Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



Baixar 2.12 Mb.
Página31/62
Encontro19.07.2016
Tamanho2.12 Mb.
1   ...   27   28   29   30   31   32   33   34   ...   62

Eclesiastes


De que modo um livro tão cético como Eclesiastes tornou-se canônico?

Sempre se ouve a alegação de que Qōheleṯ ("o Pregador", palavra hebraica traduzida pela lxx como Ekklēsiastēs) representa um desvio da fé ortodoxa hebraica. Salomão, o Pregador, expressa uma atitude agnóstica a respeito do que acontece ao ser humano após a morte: "... quem sabe o que é bom para o homem, nos poucos dias de sua vida vazia, em que ele passa como uma sombra? Quem poderá contar-lhe o que acontecerá debaixo do sol depois que ele partir?" Ec 6.12. (6.12). Veja este versículo: "Nesta vida sem sentido eu já vi de tudo: Um justo que morreu que teve vida longa apesar da sua impiedade. Não seja excessivamente justo nem demasiadamente sábio; por que destruir-se a si mesmo?" (7.15, 16). Parece que em 9.4, 5, temos um pessimismo extremado diante da morte: "Quem está entre os vivos tem esperança; até um cachorro vivo é melhor do que um leão morto! Pois os vivos sabem que morrerão, mas os mortos nada sabem; para eles não haverá mais recompensa, e já não se tem lembrança deles". 9.4, 5.

Tomadas isoladamente, as passagens acima ressoam, na verdade, muito ceticismo a respeito da dimensão espiritual da vida humana e da validade do esforço fervoroso. Algumas afirmações são contundentes, como esta: "Que proveito tem um homem de todo esforço e de toda a ansiedade com que trabalha [...] Durante toda a sua vida, seu trabalho é pura dor e tristeza [...] Para o homem não existe nada melhor do que comer, beber e encontrar prazer em seu trabalho. E vi que isso também vem da mão de Deus" (2.22-24). Entretanto, esse trabalho é uma obra-prima da visão filosófica e deve ser considerado no todo orgânico, e não em partes isoladas do contexto. Somente assim sua contribuição para o conselho integral de Deus, conforme está estabelecido nas Escrituras, poderá ser avaliada com lógica e propriedade.

Um estudo cuidadoso e sintético de Eclesiastes extrai o verdadeiro propósito de seu autor. Depois de haver experimentado todas as alternativas conducentes aos valores mais elevados da vida humana, Salomão nos dá seu testemunho pessoal a respeito do vazio e do desgosto que resultaram de suas experiências: ele provou tudo o que o mundo pode oferecer em termos de satisfação e prazer. Mas tudo resultou em futilidade, pois nada tem valor; faltou-lhe a verdadeira satisfação: "Que grande inutilidade! Nada faz sentido" (1.2). O propósito anunciado de sua busca pelo summum bonum era experimentar todo tipo de prazer ou de realização pessoal que lhe fosse possível (2.2-8), até mesmo a obtenção da distinção máxima em filosofia e conhecimento (v. 10). "Não me neguei nada que os meus olhos desejaram; não me recusei a dar prazer algum ao meu coração. Na verdade, eu me alegrei em todo o meu trabalho; essa foi a recompensa de todo o meu esforço. Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol" (v. 10, 11). Em outras palavras, é como se esse rei sábio, rico e poderoso tivesse aceitado o desafio que mais tarde Jesus haveria de lançar: "Pois que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma? (Mt 16.26). Assim foi que Salomão se lançou à façanha de



  • 218

ganhar o mundo inteiro e desfrutar de todos os prazeres e satisfações que essa vida lhe pudesse conceder; no final, veio a descobrir que, tudo somado, o resultado era zero.

