Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Números


Até que ponto os números e as estatísticas dados no livro de Números, e no at, em geral, são dignos de crédito?

Alguns estudiosos têm questionado a credibilidade dos números registrados nos dois recenseamentos apresentados em Números (1-4; 26). As áridas condições do deserto do Sinai dificilmente permitiriam que 600 mil homens adultos, mais suas esposas e filhos, sobrevivessem durante quarentas anos. Portanto, se as estatísticas concernentes ao número dos que eram capazes de fazer a guerra, relacionados às doze tribos, puderem ser aceitas como tendo valor histórico, deveríamos então de algum modo reduzir o total para uma quantidade menor, i.e, para menos de dois milhões, e chegar a uma aproximação dentro dos limites da razão, um número aceitável em face da lógica. Autores como G. Menenhall (jbl 77 [1958]: 52-66), John Bright (History of Israel [Filadélfia: Westminster, 1959], p. 144), e R. E. D. Clark (Journal of the Transactions of the Victoria Institute 87 [1955]: 82ss.) sugerem que se traduza o vocábulo hebraico para "mil" pela mera palavra "tribo". R. K. Harrison (Old Testament introduction, p. 633), a despeito de sua atitude em geral conservadora, descrê da exatidão histórica desses números e sugere que eles talvez tenham apenas valor relativo, algo que estabeleça o tamanho comparativo de cada uma das tribos.

A palavra hebraica para "mil" é ’elep, que pode ter alguma conexão com o vocábulo que quer dizer "touro". Conquanto não haja ocorrência clara de ’elep com o sentido de "família" ou "tribo", em todas as Escrituras Sagradas, segundo Brown-Driver-Briggs (Lexicon, p.48, 49), o substantivo cognato ’allûp significa "chefe", "comandante de tropas de mil"; e existem outras passagens em que a palavra poderia estar no plural, am com o sentido de "subdivisão de uma tribo" (cf. Koehler-Baumgartner. Lexicon, p. 57). Eis, uma base demasiado fraca sobre a qual não deveríamos colocar um peso tão grande como o da teoria que reduz os números; se nesses capítulos sobre recenseamentos de Números pudéssemos traduzir am por "complexo familiar" ou "tribo", talvez o número total de homens em armas israelitas baixasse para cerca de trinta mil. Isso envolveria uma quantidade muito menor de bocas a serem alimentadas e de corpos sustentados durante tantos anos de peregrinação pelo deserto. É como o argumento se apresenta.

Há, todavia, algumas dificuldades fatais que corroem essa teoria. Em primeiro lugar, sempre acontece que logo depois da palavra (número) am menciona-se o vocábulo (número) mē’ôṯ ("centenas"), como a seguinte unidade menor; a



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seguir vêm as dezenas e as unidades, em ordem decrescente. Assim.o primeiro registro é o de adultos do sexo masculino da tribo de Rúben (Nm 1.21): šiššāh we’arbā‘îm ’elepwaḥa mēš mē’ôṯ (lit., "seis e quarenta mil e cinco centenas"). Exatamente por isso não há como fazer com que ’elap nesse número total possa ter o significado de 46 famílias e quinhentos. Está bem claro que a quantidade a qual o autor tem em mente é 46500. Que essa teria sido a intenção do escritor hebreu tem-se plena certeza por causa do total de "dinheiro de resgate" levantado entre a população masculina de Israel, de acordo com Êxodo 38.25: "... 100 talentos e 1.775 síc1os..." (nvi, nota de rodapé). Cada homem deveria contribuir com meio siclo; há 3.000 siclos, num talento. Portanto, 100 talentos, 1.775 siclos, significam exatamente 603.550 meios-shekels (representando o mesmo número de homens, de acordo com Números 2.32). Esse total é confirmado por Êxodo 12.37: "... cerca de seiscentos mil homens a pé...". Por isso, não houve erro de tradução nem qualquer tropeço na comunicação.

A objeção de que os recursos naturais do Sinai jamais poderiam sustentar dois milhões de pessoas ou mais durante um período de quarenta anos de peregrinação pelo deserto não tem absolutamente valor. É um argumento que deixa de lado algo que o Pentateuco esclarece bem: Israel não recebeu seu alimento e bebida de fontes naturais da área do Sinai. Afirmam as Escrituras que essa multidão foi sustentada de maneira miraculosa, com maná do céu e água que saía da rocha — durante toda a jornada pelo deserto. O Deus que conduziu os israelitas sob a coluna de nuvem foi o mesmo que lhes supriu o alimento mediante uma intervenção sobrenatural. Sem esse recurso sobrenatural, trinta mil homens teriam morrido de fome e de sede nesse deserto, tão rapidamente quanto os seiscentos mil; é incrivelmente fútil desprezar o fator miraculoso, mediante a redução do número de pessoas.

Estamos tratando aqui da possibilidade do milagre. Eles são registrados desde o primeiro capítulo da Bíblia até o último. Sem a suprema manifestação do Verbo, que se encarnou em Jesus de Nazaré, não existe evangelho algum para ser pregado nem cruz alguma em que se deva crer. De fato, não há a mínima razão para nos preocuparmos com as Escrituras, de modo algum, se não crermos que suas pressuposições são milagrosas do começo ao fim. Se aqueles eventos miraculosos jamais aconteceram, a Bíblia é um livro indigno de confiança, não devemos acreditar nela; seria apenas outra amostra de especulação humana. Portanto, não se pode levantar uma objeção válida com base na natureza miraculosa de um episódio bíblico; e qualquer linha de argumentação ou de reinterpretação do texto sagrado que pressuponha a impossibilidade do milagre é mero exercício de futilidade.

A aceitação de uma quantidade superior a dois milhões de almas tem sido questionada por algumas autoridades, sob a alegação de que há um número espantosamente baixo de primogênitos no meio do povo israelita, conforme Números 3.42, 43: "E Moisés contou todos os primeiros filhos dos israelitas, conforme o Senhor lhe havia ordenado. O número total dos primeiros filhos do sexo masculino, de um mês de idade para cima, relacionados pelo nome, foi 22.273". É óbvio que deve ter havido um número muito maior de primogênitos no meio da congregação israelita, se esta alcançasse seiscentos mil homens. Mas essa dificuldade desaparece quando o ambiente em que ocorreu o incidente é examinado com cuidado.

Aparentemente, era o segundo ano da jornada pelo deserto (cf. Nm 1.1), após estar terminado, o recenseamento das doze tribos e da de Levi, tendo o Senhor ordenado a Moisés que contasse todos os primogênitos entre os que não eram levitas e determinasse quantos deles havia. O propósito era calcular o volume da oferta que se levantaria para a obra do Senhor, para compensar o fato de os levitas representarem um pouco menos de 10% da população de Israel. Visto existirem 22 mil das outras tribos (v. 43), isso significava que uma oferta de 22.273 vezes por cinco siclos deveria ser apresentada para as despesas do tabernáculo. (Essa é, na verdade, a origem do chamado imposto do templo, que ainda hoje é pago pelos judeus em todo o mundo.)

Delitzsch (Keil e Delitzsch, Pentateuco, 3.9-13) salienta que essa exigência era aplicada apenas aos bebês nascidos após o começo do êxodo; não deve ter sido retroativo. Então, de um total de 603550 homens, deveria haver dentro de um ano, mais ou menos, cerca de 19 mil novos



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casamentos. Se no caso de alguns desses casais ocorressem duas gestações, o número provável de nascimentos de bebês do sexo masculino teria sido 22 mil ou um pouco mais. Essa quantidade concorda com o número de 22.273.

Outra base para o argumento em prol de uma população menor para os hebreus em Gósen é o registro de Êxodo 1.15, segundo o qual duas parteiras foram suficientes para atender a todos os casos de parto na comunidade. Essa observação é bastante válida. Muito mais que duas parteiras seriam necessárias para cuidar de uma população de mais de dois milhões de pessoas. E é certo que esse fato era tão óbvio para um autor do século viii a.C. (como o putativo "Eloísta") como o é para nós. Duas parteiras teriam sido insuficientes para cuidar até mesmo de uma comunidade de trinta mil homens, mais suas esposas e filhos. É óbvio que Sifrá e Puá serviam na posição de superintendentes administrativas para supervisionar uma grande equipe obstétrica que atenderia a toda a comunidade israelita. É inconcebível que todo o corpo de parteiras reportasse diretamente ao rei; ao contrário, o faraó mantinha o controle de suas atividades mediante supervisoras aprovadas. Isso se coaduna com o que sabemos a respeito da estrutura altamente burocrática do governo egípcio antigo. Seus documentos referem-se a supervisores (o termo egípcio para supervisor era ìmy-r’ "aquele que é a boca" de seu empregador ou patrão) para praticamente todas as funções, profissões ou ofícios conhecidos na sociedade egípcia. Tinham a responsabilidade de reportar ao governador distrital em que serviam e dele receber ordens. Isso invalida completamente o argumento baseado no número pequeno de parteiras.

Outra dificuldade para se aceitar uma congregação israelita de mais de dois milhões deriva do grande tempo que teria sido necessário para uma multidão desse tamanho caminhar de um ponto a outro, numa longa viagem, como nos relata o Pentateuco. Por exemplo, como poderia uma imensa quantidade de pessoas atravessar a mar Vermelho (ou o "mar dos juncos", como diz o hebraico) tão rapidamente como Êxodo 14.21-24 parece indicar? O vento do leste, muito árido, secou parcialmente o leito úmido do mar (depois de as águas terem sido miraculosamente afastadas para longe do ponto em que o povo atravessaria) durante uma noite inteira (v. 21); só depois disso, parece, os israelitas puderam atravessar o leito seco do mar.

Pode ter sido pela quarta vigília (i.e., entre três e seis horas) do dia seguinte que as carruagens egípcias começaram a cruzar aquele mesmo caminho em perseguição aos israelitas. Isso significa que os hebreus tiveram apenas 24 horas para realizar a travessia. Pareceria impossível, caso eles tivessem que se manter na faixa seca, pavimentada de alguma forma, para que nela pisassem. Mas nessa situação não poderia haver estradas ou caminhos pavimentados de tipo algum (que lógica haveria em uma estrada que conduzisse às águas do mar?); e eles precisavam prosseguir a jornada, por um terreno áspero, após levantarem aquele acampamento. A manobra se assemelharia à de um grande exército movimentando-se a fim de batalhar contra o inimigo: a linha de frente deveria estender-se por três ou quatro quilômetros, enquanto todos se moviam juntos, inclusive o gado. Com isso, teriam perdido poucas horas à espera, numa longa fila. A multidão movia-se para a frente, como um exército gigantesco que avançasse contra as linhas de combate. Se foi assim que o povo se movimentou, não houve problema de tempo.

A mesma observação se aplica às movimentações do dia-a-dia dos israelitas, ao longo dos quarenta anos de peregrinação. Se o povo se mantivesse alojado de modo compacto, numa única coluna, ao acampar à noite, seria preciso pouco tempo, algumas horas, para que quem estivesse no fim da fila começasse a movimentar-se para a frente. Sabemos, porém, por Números 2.3-31, que os israelitas acampavam em um quadrilátero, com três tribos a leste do tabernáculo, três ao sul, três a oeste e três ao norte. Assim, estavam distribuídos à semelhança de uma enorme força expedicionária composta de tropas no centro, na vanguarda e na retaguarda, além de duas asas laterais. Quando os soldados precisavam lutar, não era preciso muito tempo para chegar à linha de frente para o combate corpo


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a corpo. Não procuravam estradas pavimentadas, mas simplesmente prosseguiam ao longo do solo áspero e acidentado (se fosse necessário), preservando as fileiras com todo o cuidado. Não podiam encontrar estradas pavimentadas no caminho para o Sinai (a não ser a do rei, talvez), as quais só teriam sido utilizadas por veículos de rodas — de que os israelitas teriam uns poucos. Portanto, se o povo se pusesse em marcha simultaneamente após ter ouvido soar a trombeta, no início do dia, poderia cobrir com facilidade quinze quilômetros ou mais sem esforçar demais as crianças e o gado. Não havia necessidade de esperar em fila a vez de movimentar-se.

Tem-se ouvido muito a voz dos céticos, que criticam o texto sagrado e negam a historicidade de exércitos tão grandes como os que a história de Israel registra nos períodos subseqüentes. Por exemplo, na batalha de Maressa (2Cr 14.8-12), está escrito a respeito do rei Asa, de Judá, que enfrentou Zerá, o etíope, com 580 mil homens, contra um contingente inimigo de um milhão de soldados. Também, nos dias do rei Davi, as dez tribos contariam com 800 mil e Judá mais 500 mil, totalizando 1.300.000 homens em armas, no início do século x a.C. O rei Peca de Israel matou 120 mil soldados de Judá numa única batalha e aprisionou outros 200 mil, na época do rei Acaz (2Cr 28.6-8). Os estudiosos modernos tendem a lançar dúvidas sobre números tão grandes, achando que o cronista apreciava o exagero freqüente, em seu zelo de glorificar o passado de Israel.

Respondendo a essas acusações de irrealidade nas estatísticas, apresentamos as seguintes observações:

1. O autor, caso tivesse vivido algumas centenas de anos após os eventos que descreveu — e até mesmo se registrasse fatos contemporâneos — estaria em melhor posição quanto à certeza dos fatos que um cético moderno, que se encontra separado desses fatos por três mil anos ou mais.

2. Os critérios modernos de viabilidade ou inviabilidade de nada servem se tiverem como fundamento a certeza de que o inusitado nunca acontece.

3. As deduções com base em observações e experiências recentes podem conduzir a resultados completamente falsos. Não é certo presumir, pelas condições climáticas prevalecentes na Terra Santa a partir de 500 d.C, que a região nunca foi mais fértil e que tampouco poderia ter sustentado grandes populações em épocas mais remotas. Evidências geológicas e arqueológicas parecem indicar que os níveis de chuva flutuaram de modo extraordinário a partir do terceiro milênio a.C. O diário a respeito das condições do tempo, de Cláudio Ptolemeu, de Alexandria, no século i d.C, mostra que nessa época, a seca do verão era mais curta que hoje, com mais tempestades e trovões; o vento norte soprava mais durante o inverno que atualmente (cf. Denis Baly, Geography of the Bible, ed. rev., New York: Harper, 1974, p. 66-7). Há indícios de que de 4500 a 3500 a.C. prevaleceram condições de tempo seco e quente; de 3500 a 2300 a.C, houve um período mais frio e úmido; ter-se-iam seguido trezentos anos de seca (a migração de Abraão para o Egito seria testemunha disso). Pelos dois mil anos seguintes choveu, mas o incremento das atividades humanas teria obscurecido as evidências da verdadeira extensão da flutuação das condições climáticas de um século para outro (ibid., p. 68). Todavia, variáveis desse tipo indicam que a descrição freqüente da área como "terra que mana leite e mel" era bastante plausível, pois aponta para um nível de chuva maior no tempo de Moisés que no de Abraão. Quanto mais fértil e produtiva se torna uma área cultivável, maior a população que ela pode sustentar.

