Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Rute


Não foi a transação entre Boaz e o parente, em Rute 4.3-8, contrária às estipulações de Deuteronômio 25.5-10? E o casamento por levirato não fere a lei que proíbe os incestos, conforme Levítico 18.16?

Deuterônimo 25.5-10 estipula que uma viúva sem filhos deve ser tomada como esposa por um irmão do falecido marido e dele gerar um filho (se isso lhe for biologicamente possível), o qual será considerado legalmente filho e herdeiro do morto. Isso significa que o nome do falecido será levado pelo filho que o irmão gerou, de tal modo que a linhagem do primeiro marido não se extinga. Mas os versículos 7 e 8 permitem que o irmão se recuse a desempenhar o papel de esposo substituto. Se ele assim proceder, contudo, a cunhada pode processá-lo, fazendo uma queixa contra ele no tribunal, perante o juiz; isso poderá arruiná-lo diante da opinião pública. De modo figurado, essa desgraça é simbolizada no ato de a viúva tirar o sapato do cunhado, em público, e cuspir-lhe no rosto. Depois, dirá ela: "É isso que se faz com o homem que não perpetua a descendência do seu irmão" (v. 9). O versículo



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10 que doravante a casa daquele cidadão será conhecida como "a família do descalçado".

Quando comparamos essa provisão com o interesse pela perpetuação da memória do falecido com as negociações desenroladas entre Boaz e o parente mais próximo, em Rute 4.3-8, notamos os seguintes fatos interessantes:

1. Se não houver um irmão sobrevivente do falecido (nesse caso, Quiliom também havia morrido.bem como o marido de Rute, Malom), a obrigação do levirato recaía sobre o primo mais próximo.

2. Além da obrigação de servir de procurador do falecido no leito conjugal, havia o dever de readquirir a propriedade do morto, que porventura estivesse prestes a ser arrematada ou vendida ou perdida por hipoteca. (Tal prática não é mencionada explicitamente com respeito à ordenança do levirato em Dt 25, mas está especificada em Lv 25.25: "Se alguém do seu povo empobrecer e vender parte da sua propriedade, seu parente mais próximo virá e resgatará aquilo que o seu compatriota vendeu".)

3. No caso de uma estrangeira como Rute, a moabita, poderia ser mais justificável que o homem se recusasse a desempenhar o dever de segundo marido (levirato) que no caso de uma viúva israelita. Considere-se a maldição que fora anexada aos descendentes de Moabe. Deuteronômio 23.3 diz: "Nenhum amonita ou moabita ou qualquer dos seus descendentes, até a décima geração, poderá entrar na assembléia do Senhor". Se essa ordenança era aplicada a uma moabita casada com um israelita tanto quanto a um homem de moabe que se convertesse ao Senhor, permanece uma questão aberta a discussão. Pelo menos, essa possibilidade levantou uma dúvida que aparentemente se resolveu pela legitimidade da conversão e dos direitos de Rute.

4. Talvez pelo fato da própria Rute não ter o menor desejo de humilhar o parente remidor (gô’ēl), visto ter já aberto o coração para Boaz, o próprio remidor teve permissão para remover seu calçado. E foi poupado da humilhação de receber uma cuspida no rosto.

De modo algum essas quatro características especiais do caso de Rute podem ser consideradas contraditórias à lei geral do levirato, de Deuteronômio 25. As regras básicas ali, quanto à rejeição formal do dever para com a viúva, como também quanto à aceitação pública dessa responsabilidade, foram respeitadas e cumpridas pelos dois homens. Rute não desempenhou o papel da viúva acusadora que humilha o gô’ēl; ela simplesmente abriu mão do direito de executar o ritual, à vista do fato de o propósito essencial da ordenança do levirato estar prestes a ser cumprido, de maneira muito mais desejável, por meio de seu parente benfeitor, o próprio Boaz.

Quanto à lei sobre o incesto com o irmão do marido morto ou com um homem que se deita com a esposa de seu irmão falecido (Lv 18.16), é óbvio que tal ordenança não se aplicava a uma situação em que o sobrevivente levava a viúva sem filhos para sua casa e se prontificava a agir como procurador de seu falecido irmão. Se ele tentasse casar-se com a cunhada sob quaisquer outras circunstâncias (como, por exemplo, no caso de Herodes, o tetrarca, que seduziu a esposa de seu irmão Filipe, Herodias, e adulterou com ela), então haveria incesto, punível com a pena capital. Caso Rute houvesse dado à luz um filho de Malom, isso a tornaria inelegível para casar-se com um irmão de seu marido; não poderia ser desposada nem por um primo-irmão (aparentemente Boaz não era primo-irmão do falecido).



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1 Samuel


Como poderia Bete-Semes conter 50.070 homens nos dias de Samuel (1 Sm 6.19)? Por que recaiu sobre eles tão severo julgamento, conforme registra um dos originais em hebraico?

É verdade que 50.070 homens parece uma população masculina excessivamente grande para uma cidadezinha do tamanho de Bete-Semes, no século xi a.C. Entretanto, há fortes evidências de que o texto original de 1 Samuel 6.19 mencione uma quantidade muito menor. Em outras palavras, em parte alguma encontramos um número como 50.070 escrito da maneira em que vemos nessa passagem, de acordo com a gramática do hebraico bíblico. Normalmente a palavra teria sido šiḇîm ’îš waḥamiššîm ’elep ’îš (lit., setenta homem e cinqüenta mil homem). Esse número também poderia ter sido registrado na ordem descendente, muito mais comum: — amiššîm ’elep ’îš wašiḇ ‘îm ’îš (cinqüenta mil homem e setenta homem). O fato de que nenhuma dessas duas ordens costumeiras de palavras foi seguida no texto hebraico dessa passagem, há motivo para suspeita de que o número foi inadvertidamente alterado no processo de cópia. (Esses erros são aparentes em 1 Samuel mais que em qualquer outro livro do at.)