A expressão-chave neste livro todo é tahaṯ haššemeš ("debaixo do sol"). A perspectiva única e total é a desta vida. O homem natural que jamais considerou a Deus com seriedade é vítima desta ilusão: "Tudo o que existe é este mundo". Muito bem, replica o Pregador, se este mundo é tudo quanto existe, vamos descobrir mediante a experiência prática se há alguma coisa que verdadeiramente valha a pena — algo que apresente satisfação real. O resultado dessa experimentação desenfreada, realizada sob as condições a mais favoráveis possível, foi que nada espera o materialista secular, a não ser um desapontamento profundo e a completa ausência de sentido. Todas as suas ambições, apesar de plenamente atingidas, todas as suas paixões, ainda que vividas ao máximo, só lhe causaram repulsa e náusea. Para ele, a vida "é uma história narrada por um idiota, cheia de loucura e ódio, sem nenhum sentido".

A mensagem que se salienta em Eclesiastes é que o verdadeiro sentido da vida se acha apenas no relacionamento sadio com Deus. A menos que haja no coração da pessoa um interesse fervoroso em fazer a vontade de Deus e um desejo sincero de realizar seus propósitos, a vida do ser humano terminará em tragédia e destituída de significado. "O ímpio pode cometer uma centena de crimes e apesar disso, ter vida longa, mas sei muito bem que as coisas serão melhores para os que que temem a Deus para os que mostram respeito diante dele. (8.12). Esta vida só adquire sentido verdadeiro se considerada uma arena de oportunidades para o ser humano servir a Deus sempre, até partir para a eternidade.

É verdade que a morte arrebata o sábio e o tolo igualmente. Todas as criaturas acabam na sepultura. Mortos, somos confinados ao Sheol (ou Hades), e deixamos de saber o que se passa neste mundo; cessam as oportunidades para ganharmos recompensas (9.5), e nossa existência poderá ser esquecida pelas futuras gerações. No entanto, a única conclusão racional a tirar, antes que deixemos o palco terreno, é que precisamos nos reconciliar com Deus e aceitar sua vontade para nossa vida. "Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos, por que isso é o essencial para o homem. (12.13)." (12.1). "Lembre-se do seu Criador nos dias da sua juventude, antes que venham os dias difíceis [...] "antes que se rompa o cordão de prata, ou se quebre a taça de ouro; antes que o cântaro se despedace junto à fonte, a roda se quebre junto ao poço, o pó volte à terra, de onde veio, e o espírito volte a Deus, que o deu" (v. 6, 7). Ocorre que "tudo é vaidade" (v. 8), e "Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más." (v. 14; cf. Mt 10.26; Rm 2: 16)



Se Salomão não foi realmente o autor de Eclesiastes, como pode 1.1 afirmar isso?

Eclesiastes 1.1 afirma que o livro foi composto pelo "Mestre, filho de Davi, rei com Jerusalém". No entanto, muitos críticos da Bíblia (Delitzsch, Hengstenberg, Leupold, Young, Zoeckler etc.) crêem diferentemente. Por exemplo, G. S. Hendry declara: "Na verdade o autor não afirma que é Salomão, mas coloca suas palavras na boca de Salomão" (em Guthrie, New Bible commentary p. 571).

É verdade que o autor não chama a si próprio de "Salomão". Apenas refere-se a si mesmo como Qōheleṯ (termo relacionado à palavra qāhāl, assembléia, congregação). Mas é violência contra os direitos da linguagem que o autor dessa obra filosófica não declara ser o filho de Davi, rei de Jerusalém. Embora ben (filho) ocasionalmente se use com referência a gerações futuras (como neto, bisneto e até mesmo descendentes mais remotos), outros pormenores que o autor nos fornece nenhuma dúvida deixam a seu respeito: ele se apresenta como o rei Salomão. Ele faz menção à sua sabedoria inimitável (1.16), à sua riqueza inigualável (2.8), seu grande séquito de servidores (2.7), suas oportunidades ilimitadas para usufruir o prazer carnal (2.3) e seus ambiciosíssimos projetos de edificação. Nenhum outro descendente de Davi se equipara a essas especificações a não ser Salomão, o sucessor imediato do filho de Jessé.

A maioria dos eruditos modernos admite que o autor declarado de Eclesiastes é Salomão; afirmam,



  • 219

todavia, que, por um expediente literário, o crédito de autoria a Salomão foi dado pelo verdadeiro escritor, que nos é desconhecido, o qual desejava ensinar a futilidade última da perspectiva materialista do mundo. Se essa opinião válida, as demais afirmações de autoria, que se encontram em todos os outros livros da Bíblia, podem também ser questionadas. Qualquer outro autor posterior, desconhecido, poderia de modo semelhante pretender ser Isaías, Jeremias, Oséias ou o apóstolo Paulo, simplesmente como "recurso literário que objetiva expressar as opiniões" desse autor desconhecido. Se tal livro fosse igual a um escrito qualquer e não fizesse parte das Escrituras, mas alguém tentasse incluí-lo na Bíblia, ele teria de ser classificado como falsificação, obra do engano; seu autor deveria ser processado perante um tribunal e sujeitar-se às penas por fraude, pelo seu texto espúrio.

Temos a absoluta certeza de que a Bíblia, que atém aos mais elevados padrões de integridade e foi certificada pelo Senhor Jesus e seus apóstolos como Palavra de Deus infalível e inerrante, jamais poderia ter sido composta como obra espúria por autores que se esconderam sob falsos nomes.

O principal argumento contra a autenticidade de Eclesiastes como obra do Salomão histórico é tirado da lingüística. Alguns eruditos afirmam que a linguagem e o vocabulário do livro diferem muito quando comparados com outras obras em hebraico do século x a.C. Eclesiastes contém muitos termos do aramaico encontrados em outros documentos (como Daniel e o Talmude), ou no hebraico posterior, bíblico ou pós-bíblico (como Ester, Neemias e o Mixná). Delitzsch relaciona 96 palavras, formas e expressões que não se encontram em parte alguma da Bíblia, com exceção dos livros escritos após o exílio, como Esdras, Ester, Neemias, Crônicas, Malaquias ou o Mixná. Zoeckler afirma haver aramaísmos em quase todos os versículos, mas Hengstenberg encontrou apenas dez demonstráveis ao longo dos doze capítulos. Do ponto de vista da política e da sociologia, há prováveis alusões que indicariam o século v a.C. como a possível ocasião de sua redação. Entretanto, esses eruditos não conseguem desvendar o mistério de que o hebraico de Eclesiastes não é tão parecido com o de documentos do século v quanto com os registros do século x (menos Cantares de Salomão e Provérbios).

James Muilenberg ("A Qōheleṯ Scroll from Qumran", Bulletin of the American Schools of Oriental Research 135 [outubro de 1954]: 20) faz o seguinte comentário sobre a descoberta de fragmentos de Eclesiastes de meados do século ii, na caverna quatro de Qumran:

Do ponto de vista lingüístico o livro é singular. Sem dúvida alguma sua linguagem apresenta muitas peculiaridades notáveis; alguns [eruditos] explicam tais particularidades como sendo próprias do hebraico posterior (discutidas por Margoliouth e Gordis). A linguagem do Mixná daria apoio mais que suficiente a essa teoria (a discórdia sobre a questão recebeu elucidação completa [...] na Jewish Encydopedia, v, 33, na qual se salientam as afinidades lingüísticas de Qōheleṯ com as inscrições fenícias, e.g., Eshmunazar, Tabnith). Há muito tempo se reconheceu a forte influência aramaica sobre a linguagem; todavia, só recentemente se afirmou e se reconheceu em minúcias essa procedência (F. Zimmerman, C. C. Torrey, H. L. Ginsburg) [...] Dahood foi escrito sob influência cananeu-fenícia no Qōheleṯ, defendendo a tese de que o livro de Eclesiastes originalmente havia sido composto por um autor que escreveu em hebraico, mas havia recebido influência da escrita, da gramática e do vocabulário fenícios, mostrando, além disso, pesada influência literária cananita-fenícia (Bíblica 33, 1952, p. 35-52, 191-221).

Ao verificar a força do argumento lingüístico, observamos que uma pesquisa abrangente de todos os dados — incluindo vocabulário, morfologia, sintaxe e estilo — indica que o texto de Eclesiastes não se identifica com o estilo literário nem com o vocabulário de nenhum livro da Bíblia hebraica. Na verdade, não se parece com nenhuma obra hebraica posterior até o século ii a.C, que é a data atribuída paleograficamente aos primeiros fragmentos de Eclesiastes, de Qumran. A única exceção seria o livro apócrifo Eclesiástico, que se admite ter sido escrito por um autor (Jesus ben Siraque) fortemente influenciado pelo Qōheleṯ tentou imitar seu estilo a forma de abordagem em muitas passagens.