4. Outras fontes antigas atestam a existência de grandes exércitos, sempre que eram implementados projetos militares de magnitude especial. Os registros egípcios não são de muita valia a esse respeito, visto que salvo a inscrição da sexta dinastia de Uni (Pritchard, anet, p. 228), a qual declara que o rei Papi i enviou à Ásia uma força expedicionária formada de "muitas dezenas de milhares", os faraós se limitavam a produzir listas de


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prisioneiros arrebatados dos exércitos inimigos. Até mesmo Tutmés iii, em seu relato da batalha do Megido (por volta de 1468 a.C), deixa de mencionar o tamanho dos exércitos em guerra (ibid., p. 235). Diga-se o mesmo a respeito de Rameseés ii, em seu auto-elogio no relatório da batalha de Cades, em que paralisou o avanço dos hititas na direção sul; ele simplesmente se refere a três divisões separadas do exército que se envolveram no conflito (ibid., p. 255, 6). No que concerne aos registros assírios, os reis aparentemente nunca se referem ao tamanho de suas próprias tropas, mas se limitam a enumerar a quantidade de inimigos mortos e de prisioneiros. No entanto, no relato da batalha de Carcar, em que lutou contra Ben-Hadade e Acabe, em 853 a.C, Salmaneser iii declara que Adadizri (nome que dá a Ben-Hadade) tinha 20 mil soldados de infantaria, 1.200 na cavalaria e 1.200 carruagens; Acabe tinha 10 mil soldados a pé e duas mil carruagens; o rei de Hamate contribuíra com 10 mil soldados de infantaria, setecentos de cavalaria e 700 carruagens (ibid., p. 278, 9). Além disso, havia vários contingentes de nove outros reis unidos contra os assírios em Carcar; Salmaneser afirma ter matado 14 mil inimigos e perseguido o resto. Em outra batalha, afirma ele ter matado 20.900 dos guerreiros de "Hadezer" (ibid., p. 280). Senaqueribe, em sua campanha de 701 a.C. contra Ezequias e seus aliados filisteus, afirma haver deportado 200.150 prisioneiros para a Assíria (ibid., p. 288). Seu pai, Sargão ii, tomou 27.290 prisioneiros de Samaria em 721 a.C. (ibid., p. 285). Não existem números referentes às tropas persas na inscrição da pedra Behistun, de Dario i (c.e 495 a.C).

Quanto aos historiadores gregos, Heródoto (História 7) declara que, quando Xerxes, rei da Pérsia, passou em revista suas tropas para a invasão da Grécia, "verifícou-se que o exército de infantaria se compunha de 1.700.000 soldados". Chegou-se a esse total contando e separando grupos de 10 mil, até que todos houvessem sido enumerados. A força naval incluía 1.207 trirremes, e havia contingentes vindos do Egito, de Chipre, da Fenícia e de muitas outras áreas marítimas. Quanto aos grupamentos bélicos envolvidos nas campanhas de Alexandre, o Grande, a maior batalha em que ele se engajou foi, provavelmente, a de Gaugamela, em 331 a.C. Arriano calculou que a infantaria de Dario iii seria de cerca de um milhão de soldados, mais quarenta mil cavalarianos. Alexandre o derrotou com apenas quarenta mil soldados de infantaria e sete mil cavalarianos (Charles Anthon, A classical dictionary, containing an account of the principal proper names mentioned in ancient authors, New York, Harpers Bros., 1871, p. 107).

Mediante esses registros, sabemos que nem mesmo o exército de Zerá, o etíope, tinha um tamanho considerado incrível para uma grande força de invasão (cf. 2 Cr 14.9). A partir do número de prisioneiros deportados pelos assírios, deduzimos que havia uma quantidade elevada de habitantes na Palestina, nos séculos viii e vii a.C. Portanto, é erro fazer inferências a partir de restos arqueológicos — como têm feito alguns especialistas — que indicariam ter havido uma população escassa no Oriente Próximo nesse período. Uma descoberta muito interessante de escavações recentes em Ebla foi um jogo de tabletes com inscrições cuneiformes (publicada por G. Pettinato e P. Matthiae, em "Aspetti Amministrativi e Topografici di Ebla nel iii Millennio Av.Cr.", Rivista degli studi orientali, 50 [1976]: 1-30), um dos quais relaciona os superintendentes e prefeitos das quatro maiores divisões dessa capital, em 2400 a.C. A partir desses dados, estima-se que a população de Ebla seria de cerca de 260 mil habitantes (cf. Heinrich von Siebenthal, Die kóniglichen Tontafelarchive von Tell Mardikh-Ebla n. 38, trad. para o francês por Suzanne Ruckstuhl, aparecendo como quadro 4, em G. Archer, Introduction à l'Ancien Testament, Ed. Emmaus [Suíça: St. Legier, 1978], p. 570-85; cf. também G. Pettinato, "The royal archives of Tell Mardikh-Ebla", Biblical Archeologist, 39 [2, 1976]; 44-52). Isso faz com que seja aceitável a população estimada de Nínive, nos dias de Jonas, "de cento e vinte mil pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da mão esquerda..." (Jn 4.11) — i.e.,


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crianças e bebês. Isso indicaria um número total de quase um milhão de habitantes só na Grande Nínive.

Tais referências a populações numerosas aparentemente removem toda a base em que o ceticismo se apóia para forjar suas críticas e questionar a exatidão dos números do at. Ao mesmo tempo, é digno de nota que os registros históricos hebreus parecem quase singulares, comparados com a literatura antiga do Oriente Próximo, ao fornecer o número de soldados envolvidos nas várias invasões e batalhas registradas do at. E, diga-se de passagem, é um tanto difícil fazer uma comparação bem documentada entre os registros israelitas e os demais, acerca dos soldados engajados em batalhas ou computados em recenseamentos internos, visto não existirem relatórios semelhantes oriundos de fontes pagãs relativos aos mesmos períodos.



Os levitas iniciavam o serviço no templo aos 30 (Nm 4.3), aos 25 (Nm 8.24) ou aos 20 anos (Ed 3.8)?

Números 4.3 afirma com clareza: "Contem todos os homens [levitas] entre trinta e cinqüenta anos, aptos para servir, para que façam o serviço da Tenda do Encontro". Só estaria apto para o trabalho "na Tenda do Encontro", i. e., no auxílio aos sacerdotes no transporte e manutenção do mobiliário e das vasilhas sagradas do tabernáculo, os que tivessem pelo menos trinta anos de idade.

Em Números 8.24, no entanto, está registrado o seguinte, a respeito do serviço dos levitas no santuário: "Isto diz respeito aos levitas: os homens de vinte e cinco anos para cima, aptos para servir, tomarão parte no trabalho que se faz na Tenda do Encontro". Jamieson (Jamieson-Fausett-Brown, Commentary, ad loc.) sugere o seguinte: "Eles iniciavam o trabalho aos 25 anos de idade, como aprendizes, para obter experiência, sob a supervisão e direção de seus irmãos mais velhos; aos trinta anos, eram admitidos ao trabalho integral, ao desempenho pleno de suas funções oficiais". Tal inferência, tirada de uma cuidadosa comparação entre as duas passagens, parece razoabilíssima. pela analogia com o período de treinamento pelo qual passam os candidatos para o ministério sagrado antes de receberem a ordenação, com o direito de batizar ou desempenhar funções exclusivas do ministro, como cerimônias de casamento e outras.

Durante cinco anos, os levitas mais jovens tinham a oportunidade de observar os procedimentos e princípios seguidos por aqueles que já estavam totalmente engajados nas responsabilidades sacerdotais — o método adequado de movimentar um castiçal, a mesa dos pães da proposição, os dois altares, e assim por diante —, bem como a disposição correta de vasos e jarras, colheres e incensários, azeites sagrados e água da purificação e tudo o mais. Também havia as tarefas rotineiras, pouco agradáveis, relacionadas à manutenção do tabernáculo e o atendimento aos que vinham adorar a Deus pelo culto e pelo sacrifício, diante do altar. Parece que o jovem Samuel, ainda que fosse um menino de muito menos de 25 anos, estava empenhado na realização dessas tarefas, tendo recebido ainda algumas responsabilidades particulares como empregado da casa de Eli (1Sm 3.1). Em outras palavras, havia muitos tipos de serviço, divididas em muitas graduações, a serem realizados pelos levitas menores, até que tivessem idade suficiente para iniciar o aprendizado oficial aos 25 anos.

Quanto aos levitas a que Esdras se refere (Ed 3.8), dois fatos precisam ser cuidadosamente levados em conta. O primeiro é que tanto em Esdras 2.40 quanto em Neemias 7.43, o número de levitas envolvidos no retorno da Babilônia era de apenas 74. Havia uma quantidade substancialmente maior de guardadores dos portões e serviçais do templo e de sacerdotes que decidiram voltar para Jerusalém, os quais chegavam a 4.289 indivíduos (Ed 2.36-39). Portanto, havia falta de levitas, pelo que seria apropriado fazer com que os menores de 25 (entre vinte e 25 anos) fossem cooperar, a fim de que houvesse um número adequado de levitas e supervisores dos edificadores engajados na restauração do templo.

O segundo fator que devemos notar é que tais levitas na verdade não se empenhavam no ministério do sacrifício e do culto; estavam simplesmente envolvidas no projeto de edificação, como conselheiros ou feitores. Ainda não havia santuário, pelo que não podiam oficiar nos holocaustos; por



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isso, dificilmente se poderia levantar a questão de tais levitas não terem ainda 25 anos. Assim, vemos não existir realmente qualquer discrepância ou contradição com respeito aos três limites de idade citadas nas passagens acima, visto que cada um se aplica a um nível diferente de serviço e autoridade.


Como pôde Deus punir os israelitas pelo fato de comerem as codornizes que ele próprio lhes havia providenciado, miraculosamente, como alimento? (Nm 11.31-34)

Se lermos o relato inteiro de Números 11, com todo cuidado, entenderemos por que Deus ficou tão desgostoso com os hebreus queixosos, que se revelaram cansados do suprimento diário de maná e suspiravam por uma dieta de carne e vegetais (v.4-9). O próprio Moisés estava tão insatisfeito com a ingratidão e as queixas do povo que se dispôs a renunciar à responsabilidade de líder. Por isso, Deus o animou, delegando as ordens a um grupo de apoio formado por setenta homens piedosos; a seguir, o Senhor lhe disse como iria agir com aquele povo rebelde e descontente. Ele lhes daria o que estavam pedindo e assim os levaria a ver como foram tolos ao desprezar o alimento bom e suficiente que o Todo-Poderoso preparara para seu povo. Salmos 106.15 relembra o episódio: "Deu-lhes o que pediram, mas mandou sobre eles uma doença terrível [ou enviou definhamento à alma deles']". Em outras palavras, a fim de ensinar ao povo uma lição preciosa, de que tanto precisava, o Senhor achou por bem dar aos descontentes exatamente o que reclamavam — em vez de conceder-lhes o que era o melhor naquelas condições.

O resultado foi um bando gigantesco de codornizes num vôo sobrenatural, empurrado por um vendaval até o acampamento, à altura de dois cúbitos (cerca de um metro) acima da superfície do solo (v. 31). (A preposição ‘al antes de "sobre a terra" (ra) foi corretamente traduzida, com o sentido de "acima" da terra.) Voando tão baixo, forçadas por um vento forte, foi fácil para os israelitas abatê-las a cacetadas, e apanhar quantas quisessem — chegando a dez ômeres (3, 5 m3 cúbicos de carne, para quem colheu menos). É claro, no entanto, que um número tão grande de aves mortas no deserto traria o inevitável: elas começaram a apodrecer, a despeito dos esforços do povo em transformá-las em carne seca, ressecando-a ao sol, o que poderia preservá-la indefinidamente (v. 32). Não é de admirar, pois, que começassem a sofrer de envenenamento alimentar e de outras doenças, tão cedo se pusessem a mastigar um alimento desconhecido, a que não estavam acostumados. Por fim, um grande número de pessoas morreu dessa praga, e seus cadáveres tiveram de ser enterrados ali mesmo, no deserto; o lugar passou a chamar-se QiḇrôṯHatt’avāh, "Sepulturas do Desejo").

Como pode Números 12.3, com sua ênfase à humildade de Moisés, ser um comentário da própria pena do legislador?

Exceto Deuteronômio 34 (talvez um obituário escrito após a morte de Moisés), nenhuma outra passagem do Pentateuco tem sido mais freqüentemente mencionada como evidência de autoria não-mosaica. Depois do desafio à autoridade singular de Moisés, como porta-voz de Deus (registrado em Nm 12.1, 2), a sua humildade é declarada no versículo 3: "Moisés era um homem muito paciente, mais do que qualquer outro que havia na terra". É inquestionável que a primeira impressão produzida por essa declaração sobre o caráter do grande líder é que se trata de um adendo biográfico feito por algum grande admirador, que o tenha conhecido bem, em vez de pelo próprio Moisés, auto-elogiando-se. (A ra diz "manso" em vez de "humilde".) M. G. Kyle ("Moisés", International standard Bible Encyclopedia, Grand Rapids, Eerdmans, 1939, p. 2.090), tende a favorecer essa explicação; até mesmo Jamieson (Jamieson-Faussett-Brown, ad loc.) admite a possibilidade de uma inserção por algum profeta posterior. Mas ele também cita as passagens paralelas de 2 Coríntios 11.5; 12.11, 12, em que o apóstolo Paulo é compelido pela insolência e desprezo de seus detratores a enfatizar a excelência e distinção do próprio caráter.

De maneira semelhante, Elmer Smick (Wycliffe Bible commentary, p. 129) crê na possibilidade de


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esse comentário ter sido feito por um shōṭēr divinamente inspirado ([Nm] 11.16). No entanto, ele salienta que esse capítulo "ensina que o profeta tinha um relacionamento tão íntimo com Deus que podia falar a verdade objetivamente quando esta lhe era revelada, ainda que se tratasse de sua própria natureza [humana]".

Haley (Alleged discrepancies, p. 248) faz esta observação:

Moisés, sob o impulso do Espírito Santo, estava escrevendo a história "objetivamente". Daí ele falar tão livremente de si próprio como o faria de qualquer pessoa. Observe-se, além disso, que ele registra suas faltas e seus pecados com a mesma fidelidade e imparcialidade: "Assim como ele se gaba aqui, sem orgulho, da mesma forma ele se culpa, em outras passagens, com humildade". As contestadas palavras foram incluídas a fim de explicar por que Moisés não tomou providências para vingar-se e por que, conseqüentemente, o Senhor interveio tão depressa.

É certo que em outras autobiografias antigas, nas quais o autor fala de si mesmo na terceira pessoa, aparecem auto-avaliações que nos surpreendem; é que elas contrastam com as referências usuais do próprio escritor a seu próprio caráter. Assim, na obra de Júlio César, " Guerra civil" (A guerra alexandrina 75), ele fala de seu próprio desconcerto diante do ataque inesperado das tropas de Pharnaces, no Ponto, dizendo: "César ficou espantado diante dessa incrível temeridade — ou auto-confiança. Ele fora apanhado desprevenido; ele estava simultaneamente impelindo as tropas para longe do forte [onde estiveram aquarteladas], ordenando que se armassem, que as linhas se desdobrassem em formação de combate". Em outras palavras, César havia subestimado o inimigo e, por isso, fora apanhado "desprevenido". Comumente ele se apresenta como exemplo de previsão e grande estrategista, pelo que seu comentário depreciativo sobre sua própria pessoa causa grande surpresa.

No que concerne a Números 12.3, deve-se observar que o fato de Moisés não fazer sua própria defesa, nem mesmo quando colocado sob tremenda pressão por Arão e Miriã, exige uma explicação especial. A razão encontra-se na libertação total do orgulho, na entrega completa de Moisés ao Todo-Poderoso, como seu vingador e protetor. Qualquer outro líder na posição dele certamente teria reagido com violência, mas esse homem de Deus colocou o caso nas mãos do Senhor. Na verdade, precisamos da informação contida no versículo 3 a fim de termos uma explicação para a espantosa humildade de Moisés nessa situação. Portanto, não nos parece provável que o versículo 3 represente uma interpolação, pois de fato ele nos dá a chave para que compreendamos o episódio em foco.

A missão dos doze espias iniciou-se em Parã (Nm 13.3) ou em Cades-Barnéia (Nm 20.1)?

As duas declarações estão corretas. O deserto de Parã estende-se do porto de Elate até o golfo de Ácaba, no sentido norte-nordeste, atravessando Naal Parã e Har Ramom (cf. Baly, Bible geography, p. 34), incluindo a região de Cades-Barnéia, que fica na mesma latitude de Punom (ibid., p. 95). Portanto, os espias iniciaram a viagem em Cades, que fica no deserto de Parã (cf. Nm 13.26: "... em Cades no deserto de Parã").



Como poderia Moisés ter dado a Oséias o nome de Josué, em Números 13.16, se este já havia sido chamado "Josué" em Êxodo 17.9 e 24.13?

Não existe nenhuma dificuldade aqui, porque a composição final de Êxodo por Moisés, sem dúvida alguma, ocorreu próxima ao fim dos quarenta anos de peregrinação. Ainda que Josué não tenha adquirido esse nome da parte do legislador senão bem mais tarde, na peregrinação entre o Egito e Canaã, em retrospecto teria sido muito natural que houvesse referência a Josué pelo nome que ele recebera à época em que Êxodo foi composto por Moisés. Acrescente-se que Yehôšûa ("Iavé é salvação") é quase o mesmo nome de Hôšēa ("salvação"), pois ambos derivam da mesma raiz yāša‘.



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Por que os espias israelitas descrevem Canaã como uma terra que devorava seus habitantes (Nm 13.32), se na verdade era fértil e produzia leite e mel (Nm 13)?

Obviamente, seria uma interpretação errônea tomar a expressão de Números 13.32, segundo a qual Canaã era uma terra que "devora os que nela vivem" como significando uma região paupérrima que de forma alguma poderia alimentar sua população. Nesse contexto, só pode significar que sua extraordinária fertilidade (usufruindo um nível de precipitação superior ao dos últimos séculos) fazia com que aquela área fosse altamente desejável a nações e povos de forte competitividade, o que a tornava um centro de disputa encarniçada. As tribos rivais combatiam entre si pela posse dessa região fértil e sofriam desastrosas baixas pela guerra contínua. Não há contradição aqui. A descrição de Canaã como sendo uma terra que produz leite e mel ocorre pelo menos treze vezes no Pentateuco e também em Josué, Jeremias e Ezequiel. Não há absolutamente base alguma para que se interprete a metáfora de Números 13.32 como tendo relação com pobreza e fome.



Se quase toda a geração adulta de Israel pereceu durante os 40 anos de peregrinação no deserto, por que essa região não está recoberta de sepulturas (Nm 14.34, 35)?

Sob a condição de nômades em que os israelitas atravessaram o deserto, mudando-se constantemente de um lugar para outro, não havia meio de edificar sepulturas duráveis, bem feitas, à medida que a geração mais velha ia morrendo. Nem as covas rasas, quase à superfície da areia, nem o pedrisco, poderiam preservar os esqueletos durante muito tempo, ainda que os cadáveres tivessem sido poupados da violação pelos animais e aves que se alimentam de carniça (o que é duvidoso). Nenhuma escavação, em parte alguma do mundo, conseguiu exumar cadáveres identificáveis, em condições semelhantes às das israelitas no deserto, e teria sido surpreendente se houvesse exemplos. A inexistência de sepulturas rasas e desprotegidas, como seria de esperar, de modo nenhum é evidência contra a veracidade histórica do registro bíblico, segundo o qual todos os adultos que se envolveram na rebelião de Cades-Barnéia faleceram antes da travessia do rio Jordão, sob o comando de Josué — exceto, é claro, Calebe e o próprio Josué.



Teriam os israelitas sob o comando de Moisés passado "ao largo" de Edom (Nm 20.14-21; Dt 2.8) ou apenas o atravessaram (Dt 2.4-7)?

Aparentemente, ambas as declarações são verdadeiras, como seria de esperar, à vista do fato de que as duas preposições são usadas na mesma passagem. Diz Deuteronômio 2.4: "E diga ao povo vocês estão passando pelo [ou 'passarão por em'; hb., ‘ōberîm bigebûl] território de seus irmãos, os descendentes de Esaú, que vivem em Seir. Eles terão medo de vocês...". Os dois versículos seguintes explicam que Deus não permitiria que os hebreus se apossassem de qualquer parte do território de Edom, visto tê-lo concedido a Esaú como possessão permanente. Todavia, deveriam comprar água e alimento e obter permissão para marchar pela via internacional, conhecida como estrada do Rei, que cortava o domínio edomita.

A reação do rei dos edomitas foi negativa. Ele chegou a reunir suas tropas para impedir que os israelitas usassem a estrada no trecho que cortava o país. Números 20.21 declara: "Visto que Edom se recusou a deixá-los atravessar o seu território, Israel desviou-se dele". Mais tarde, Moisés se lembraria desse episódio e diria: "Assim, passamos ao largo de nossos irmãos, os descendentes de Esaú, que habitam em Seir. Saímos da rota da Arabá [i.e., a estrada do Rei], de Elate e de Eziom-Geber. Voltamos e fomos pela rota do deserto de Moabe" (Dt 2.8). Entendemos, portanto, que a linha de marcha conduzia à fronteira oriental de Edom, até os limites de Moabe (território pelo qual Deus também proibiu aos israelitas forçar a passagem, visto ter sido concedido à posteridade de Ló, ancestral de Moabe).


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Então, como teria Israel passado pelo território de Edom (como o afirma Dt 2.4)? Atravessaram-no por que já estavam dentro dele, quando conversaram com seus representantes. Talvez até já houvessem comprado um pouco de água e de alimento de seus habitantes, antes de o governo proibir-lhes o uso da estrada do Rei, na direção norte, até Moabe e a planície de Sitim. Diante disso, os hebreus não forçaram caminho por ali, ainda que seu exército pudesse vencer facilmente as forças edomitas. Evitaram, portanto, utilizar a estrada e desviaram-se para leste, subindo pela fronteira oriental (é o que provavelmente fizeram), ao longo do solo rude e esburacado do deserto siro.

Se o exército de Israel era de fato tão grande, como poderiam os edomitas tê-lo impedido de entrar e exigido que se desviassem? Como poderiam os cananeus ter-lhe apresentado tanta dificuldade na conquista da Terra Prometida? (Nm 20.14-21; Js 7).

Segundo Números 26, as forças armadas de Israel totalizavam 601.730 soldados que, com toda certeza, excediam o número da tropa que Edom poderia reunir para enfrentá-los. Mas Números 20.14-21 nada diz em absoluto a respeito de uma guerra entre os dois exércitos. Por isso, é evidente que Moisés e seus soldados tinham se desviado de Edom simplesmente porque os edomitas se recusaram a permitir que os israelitas passassem pelos seus domínios. Os hebreus queriam chegar a Moabe, ao norte, à margem oriental do Jordão. Diz o versículo. 21: "Visto que Edom se recusou a deixá-los atravessar o seu território, Israel desviou-se dele". É evidente que o povo de Deus respeitou o direito que tinham os edomitas (com quem era aparentado de longe por meio de Abraão) de recusar-lhe passagem (se nisso insistisse) pelo seu território.

Quanto à conquista de Canaã, a única derrota que Israel sofreu foi a de Ai. Os defensores dessa cidade expulsaram a força expedicionária israelita, que não contava com mais de três mil soldados (Js 7.4). Israel sofreu 36 baixas — o que dificilmente se poderia chamar de grande derrota militar! As demais batalhas foram coroadas de pleno êxito. Israel venceu todas. Nenhum país jamais foi vencido com tanta facilidade como a região de Canaã, que se dobrou perante as forças israelitas. Quanto à capacidade do território para sustentar tanta gente, conforme o registro no livro de Josué, devemos lembrar que as condições modernas não servem de medida confiável quanto ao potencial das terras antigas. Em nosso século, grandes e belas cidades da época dos romanos têm sido desenterradas das areias do norte da África; são hoje áreas totalmente desertas por causa da decrescente precipitação pluviométrica. O solo de Israel, hoje, é muito fértil na maioria de seus vales, declives e planícies, mas desde que haja irrigação adequada. Baly (Biblegeography, p. 67) reproduz uma pesquisa de Alan Crown, segundo a qual a Palestina era sujeita a condições adversas de seca, entre 2300 e 2000 a.C., mas que "talvez houvesse mais chuva naquela área depois dessa época". Baly (p. 68) conclui seu estudo sobre o clima da Palestina com estas palavras:

Infelizmente, as evidências de flutuações climáticas ficam cada vez mais obscuras a partir do ano 2000 a.C, por causa da crescente atividade humana na região. Todavia, devemos estar atentos e tomar a máxima cautela em não presumir que os números referentes ao clima, que damos neste livro [referentes aos últimos cem anos mais ou menos] possam ser usados, sem mudança alguma, com referência ao período patriarcal, ao monárquico, ao do nt ou a qualquer outro subseqüente. De modo algum o clima da Palestina permaneceu estacionário durante quatro mil anos. Essa constância, podemos afirmar com toda confiança, seria impossível.

A probabilidade de maiores índices pluviométricos durante o segundo milênio a.C. nas áreas da Síria e da Palestina torna bastante viável que esse território tenha sustentado uma grande população, a qual era protegida por grandes exércitos. Essa região teria absorvido, portanto, todas as tribos israelitas, após a derrota dos cananeus. A atual população de Israel é consideravelmente maior que a dos povos dos tempos antigos,


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segundo os números da própria Bíblia. Portanto, não se deve dar crédito ao ceticismo de quem nega os dados bíblicos. Além disso, houve descobertas recentes na cidade síria de Ebla, indicando conclusivamente que a população dessa cidade no ano 3000 a.C. era de pelo menos 260 mil habitantes (cf. K.A. Kitchen, The Bible in its world [Downers Grove, 111., Intervarsity, 1977], p. 39, 40).

Lemos em Números 22.17-23 que Balaão disse aos mensageiros do rei Balaque, de Moabe, que jamais faria (ou diria) algo que contrariasse as ordens de Deus; por que, então, o Senhor enviou o seu anjo para matá-lo? (Nm 22.23) [d]

Deus enviou seu anjo a Balaão com uma advertência severíssima: ele não deveria falar o que Balaque desejasse (a saber, uma maldição contra as tropas de Israel). Que proferisse tão somente a mensagem do Senhor, um pronunciamento de bênção sobre a nação da aliança, os filhos de Jacó. Esse encontro, no caminho estreito de uma montanha, tinha o objetivo de servir de lembrete a Balaão: ele jamais deveria transmitir outra mensagem a Israel senão a que o Senhor estava prestes a revelar-lhe na presença dos moabitas e midianitas. Porém, à vista de seus próprios motivos, ao dirigir-se a Balaque, a despeito de inicialmente se haver negado a negociar com esse rei pagão (Nm 22.13), tornou-se culpado ao desejar acatar o pedido desse monarca em vez de obedecer às ordens de Deus, por amor às riquezas e honrarias terrestres que o perverso soberano lhe havia prometido, à guisa de propina. Balaão deixou-se subornar, em vez de ouvir a voz de Deus.

É certo que finalmente Deus havia, de má vontade, permitido a Balaão que descesse ao país de Moabe, a fim de repetir fielmente a verdadeira mensagem divina na presença de Balaque e dos moabitas (v. 20). Entretanto havia uma luta feroz entre o dever e a avareza na sua alma; foi preciso que o Senhor o lembrasse, de forma pungente que, caso falhasse e não cumprisse a obrigação recebida de Deus, o resultado seria a morte imediata. Foi por isso que ocorreu o incidente dramático no estreito da montanha. O Todo-Poderoso usou uma jumenta como seu porta-voz a fim de repreender o profeta teimoso e adverti-lo do perigo mortal a que se expunha.

Não seria anacrônica ao menção ao rei Agague em Números 24.7, em vista de ter ele sido contemporâneo de Saul, no século xi a.C. (1Sm 15.8)?

Provavelmente "Agague" não se refere a um nome pessoal. Pode ter sido um título de realeza entre os amalequitas, semelhante a "faraó" entre os egípcios e "César" no meio dos romanos. É claro que esse último título originalmente era o nome de Gaius Julius Caesar. Agague tem sido encontrado como nome (ou seria título?) em inscrições fenícias (cf. Corpus inscriptionum semiticarum i. 3196), num local e tempo demasiado distantes dos midianitas do sul, que haviam sido varridos pelo exército de Saul. Todavia, ainda que o nome o qual aparecesse na família real dessa parte da nação midianita fosse de realeza, esse fato não seria mais notável que a ocorrência do nome Jeroboão, como sendo o do rei de Israel, que reinou de 793 a 753 a.C, em vez do que governou no país do norte em 931 a.C. Existe uma sucessão, semelhante a essa, de nomes reais na Fenícia (dois ou mais reis chamados "Hirã" ou "Airão"), na Síria (há pelo menos dois Ben-Hadades) em Gerar, na Filístia (existe pelo menos dois Abimeleques), e no Egito (onde houve três faraós chamados Senwosret e quatro Amenemhet, só na xii dinastia; na xviii dinastia, houve quatro chamados Tutmés e mais quatro chamados Amenotepe). Embora não haja registros escritos da cultura midianita, podemos com segurança afirmar que eles também seguiram o costume de usar com freqüência um determinado nome popularizado em sucessivas gerações.



Quantas pessoas morreram pela praga decorrente da apostasia em Baal-Peor?

Números 25.9 indica que, pelo julgamento divino sobre os adoradores de Baal, em Baal-Peor,



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nada menos de 24 mil pessoas morreram em decorrência de uma praga. Alguns supõem que 1 Coríntios 10.8 se refira ao mesmo episódio, mas aqui o registro menciona apenas 23 mil. Essa, todavia, é uma objeção sem fundamento, visto que a passagem de 1 Coríntios não se refere ao incidente de Baal-Peor (Nm 25.1-8). Trata-se, na verdade, da praga que se seguiu à apostasia em torno do bezerro de ouro. o que se torna claro por causa do versículo anterior (v. 7): "Não sejam idólatras, como alguns deles foram, conforme está escrito: 'O povo se assentou para comer e beber, e levantou-se para se entregar à farra'". Refere-se à citação direta de Êxodo 32.6, pelo que a identificação do incidente está fora de discussão.

É interessante que Êxodo 32.35 não dê o número dos que pereceram pela praga oriunda da adoração do bezerro de ouro. O texto diz simplesmente: "E o Senhor feriu o povo com uma praga porque quiseram que Arão fizesse o bezerro". Só na passagem do nt (1 Co 10.8) encontramos o número dos que morreram em conseqüência da peste, a saber, 23 mil. Não há absolutamente nenhuma contradição; trata-se de dois episódios diferentes!



Existe algum registro bíblico a respeito de onde a tribo de Dã se fixou afinal? [d]

À época do segundo recenseamento, conforme registro de Números 26.42, a população militar da tribo de Dã chegara à cifra considerável de 64.400 homens (v. 43). A eles havia sido entregue um território um tanto restrito, entre a fronteira ocidental de Judá e as praias do Mediterrâneo, inclusive a parte norte da Filístia (Js 19.40-46). Essa região singular, no entanto, era muito fértil e bem regada por excelente precipitação pluviométrica; devia proporcionar boas colheitas, suficientes para sustentar uma tribo tão numerosa. Entretanto, por alguma razão, os danitas não puderam suplantar os inimigos em determinação e poderio militar; a despeito do heroísmo de Sansão, seu mais famoso guerreiro, eles se tornaram vassalos dos filisteus nas gerações seguintes, logo após a conquista efetuada por Josué.

Em parte por esse motivo, os danitas ficaram restritos demais em seu desenvolvimento econômico e político, de tal modo que alguns jovens empreendedores, mais ousados, decidiram formar uma força expedicionária que partisse à procura de novas terras e se estabelecesse em territórios que tivessem ficado fora da área ocupada pelas doze tribos. Não é possível datar com exatidão a ocasião em que houve essa migração, que ficou registrada em Juízes 18; sabemos que só apenas seiscentos homens empreenderam essa operação.

Depois que o grupo fez uma prospecção por toda a terra, até o sul da Fenícia (atual Líbano), escolheram a próspera e pacífica Laís, como lugar mais atraente para seu estabelecimento. As tropas armadas prosseguiram, então, atravessando Quiriate-Jearim, em Judá, e subiram às terras montanhosas de Efraim, onde raptaram um levita que exercia o sacerdócio para Mica, um efraimita. Também raptaram a estola sacerdotal e as imagens de escultura, para que servissem no culto a Iavé (ainda que isso contrariasse o segundo mandamento), e atacaram os habitantes de Laís que de nada suspeitavam, em uma investida relâmpago. Tendo-se apossado da cidade, deram-lhe um novo nome: Dã. Esta veio a constituir-se o ponto extremo ao norte, da terra ocupada pelas doze tribos, que se tornou conhecido na expressão: "de Dã até Berseba".

Após a separação das dez tribos da dinastia de Davi (931 a.C), o fundador do Reino do Norte, Jeroboão i, teve o cuidado de estabelecer um templo oficial ali, completo, incluindo com a imagem de um bezerro de ouro (1Rs 12.30). Entretanto, a colônia nortista da tribo de Dã provavelmente continuou muito menor, no que diz respeito à população, que as tribos que viviam perto da Filístia, no território originalmente concedido a elas por Josué. Não houve uma migração contínua da tribo de Dã, e sim a saída de uma parte para formação de uma pequena colônia, muito modesta, que se dispôs a conquistar Laís, perto dos territórios de Sidom e Tiro.

Como justificar moralmente a destruição total de Midiã, em Números 31?

Números 31 descreve a destruição total dos midianitas que haviam conspirado a fim de



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seduzir os israelitas e induzi-los à fornicação e à idolatria, no incidente em Baal-Peor (Nm 25.19). O resultado fora uma praga contra os israelitas que lhes custou o total de 24 mil mortos, mais o afastamento de Deus. A hediondez do pecado deles contra o povo eleito, além da ameaça da futura sedução à apostasia, fez com que os midianitas ficassem sujeitos ao julgamento divino. O capítulo 31 nos diz com toda a clareza que foi o próprio Deus quem comandou o ato punitivo. O castigo não se iniciou com Moisés nem com seus homens. Estes receberam ordem de "executar a vingança do Senhor contra" os midianistas (v. 3), de modo que se formou um exército de 12 mil guerreiros, mil de cada tribo, sob a liderança de Finéias, neto de Arão (v. 6).

O ataque foi tão bem-sucedido que, sem uma única baixa (v. 49), os israelitas derrotaram e mataram os cinco reis dos midianitas, bem como todos os seus soldados. Balaão, que fora o instigador da apostasia em Baal-Peor, morreu nessa batalha. Todas as mulheres e as jovens sexualmente ativas foram sentenciadas à morte (v. 15-18), depois que Moisés deu ordens específicas nesse sentido. Só pouparam as virgens, as quais foram tomadas como servas nas casas dos israelitas. Uma porcentagem do gado midianita foi separada para o sacrifício e culto no tabernáculo. De todos os ornamentos de ouro confiscados, 16.750 siclos foram entregues ao templo do Senhor. Encerrou-se assim o caso; os efeitos danosos da confraternização com os pagãos degenerados tornou-se coisa do passado — como uma triste lembrança e a advertência solene contra a insensatez de se ceder à sedução da idolatria cananéia.

Teria sido justificada moralmente essa ação militar? Os que desejam argumentar que foi uma atitude cruel e desnecessária deverão discutir com o próprio Deus. Foi ele quem a comandou. Entretanto, parece que, à luz de todas as circunstâncias e do contexto dessa crise, a integridade da nação inteira estava em jogo. Se a terrível ameaça que pesava contra a existência de Israel, como o povo da aliança, houvesse sido tratada de forma menos rigorosa, é muitíssimo duvidoso que os israelitas tivessem conseguido conquistar Canaã ou sequer exigido a devolução da Terra Prometida como herança sagrada de Deus. Esse massacre é tão lamentável quanto uma cirurgia executada num corpo doente para remover um câncer. Para preservar a vida dessa vítima, a parte comprometida deve ser cortada de vez. (Teremos outra oportunidade para discutir o problema do extermínio de povos, em conexão com Josué 6.21 — "Tem Josué justificativa para o extermínio da população de Jericó?")

De acordo com Números 35.30, é errado condenar um assassino à pena de morte por meras provas circunstanciais?

Assim diz Números 35.30: "Quem matar uma pessoa terá que ser executado como assassino mediante depoimento de testemunhas. Mas ninguém será executado mediante o depoimento de apenas uma testemunha". Semelhantemente, lemos em Deuteronômio 17.6: "Pelo depoimento de duas ou três testemunhas tal pessoa poderá ser morta, mas ninguém será morto pelo depoimento de uma única testemunha".

Se o termo "testemunha" (’ēḏ) significa apenas a pessoa que presencia o crime no momento em que ele é perpetrado, parece que isso restringia a pena de morte apenas aos casos em que o assassino cometia o crime diante de várias pessoas, em público, e que apenas 10% dos crimes por violação do sexto mandamento poderiam legalmente ser levados perante o tribunal e resultar em pena capital. No entanto, a verdadeira ênfase das leis contra assassinatos de primeiro grau era que o assassino fosse julgado e executado. Nada menos que"vida por vida"era permitido pela Torá (cf. Êx 21.23; Dt 19.21).

Embora alguns códigos penais (como o dos hititas) permitissem o pagamento do "dinheiro de sangue" como alternativa substitutiva da pena de morte, esse expediente era expressamente proibido pela lei de Deus. Números 35.31 declara: "Não aceitem resgate pela vida de um assassino; ele merece morrer". O versículo 33 determina: "Não profanem a terra onde vocês estão. O derramamento de sangue profana a terra, e só se pode fazer propiciação em favor da terra em que se derramou sangue, mediante o sangue do assassino que o derramou".



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Era levado a sério um assassinato que não fosse esclarecido, e grande era o interesse pelo bem-estar da cidade onde ele houvesse ocorrido, de tal modo que Deuteronômio 21 exige uma investigação solene, caso o culpado do crime não fosse imediatamente descoberto. Os versículos de 3 a 8 especificam:

As autoridades da cidade mais próxima do corpo apanharão uma novilha que nunca foi usada no trabalho e sobre a qual nunca foi posto jugo, e a levarão a um vale de terras nunca aradas nem semeadas — e onde haja um ribeiro de águas perenes. Vocês quebrarão o pescoço da novilha. Depois, os sacerdotes, descendentes de Levi, se aproximarão, pois o Senhor, o seu Deus, os escolheu para ministrarem e para pronunciarem bênçãos em nome do Senhor e resolverem todos os casos de litígio e de violência. Então todas as autoridades da cidade mais próxima do corpo lavarão as mãos sobre a novilha cujo pescoço foi quebrado no vale, e declararão: "As nossas mãos não derramaram este sangue, nem os nossos olhos viram quem fez isso. Aceita, Senhor, esta propiciação em favor de Israel, o teu povo, a quem resgataste, e não consideres o teu povo culpado do sangue de um inocente". Assim a culpa do derramamento de sangue será propiciada.

Essa passagem deixa bem claro que o assassinato era uma grande ofensa aos olhos de Deus, e não um crime a ser considerado levianamente, que poderia ser castigado às vezes, quem sabe apenas um caso em cada dez (por causa de um pormenor jurídico: só um homem viu o crime, e não dois, conforme exigência legal).

Existe uma implicação de longo alcance, resultante desta interpretação restritiva: a exigência de duas testemunhas aplicava-se não só aos casos de homicídio mas também a qualquer crime em que o suspeito pudesse ser trazido perante o tribunal. Assim diz Deuteronômio 19.15: "Uma só testemunha não é suficiente para condenar alguém de algum crime ou delito. Qualquer acusação precisa ser confirmada pelo depoimento de duas ou três testemunhas". Portanto, a regra das duas testemunhas aplicar-se-ia a roubo, fraude, adultério (que raramente é praticado perante os olhos do público), desfalque ou qualquer outra ofensa pela qual a pessoa pudesse ser levada ao tribunal e processada. Todo criminoso, portanto, culpado de uma dessas faltas, estaria livre da penalidade se houvesse sido suficientemente prudente de cometê-la em circunstâncias tais que não houvesse duas pessoas a observá-lo. Podemos afirmar com certeza que nem no antigo Israel nem em qualquer outro sistema de jurisprudência conhecido a justiça poderia funcionar bem sob restrições dessa ordem.

De que maneira, então, poderíamos entender a exigência de duas ou mais testemunhas para que se pudesse processar um suspeito? Encontramos a resposta no uso do termo ’ēḏ ("testemunha") nas Escrituras Sagradas. Em Levítico 5.1, lemos: "Se alguém pecar porque, tendo sido testemunha de algo que viu ou soube, não o declarou, sofrerá as conseqüências da sua iniqüidade". Esse versículo estabelece com clareza que existiam dois tipos de testemunhas, que poderiam apresentar depoimento num processo criminal: as que viram de fato o crime ser cometido e as que, embora não o houvessem presenciado (não sendo, portanto, testemunhas oculares), observaram alguma evidência relativa à identidade do ofensor. Por exemplo, alguém que tenha encontrado uma ameaça de morte escrita ou ouvido o acusado expressar o desejo ou intenção de matar, roubar ou raptar a vítima seria aceito como testemunha dentro da definição de ’ēḏ (alguém que tem conhecimento pertinente ao crime, ainda que não o tenha presenciado de fato).

Um emprego diferente de ’ēḏ aparece na lei da responsabilidade pela falta de um animal confiado aos cuidados de outra pessoa, como estipulado em Êxodo 22.13: "Se tiver sido despedaçado por algum animal selvagem, ele trará como prova [’ēḏ] o que restou dele; e não terá que fazer restituição". Portanto, nesse caso, o corpo da ovelha, do jumento ou de qualquer animal servia de "testemunho" de que ele teria sido morto sem que houvesse qualquer falta cometida por quem tomava conta dele. No entanto, esse cadáver dificilmente poderia ser chamado de testemunha ocular! De modo semelhante, documentos ou pedras memoriais podem servir de testemunhas (’ēḏ) — à semelhança de gal-’ēḏ, que Jacó e Labão



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erigiram no lugar em que este surpreendera o genro fugitivo e onde finalmente chegaram a um acordo, que ambos prometeram cumprir (Gn 31.46-49). Os termos gal-‘ē (palavra que deu origem ao nome "Gileade" para essa região) e o equivalente aramaico da parte de Labão, yegar sāhadûṯā’, significam "monte de pedras de testemunho". Mas, de modo algum vemos um observador ocular nessas pedras destituídas de vida.

Ao longo da mesma linha de raciocínio, encontramos documentos escritos que servem de "testemunho" (‘ēḏ, ou sua forma feminina, ‘ēḏāh) ou contrato, ou acordo celebrado entre duas ou mais pessoas. Assim é que Josué 24.25, 26 cita-o, fazendo menção de uma pedra que havia sido erigida em Siquém, na qual se havia inscrito uma aliança com Iavé. Diz o escritor a esse respeito, no versículo 27: "... Então disse ele a todo o povo: "Vejam esta pedra! Ela será uma testemunha contra nós, pois ouviu todas as palavras que o Senhor nos disse. Será uma testemunha contra vocês, caso sejam infiéis ao seu Deus". É certo que essa pedra não constituía uma testemunha ocular (ainda que poeticamente representasse um auditor da cerimônia), mas servia apenas de documento e evidência.

Podemos concluir, portanto, que objetos ou documentos escritos podem ser considerados evidências perante o tribunal, como testemunhas válidas em qualquer tipo de processo criminal, haja ou não um crime que exija a pena capital. Esse conceito alinha-se mais ou menos com os diferentes tipos de evidências que se recebem em casos específicos, nos tribunais modernos, pelo que não existe contravenção de princípios bíblicos a exibição de tais testemunhos, ainda que haja apenas uma testemunha ocular ou nenhuma. Toda pessoa que for convocada para depor em tribunal deve testificar apenas dos fatos de sua observação e experiência pessoais, o que satisfaz as especificações de uma ‘ēḏ de modo perfeito e segundo o costume bíblico. (Quanto a uma discussão adicional, v. o artigo sobre Jo 8.11.)

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