Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



Baixar 2.12 Mb.
Página34/62
Encontro19.07.2016
Tamanho2.12 Mb.
1   ...   30   31   32   33   34   35   36   37   ...   62

Jeremias


Como é possível conciliar Jeremias 7.22, 23 com Êxodo 20.24 e o resto das ordens sacrificiais atribuídas a Moisés no Pentateuco?

Jeremias 7.22, 23 cita palavras do próprio Deus dirigidas a Israel: "Quando tirei do Egito os seus antepassados, nada lhes falei nem lhes ordenei quanto a holocaustos e sacrifícios. Dei-lhes, entretanto, esta ordem: obedeçam-me, e eu serei o seu Deus e vocês serão o meu povo. Vocês andarão em todo caminho que lhes ordenar, para que tudo lhes vá bem." Parece que essa passagem é a negação de todas as exigências de sacrifícios feitas nos dias de Moisés, pelo menos no que diz respeito às ordens de Deus. No entanto, muitos capítulos que contêm provisões concernentes a sacrifícios e ofertas são precedidos desta assertiva: "E falou o Senhor a Moisés e a Arão, dizendo...".

Eruditos liberais apontam para a passagem de Jeremias como prova de que os regulamentos sobre sacrifícios no código mosaico eram totalmente desconhecidos no século vii a.C. e não tiveram sanção da parte de Moisés, muito menos de Deus. Essa dedução, porém, não tem o mínimo fundamento. Jeremias 7.22, 23 refere-se com clareza ao que Deus havia dito a Moisés e aos israelitas em Êxodo 19.5: "Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança vocês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações [...]". A parte da ordenação da Páscoa em Êxodo 12, que não tem qualquer relação com ofertas no altar, nenhuma exigência de sacrifícios foi apresentada por Deus aos israelitas até o capítulo 20, quando os Dez Mandamentos foram promulgados, aparecendo a primeira referência a um altar sacrificial, no versículo 24.

Deve-se observar com máximo cuidado que a ênfase toda de Jeremias 7 está em que o culto sacrificial deve ser aceitável perante Deus; mas, para isso, é necessário que quem oferece o culto se aproxime do altar com o coração colocado nas mãos do Senhor, cheio de fé, tendo o propósito sincero de fazer a vontade de Deus. Os versículos 22 e 23 salientam, a seguir, que no mesmo livro que registra o livramento do povo escravizado no Egito, a primeira exigência do Senhor era o compromisso do coração para com a aliança de Deus. Israel devia entender que era um povo santo, chamado para uma nova vida, de total obediência à vontade de Deus. À parte dessa entrega, desse voto da alma de viver para a glória de Deus, nenhum ato do ritual ou do culto formal poderia agradar a Deus.

É fato, pois, que Deus não disse qualquer coisa a seu povo no início — "no dia em que os tirei da terra do Egito (ara) " — a respeito de ofertas e sacrifícios. O que o Senhor enfatizou muito foi o compromisso de seus corações com Deus, tendo o firme propósito de obedecer à sua vontade. Sem esse objetivo, os atos religiosos nada significariam senão


  • 233

hipocrisia abominável. Isaías 1.11-17 e Amós 5.21-26 ensinam exatamente esse mesmo princípio.

Que rei é mencionado em Jeremias 27.1-11: Joaquim ou Zedequias?

O tm diz: "No começo do reinado de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá, essa palavra veio a Jeremias, da parte do Senhor". A versão kjv segue esse texto; semelhantemente o faz a asv, acrescentando esta nota: "apropriadamente, Zedequias". A nasb traz: "No começo do reinado de Zedequias, filho de Josias", com esta observação: "Muitos manuscritos mencionam Joaquim". A nvi diz: "No início reinado de Zedequias", com uma nota de rodapé: "Alguns manuscritos do texto Massorético e a versão Siríaca. A maioria dos textos Massoréticos diz conforme a de Joeaquim". A lxx omite de vez esse primeiro versículo e inicia o capítulo com o versículo 2. Até mesmo o versículo 3 milita contra a correção do tm, visto que diz: "Envia a palavra ao rei de Edom [...] Moabe [...] Tiro [...] Sidom pelos mensageiros que vêm a Jerusalém, a Zedequias, rei de Judá".

Como é possível um oráculo de Deus ser transmitido a Joaquim em 608 ou 607 a.C, numa época em que Neco, rei do Egito, era o senhor da Palestina (após sua vitória em Megido, em 609), e Nabucodonosor nem sequer havia aparecido na Ásia Ocidental (sua vitória em Carquemis viria cerca de três anos mais tarde, depois de iniciado o reinado de Joaquim)? Além do mais, o conteúdo desse oráculo aponta para uma embaixada a Zedequias, em vez de a Joaquim, enviada à corte judaica pelas nações ao redor (sem incluir o Egito). Parece, portanto, que o tm contém sua própria refutação, no que concerne ao nome de "Joaquim" no versículo 1. As autoridades textuais suspeitam de que em algum ponto da transmissão do texto Soferim-Massorético, algum escriba inadvertidamente copiou as palavras de Jeremias 26.1 como sendo o título do capítulo 27. Parece que essa é uma explicação plausível para tal erro. Sem dúvida o original trazia "Zedequias", em vez de "Joaquim", em 27.1.