  • 220

No modo de julgar deste autor, o único caso convincente de afinidade é o apresentado por Mitchell Dahood, a que Muilenberg se refere, como citamos acima. A razão do vocabulário, da sintaxe e dos estilos peculiares parece encontrar-se no gênero literário a que pertence Eclesiastes — o discurso filosófico. Se esse gênero particular foi desenvolvido na Fenícia e se Salomão era versado em toda a área da literatura sapiencial (cf. 1 Rs 4.30-34), há muitas razões para que ele deliberadamente tenha decidido escrever no idioma e estilo já consagrado por esse gênero. As evidências de Dahood são conclusivas. Qōheleṯ mostra uma tendência forte para a escrita fenícia (a qual omitia certas vogais inflexionais), inflexões distintivamente fenícias, pronomes, construções sintáticas especiais, empréstimos léxicos e analogias de vários tipos. Os alegados aramaísmos — verifica-se então — também eram empregados nas inscrições fenícias; portanto, eles nada comprovam a respeito de uma possível composição posterior.

Quanto ao próprio Dahood, ele tenta explicar a forte afinidade de Eclesiastes com o fenício, fazendo a suposição de que alguma colônia de refugiados judeus, de tamanho razoável, havia se estabelecido na Fenícia após a queda de Jerusalém, em 587 a.C. A seguir, ele sugere que foi esse grupo de migrantes que compôs o Qōheleṯ. Todavia, essa hipótese é infundada, à vista da perseguição incansável de Nabucodonosor a todos os grupos de refugiados judeus — ele chegou a invadir o Egito com o objetivo de massacrar os que haviam se abrigado nesse país.

Resta apenas uma alternativa razoável. Houve um período em que Israel desfrutava de um relacionamento íntimo com Tiro e Sidom, tanto em termos comerciais quanto políticos e culturais. Um fenício chamado Hirão desenhou e produziu todas as obras de arte ligadas à decoração do templo em Jerusalém, e grande número de artesãos e artífices trabalhou sob sua supervisão. Essa teria sido, sem dúvida alguma, a era de Salomão, o período em que a literatura sapiencial era cultivada com zelo máximo. Foi a época em que Salomão compôs seus Provérbios, e teria dado uma boa ajuda na popularização do venerável livro de Jó. Portanto, do ponto de vista lingüístico, da literatura comparada e das tendências da época, que são bem conhecidas, o tempo de Salomão, embutido no século x a.C, deve ser considerado a época mais provável em que Eclesiastes foi composto. (Quanto aos vários argumentos de evidências internas e "expressões reveladoras" mostradas pelos que advogam a teoria da composição mais tardia do livro, v. meu livro Merece confiança o Antigo Testamento?).

Eclesiastes 3.21 ensina, porventura, que os animais têm espírito, da mesma forma que os seres humanos?

Eclesiastes 3.21 diz: "Quem pode dizer se o fôlego do homem sobe ás alturas e se o fôlego do animal desce para a terra? Visto que se entende usualmente ser o espírito do homem o foco da imagem divina que há nele, que o habilita a raciocinar e reagir perante Deus, segundo a religião, ressoa um tanto espantosa a declaração de que o "espírito" de um animal vai para baixo, enquanto seu corpo (como o do ser humano) se torna pó, na sepultura (v. 20). A nasb (à semelhança da ara e da nvi) soluciona o problema, traduzindo o termo hebraico para "espírito" como sendo "fôlego". Todavia, a questão básica permanece, visto que a palavra rûaḥ ("fôlego", "espírito") é empregada tanto para os seres humanos quanto para os animais. Isso é verdade, quer entendamos o versículo 21 como sendo uma pergunta, implicando que existe uma dúvida real quanto ao destino do "espírito" humano e ao do animal após a morte, quer entendamos que existe aqui uma interrogação lamentável que implica o seguinte: "Quantas pessoas realmente sabem que o fôlego dos seres humanos sobe, enquanto o dos animais desce quando morrem?" (Eu, pessoalmente, inclino-me mais a essa última interpretação, mas é possível que o autor tenha formulado com ceticismo a pergunta.)

