Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Deuteronômio


Como foi possível que as palavras exatas de Deus, nos Dez Mandamentos (Êx 20.2-17) fossem alteradas por Moisés em Deuteronômio 5.6-21?

É preciso entender que o propósito de Deuteronômio era suprir uma paráfrase seletiva da lei de Deus revelada a Moisés nos livros anteriores: Êxodo, Levítico e Números. Não era intenção que o último livro do Pentateuco constituísse uma repetição ipsis litteris do texto dos outros quatro, mas uma aplicação homilética de seu conteúdo a uma nova geração, que atingira a maioridade durante os quarenta anos de peregrinação no deserto. Tais preceitos e aspectos da lei que seriam de maior utilidade para a congregação formada pelos que não eram levitas foram selecionados e colocados diante do povo de forma assustadora, mas também encorajadora, de tal modo que todos pudessem ficar preparados ideologicamente para a conquista e ocupação de Canaã. Desse modo, seria muito difícil que palavras idênticas fossem pronunciadas na exploração de um assunto, como no caso de Êxodo 20 e Deuteronômio 5. Há variações na fraseologia, jamais, porém, no sentido ou no ensino essencial apresentado por esses dois livros — ou entre Deuteronômio e Levítico ou Números.

No caso do Decálogo, era de se esperar que a linguagem de Êxodo 20 fosse seguida bem de perto por Deuteronômio 5, visto que aquele era o texto composto pelo próprio Senhor Deus. Entretanto, devemos lembrar-nos de que Moisés era livre para seguir a orientação do Espírito


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Santo, pelo que podia omitir ou inserir uma ou outra frase ou trecho na repetição da lei inserida em Deuteronômio. É verdade que ele citou o Decálogo como sendo palavras proferidas pelo próprio Senhor Deus ("O Senhor falou com você face a face [...] E ele disse..." [Dt 5.4, 5]), mas o compromisso do legislador era com inserções e citações da Palavra revelada pelo Senhor, fossem elas tiradas de Êxodo 20, fossem de outro livro da Bíblia.

Assim, no que diz respeito à guarda do sábado (v. 14), Moisés omite a criação em seis dias como base da promulgação desse mandamento (conforme Êx 20.11), mas acrescenta no final (Dt 5.15) as palavras de Êxodo 13.3: "... Então disse Moisés ao povo: 'Comemorem esse dia em que vocês saíram do Egito, da terra da escravidão, porque o Senhor os tirou dali com mão poderosa. Não comam nada fermentado'". Essas palavras também foram proferidas por inspiração e autoridade divinas e concederam ao povo de Israel uma base para demonstrar bondade e consideração para com os servos da sociedade hebraica. O Senhor havia demonstrado grande amor e misericórdia quando seu povo havia sido reduzido à escravidão no Egito. Pode não ter ficado clara a razão porque se omitiram os dias da criação como base para a promulgação da lei do sábado (descanso). No entanto, a ausência desse pormenor não constitui discrepância factual, assim como quando mencionamos passagens tomadas de outros livros da Bíblia costumamos encurtá-los mediante o uso de reticências sempre que desejamos omitir certas palavras do texto original.

Quanto à variação na ordem das palavras do décimo mandamento ("casa" é mencionada antes de "mulher" em Êx 20.17, mas "mulher" antes de "casa" em Dt 5.21), os vocábulos e seus significados sãos os mesmos, a despeito da diferença na seqüência. Em Deuteronômio 5.21, também notamos uma palavra hebraica diferente para o verbo "cobiçar", antes do vocábulo "casa" (ṯiṯ’awweh em vez de ṯaḥmōḏ), mas o sentido é praticamente idêntico ao do outro verbo. A variação pode ter representado apenas uma mudança com vistas a um estilo mais agradável que o de Êxodo 20.17 (lō’ ṯaḥmōḏ). Isso se conformaria com certeza ao propósito especificamente homilético que reveste o último livro do Pentateuco.

Onde Arão morreu? Deuteronômio 10.6 afirma que foi em Moserá, mas Números 20.28 e 33.38 diz que foi no topo do monte Hor.

