Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Prefácio


O dr. Gleason Archer escreveu esta enciclopédia para mostrar que nada existe na Bíblia de incoerente com a afirmação de ser ela a Palavra inerrante de Deus. Nos dois últimos séculos, essa doutrina esteve sob intensa crítica. Infelizmente, os cristãos que se opõem à doutrina da inerrância bíblica em geral não a entendem bem. Na maior parte dos casos, tais pessoas chegaram paulatinamente à opinião atual, valendo-se dos ensinos de algum professor de escola dominical maldoutrinado ou de algum pregador de rádio com excesso de entusiasmo. É provável que tais pessoas jamais tenham consultado uma obra séria, produzida por um especialista criterioso. Os leitores desta obra logo descobrirão que a doutrina da inerrância bíblica, conforme a define e prova o dr. Archer, é a posição histórica dos principais ramos do cristianismo. Apóiam-na os nomes ilustres de Agostinho, Tomás de Aquino, João Damasceno, Lutero, Calvino, Wesley e muitos outros. Resumindo, a doutrina da inerrância ensina que a Bíblia nos fala a verdade e jamais apresenta algo que não seja verdadeiro.

Pode ser muito útil começar desfazendo alguns dos mal-entendidos mais comuns relacionados à inerrância bíblica. Os evangélicos não tentam provar que a Bíblia não contém erros para demonstrar que ela é a Palavra de Deus. Alguém poderia apresentar um artigo de jornal que esteja totalmente isento de erro. Isso, todavia, não provaria ser o artigo a Palavra de Deus. Os cristãos sustentam que a Bíblia é a Palavra (inerrante) de Deus por estarem convencidos de que Jesus, o Senhor da igreja, assim cria, tendo ensinado seus discípulos a crer também, desse modo Por fim, a convicção dos cristãos sobre a verdade bíblica fundamenta-se no testemunho do Espírito Santo.

De maneira semelhante, os evangélicos não ensinam que a inspiração inerrante tenha eliminado o elemento humano na redação da Bíblia. É verdade que os evangélicos destacam a autoria divina das Escrituras, mas isso por ser ela muitas vezes negada e por ser isso o que confere às Escrituras sua importância singular. Entretanto, os evangélicos instruídos sempre insistiram na existência da autoria verdadeiramente humana na produção da Bíblia. Até mesmo quem estava inclinado a usar a palavra "ditado" (como Calvino e também o Concilio de Trento da Igreja Católica Romana) sempre deixou bem claro não estar se referindo à prática comum do chefe que dita uma carta à secretária. Em vez disso, busca-se ressaltar a responsabilidade divina (bem como a humana) pelas palavras das Escrituras, afirmando-se que tais palavras escriturísticas são palavras de Deus, dotadas de autoridade, de modo tão verdadeiro quanto se tivessem sido ditadas por ele.

É possível sustentar (ilogicamente) que Deus poderia ter impedido os autores da Bíblia de cometer erros, tirando-lhes a liberdade e a condição de seres humanos. Entretanto, os evangélicos jamais afirmaram tal coisa. Antes, a Bíblia é produto totalmente humano e totalmente divino. Como produto divino, detém autoridade absoluta sobre a mente e o coração dos crentes. Como produto humano, mostra em si mesma todas as características essenciais de uma composição humana. Sem dúvida, Deus poderia ter-nos dado uma Bíblia escrita na perfeita linguagem do céu. Nesse caso, porém, quem a poderia entender? Deus preferiu comunicar-nos sua vontade mediante o canal imperfeito da linguagem humana, com todas as suas possibilidades de má compreensão e má



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interpretação. Não obstante, o dom da linguagem é nosso meio de comunicação mais digno de confiança, pelo qual podemos transmitir desejos e idéias uns aos outros. Assim foi que Deus preferiu comunicar-se conosco mediante o instrumento imperfeito da linguagem humana.

Ao escrever a Bíblia, seus autores usaram figuras de linguagem, alegorias, símbolos e os vários gêneros literários empregados por outros escritores. Além disso, pelo fato de terem escrito na língua comum de povos de dois ou três mil anos atrás, com freqüência acharam melhor não fornecer certos dados técnicos que consideravam sem importância para os fins propostos. Os autores da Bíblia nunca se expressam com o jargão científico moderno. Não julgaram ter a obrigação de ser precisos e exatos em muitas de suas declarações, assim como nós, nas conversas do dia-a-dia. A inspiração divina garantia a verdade do que escreviam. Deus os preservou do erro, da ignorância e do engano. Entretanto, o Senhor não os impediu de falar como seres humanos. Assim, somente se adotarmos a posição ridícula e contraditória segundo a qual o erro é essencial à fala e à escrita humana, poderemos insistir que a verdadeira qualidade humana das Escrituras necessariamente traz consigo declarações falsas. Ao mesmo tempo que preservou a humanidade integral dos escritores das Escrituras, com tudo quanto ela representa para o caráter da redação, o Espírito Santo impediu que fizessem declarações errôneas. Por conseguinte, não precisamos escolher ou pinçar a verdade de entre os ensinos das Escrituras. Tudo o que nela está é a verdade de Deus.

Quando uma pessoa, como o dr. Archer, tenciona demonstrar não haver erros nem declarações enganosas na Bíblia, com freqüência enfrenta a objeção de opiniões contrárias. Alguém até poderia questionar: "Por que se preocupar com a defesa da Bíblia? Não é necessário defender do camundongo o leão vociferante. Tampouco se deve adotar a postura imprópria de defensor das Escrituras. Basta que seja pregada. Ela conquistará as pessoas pelo próprio poder, sem a necessidade de nossos débeis esforços para lhe dar apoio".

Entretanto, a fé de algumas almas conturbadas é prejudicada pelo fato de entenderem mal as Escrituras. Confundem-se com o que lhes parecem declarações infundadas ou contradições. Precisamos, portanto, livrar-nos desses falsos obstáculos à fé. Se restar algum impedimento à fé, que seja a pedra de tropeço da cruz ou o custo do discipulado, e não um obstáculo imaginário facilmente eliminado. A despeito do que ouvimos às vezes, Deus nunca nos pede que sacrifiquemos nosso intelecto para crer.

A segunda objeção ao tratamento sério das alegadas discrepâncias e erros das Escrituras advém da posição oposta, segundo a qual não vale a pena defender a Bíblia por estar perfeitamente claro que ela está repleta de erros. Não existe uniformidade no modo como se apresenta esse segundo tipo de ponderação, mas todas as suas formas derivam basicamente da fé extremamente pequena na Bíblia. Por exemplo, o famoso teólogo Karl Barth declara que a Bíblia proclama dos telhados ser um livro humano e que faz parte de sua humanidade apresentar erros. Outros afirmam que a Bíblia é o livro inspirado por Deus com o objetivo de apresentar a verdade religiosa, não os fatos precisos da ciência e da história. Perder tempo tentando defender a Bíblia nessas áreas equivale a prestar-lhe um desserviço, segundo eles. Essa tentativa desviaria a atenção do verdadeiro propósito da Bíblia, que é, antes, instruir-nos nas questões morais e espirituais. Outra variante dessa posição entende que o propósito da Palavra de Deus é conduzir-nos à verdade da pessoa de Cristo. A Bíblia pode conter erros em muitas partes, mas remete ao Salvador. Focalizar a atenção em questões menos importantes sobre geografia, história, astronomia e biologia só desviará a atenção de seu verdadeiro objetivo — a fé do crente em Jesus.

Naturalmente há também outros que crêem estar a Bíblia repleta de erros por serem seus autores homens falhos. Miller Burrows, ex-catedrático de Novo Testamento (nt) da Universidade de Yale, resume com precisão esse entendimento típico da atualidade: "Hoje a Bíblia está repleta de coisas inacreditáveis ou, na melhor das hipóteses, altamente questionáveis a pessoa inteligente e instruída [...] A tremenda luta da teologia defende na inerrância da Bíblia (i.e., sua verdade total), em



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contraposição às descobertas da astronomia, da geologia e da biologia, tem se caracterizado por uma série de retiradas, resultando numa derrota que levou todos os teólogos sábios a adotar uma posição mais inteligente" (Outline of biblical theology, Philadelphia, Westminster, 1946, p. 9, 44).

Há algo comum a todas essas objeções: a convicção de que qualquer defesa da inerrância bíblica é, na melhor das hipóteses, perda de tempo e, na pior delas, danosa de fato, porque leva a pessoa para longe dos verdadeiros propósitos da Bíblia, que é conduzir-nos a Deus.

A reação do adepto da inerrância é muito simples. Para ele, a questão básica é: "Quem é Jesus Cristo?". Se a Bíblia está tão longe da verdade a respeito de quem é o Filho de Deus, então não resta dúvida: a Bíblia está cheia de declarações erradas. É tolice debater se a Bíblia nos diz ou não só a verdade em tudo quanto nos ensina, uma vez que, com efeito, está errada na principal questão de seu ensino. Em suma, os inerrantistas evangélicos não discutem com os radicais que rejeitam a Jesus Cristo como Filho de Deus. Todavia, quanto aos que aceitam a Jesus como Senhor divino, os ensinos de Cristo devem ser tomados com a mais profunda seriedade. Há coerência em negar a Jesus Cristo como Senhor e também rejeitar a autoridade plena da Bíblia, mas é incoerente confessá-lo como Senhor e, a seguir, rejeitar seu ensino. Nessa questão, os evangélicos procuram apenas ser coerentes. Jesus é Senhor, e cremos no que ensinou sobre a total confiabilidade do Antigo Testamento (at). Mediante o Espírito Santo, o Senhor prometeu conferir autoridade semelhante a seus discípulos, para orientarem a igreja depois de ele haver encerrado seu ministério terreno.

Os evangélicos, além do mais, não se abalam com as discrepâncias e falhas alegadas por algumas pessoas, para quem esses erros estão disseminados pela Bíblia inteira. Entendem que a maior parte desses problemas dissolve-se no momento em que vêem claramente ser a Bíblia um livro humano, escrito na língua comum de dois ou três mil anos atrás. Só quando tentamos transformar a Bíblia num livro redigido em estilo exato, preciso, como estamos acostumados a fazer num laboratório moderno de redação é que enfrentamos algumas dificuldades.

Pelas mesmas razões, os evangélicos consideram irrazoável exigir que um crente seja capaz de demonstrar a absoluta e completa harmonia entre todas as passagens bíblicas, para que seja possível aceitá-las como verdadeiras. A Bíblia foi escrita há milênios por escritores diversos, saídos de várias culturas ao longo dos séculos. A vista da natureza da Bíblia, seria muito mais razoável que não pudéssemos demonstrar, por causa de nosso limitado conhecimento das coisas humanas, a harmonia perfeita de todos os dados da Bíblia. Bem ao contrário, os evangélicos ficam espantados diante da realidade de haver tão poucos problemas aparentemente insolúveis na Bíblia. A inerrância bíblica não é algo inacreditável, tampouco requer o sacrifício do intelecto. Antes, a situação real com respeito aos problemas bíblicos é precisamente o que poderíamos esperar, diante do fato de que a Bíblia é o livro da verdade inerrante, que chegou até nós após ter sido compilada ao longo de muitos séculos e por muitas culturas diferentes.

Por fim, é necessário que se diga algo a respeito do autor e de suas qualificações para a tarefa que se propôs. Poucos especialistas estão tão bem equipados intelectualmente, tendo o domínio das línguas originais e das ferramentas da perícia bíblica, como o dr. Archer. Além de ser especialista íntegro, é estudioso dedicado das Escrituras e digno da confiança de quantos almejem compreender melhor a Palavra de Deus. Seu livro constitui rica mina de ouro, aberta a todos quantos se apegam à inerrância das Escrituras e precisam de ajuda para harmonizar essa convicção com o que lêem nas Escrituras e os fatos empíricos do mundo que nos rodeia. Acredito que este livro será de imenso valor para muitos cristãos fervorosos. Recomendo-o com entusiasmo à igreja e a todos os que estudam a Bíblia com seriedade.

Kenneth S. Kantzer


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