pele ou do couro cabeludo.

Em Levítico 13.47, 59, a Escritura refere-se a ṣāra‘aṯ num vestuário ou em qualquer tipo de roupa. É óbvio que nesse caso não pode haver relação com nenhum tipo de doença que ataque a pele humana. Trata-se de uma modalidade de fungo, ou bolor, que se aloja no tecido numa peça de couro de animal. Por causa de sua tendência para espalhar-se mediante contato e à vista dos terríveis efeitos desfigurantes, esse tipo de ṣāra‘aṯ precisava de uma quarentena, até que se verificasse se podia ser eliminado por lavagem e esfregação. Se tais medidas não dessem certo, o tecido afetado deveria ser queimado.

Quanto a Levítico 14.33-57, o tipo de ṣāra‘aṯ que ataca as paredes da casa aparentemente é outra modalidade de fungo, ou de bactéria, ou de mofo que ocasionalmente aparece em paredes de adobe e até em madeira, quando a umidade é bastante elevada, durante muito tempo, em temperaturas favoráveis à disseminação do bolor. Visto que esse fungo pode se espalhar rapidamente e arruinar a aparência do cômodo inteiro, sendo talvez veículo de outros tipos de doença, era necessário cuidar do problema o quanto antes. As áreas afetadas deveriam ser esfregadas, raspadas e lavadas cuidadosamente, para que se verificasse se o mofo poderia ser eliminado dessa forma. Se o bolor tivesse penetrado num determinado tijolo da parede, esse deveria ser removido e destruído. Isso impedia que os adjacentes ficassem contaminados. Todavia, se tais métodos não surtissem efeito, a casa toda deveria ser destruída.

Em geral, dispensava-se um período razoável de espera antes de se destruir uma casa contaminada, talvez uma semana ou duas, quando então um sacerdote fazia uma inspeção. O mesmo procedimento era seguido com respeito à "lepra" na roupa ou na pele humana. Faziam-se análises no final da primeira ou da segunda semana com o propósito de verificar se a infecção havia cedido ou se continuava a expandir-se. Em todos os três casos de lepra (ṣāra‘aṯ), exigia-se um rito de purificação, descrito com algumas minúcias em Levítico 13 e 14.



Quem é o bode expiatório ou "emissário" de Levítico 16 ou o que representa? [d]

Levítico 16 determina o procedimento a ser seguido no Dia da Expiação (Yom Kippur), o décimo de Tisri (em geral no fim de setembro), todos os anos. Dois bodes deveriam ser separados para essa cerimônia, um que era a oferta pelo pecado (ḥaṭṭāth), e o outro, que deveria ser sacrificado e queimado em holocausto (‘ōlāh). O primeiro deveria ser imolado no altar, de acordo com as exigências usuais para as ofertas pelo pecado. O segundo deveria ser escolhido, mediante sorteio, para ser sacrifício vivo e chamava-se azā’zēl, palavra que talvez devesse ser vocalizada como ‘ez ’āzēl ("um bode de partida"). (É preciso que se entenda que os documentos do at eram escritos apenas com as consoantes; os pontos representativos das vogais só passaram a ser colocados no texto a partir de 800 d.C. No caso de nomes próprios ou de termos técnicos obsoletos, sempre havia a possibilidade de alguma confusão na tradição oral em relação às vogais.) A lxx segue essa última forma de ler a palavra e traduz o hebraico para o grego com o termo chimaros apopompaios ("o cabrito que será mandado embora").

O sumo sacerdote deveria colocar as mãos sobre a cabeça desse cabrito, confessar sobre ele os pecados da nação de Israel e enviar o animal embora, para o deserto, pois ele levaria sobre si, simbolicamente, toda a culpa da nação (Lv 16.21). A tradição segundo a qual o bode emissário era o nome de um demônio do deserto originar-se-ia muito tempo depois e estaria totalmente em desacordo com os princípios da redenção ensinados na Torá. Portanto, é inteiramente errado imaginar que esse cabrito representava o próprio Satanás, visto que nem o Diabo nem seus demônios jamais são mencionados nas Escrituras desempenhando funções expiatórias em prol


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da humanidade — que é a implicação dessa interpretação.

Ao contrário, cada sacrifício de animais a que a lei de Moisés se refere simbolizava algum aspecto da obra expiatória de Cristo. O bode que representava a oferta pelo pecado significava a substituição que Jesus fez: sua vida sem culpa alguma substituiu a vida cheia de falhas do pecador condenado. No caso do bode emissário, ele representa a remoção do pecado diante de Deus. Assim como o Pai colocou as transgressões dos crentes sobre o Filho, na cruz (Is 53.6), para que fossem removidas eternamente, com o ‘ez’āzēl, sobre o qual todas as iniqüidades de Israel foram simbolicamente atiradas por Arão, enviadas para o deserto, elas jamais seriam lembradas.


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