Deuteronômio 10.6 contém uma declaração parentética no meio das reminiscências de Moisés a respeito de alguns eventos ocorridos próximo do monte Sinai, que é a seguinte: "Os israelitas partiram dos poços dos jaacanitas e foram até Moserá. Ali Arão morreu e foi sepultado, e o seu filho Eleazar foi o seu sucessor como sacerdote". Mas Números 20.28 informa como Moisés e Eleazar acompanharam Arão ao cume do monte Hor, onde este faleceu, confirmado por Números 33.38: "Por ordem do Senhor, o sacerdote Arão subiu o monte Hor, onde morreu no primeiro dia do quinto mês do quadragésimo ano depois que os israelitas saíram do Egito".

É muito provável que Moserá fosse o local do distrito em que se localizava o monte Hor (segundo P. A. Verhoef, em Tenney, Zondervan Pictorial encyclopedia, 4: 279), assim como Horebe era o nome da cordilheira em que se inseria o monte Sinai. Não há investigações de natureza arqueológica nas vizinhanças de Jebel Madura que possam fornecer informações adicionais a respeito dos limites do distrito de Moserá. Entretanto, é justo presumir que uma fonte antiga que o menciona (a saber, o Pentateuco) localiza-o com certeza nas vizinhanças do monte Hor.

Segundo Josefo (Antigüidades 4.4.7), o Nebo também é conhecido por Jebel Neby Harun, monte de 1600 metros de altura, do qual se descortina Petra. Entretanto, pelo fato de estar localizado no meio de Edom, e não em suas fronteiras, de ser escarpado o bastante para só ser escalado com equipamento especial de alpinista e demasiado majestoso para que seu pico possa ser observado lá de baixo, não é provável que essa identificação tradicional esteja correta.

Stephen Barabas (em Tenney, Zondervan pictorial encyclopedia, 3: 201) sugere Jebel Madura como o local mais provável da morte de Arão, visto estar localizado a nordeste de Cades, na fronteira noroeste de Edom. Seu cume pode ser contemplado por observadores fixados em


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sua base, como declara Números 20.27. Entretanto, quer essa seja a identificação correta, quer não, é completamente destituída de qualquer garantia a presunção de que o Pentateuco esteja errado ao afirmar que o monte Hor está localizado no distrito de Moserá.

Qual o ensino do at a respeito do uso de bebida alcoólica? Deuteronômio 14.26 parece permitir a compra e o uso de vinho e outras bebidas fortes. Na verdade, faziam-se libações de vinho, que era derramado no altar (Êx 29.40). No entanto, Levítico 10.8, 9 contém uma advertência severa contra o uso de vinho no que diz respeito aos sacerdotes. E Provérbios aparentemente proíbe o uso de vinho pelos crentes (Pv 20.1; 23.29-35), exceto talvez os que estão doentes, prestes a falecer (31.4-7). [d]

O at apresenta inúmeros exemplos do mau uso do vinho e os graves perigos que ele representa para beberrões. Quando Noé descobriu os efeitos morais do suco de uva fermentado (Gn 9.20, 21), fez o papel de tolo e sofreu a zombaria de seu filho Cam. As filhas de Ló embebedaram-no tanto, que o patriarca perdeu o juízo e cometeu incesto com elas, involuntariamente, à noite, por força do álcool. O uso imoderado do vinho tornou-se um mal nacional no Reino do Norte, levando-o à depravação moral e à perda da espiritualidade. Isaías descreve graficamente os excessos revoltantes e a condição degradante das pessoas que bebiam sem medida (Is 28.1-8). Provérbios 20 e 23 descreve com grande propriedade a bestialidade depravada e a loucura das pessoas que se entregavam à embriaguez. Também em sentido figurado, Salmos 60.3 e 75.8 e Jeremias 13.12-14 e 25.15-18 referem-se ao vinho como poção amarga e terrível, equivalente à ira de Deus, a visitação do julgamento divino sobre os ímpios. Lemos em Apocalipse 14.10 uma passagem que está alinhada com o espírito desses trechos do at: "[O adorador da besta] também beberá do vinho do furor de Deus que foi derramado sem mistura no cálice da sua ira. Será ainda atormentado com enxofre ardente na presença dos santos anjos e do Cordeiro".