É verdade que a lxx já havia herdado esse mesmo texto do original hebraico — Vorlage (hebdomēkonta andras kai pentēkonta chiliadas andrōn, "setenta homens e cinqüenta mil homens"). É significativo que, no final do século i d.C, Josefo (Antiquities 6.1.4) se refira à perda de vidas em Bete-Semes como sendo da ordem de setenta pessoas, sem que haja de modo algum o número "50 mil". Existem também alguns manuscritos hebraicos que omitem inteiramente "50 mil homem". Daí não ser necessário que se defenda esse elevado número como fazendo parte do texto original, como se o manuscrito de 1 Samuel fosse inerrante. Tampouco é provável que mais de setenta homens estivessem envolvidos no sacrilégio de remover o propiciatório de ouro (kjv, "assento de misericórdia") a fim de enxergar o que havia dentro da arca. Não se pode conceber a idéia de cinqüenta mil homens fazendo fila diante de uma arca aberta, só para olhar o que há em seu interior e satisfazer-se em saber que ali estavam apenas as duas tábuas da lei (Decálogo, cf. 1 Rs 8.9). Portanto, é inexplicável, e impossível, que houvesse tão grande perda de vidas humanas. No entanto, no que diz respeito aos setenta que se envolveram nesse sacrilégio, é certo que demonstraram uma atitude ímpia para com Deus. O Senhor havia colocado o símbolo de sua presença, com a mais solene das sanções. É difícil imaginar como tais homens abriram mão de suas vidas de forma tão catastrófica e repentina — agindo à semelhança de Uzá, na época de Davi, que simplesmente tocou o exterior da arca, para impedir que ela caísse, pois os bois que a carregavam tropeçaram (2 Sm 6.6-8).

Por que Deus condenou o pedido de um rei, feito pelos israelitas (1 Sm 8.7-9), após haver o Senhor estabelecido as leis que regeriam a escolha dos futuros monarcas de Israel (Dt 17.14-20)?

Não pode haver dúvida de que os planos de Deus para Israel incluíam um rei, uma dinastia especialmente escolhida, da tribo de Judá (Gn 49.10).



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E, antecipando esse evento, o Senhor estabeleceu linhas básicas que tal rei teocrático haveria de seguir, de modo especial a rejeição à costumeira multiplicação de riquezas, cavalos e esposas, conforme registro de Deuteronômio 17. Nada disso seria problema para o estabelecimento de uma forma monárquica de governo para Israel nos últimos dias da carreira desse povo. Depois de seus dois filhos, Joel e Abias, terem comprovado ser indignos e incompetentes para a liderança, os israelitas pediram a Samuel que escolhesse e ungisse um rei que governasse em caráter permanente, com plena autoridade de monarca (1 Sm 8.5).

À vista da situação de Israel, sob a longa sucessão de "juízes", os quais se seguiram à morte de Josué, não foi de todo surpreendente que o povo procurasse esse tipo de solução para sua ineficiência e desunião como nação. Todavia, a razão por que o pedido do povo desagradou ao Senhor foi que se baseou no desejo de seguir os vizinhos pagãos quanto à forma de governo. A motivação de Israel era poder assemelhar-se ao mundo a seu redor, em vez de apegar-se à constituição santa e perfeita que Deus lhes outorgara, o código do Pentateuco. Em um sentido definitivo, Israel estava rejeitando as leis do Senhor, como se fossem inadequadas para às necessidades, preferindo seguir as pegadas dos pagãos idólatras. O povo expressou seu desejo a Samuel com estas palavras: "Escolhe agora um rei para que nos lidere, à semelhança das outras nações". Haviam se esquecido de que o Senhor os chamara do Egito não para que se amoldassem ao mundo, mas a fim de caminharem na comunhão da aliança com Iavé, em testemunho de piedade diante dos povos pagãos.

No entanto, fica bem claro, também, que o Senhor Deus tinha em mente, desde o começo, uma forma monárquica de governo para seu povo. Até mesmo para Abraão, o Senhor havia dito: "... de você farei nações e de você procederão reis" (Gn 17.6). Deus decretara também que a linhagem da realeza sairia da tribo de Judá: "O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando de seus descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence, e a ele as nações obedecerão" (Gn 49.10). Em outras palavras, "até que venha o Messias, que será um descendente da linhagem real de Judá".

E assim, quando os contemporâneos de Samuel vieram a ele clamando por um rei, Deus lhes concedeu o desejo, embora os repreendesse por aquela motivação errada. O Senhor também os advertiu de que a maior unidade e a eficácia de governo que eventualmente obteriam mediante a monarquia seria ofuscada pela perda da liberdade, típica dos governos autocráticos. A vista de seu poder concentrado e supremo, o soberano não prestaria contas quanto aos direitos pessoais e civis do povo, como os juízes o fizeram. Por isso, a nação teria razões para lamentar sua escolha. Em vez de o povo ser governado pelas leis de Deus, cairia sob o governo autocrático de um único homem, ficando sujeito à pesada taxação de impostos, à tirania dos serviços de atendimento à família real, ao serviço militar obrigatório, ao confisco de propriedade e a tudo quanto ocorre sob o governo de um soberano (1 Sm 8.11-18).

A seguir, Deus escolheu para seu povo um rei capaz, talentoso, na pessoa de Saul. Todavia, esse homem tornou-se carnal, voluntarioso, desobediente e ciumento a ponto de ficar insano e sedento de sangue, nos últimos anos de seu reinado. Mas o propósito de Deus era preparar Israel, de modo que a nação pudesse apreciar melhor o governo de um verdadeiro homem de Deus — Davi, filho de Jessé, da tribo de Judá. Este haveria de servir como rei teocrático, mas fiel e obediente a Iavé.

Não fornecem as Escrituras registros contraditórios a respeito de como Saul foi ungido rei de Israel (cf. 1 Sm 9.10; 12)?

Na verdade, existe apenas um registro a respeito da unção de Saul como rei de Israel. Ele se encontra em 1 Samuel 10.1, em que lemos que na periferia da cidade de Samuel (presume-se que seria Ramá, no território de Zufe [9.5]) o profeta ungiu de modo particular a Saul, dizendo: "O Senhor o ungiu como líder da herança dele" Portanto, devemos reconhecer que, que havendo um único registro da cerimônia de unção, não poderia existir contradição.

Somos informados por 1 Samuel 10.17-24 que houve uma assembléia nacional convocada por


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Samuel, em Mispá, na qual se procedeu à eleição solene, mediante sorteio, com vistas a descobrir o homem de Israel que o Senhor havia escolhido para ser rei. A sorte finalmente recaiu sobre Saul, que modestamente se ocultara atrás de umas bagagens, perto do local da assembléia. Quando os que o buscavam o descobriram e o trouxeram diante de toda a congregação, Samuel o reconheceu de público, dizendo: "Vocês vêem o homem a quem o Senhor escolheu? Não há ninguém como ele entre todo o povo" (v. 24). A seguir, todos aclamaram, dizendo: "Viva o rei!" No entanto, não se lê uma única palavra aqui a respeito da cerimônia de unção.

Depois disso, houve uma confirmação posterior da parte da liderança militar da nação, depois que Saul foi bem-sucedido ao levantar o cerco de Jabes-Gileade, expulsando os inimigos que a sitiavam, os amonitas. 1 Samuel 11.15 informa-nos: "Assim, todo o povo foi a Gilgal e proclamou Saul como rei na presença do Senhor. Ali ofereceram sacrifícios de comunhão ao Senhor, e Saul e todos os israelitas tiveram momentos de grande alegria". Entretanto, nenhuma indicação nos é dada de que ele tenha sido ungido nessa época. Tampouco lemos a respeito de uma cerimônia de coroação. Observamos apenas uma reafirmação entusiástica de sua autoridade e glória reais, em harmonia com a indicação prévia que se fez em Mispá. 1 Samuel 12 simplesmente prossegue a narrativa da cerimônia de confirmação em Gilgal; Samuel profere seu discurso de despedida, diante do povo, e solenemente adverte o povo e o novo líder do governo de que o favor e a proteção do Senhor estavam condicionados à observância fiel à sua lei e à manifestação da piedade em testemunho coerente diante do mundo pagão e idólatra (v. 14, 15). O profeta encerra o discurso com uma advertência solene: "Todavia, se insistirem em fazer o mal, vocês e o seu rei serão destruídos" (v. 25).

O registro da unção inicial de Saul pelo profeta de Deus, o reconhecimento subseqüente pela nação e sua confirmação posterior como líder após sua primeira vitória na guerra contra os pagãos, tudo isso constitui uma linha coerente, que atesta o desenvolvimento do primeiro rei de Israel, o qual, ao iniciar seu reinado, encerrou o antigo sistema de "juízes" intermitentes (ou líderes carismáticos).

Qual é o número certo em 1 Samuel 13.1?

O texto de 1 Samuel 13.1 é preservado como massorético, ou recebido, o qual perdeu o número que constava do manuscrito original. Ele diz literalmente: "Saul era um filho de... anos, quando se tornou rei, e reinou durante dois anos em Israel, quando [lit., 'e'] Saul escolheu para si mesmo três mil de Israel". Tudo que podemos dizer com certeza é que ele teria mais de vinte anos de idade, visto que os números inferiores a vinte requerem a palavra equivalente a "anos" no plural (šānîm). Por ser o singular šānāh o que se usa aqui, podemos afirmar que foi um numerai igual ou maior a vinte que o precedeu (cf. E. Kautzsch, ed., Gesenius' Hebrew Grammar [Oxford, Clarendon, 1910] # 134.2 e Rem. 1). (Essa regra peculiar de sintaxe dos numerais é seguida no árabe também.)

"Um ano reinara Saul" não se justifica, visto que o texto hebraico não traz "reinara", mas "Saul era filho de um ano quando se tornou rei" (bemolkô). A tradução "Saul tinha quarenta anos quando começou a reinar" é pura conjectura, como o reconhece a nota marginal (do texto de asv).

A nasb segue a hipótese que atribui o numeral "quarenta" ao texto, mas a seguir acrescenta uma segunda conjectura: "E ele reinou trinta e dois anos em Israel". Isso é totalmente desnecessário se a conexão entre o fim do versículo 1 e o início do versículo 2 for feita da forma sugerida acima. A rsv não apresenta suposições, mas deixa os espaços vazios, onde estes aparecem no tm: "Saul tinha... anos de idade quando começou a reinar; e ele reinou... e dois anos sobre Israel". A Bíblia de Jerusalém remove de vez o versículo 1, mas apresenta uma tradução ousadamente literal do tm, numa nota marginal.

A nvi apresenta "trinta" no lugar do primeiro número e "[quarenta] e dois" no lugar do segundo. Numa nota de rodapé, a nvi encaminha o leitor a Atos 13.21, que diz: "Então o povo pediu um rei, e Deus lhes deu Saul, filho de Quis [... ] que reinou quarenta anos". Mas, se Saul reinou apenas quarenta anos ao todo, como Atos 13.21 afirma, é


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difícil aceitar que 1 Samuel 13.1 dizia que ele reinou durante quarenta e dois anos. No entanto, como indicamos acima, não há a menor necessidade de consertar o segundo número. Simplesmente redigimos o seguinte: "E ele havia reinado dois anos em Israel, quando escolheu para si mesmo três mil de Israel". Essas palavras se encaixam como introdução ao extraordinário episódio protagonizado por Jônatas em Micmás.

Como poderiam os filisteus ter usado 30 mil carruagens num lugar como Micmás (1 Sm 13.5)?

Micmás possui um extenso vale, não sendo inconcebível que 30 mil carruagens pudessem trafegar nas vizinhanças da cidade. O problema está no tamanho dessa frota militar. Delitzsch (Keil e Delitzsch, Samuel, p. 126, 27) salienta, em seu comentário a esse versículo, que a simples menção de seis mil cavaleiros no exército filisteu torna quase conclusivo que o verdadeiro número de carruagens deveria ser consideravelmente menor. O que significa que, em todo o at, cada vez que se menciona um exército constituído de cavalaria e veículos de guerra, o número de cavalariços excede o de carruagens (cf. 2 Sm 10.18; 1 Rs 10.26; 2 Cr 12.3 etc). Além disso, jamais foi mencionado nos anais de qualquer potência antiga, nem mesmo entre os egípcios, assírios, caldeus e persas um número tão elevado de carro para um único exército. Portanto, é bastante improvável que uma pentarquia diminuta de terceira categoria como a Filístia pudesse reunir a maior força de veículos de guerra da história antiga. Delitzsh sugere o seguinte: "É certo que esse número sofreu corrupção; devemos ler 3 mil [šelōšeṯ ’am] em vez de 30 mil [šelsšîm ’elep]* de acordo com a Peshita e a arábica, ou simplesmente 1.000; nesse caso, a origem do número trinta poderia ser atribuída ao descuido de um copista. Ele teria copiado a letra [lamed] da palavra [Yiśrā’ēl] duas vezes [ditografia! Inconseqüentemente, o segundo [lamed] foi tomado pelo numeral trinta [visto que lamed com um ponto em cima é a representação gráfica de 'trinta']".

Respondendo à sugestão de Delitzsch, abre-se a questão sobre qual seria o sistema de anotação numérica usado pelos escribas hebreus no período anterior ao século iii a.C. A lxx já tinha a mesma redação do tm (triakonta chiliades harmatōn), a qual teria sido traduzida provavelmente na segunda metade daquele século. É bem mais provável, portanto, a seguinte possibilidade: o número original seria 3 mil, registrado no texto primitivo de 1 Samuel 13.5; mas, depois, no decurso das transmissões textuais, de algum modo o número 3 mil foi erroneamente copiado como sendo 30 mil. A preservação exata de estatísticas e de nomes próprios é notoriamente difícil na cópia de documentos manuscritos, e 1 Samuel tem uma porcentagem excessivamente alta de erros de cópia. A doutrina da inerrância escriturística garante que apenas os manuscritos originais das Escrituras foram preservados de erros; ela não garante a autenticidade absoluta de todas as cópias que se fizeram dos originais.

Em 1 Samuel 13.13, como poderia Deus prometer a Saul um reino eterno, se ele não pertencia à tribo de Judá?

Foi depois de Saul haver violado a lei de Deus, ao oferecer um sacrifício no altar, em vez de esperar um sacerdote, que Samuel lhe disse, em 1 Samuel 13.13: "Você agiu como tolo, desobedecendo ao mandamento que o Senhor, o seu Deus, lhe deu; se você tivesse obedecido, ele teria estabelecido para sempre o seu reinado sobre Israel". Seria esse último trecho equivalente a uma promessa da parte de Deus? Na verdade, não é um juramento, pois apenas menciona como poderia ter sido a situação se Saul houvesse sido fiel ao Senhor. Ele e seus descendentes teriam ocupado o trono de Israel permanentemente. Mas o rei rejeitou a Deus, tanto na questão do extermínio dos amalequitas (1 Sm 15) quanto nesse episódio, em Gilgal, em que Saul abusou de prerrogativas reservadas aos sacerdotes apenas. A sentença foi a rejeição e a substituição por Davi, da tribo de Judá.

O trono de Israel havia sido prometido à tribo de Judá, nos dias de Jacó, quando o patriarca foi inspirado, em seu leito de morte, a profetizar o futuro das doze tribos. Gênesis 49.10 contém a promessa de que o "O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando


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de seus descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence e a ele as nações obedecerão" — isto é, até a vinda do Messias, Jesus Cristo. O trono havia sido reservado para a casa de Davi, da tribo de Judá, e Deus sabia perfeitamente, por antecipação, que Saul falharia, caindo em desobediência e apostasia. Entretanto, 1 Samuel 13.13 simplesmente estabelece o fato de ele ter apostatado mediante sua teimosia, isto é, desprezando o desfrute do trono de Israel, tanto para si mesmo quanto para os seus descendentes.

Em 1 Samuel 15.11, está escrito que Deus ficou triste por ter colocado Saul como rei em Israel. Será que o Senhor não sabia de antemão que o desempenho de Saul seria fraco? Teria ele cometido um erro ao escolhê-lo? Ou seria essa redação mera interpretação humana dos sentimentos de Deus a esse respeito? [d]

Embora Deus, conhecedor de todas as coisas, soubesse antecipadamente que Saul, o filho de Quis, fracassaria totalmente no cumprimento de seus deveres nos últimos anos de seu reinado, achou apropriado, no entanto, usá-lo para libertar a Israel do jugo dos opressores pagãos no início de seu governo. Saul demonstrou ser um líder eficiente ao expulsar os amonitas, os amalequitas e os filisteus e ao inspirar as doze tribos a ter coragem e a orgulhar-se de seu povo. Mas Deus sabia desde o início que ele cairia em desobediência e rebelião e que por isso teria de descartar-se dele de vez, a favor de Davi, filho de Jessé. De fato, o Senhor deixou bem claro, mediante a profecia de Jacó, em seu leito de morte (Gn 49.8-10), que Judá deveria suprir a linhagem real permanente para a nação de Israel. Saul era da tribo de Benjamim, Davi era da tribo de Judá. Por isso, não poderia haver dúvidas sobre qual seria escolhida por Deus.

No entanto, o fato de Saul desprezar as instruções que Deus lhe dera por meio de Samuel foi motivo de profunda tristeza para o Senhor. Ele jamais poderia ter substituído a vontade revelada de Deus pelo seu próprio desejo. Foi por isso que o Senhor disse a Samuel: "Arrependo-me de ter posto Saul como rei..." (e usa o verbo niḥam, termo que implica emoções profundas e grande preocupação pela situação de outras pessoas). Isso não significa que Deus tivesse se enganado em suas expectativas a respeito de Saul e sobre o sofrimento e fracasso que recairiam sobre Israel, quando seu rei se desviasse do caminho da obediência. No entanto, o versículo 29 usa o mesmo verbo para declarar que o Senhor nunca muda de opinião, não sofre mudanças nem adota plano diferente daquele que já traçou. "Aquele que é a Glória de Israel não mente nem se arrepende, pois não é homem para se arrepender" (grifo do autor). Essa declaração foi formulada de modo inquestionável pelo profeta Samuel, sob inspiração divina, e não representa uma interpretação humana e falível — nem no versículo 11 nem no 29. Dois significados um tanto diferentes ocorrem com a palavra niḥam no mesmo capítulo; trata-se de ocorrência comum no hebraico, em que algumas palavras têm dois ou mais sentidos.

Qual é o nome correto do irmão de Davi: Samá ou Siméia? [d]

Em 1 Samuel 16.9, o nome do terceiro filho de Jessé (pai de Davi) é mencionado como sendo Samá (šammãh). Mas em 1 Crônicas 2.13, esse nome aparece como šime‘ā (embora a Peshita traga šamo nesse ponto, e também em 1 Samuel 16.9). Há outra passagem ainda (2 Sm 21.21) em que o nome dado é Siméia (de šime‘ēy). Usando esses dados, podemos chegar a uma conclusão quanto ao nome correto e original desse homem.

Em primeiro lugar, é significativo constatar que, embora a sílaba final ‘ayin () esteja faltando em 1 Samuel 16.9, a sílaba mêm (m) apresenta a marca de letra dobrada (daguesh forte) dentro dela (šāmmāh em vez de šāmāh), que torna o vocábulo igual a um adjunto adverbial — "para lá" ou "lá". Portanto, uma palavra pouco viável como nome próprio. Todavia, poderia ser uma assimilação seguida de uma consoante como ‘ayin. Pode ser que em certas regiões do território de fala hebraica, como Judá, houvesse uma tendência


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para tirar a ênfase ou até mesmo omitir de vez o som da sílaba ‘ayin, especialmente em se tratando de nomes de pessoas. Assim é que encontramos o nome de uma moabita escrito rûṯ ("Rute"), em vez de re‘û-ṯ ("amizade"), que é como provavelmente deveria ter sido grafado. (Rût é uma palavra destituída de sentido sem o ‘ayin.) Da mesma forma, Samuel é grafado šemû’ēl (que só pode significar "o nome de Deus"), embora de acordo com a declaração de Ana em 1 Samuel 1.20 e 1.27 deveria ter sido šemû‘’ēl ("ouvido por Deus"). Devemos, portanto, concluir que a grafia de 1 Crônicas 2.13 (šime‘ā’) é a correta, e que a de 1 Samuel 16.9 é erro de um copista, resultante da pronúncia regional.

Quantos filhos teve Jessé? 1 Samuel 16.10, 11 diz que foram oito, mas 1 Crônicas 2.13-15 registra apenas sete.

Em, 1 Samuel 16, são nomeados apenas os três irmãos mais velhos de Davi: Eliabe (v. 6), Abinadabe (v. 8) e Samá (v. 9), que é chamado de Siméia em 1 Crônicas 2.13. No entanto, o texto diz que Jessé apresentou sete de seus filhos a Samuel (v. 10), antes da chegada do mais novo, Davi, que ele mandara buscar no campo (v. 11). Em 1 Crônicas 2.14, aparecem os nomes dos demais: Natanael, Radai e Ozém, e o de Davi, como o sétimo. Que aconteceu ao outro filho, cujo nome não é mencionado em 1 Samuel 16 e é totalmente ignorado em 1 Crônicas 2? Delitzsch (Keil e Delitzsch, Chronicles, p. 62) sugere que ele teria falecido sem posteridade e que por isso seu nome não foi preservado à época em que os livros de Crônicas foram redigidos. Ele poderia ter morrido de algum acidente ou doença, ainda jovem, antes de casar-se. Visto não ter deixado descendentes nem ter contribuído com façanha alguma à época de Davi, não havia uma razão especial para conservá-lo na lista dos filhos de Jessé.

O autor deste livro teve um irmão mais velho, que morreu muito cedo e seria o filho número quatro. No entanto, após a sua morte, os remanescentes sempre falavam que a família se compunha de três irmãos. É possível que algo semelhante tenha acontecido na família de Jessé. O número total de filhos seria oito, mas apenas sete sobreviveram e desempenharam um papel importante durante a carreira de Davi. (1 Cr 2.16 acrescenta que havia duas irmãs também: Zeruia e Abigail. Depois de elas terem se casado, seus filhos desempenharam papéis de destaque no serviço que prestaram ao seu tio Davi.)

Em 1 Samuel 16.19-21 Saul reconhece que Davi é o filho de Jessé, mas em 17.58, ele teria perguntado ao mancebo: "De quem és filho, jovem?" Como as duas passagens podem estar de acordo? [d]

É verdade que Davi já havia sido apresentado a Saul como "filho de Jessé, de Belém, que sabe tocar harpa. É um guerreiro valente, sabe falar bem, tem boa aparência..." (1 Sm 16.18). Mas devemos observar também que até a época da luta contra Golias, ele só havia mostrado a Saul seu lado artístico, musical. Depois, recebera permissão para voltar à sua casa, em Belém. É muito natural que Saul desejasse conhecê-lo sob uma ótica diferente, demonstrando profundo interesse pelo seu contexto familiar. Parece que Abner não conhecia Davi, exceto como tocador de harpa, pelo que nem sequer conhecia o nome do pai o jovem (17.55). O general não estava presente quando Davi foi apresentado no palácio real como um delicado musicista (16.18). Antes, um dos jovens soldados de Saul (i.e., membro da guarda real) já havia mencionado o nome de Jessé a Saul.

No entanto, o interesse despertado de Saul cresceu muito, pois foi além do desejo em conhecer o nome do pai de Davi, ainda que essa fosse sua primeira pergunta. Fica patente que ele desejava saber se havia mais alguém na casa de Davi que assemelhasse ao jovem; esse interesse estava alinhado com sua política padrão, estabelecida em 1 Samuel 14.52: "Sempre que Saul conhecia um homem forte e corajoso, alistava-o no seu exército". Em outras palavras, ele estava interessado em formar um corpo militar de elite composto de campeões em combate, verdadeiros heróis, pelo que ele viu em Davi um guerreiro promissor, um meio de obter mais soldados que se lhe assemelhassem. Em 18.1, somos informados de que Davi


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teve uma longa conversa com Saul, algo mais que simplesmente a menção do nome de seu pai. Assim é que, quando examinarmos os dois episódios em seu contexto, em situações tão diferentes, entendamos que se complementam: não há contradição entre os dois textos.

O livro de 1 Samuel contém vários exemplos de mentiras e enganos da parte dos escolhidos de Deus, Davi e Samuel, o profeta (1 Sm 16; 20; 21; 27). Teria o Senhor realmente tolerado a mentira e o engano como sendo meios de atingir um fim? [d]

Ao tratarmos dessa questão difícil, devemos ter em mente os seguintes fatores:

1. Embora as Escrituras registrem a desonestidade dos homens, isso não significa necessariamente que elas aprovem ou endossem esse pecado. O mesmo vale para outros pecados cometidos por líderes religiosos.

2. O dever de falar só o que é verdadeiro não carrega consigo necessariamente a obrigação de expor toda a verdade sobre qualquer assunto, especialmente se vidas humanas estiverem em jogo, dependendo dessas revelações. Não se fala toda a verdade se isso violar a confiança depositada ou o segredo das informações e se implicar traição contra alguém.

3. O mero registro de um episódio que envolve subterfúgios ou engano não implica que a pessoa a qual dele se utiliza agindo de modo responsável, no mais elevado nível de fé, nem que demonstre um exemplo de conduta que os crentes possam imitar.

Tendo em mente esses fatores, podemos examinar com bastante proveito cada um dos episódios a que aludimos nessa questão.

A passagem de 1 Samuel 16.2 relaciona-se à apreensão de Samuel quanto a dar cumprimento à tarefa que Deus lhe dera, a de ungir o novo rei em Belém. "Samuel, porém, disse: 'Como poderei ir? Saul saberá disto e me matará'. O Senhor disse: 'Leve um novilho com você e diga que foi sacrificar ao Senhor'". O versículo 5 diz que o profeta dissera a Jessé e sua família: "Vim sacrificar ao Senhor". É certo que essas palavras expressavam a verdade, e ele havia seguido as instruções divinas. Ele levou um bezerro para ser oferecido num altar, em Belém, ainda que tivesse em mente um propósito mais abrangente. Em toda essa movimentação, Samuel estava cumprindo as determinações do próprio Deus. É claro que o Senhor havia aprovado a norma prática de reter informações, sonegando-as ao rei Saul, pois do contrário ele teria partido para a violência e o derramamento de sangue, caso soubesse de antemão o que o aguardava. Se o profeta houvesse divulgado sua intenção (o que havia além de realizar um sacrifício religioso em Belém), Saul teria matado não só Samuel, mas também Davi e toda a sua família. Portanto, nesse caso, teria sido errado e extremamente prejudicial revelar todo o propósito. Existe uma distinção clara entre apelar para a mentira ou para o engano e reter informações que podem causar grandes danos e até mesmo a impossibilitar que se cumpra a vontade de Deus. Nesse caso, a unção do jovem Davi como rei de Israel não deveria ser anunciada de antemão. Em outras palavras, Samuel estava cumprindo integralmente a vontade de Deus ao mencionar apenas parte da verdade, em vez de contá-la toda.

O texto de 1 Samuel 20 relata como Jônatas resolveu proteger a vida de seu amigo tão querido, Davi, pois ele sabia 1) que Deus havia escolhido aquele jovem para ser o próximo rei de Israel e 2) seu próprio pai, Saul, provavelmente tentaria impedir que o propósito divino se cumprisse pelo assassinato de Davi, o qual era um perigoso rival e uma ameaça aos direitos da dinastia de Saul. A lealdade de Jônatas a seu pai representava um grande conflito com seu dever para com o Senhor, e para com seu servo escolhido, Davi, a quem amava, mais do que a si próprio e a seu pai, este enlouquecido de ciúme e sedento de vingança. Sob circunstâncias tão peculiares, Jônatas tinha apenas uma opção: concordar com Davi no que dizia respeito a um teste das verdadeiras intenções de Saul (difíceis de ser determinadas, por causa de sua insanidade ou desequilíbrio mental e das ocasionais mudanças de opinião; cf. 1 Sm 19.6). A única forma de descobrir o verdadeiro propósito do rei era submetê-lo a uma



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situação na qual reagiria, a saber, se Davi deixasse de comparecer a uma festa da lua nova no palácio (a que Davi havia comparecido anteriormente, por ser genro do rei e portanto, membro, da família real). Ele deveria apresentar uma satisfação plausível para sua ausência; a desculpa arranjada foi que Davi havia sido convocado para ir a Belém, a fim de estar com a família na celebração da mesma festividade, na casa de seu pai, Jessé.

Diferentemente do exemplo anterior (1 Sm 16.2), parece que não houve outra convocação da parte do irmão mais velho de Davi, Eliabe, ainda que tal convite houvesse sido muito razoável e justificado da parte de sua família em Belém. No entanto, como a história vai se desdobrando, é claro que Davi não se dirigiu a Belém, depois de haver descoberto que Saul tinha a intenção de matá-lo. Dificilmente, ele teria ido para casa após saber por meio de Jônatas que o rei se firmara em sua terrível hostilidade. É provável que, em vez disso, voltasse para o palácio. Só podemos concluir que esse aparente compromisso de visitar a família em Belém era mero pretexto da parte de Davi. E, ainda que Jônatas repetisse com exatidão o que Davi lhe havia dito, na forma de pedido — que fosse desculpado por não ir à festa promovida pelo rei —, é claro que o filho de Saul entendeu que aquilo era apenas um subterfúgio. No entanto, dificilmente acusaríamos Jônatas pelo seu procedimento, pois, caso ele houvesse contado a seu pai toda a verdade, ter-se-ia tornado culpado de traição ao amigo. Além disso, Davi era o novo rei escolhido de Israel, por decisão de Deus. O sangue de Davi estaria sobre a cabeça de Jônatas. A situação era tão delicada que o próprio filho do rei quase perdeu a vida na tentativa de defender os direitos do amigo diante da fúria de seu furioso pai. E Jônatas precisou desviar-se rápido quando Saul tentou espetá-lo na parede com uma lança (1 Sm 20.33).

O capítulo 21 de 1 Samuel registra a triste decisão de Davi, ao fugir para a cidade de Nobe, quando o sumo sacerdote Aimeleque servia no tabernáculo do Senhor. Ele jamais deveria ter colocado aquela comunidade sob o terrível perigo da ira do rei. O fato de ter ido para lá acarretou-lhe tremenda culpa, pelo massacre subseqüente às mãos dos capangas de Saul, sob a liderança do desprezível Doegue (22.18, 19). Em defesa de Davi, pode-se dizer que ele não poderia antever até aonde o rei iria chegar, ao assassinato de todos aqueles sacerdotes inocentes. No entanto, depois de a atrocidade ter sido cometida e de Abiatar ter-lhe levado as horrendas notícias, Davi reconheceu quão inescusável ele se tornou por mentir a Aimeleque sobre sua missão em Nobe. Ele não deu ao sacerdote a oportunidade de escolher arriscar ou não a própria vida.

Nesse episódio, Davi considerou-se culpado, como ele mesmo reconheceria mais tarde: "Então Davi disse a Abiatar: 'Naquele dia, quando o edomita Doegue estava ali, eu sabia que ele não deixaria de levar a informação a Saul. Sou responsável pela morte de toda a família de seu pai'" (1 Sm 22.22). No entanto, no que diz respeito ao envolvimento de Deus nessa tragédia, não existe indicação alguma de que o Senhor concordou com a mentira de Davi a Aimeleque. A única atenuante para Davi é que ele não poderia ter imaginado de antemão o mal que ele causaria ao procurar refúgio em Nobe. Mas, num retrospecto, verificamos que ele deveria ter ido para outro local ao fugir de Saul. Houvesse Davi realmente buscado a orientação de Deus, teria encontrado segurança em En-Gedi, ou em outra região deserta. É certo que ele não estava dentro da vontade de Deus quando se dirigiu a Nobe e ali mentiu, retirando-se depois com a espada de Golias.

É interessante que, mais tarde, Jesus usaria o exemplo de Davi em Nobe, quando o jovem fugitivo e seus companheiros esfomeados comeram do pão da proposição, de sete dias, que só era permitido aos sacerdotes (Mt 12.3, 4). O Senhor parece dar a entender que, sob circunstâncias tão especiais, Davi tinha justificativa para quebrar a lei, visto que a preservação da vida humana era muito mais importante que a estrita observância de um rito legalístico. Mas, ainda assim, é certo que Davi deve ter sofrido a mais profunda das humilhações, ao permitir que o pânico o conduzisse ao rei Aquis, de Gate, em vez de esperar no Senhor e seguir sua orientação. A única coisa que ele conseguiu foi aumentar a possibilidade de morrer ao procurar refúgio entre os impiedosos filisteus. Davi só


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conseguiu escapar do perigo ao fingir estar irremediavelmente louco, no palácio de Aquis; como, resultado, ele foi desprezado e levado para fora daquele território como se fora um cão raivoso (1 Sm 21.13-15).

Em 1 Samuel 27.8-12, lemos a respeito do engano que Davi praticou contra o rei Aquis. Após obter aprovação para estabelecer um quartel em Ziclague (como vassalo ou aliado de Aquis), Davi sustentava a si próprio e a seus seiscentos guerrilheiros com assaltos a tribos do Neguebe (os gesuritas, gersitas e amalequitas) eliminando a população de todas as comunidades que invadia. O propósito dessa prática sanguinária era impedir que algum sobrevivente informasse aos filisteus de Gate que ele, na verdade, não destruía os jerameelitas e nem os habitantes do sul de Judá, como afirmava estar fazendo; de fato, Davi atacava as comunidades que mantinham boas relações com os filisteus (v. 11, 12). Ele conseguiu impedir que o rei Aquis viesse a saber de suas atividades, levando-o a crer que se tornara inimigo de seu próprio povo e por isso atacava suas vilas e roubava seu gado.

Depois de verificar esses tristes episódios no início da carreira de Davi, devemos reconhecer que Deus não aprovou nem protegeu jamais o filho de Jessé nas ocasiões em que praticou a mentira e a perversidade contra seus inimigos pagãos (como no caso dos amonitas, 2 Sm 12.31). Ao contrário, Deus o matriculou em uma rigorosa escola, de grande sofrimento, muita incerteza e permanente perigo, porque descobriu nele um instrumento apropriado para livrar seu povo dos inimigos pagãos e estabelecer um governo forte e estável, em cumprimento à promessa feita a Abraão (Gn 15.18-21). Não foi por causa de suas virtudes nem de suas boas obras que Deus o escolheu para desempenhar o papel de líder, mas devido à sua grande fé. A despeito dos episódios em que ele deixou de confiar no Senhor totalmente e de procurar sua orientação, como deveria ter feito, Davi entregou seu coração a Deus de forma sincera e fez um propósito firme, segundo seu desejo mais veemente: fazer a vontade de Deus e glorificar seu santo nome.

Quem matou Golias: Davi ou Elanã?

Em 1 Samuel 17.50, lemos que Davi cortou a cabeça de Golias com a própria espada do gigante, depois de tê-lo derrubado com uma pedra disparada por sua funda. Por causa dessa espantosa vitória sobre o filisteu, Davi tornou-se o grande herói das tropas israelitas, embora fosse apenas um adolescente. Mas 2 Samuel 21.19 no tm declara que "Elanã, filho de Jaaré-Oregim, de Belém, matou Golias, de Gate, que possuía uma lança cuja haste parecia uma lançadeira de tecelão". Esse versículo certamente contradiz 1 Samuel 17. Felizmente, temos uma passagem paralela em 1 Crônicas 20.5, que registra esse episódio da seguinte maneira: "... Elanã, filho de Jair, matou Lami, irmão de Golias, de Gate, que possuía uma lança cuja haste parecia uma lançadeira de tecelão". Parece, sem sombra de dúvidas, que essa é a redação correta, não só no que diz respeito ao texto de Crônicas, mas também ao de 2 Samuel 21.19.

O manuscrito anterior, do qual o escriba estaria copiando, deveria estar um tanto apagado, ou quase ilegível, nesse versículo em particular, o que o levou a cometer dois ou três erros. Parece que aconteceu o seguinte:

1. O objeto direto, que em Crônicas vem logo antes de "Laḥmi", era ’ṯ; o copista tomou-o erroneamente como b-ṯ_ ou b-y-ṯ_ ("Beth") e, desse modo, removeu Bêt hal-laḥmî ("o belemita") do texto.

2. O escriba leu mal a palavra que significa "irmão" (’āḥ) como sendo o objeto direto (’et) imediatamente antes de g-l-y-ṯ ("Golias"). Assim, o copista fez "Golias" ser o objeto direto de "matou" (wayyak), em vez de "irmão" de Golias (como o faz a passagem de Crônicas).

3. O copista colocou em lugar errado a palavra equivalente a "tecelão" (’-rg-ym), a qual ficou logo depois de "Elana" como seu patronímico (ben Y-‘r-y’-r-g-ym, ou ben ya ‘arēy ’ ōregîm — "o filho das florestas de tecelões" — eis um nome muito improvável para o pai de alguém!) Em Crônicas, a palavra ’ōregîm ("tecelões") vem logo depois de menôr ("um eixo de"), o que perfeitamente faz sentido. Em outras palavras, a passagem de 2 Samuel 21 traz



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uma corrupção textual perfeitamente aceitável. O texto correto felizmente foi preservado em 1 Crônicas 20.5.

Lemos em 1 Samuel 18.10 que um espírito mau da parte de Deus sobreveio ao rei Saul. Como podemos explicar isso, se de Deus só vêm coisas boas? [d]

Não é exato dizer que só coisas boas provêm de Deus. É verdade que a criação original era boa (Gn 1.31) e que o próprio Deus não é tentado pelo mal, tampouco ele mesmo tenta alguém (no sentido de seduzir) para que cometa o mal (Tg 1.13). No entanto, também é verdade que a bondade genuína em um Deus justo exige que se faça uma diferença distinta entre o bem e o mal. Como aquele que ordenou e preservou a ordem moral, é absolutamente necessário que ele traga punição ao pecado, independentemente do grande amor e compaixão que possa sentir pelo pecador.

Lemos em Isaías 45.7: "Eu formo a luz e crio as trevas, promovo a paz e causo a desgraça; eu, o Senhor, faço todas essas coisas". A palavra que a nvi traduz por "desgraça" no hebraico é rā‘, que tem realmente o sentido básico de "mal" (pode ser mal moral, ou desgraça). Esse termo salienta as conseqüências dolorosas e danosas que sobrevieram após a prática do pecado original. Observe que Tiago prossegue e mostra o funcionamento do processo maligno: "Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido. Então esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, após ter se consumado, gera a morte" (Tg 1.14, 15).

Saul havia conscientemente quebrado a lei de Deus. Primeiro, profanou o altar de Deus, ao executar um sacrifício sacerdotal que contrariava a ordem divina (1 Sm 13.12, 13), e, em segundo lugar, ao poupar o rei Agague e certa porção do gado dos amalequitas, embora houvesse recebido ordens para executar a todos (1 Sm 15.20-23). Além do mais, em 1 Samuel 18.8, lemos que Saul ficou louco de ciúmes por causa do louvor público que o jovem Davi recebera, à vista da façanha de matar Golias e os filisteus. Por causa desses sucessivos atos de rebelião contra a lei e a vontade de Deus, ele tornou-se passível de sofrer a influência de Satanás, tal como Judas Iscariotes que se deixou influenciar pelo diabo, ao decidir que trairia o Senhor Jesus (cf. Jo 13.2).

Visto que Deus estabeleceu as leis espirituais de causa e efeito, é correto afirmar que a desobediência de Saul cortou-lhe o acesso à orientação do Espírito Santo e sua comunhão com ele. Antes, o rei Saul tinha total acesso a Deus. Agora, ele se tornara presa do espírito maligno da depressão e do ciúme, que o empurrava cada vez mais em direção à paranóia. Embora estivesse sem a menor dúvida servindo como joguete de Satanás, a queda de Saul ocorreu por permissão de Deus e segundo seu plano. Devemos entender que, na verdade, todas as conseqüências das penalidades do pecado provêm de Deus, que é o Autor da lei moral, a Pessoa que sempre faz justiça (Gn 18.25).

Diz 1 Samuel 19.23, 24 a respeito do rei Saul: "O Espírito de Deus apoderou-se dele, e ele foi andando pelo caminho em transe [...] Despindo-se de suas roupas, também profetizou na presença de Samuel [...] Por isso, o povo diz: 'Está Saul também entre os profetas?'". Por que Saul profetizou despido? [d]

A passagem, que se inicia com o versículo 19, indica que Saul perseguia o genro, o jovem Davi, o qual fugira para Nobe, em Ramá. Ele recebera a informação de que Davi estava ali, entre os profetas que haviam sido treinados para o serviço do Senhor sob a liderança de Samuel. Assim foi que Saul enviou seus soldados para prender Davi e levá-lo preso.

Quando os sicários do rei lá chegaram, porém, e contemplaram a figura augusta do próprio Samuel e vieram seus assistentes religiosos engajados em um culto de louvor ao Senhor, eles mesmos ficaram sob a influência do Espírito Santo. Incapazes de controlar-se ou de desempenhar o serviço para o qual haviam sido enviados àquele lugar, nada mais podiam fazer senão entregar-se à mesma emoção e unir-se ao cântico e às expressões de louvor e adoração diante do Senhor.


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Naquele momento, aqueles homens sentiram-se totalmente incapazes de cumprir sua missão e voltaram a Saul de mãos vazias.

Depois que a mesma coisa aconteceu a duas outras equipes de soldados que Saul enviara em busca do grupo de Samuel, o rei finalmente decidiu executar ele mesmo aquele trabalho. Até então se mantivera retraído, evitando um confronto direto com Samuel, com quem ele se desentendera após o episódio de Gilgal (1 Sm 15.17-35). Naquela ocasião, o profeta havia declarado que Saul fora rejeitado por Deus e que deixaria de ser rei. Ele não se atrevera a enfrentar de novo aquele temível homem de Deus, mas agora achava que não lhe restava outra alternativa.

Além disso, Saul era atacado por acessos de depressão psicótica, exibindo mudanças extremadas de humor (cf. 1 Sm 16.14-23; 18.10, 11; 19.9). Quando se aproximou do grupo que cultuava a Deus, sob a direção de Samuel, o rei viu-se tomado pela grande alegria que dominava o ambiente e não conseguiu controlar-se. Pôs-se ele próprio a dançar, a cantar e a gritar ao lado dos profetas. (Casos parecidos foram registrados em reuniões de avivamento e acampamentos cristãos durante o grande despertamento ocorrido nos Estados Unidos em 1740, sob a direção de George Whitefield, e em 1800, nas reuniões de reavivamento realizadas no Kentucky.) A percepção do extraordinário poder, da presença e da glória de Deus arrebatou esse perverso rei, a ponto de ele lembrar-se de sua experiência anterior, ocorrido perto de Betel (1 Sm 10.5, 6, 10), quando foi convocado para ocupar o trono de Israel. Saul sucumbiu à mesma alegria outra vez.

Diferente dos demais participantes do culto, Saul foi tão arrebatado pelo seu entusiasmo, que chegou a despir suas roupas, enquanto gritava e dançava, até que, exausto, entrou em colapso e caiu ao solo, onde ficou prostrado em um estado de transe pelo resto do dia e a noite toda (1 Sm 19.24). Sem dúvida alguma essa humilhação se lhe abateu como julgamento divino, visto que em seu coração ele se opunha radicalmente à vontade de Deus, sempre que esta era contrária à sua ambição pessoal.



O relato de 1 Samuel 31 sobre a morte de Saul conflita com o de 2 Samuel 1. Como podem ambos estar corretos?

1 Samuel 31.3, 4 informa-nos de que Saul foi ferido mortalmente por uma seta dos filisteus na desastrosa batalha do monte Gilboa. Percebendo estar prestes a morrer, o próprio monarca ordenou a seu escudeiro o que lhe enfiasse a espada no coração o matasse de imediato, "senão sofre-rei a vergonha de cair nas mãos desses incircuncisos [os filisteus]". Mas seu ajudante se recusou a tirar a vida do rei, e então Saul arrancou da espada, apoiou o punho fortemente contra o chão e lançou-se sobre ela para acabar com a vida rapidamente.

Em 2 Samuel 1, lemos que um certo amalequita, o qual havia servido no corpo da guarda de Saul, fugira do campo de batalha e tomara o caminho do acampamento de Davi, a fim de levar-lhe algumas notícias sobre a morte de Saul. Segundo o relato que fez a Davi (v. 6-10), ele fora convocado por Saul para estar ao seu lado, estando este sem esperança, rodeado pelos vencedores. Esse amalequita então teria recebido ordens para lhe tirar a vida de imediato e assim pôr um fim em seu sofrimento, pois fora ferido mortalmente. Esse servo teria, então, atendido ao desejo do rei (v. 10): "Aproximei-me dele e o matei, pois sabia que ele não sobreviveria ao ferimento. Peguei a coroa e o bracelete dele e trouxe-os a ti, meu senhor".

Esse relato apresenta discrepâncias óbvias em relação ao de 1 Samuel 31, mas não é registrado como sendo expressão real do que aconteceu a Saul em seus últimos momentos. É apenas o registro do que um amalequita mercenário disse ter acontecido. Pelo fato de trazer a coroa e o bracelete de Saul em suas mãos e apresentá-los ao novo rei, ele obviamente julgava que receberia uma boa recompensa e muito prestígio no serviço ao sucessor de Saul. À luz do relato do capítulo anterior, concluímos que o amalequita estava mentindo, com o objetivo de ganhar a simpatia de Davi. Mas o que aconteceu realmente foi que, após Saul haver tirado sua própria vida, e tendo seu escudeiro feito o mesmo, seguindo o exemplo de seu senhor (1 Sm 31.5), o amalequita passara por



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perto naquele momento e reconhecera o cadáver do rei. Ele bem depressa tirou-lhe a coroa e o bracelete, antes que as tropas dos filisteus o encontrassem. A seguir, resolveu capitalizar sua boa sorte e fugiu do campo de batalha, indo ao acampamento de Davi em Ziclague. No entanto, o que ele julgara ser digno de recompensa transformou-se em motivo para sua morte. Davi ordenou que ele morresse naquele lugar mesmo, dizendo: "Você é responsável por sua própria morte. Sua própria boca testemunhou contra você quando disse: Matei o ungido do Senhor" (2 Sm 1.16). A falsidade melíflua desse homem trouxe-lhe o oposto do que esperava, pois não pôde prever que o elevado código de honra de Davi o levaria a agir dessa forma.

Devemos acrescentar que esse amalequita em particular viera de uma tribo diferente da que Saul havia anteriormente destruído, sob as ordens de Deus — a de que Agague era o chefe (1 Sm 15.7, 8). Eles viviam entre Havilá e Sur. Porém, havia outros que não se envolveram nessa guerra, alguns dos quais tinham invadido o acampamento de Davi em Ziclague (1 Sm 30).


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