O que quer dizer Jeremias 31.31, com sua profecia a respeito da "nova aliança"? Ele se refere apenas à igreja, ou está aguardando seu cumprimento para os dias em que Israel se converterá a Cristo, pela fé, em âmbito nacional?

Essa predição notável encontrou seu cumprimento, com toda clareza, no surgimento da igreja, nos dias dos apóstolos, iniciando-se com o derramamento do Espírito Santo sobre os 120 discípulos na Festa de Pentecostes, cinquenta dias após a ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Jeremias 31.31-33s diz o seguinte: "Esta é a aliança que farei com a comunidade de Israel depois daqueles dias", declara o Senhor: Porei minha lei no íntimo deles e a escreverei nos seus corações. Serei o Deus deles e eles serão o meu povo [ou, de acordo com outra interpretação, we’ānōkî bā‘altî bām deveria ser traduzido assim: 'de modo que eu os rejeitei', como Hebreus 8.9 sugere], diz o Senhor. Porque essa é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, "Estão chegando os dias" declara o Senhor, "quando farei uma nova aliança com a comunidade de Israel e com a comunidade de Judá. Não será como a aliança que fiz com os seus antepassados quando os tomei pela mão para tirá-los do Egito; porque quebraram a minha aliança, apesar de eu ser o Senhor deles", diz o Senhor.

O contexto da passagem refere-se claramente à restauração de Israel, após o término do cativeiro babilônico; as predições específicas sobre a reconstrução da torre de Hananeel, da porta da Esquina, o outeiro de Garebe, o vale do Cedrom e a porta dos Cavalos, que aparecem nos versículos de 38 a 40, tiveram um cumprimento preliminar, pelo menos nos dias de Neemias (446-445 a.C), conforme 3.1, 24, 28 o atesta. Mas a inauguração da nova aliança esperou o derramamento do Espírito Santo como o Paráclito que veio habitar nos crentes permanentemente, segundo a promessa do próprio Cristo em João 14.17: "Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e estará em vocês".


  • 234

Jesus deixou bem claro que o Espírito não poderia ser concedido aos crentes senão depois de sua morte na cruz e a subseqüente vitória sobre o pecado e a morte, pela ressurreição, "se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei" (Jo 16.7). O Espírito Santo foi derramado sobre a igreja (nessa ocasião, composta apenas de crentes judeus) no Pentecoste (em cumprimento à promessa de Jl 2.28-32 [3.1-5 de acordo com o tm]) e assim inaugurou de modo dinâmico, miraculoso, a época da nova aliança. A partir de então, os discípulos são considerados habitação de Deus, o Espírito Santo, ou templos do Espírito Santo (1 Co 6.19; 1 Pe 2.5), o qual é a essência da lei de Deus (Torá) a que se refere Jeremias 31.33. Visto que o Espírito Santo habita no interior dos crentes que nasceram de novo, essa lei está verdadeiramente escrita em seus corações.

Como temos salientado, a igreja, no Dia de Pentecostes, consistia apenas de judeus cristãos, e assim prosseguiu durante algum tempo, até a conversão do centurião Cornélio e sua casa. Nessa ocasião, os gentios foram considerados bem-vindos à comunhão dos redimidos. O apóstolo Paulo deixou bem claro em Romanos 2.28, 29 que na época da nova aliança Deus aceitaria os que fossem espiritualmente circuncidados — fossem hebreus, ou gentios — como verdadeiros judeus, i.e, crentes salvos, filhos de Deus sob a aliança da graça. Sob o antigo pacto, só ocasionalmente alguns gentios convertidos eram acrescentados às fileiras do Israel redimido. Deus aceita os convertidos a Cristo como verdadeiros filhos de Abraão, pela fé (Gl 3.7, 29). No decurso da era apostólica, os novos crentes eram recrutados especialmente entre os gentios, tanto porque estes eram muito mais numerosos quanto porque a mensagem do evangelho era obviamente superior às crenças pagãs degeneradas (os judeus já tinham o at). Observe que Hebreus 8.6-13 aplica passagem de Jeremias aos cristãos do século i, contemporâneos do autor.

No entanto, é bem provável que o surgimento da igreja neotestamentária, composta de judeus e gentios, continha o cumprimento total de Jeremias 31.31-33. Como já observamos, o contexto mostra que nos últimos dias o povo de Israel, como nação, experimentará uma fé transformadora, e o resultado será o novo nascimento espiritual. Essa promessa é claramente repetida em Ezequiel 36.24-27:

Pois eu os tirarei dentre as nações os ajuntarei do meio de todas as terras e o trarei de volta para a sua própria terra. Aspergirei água pura sobre vocês e ficarão puros; eu os purificarei de todas as suas impurezas e de todos os seus ídolos.

Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei o meu Espírito em vocês e os levarei a agirem segundo os meus decretos e a obedecerem fielmente às minhas leis.

Essa graciosa promessa está, nesse contexto, dirigida aos cativos de Israel, durante o tempo do exílio na Babilônia. Então, temos outra vez uma clara profecia pertinente a Israel como nação — a mesma que, antes do exílio babilônico, havia caído na idolatria e infidelidade (sob a antiga aliança). À medida que nos voltamos para o nt, que com muita ênfase afirma o cumprimento preliminar da edificação da igreja judaico-cristã no nt, descobrimos que Paulo, de maneira semelhante, deixa claro que existe um despertamento nacional e um movimento de conversão à espera de Israel, como nação, nos últimos dias. Ele o revela em Romanos 11.25-27:

Irmãos, não quero que ignorem este mistério, para que não se tornem presunçosos: Israel experimentou um endurecimento em parte, até que chegue a plenitude dos gentios e assim todo o Israel será salvo como está escrito: "Virá de Sião o redentor que desviará de Jacó a impiedade. E esta é a minha aliança com eles quando eu remover os seus pecados".

Aqui, pois, temos um caso real do cumprimento da profecia do Antigo Testamento em dois estágios: Jeremias 31.31 cumpriu-se na igreja neotestamentária; mas será consumado nos últimos dias, quando haverá um grandioso despertamento nacional entre o povo judeu, e esse se voltará para o Senhor Jesus como seu verdadeiro Messias e Salvador (Zc 12.10).



  • 235

Está registrado em Jeremias 36.30 que Jeoaquim rei de Judá: "não terá nenhum descendente no trono de Davi para sentar-se". No entanto, em 2 Reis 24.6 e em 2 Crônicas 36.9 lemos que seu filho Joaquim reinou em seu lugar. Não temos aqui uma contradição? [d]

O principal ponto dessa sentença sobre Jeoaquim (que acabara de rasgar as profecias escritas de Jeremias, atirando-as ao fogo) era que ele não teria uma dinastia que lhe sucedesse no trono. O cumprimento dessa condenação aconteceu em 597 a.C, quando Jeoaquim morreu: seu filho Joaquim reinou em Jerusalém durante meros três meses, antes de cair sob o cerco das tropas de Nabucodonosor. É provável que nem tivesse havido uma cerimônia de coroação oficial dado o período de intranqüilidade, em que prosseguia o estado de sítio. Contudo, àquele filho não foi permitido permanecer no trono de Judá a partir de então; antes, foi Zedequias, seu tio, que se instalou como rei vassalo do império caldeu, sendo Joaquim levado para o exílio na Babilônia, de onde jamais regressaria.

Deve-se observar que, quando o verbo hebraico yāšab ("sentar-se entronizado") é empregado para um rei, implica certo grau de permanência, em vez de um período curto de noventa dias. Sendo filho de Jeoaquim, Joaquim não teve permissão de sentar-se no trono nem de continuar a dinastia davídica. Ao contrário, foi removido; e nenhum filho ou descendente seu teve jamais permissão de reinar como rei, a partir de então, no trono de Davi. Zorobabel talvez tivesse ascendência em Joaquim, por meio de Sealtiel (v. Mt Mateus 1.12) e exercesse um papel de liderança após a restauração dos exilados que voltaram da Babilônia. Todavia, jamais exerceu o cargo de rei. (Os últimos reis judaicos dos séculos ii e i a.C, chamados hasmoneanos, eram da tribo de Levi e nenhuma conexão tiveram com Jeoaquim.)

Não estaria Jeremias enganado em sua predição de uma invasão babilônica ao Egito? (Jr 43.7-13; 44.30)?

Se Jeremias fosse acusado e culpado de profetizar falsamente no que concerne a um evento tão importante e se Nabucodonosor nunca realizou, de fato, a invasão do Egito, é certo que ele teria sido denunciado como falso profeta (cf. Dt. 18: 22) e, por essa razão, eliminado da categoria de escritor da Bíblia. O fato de seus escritos terem sido aceitos e preservados como sendo dotados de autoridade pela comunidade de crentes é prova real de que a invasão realmente ocorreu. A confirmação arqueológica quanto a isso é discutida no artigo a respeito de Ezequiel 26. Nessa passagem, está predito o mesmo evento, a invasão do Egito, em escala total, por Nabucodonosor, no trigésimo sétimo ano de seu reinado (c. 569 a.C).


1   ...   30   31   32   33   34   35   36   37   ...   62


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal