Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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1 Crônicas


Nota especial: Quanto a uma discussão genérica sobre os propósitos distintivos do autor de 1 e 2 Crônicas, consulte-se o primeiro artigo de Jonas, p. 321, sobre a alegação de ele conter elementos de Midraxe.

Por que há tantas genealogias em 1 e 2 Crônicas?

Os livros de Crônicas provavelmente foram compilados por Esdras em meados do século v a.C. ou por alguém que foi seu contemporâneo. Após a longa provação do cativeiro babilônico, que durou setenta anos, um grupo de colonos judeus foi conduzido de volta, por Zorobabel e Jesua, a fim de estabelecer uma nova comunidade de Israel em sua terra arruinada. Os israelitas haviam perdido todas as suas possessões, e isso foi o resultado da desvastação dos caldeus. Tudo o que restou foi o povo, suas memórias, suas tradições, e sua Bíblia — e, é claro, foi Deus quem lhes concedeu tudo isso. E agora cumpria a promessa de restaurá-los à sua pátria e pôr um ponto final no exílio. Portanto, era da maior importância que se estabelecessem as linhas genealógicas, a partir de Abraão e das doze tribos de Israel, dos mais antigos ancestrais a quem haviam sido atribuídos territórios, cidades e aldeias, desde os dias de Josué.

Muitas pessoas em nossos dias não poupam esforços em traçar sua linha genealógica até onde puderem. No caso de Israel, existia o fator adicional — Iavé Elohim havia celebrado uma aliança pessoal com Abraão e sua "semente", uma série de promessas graciosas e exigências especiais para que vivessem uma vida piedosa. É provável que a grande maioria dos israelitas deportados tenha preferido não sofrer as provações decorrentes do regresso a Jerusalém. Os 42 mil que tomaram a decisão de voltar dificilmente representariam 10% das pessoas que deveriam regressar, saindo da Babilônia (cf. Is 6.13). Era importante que se definisse quais seriam as famílias que formariam a segunda comunidade, visto que os planos divinos de redenção se firmariam com esse pequeno grupo, em vez de com os 90% que preferiram ficar na terra do exílio.

Essa ênfase na genealogia prosseguiria até os tempos do nt, pois logo no início de Mateus e de Lucas encontramos as linhagens de Jesus, nosso Senhor e Salvador, o filho de Davi, de Abraão e de Adão. Era importante que se traçasse a ascendência humana de Jesus, para fixar sua posição de Filho do homem, o Messias, o Salvador de todo crente, tanto judeu quanto gentio.



Qual o relacionamento genealógico entre Sesbazar, Sealtiel e Zorobabel?

Diz 1 Crônicas 3.16-19: "Os sucessores de Jeoaquim foram: Joaquim e Zedequias [i.e., o filho mais novo de Jeoaquim, que não deve ser confundido com seu tio Zedequias, filho de Jeoacaz, que foi o último rei de Judá]. Estes foram os filhos de Joaquim, que foi levado para o cativeiro [lê-se ’aṣir nem vez de ’Aṣṣîr, como foi apontado pelos massoretas de forma errada]: Sealtiel, Malquirão, Pedaías, Senazar, Jecamias, Hosama e Nedabias. Estes foram os filhos de Pedaías: Zorobabel e Simei. Estes foram os filhos de Zorobabel:



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Mesulão, Hananias e Selomite, irmã deles" (mais uma filha e cinco outros filhos, segundo o v. 20).

Essa passagem estabelece o fato de que Zorobabel, o governador da província de Judá no tempo de Zacarias (Zc 4.6-9), era filho de Pedaías e, portanto, sobrinho de Sealtiel (irmão mais velho de Pedaías). Mas Esdras 3.2 se refere a Zorobabel como "filho" de Sealtiel; por isso, parece que este havia adotado Zorobabel depois da morte prematura de seu pai natural, Pedaías. (Não há referência à morte prematura de Pedaías em parte alguma, mas essa é a única explicação para o fato de Zorobabel ter sido adotado por Sealtiel. Outras referências a Zorobabel como "filho de Sealtiel" são Ed 3.8; 5.2; Ne 12.1; Ag 1.1.)

Quanto a Sesbazar, Esdras 1.8 diz que Ciro, rei da Pérsia, fez com que seu tesoureiro, Mitredate, devolvesse nas mãos de Sesbazar 5400 peças de prata e de ouro retiradas do templo em Jerusalém, que fora destruído (esse tesouro havia sido pilhado por Nabucodonosor em 587): "... os entregou a Sesbazar, governador [nāśî’] de Judá". O versículo 11 declara que esses utensílios foram levados em segurança para Jerusalém, por Sesbazar (em 537), quando os israelitas que voltaram iniciaram a construção de uma nova colônia. Mais tarde, Esdras 5.14 registra que os utensílios do templo foram devolvidos por Ciro (sem dúvida por meio de seu tesoureiro, Mitredate) "a um homem chamado Sesbazar, que ele tinha nomeado governador [peḥâh]".

Podemos tirar duas conclusões dessas evidências: "Sesbazar" é outro nome de Zorobabel, ou de Sealtiel, "pai" de Zorobabel. A primeira tem adeptos fortes, como por exemplo C. F. Keil (Keil e Delitzsch, Ezra, Nehemiah, Esther, p. 27), que sugere ser "Sesbazar" o nome oficial de Zorobabel na corte (assim como Beltesazar era o nome oficial de Daniel [Dn 1.7]). A dificuldade que pesa sobre essa teoria é que "Sesbazar" (provavelmente derivado de Shamash-mar- (u) ṣur, "deus-sol, protege o filho!" que seria o esperado para um nome oficial) não é tão claramente de origem babilônica quanto "Zerubabel" (zērû-Babili, "Semente de Babilônia"). Isso enfraquece a suposição de que um é o nome real, e o outro, o gentílico, atribuído posteriormente.

Há última hipótese, de que Sesbazar era o nome oficial atribuído a Sealtiel, o pai (adotivo) de Zorobabel, apresenta alguns aspectos que a fortalecem. Sealtiel é um nome hebraico genuíno que significa "eu pedi ao Senhor", ou talvez "meu pedido é Deus". Por isso não é totalmente inconcebível que Zorobabel ou Sesbazar seja o nome originalmemte dado ao bebê pelos pais, por ocasião da circuncisão, visto que se haviam acostumado aos nomes gentílicos durante o longo cativeiro na Babilônia. No entanto, parece muito mais provável que Sealtiel fosse o nome atribuído originalmente pelos pais hebreus, e Sesbazar seria o da corte, dado a ele mais tarde pelo governo babilônico. Então, isso significaria que os utensílios do templo foram confiados a Sealtiel-Sesbazar, o idoso pai adotivo (na verdade, o tio) de Zorobabel, pelas autoridades persas. Segue-se naturalmente que Sealtiel recebeu a posição de peḥâh, ou governador, da nova colônia judaica prestes a ser fundada na Judéia, e que ele e seu "filho" Zorobabel participaram do lançamento dos alicerces do segundo templo, em 536 a.C.

Note-se, porém, com todo cuidado, que Sesbazar jamais torna a ser mencionado depois da cerimônia de lançamento dos alicerces (Ed 5.16). O fato pode indicar que ele teria morrido logo após o evento, passando o governo ao seu "filho" Zorobabel que daí em diante talvez passasse a servir como peḥâh (embora em parte alguma isso seja dito a seu respeito). Admite-se que essa hipótese apresenta dificuldades, suposições que não têm o devido apoio. Falta-lhe a simplicidade da primeira hipótese, segundo a qual Sesbazar é apenas o segundo nome de Zorobabel (essa é uma interpretação fortemente defendida por Unger, Bible dictionary, p. 1014). A objeção que se baseia na etimologia dos dois nomes (Sesbazar e Zorobabel) pode não parecer tão forte quanto a necessidade de imaginar que o pai de Zorobabel detinha a honra de ser o governador sênior e de dividir com o filho a honraria de ter lançado a pedra angular do templo, embora não haja a menção de dois líderes tão ilustres participando da cerimônia. Se assim foi, a declaração mais honesta a ser feita é que qualquer dessas explicações resolve o problema da aparente discrepância, mas as evidências disponíveis não apontam com certeza para nenhuma delas em particular.



