Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Provérbios


À vista da vida moral de Salomão, como podem seus escritos fazer parte das Escrituras Sagradas? É certo a Bíblia chamá-lo o mais sábio dos homens? [d]

Salomão iniciou sua carreira baseado em ideais elevados e princípios sublimes. Em 1 Reis 3.3, lemos: "Salomão amava o Senhor, o que demonstrara andando de acordo com decretos do seu pai Davi; mas oferecia sacrifícios e queimava incenso nos lugares sagrados" — nos lugares altos e no santuário do Senhor em Jerusalém. Só no templo é que ele deveria ter celebrado culto a Deus (Dt 12.10-14). Em sua solene autodedicação ao Senhor para o trabalho, modestamente nada pediu para si próprio, senão o dom de um "coração cheio de discernimento [lit., 'um coração que ouve'] para governar o teu povo e capaz de distinguir entre o bem e o mal" (1 Rs 3.9). Disse Deus que lhe daria um "... coração sábio e modo que nunca houve nem haverá ninguém como você" (v. 12). Em 1 Reis 4.29 [tm 1 Rs 5.9], lemos: "Deus deu a Salomão sabedoria [hoḵmāh], discernimento extraordinário [teḇûnāh] e uma abrangência [rōḥaḇ lēḇ] de conhecimento tão imensurável quanto a areia que está no mar". O versículo 30 declara: "A sabedoria de Salomão era maior do que a de todos os homens do oriente, e do que toda a sabedoria do Egito". O versículo 31 afirma que ele "era mais sábio do que qualquer outro homem"



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— mais entendido ainda que todos os sábios de épocas anteriores à sua (Etã, Hemã, Calcol e Darda), e sua reputação espalhou-se por todo o Oriente Próximo.

O dom da sabedoria concedido a Salomão dizia respeito de modo particular a questões de governo — como juiz entre partes em litígio (1 Rs 3.16-28), edificador de grandiosas obras arquitetônicas e artísticas, líder inspirado de adoração e do culto público (na dedicação do templo), patrocinador da fortificação da cidade, responsável pela formação de grandes exércitos dotados de equipamentos militares avançados e idealizador de um sistema de comércio em escala internacional e de uma economia doméstica progressista, sumamente próspera. Deu-lhe também o Senhor sabedoria em questões relacionadas às ciências (em todos os ramos da botânica e da zoologia), de acordo com 1 Rs 4.33, e no domínio da poesia e literatura sapienciais (o v. 32 refere-se a 3 mil provérbios e 1005 cânticos).

O livro de Provérbios contém alguns dos ensinos mais sublimes jamais escritos a respeito de uma vida piedosa e cheia de bons frutos, contendo reiteradas e eloqüentes advertências contra a licenciosidade sexual, a tolerância ao crime e a condescendência com os criminosos mais impiedosos. Ensina a bela arte de conviver harmoniosamente com as pessoas sem, entretanto, comprometer os princípios morais. Não pode haver dúvida quanto à excelência da sabedoria e da habilidade de Salomão como mestre e com o dirigente governamental. Não há uma boa razão para que duvidemos da inspiração de suas grandes obras literárias: Provérbios, Eclesiastes e Cânticos dos Cânticos.

Lemos em 1 Reis 11, todavia que Salomão partiu para os casamentos múltiplos, procedimento excessivamente perverso, por razões de ordem diplomática: ele queria manter bom relacionamento com as nações vizinhas. Diz-nos o versículo 1: "O rei Salomão amou muitas mulheres estrangeiras, além da filha do faraó. Eram mulheres moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hititas". O versículo 2 salienta o pecado de celebrar casamentos com mulheres pagãs, fazendo uma referência a Êxodo 34.12-16, que proíbe aos israelitas casar-se ou associar-se com incrédulos. O versículo 3 refere-se ao alargamento de seu harém, de modo que atingiu setecentas esposas e trezentas concubinas, além da conseqüente tolerância ao culto pagão — e até mesmo cooperação com a idolatria — a adoração aos falsos deuses que suas mulheres haviam trazido consigo. A atenção de Salomão foi atraída de modo especial para Astarote, de Sidom, e Milcom, dos amonitas (v. 5). O versículo 6 conclui tristemente o relato: "Dessa forma fez Salomão o que o Senhor reprova; não seguiu completamente o Senhor, como o seu pai Davi". Ele chegou a edificar um relicário para Camos, deus de Moabe, e outro para Moloque, "o repugnante deus dos amonitas" (v. 7).

Fica, portanto, bem claro, que o dom da sabedoria de Salomão não estava condicionado à fidelidade aos princípios morais ou a Iavé, no que dizia respeito a seus relacionamentos pessoais. Ele conhecia muito bem Deuteronômio 17.16, 17, que adverte severamente contra os vícios em que ele se imiscuíra: multiplicação de cavalos e de esposas e acúmulo de prata e ouro. Salomão era capaz de instruir as pessoas a respeito da moderação e do autocontrole. Tinha acuidade mental para entender que "o temor do Senhor é o princípio do conhecimento" (Pv 1.7). Mas, ao ver-se investido de poder absoluto, de sabedoria superior, de honrarias e de riquezas incalculáveis, para poder adquirir o que bem entendesse, Salomão começou a sucumbir diante dos desejos carnais, sem a mínima restrição.

Em Eclesiastes 2.10, Salomão confessa: "Não me neguei nada que os meus olhos desejam; não me recusei a dar prazer algum ao meu coração. Na verdade, eu me alegrei em todo o meu trabalho; essa foi recompensa de todo o meu esforço". Ele condenou a si próprio ao preferir viver uma vida de experiências com todos os prazeres e vantagens que significariam felicidade para um filho do mundo. No entanto, como ele mesmo testifica em Eclesiastes, descobriu que toda essa "satisfação" jamais lhe trouxe alegria, felicidade ou pelo menos uma sensação de realização significativa depois que tudo acabou. Por isso, foi levado a perceber, por experiência própria e em teoria, com o acréscimo da revelação de Deus, que nenhuma atividade ou realização "debaixo do sol" (i.e., que se relacione com este



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mundo passageiro e destruído pelo pecado, que jamais se refere a Deus no céu nem ao abismo ou inferno além) representa alguma coisa boa, senão frustração, futilidade e desespero. "Que grande inutilidade! Nada faz sentido" diz ele.

A vida de Salomão constitui um lembrete solene de que a sabedoria é um bem completamente distinto de um coração sincero motivado por um amor verdadeiro, regido pela vontade de Deus. Não é algo equivalente à piedade — ao temor do Senhor. No entanto, sem essa virtude nenhum homem sábio poderá usar sua sabedoria em um propósito consistente e benéfico à sua própria vida. No coração humano, mora o mal (Jr 17.9), e este pode coexistir com o conhecimento perfeito da verdade de Deus. Não existe uma razão lógica pela qual Salomão tivesse corrompido sua vida pessoal da forma como o fez. Ele simplesmente se deixou levar por sua própria riqueza e pelo poder e aos poucos, sem perceber, afundou em um estado de alienação de Deus.

No entanto, no final de sua vida, Salomão compreendeu que nenhuma realização ou prazer poderia trazer satisfação real, permanente, se procurada para usufruto do ego, por meio deste mundo — "debaixo do sol". Ele percebeu que nada daquilo tinha sentido, pois era tudo vazio e, qual estudante pouco aplicado, acabou recebendo nota zero. Devido ao tom de Eclesiastes e sua clara advertência de que é inútil ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma, somos levados a crer que Salomão tentou acertar sua vida com Deus e arrependeu-se da infidelidade e loucura que o levava a pecar contra a luz que lhe fora dada. Ele deixou um legado a todos os crentes que têm o coração andarilho, voluntarioso e egoísta: toda e qualquer existência não dedicada a Deus torna-se pó e cinza, enche-se de dores e de desespero. Conclui Salomão: 'Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e obedeça aos seus mandamento, por que isso é o essencial para o homem". (Ec 12.13).

Nossa conclusão é a seguinte: os três livros de Salomão são verdadeiros e úteis, porque ele foi inspirado por Deus para escrevê-los. Ele foi um homem de imensa sabedoria, mas também de grande loucura, no que diz respeito à sua vida moral. Ele mesmo veio a reconhecer essa realidade, que amargamente lamentou no fim da vida.



Provérbios 22.6 pode ser aplicado a todos os filhos de crentes?

Provérbios 22.6 (ra) diz: "Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele". A nvi traduz a segunda linha assim: "E mesmo com o passar dos anos não se desviará deles". Antes de discutir a aplicação prática desse versículo, devemos examinar cuidadosamente o que ele diz na verdade. A tradução literal do texto hebraico hanoḵ lanna‘ar é: "ensina, treina o menino" (na‘ar refere-se a um jovem, desde sua infância até a maioridade); o verbo hanaḵ não ocorre em outra passagem do at com o sentido de "treinar". Normalmente significa "dedicar" (consagrar um templo ou uma casa [Dt 20.5; 1 Rs 8.63; 2 Cr 7.5], ou uma oferta [Nm 7.10]). Parece que ele é cognato do egípcio h-n-k ("dar aos deuses", "marcar algo para o culto divino"). Isso nos leva ao seguinte leque de significados: "dedicar a criança a Deus", "preparar a criança para suas futuras responsabilidades", "exercitar ou treinar a criança para a idade adulta".

A seguir, chegamos ao que é traduzido por "no caminho em que deve andar" (ra). Literalmente, está escrito "de acordo com seu caminho" (‘al-pî darkô); ‘al-pî (lit., "de acordo com a boca de") em geral significa "segundo a medida de", "de conformidade com" ou "de acordo com". Quanto a darkô, é palavra que vem de dereḵ ("caminho"); isso pode referir-se ao "costume generalizado de, segundo a natureza de, o modo de agir de, o padrão de comportamento de" uma pessoa. Parece que o texto implica que o modo de instrução deve ser governado segundo o estágio da vida da própria criança, conforme suas inclinações pessoais ou então, como mostram as traduções padronizadas, "de acordo com o modo que é próprio à criança" — à luz da vontade de Deus, segundo os padrões de sua comunidade ou herança cultural. Nesse contexto altamente teológico, centralizado em Deus ("O Senhor é o Criador" tanto do rico como do pobre [v. 2]; "A recompensa da humildade e do temor do Senhor são a riqueza, honra e a vida" [v. 4]), não há dúvida


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de que "no caminho em que deve andar" significa "seu caminho adequado, próprio", à luz dos objetivos e padrões estabelecidos no versículo 4 e tragicamente negligenciados pelo "perverso" no versículo 5. No entanto, existe também uma conotação segundo a qual cada criança deve ser educada e treinada para o serviço de Deus conforme as necessidades e características da própria infância.

A segunda linha diz: gam kî ("e ainda quando") yazqîn ("for velho" — zāqēn significa "velho" ou "um ancião"), lō’ yāsur ("não se desviará") mimmennāh ("dele", i.e., de seu dereḵ), que aparentemente fortalece a interpretação de "seu próprio caminho", "padrão de comportamento", ou "modo de viver" como homem de Deus bem treinado ou bom cidadão em sua comunidade.

Tudo isso se resume, pois, num princípio geral — e todas as máximas genéricas de Provérbios a respeito da conduta humana têm esse caráter. Provérbios não oferece regras ou garantias absolutas para as quais jamais possa haver exceções. Assim, temos no texto em questão o seguinte princípio: quando um pai piedoso dá a devida atenção à educação do filho, para que tenha responsabilidade e viva de modo bem ordenado para Deus, tal genitor pode, com toda confiança, esperar que seu filho jamais se afaste do treinamento que recebeu e do exemplo de um lar em que o nome de Deus é reverenciado. Isso provavelmente ocorrerá a despeito de qualquer desvio temporário do fim da adolescência. Mesmo ao tornar-se um ancião, essa pessoa não se desviará do caminho em que foi educada. Outra interpretação sobre gam kî significa que a criança permanecerá fiel ao treinamento recebido por toda a sua vida, até a velhice.

Será que esse versículo nos esta garantindo, de que todos os descendentes de pais tementes a Deus serão verdadeiros servos de Deus que Jamais se rebelaram nem voltarão as costas à educação cristã que receberam, estando livres de cair na culpa e na vergonha de uma vida dominada por Satanás? É possível que alguém interprete esse versículo dessa forma. Todavia, é muitíssimo duvidoso que o escritor sagrado, inspirado por Deus, quisesse estipular uma promessa de caráter absoluto, aplicável em todos os casos. As máximas de Provérbios têm o objetivo de constituir aconselhamento sadio, lógico e útil; não nos são apresentadas como promessas de sucesso infalível.

O mesmo tipo de generalização encontramos em Provérbios 22.15: "A insensatez está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a livrará dela". É certo que essas palavras não significam que todas as crianças são igualmente voluntariosas e rebeldes, e que por isso todas precisam do mesmo tipo e da mesma quantidade de disciplina. Tampouco dá assevera de que uma pessoa educada em um lar bem disciplinado jamais se desviará ou nunca cairá na loucura do pecado. Poderá haver exceções, ou seja, pessoas que, criadas assim, se tornaram mundanas, egoístas e até mesmo criminosas, as quais acabarão na cadeia. No entanto, o grau de sucesso na educação das crianças é extremamente elevado quando os pais seguem as balizas de Provérbios.

E, quais são essas balizas? As crianças devem ser aceitas como seres preciosíssimos que Deus nos confiou. Deverão ser treinadas, tratadas com carinho e disciplinadas com amor. Precisam ser orientadas mediante um padrão coerente e persistente de piedade que esteja no cerne do caráter dos pais. É isso que significa educar uma criança "segundo a instrução e o conselho do Senhor" (Ef 6.4). Esse tipo de educação implica a determinação de se tratar as crianças como seres mais importantes que nossas próprias conveniências, nosso conforto pessoal e nossa vida social fora de casa. Significa que imprimiremos nelas a idéia de que são pessoas muito dignas, pois são amadas de Deus. E também porque Deus tem um plano maravilhoso e perfeito para a vida de cada criança. Os pais que têm seguido fielmente esses princípios e essas práticas na educação dos filhos podem com toda segurança entregá-los nas mãos de Deus que os guardará e orientará quando se tornarem adultos. Os pais não precisarão sofrer de nenhum complexo de culpa pessoal se um filho se desviar desse caminho santo, pois já fizeram o máximo, diante de Deus. O resto depende do próprio filho — ele é quem tomará as decisões.



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