Com esse sentido, rûaḥ nos conduz a um fenômeno familiar, na história do desenvolvimento dos termos transcendentais, a quase todas as línguas. A contemplação de um ser humano ou um animal a inspirar e expirar, enquanto está vivo, faz com que uma palavra como "fôlego" ou


  • 221

"respiração" apareça como símbolo da vida. Assim, na narrativa do Dilúvio, a frase rûaḥ ḥayyîm ("o fôlego da vida") é atribuída aos animais, tanto aos que se afogaram nas águas (Gn 6.17; 7.22) quanto aos que foram preservados na arca (Gn 7.15). Em Gênesis 7.22, esse termo é combinado com nišmat rûaḥ ḥayyîm ("fôlego de vida" — nešāmāh é palavra usada quase que exclusivamente para a respiração literal e nada mais). A frase ’ṯ’, w ‘nh ("fôlego de vida", convencionalmente pronunciada tchau ‘anekh) ocorre com grande freqüência na literatura egípcia, sendo possível que Moisés a tivesse em mente, tendo-a traduzido para o equivalente hebraico.

Temos então aqui o uso genérico de rüah aplicado a animais em plena posse da vida. Não estou ciente de alguma outra passagem em que rüah seja empregado para animais. Excetuando-se as cem vezes em que rûaḥ se aplica a "vento" ou "ventos", as demais 275 ocorrências referem-se a seres humanos, anjos (que são essencialmente rûaḥ sem um corpo real, físico), espíritos demoníacos (os quais eram anjos de Deus antes de Satanás ser expulso do céu) ou o próprio Deus: a terceira pessoa da Trindade é conhecida como rûaḥ ’elōhîm ("o Espírito de Deus") ou rûaḥ Yahweh ("o Espírito de Iavé [ou, quando é mal pronunciado, 'Jeová']").

Como acontece tão freqüentemente com os termos que inicialmente tinham um sentido primitivo, genérico, esse se tornaria mais tarde especializado e assumiria um sentido técnico, figurado, em nível metafísico. A observação de que as criaturas respiram elegeu "fôlego" ou "respiração" como termo para "princípio vital". A partir desse ponto, tornou-se uma questão de escolha: rûaḥ, nešāmāh ou alguma outra palavra que se referisse ao ar em movimento e simbolizasse o elemento espiritual no ser humano — aquilo que o torna distintivamente humano, em oposição aos animais, que também dispõem de pulmões e respiram. Portanto, não é por causa do significado de alguma raiz inerente, mas devido ao uso estabelecido, que a palavra rûah tornou-se o termo técnico para a imagem de Deus no homem, essa capacidade de pensar em Deus, de reagir ao seu chamado, a condição de entender a diferença entre o certo e o errado e de tomar decisões morais, a possibilidade de pensar e raciocinar de maneira generalizada e filosófica, que distingue o ser humano dos animais. O termo correspondente na lxx e no nt é pneuma. Então, segundo a terminologia bíblica, pneuma tornou-se o equivalente de rûaḥ. É bastante apropriado que pneuma também seja palavra derivada do verbo pneō ("soprar").

Um termo intimamente relacionado ao elemento espiritual no homem é nep ("alma"). Essa palavra também se derivou de uma raiz que indica "respirar" (napāšu em acádio significava "respirar livremente", depois, "tornar-se largo e comprido"; o substantivo napištu significava "fôlego" ou "vida"). Mas veio a especializar-se e adquiriu o sentido de identidade individual de qualquer ser vivo, ou criatura, que respire, seja homem seja animal (é que tanto nepeš quanto psychē, seus equivalentes gregos, são usados livremente para animais e seres humanos) nepé o centro consciente das emoções, dos desejos e apetites, ou das inclinações e humores. Trata-se do fulcro da personalidade, o referencial de sua autoconsciência. Gustav Oehler define nepcomo derivado de rûaḥ e existindo continuamente por seu intermédio (mas esse conceito não poderia aplicar-se a animais); reside individualmente no ego (eu) humano. É interessante observar que nep, com o pronome possessivo apropriado, é o modo mais freqüente de expressar o reflexivo de maneira específica. Dessa maneira, "ele se salvou" seria expresso assim: "ele salvou sua nep [ou alma] " (citado por J. I. Marais, "Soul" [Alma], em The international standard Bible enciclopédia, 5 vols., ed. por J. Orr [Grand Rapids, Eerdmans, 1939], p. 2838).