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Antes de deixar esse tópico, devemos acrescentar que se Sesbazar e Sealtiel são a mesma pessoa. Podemos então supor que houve um casamento por levirato. Em outras palavras, de acordo com Deuteronômio 25.5, se um homem morresse sem deixar um filho para a esposa, um irmão sobrevivente (ou um parente mais próximo, caso não tivesse um irmão) tinha o dever de levar a viúva para sua casa e casar-se com ela, para "dar continuidade ao nome do seu irmão". O primeiro filho que nascesse do casamento por levirato não seria considerado do segundo marido, isto é, do pai biológico, mas do falecido. Então, caso Pedaías houvesse morrido jovem sem deixar herdeiros, Sealtiel teria casado com a cunhada, viúva, e assim se tornado pai biológico de seu primogênito, Zorobabel. Todavia, legalmente, Zorobabel teria sido considerado filho de Pedaías, exatamente como 1 Crônicas 3.19 o declara. No entanto, visto ter sido gerado por Sealtiel e educado por ele, seria conhecido também (não oficialmente) como o filho de Sealtiel.

Permanece uma única dificuldade a ser removida. A genealogia de Lucas (3.27, 28) relaciona os seguintes elos dessa corrente humana: AdiMelqui - Neri - Salatiel - Zorobabel - Ressá - Joanã, e os demais. Visto que Salatiel é a forma grega de Sealtiel, e Zorobabel é obviamente Zorobabel, resta saber se existe algum relacionamento entre Sealtiel e Zorobabel (descendentes do rei Josias, da dinastia davídica) e aqueles dois que descendem de Melqui e Neri, na genealogia registrada por Lucas. A resposta deve ser não, pois é impossível que os nomes de Neri e de seus antepassados sejam incluídos na linhagem davídica e que a cronologia em que aparecem esteja errada. Na genealogia que Mateus apresenta de Cristo, Salatiel e Zorobabel correspondem às décima quinta e décima sexta geração depois de Davi, enquanto na de Lucas Salatiel e Zorobabel representam as vigésima primeira e a vigésima segunda geração depois de Davi. Ainda que às vezes alguns elos sejam omitidos na corrente genealógica de Mateus (como Acazias -Joás - Amazias entre Jorão e Uzias), a discrepância de cinco gerações é difícil de ser aceita.

Então, de que maneira vamos explicar a seqüência de Sealtiel e Zorobabel na linha sucessória de Jeconias (Mt 1.12) e a seqüência de Salatiel e Zorobabel no grupo familiar de Davi, que produziu descendentes a partir de Natã (Lc 3.27-31) até Neri? É certo ser deveras inusitado verse o mesmo par de pai e filho aparecendo em duas linhas familiares distintas; no entanto, há uma analogia interessante que se encontra nos tempos de Acabe e Josafá. Esses reis, durante uma época de relacionamento cordial entre os governos de Judá e Israel, deram a seus filhos os nomes de Jorão e Acazias (2 Rs 1.17 e 8.16; 1 Rs 22.51; 2 Rs 1.1, 2; 8.25). Por isso, é concebível que um descendente do rei Davi chamado Sealtiel, que viveu no período pós-exílico (i.e., Sealtiel, filho de Neri), teria dado a seu filho o nome de Zorobabel, em homenagem ao par tão bem conhecido que conduziu o remanescente do povo de volta a Jerusalém no final do exílio. No milênio anterior, a xii e a xviii dinastia do Egito tiveram uma série de reis chamados Amenotepe-Senwosret e Amenotepe-Tutmés, respectivamente. Dessa maneira temos precedentes e também analogias na recorrência de pares de pai e filho, no que diz respeito a nomes.

Como um Deus bondoso, de paz, pode permitir e apoiar a guerra (1 Cr 5.22), dar instruções sobre como ela deve ser travada (Dt 20) e ser aclamado pelo seu povo como o "Senhor é guerreiro" (Êx 15.3)? [d]

O elemento-chave em 1 Crônicas 5.22 (que nos fala das conquistas das tribos de Rúben, Gade e Manassés sobre os povos pagãos da Transjordânia) é o seguinte: "E muitos foram os inimigos mortos, pois a batalha era de Deus".

Certas suposições sublinham essa pergunta, as quais requerem exame cuidadoso quanto à sua justeza. Não fazer qualquer oposição ao mal é, realmente, manifestação de bondade? Podemos dizer que um cirurgião não deve cortar e jogar fora o tecido canceroso de seu paciente, e sim deixá-lo sofrer até morrer? Podemos elogiar um destacamento policial que repousa preguiçosamente e nenhuma resistência opõe ao ladrão armado, ao seqüestrador, ao incendiário ou a qualquer outro tipo de criminoso que espreita


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a sociedade? Como poderia Deus ser chamado de "bondoso" se ele proibisse seu povo de proteger as esposas contra o rapto e estrangulamento da parte de bandidos bêbados ou de resistir aos invasores que viessem roubar seus filhos e matá-los cruelmente?

Nenhum procedimento legal daria maior liberdade à perversidade e ao crime que a desistência do direito de defesa da parte dos cidadãos honestos e cumpridores de seus deveres. Não existe um modo mais eficaz de promover a causa de Satanás e os poderes do inferno que privar as pessoas honestas e que guardam a lei, de seus direitos de autodefesa. É difícil imaginar uma Divindade a que se poderia chamar "bondosa", se sua política de combate ao crime se resumisse à total entrega ao mal, sob a alegação de pacifismo. Toda possibilidade de se ter uma sociedade bem organizada se desfaria caso fosse abolido todo tipo de força policial. Nenhuma nação poderia conservar sua liberdade nem preservar a vida de seus cidadãos se lhe fosse impedido manter qualquer tipo de força armada que a defendesse. Portanto, é necessário que o "bom Deus" inclua o direito de autodefesa como prerrogativa do povo. Deus de modo algum seria bom se entregasse o mundo à crueldade desenfreada perpetrada por criminosos sanguinários ou à livre agressão de exércitos inimigos.

A política sadia, apropriada e responsável da autodefesa não só é ensinada nas Escrituras, do Gênesis ao Apocalipse, como também há exemplos em que Deus ordena a seu povo que exerça o julgamento sobre nações pagãs corruptas, degeneradas, e até mesmo a extinção total de cidades como Jericó (cf. o artigo "Teria Josué justificativa para o extermínio da população de Jericó?" em conexão com Josué 6.21). As leis de guerra estabelecidas em Deuteronômio 20 representavam o controle da justiça, da retidão e da bondade no uso da espada e, por isso, representavam verdadeiramente a vontade de Deus. Algumas condições especiais foram definidas como motivo justo para que alguns soldados fossem dispensados do serviço militar até que tais empecilhos desaparecessem (Dt 20.5-7). Até mesmo os que não pudessem apresentar tais desculpas, mas tinham medo e não queriam lutar, tinham permissão de ir embora (v. 8). Diferentemente dos exércitos pagãos, que podiam atacar uma cidade sem primeiro dar-lhe a oportunidade de entregar-se condicionalmente (cf. 1 Sm 11.2, 3; 30.1, 2), os exércitos de Israel concediam ao inimigo a chance de entregar-se sem derramamento de sangue e aceitar a vassalagem aos hebreus antes que se procedesse ao cerco e à conseqüente destruição. Ainda assim, as mulheres e crianças eram poupadas, e seus captores tinham o dever de cuidar delas (Dt 20.14). Só no caso dos habitantes de Canaã, a Terra Prometida, que eram degenerados e depravados, deveria haver destruição total; desobedecer a tais ordens com toda certeza traria a corrupção moral e espiritual e a quebra dos padrões da sociedade israelita, de acordo com os versículos de 16 a 18. (Essa influência corruptora tornar-se-ia aparente mais tarde, no período dos juízes [Jz 2.2, 3, 11-15]).

Nos tempos do nt, a convocação de um soldado era considerada uma honra, quando exercida com responsabilidade. (Mt 8.5; Lc 3.14; At 10.1-6, 34, 35). Paulo chega a fazer uma analogia entre o serviço militar e o compromisso cristão (2 Tm 2.4), sem apresentar a mínima restrição àquela atividade. A descrição que ele estabelece, em Efésios 6.11 -17, da armadura espiritual que o guerreiro de Cristo deve usar quando a serviço de seu Senhor segue o mesmo princípio. Parece que não existe a mínima base nas Escrituras, seja no at, seja no nt, para o conceito de um Deus "bom" que exige pacifismo incondicional da parte de seus seguidores. (Para um estudo mais profundo acerca das evidências bíblicas sobre desse ponto, v. G. L. Archer: "Teria o pacifismo alguma base bíblica?" The Evangelical Beacon, 28 de dezembro de 1971: 4-6.)



Diz 1 Crônicas 6.16ss. que o pai de Samuel era um levita, mas Samuel 1.1 afirma ser um efraimita. Qual a afirmativa correta?

Lemos em 1 Crônicas 6.16, 22-28 que Elcana, o pai de Samuel (que se deve distinguir de Elcana, filho de Assir, que viveu cinco gerações antes desse), descendia de Coate, filho de Levi, como também Moisés e Arão. Foi por essa razão que ele foi aceito pelo sumo sacerdote Eli (1 Sm 1.24, 28; 2.11)



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como aprendiz. Quando Samuel se tornou adulto, trabalhou como sacerdote e fez sacrifícios nos principais centros de Israel — cargo que não poderia exercer se não pertencesse à tribo sacerdotal.

O texto de 1 Samuel 1.1 diz simplesmente que Elcana era "de" (min) Ramataim-Zofim, sobre o monte Efraim. Todos os levitas eram designados para certas "cidades levíticas" — povoados espalhados pelas doze tribos, segundo o regulamento estabelecido em Números 35.6. Não temos a lista dessas 48 localidades, mas é bem possível que essa cidade fosse uma delas. Pela sua linhagem, portanto, Elcana era levita; pelo local de origem, efraimita. Assim, não existe contradição entre as passagens.



Em 1 Crônicas 21, lemos que Davi cedeu à tentação de Satanás ao numerar o povo de Israel. O resultado foi que Deus destruiu 70 mil pessoas mediante uma pestilência. Teria sido justo que Deus punisse o povo pelo pecado do rei? [d]

Do ponto de vista humano, é bem mais fácil, e ideal, que as conseqüências más do pecado sejam limitadas apenas ao malfeitor. Todavia, por causa dos envolvimentos inter-relacionados entre família e sociedade, tal limitação não é possível. Milhões de pessoas pereceram durante o período nazista por causa de um único homem, Adolf Hitler. No caso de Davi, naturalmente, não havia uma má intenção, por trás da teimosia em realizar um recenseamento de todos os cidadãos de seu país. É muito provável que sua motivação fosse o orgulho pelo que realizara como gênio militar e a prosperidade que o reino obtivera sob seu governo.

Todavia, é erro presumir que os súditos de Davi não estivessem também contaminados por essa atitude orgulhosa, pois 2 Samuel 24.1 diz: "Mais uma vez irou-se o Senhor contra Israel e incitou Davi contra o povo, levando-o a fazer um censo de Israel e de Judá". É muito provável que a conveniência de realizar um censo havia sido sugestão dos conselheiros do rei, tanto com objetivos militares quanto para se obter uma base exata para a cobrança de impostos. Deve ter havido um surto de orgulho nacionalista, tendente a minimizar a graça e o poder soberanos de Deus, em vez de reconhecê-lo como o autor de todas as extraordinárias vitórias no campo de batalha e a extensão de sua hegemonia desde o Egito até as margens do Eufrates e os limites da Síria ao Norte. A nação de Israel precisava desse castigo, pois de outra forma jamais se diria que "irou-se o Senhor contra Israel".

Lendo 1 Crônicas 21.1, entendemos como Satanás conseguiu seu intento: "Satanás levantou-se contra Israel e levou Davi a fazer um recenseamento do povo". Como é seu hábito quando encontra um meio para atuar, o Diabo agiu no sentido de estimular o desejo de Davi e dos líderes do povo, para que levassem a cabo aquele projeto egoísta, ainda que o general Joabe fosse contrário a isso (cf. v. 3). Não deveria causar surpresa, portanto, que a contabilização do poderio militar humano das doze tribos, no esplendor de sua força, constrangesse o Senhor a fazê-los lembrar-se de que não seria por meio de números impressionantes que eles prevaleceriam, mas apenas pela sua graça.



Por que Crônicas sempre apresenta números mais elevados que os livros de Samuel e Reis quando há uma possível discrepância?

Há cerca de dezoito ou vinte exemplos de possíveis discrepâncias numéricas, entre os livros de Crônicas e os de Samuel e Reis. Esse fenômeno tem sido interpretado por alguns críticos como evidências de uma política que visava glorificar o passado, pois o cronista apela para exageros deliberados. No entanto, devemos salientar que, em grande parte dos casos, Crônicas concorda perfeitamente com Samuel e Reis nos números e estatísticas que apresentam. Por isso, o alegado desejo de enfeitar o registro e exagerar a glória do passado deve ter sido bem modesto, da parte do cronista.

Um exame cuidadoso daqueles dezoito ou vinte exemplos de possíveis discrepâncias (pois a maior parte delas é apenas aparente e refere-se a grupos diferentes de pessoas ou a fatos que


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teriam ocorrido noutras épocas ou que não seriam exatamente da mesma categoria) produzem um resultado interessante: pelo menos numa terça parte deles, os números são menores em Crônicas que em Samuel e Reis. Por exemplo: 1 Crônicas 11.11 comparado com 2 Samuel 23.8; 1 Crônicas 21.5b comparado com 2 Samuel 24.9b; 2 Crônicas 3.16b comparado com 1 Reis 7.20b (cf. v.42); 2 Crônicas 8.10 comparado com 1 Reis 9.23; 2 Crônicas 36.9 comparado com 2 Rs 24.8. Um bom exemplo de número mais modesto (e aceitável) está em 2 Crônicas 9.25, que registra 4000 como a quantidade de estábulos que Salomão havia edificado para seus cavalos, enquanto 1 Reis 4.26 afirma que eram 40000. E também 1 Crônicas 11.11, onde se diz que o número de inimigos mortos por Jasobeão num único combate foi de 300, enquanto 2 Samuel 23.8 afirma que eram 800 — segundo o tm.

Um exemplo interessante de número elevado e suspeito encontra-se em 1 Samuel 6.19 (infelizmente não existe paralelo em Crônicas). A quantidade de pessoas mortas por uma peste enviada por Deus a Bete-Semes, cujos habitantes haviam aberto a arca sagrada para lhe examinar o interior, segundo o registro atingiu 50070. É possível que esse número excedesse a população total da cidade (conquanto não possamos ter plena certeza disso).

Tentando explicar esses erros de transmissão (e acreditamos nisso), entenda-se que os números e nomes próprios sempre estão mais sujeitos a erro que qualquer outro tipo de texto (de modo especial quando se trata de nomes estrangeiros). Quase todos os números altos foram arredondados, expressos em milhares. De modo especial no último estágio da transmissão (mas antes da implantação do sistema de grafar-se por extenso, conforme passou a prescrever a associação dos escribas, perîm, ou copistas profissionais), as letras alfabéticas eram usadas com freqüência. O milhar era indicado com pontos sobre a letra. (Assim, um álefe com dois pontos em cima indicava "mil".) À medida que o manuscrito se tornava gasto, quebradiço ou comido de traças, ficava difícil verificar se os pontos de multiplicação estavam sobre a letra ou não. No entanto, até mesmo os primitivos métodos de grafia por sinais, como os empregados nos papiros elefantinos do século v a.C, também estavam sujeitos a mudanças, sempre que se copiava um número ou palavra de um documento semi-apagado ou manchado. À semelhança do estilo hierático egípcio, os autores judeus usavam ganchos horizontais sobre as palavras, a fim de indicar as dezenas. A conseqüência da precariedade desse sistema está em 2 Reis 18.13: o número original"vinte e quatro" foi copiado como "quatorze", talvez porque o gancho superior tenha se apagado no manuscrito original. (Esse caso foi abordado num artigo à parte. Compare também o artigo de Esdras 2 e Neemias 7, quanto ao número de judeus que voltaram da Babilônia.)

Voltando à questão original — em que o cronista é injustamente acusado de tendências propagandísticas —, a eliminação de sete exemplos (descritos acima) que mostram estatísticas menores do que Samuel e Reis deixa-nos com doze discrepâncias numéricas bem caracterizadas, nas quais Crônicas mostram números mais elevados. Considerando-se o grande volume de textos e números, é quase impossível que haja tão poucas discrepâncias numéricas, ao lado de outras centenas de casos em que os números coincidem. Em algumas ocasiões, a unidade utilizada reflete um padrão posterior, de peso mais leve que o citado na fonte original — por exemplo, 1 Crônicas 22.14, em que o peso do siclo se reduziu à metade, em meados do século v a.C.

(Quanto a um estudo completo dos números envolvidos no texto de Crônicas, v. J. B. Payne, "The validity of numbers in Chronicles", Bulletin of the Near East Archeological Society, n.s. 11 [1978]: 5-58.)

Como Davi declara, em 1 Crônicas 22.14, 1 que havia doado 100 mil talentos de ouro para o futuro templo se em 1 Crônicas 29.4 ele afirma que foram apenas três mil talentos?

A resposta é muito simples. Em 1 Crônicas 22, sua doação para a obra do futuro templo visava a que Salomão tivesse tudo o que fosse necessário



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quando iniciasse a construção. Mas em 1 Crônicas 29 Davi estabelece um novo fundo para a construção e por isso ele apela para as pessoas a fim de que contribuam com um donativo extra, de modo que complemente a doação citada no capítulo 22. A linguagem de 29.3, 4 é explícita nessa parte: "Forneci grande quantidade de recursos [i.e., os cem mil talentos de ouro de 22.14 — v. o artigo seguinte] para o trabalho do templo do meu Deus: ouro, prata, bronze, ferro e madeira, bem como ônix para os engastes, e ainda turquesas, pedras de várias cores e todo tipo de pedras preciosas, e mármore. Além disso, pelo amor ao templo do meu Deus, agora entrego, das minhas próprias riquezas, ouro e prata para o templo do meu Deus, além de tudo o que já tenho dado para este santo templo. Ofereço, pois, cento e cinco toneladas [ou três mil talentos] de ouro puro de Ofir e duzentos e quarenta e cinco toneladas de prata refinada, para o revestimento das paredes do templo". Em outras palavras, Davi apresentava a necessidade de uma contribuição suplementar, maior que a soma já dedicada ao primeiro projeto. Os nobres e os negociantes ricos seguiram o exemplo de seu rei e deram uma oferta adicional de cinco mil talentos e dez mil daricos de ouro, dez mil talentos de prata, dezoito mil de bronze e cem mil de ferro. Não existe contradição entre os dois capítulos: o 29 registra um donativo posterior, que suplementou o do 22.

Em 1 Crônicas 22.14 estão relacionados "cem mil talentos de ouro" ("três mil e quinhentas toneladas" na nvi como o donativo de Davi para o futuro templo em Jerusalém. É aceitável essa cifra, ou teríamos aqui um erro do copista?

Encontramos essa elevada soma de "três mil e quinhentas toneladas de ouro, trinta e cinco mil toneladas de prata" no tm e também na lxx. Tão imensa quantidade poderia estar além dos recursos dos próprios césares. Seria perfeitamente possível que tenha ocorrido um erro de cópia quando o escriba registrou um número grande como esse. Temos um provável exemplo disso quando comparamos 2 Crônicas 9.25 (que menciona "quatro mil" como o número de estábulos construídos por Salomão para abrigar seus cavalos) e 1 Reis 4.26 (onde o número mencionado é "quarenta mil"). Essa última citação sem dúvida sofreu uma multiplicação por dez, por causa de alguma obscuridade ou mal-entendido da parte do Vorlage. Pode ser também que aqui, em 1 Crônicas 22.14, tenha havido um erro de ordem decimal. É possível que o número original tenha sido "trezentas e cinqüenta toneladas de ouro"; ou talvez o total de prata fosse três mil e quinhentas toneladas. Outra possibilidade seria uma interpretação errada de alguma abreviatura — a de mina confundida com a de talento (havia 60 minas em um talento).

Deve-se observar, ao mesmo tempo, que o número o qual aparece no tm não deve ser considerado impossível. Keil (Keil e Delitzsch, Chronicles, p. 246ss.) salienta os seguintes pontos:

1. O siclo "real" comum, ou civil, parece que valia apenas metade do "siclo do santuário" [ra] de Moisés. Isso se verifica quando se compara 1 Reis 10.17 ("trezentos escudos de ouro batido; três arratéis [150 siclos] de ouro mandou pesar para cada escudo") e 2 Crônicas 9.16 ("trezentos escudos de ouro batido; trezentos siclos de ouro mandou pesar para cada escudo"). (Trezentos siclos seria igual a seis minas; daí deduzir-se que o número de 1 Reis fala de um siclo duas vezes mais pesado que o de 2 Crônicas.) Isso significa que os 10 mil talentos a que se faz referência em Crônicas seriam iguais a 50 mil talentos na época anterior. O talento de Crônicas pesaria 37, 5 libras, em vez das 75 da época salomônica.

2. Keil também salienta que Alexandre, o Grande, teria saqueado o tesouro real persa, roubando 40 ou 50 mil talentos de ouro e de prata, em barras, mais 9 mil talentos em moedas de ouro (i.e., dáricos). Só em Persépolis, ele juntou 120 mil talentos; em Parságada, mais 6 mil, e em Ecbátana, 180 mil. Pode haver sobreposições em alguns números, mas, somados, igualariam cerca de 355 mil talentos de ouro e prata.

3. Está registrado que Davi conquistou os edomitas, filisteus, moabitas, amonitas e os reinos sírios de Damasco, Hamate e Zobá, bem



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como os amalequitas. Essas nações derrotadas estão relacionadas em 2 Samuel 8.7-13, em que se declara que todos os seus tesouros foram espoliados e dedicados por Davi ao Senhor. Durante os quarenta anos do reinado de Davi, esse espólio deve ter aumentado muito, especialmente porque ele não gastou muito em obras públicas. Além disso, sua política amistosa para com os povos vizinhos e suas boas relações com as cidades prósperas de Tiro e Sidom teriam certamente resultado em grande fonte de renda oriunda do comércio. Assim, o acúmulo de "cem mil talentos de ouro" (i.e., 50 mil talentos segundo o peso da época anterior) e "um milhão de talentos de prata" (significando 500 mil) não representa, na verdade, um número exagerado, acima da capacidade de Davi.
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