Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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2 Reis


Quando foi que Jorão, filho de Acabe, começou a reinar?

Em 2 Reis 1.17 lemos que Jorão, filho mais novo de Acabe, iniciou seu reinado em Israel no segundo ano de Jeorão, filho de Josafá, rei de Judá. (É muito confusa questão de nomes idênticos entre os filhos de Acabe, rei de Israel e os de Josafá, rei de Judá. Mas, provavelmente, a aliança entre ambos se estendeu até mesmo aos nomes que dariam aos seus filhos!) Essa declaração pode se contradizer a nota de 2 Reis 3.1, segundo a qual Jorão, filho de Acabe, tornou-se rei no "décimo oitavo ano de Josafá". A discrepância surge do fato de que, pouco antes de unir-se a Acabe, na tentativa frustrada de recapturar Ramote-Gileade dos sírios, Josafá tomou a precaução de instalar seu filho Jeorão como co-regente no trono de Judá.

Na batalha de Ramote-Gileade, em que Acabe foi ferido mortalmente por uma seta (1 Rs 22.34, 35), o próprio Josafá quase perdeu a vida; portanto, seu pressentimento tinha lógica. Jorão iniciou seu reinado como co-regente no mesmo ano, 853 a.C. No entanto, Josafá viveu até 848 a.C, mais cinco anos. Assim, o segundo ano de Jorão, seu filho (851-850), foi também o décimo oitavo ano de Josafá.

Devemos salientar, no que diz respeito a esse acontecimento, que o precedente da instalação de um príncipe herdeiro do trono como co-regente durante a vida do pai foi verificado pelo menos seis vezes no decurso da monarquia em Judá: 1) Asa morreu em 869 a.C, mas seu filho Josafá se tornara co-regente em 872 (governou durante três ou quatro anos em co-regência); 2) Josafá faleceu em 848, mas seu filho Jeorão se tornara co-regente em 853; 3) Amazias morreu em 767, mas seu filho Azarias (ou Uzias, como também era conhecido) se tornara co-regente em 790 (possivelmente quando Amazias foi levado em cativeiro por Joás, filho de Jeoacaz, rei de Israel); 4) Uzias faleceu em 739, mas seu filho Jotão se tornara co-regente em 751 (quando seu pai se tornou leproso); 5) Jotão faleceu em 736 ou 735, mas seu filho Acaz se tornara co-regente em 743; 6) Acaz faleceu em 725, mas seu filho Ezequias se tornara co-regente em 728. Do ponto de vista técnico, legal, Jeoaquim foi o rei de Judá desde 597 (Ezequiel sempre data suas profecias de acordo com os anos do reinado de Jeoaquim), durante todo o reinado de seu irmão Zedequias (597-587), que só reinou como co-regente. Se mantivermos essas linhas mestras em mente, muitas confusões aparentes nas datas e períodos de reinados das duas monarquias se esclarecerão prontamente.



Os meninos que zombaram da calvície de Eliseu foram amaldiçoados, de modo que 42 deles foram mortos por duas ursas (2 Rs 2.23, 24). Como poderia um homem de Deus amaldiçoar tantas pessoas por causa de uma ofensa tão pequena? [d]

Um estudo cuidadoso desse incidente, em seu contexto, demonstra que foi um caso muito mais sério que "uma ofensa tão pequena". Havia uma situação de grande perigo público, tão grave quanto as quadrilhas de malfeitores que perambulam nos bairros miseráveis das modernas megalópoles. Se aqueles jovens delinqüentes estavam perambulando pelas ruas em grupos de cinqüenta ou mais companheiros, zombando de cidadãos respeitáveis e prontos para perturbar até mesmo um homem de Deus conhecidíssimo, imagine-se quanta violência teriam praticado



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aos adultos reunidos no centro religioso do reino de Israel (Betel), caso lhes fosse permitido prosseguir na delinqüência. Talvez tenha sido por isso que Deus julgou ser apropriado que 42 deles fossem sentenciados à morte de forma espetacular (não há evidências de que o próprio Eliseu, ao lançar-lhes a maldição, tenha pedido a Deus que lhes desse essa punição), a fim de infundir terror em outros grupos de jovens que infestavam a cidade, pois nem Iavé nem qualquer de seus servos deveriam ser ameaçados ou tratados com menosprezo.

É certo que, desse dia em diante, toda a comunidade israelita tornou-se convicta de que Eliseu era um verdadeiro profeta e trazia uma palavra repleta de autoridade da parte de Deus. Até mesmo o impiedoso rei Jorão, filho de Acabe, passou a tratá-lo com grande deferência (v. 2 Rs 3.11-13) depois desse fato.



Por que Eliseu não foi culpado por mentir às tropas sírias em 2 Reis 6.19?

Tecnicamente, a declaração de Eliseu aos invasores sírios era verdadeira, à luz da ocasião em que a pronunciou. Disse ele à força expedicionária de Ben-Hadade, enviada com o propósito de aprisioná-lo: "Este não é o caminho nem esta é a cidade que procuram. Sigam-me, e eu os levarei ao homem que vocês estão procurando. E os guiou até a cidade de Samaria". É verdade que Dotã tinha sido o local de habitação de Eliseu até a noite anterior e que os sírios haviam tomado o caminho certo para aquela cidade. No entanto, esses conceitos agora estavam errados. Por quê? Eliseu já não estava mais em Dotã. Havia saído dessa cidade a fim de encontrar-se com aquela gente. Portanto, o caminho para Dotã deixara de ser o que os levaria ao local onde desejavam prender o profeta que os perturbava. Por isso, ele falou a verdade quando disse: "Este não é o caminho nem esta é a cidade". O propósito de Eliseu agora era caminhar à frente deles até Samaria, e nessa capital ele removeria a cegueira dos olhos deles. Conseqüentemente, o resto da declaração do profeta também era verdadeira: se eles o seguissem todo o caminho até Samaria, ele os levaria mesmo até Eliseu, dentro da cidade. O versículo 20 demonstra que ele cumpriu sua promessa ao pé da letra. Samaria era o local onde deveriam encontrar o profeta que desejavam capturar. Infelizmente, porém, ao chegarem lá, viram o homem que tanto procuravam rodeado e protegido pelas tropas do rei de Israel, de modo que os caçadores se tornaram a caça; os sírios foram aprisionados pelos israelitas.

Esse episódio interessante está registrado com o propósito de salientar o esfacelamento total dos invasores sírios por uma cegueira sobrenatural que lhes sobreveio da parte do Senhor, algo parecido com a cegueira enviada aos sodomitas que tentavam arrombar a porta da casa de Ló (Gn 19.11). No entanto, não se justifica dizer que as palavras de Eliseu constituíram uma mentira, visto que cada uma delas estava tecnicamente correta. Não está registrado que ele tenha dito: "Eu não sou o homem que vocês estão procurando". Ele apenas afirmou que os levaria à cidade e ao profeta a quem buscavam (tão logo chegassem lá).

Quando foi que Acazias, filho de Jeorão, tornou-se rei?

Diz 2 Reis 8.25 que Acazias, filho de Jeorão, de Judá, tornou-se rei no décimo segundo ano de Jorão, filho de Acabe, rei de Israel. No entanto, em 2 Reis 9.29, declara-se que foi no décimo primeiro ano. Qual é o correto? Não haveria aqui uma discrepância?

A resposta é que Acazias, filho de Jeorão, tornou-se rei em 841 a.C. Segundo o sistema de contagem dos anos que não inclui o período de co-reinado, para Jorão, filho de Acabe, seria o décimo segundo ano; mas, de acordo com o método de numeração dos anos de reinado propriamente dito, isto é, de ascensão definitiva ao trono, seria seu décimo primeiro ano. Em 2 Reis 8.25, usa-se o sistema que contabiliza o co-reinado, mas em 2 Reis 9.29, o calculo não o considera. Confuso?

A questão é que o Reino do Norte seguiu o método de somar o co-reinado desde 930 a.C.



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até 798 a.C, mas a partir desse ano (início do reinado de Jeoás, filho de Jeoacaz) até a queda de Samaria em 722 a.C, passou a usar o sistema de contagem que só considerava a asclusão definitiva ao trono. O Reino do Sul usou esse sistema desde 930 a.C. até o início do reinado de Jeorão, filho de Josafá (848-841), ou possivelmente um pouco antes, em 850, próximo da morte de Josafá. Em meados, o sistema mudou, e a contagem passou a incluir os anos de co-reinado até o reinado de Joás, filho de Acazias (835-796) — quando se reverteu ao sistema de contagem antigo (i.e., o primeiro ano de reinado oficial não se iniciava senão no primeiro dia do novo ano [ano seguinte], após o ano em que o novo rei subia ao trono). Portanto, o décimo primeiro ano de Jeorão (de reinado efetivo) era o décimo segundo, pelo sistema de contagem que incluía a co-regência, i.e., 841 a.C. Nenhuma discrepância!

Qual era a idade de Acazias quando ele começou a reinar (cf. 2 Rs 8.26 com 2 Cr 22.2) e a de Joaquim quando este iniciou seu governo (2 Rs 24.8 com 2 Cr 36.9, 10)?

Os escribas estavam sujeitos a cometer dois erros de redação. Um dizia respeito aos nomes próprios (de modo especial os não muito conhecidos) e o outro relacionava-se aos números. Realmente, desejaríamos que o Espírito Santo restringisse todos os copistas das Escrituras ao longo dos séculos, impedindo-os de cometer erros de qualquer natureza. No entanto, uma cópia isenta de falhas exigiria um milagre, e Deus não quis que a divulgação de sua Palavra percorresse esse caminho.

Está além da capacidade de qualquer pessoa copiar página após página de qualquer livro — sagrado ou secular — sem cometer qualquer lapso. No entanto, podemos ter certeza de que o manuscrito original de cada livro da Bíblia, tendo sido inspirado diretamente por Deus, estava isento de todo erro. Também é verdade que nenhuma variação comprovada nas cópias dos manuscritos originais que chegaram até nós altera alguma doutrina da Bíblia. Nesse ponto, pelo menos, o Espírito Santo exerce sua forte influência restritiva, ao supervisionar a tarefa de transmissão do texto.

Esses dois exemplos de discrepância numérica relacionam-se com a dezena dos números mencionados. Em 2 Crônicas 22.2, Acazias teria 42; em 2 Reis 8.26, apenas 22. Felizmente, dispomos de informações adicionais no texto bíblico que nos mostram que o número correto é 22. Em 2 Reis 8.17, lemos que o pai de Acazias, Jorão, filho de Acabe, tinha 32 anos quando se tornou rei, vindo a falecer oito anos mais tarde, aos quarenta. Portanto, Acazias não poderia ter 42 à época em que seu pai morreu, aos 40!

O caso de Joaquim é semelhante. Sua idade ao ascender ao trono nos é fornecida por 2 Crônicas 36.9, 10: oito anos, embora 2 Reis 24.8 nos informe que tinha dezoito. Há informações suficientes no contexto para convencer-nos de que oito é o número errado, e dezoito, o certo. Em outras palavras, Joaquim reinou apenas três meses; no entanto, ele já era adulto e podia ser responsabilizado; "fez o que o Senhor reprova" e por isso foi julgado.

Observe-se que em todos os casos é o número da dezena que varia. No de Acazias, temos 42 num relato e 22 no outro. No de Joaquim é oito contra dezoito. É oportuno observar que a notação numérica usada pelos colonos judeus em Elefantina, na época de Esdras e Neemias (felizmente possuímos um grande arquivo de documentos em papiro, dessa fonte), consistia de ganchos horizontais que representavam as dezenas. Assim, oito seria /iii iiii, mas dezoito seria De forma semelhante, 22 seria grafado , mas 42 desta forma . Desse modo, se o manuscrito estivesse um tanto apagado ou manchado, ou se uma ou mais notações da dezena não seria percebida pelo copista.

Talvez o mesmo haja ocorrido no caso da data da invasão de Judá por Senaqueribe, em 701 a.C. Em 2 Reis 18.13, lemos que essa incursão aconteceu no "décimo quarto" ano de Ezequias, o que implica que ele deve ter iniciado seu reinado em 715. No entanto, as outras seis referências à cronologia de Ezequias em 2 Reis esclarecem que ele foi coroado regente em 728 e tornou-se rei


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em 725 a.C. Visto que Senaqueribe não foi coroado rei da Assíria senão em 705 e que a invasão ocorreu no quarto ano de seu reinado, a data de 701 para essa incursão está absolutamente correta. Portanto, devemos entender que o número "décimo quarto" de 2 Reis 18.13 é uma falha na cópia do número original, "vigésimo quarto". A diferença no sistema de notação hebraico era como segue: quatorze seria e vinte e quatro . Uma mancha no manuscrito provavelmente confundiu o escriba que copiava Isaías 36.1, dando origem a um erro; pode ser que o copista de 2 Reis 18 tenha ficado tão impressionado com o número "décimo quarto", com o qual estava familiarizado pelo texto de Isaías, que decidiu "corrigir" o versículo 13, para harmonizá-los. Pelo menos essa é a explicação mais viável que descobri para esse enigma. (V. também o artigo sobre a invasão de Senaqueribe no décimo quarto ano de Ezequias, em 2Rs 18.13.)

Como Deus pôde pedir a Jeú que destruísse a casa de Acabe (2 Rs 9.6-10; 10.30), e a seguir condená-lo pela chacina (Os 1.4)?

Não pode haver a menor dúvida de que Jeú desincumbiu-se completamente da tarefa que recebera do Senhor: "Você dará fim à família de Acabe, seu senhor, e assim eu vingarei o sangue de meus servos, os profetas, e o sangue de todos os servos do Senhor, derramado por Jezabel. Toda a família de Acabe perecerá. Eliminarei todos os de sexo masculino de sua família em Israel, seja escravo seja livre" (2 Rs 9.7, 8). Jeú foi de Ramote-Gileade a Jezreel, matou o rei Jorão e também Acazias, monarca de Judá (que era neto de Jezabel), continuou o massacre, indo a Samaria para intimidar os anciãos da cidade, levando-os a decapitar todos os 70 filhos de Acabe que viviam no palácio (2 Rs 10.1-10). Não muito tempo depois, ele conseguiu conduzir todos os líderes de Israel, adoradores de Baal, a que entrassem no templo desse deus, sob pretexto de realizar um grande culto. Uma vez trancafiados no santuário, ordenou o massacre às suas tropas, que destruíram todo o edifício, profanando-o de tal maneira que jamais poderia ser usado como templo para o culto pagão (v. 18-27).

Depois de Jeú haver se desincumbido de todas as tarefas que visavam à supressão da idolatria em Israel, veio a ele o reconhecimento elogioso da parte do Senhor: "Como você executou corretamente o que eu aprovo, fazendo com a família de Acabe tudo o que eu queria, seus descendentes ocuparão o trono de Israel até a quarta geração" (2 Rs 10.30). Jeú servira como executor de Deus em benefício das muitas centenas de profetas do Senhor a quem Jezabel e Acabe haviam assassinado (1 Rs 18.4, 13), lançando mão dos meios mais eficazes para suprimir a maldição da idolatria, que destrói as almas humanas. Por isso, ele receberia segurança e estabilidade no trono, e seus descendentes depois dele, até à "quarta geração" (i.e., Jeoacaz 814-798, Jeoás 798-782, Jeroboão ii 793-753, e Zacarias, que foi assassinado meses depois de sua ascensão em 752 a.C).

No decurso de sua carreira, no entanto, ele não obteve grande sucesso como governador ou defensor de seu país. O obelisco preto de Salmaneser iii da Assíria retrata Jeú "filho de Omri [sic!]" prostrado diante do invasor e pagando-lhe tributo como vassalo (cf. Pritchard, anet, p. 281), em conexão com uma expedição contra Ben Hadade de Damasco e as cidades fenícias de Biblos, Sidom e Tiro. Mas 2 Reis 10.33 indica que até mesmo antes dessa invasão praticada pela Assíria (no vigésimo primeiro ano de Salmaneser, em c. de 832 a.C), Jeú havia perdido toda a região da Transjordânia onde habitavam Manassés, Gade e Rúben (que mais tarde seria conquistada por Moabe, sob o rei Mesa) para o rei Hazael de Damasco. Seu filho Jeoacaz (814-798) foi reduzido a completa vassalagem por Hazael e seu filho Ben-Hadaden (2 Rs 13.1-3). Mas Joás (798-782) teve permissão do Senhor para expulsar os sírios em três campanhas decisivas (v. 19) e também esmagar as pretensões do rei Amazias, de Judá, na batalha de Bete-Semes (14.13), que resultou num saque a Jerusalém. Foi o bisneto de Jeú, Jeroboão ii, que alcançou grande sucesso no campo de batalha, porque recuperou o território tribal da Transjordânia e toda a área



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que antes era governada por Jeroboão i — exatamente como o profeta Jonas havia predito (2 Rs 14.25-27).

Então, em que base o profeta Oséias proclamou o julgamento do Senhor sobre a dinastia de Jeú (Os 1.4, 5)? Teria sido por causa de suas pretensões impuras com as quais ele havia cumprido as obrigações recebidas de Iavé, que o mandavam eliminar a descendência de Acabe. Ainda que Jeú houvesse feito só o que o Senhor lhe ordenara, ele o realizou por zelo carnal, manchado pelo egoísmo, conforme declara 2 Reis 10.29: "No entanto, não se afastou dos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, pois levou Israel a cometer o pecado de adorar os bezerros de ouro em Betel e em Dã". E o versículo 31 acrescenta: "Entretanto, Jeú não se preocupou em obedecer de todo o coração à lei do Senhor, Deus de Israel, nem se afastou dos pecados que Jeroboão levara Israel a cometer". Essa mistura de interesses apareceu também nos seus descendentes, porque Jeoacaz "fez o que o Senhor reprova, seguindo os pecados que Jeroboão, filho de Nebate, levara Israel a cometer [...] Por isso a ira do Senhor se acendeu contra Israel, e por longo tempo ele os manteve sob o poder de Hazael, rei da Síria, e de seu filho Ben-Hadade. Então Jeoacaz buscou o favor do Senhor, e este o atendeu" (2 Rs 13.2-4).

Jeoás, filho de Jeoacaz, não se comportou melhor; ele também seguiu o mau exemplo de seu pai (2Rs 13.11), ainda que mantivesse um relacionamento amistoso com o profeta Eliseu (v. 14-19). Embora Jeroboão ii desfrutasse de notável sucesso na guerra (14.25) e reinasse longamente, durante 41 anos (v. 23) — i.e., de 793 a 782 como regente, sob o governo de seu pai, e de 782 a 753 como rei —, seu relacionamento com o Senhor não foi melhor que o de seu pai. "Ele fez o que o Senhor reprova e não se desviou de nenhum dos pecados que Jeroboão, filho de Nebate, levara Israel a cometer" (v. 24). Toda a profecia de Amós, de modo especial 2.6-16, 4.1, 5.5-13 e 6.1-8, é um comentário sobre a corrupção do governo, da sociedade e da moralidade prevalecente no Reino do Norte, no reinado de Jeroboão. (O ministério de Amós ocorreu "dois anos antes do terremoto" [1.1], no reinado de Uzias, rei de Judá, talvez entre 760 e 755 a.C.)

O princípio enunciado em Oséias 1.4 refere-se ao sangue derramado: ainda que no serviço de Deus, e, em obediência a seu comando, a culpa se apegará ao servo do Senhor, caso sua motivação esteja maculada pelo egoísmo, em vez de revestida por um interesse sincero pela pureza da fé e pela preservação da verdade de Deus (foi a motivação que, por exemplo, animou Elias quando este sentenciou os 450 profetas de Baal à morte, depois da prova do monte Carmelo). O "morticínio de Jezreel" recaiu sobre a casa de Jeú quando seu tetraneto Zacarias foi assassinado na festa de seu aniversário pelo seu capitão de carruagem, Salum, em quem tanto confiava.



Peca reinou de fato durante vinte anos em Samaria?

Lemos em 2 Reis 15.27 que "No qüinquagésimo segundo ano do reinado de Azarias, rei de Judá, Peca, filho de Remalias, tornou-se rei de Israel em Samaria, e reinou vinte anos". Essa declaração suscita uma aparente dificuldade, porque ele não estabeleceu sua sede de governo em Samaria senão em 739 a.C, ao assassinar o rei Pecaías, filho de Menaém (15.25). Visto ter sido ele próprio assassinado por Oséias em 732, Peca aparentemente reinou apenas oito anos em Samaria, em vez de vinte.

Para que entendamos a razão do registro desses "vinte anos", precisamos voltar ao golpe de Estado de 752, quando Zacarias, filho de Jeroboão ii, foi assassinado pelo capitão do exército, chamado Salum. No entanto, este permaneceu apenas um mês no trono, porque foi derrotado por Menaém, que invadiu Samaria a partir de Tirza (2 Rs 15.8-16). Ele teve sucesso em subornar o invasor assírio Tiglate-Pileser iii, que subjugou Israel por volta de 745 a.C. Depois de pagar um tributo pesado à Assíria, Menaém foi "confirmado" por Tiglate-Pileser iii no cargo de rei vassalo (v. 19). É possível que ele sentisse necessidade de apoio assírio, porque enfrentava oposição dentro de seu próprio reino e porque Peca, filho


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de Remalias, aparentemente proclamou seu direito ao trono em 752, ano em que Zacarias foi assassinado, e estabeleceu sua sede em Gileade, reinando sobre a maior parte do território a leste do Jordão. Parece que Peca combateu Menaém até que este morreu, em 742. Depois, teria feito um tratado de paz com o filho e sucessor do falecido rei, Pecaías; segundo os termos desse pacto, Peca recebeu o comando do quartel em Samaria. A seguir, conspirou com cinqüenta homens que o apoiavam e assassinou Pecaías em seu palácio proclamando rei.

Como, portanto, se justificaria o interregno de "vinte anos"? É por causa da posição oficial do governo de Peca: depois de Zacarias (ou Salum) ter sido assassinado, ele se tornou o único sucessor legítimo ao trono de Israel. Ele fora incapaz de desalojar Menaém da margem oeste do Jordão; todavia, como rei de Israel (pelo menos em sua própria opinião), fez valer seu direito de fazer de Samaria a capital do reino. Ele, por fim, fixou residência oficial nessa cidade (depois do golpe de Estado contra Pecaías) de 740 a 739, mas seu reinado em Samaria foi computado teoricamente a partir de 752, quando pela primeira vez firmou seu direito ao trono.



Não haveria, porventura, erros históricos nos livros de Reis e Crônicas, como por exemplo "Sô, rei do Egito" e "o etíope Zerá", dos quais não existe nenhum registro nas fontes seculares (cf. 2 Rs 17; 2 Cr 14)?

A resposta mais contundente para essa pergunta é que não existem inexatidões comprovadas nos registros escriturísticos. Uma segunda observação a ser feita é que se determinada declaração histórica da Bíblia é verdadeira, não precisa ser ajudada por fontes seculares a fim de tornar-se autêntica e, portanto, aceitável. Esse é um princípio fundamental da lógica. Sem dúvida, houve inúmeros fatos que realmente ocorreram em tempos antigos os quais jamais foram registrados, nem nas páginas das Escrituras, nem nos livros seculares. No entanto, tais fatos aconteceram, ainda que não tenham sido anotados. E, se determinado fato foi registrado por um documento secular, ele não precisa de um atestado das Escrituras para preservá-lo contra a possibilidade de não ser real. É claro que o inverso também é verdade. Um episódio que de fato aconteceu torna-se histórico, quer tenha sido registrado, quer não, numa fonte secular.

O único meio de justificar o ceticismo quanto à veracidade escriturística quando há registro de nomes ou fatos não encontrados nos anais seculares é declarar ser a Bíblia inferior a todas as outras fontes antigas no que diz respeito à confiabilidade. Presumir que o fato de até agora não se ter encontrado menção a Zerá ou a Sô em algum documento pagão é prova de que tais pessoas nunca existiram é o mesmo que estabelecer cegamente um desprezo ao verdadeiro conhecimento. Os que seguem tal critério ao analisar o testemunho das Escrituras deveriam ser advertidos de que o número de tais nomes e acontecimentos não verificados nos anais seculares tem sido muitíssimo reduzido pelas descobertas arqueológicas dos últimos 150 anos. Em 1850, por exemplo, muitos estudiosos negavam a historicidade dos hititas e dos horitas, de Sargão ii, da Assíria, de Belsazar, da Babilônia, e até mesmo de Sodoma e Gomorra. No entanto, a existências todos esses povos e pessoas tem sido aceita pelos estudiosos, pois constam de documentos antigos, descobertos nas últimas quinze décadas de investigações arqueológicas.

Assim, o ceticismo quanto às declarações históricas das Escrituras é completamente injustificada. Essa conclusão é forte evidência de que as suspeitas sobre a exatidão bíblica são infundadas e que uma abordagem muito mais sadia — considerando-se o excelente registro da história bíblica à luz das descobertas arqueológicas — seria presumir que toda e qualquer informação escriturística é exata e confiável, até que se prove o contrário. Até o presente, tanto quanto este autor está consciente, não existe um único registro bíblico que se verificou ser comprovadamente falso, mediante as evidências exumadas pela pá do arqueólogo.

Não ficou inteiramente comprovado que alguém chamado Sô (Sô’), mencionado em 2 Reis


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17.4, tenha sido aliado em potencial do rei Oséias, de Samaria, durante os anos finais de sua existência, cerca de 720 a.C, e que ele tivesse sido um rei. O texto hebraico poderia ser traduzido como segue: "Ele [i.e., 'Oséias'] enviou a Sais [nome da capital do Egito naquela época] o rei do Egito". Nessa época, o rei do Egito chamava-se Tefnakht (cerca de 730-720 a.C), que estabelecera sua sede em Sais. (Essa é uma sugestão de K. A. Kitchen em seu artigo "Sô", em O novo dicionário da Bíblia, de J. D. Douglas, ed., 2.ed., São Paulo, Vida Nova, 1995, p. 1541.)

É verdade que nenhuma menção se encontrou a respeito de Zerá, o etíope (heb., kûšî), até o presente, em qualquer documento exceto na própria Bíblia (2Cr 14.9-15). Aparentemente, ele não era monarca do Egito durante o tempo do rei Asa, de Judá (910-869), visto que nenhum dos governadores egípcios teve esse nome nesse período. K. A. Kitchen (The third intermediate period in Egypt [Warminster Aris & Phillips, 1973]) calcula que a batalha de Maressa ocorreu por volta de 897 a.C, que teria sido o vigésimo oitavo ano do faraó Osorkon i (o qual pertencia a uma dinastia líbia, e não cuxita). Todavia, Kitchen (ibid., p. 309) assim diz: "Em meados de 897 a.C, Osorkon i já era um homem idoso, pelo que teria enviado um general de ascendência núbia [ou cuxita], para comandar uma força militar contra a Palestina [...] Entretanto, Zera não se constituiu adversário à altura do rei judeu, pelo que não temos traços de alívio triunfal da parte de Osorkon para adornar de novo as paredes do templo do Egito" — como o pai de Osorkon, Sesonque (Sisaque) havia feito nos dias de Reoboão.



Como poderia a invasão de Senaqueribe ter ocorrido no décimo quarto ano de Ezequias?

O tm, em 2 Reis 18.13, declara: "No décimo quarto ano do reinado do rei Ezequias, Senaqueribe, rei da Assíria, atacou todas as cidades fortificadas de Judá e as conquistou". Visto que o próprio registro de Senaqueribe no prisma Taylor estabelece o ano de 701 a.C. como sendo a data dessa invasão, o décimo quarto ano de Ezequias significaria que ele não ascendeu ao trono senão em 715 a.C. No entanto, em 2 Reis 18.1 (note-se que é o mesmo capítulo), está escrito que Ezequias tornou-se rei no terceiro ano de Oséias, rei de Israel — o que seria 729 ou 728. Esse seria o ano em que ele se tornou regente do trono, sob seu pai Acaz (que morreria em 725 ou depois). O tm de 2 Reis 18.13 fica, portanto, em flagrante contradição com 18.1, 9, 10, o qual confirma que o quarto ano de Ezequias foi o sétimo de Oséias, e o sexto de Ezequias, o nono de Oséias (i.e., 722 a.C). Devemos, portanto, concluir que o tm preservou um erro textual (o qual também aparece em Isaías 36.1 — onde essa falha provavelmente teve origem): na coluna da dezena se cometeu um engano. A palavra "quatorze" originalmente era "vinte e quatro". (Quanto a minúcias adicionais, v. os artigos sobre 2Rs 8.24, Ed 2 e Ne 7 e tb. compare-se também minha obra Merece confiança o Antigo Testamento? e E. J. Young, Book of Isaiah: new International commentary, 2 vols. [Grand Rapids, Eerdmans, 1969], 2.540-42.)



Como foi possível que a sombra do relógio de Acaz retrocedesse dez degraus (2 Rs 19.8-11; Is 38.8)?

É óbvio que esse fenômeno, solicitado por Ezequias (2 Rs 20.10), objeto da oração de Isaías (v. 11) graciosamente concedido por Deus (Is 38.7, 8) em resposta a sua petição, teve a intenção de confirmar a promessa de que Deus curaria Ezequias de seu carbúnculo, ou câncer, doença mortal, depois de o rei ter sido advertido de que não viveria muito. Fosse esse acontecimento combinado a alguma ocorrência inusitada que pudesse ser explicada segundo as leis da astronomia ou da meteorologia, dificilmente teria servido como sinal divino do iminente cumprimento de outro milagre igualmente difícil. Pode-se conceber que teria havido a intervenção de uma nuvem carregada de umidade que no céu causaria uma inusitada refração dos raios do Sol;



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o sincronismo de tais condições constituiria por si só um milagre. Todavia, teria sido difícil para Deus, Criador de todo o Universo, matéria que ele fez do nada, realizar um pequeno fenômeno como esse mediante uma simples palavra de sua onipotência divina? Obviamente que não!

Como poderia a embaixada de Merodaque-Baladã vir a Ezequias, depois de 701 a.C, se por essa época ele já havia sido expulso da Babilônia (2 Rs 20.12-15)?

Merodaque-Baladã (ou Marduk-apaiddim, como seu nome aparece na escrita cuneiforme) teve a Babilônia em estrito controle de 721 a 710 a.C. Se a doença de Ezequias ocorreu quinze anos antes de sua morte (como se calcula), isso deve ter acontecido em 712 ou 711 a.C. O fato coincide muito bem com a abordagem diplomática da parte do rei da Babilônia (que havia sido tecnicamente um vassalo do rei da Assíria), Sargão ii (722-705), a fim de organizar uma união entre povos do Oriente e do Ocidente contra o poderoso monarca assírio. Se colocarmos a doença de Ezequias nessa época, em vez de após a invasão de Senaqueribe, em 701, a embaixada da Babilônia nesse caso encaixa-se muito bem na cronologia de Ezequias.

Todavia, como podemos considerar a doença de Ezequias anterior a invasão em Judá de 701? Não foi essa incursão narrada em Isaías depois de concretizado? A expressão "naqueles dias" (Is 38.1) não se refere ao episódio que acabamos de narrar no capítulo 37, que nos fala de como o anjo do Senhor tirou a vida de 185 mil soldados assírios numa única noite, obrigando, dessa forma, Senaqueribe, um homem blasfemo, a refugiar-se em Nínive, sem ter conseguido capturar Jerusalém? Normalmente, seríamos justificados ao fazer essa conexão, mas nesse caso em particular encontramos uma dificuldade: o último episódio, a que se faz referência em 37.38, não ocorreu senão em 681 a.C. Portanto, a estrita construção da frase "naqueles dias" de 38.1 significaria que Ezequias não ficou doente antes de 681 a.C, e que ele deveria ter tido quinze anos mais de vida (v. 5), depois disso. Entretanto, todas as autoridades, inclusive Edwin Thiele (que erroneamente adia a ascensão de Ezequias para 715 a.C. [cf. sua obra A chronology of the Hebrew kings (Grand Rapids: Zondervan, 1977), p. 65] aceita a declaração de 2 Reis 18.2 de que Ezequias reinou apenas vinte nove anos. Nenhuma autoridade jamais sugeriu que ele tenha governado depois de 686 a.C; no entanto, mais quinze anos levariam a 666 ou 665. Portanto, a expressão "naqueles dias" não pode ser interpretada como referência a um episódio anterior, a saber, o assassinato de Senaqueribe pelos seus dois filhos em 681.

Devemos entender a frase "naqueles dias" como fórmula introdutória de um novo episódio — e.g.: "Aconteceu naqueles dias, quando Ezequias era rei, que ele ficou mortalmente doente". Usos semelhantes dessa fórmula encontramos em Ester 1.2 (nesse caso, o verbo introduz a narrativa sobre a festa do rei sem nenhuma ligação com eventos anteriores), em Juízes 17.6 ("Naquela época não havia rei em Israel"), e de maneira semelhante em Juízes 18.1; 19.1. Comparemos também essas passagens com Mateus 3.1: "Naqueles dias surgiu João Batista, pregando no deserto da Judéia". Não existe uma conexão clara com Mateus 2.22 (o versículo precedente imediato), o qual provavelmente se refere à volta da família sagrada do Egito a Nazaré, após o final do reinado de Herodes Arquelau, em 6 d.C — numa época em que João Batista teria apenas 11 anos de idade!

Portanto, se a expressão "naqueles dias" não se refere aos dias seguintes após a partida de Senaqueribe da Palestina, em 701 a.C, quais seriam as indicações quanto à época da doença de Ezequias? Como já sugerimos, a promessa de mais quinze anos aponta para uma data por volta de 713. Visto que esse rei deve ter morrido entre 698 e 696 (seu sucessor, Manassés, tinha apenas 12 anos de idade ao ascender ao trono, e governou até 642 a.C, como concordam todas as autoridades — após um reinado de 55, de acordo com 2 Rs 21.1), a escolha deve ficar entre 713 e 711, no máximo. Isaías 39.1


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informa-nos que Merodaque-Baladã enviou seus embaixadores a Ezequias para dar-lhe congratulações pela recuperação de sua saúde diante de uma doença mortal. Visto que esse rei havia sido expulso da Babilônia em 710 e não mais voltou para lá, exceto brevemente, em 704 ou 703, as evidências apontam uma data não posterior a 711 para a chegada dos embaixadores a Jerusalém — depois da doença do rei de Judá. Isso demonstra que o registro de Isaías 38 após a narrativa da invasão de Senaqueribe no capítulo 37 se devia a uma mudança de assunto, e não à seqüência cronológica. Isaías teria em mente outro propósito, superior à ordem seqüencial dos fatos. Qual teria sido esse objetivo?

A fim de esclarecer a questão, devemos observar as implicações da predição pronunciada por esse profeta depois de haver transmitido ao rei uma mensagem a respeito de seu orgulho tolo, que o fez mostrar seus tesouros aos embaixadores babilônicos. Isaías 39.6 contém esta advertência: "Um dia, tudo o que há em seu palácio bem como tudo o que seus antepassados acumularam até hoje. Naquela ocasião, estando a Babilônia subjugada ao domínio assírio, essa era uma profecia surpreendente. No entanto, era o julgamento que Deus havia estabelecido contra povo apóstata de Israel, revelando seu plano ao profeta Isaías. Os babilônios, de modo específico os caldeus que regiam a Babilônia, executariam fielmente a sentença de total despovoamento do país e exílio do povo desobediente de Judá. Desse ponto de vista, Isaías 39 constitui uma introdução apropriada para o capítulo 40 e os subseqüentes, todos provavelmente compostos durante o reinado de Manassés, o filho impiedoso de Ezequias. O capítulo 40 pressupõe o cativeiro babilônico como um acontecimento real, já estabelecido para Judá. O foco é desviado da Assíria e fixado na crise futura da destruição de Jerusalém por Nabucodonosor e a deportação de judeus, ao lado da promessa de restauração final e do retorno ao lar ao término do exílio. Assim, o conteúdo do capítulo 39 forma uma introdução bem apropriada para o capítulo 40, visto que explica a razão da deportação para a Babilônia, a cidade de Merodaque-Baladã.



Como, quando e onde morreu Jeoaquim?

Diz 2 Reis 24.6: "Jeoaquim descansou com os seus antepassados. Seu filho Joaquim foi o seu sucessor". (O texto sugere que esse perverso rei teve um sepultamento digno, tendo recebido uma sepultura real — conquanto "descansou com os seus antepassados" pudesse significar simplesmente que ele se unira aos seus antepassados no reino dos mortos — no Sheol.) Em 2 Crônicas 36.5-8, lemos: "Jeoaquim tinha vinte e cinco anos de idade quando começou a reinar, e reinou onze anos em Jerusalém [... ] Nabucodonosor, rei da Babilônia, atacou-o e prendeu-o com algemas de bronze para levá-lo para a Babilônia. Levou também para a Babilônia objetos do templo do Senhor e os colocou no seu templo[...] Seu filho Joaquim foi o seu sucessor". Poder-se-ia dizer que Jeoaquim foi conduzido à Babilônia como prisioneiro e lá permaneceu pelo resto de sua vida — fato que teria acontecido em 598 a.C. (visto que ele havia governado durante onze anos, a partir de 608 a.C). No entanto, o texto não afirma que ele regressou da Babilônia como vassalo de Nabucodonosor, a quem fizera promessas solenes de lealdade e de que jamais voltaria a juntar-se ao faraó Neco e aos egípcios contra o senhorio caldeu. Se for correta essa hipótese, o fato teria ocorrido em 604 a.C, depois de Nabucodonosor haver estendido seu reinado sobre a Síria, Fenícia, Samaria e Judá, tomando para si um grupo de reféns como Daniel, Ananias, Misael e Azarias.

Assim como Assurbanipal da Assíria tomou o rei Manassés, tirando-o de seu reino e prendendo-o durante longo tempo na Babilônia (2 Cr 33.11, 12), até que ele se arrependesse de sua infidelidade para com Deus, após o que foi restaurado ao trono pelo rei assírio, da mesma forma Jeoaquim provavelmente foi restaurado a seu governo em Jerusalém como vassalo sob o senhorio caldeu. Essa passagem de Crônicas não descreve sua deportação para Babilônia em termos que indiquem claramente a queda de Jerusalém em 597 a.C, quando seu filho e sucessor, Joaquim, foi deportado, juntamente com "todos os líderes e os homens de


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combate, todos os artesãos e artífices. Era um total de dez mil pessoas; só ficaram os mais pobres" (2 Rs 24.14). Além disso, por ocasião da segunda deportação, Nabucodonosor não removeu apenas "[alguns] objetos do templo do Senhor" ( 2Cr 36.7), mas "todos os tesouros do templo do Senhor e do palácio real" (2 Rs 24.13 [grifo do autor]).

Parece, portanto, que o episódio de 2 Crônicas 36.5-8 não é o mesmo de 2 Reis 24.14.O primeiro ocorreu em 604 a.C, com o cativeiro de Daniel e seus amigos; o segundo, em 597, envolvendo outro rei (Joaquim), com um saque muito maior e grande número de prisioneiros. Assim, deixa de existir razão para comprovar-se uma discrepância. Os dados do texto bíblico impedem que se identifiquem os dois eventos como sendo apenas um.

No entanto, a forma e o lugar da morte de Jeoaquim constituem elementos mais patéticos que a breve declaração de 2 Reis 24.6 parece indicar. Lemos em Jeremias 22.18, 19: "Portanto, assim diz o Senhor a respeito de Jeoaquim, filho de Josias [...] Não se lamentarão por ele [...] Ele terá o enterro de um jumento: arrastado e lançado fora das portas de Jerusalém! Essa é uma predição do vergonhoso tratamento que seria dado ao cadáver desse rei (aparentemente em torno de 7 de dezembro de 598 a.C). Em vez de um enterro digno em uma sepultura real — na época da morte ou mais tarde — o cadáver foi atirado em um buraco como o de um animal qualquer. Jeoaquim ficou enterrado fora dos muros de Jerusalém por cidadãos que se ressentiram de seu reinado perverso e desastroso. Seu infeliz filho, Joaquim, permaneceu vivo para enfrentar todas as conseqüências da quebra do voto de seu pai para com Nabucodonosor — como descrevemos acima.

Qual era a idade correta de Joaquim quando subiu ao trono: oito ou dezoito anos?

De acordo com 2 Reis 24.8, "Joaquim tinha dezoito anos de idade quando começou a reinar". Mas a passagem paralela de 2 Crônicas 36.9 declara que ele tinha "oito" anos de idade quando começou a reinar. É óbvio que houve um erro textual da parte do copista, em 2 Reis ou em 2 Crônicas. Esse tipo de falha ocorria às vezes por causa de uma palavra semi-apagada ou de dano na superfície do papiro ou pelo original, onde estava o manuscrito de que se fizeram cópias. O sistema numérico em uso no século v (quando Crônicas provavelmente foi composto — sob a supervisão de Esdras) apresenta um traço horizontal que termina em gancho, na extremidade direita, como sinal de "dez"; dois traços seria "vinte". (V. o artigo sobre 2 Rs 8.26.) Os dígitos abaixo de dez eram indicados por traços verticais, geralmente em grupos de três. Assim, o número que originalmente havia sido escrito com um traço horizontal e um gancho sobre um ou mais desses grupos de traços verticais (nesse caso específico, oito traços), pareceria simplesmente "oito" em vez de "dezoito".

É provável que 2 Crônicas 36.9 esteja incorreto, tanto porque oito anos é muito pouco para que alguém assuma o governo de uma nação — embora Joás, filho de Acazias, tivesse sete quando começou a reinar (2 Rs 11.21), e Josias, oito (2 Rs 22.1) — porque os caldeus o tratavam como se fosse um adulto e condenaram-no à prisão perpétua na Babilônia, depois que seu povo se rendeu, em 597 a.C. Além disso, é muito menos provável que o copista tenha visto por engano um traço extra, indicativo do número dez, que não estivesse presente no original, que deixado de observar que o sinal havia sido apagado.

É verdade que o pai de Joaquim, o rei Jeoaquim, seria inusitadamente jovem para ser seu pai (dezesseis ou dezessete anos). No entanto, alguns membros da realeza judaica casavam-se bem cedo (em outras palavras, se Jeoaquim tivesse 25 ao ascender ao trono em 608 [2 Rs 23.36], e Joaquim, dezoito em 598, quando seu pai morreu [2 Rs 24.8], teria havido apenas uma diferença de dezessete ou dezoito anos entre eles). Observemos que aparentemente Acaz teria gerado Ezequias à idade de treze ou quatorze anos, a julgar-se pelo fato de Acaz ter 22 à época de seu vice-reinado, em 743,


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e Ezequias, 25 quando seu pai morreu, em 725 (dificilmente em seu primeiro governo como vice-rei, em 728!) (cf. 2 Rs 16.2 [2 Cr 28.1] e 2 Rs 18.2 [2 Cr 29.1]).

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