Deve-se, portanto, notar que existe uma distinção entre "espírito" (rûaḥ) e "alma" (nep) no nt, assim como há entre pneuma e psychē, no Novo Testamento. Esses termos, por sua vez, são diferenciados do vocábulo que significa "corpo" (bāśār), o qual, quando usado em sentido figurado, tem um significado psicológico e também envolve a idéia de um corpo literal, feito de carne e osso. O bāśār é a sede de todas as sensações, dos dados fornecidos pelos cinco sentidos: mas é usado também no salmo 84 em


  • 222

um paralelismo com nep como o veículo de um anseio espiritual pelo Deus vivo. O mesmo acontece em Salmos 63.1: "... a minha alma [nep] tem sede de ti! todo o meu ser [bāśār] anseia por ti [lit., 'desmaia por ti'], numa terra seca, exausta e sem água". Ainda em Salmos 16.9 encontramos um paralelismo com a palavra "coração" (lēḇ) e "espírito" (kāḇōd — substituto de rûaḥ, que é o elemento divino no homem): "Por isso o meu coração se alegra e no íntimo exulto; mesmo o meu corpo repousará tranqüilo" (grifo do autor). Assim, o "corpo" é capaz de sentir satisfação em um estado de segurança na presença amorosa de Deus.

A estrutura triúna do homem é salientada mais claramente ainda no nt. Em 1 Tessalonicenses 5.23, Paulo externa essa oração em prol de seus leitores: "Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente. Que todo o espírito [pneuma = rûaḥ], a alma [psychē = nep] e o corpo [sōma = bāśār] de vocês sejam preservados irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo". Fica bem claro então que há uma diferenciação entre espírito e alma como elementos distintos da psique humana, sendo o homem apresentado como possuidor de uma natureza triúna. É exatamente o que esperaríamos de um ser criado à imagem do Deus trino e uno (Gn 1.26, 27).

Fica implícita, inquestionavelmente, a distinção entre pneuma e psychē em 1 Coríntios 2.14, 15, que define a diferença entre um crente que é dominado pelo pneuma (o pneumatikos, o "homem espiritual") e o homem "natural", o que nasceu apenas uma vez (dominado pelo seu egoístico psychē): "Quem não tem [psychikos] não aceita as coisas que vêm do Espírito de Deus, pois lhe são loucura; e não é capaz de entendê-las, porque elas são discernidas espiritualmente [pneuma-tikōs]. Mas quem é espiritual discerne todas as coisas, e ele mesmo por ninguém é discernido.

Semelhantemente, em 1 Coríntios 15.44, 46, a mesma distinção se mantém com referência à transformação do corpo meramente físico (antes da morte e ressurreição) e o espiritual (i.e., um corpo especial, adaptado às necessidades e desejos do espírito glorificado do crente redimido): É semeado um corpo natural [psychikon] e ressuscita um corpo espiritual [pneumatikon]. Se há corpo natural, há também corpo espiritual". Não foi o espiritual que veio antes, mas o natural; depois dele, o espiritual". Fica bem claro, portanto, que o espírito é algo distinto do corpo, porque do contrário esses versículos representariam um contra-senso tautológico. Concluímos, pois, que o homem não é dicotômico (para usar um termo teológico), mas tricotômico. (A discussão completa, profunda, acerca dessa questão pode ser vista em Franz Delitzsch, A system of biblical psychology, reed. Grand Rapids, Baker, 1966.)


1   ...   27   28   29   30   31   32   33   34   ...   62


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal