Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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2 Samuel


Como podia Davi ter reinado sete anos e meio em Hebrom, se Is-Bosete, seu rival, governou apenas dois anos antes de morrer?

Em 2 Samuel 5.5, lemos que o período do reinado de Davi em Hebrom, como rei de Judá (antes de ele ser reconhecido pelas tribos do norte como rei de todo Israel) foi de sete anos e meio. Isso se confirma em 1 Crônicas 3.4. No entanto, 2 Samuel 2.10 relata que seu rival, Is-Bosete, filho de Saul, governou Israel (com a aprovação de Abner) apenas dois anos. No entanto, esse fato não impediu que o versículo seguinte afirmasse que o reinado de Davi em Hebrom foi, na verdade, de sete anos e meio. Como podem ambas as declarações ser verdadeiras? Sob a pressuposição de que os dois anos de Is-Bosete representam o intervalo real, a Bíblia de Jerusalém emendou 1 Crônicas 3.4 de modo que ficasse assim: "Hebron, onde ele reinou durante três anos e seis meses" (grifo do autor), embora não se tenha feito a mesma alteração nas outras duas passagens (2Sm 2.11; 5.5). Muito interessante!

Uma pesquisa cuidadosa das circunstâncias que envolveram a carreira de Is-Bosete fornece uma pista conclusiva para a brevidade de seu reinado. Após o colapso total do exército de Israel no desastre militar do monte Gilboa, tornou-se necessário que Abner e os demais fugitivos se escondessem a leste do rio Jordão, deixando toda a área de Efraim e Manasses sob o controle dos vencedores. Esse general deve ter estabelecido seu quartel em Maanaim, onde ele colocara Isbosete em segurança, sendo ali a região interiorana da tribo de Gade. Parece que ele precisou de cinco anos de combates renhidos para conseguir desalojar as forças dos filisteus de Bete-Seã (onde haviam exibido os corpos empalados de Saul e seus filhos), empurrando os filisteus até o vale de Esdrelom. Com isso, Abner refez a ligação entre as tribos do norte, a saber, Issacar, Naftali e Aser, com a de Benjamim, ao sul. No entanto, enquanto o inimigo não fosse expulso e essa ligação restabelecida, seria prematuro celebrar a coroação formal de Is-Bosete como rei de Israel.

No entanto, depois de cinco anos, Abner já havia obtido êxito suficiente para poder convocar os representantes das onze tribos para a cerimônia pública da coroação em Maanaim, que



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continuava a ser a província principal, provisoriamente, estando livre do alcance das expedições dos filisteus. Assim, Isbosete reinou durante apenas dois anos, no final dos quais acabou assassinado na própria cama por dois de seus oficiais militares, Baaná e Recabe (2 Sm 4.5, 6), algum tempo depois de terem ouvido e noticiado o assassinato de Abner pelo traiçoeiro Joabe (2 Sm 3.27).

No entanto, Davi havia sido coroado rei pelos homens de Judá, em Hebrom, logo depois da batalha do monte Gilboa. Assim, ele usou a coroa durante sete anos completos, ainda que Isbosete houvesse iniciado seu reinado dois anos apenas antes de morrer.



Qual o número correto de cavaleiros que Davi tomou como prisioneiros, ao vencer a batalha contra Hadadezer: 1700 (2 Sm 8.4) ou 7000 (lCr 18.4)?

Na guerra travada contra Hadadezer de Zobá, Davi obteve uma vitória significativa, perto de Hamate, em que capturou muitos prisioneiros, mencionados em 2 Samuel 8.4 como sendo "mil e setecentos cavaleiros e vinte mil soldados de infantaria" (ra). Mas em 1 Crônicas 18.4, o número de soldados aprisionados é de "sete mil cavaleiros e vinte mil soldados de infantaria". Não há a menor dúvida de que esses dois relatos dizem respeito ao mesmo acontecimento, de modo que o número de prisioneiros deveria ser o mesmo em ambos os registros. Portanto, houve um erro do copista, talvez dois, em 1 Samuel ou em 1 Crônicas.

Keil e Delitzsch (Samuel, p. 360) apresentam uma solução bastante convincente. A palavra hebraica para carruagem (reḵeḇ) teria sido inadvertidamente omitida pelo escriba, ao copiar 2 Samuel 8.4. O segundo número, sete mil (referindo-se a pārāsîm, "cavaleiros"), deveria ser reduzido necessariamente para setecentos (e não sete mil, que o copista vira em seu Vorlage, pela simples razão que ninguém escreveria sete mil depois de haver escrito um mil, ao registrar um número). A omissão de reḵeḇ poderia ter ocorrido por erro de um escriba anterior, e a redução de sete mil para setecentos teria acontecido por reação em cadeia, depois que a cópia defeituosa foi recopiada em seguida por outro copista. Com toda a probabilidade, o número mencionado em Crônicas é o certo; os números de Samuel devem ser corrigidos para ficar em harmonia com Crônicas.

Diz 2 Samuel 14.27 que Absalão tinha três filhos; 2 Samuel 18.18 diz que não teve filhos. Qual é a declaração exata?[d]

2 Samuel 14.27 diz: "Ele [Absalão] teve três filhos e uma filha, chamada Tamar". Mas 2 Samuel 18.18 declara: "Quando em vida, Absalão tinha levantado um monumento para si mesmo no vale do Rei, dizendo: 'Não tenho nenhum filho para preservar a minha memória'. Por isso deu à coluna o seu próprio nome. Chama-se ainda hoje Monumento de Absalão". "Ainda hoje" refere-se à época em que 2 Samuel foi composto, isto é, provavelmente em meados do século vii a.C. (O assim chamado túmulo de Absalão que se vê hoje no vale de Cedrom provavelmente data da época helenista, ou cerca do século ii a.C, a julgar-se pelo estilo da fachada [cf. K.N. Schoville, Biblical archaeology in focus, Grand Rapids, Baker, 1978, p. 414]). Isso estabelece o fato de que à época em que lançou seu monumento (talvez um ano ou dois antes da rebelião contra seu pai, Davi), Absalão não tinha herdeiros do sexo masculino sobreviventes. O texto não comprova que não lhe houvesse nascido algum filho antes.

Keil e Delitzsch (Samuel, p. 412) salientam, em relação a 2 Samuel 14.27, o seguinte: "Contrariamente ao uso comum, não são dados os nomes dos filhos. A razão provável disso não é outra senão o fato de terem morrido na infância. Conseqüentemente, visto que Absalão não tinha herdeiros, erigiu seu mausoléu, ou pilar, a fim de preservar seu nome (v. 18.18) ". Aparentemente, Absalão teve o desgosto de perder seus três filhos na infância, e sua esposa não lhe deu outros. Parece que Tamar teria sido a única filha a sobreviver. Ele não tinha um herdeiro do sexo masculino que lhe levasse o nome, o que explica a nota de tristeza em sua observação em 18.18 e


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a tentativa patética de compensar tal tristeza pela edificação de um monumento de pedra. Poucos anos depois, o próprio Absalão morreria em desgraça, após tentar assassinar o próprio pai, Davi, e cobrir de desonra as concubinas do rei, às quais profanou. Assim, se um de seus filhos sobrevivesse atingindo a idade adulta, teria recebido uma herança muito triste.

Quanto à sua filha Tamar (cujo nome lhe foi dado em homenagem à bela irmã, também chamada Tamar, a quem seu irmão Amnom havia estuprado, e do qual Absalão mais tarde haveria de vingar-se, pois mandou assassiná-lo), parece que ela sobreviveu e veio a casar-se bem. Seu marido foi Uriel de Gibeá (cf. 2 Cr 11.20-22; 13.1). A filha deles foi a infame Maaca (ou Micaia), que se casou com o rei Jeroboão (1 Rs 15.2), tornando-se a mãe de seu sucessor, Abias. O neto dela, o rei Asa, finalmente a removeu da posição de rainha-mãe, por causa do envolvimento dela com a idolatria (1 Rs 15.10-13; 2 Cr 15.16).



Como pode um Deus bondoso, cheio de amor, tirar a vida do primeiro filho de Bate-Seba por causa do pecado de seus pais (2 Sm 12.15-23)?

Um discernimento muito profundo que as Escrituras Sagradas nos concedem diz respeito ao verdadeiro significado da morte. Sem que tenhamos a revelação divina, podemos pensar nela como sendo terrível ameaça, maldição pavorosa, o golpe final do julgamento. Uma vez que a morte física, ou a separação entre corpo e alma, significa também o fim de qualquer oportunidade de encontrar a Deus e glorificá-lo mediante um viver piedoso, percebe-se algo muito solene e espantoso a seu respeito. Mas a Bíblia nos diz com toda a franqueza que a morte física, a despeito do que ela pareça ao observador, não significa o fim para o homem. Ele continua a viver, na fase eterna de sua carreira, quer no céu, quer no inferno, seja qual for o destino escolhido durante a vida na terra. Todavia, desde que o Filho de Deus veio ao mundo e nos deu certeza absoluta, digna de toda confiança, a todos os crentes de que todos quantos crêem e vivem nele nunca morrerão (Jo 11.26), a morte assumiu um significado inteiramente novo. Foi por meio dela — morte como substituto do pecador na cruz — que nosso Salvador "tornou inoperante a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade por meio do evangelho" (2 Tm 1.10). A morte perdeu seu poder, e a sepultura, sua vitória (1 Co 15.54-56)."Felizes os mortos que morrem no Senhor de agora em diante [...] eles descansarão das suas fadigas, pois as suas obras os seguirão" (Ap 14.13).

No caso das crianças que morrem na infância, é bem provável que tenham sido poupadas de uma vida de tragédias, sofrimentos e dores atrozes por terem partido cedo desse mundo. Talvez seja simplista demais declarar que todas as que morrem em tenra idade, só por essa razão, têm a garantia de um lugar no céu, como se os benefícios salvíficos do Calvário de alguma forma lhes fossem imputados, sem que haja uma resposta de fé da parte delas. Essa doutrina constituiria um potente encorajamento a que os pais matassem seus filhos antes que atingissem a idade da razão, em que deveriam prestar contas a Deus, como se esse fosse um caminho seguro de chegar ao céu. Todavia, o infanticídio é severamente condenado nas Escrituras, como sendo pecado abominável diante do Senhor Deus (Lv 18.21; Dt 12.31; 2 Cr 28.3; Is 57.5; Jr 19.4-7), ainda que perpetrado em nome da religião, por isso devemos concluir que existe outro princípio a reger a salvação das crianças, além da morte prematura. Em outras palavras, a onisciência de Deus atinge não só o real, mas o potencial também. Ele sabe de antemão não só o que vai acontecer, mas também o que poderia ter acontecido. No caso de bebês que morrem ao nascer, ou antes de atingirem a idade da razão, ou os que podem prestar contas, Deus sabe qual teria sido a reação delas ao oferecimento de sua graça — se a aceitariam ou a rejeitariam, se demonstrariam fé ou descrença.

Provavelmente, foi por essa razão que Davi se confortou, ao saber que suas orações de nada valeram e que Deus havia levado o bebê "para casa". Ele entregou a criança à graça de Deus e apenas disse: "Eu irei até ela, mas ela não voltará para mim" (2 Sm 12.23). Davi demonstrou total confiança na perfeição da vontade de Deus,



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até mesmo numa situação como essa, capaz de cortar o coração. Além do mais, ele compreendeu as razões por que Deus julgara apropriado condenar o casal, arrebatando dele o fruto de sua paixão pecaminosa. Deus havia visto que ambos precisavam de repreensão, como lembrete de que seus filhos, ainda que tenham sido perdoados, devem suportar as conseqüências temporais do pecado e com toda paciência precisam humilhar-se como parte de seu arrependimento sincero.

Foi Absalão na verdade sepultado na Coluna de Absalão, no vale de Cedrom?

2 Samuel 18.17 relata o que aconteceu a Absalão, depois que Joabe o apanhou pendurado pelos cabelos em um galho de carvalho. O militar matou o filho do rei com um dardo, e depois "Retiraram o corpo de Absalão, jogaram-no num grande fosso na floresta e fizeram um grande monte de pedras sobre ele". Tão logo o cadáver de Absalão foi colocado no chão, após retirado do galho no qual se enganchara, deu-se-lhe sepultura desonrosa, sem glória nenhuma, numa cova profunda, antes mesmo que seu pai, o rei Davi, ouvisse a notícia de sua morte.

O contexto do assim chamado Monumento (ou Coluna) de Absalão, no vale de Cedrom, encontra-se em 2 Samuel 18.18. Refere-se esse texto a uma coluna (maṣṣeḇeṯ) que Absalão havia erigido nesse vale, como uma espécie de compensação, por não ter filhos que lhe levassem o nome. "Chama-se ainda hoje [i.e., até o dia em que 2 Samuel foi concluído] Monumento de Absalão". Mas esse monumento ou coluna era quanto muito um cenotáfio; jamais foi o lugar em que o corpo de Absalão foi enterrado. Seu cadáver se desfez numa cova na floresta, à margem leste do Jordão.

Quem induziu Davi a fazer o censo do povo: Deus ou Satanás?

Em 2 Samuel 24.1, lemos: "Mais uma vez irou-se o Senhor contra Israel e incitou Davi contra o povo, levando-o a fazer um censo de Israel e de Judá". No relato paralelo de 1 Crônicas 21.1, 2 está escrito o seguinte: "Satanás levantou-se contra Israel e levou Davi a fazer um recenseamento do povo. Davi disse a Joabe e aos outros comandantes do exército: "Vão e contem os israelitas desde Berseba até Dã e tragam-me um relatório para que eu saiba quantos são'". A redação de 2 Crônicas 21.2 é muito semelhante à de 2 Samuel 24.2; não existe uma diferença significativa. No entanto, no que concerne ao primeiro versículo de cada capítulo que estamos estudando, parece que em 2 Samuel 24 foi o próprio Deus quem incitou Davi a realizar o recenseamento, mas em 1 Crônicas 21 teria sido Satanás, o adversário de Deus. Isso não representa uma discrepância, ou será que ambas as declarações estão certas?

Em nenhum dos dois livros temos um contexto definido para a idéia de realizar-se um recenseamento, e não há meios de verificar se ele ocorreu antes ou depois da revolta de Absalão. Todavia, visto que esse cadastramento induziu indiretamente à aquisição do monte Moriá, que se tornaria o local do templo e dos palácios reais, deve ter sido feito vários anos antes do final da carreira de Davi. Só assim poderia ter tido ele a oportunidade de juntar tão grande quantidade de adornos caros os materiais de construção que Salomão mais tarde usaria a fim de erigir o templo (1 Cr 29.3-5).

Parece que Davi não estava totalmente consciente do que se passava no íntimo de seu coração, pois estaria talvez sendo induzido pelo orgulho por causa de tudo o que havia realizado, no que dizia respeito aos sucessos militares e à expansão econômica do povo. Ele começou a pensar mais de tropas e armamentos que na misericórdia e fidelidade de Deus. Em sua juventude, Davi pusera toda sua confiança apenas em Deus, quer enfrentando Golias com uma simples funda, quer lutando contra um exército inteiro de amalequitas, dispondo de apenas um punhado de soldados — ao todo quatrocentos. Todavia, nos últimos anos, ele viria a confiar mais nos recursos materiais, à semelhança de qualquer racionalista de coração endurecido. Davi acabara aprendendo a medir sua força pelo padrão dos números e das riquezas.

Portanto, o Senhor decidiu que chegara o tempo de Davi dobrar os joelhos outra vez, em oração,


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e atirar-se à graça de Deus, ao longo de um período de provações capazes de esquadrinhar-lhe a alma. Portanto, o Senhor o encorajou a pôr em execução o plano que esse rei acalentara havia tanto tempo: desejava contar o povo, saber quais eram seus recursos humanos, a fim de bem planejar suas estratégias militares futuras, com vistas ao emprego mais eficiente de seus exércitos. É bem provável que tal contagem lhe proporcionasse uma base mais concreta para o cálculo dos impostos. E assim Deus, efetivamente, lhe disse: "Muito bem, vá em frente e conte o povo. Depois você verá o resultado de sua vaidade".

Embora fosse um comandante militar endurecido e ambicioso, o general Joabe sentiu certa intranqüilidade a respeito do projeto. Percebeu que Davi e seus conselheiros tornavam-se mais e mais orgulhosos por causa de suas brilhantes conquistas militares, as quais trouxeram os reinos da Palestina, da Síria e da Fenícia ao estado de vassalos de Israel. Joabe temia que o Senhor talvez não estivesse satisfeito com aquela atitude de autoconfiança e auto-estima, pelo que tentou dissuadir Davi desse propósito. Em 1 Crônicas 21.3, estão registras as seguintes palavras de Joabe: "Que o Senhor multiplique o povo dele por cem. Ó rei, meu senhor, não são, porventura, todos eles súditos do meu senhor? Por que o meu senhor deseja fazer isso? Por que deveria trazer culpa sobre Israel?". Existe uma razão pela qual o Senhor Deus deu a Davi uma advertência final pelos lábios de Joabe, antes de o rei comprometer-se afinal com o recenseamento.

Não se diga que fazer recenseamento é inerentemente mau. O Senhor não se desagradara dos dois censos feitos na época de Moisés. Na verdade, ele mesmo deu instruções quanto à contagem de todos os efetivos militares (Nm 1.2, 3; 26.2), ambos no início da peregrinação de quarenta anos pelo deserto e no fim desse período, estando o povo no limiar da conquista. O segundo censo foi feito com o objetivo de mostrar que o total das forças armadas de Israel era um pouco menor que a de quarenta anos antes. No entanto, com aquele exército menor, os israelitas varreriam todos os inimigos à sua frente; o povo de Deus não se acovardaria diante da perspectiva da guerra, como acontecera com seus pais em Cades-Barnéia. O segundo censo também teria outra utilidade: seria a base para a distribuição da terra conquistada entre as doze tribos. As que tinham maior número de pessoas receberiam territórios maiores, proporcionalmente. Entretanto, o recenseamento no qual Davi havia colocado seu coração não serviria a outro propósito senão o de inflar o orgulho e a vaidade nacionais. Tão cedo a contagem estivesse terminada, Deus iria enviar uma punição — uma praga desastrosa — que causaria considerável perda de vidas e diminuição no número de seus cidadãos.

Porém, quando voltamos ao primeiro versículo de 1 Crônicas 21, deparamo-nos com a declaração de que fora Satanás quem motivara Davi a realizar o recenseamento, apesar da advertência e protesto de Joabe. O verbo hebraico traduzido por "incitou" (ara) é o mesmo nas duas passagens: (wayyāseṯ). Por que o diabo se envolveria nesse assunto, se o próprio Deus já havia induzido Davi a cometer a tolice que seu servo tinha em mente? É que Satanás descobriu ser de seu interesse imiscuir-se. Essa situação tem alguma semelhança com aquela descrita no primeiro e no segundo capítulo de Jó, em que temos realmente um desafio de Deus ao Diabo, que induziu as calamidades sobre o paciente Jó. O propósito de Deus foi o de purificar a fé de seu servo e enobrecer-lhe o caráter mediante a disciplina da adversidade. A intenção de Satanás era perversa; ele queria fazer o maior mal possível a Jó, na expectativa de levá-lo a amaldiçoar a Deus pelas suas desgraças. Assim, Deus e Satanás foram os que infligiram a queda e o desastre na vida daquele homem fiel.

De modo semelhante, encontramos Deus e Satanás envolvidos nos sofrimentos dos cristãos perseguidos, de acordo com 1 Pedro 4.19 e 5.8. O propósito de Deus era fortalecer-lhes o espírito, a fé, capacitá-los a partilhar seus sofrimentos por amor de Cristo, nessa vida, para que pudessem regozijar-se com ele na glória do céu que há de vir (4.13, 14). Mas o desejo de Satanás era "devorar" os crentes (5.8), isto é, arrastá-los para a amargura ou para autopiedade e puxá-los para baixo, para seu próprio nível, até a perdição eterna. No caso do próprio Cristo, o interesse de Satanás era desviar o Senhor do cumprimento de sua


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missão messiânica, mediante as três tentações que lhe ofereceu. Mas a intenção do Pai era que o segundo Adão triunfasse completamente sobre o tentador, que havia sido bem-sucedido em fazer cair o primeiro Adão.

Também na crucificação do Senhor o propósito de Satanás era fazer com que Judas traísse a Jesus. O coração desse discípulo estava cheio de rancor e ódio, ou seja, do Diabo (Jo 13.27); mas o desejo do Pai era que o Cordeiro morto desde a fundação do mundo desse sua vida em resgate de muitos — o que foi simbolizado pelo cálice que Cristo foi convidado a aceitar no Getsêmani. No caso de Pedro, Jesus o informou, antes que ele o negasse três vezes no pátio do sumo sacerdote: "Simão, Simão, Satanás pediu vocês para peneirá-los como trigo. Mas eu orei por você, para que a sua fé não desfaleça. E quando você se converter, fortaleça os seus irmãos" (Lc 22.31, 32).

Temos aqui, então, cinco outros exemplos de incidentes ou situações em que tanto Satanás quanto Deus estavam envolvidos em provas e esquadrinhações da alma — Deus, movido pela benevolência, tendo em vista a vitória final e a crescente utilização do crente tão amplamente provado, e Satanás motivado pela malícia e perversidade, intencionando provocar o maior mal possível para as pessoas. Portanto, podemos dizer sem hesitação que ambos os relatos sobre a motivação que Davi recebeu estão corretos. Deus o incitou a fim de ensinar ao rei e a seu povo uma lição que precisavam aprender e humilhá-los de modo tal que promovesse seu crescimento espiritual. Satanás incentivou o rei a fim de desferir a ele e a Israel um golpe mortal; Davi ficaria com seu prestígio abalado perante seus súditos. No final (e isso é verdade a respeito de todos os exemplos), o sucesso de Satanás foi limitado e temporário; mas no fim o propósito de Deus foi bem servido, e sua causa, enriquecida.

No auge da praga, que custou a vida de setenta mil israelitas (2Sm 24.15), o anjo do Senhor designou o lugar exato no monte Moriá onde a mortandade se deteve: aquele era o lugar escolhido onde se edificada o futuro templo do Senhor (v. 18). Esse edifício estava destinado a trazer muitas bênçãos às vidas dos crentes, do povo de Deus durante muitas gerações. Outra vez a malícia e a perversidade de Satanás foram ultrapassadas pela graça infinita de Deus.



O registro de 2 Samuel 24.9 nos diz a população total de Israel era de 800 mil, uma diferença de 300 mil para menos, que o apurado em 1 Crônicas 21.5. Além disso, 2 Samuel 24 registra 500 mil para Judá, contra 470 mil em 1 Crônicas 21. Como conciliar essas aparentes discrepâncias? [d]

Apresentamos uma solução para esse problema nas linhas seguintes. No que diz respeito a Israel (i.e., às tribos do norte de Judá), 1 Crônicas indica o número de todos os homens disponíveis para a guerra, em idade para o serviço militar, treinados ou não para a batalha. Todavia, em 2 Samuel 24, ficamos sabendo que o relatório de Joabe mostrava um subtotal de 800 mil veteranos "homens de guerra" (’îš ḥayil). Mas talvez houvesse um adicional de 300 mil homens na idade do serviço militar em reserva, que nunca haveriam entrado em combate. Os dois contingentes somariam 1.100.000 homens — como 1 Crônicas 21 relata, sem empregar a expressão ’îš ḥayil.

No que concerne a Judá, 2 Samuel 24 apresenta um número redondo, 500 mil ou 30 mil a mais que na passagem correspondente de 1 Crônicas 21. Mas devemos considerar que 1 Crônicas 21.6 esclarece que Joabe não terminou a contagem, porque não fez o censo da tribo de Benjamim (nem de Levi) quando Davi se tornou consciente do pecado e da inconveniência de prosseguir no recenseamento. Joabe alegrou-se ao verificar a mudança efetuada no coração do rei. A estratégia para a execução do recenseamento seria começar com as tribos da Transjordânia (2 Sm 24.5) e, a seguir, passar para a do extremo norte, a de Dã, e caminhar para o sul de volta a Jerusalém (v. 7). Isso significa que a contagem da tribo de Benjamin seria a última. Por isso, ela não foi incluída, nem a de Judá, no total de Israel. Todavia, no caso de 2 Samuel 24, os números referentes a Judá já incluíam trinta mil soldados reunidos por Benjamim (que ficava perto de Jerusalém). Daí termos o total de quinhentos


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mil soldados, incluindo o contingente de Benjamim.

Observe-se que na divisão do reino em duas partes, Norte e Sul, logo após a morte de Salomão, em 930 a.C, a maior parte dos benjamitas permaneceu leal à dinastia de Davi e formava (ao lado de Simeão, ao sul) o reino de Judá. Por isso, seria razoável incluir Benjamim, Judá e Simeão no número de quinhentos mil, como subtotal, ainda que Joabe não tenha desdobrado esse número no relatório que apresentou a Davi (1 Cr 21.5). Parece-nos, portanto, que o total geral de soldados disponíveis ao rei, para o serviço militar, 1.600.000 era de (sendo 1.100.000 de Israel, 470 mil de Judá e Simeão e 30 mil de Benjamim).



Por que existe discrepância no número de anos de fome mencionado em 2 Samuel 24.13 e o de 1 Crônicas 21.11, 12? [d]

Em 2 Samuel 24.13, está relatada a visita feita pelo profeta Gade ao rei Davi, após ter este encerrado o censo em seu reino, com o espírito de orgulho. Ele passa a Davi a mensagem de Deus nestes termos: "O que você prefere: três [a nvi indica sete anos na nota de rodapé] anos de fome em sua terra; três meses fugindo de seus adversários, que o perseguirão; ou três dias de praga em sua terra? Pense bem e diga-me o que deverei responder àquele que me enviou". A tal pergunta, assim respondeu Davi, em espírito de profundo arrependimento: "Prefiro cair nas mãos do Senhor, pois grande é a sua misericórdia, a cair mas, nas mãos dos homens".

Em 1 Crônicas 21.11, 12, Gade vem a Davi e lhe diz:

Gade foi a Davi e lhe disse: "Assim diz o Senhor: 'Escolha entre três anos de fome, três meses fugindo de seus adversários, perseguido pela espada deles, ou três dias da espada do Senhor, isto é, três dias de praga, com o anjo do Senhor assolando todas as regiões de Israel'. 1 tecida agora como devo responder àquele que me enviou...'".

Observe que a redação aqui é diferente da de 2 Samuel 24.13 (i.e., "Queres que sete anos de fome te venham à tua terra?", ra). Em vez de uma pergunta simples, como em 2 Samuel, temos aqui em 1 Crônicas um verbo no imperativo: "Escolha entre três anos de fome...".

Daí podemos concluir que 2 Samuel registra a primeira conversa de Gade com Davi, em que a proposta com alternativas apresentava sete anos; o relato de Crônicas dá-nos a segunda e última abordagem do profeta ao rei. É certo que o Senhor, respondendo à oração fervorosa de Davi, abrandou a severidade da horrenda alternativa de sete para três anos. Conclui-se a história quando o rei deixa com o próprio Deus a escolha da punição (fome ou peste); e Deus enviou três dias de pestilência que consumiu a vida de setenta mil israelitas.



Em 2 Samuel 24.24, lemos que "... Davi comprou a eira e os bois por cinqüenta peças de prata". Mas em 1 Crônicas 21.25 lemos que "Davi pagou a Araúna sete quilos e duzentos gramas de ouro [seiscentos siclos] pelo terreno". Como conciliar esses dois textos? [d]

O registro de 2 Samuel 24.24 refere-se ao preço de compra imediata pago pelo rei Davi a Araúna (ou "Ornã, " que é outra forma de escrever-se o seu nome) por dois bois e a madeira da carruagem de propriedade do jebuseu quando o rei se aproximou dele. As palavras exatas de Davi no versículo 21 são as seguintes: "... comprar sua eira e edificar nela um altar ao Senhor". Uma eira em geral era uma área de pequenas dimensões, com largura não superior a dez ou doze metros. O preço de mercado prevalecente para os dois bois e a carroça dificilmente excederia os cinqüenta siclos de prata.

Em 1 Crônicas 21.25, no entanto, somos informados de que Davi pagou seiscentos siclos de ouro que, possivelmente, era uma soma 180 vezes maior do que cinqüenta siclos de prata. Mas a quantia mencionada em Crônicas parece incluir a compra não só dos bois, da eira e da carroça, mas o imóvel todo. O termo hebraico wayyittên... bammặqôm ("Davi pagou pelo [...]


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terreno") parece incluir todo o terreno onde se localizava a eira. Nem no século v a.C. nem em qualquer outro período da história antiga uma eira teria custado o preço de seiscentos siclos de ouro. Conseqüentemente, podemos concluir com tranqüilidade e segurança que Ornã era o dono daquele terreno localizado no monte Moriá.

O monte Moriá era uma propriedade extremamente valiosa, medindo cerca de quinhentos metros de comprimento, numa elevação sobranceira, valendo facilmente os seiscentos siclos de ouro. A conveniência de adquirir-se um terreno suficientemente espaçoso para a edificação do templo deve ter saltado aos olhos de Davi quando ele examinou o imóvel onde estava a eira. O rei percebeu que seria vantajoso separar todo o topo da colina para os propósitos religiosos e governamentais. Provavelmente, Davi realizou uma segunda transação com Ornã, quando este recebeu uma importância superior, pela área maior. O cronista achou por bem registrar a transação maior, tendo em vista do resultado final.





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