Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas


Teria Deus aprovado a mentira de Raabe? (Js 2.4, 5)



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Josué


Teria Deus aprovado a mentira de Raabe? (Js 2.4, 5)

Não há a menor dúvida de que as Escrituras condenam a mentira como pecado. Em Levítico 19.11, assim diz o Senhor: "Não furtem. Não mintam". Em Provérbios 12.22 lemos: "O Senhor odeia os lábios mentirosos, mas se deleita com os que falam a verdade". No nt, Paulo exorta os efésios em 4.25: "Cada um de vocês deve abandonar a mentira e falar a verdade ao seu próximo, pois todos somos membros de um mesmo corpo". Essas e muitas outras passagens deixam bem claro que Deus jamais se agrada de pessoas que não falam a verdade.

No entanto, a falsidade, à semelhança de qualquer outro pecado, pode ser totalmente expiada pelo sangue de Cristo no Calvário, desde que o mentiroso esteja convicto em sua consciência de que é culpado e sinceramente se arrependa de sua transgressão. O crente contrito pode apelar para os méritos expiatórios de Cristo e ser totalmente perdoado. O que temos, então, em resumo, são estes princípios a respeito do relacionamento entre Deus e o pecador perdoado: 1) o Senhor sempre condenou o pecado, porque ele colocou a culpa de todas as nossas transgressões sobre seu Filho isento de pecado, quando este morreu pelos pecadores na cruz; 2) o Senhor não aceita os transgressores como participantes de sua redenção por causa de seus pecados, mas por intermédio de sua fé. Até mesmo Abraão pecou quando mentiu a respeito do estado civil de Sara — ele devia ter dito que ela era sua esposa — mas se sentiu compelido a omitir a verdade para evitar o perigo de ser morto por causa dela (Gn 12.12-19). Davi mentiu ao sumo sacerdote Aimeleque quando lhe disse que Saul o havia enviado a Nobe a negócios do reino, quando, na verdade, estava fugindo do rei para salvar a própria vida (1 Sm 21.2).

No caso de Raabe, há alguns fatores especiais que lhe servem de atenuantes, os quais não podem ser negligenciados, ainda que não consigam desculpar-lhe a falsidade. No episódio particular dessa mulher, mentira foi um passo de fé, que colocou sua vida em perigo. Ter-lhe-ia sido mais fácil dizer a verdade e avisar a polícia de Jericó de que ela havia abrigado dois espiões hebreus, os quais estavam escondidos sob as pilhas de cana de linho que secavam ao sol sobre o telhado de sua casa. Todavia, ela havia jurado, aparentemente, aos dois fugitivos, que não os trairia e nem os entregaria aos agentes policiais. O fato é que essa mulher manifestou forte convicção de que as forças israelitas capturariam e destruiriam Jericó, ainda que a todos parecesse, do ponto de vista militar, ser a cidade virtualmente inexpugnável. "O Senhor, o seu Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra. Jurem-me pelo Senhor.. ." (Js 2.11, 12). Era uma mulher de má fama, pagã, de modo que o fato de ela ter atingido essa convicção a respeito do verdadeiro Deus foi uma extraordinária manifestação de fé, muito maior que a demonstrada pelos patriarcas e pelo povo de Israel, que haviam sido criados na verdade a respeito do Senhor. Raabe precisou dar as costas ao seu próprio povo e às tradições culturais em que havia sido criada para tomar aquela decisão definitiva, a de abraçar a aliança que o Todo-Poderoso celebrara com Israel e fazer parte



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do povo de Deus. Ela literalmente arriscou a própria vida pela causa do Senhor quando pregou aquela mentira aos oficiais de Jericó. Ela poderia facilmente ter sido desmascarada. Um simples espirro ou um movimento involuntário da parte de um dos espiões teria assinalado o destino horrível dessa mulher — bem como o dos espiões. Portanto, devemos reconhecer que havia alguns fatores atenuantes, que minoraram o erro de Raabe.

O compromisso de entrega total que Raabe fez com Iavé, aceitando seu senhorio, fê-la unir-se ao povo de Israel depois da captura de Jericó e sua destruição total (Js 6.17-25). Mais tarde, ela se casaria com Salmom, da tribo de Judá e, assim, tornar-se-ia a mãe de Boaz e ancestral do rei Davi (Mt 1.5, 6). A despeito de seu passado pecaminoso, sua fé lhe foi consignada por justiça, não apenas pelo Senhor como também pelo povo de Deus. Raabe assumiu posição honorífica como ancestral do Senhor Jesus. Em Hebreus 11.31, lemos este tributo à coragem e fé dessa mulher: "Pela fé a prostituta Raabe, por ter acolhido os espiões, não foi morta com os que haviam sido desobedientes". Em Tiago 2.25, o apóstolo elogia a confiança de Raabe como sendo genuína e eficaz, porque ela expressou sua fé e "... Caso semelhante é o de Raabe, a prostituta: não foi ela justificada pelas obras, quando acolheu os espias e os fez sair por outro caminho?".



Josué 3.17 diz que os israelitas já tinham cruzado o rio Jordão, mas Josué 4.4, 10, 11 revela que eles ainda não o haviam atravessado. Como conciliar esses versículos?

Josué 3.17 diz que os sacerdotes que carregavam a arca da aliança ficaram em pé no meio do rio, enquanto o resto da congregação o atravessava, passando para o lado ocidental. Josué 4.4 relata que doze homens, um de cada tribo, receberam a ordem de voltar ao meio do rio, onde estavam os sacerdotes que seguravam a arca. Aqueles deveriam retirar do leito do rio doze grandes pedras e levá-las até o local do primeiro acampamento do povo, do lado cananeu do Jordão (v. 8). Um monumento feito com as doze pedras serviria de memorial desse evento marcante na história de Israel (v. 6, 7).

Josué 4.10, 11 conclui o episódio, registrando que os sacerdotes que carregavam a arca finalmente abandonaram seu posto bem no meio do leito do rio e foram para a outra margem, atrás do povo, sempre carregando a arca. E eles prosseguiram em sua caminhada até chegar à frente de toda a congregação, precedendo-a no novo acampamento em Gilgal (cf. v. 19). Só depois de todo o Israel estar do outro lado, em segurança, incluindo os sacerdotes e a arca, as águas do Jordão, que se haviam represado na cidade de Adã (3.16), receberam ordem de fluir novamente para o mar Morto. Portanto, não existe discrepância alguma aqui; o registro de Josué é bem claro.

Não foi o relato de Josué 6 a respeito da captura de Jericó pelos israelitas desacreditado pelas modernas investigações arqueológicas de Tell es-Sultan?

Ao contrário, o testemunho do cemitério ligado a Cidade iv de Tell es-Sultan (que por consenso geral seria o local da antiga Jericó do at) é bastante conclusivo a favor de uma data por volta de 1400 a.C, fato que está em total conformidade com a data de 1446 para o Êxodo. Depois de vários anos de completa investigação arqueológica, John Garstang descobriu que, dentre os muitos escaravelhos descobertos nas sepulturas desse cemitério, nem um sequer seria de um período posterior a Amenotepe iii do Egito (1412-1376 a.C). Seria impossível explicar por que jamais se encontrou um escaravelho portador da carteia de algum faraó posterior, nesse nível, se a destruição da Cidade iv tivesse ocorrido em meados do século xiii a.C. (como os eruditos modernos em geral crêem). Como seria possível não se encontrar nenhum escaravelho do reinado dos numerosos faraós entre Amenotepe iii e Ramessés ii?

Além disso, dos 150 mil fragmentos de cerâmica descobertos nesse cemitério, só se encontrou um do tipo micênio. Visto que a cerâmica micênia só começou a ser importada para


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a Palestina a partir de 1400, a.C torna-se difícil explicar por que nenhum fragmento desse tipo de cerâmica foi encontrado no cemitério de Cidade iv, a menos que esse cemitério tenha sido abandonado por volta de 1400 a.C.

Kathleen Kenyon fez outras investigações em Tell es-Sultan. Mediante esse trabalho posterior, ela questionou a identificação que Garstang fez das muralhas derrubadas como sendo de Cidade iv, porque os fragmentos cerâmicos encontrados nos enchimentos de terra dessas muralhas pertenciam a um período de vários séculos antes de 1400 a.C. A confiabilidade dessa dedução está aberta a discussão, no entanto, visto que o mesmo fenômeno poderia ser observável se as muralhas de Ávila, na Espanha, ou de Carcasonnee, na França, fossem derrubadas por um terremoto, em nossa geração e que tais muros foram edificados há vários séculos, o critério de Kenyon nos levaria a crer que teriam caído há séculos, visto não conterem, é claro, evidências internas de terem sido construídos no século xx. No entanto, nenhuma descoberta de Kenyon ou de Vincent — nem de qualquer outro explorador arqueólogo, que tenha escavado esse local tendo já em mente uma data pré-fixada de 1250 a.C. para a conquista israelita de Canaã — conseguiu abalar as conclusões baseadas nos achados fragmentos de Garstang e sua equipe com respeito aos escaravelhos e fragmentos cerâmicos encontrados no cemitério de Cidade iv. (V. a observação de Garstang quanto a essa nota no artigo referente a 1 Rs 6.1 e a data do Êxodo).

Os leitores que estiverem interessados num estudo mais profundo sobre a seriedade e a exatidão da data bíblica do Êxodo (i.e., 1446 a.C), poderão consultar meu livro Merece confiança o Antigo Testamento? Há outra obra recente escrita por um jovem erudito inglês, John J. Bimson (Redating the Exodus and the conquest, [Sheffield: University of Sheffield, 1978]). Bimson demonstra como grande parte das evidências arqueológicas têm sido sistematicamente manipuladas por um processo de raciocínio circular, da parte dos principais intérpretes dos dados arqueológicos. Ele revê criticamente o testemunho objetivo de estratigrafia e dos artefatos achados e chega a uma conclusão firme e favorável à datação do século xv para o Êxodo e da conquista de Canaã. Essa conclusão torna-se mais impressionante pelo fato de Bimson não ser adepto da fé evangélica, — que crê na inerrância das Escrituras —, mas acredita ser obrigatório a definir com exatidão o que a arqueologia demonstra, (v. tb. o artigo sobre 1 Rs 6.1 e sobre a data do Êxodo.)

Tem Josué justificativa para o extermínio da população de Jericó?

Lemos em Josué 6.21: "Consagraram a cidade ao Senhor, destruindo ao fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos; todos os seres vivos que nela havia". Os versículos 22 e 23 declaram que Raabe, a prostituta, que havia arriscado a própria vida ao salvar os dois espiões israelitas, os quais haviam chegado mais cedo a fim de fazer um reconhecimento da cidade, foi poupada com sua família — exatamente como os dois homens lhe haviam prometido. Mas queimou-se a cidade toda, e os artigos de ouro, prata, ferro e bronze foram levados ao tesouro do tabernáculo.

Essa destruição total pode parecer desnecessária e severa demais, pois incluiu crianças, incapazes de cometer pecado voluntário, ainda que todos os jovens e os adultos da cidade houvessem caído em depravação total. Não deveríamos entender essa brutalidade como o resultado de uma mentalidade beduína selvagem da parte dos guerreiros do deserto, em vez de medida punitiva ordenada por Deus?

Em resposta a essa objeção de caráter humanitário, precisamos reconhecer, em primeiro lugar, que o registro bíblico indica que Josué estava simplesmente executando as ordens de Deus. Em outras palavras, o relato que nos fala do massacre propriamente dito é o mesmo que nos mostra as ordens divinas para que o morticínio se realizasse. Portanto, devemos reconhecer que nossa crítica não pode ser atirada contra Josué nem contra os israelitas, mas contra Deus, cujas ordens eles acataram. (De outra forma, devemos presumir que temos competência especial para corrigir o registro bíblico com base em nosso discernimento quanto às ações que o Senhor poderia ou não levara efeito em determinadas situações.) Contudo, se



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houver licença para a critica, não deveríamos nos limitar a Jericó, visto que a destruição dessa cidade foi um acontecimento bem menor que o da consumação das populações de Sodoma e Gomorra e suas cidades satélites, em Gênesis 19.24, 25. E essa catástrofe vulcânica, por sua vez, foi menos significativa que a perda de vidas no dilúvio universal do tempo de Noé, o único que se salvou com sua família, tendo sido destruída toda a raça humana.

Nos primórdios da história humana, em Gênesis 15.16, Deus havia advertido a Abraão: "Na quarta geração [i.e., quatrocentos anos após a migração para o Egito, visto que Abraão já estava com cem anos antes de se tornar o pai de Isaque] os seus descendentes [os israelitas] voltarão para cá [Canaã], porque a maldade dos amorreus ainda não atingiu a medida completa". A implicação dessa última declaração é que, quando a perversidade dos habitantes de Canaã houvesse chegado a determinado índice, Deus os removeria da Terra Prometida, reservada para Abraão e sua semente.

É de lamentar a perda de vidas inocentes ocorridas na demolição de Jericó, mas devemos reconhecer que há ocasiões em que só a cirurgia radical pode salvar a vida de uma pessoa atacada de câncer. Toda a civilização antediluviana havia sido infectada com o cancro da depravação moral (Gn 6.5). Se alguns deles tivessem permissão de continuar vivendo abraçados em rebelião contra Deus, teriam infectado a família de Noé também. O mesmo se pode dizer dos habitantes de Sodoma, totalmente entregues à depravação, ao homossexualismo e ao estupro, nos dias de Abraão e Ló. Tal como no caso do benjamita de Gibeá, num período posterior (Jz 19.22-30; 20.43-48), toda a população devia ser destruída. O mesmo fim deveria sofrer Jericó e Ai (Js 8.18-26); o mesmo se diga de Maquedá (Js 10.28), Láquis (v. 32), Eglom (v. 35), Debir (v. 39) e todas as cidades do Neguebe e Sefelá (v. 40). Na campanha do norte contra Hazor, Madom, Sinrom e Acsafe, foram todas igualmente destruídas (Js 11.11-14).

O caso é que a infecção da idolatria degenerada e da depravação moral tinha de ser removida antes que Israel se estabelecesse na região com plena segurança, como comunidade monoteísta governada pela lei do Senhor, como testemunha do verdadeiro Deus. É certo que lamentamos a perda de tantas vidas, mas devemos lembrar que muito maior seria o desastre se tais pessoas tivessem permissão para continuar vivendo no meio da nação hebréia. Aqueles cidadãos incorrigíveis e degenerados da nação cananéia eram uma ameaça sinistra à sobrevivência espiritual da raça abraâmica. O fracasso dos israelitas em executar o plano divino de extermínio total dos pagãos da Terra Prometida induziu, mais tarde, à queda moral e espiritual as doze tribos, nos dias dos juízes (Jz 2.1-3, 10-15, 19-23). Só depois da época de Davi, alguns séculos mais tarde, é que os israelitas tiveram sucesso na conquista de toda a terra que havia sido prometida aos descendentes de Abraão (cf. Gn 15.18-21). Esse triunfo só foi possível numa época de vigor religioso e pureza de fé sem precedentes, sob a liderança do rei Davi, "segundo o meu [de Deus] coração"; "o Senhor procurou um homem segundo o seu coração" (At 13.22; 1 Sm 13.14).

Em nossa dispensação, os verdadeiros cristãos possuem recursos para resistir à influência corruptora de pessoas mundanas que se julgam crentes, meios esses que não estavam disponíveis no at, sob a antiga aliança. Como soldados de Cristo que entregam seus corpos a ele para servir "como instrumentos de justiça" (Rm 6.13), os quais são habitados e fortalecidos por Deus na pessoa do Espírito Santo (1 Co 6.19), estamos bem preparados para viver nossas vidas no meio de uma cultura degenerada (seja na Europa, seja nas Américas secularizadas) e, apesar de tudo, manter-nos fiéis ao nosso Deus. Temos o exemplo da cruz e da vitória, na ressurreição de Cristo, nosso Senhor, o qual caminha conosco por onde formos, em todas as épocas, enquanto desenvolvemos a Grande Comissão.

Como crentes do nt, as armas de nossa guerra não são carnais, mas espirituais: "As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo" (2 Co 10.4, 5). Essas armas, muito mais poderosas que as de Josué, são capazes de capturar os corações dos homens para Deus; e não podemos, como embaixadores de Cristo, apelar para os armamentos materiais,



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físicos, para proteger nossa fé e nossa terra (como os israelitas foram obrigados a fazer, se quisessem sobreviver espiritualmente). Ao contrário, desenvolvemos uma ofensiva capaz de salvar vidas, como pescadores de homens, e perseguimos os condenados, os incrédulos, onde estejam, para que se salvem. Devemos reconhecer que nossa situação é bem melhor que a do mundo, e as perspectivas de vitória sobre nosso inimigo são muito mais favoráveis a nós, cristãos. Podemos agradecer a Deus por isso. Mas devemos evitar a condenação dos que viveram numa situação tão diferente, a qual prevalecia antes da cruz, reconhecendo que aqueles crentes agiam em obediência e fé para com Deus quando atendiam às suas ordens em relação aos cananeus.

Como podemos conciliar o altar de Josué, no monte Ebal (Js 8.30) com a condenação posterior dos "lugares altos"?

Deveria ser perfeitamente óbvio que uma condenação posterior dos centros de culto idólatras, conhecidos como "lugares altos" (bāmôṯ, não poderia ter efeito retroativo sobre altares erigidos para a adoração de Iavé numa época anterior à edificação do templo de Salomão, em Jerusalém (cerca de 960 a.C). As severas restrições posteriormente dirigidas contra os relicários pagãos, estabelecidos por Jeroboão i (cerca de 930 a.C.) com o objetivo de desviar os súditos do Reino do Norte da adoração no templo em Jerusalém, durante as várias festas celebradas anualmente, vinham da parte de Deus. Esses objetos de adoração haviam sido fundados em evidente violação à lei divina registrada em Deuteronômio 12.2-14. Essa passagem exigia a destruição total de todos os altares devotados ao culto dos falsos deuses, bem como de seus pilares (maṣṣēḇôt) e postes de madeira (ašērîm), que representavam o lugar da habitação da divindade masculina e seu consorte do gênero feminino, respectivamente, de acordo com as superstições cananéias. Além disso, Deuteronômio 12.2-14 determinava que houvesse um único santuário de culto nacional ao Deus verdadeiro (v. 2-6). Não estava ainda designado o lugar específico para esse santuário central. Na verdade, esse local mudou de Gilgal para Siloé e depois para Gibeom em várias ocasiões, entre a conquista da terra e a edificação do templo de Salomão — mas era estabelecido onde quer que o tabernáculo e seu altar de sacrifícios queimados estivessem. Depois de o santuário haver sido por fim construído e solenemente dedicado, numa grande assembléia nacional (1 Rs 8), ficou assentado que todos os sacrifícios deveriam ser oferecidos ali e em nenhum outro local.

No entanto, Salomão, mais tarde, sob a má influência de suas muitas esposas estrangeiras e idólatras, autorizou a edificação de um bāmāh (relicário no cume do monte) a Camos, o deus de Moabe, e a Milcom, a divindade de Amom (1 Rs 11.5) e, sem dúvida, para outros deuses pagãos também, incluindo os que eram adorados pela sua esposa egípcia, filha do faraó que reinava na ocasião. Tão degradante exemplo induziu a um desrespeito mais grave à proibição de Deuteronômio 12.2-14, de modo que os bāmôṯ passaram a ser edificados em numerosos centros cultuais, tanto no Reino do Norte (que seguiu a liderança do rei Jeroboão) quanto em Judá. Os que haviam sido erigidos no Reino do Sul periodicamente foram destruídos nos tempos do avivamento religioso, sob o rei Asa (2 Cr 14.3, embora não de forma permanente; cf. 1 Rs 15.12-14), Josafá, seu filho (2 Cr 17.6), Ezequias (2 Rs 18.4) e Josias (2 Rs 23.4-8).

Aparentemente, alguns dos bāmôṯ judeus haviam sido centros de culto a Iavé. O propósito desses locais de adoração ao verdadeiro Deus era o de servir à população local, às várias cidades e províncias do reino. No entanto, tais localidades constituíam violação à lei que determinava um santuário único, central, segundo Deuteronômio 12. Os verdadeiros profetas de Deus denunciaram tais centros de culto. Pelo que se lê em 2 Reis 23.8, parece que alguns desses locais de culto eram atendidos por sacerdotes levíticos, e o fato de estes não terem sido condenados à morte, de acordo com a lei de Deus em Deuteronômio 13



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(que exige a execução sumária de toda pessoa culpada de idolatria), indica que eram pequenos templos com altares dedicados a Iavé. Na época da reforma de Josias, esses sacerdotes tiveram permissão para prosseguir vivendo e se alimentando das provisões dedicadas ao sustento do sacerdócio arônico, mas foram proibidos de entrar no templo em Jerusalém.

O altar de Josué no monte Ebal, que satisfazia as necessidades da congregação de Israel durante a renovação solene da aliança nacional (Js 8.30-35), atendia totalmente à lei anterior, promulgada em Êxodo 20.24: "... onde quer que eu faça celebrar o meu nome, virei a vocês e os abençoarei". Até mesmo depois de terminado o templo de Salomão, surgiram certas situações na história do Reino do Norte, quando aprovou a edificação de altares para culto a Deus, os quais o Senhor abençoou. Eram ocasiões de grande crise nacional. Como exemplo, temos o de Elias no cume do monte Carmelo. O fogo vindo do céu queimou a oferta do sacrifício, servindo para demonstrar a Acabe e seus exércitos que Iavé era o verdadeiro Deus, e Baal, apenas uma concepção da mente supersticiosa dos profetas de Jezabel (1 Rs 18.30-39).



Por que Israel teve de manter a aliança com os gibeonitas, mesmo depois de descobrir que eles obtiveram o acordo por meio de fraude (Js 9)?

Josué 9 conta de novo o engano e a mentira praticados pelos delegados gibeonitas (v.4, 5), quando chegaram ao acampamento de Israel a fim de celebrar uma aliança de paz. Mentiram, dizendo que chegavam "de uma terra muito distante" (v.9), por causa de sua admiração pelo Deus de Israel, que de modo tão maravilhoso concedera prosperidade ao seu povo. Alegaram ter vindo de tão longe que o pão que traziam ficara envelhecido e duro, na jornada até Gilgal. Na verdade, Gibeom ficava a menos de um dia de distância. Sem a menor dúvida, os gibeonitas eram culpados; haviam enganado Israel, induzindo o povo de Deus a uma aliança mediante artifícios enganosos. Em condições normais, portanto, os hebreus não seriam obrigados a manter aquele acordo. Qualquer tribunal tê-los-ia absolvido e livrado das promessas, à vista do engano proposital praticado pelos cananeus.

No entanto, não se tratava de um compromisso comum, um contrato ordinário, pois fora selado solenemente em nome de Iavé, o Senhor Deus. Visto que Israel não havia primeiramente consultado o Todo-Poderoso a respeito do assunto antes de celebrar o acordo com os pagãos cananeus, foi obrigado a cumprir as promessas e juramentos feitos em nome de Iavé (v. 15). Os israelitas preferiram confiar em seu próprio julgamento, na evidência do pão seco e embolorado. Deixaram de dirigir-se a Deus em oração a respeito da proposta gibeonita (v. 14). Por isso, ficaram presos a seu juramento, até mesmo quanto ao futuro incerto. Quando Israel mais tarde deixou de acatar essa aliança, feita com juramento, tal fato constituiu grave ofensa contra o Senhor. Ele castigou o povo com severidade depois que Saul sentenciou alguns gibeonitas à morte (2 Sm 21.1-14).

Qual é a explicação científica para o dia prolongado de Josué 10.12-14? [d]

O livro de Josué registra vários milagres. Nenhum deles, contudo, é tão digno de nota nem tão discutido quanto o que se refere a um dia prolongado, com o dobro das 24 horas normais. Foi o da batalha de Gibeom (10.12-14). Tem-se objetado que, se de fato a Terra houvesse parado de girar por 24 horas, uma catástrofe inconcebível teria esmagado o planeta e tudo que estivesse em sua superfície. Os que crêem na onipotência de Deus de modo nenhum concordam com a idéia de que Iavé não teria impedido a tragédia; o Senhor teria suspendido as leis físicas que provocariam o desastre. No entanto, com base no próprio texto hebraico, não nos parece necessário crer que a Terra subitamente tenha parado, deixando de executar o movimento de rotação



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sobre si mesma. Assim diz o versículo 13: "O sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs". A frase "não se apressou" (ra) parece indicar um retardamento do movimento solar (ou seja, da rotação da Terra). Em vez de 24 horas, o dia teria tido quase 48.

Há apoio para essa idéia: pesquisas trouxeram à luz relatos de fontes egípcias, chinesas e hindus a respeito de um dia muito longo. Harry Rimmer relata que alguns cientistas astrônomos chegaram à conclusão de que está faltando um dia inteiro no cálculo astronômico. Declara Rimmer que alguns cientistas do Observatório de Harvard traçaram a origem desse dia que falta aos tempos de Josué. De semelhante modo se pronuncia Totten, de Yale (cf. Bernard Ramm, The Christian view of science and Scripture [Grand Rapids, Eerdmans, 1954] p. 159). Ramm informa, entretanto, que não conseguiu documentar esse relatório, possivelmente porque essas universidades preferiam não manter em arquivo esse tipo de relatório.

Outra possibilidade de interpretação decorre de um entendimento um tanto diferente da palavra dôm (traduzida por kjv por "mantém-te quieto"). É vocábulo que normalmente se traduz por "estar em silêncio", "cessar" ou "partir". E. W. Maunders, de Greenwich e Robert Dick Wilson, de Princeton, interpretaram a oração de Josué como petição no sentido de o Sol cessar de derramar seu calor sobre suas tropas em batalha, de tal modo que pudessem prosseguir lutando sob condições mais favoráveis. A tempestade destruidora, de granizo, que acompanhou a batalha, dá alguma credibilidade a essa opinião, a qual tem sido defendida por homens de inquestionável ortodoxia. No entanto, é preciso que se admita que o versículo 13 parece favorecer o prolongamento do dia: "O sol parou, e a lua se deteve, [...] O sol parou no meio do céu e por quase um dia inteiro não se pôs" (ara).

Keil e Delitzsch (Joshua, Judges, Ruth, p. 110) sugerem que ocorreu um prolongamento miraculoso do dia, de modo que apenas apareceu a Josué e a todo o Israel que ele se prolongou de fato. O exército conseguiu fazer em um dia o trabalho de dois. Teria sido difícil para eles dizer se a Terra estava girando à velocidade normal se a rotação fosse o único critério para a medida do tempo. Eles acrescentam outra possibilidade: Deus poderia ter produzido um prolongamento da luz solar, tendo prosseguido a visibilidade após a hora normal do crepúsculo, mediante uma refração especial dos raios solares.

Hugh J. Blair ("Joshua", em Guthrie, New Bible commentary, p. 244) sugere que a oração de Josué teria sido pronunciada bem cedo, de manhã, visto que a luz ainda estava no Ocidente, e o Sol, no Oriente. A resposta veio na forma de uma tempestade de granizo que prolongou a escuridão e, dessa forma, facilitou o ataque de surpresa dos israelitas. Daí, na escuridão da tempestade, a derrota do inimigo foi completa. Deveríamos, pois, falar da "longa noite" de Josué, em vez de o "longo dia". Essa é, em essência, a opinião de Maunders e Wilson. Essa interpretação não pressupõe a parada do movimento de rotação da Terra em seu eixo, embora dificilmente se enquadre na declaração de Josué 10.13. Portanto, é uma interpretação de valor dúbio.


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