Como a própria pergunta salienta, de acordo com Levítico 10.8-11, nenhum sacerdote tinha permissão para entrar no tabernáculo ou no templo, a fim de desempenhar suas obrigações, se tivesse provado do vinho. (É provável que os dois filhos mais velhos de Arão, Nadabe e Abiú, estivessem bêbados quando trouxeram fogo estranho para acender o incenso no altar de ouro, e, por isso, acabaram perdendo a vida.) Por isso se esclareceu que os sacerdotes que bebessem álcool estavam proibidos de desempenhar o ministério de ensino ao povo, fazendo-o discernir entre o sagrado e o profano.

Isso tem implicações para o sacerdócio de todos os crentes do nt (1 Pe 2.9) e indica que estes, caso se embriaguem, poderão ficar seriamente prejudicados no desempenho de suas funções. Caso bebam demais, poderão fazer com que milhões de cidadãos se escandalizem, pessoas que, escravizadas a esse vício degradante, estejam à procura de libertação. Elas dificilmente levarão a sério o testemunho cristão de alguém que aparentemente não está livre de tudo e não conseguiu desembaraçar-se "de tudo o que nos atrapalha e do pecado" (Hb 12.1), de modo especial quando se põe a falar da vida vitoriosa pela fé.

Fica bem claro que, nos dias de Cristo e dos apóstolos, o vinho era servido como bebida, nas refeições e nos cultos fraternos. Nessa época, ainda não se conheciam as bebidas destiladas nem havia indústrias dedicadas às bebidas alcoólicas, empenhadas a fazer de cada pessoa, — homem, mulher ou criança — um viciado em álcool, visando apenas ao maior lucro possível (como ocorre hoje). Naquele tempo, ainda não havia ligação entre bebida e crime, álcool e desastres automobilísticos. No entanto, fica bem claro que o nt estabelece princípios de conduta os quais fazem com que se torne muito difícil um crente consciencioso ingerir álcool, até mesmo com temperança. Tal princípio encontra-se em Romanos 14.21: "É melhor não comer carne nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve seu irmão a cair [ou a tropeçar ou a se ofender]". Prossegue o versículo. 22: "Assim, seja qual for o seu modo de crer a respeito destas coisas, que isso permaneça entre você e Deus. Feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova".


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Em outras palavras, a questão principal em discussão é a lei do amor para com o irmão mais fraco — se nós, como embaixadores de Cristo, estamos preocupados com as almas e dispostos a abandonar certos "direitos" pessoais, a fim de ganhar os alcoólatras e os iniciantes no álcool para Cristo. Se realmente estivermos interessados nas pessoas e se de fato trabalhamos com afinco para Jesus, em vez de para nós mesmos, vai parecer (para mim, pelo menos, que escrevo este livro) que não há alternativa senão a abstinência total — não como questão de legalismo, mas como prova de amor.

Porventura não existe uma série de contradições entre as leis de Deuteronômio e os textos legais primitivos de Êxodo? Compare Êxodo 21.26 com Deuteronômio 15.12-18 e Êxodo 23.10, 11 com Deuteronômio 15.1-11.

Esses dois paralelos de passagens escriturísticas não contêm contradições de modo algum, tanto quanto consigo enxergar (com base em estudos e pesquisas em leis, desde muitos anos atrás). Em Êxodo 21.26, está estipulado como regra que qualquer proprietário que bater em seu escravo ou escrava, de tal maneira que a vítima fique cega de um olho, deverá libertá-lo à guisa de compensação. Em Deuteronômio 15.12-18, há uma provisão segundo a qual todo escravo hebreu deve ser libertado depois de seis anos de trabalho e, além disso, indenizado, a fim de poder ganhar a vida por si mesmo. São duas condições diferentes em que se dá a alforria, mas de modo algum uma contradiz a outra.

Êxodo 23.10, 11 diz respeito à lei segundo a qual depois de seis anos contínuos de agricultura, sendo o solo cultivado, este deve ser deixado em descanso no sétimo (ano sabático), e tudo quanto crescer ali nesse ano deve ser deixado para os pobres ou os animais selvagens. Deuteronômio 15.1-11 não diz respeito ao cultivo da terra, mas à remissão de débitos (šemiṭṭāh) no final dos sete anos. Também contém uma promessa de que não haverá pobres em Israel após a conquista e o estabelecimento do povo na terra — desde que guardem os mandamentos do Senhor (tanto os que dizem respeito ao ano sabático quanto os demais princípios e mandamentos inseridos na lei de Moisés). Portanto, não há contradição em tais provisões.

Para os leitores que talvez estejam interessados no assunto das alegadas leis conflitantes no código mosaico, recomendamos o livro do perito inglês em legislação Harold M. Wiener, que escreveu "Essays on Pentateuchal Criticism" (1909) e "Pentateuchal Studies" (1912) (citado em R. K. Harrison, Old Testament introduction, p. 30). O autor demonstra que não existe um caso comprovado de conflito entre nenhum par de leis, como pretendiam alguns críticos documentários, como prova de autoria múltipla da Torá. É interessante assinalar que, se essa mesma metodologia fosse aplicada ao Código de Hamurábi (inscrito numa única pedra na Babilônia, em cerca de 1750 a.C.), poder-se-ia divulgar uma afirmação idêntica. Kitchen (Ancient Orient) observa (p. 134):

Assim, é fácil agrupar leis sociais e regulamentos sobre o culto em códigos pequenos, com base em seu conteúdo ou forma, e defender seu desenvolvimento gradual, mediante acréscimos, até atingir a forma atual [i.e., o Pentateuco], com a eliminação de Moisés. Mas pode-se fazer o mesmo às leis de Hamurábi (ao seu conteúdo), postulando um processo hipotético de acúmulo gradual de leis, em grupos de temas, até chegar ao que se chama de "código" de Hamurábi. Entretanto, tal processo não elimina a "autoria" de Hamurábi — o "código" continua a ser de Hamurábi. Suas leis são conhecidas a partir do monumento de sua própria época, sob seu próprio nome; portanto, quaisquer adendos de leis ao seu código ocorreram antes de seu trabalho... Além disso, há as aparentes contradições ou discrepâncias do "código" de Hamurábi, as quais "não são menos salientes que as que servem de base para os estratos de análise na Bíblia" (M. Greenberg, Yehezkel Kaufmann jubilee volume, 1960, p. 6). É óbvio que isso nada tem com o fato histórico de Hamurábi [sic] tê-las incorporado à sua coleção. (V.tb.Kitchen, Ancient Orient, p. 148).


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Como pode Deuteronômio 15.4 "não deverá haver pobre algum no meio de vocês" estar de acordo com Deuteronômio 15.11 "Sempre haverá pobres na terra"?

A promessa "não deverá haver pobre algum no meio de vocês", fora de seu contexto, na verdade contradiz os versículos. 11 e 12 como também a experiência subseqüente de Israel. Tendo Deuteronômio 15.11 em mente ("sempre haverá pobres na terra"), o Senhor Jesus afirmou, em relação à generosidade de Maria, que lhe ungiu os pés com perfume caríssimo: "Pois os pobres vocês sempre terão consigo, mas a mim vocês nem sempre terão" (Mt 26.11). Entretanto, quando avaliamos a passagem em seu contexto, ela se revela mera possibilidade teórica, condicionada à obediência total e firme à lei de Deus.

A Versão do Rei Tiago (kjv) diz: "Salvo quando não houver pobres entre vós; porque o Senhor vos abençoará grandemente, na terra que o Senhor vosso Deus vos dá (...) desde que obedeçais cuidadosamente à voz do Senhor vosso Deus, para cumprirdes todos esses mandamentos". A ra diz o seguinte, nesta passagem: "Para que entre ti não haja pobre; pois o Senhor, teu Deus, te abençoará abundantemente na terra que te dá [... ] se apenas ouvires atentamente a voz do Senhor, teu Deus, para cuidares em cumprir todos estes mandamentos que hoje te ordeno". A expressão de kjv "salvo quando" e a de ra "para que não haja" são maneiras diferentes de traduzir o hebraico ’e pes kî, com que se inicia o versículo 4. Os léxicos e dicionários tendem a favorecer a tradução "salvo quando" ou "não obstante" (referindo-se a uma declaração anterior). Gesenius-Buhl (Hebräisches und aramaisches Handwörterbuch, p. 60) traz "nur, dass, aber, jedoch" (i.e., "somente se", "mas", "no entanto"); Zorell (F. Zorell e L. Semkowski, ed., Lexicon hebraïcum etaramaicum Veteris Testamenti [Roma, 1940], ad loc.) traz "tantum (est adnotandum) quod, = ceterum, utique, sed" (que significa "no entanto [deve-se observar] que; = além do mais, em todo caso, mas"). É possível que a melhor escolha entre esses quase-sinônimos seja however, "entretanto", o equivalente que aparece em nasb e niv, em que o versículo 5 se inicia com "se".

Essa análise deixa bem claro que o Senhor não predizia a ausência de pobres no meio de Israel, independentemente de os israelitas quebrarem suas promessas de obediência às leis de Deus e as obrigações quanto à bondade fraterna, sob a aliança com Iavé. O que o versículo 4 afirma é que a obediência perfeita e coerente aos padrões santos lançados pelo Senhor possibilitará uma sociedade livre da pobreza. O versículo 5 é enfático ao expressar a condição de total e sincera obediência da parte do povo. Ele se inicia com raq ’im, "desde que", "bastando que". A partícula raq significa "apenas", "completamente", "certamente". No início de uma sentença (assim observa Brown-Driver-Briggs, Lexicon, p. 956b), ela acrescenta uma limitação a algo que foi expresso previamente. Nessa passagem em particular, significa "desde que apenas".

No versículo 11, encontramos uma verdadeira predição: "Sempre haverá pobres na terra. Portanto, eu lhe ordeno que abra o coração para o seu irmão israelita, tanto para o pobre como para o necessitado de sua terra." Em outras palavras, não existe expectativa de que os israelitas irão manter firmemente os padrões bíblicos de santidade, justiça, consideração e amor entre eles mesmos; a inexistência de pobreza, aparentemente descrita no versículo 4, não passa de uma possibilidade teórica.

O preceito de Deuteronômio 22.5 — "A mulher não usará roupas de homem, e o homem não usará roupas de mulher, pois o Senhor, o seu Deus, tem aversão por todo aquele que assim procede" é aplicável hoje? [d]

A palavra ke (que se traduz "que é pertinente a") é um tanto imprecisa. Às vezes, significa "vaso" ou "vasilha"; ou "implemento", "equipamento"; ou "arma"; ou até mesmo"enfeite". Parece que só nesse contexto refere-se a vestuário (ke é qualquer tipo de produto manufaturado), embora também possa relacionar-se a adornos e jóias. A palavra para vestimenta na segunda parte do versículo é



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śimlāh, que primordialmente significa manta, ou capa, mas nesse caso tem emprego mais amplo, referindo-se a vestuário de qualquer tipo, algo que cobre o corpo.

O princípio aqui é que cada sexo deve apreciar e honrar a dignidade do próprio corpo, em vez de adotar a aparência ou o papel do sexo oposto. Se um homem der graças a Deus por ter nascido homem, e uma mulher, por ter nascido mulher, deverão sentir-se felizes em poder vestir-se segundo as características de seu próprio corpo, em vez de adotar as do sexo oposto.

Deuteronômio 22.5 elimina totalmente o "travestismo" ou toda possibilidade de um sexo "transparecer" o outro. É provável que a prática de perversões sexuais e o homossexualismo, de modo especial quando relacionados ao culto pagão aos deuses da fertilidade, tenha acentuado a necessidade dessas admoestações aos israelitas. Que isso implique a desaprovação da parte de Deus das modas masculinas que parecem femininas (como, por exemplo, a saia escocesa dos homens) ou o vestuário feminino que parece masculino, é outra questão. Provavelmente é seguro dizer-se, por exemplo, que a maior parte dos homens teria relutância em vestir um par de "pantalonas" femininas, ainda que de longe pareça um par de calças masculinas. O corte e o estilo de um par de "pantalonas" são muito diferentes de um par de calças para homem.

A variedade de estilos usados por homens e mulheres tende a ser diferente de uma década para outra, de modo que é impraticável emitir normas, ou padrões do que é masculino e feminino, além do que já enunciamos acima. No entanto, trata-se de assunto de suma importância para Deus, visto que o versículo termina com esta solene advertência: "... O Senhor, o seu Deus, tem aversão por todo aquele que assim procede". Portanto, é bastante questionável se essa disposição especial da lei mosaica deve ser relegada ao nível de mero rito inconseqüente, que se pode ou deve eliminar mediante a emancipação dos crentes neotestamentários, os quais devem estar livres do jugo legalístico do at. É certo que o nt enfatiza o vestuário adequado, modesto, como elemento importante do testemunho cristão convincente perante o mundo (cf. 1 Tm 2.9), pelo que o crente dedicado deve vestir-se a fim de agradar ao Senhor, e não a si próprio.



Não estariam as instruções de Moisés em Deuteronômio 24.1-4, a respeito do divórcio, em contradição com o ensino de Jesus (Mc 10.2-12) e de Paulo (1 Co 7.10-16)?

Na verdade, Deuteronômio 24.1-4 não lança nenhuma aprovação ou bênção divina sobre o divórcio. Essa passagem simplesmente reconhece que esse ato era praticado na sociedade israelita e procura minimizar a dureza e a injustiça praticadas contra as mulheres quando os maridos, desgostosos com suas esposas, por essa ou aquela razão, decidiam mandá-las embora, de volta a seus pais. Assim diz o versículo 1: "Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora". A nasb apresenta a seguinte tradução: "Quando um homem toma uma esposa [...] e acontece de ela não encontrar favor em seus olhos, por causa de alguma indecência que ele encontrou nela, e ele lhe escrever [weḵāṯaḇ lāh] um certificado de divórcio, e colocá-lo nas mãos dela e enviá-la fora de sua casa...", fazendo com que a sentença prossiga pelos versículos 2 a 4, em vez de parar no fim do versículo 1.

Seja qual for o modo em que o versículo foi traduzido e construído, fica claro que o marido deve colocar um certificado de divórcio nas mãos da esposa antes de despedi-la. Isso exerce o efeito de fazer com que ele abra mão de todos os direitos ao dote que ela levou para o casamento. De outra forma, o marido poderia de má-fé apropriar-se dele como se fora sua propriedade, alegando com falsidade que a esposa voluntariamente o abandonou, numa visita indefinida e longa à casa dos pais, e que, se ela não houvesse agido assim, não teria havido divórcio.


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Quando essa passagem foi mencionada a Jesus, em Marcos 10.2-12 (e na passagem paralela de Mt 19.1-9), o Senhor explicou aos fariseus que o interrogavam: "Moisés permitiu que vocês se divorciassem de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês". A seguir, Cristo mencionou Gênesis 2.24, fazendo este comentário final: "Os dois se tornarão uma só carne' [...] Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe" (v. 5, 6). Em seguida, o Senhor especificou (segundo o relato mais completo de Mateus): "Eu lhes digo que todo aquele que se divorciar de sua mulher, exceto por imoralidade sexual, e se casar com outra mulher, estará cometendo adultério" (Mt 19.9). Em outras palavras, nunca foi intenção nem desejo de Deus que houvesse divórcio depois de um casamento verdadeiro, legal — a menos que a união fosse violentada por um episódio de adultério. Portanto, a prática pré-cristã do divórcio situava-se naquela classe de ofensas que foram toleradas durante algum tempo, por causa da "dureza do coração de vocês". Entretanto, o divórcio seria proscrito, ao lado da poligamia e da escravidão, pelos súditos do Reino de Deus. Sob a nova aliança, essas concessões ao egoísmo e à falta de amor seriam abolidas; o verdadeiro e original propósito de Deus era que o Senhor fosse exaltado no viver santo dos crentes, que olhariam para Cristo como seu modelo.

Está bem definido que o que Deuteronômio 24 permitia não é mais permitido no nt. A provisão de Deuteronômio deve ser reconhecida como medida provisória, não correspondendo, na verdade, ao ideal nem ao propósito de Deus para o casamento. Deuteronômio 24 estaria destinado a ser ab-rogado na nova aliança introduzida pelo Messias, Jesus Cristo.

Quanto a 1 Coríntios 7.10-16, fica fora de qualquer dúvida que essa passagem de modo algum justifica o divórcio. Veja o artigo em que ela é discutida, sob o título: "Será que 1 Coríntios 7.10-16 autoriza o divórcio quando há deserção da parte de um dos cônjuges?"

Deuteronômio 24.16 estabelece que os filhos não serão mortos pelos pecados dos pais. No entanto, 2 Samuel 12.15-18 mostra-nos que a criança que nasceu em conseqüência do adultério de Davi e Bate-Seba morreu por causa desse pecado. Depois, em 2 Samuel 21.5-9, os sete netos de Saul foram sentenciados à morte por causa do pecado do avô, para que cessasse uma fome de três anos. Como podemos conciliar essas passagens?

Deuteronômio 24.16 estabelece um princípio genérico, pelo qual as cortes e os governos humanos não devem imputar a filhos ou a netos a culpa de seus pais ou avós, se aqueles não se envolveram culposamente no crime cometido. Ensina-se claramente nas Escrituras que cada pessoa é responsável diretamente perante Deus. Se alguém for culpado pessoalmente de descrença ou de perversidade e não se arrepender nem confiar na misericórdia de Deus, pelo sangue de Cristo derramado na cruz, tal pessoa morrerá em seu próprio pecado — jamais por causa da transgressão de seu pai. Todavia, se o filho for reto, um verdadeiro crente, será justificado perante Deus; no entanto, ninguém é justificado com base na retidão do pai, se o próprio filho rejeitou a graça de Deus (Jr 31.29, 30; Ez 18.1-20). Em pelo menos uma ocasião, na história de Judá, menciona-se que após, o assassinato do rei Joás, seu filho Amazias puniu apenas os assassinos e poupou seus descendentes (2Rs 14.6).

Embora esse princípio legal de tratar cada pessoa de acordo as próprias suas obras esteja firmemente estabelecido nas Escrituras, elas nos ensinam também que Deus retém para si mesmo a responsabilidade do julgamento último no que diz respeito à pena capital. No caso da criança gerada por Davi e Bate-Seba, estando esta casada com Urias, a perda do bebê (nesse exemplo específico do at) foi um julgamento divino sobre os pais culpados de um pecado ignominioso (que na verdade exigia pena de morte, segundo Lv 20.10). Não


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se sugere de modo algum que a criança sofreu punição pelo pecado dos pais, mas que estes estavam sendo castigados mediante a morte da criança.

No caso dos netos de Saul, não se trata de crime comum. O caso era uma culpa nacional que afetava Israel inteiro. Não temos informações a respeito da época ou das circunstâncias do massacre dos gibeonitas, mas sabemos que foi uma grave quebra da aliança celebrada com esse povo nos longínquos dias de Josué, em nome de Iavé (Js 9.3-15). A nação inteira estava compromissada nesse juramento, perpetuamente, ainda que houvesse sido celebrado mediante argumentos falsos. Portanto, quando Saul, chefe do governo israelita, cometeu essa atrocidade contra os inocentes gibeonitas, Deus cuidou para que essa violação da aliança não ficasse impune. O Senhor enviou uma praga que dizimou a população de Israel, até que se satisfizesse a exigência de justiça. Deus demorou a enviar o castigo, de modo que redundasse no menor prejuízo possível à segurança da nação, isto é, até que os povos vizinhos tivessem sido derrotados e subjugados sob o reinado de Davi.

Entretanto, a elevada taxa de mortalidade resultante da fome levou Davi a perguntar ao Senhor a razão daquela calamidade. Veio-lhe a resposta de Deus: "A fome veio por causa de Saul e de sua família sanguinária, por terem matado os gibeonitas" (2 Sm 21.1). O próprio rei e seus filhos já haviam caído no campo de batalha, mortos pelos filisteus nos combates do monte Gilboa; entretanto, ainda não se pagara o total de sua dívida, isto é, de sua culpa. Essa vingança precisava ser efetuada contra sete descendentes do monarca, visto que esse era o número que simbolizava o trabalho perfeito de Deus. Era preciso que Israel aprendesse, mediante uma lição objetiva e solene, que suas alianças com nações estrangeiras, celebradas no nome do Senhor, deveriam ser acatadas a todo custo.

Então, sob circunstâncias especiais, a regra geral pela qual os filhos são salvaguardados de receber punição pelos pecados dos pais estava sujeita a exceções no que concernia à administração da justiça. Em cada um desses casos, seria justo concluir que, se os filhos envolvidos tivessem tido permissão para viver vidas normais quanto ao número de anos, teriam escolhido seguir o mau exemplo de seus antepassados iníquos, o que teria ocasionado mais sofrimento e tristeza para terceiros. No entanto, só Deus sabe disso com absoluta certeza, porque só ele conhece o potencial de cada pessoa. Se um homem deliberasse infligir tal penalidade sem a permissão expressa do Senhor (como no caso de Josué e a população de Jericó), ele estaria praticando grave injustiça pela sua presunção.



Como Moisés pode ter sido o autor dos primeiros cinco livros da Bíblia se o quinto deles, Deuteronômio, relata seu sepultamento em túmulo desconhecido?

É óbvio que Moisés não escreveu antecipadamente o relato de sua própria morte. Deuteronômio 34 é um obituário escrito por um contemporâneo dele, talvez Josué, filho de Num (v.9). Sob a orientação e inspiração do Espírito Santo, talvez ele tenha acrescido um adendo apropriado sobre a morte e sepultamento de seu senhor, redigindo a nota fúnebre eloqüente com que o livro se encerra.

Que inferência podemos tirar disso? Porventura a inserção de um obituário no final da obra de um autor implica que ele não foi o verdadeiro escritor do texto principal desse livro? Tenho diante de mim o excelente volume Archaeology and the Dead Sea Scrolls, de Roland de Vaux. Trata-se de uma edição revista em inglês da Schweich Lectures, que ele pronunciou em Oxford em 1959, as quais foram publicadas pela Universidade de Oxford em 1973. No início, há um prólogo abreviado assinado por Kathleen Kenyon, que começa com as seguintes palavras: "Diz-se que Roland de Vaux não viveu o suficiente para ver o surgimento de sua obra Schweich Lectures". Temos aqui, portanto, um tipo de nota obituária que se acrescentou ao texto principal da obra. Em finais de outros livros de autores famosos, o obituário aparece como último capítulo. Com freqüência, esse adendo nem sempre é assinado.

O mesmo ocorre com o Deuteronômio, a obra final composta por Moisés sob a inspiração de Deus. Assim como nenhum crítico literário pensaria



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sequer em impugnar a autenticidade da obra de Vaux, simplesmente porque traz um obituário inserido por Kenyon, da mesma forma não se deveriam levantar dúvidas quanto à autoria mosaica de Deuteronômio 1-33 — tampouco, na verdade, de qualquer livro do Pentateuco — simplesmente com base em um obituário que se encontra no capítulo 34.
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