Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Daniel


Daniel deve ser datado como do século vi?

Com a possível exceção de Isaías, nenhum profeta do at apresenta um desafio tão sério para o racionalista como Daniel. Seu livro contém não só predições em curto prazo, como a dos sete anos de insanidade mental de Nabucodonosor (cap. 4) e a iminente queda da Babilônia, diante das forças dos medo-persas (cap. 5), como também profecias referentes ao futuro longínquo, como a da seqüência de quatro reinos (cap. 2), a elaboração dessa ordem e uma ênfase nos últimos dias (cap. 7, bem como o 8, com atenção especial ao terceiro reino) — a predição da data da primeira vinda de Cristo, com o esquema das setenta semanas (cap. 9); depois, o relato pormenorizado do confronto entre os impérios Selêucida e Ptolemaico, bem como o fim dos dois Chifres Pequenos (cap. 11).

A fim de evitar o impacto das evidências decisivas da inspiração sobrenatural, tão abundante em Daniel, foi necessário que os eruditos racionalistas encontrassem algum período posterior da história judaica em que todas as "predições" já houvessem sido cumpridas, como o reinado de Antíoco Epifânio (175-164 a.C), em que uma fraude tão piedosa podia ser "anexada" com maior facilidade. Para isso, no entanto, seria necessário que J. D. Michaelis e J. G. Eichhorn (que no século xviii reviveram a velha hipótese dos macabeus quanto à datação criada pelo filósofo do século iii, Porfírio) fizessem alguns ajustes nas evidências do texto. É que o original de Daniel indica que a seqüência dos impérios seria como segue: primeiro, o Caldeu; segundo, o Medo-Persa; terceiro, o Grego; quarto, o Romano. Mas uma vez que o Império Romano não se apossou da Terra Santa senão em 63 a.C, foi necessário eliminar de vez essa identificação, a fim de preservar a defesa racional de uma hipótese da data vinda dos macabeus. O período dos hasmoneanos teria sido entre 167 a 165 a.C, ou mais de cem anos antes de Pompeu apossar-se da Palestina em nome dos romanos; isso teria permitido que uma predição bem-sucedida permanecesse no livro de Daniel, cem anos antes de seu


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cumprimento. Conseqüentemente fizeram-se grandes esforços no sentido de provar que o quarto reino era o Grego, em vez do Romano, e que a verdadeira seqüência era: caldeus, medos, persas e gregos. De outra forma, a teoria de uma data mais tardia não sobreviveria, visto não ser suficientemente tardia para explicar a presença de Pompeu.

No artigo a respeito de "Dario, o medo", forneceremos evidências para rejeição dessa identificação (revista) e demonstraremos que o quarto reino, afinal, foi o Romano. Contudo, nesta discussão preliminar, centralizaremos nossa atenção nas evidências lingüísticas de Daniel, que tendem a eliminar todas as possibilidades de datar sua composição como o posterior ao período persa. Tendo em mãos a riqueza de novos dados oriundos dos manuscritos das cavernas do mar Morto (literatura de Qumran), torna-se possível resolver essa questão de uma vez por todas. Agora que dispomos de um midraxe suficientemente longo, que de início fora composto no século iii a.C, no aramaico desse período, e vários documentos sectários, no hebraico do século ii, torna-se possível realizar uma cuidadosa comparação lingüística dos capítulos de Daniel, escritos nesses dois idiomas, com esses documentos que pertencem inquestionavelmente aos séculos iii e ii a.C, os quais estão bem próximos da era dos macabeus.

Se Daniel de fato houvesse sido escrito por volta de 160, os documentos de Qumran exibiriam as mesmas características genéricas do autor no que concerne a vocabulário, morfologia e sintaxe. No entanto, os resultados dos testes revelam que Daniel 2-7 é texto lingüisticamente mais antigo que o Gênesis apócrifo — com uma diferença de vários séculos. Daí entendermos que esses capítulos não poderiam ter sido escritos mais tarde, nos séculos ii ou iii a.C; antes, com base em indícios puramente filológicos, supõe-se que ele foi composto no século v ou no final do quinto século a.C. E devem ter sido redigidos no setor oriental do mundo de fala aramaica (como a Babilônia), em vez de na Palestina (como o exige a teoria de uma datação posterior). As evidências quanto a isso são técnicas, pelo que dificilmente seriam adequadas para esse tipo de enciclopédia (a qual não pressupõe que a maior parte de seus leitores tenha profundos conhecimentos de hebraico, aramaico e grego). Mas todos quantos estudaram as línguas clássicas são convidados a consultar os resumos dessas evidências na obra deste autor, Merece confiança o Antigo Testamento?. Entretanto, outra obra minha, mais completa e definitiva, "The Aramaic of the Gênesis Apocryphon compared with the Aramaic of Daniel", aparece como cap. 11 em Payne, New perspectives. Veja, também, meu artigo "The Hebrew of Daniel compared with the Qumran sectarian documents", em Skilton, The Law and the Prophets, cap. 41.

A seguinte conclusão a respeito do "Apocryphon" tiro-a de minha obra, Merece confiança o Antigo Testamento?:

O fato de haver palavras targúmicas e talmúdicas em abundância neste documento indica a existência de um grande intervalo de tempo, entre sua composição e a de Esdras e Daniel. Seu uso da ordem normal semítica para as palavras, na sentença, em comparação com o costume de Daniel de colocar o verbo quase no fim da sentença, indica uma diferença bem definida, quer na origem geográfica (a qual eliminaria a possibilidade de Daniel ser uma composição dos tempos dos macabeus, na Palestina) ou na época de sua redação. Ambas as inferências são fatais para a teoria da pseudoepigrafia. Portanto, é justo que se diga que o testemunho geral deste rolo [Gênesis apócrifo] leva-nos a abandonar a posição tão querida da Alta Crítica. Além disso, a genuinidade da autoria do livro de Daniel torna-se agora uma opção muito mais atraente do que antes.

Em New Perspectives (p. 480-1), encontramos as seguintes observações conclusivas:

À luz de todos os dados reunidos sob as quatro categorias que acabamos de apresentar, parece-nos ter ficado claríssimo que atribuir uma data no século ii para os capítulos de Daniel escritos em hebraico é hipótese que deixa de ser viável em


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bases lingüísticas. À vista do desenvolvimento marcadamente posterior da língua quanto à sintaxe, ordem das palavras, morfologia, vocabulário, ortografia e emprego dos vocábulos, não há a mínima possibilidade de se considerar Daniel contemporâneo [dos documentários sectários]. Ao contrário, todas as indicações apontam para um intervalo de vários séculos entre eles [...] Entretanto, qualquer investigador honesto, ao enfrentar uma quantidade tão grandiosa de dados objetivos que apontam para um intervalo de vários séculos entre dois textos literários, deve concluir que a atribuição de uma data no século n para o livro de Daniel está inteiramente fora de propósito. A completa ausência de palavras emprestadas do grego, com exceção instrumentos musicais de uso internacional [mencionados em Dn 3.5], aponta sem sombra de dúvida para uma época de redação anterior à conquista por Alexandre. É totalmente inconcebível que depois de 160 anos de senhorio helenista (como insiste a teoria dos macabeus) haja total ausência de termos gregos pertinentes ao governo e à administração, quer nos capítulos aramaicos, quer nos hebraicos, numa obra literária de 160 a.C. Todavia, agora que uma considerável quantidade de novos documentos foi resgatada da primeira caverna Qumran, publicada e submetida a rigorosa análise, fica bem claro que a teoria que atribui o livro à época macabeus, a despeito de todos os seus apelos persuasivos aos racionalistas, é totalmente errada. Só um obscurantista dominado pelo espírito dogmático pode concordar com esse absurdo; ele deveria, portanto, desistir de qualquer apelo à respeitabilidade intelectual.

Estaríamos, então, de volta ao século vi a.C, no que concerce à composição do livro de Daniel? Visto que o próprio escritor teria nascido entre 620 e 615 a.C, possivelmente ele morreu depois de 530, à idade de 85 ou noventa anos. Isso significa que a forma final de suas memórias completou-se em meados de 530, e devemos procurar um ambiente lingüístico próximo desse período, se sua obra for genuína. É inquestionável que ele viveu o suficiente para ver a queda da Babilônia diante dos exércitos medo-persas de Ciro, o Grande, em 539. Serviu ao vice-rei de Ciro, Dario, o medo, durante um ano mais ou menos, e assim tornou-se profundamente familiarizado com a nova terminologia persa que começava a se infiltrar na língua aramaica da Babilônia, em questões administrativas e no governo. As quinze palavras emprestadas do persa que aparecem no aramaico de Daniel são muito bem explicadas pelo contato íntimo de que ele mantinha com os oficiais persas, durante os anos posteriores a 530. Desde que fique estabelecido que o livro de Daniel foi composto antes da conquista grega — portanto, nos idos do período persa — deixa de existir uma boa razão para rejeitar a adequação da data de 530 a.C. É certo que o fenômeno da predição bem-sucedida de eventos que ocorreriam no futuro, alcançando o século i d.C, se constitui num elemento característico que só pode apontar para a inspiração divina das profecias; remove-se, pois, todo o incentivo pressuposto para uma data posterior — os séculos i e ii a.C. Podemos aceitar esse livro pelo que ele próprio afirma ser: a composição pessoal de Daniel, o profeta (como ele afirma em 7.1, 2, 15, 28; 8.1, 15, 27; 9.2, 21, 22; 10.1, 2; 12.5).

Para o evangélico, entretanto, a questão fica esclarecida definitivamente mediante a referência a Daniel que encontramos no discurso de Cristo, no monte das Oliveiras (Mt 24.15). Ali Jesus menciona "... o 'sacrilégio terrível' do qual falou [dia com genitivo] o profeta Daniel...". A expressão "o sacrilégio terrível" (ou "que torna desolado") ocorre em Daniel 9.27, 11.31 e 12.11. O importante a ser observado é que Cristo não estava se referindo apenas a um livro chamado "Daniel", mas à ação do próprio escritor, visto que dia com o genitivo sempre implica atitude humana, pessoal. Se as palavras de Cristo foram citadas de modo confiável — é claro que foram! — só podemos concluir que Jesus, pessoalmente, acreditava que a personagem histórica com o nome de Daniel foi o autor do livro que contém essa frase escatológica. Além do mais, Jesus deixou bem claro que o cumprimento da predição concernente a esse "sacrilégio terrível" estaria no futuro. A profecia não se cumpriu mediante o que aconteceu em 168 a.C,


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ainda que certo tipo de abominação possa ter sido praticado por Antíoco, no Templo, em Jerusalém.

Daniel 1.1 está errado a respeito da data da invasão de Nabucodonosor?

Daniel 1.1 diz que Nabucodonosor invadiu a Palestina "no terceiro ano do reinado de Jeoaquim, rei de Judá". Mas Jeremias 46.2 diz que o primeiro ano do rei da Babilônia foi o "quarto" de Jeoaquim. Qual é o certo? Na verdade, ambas as informações estão corretas. Nabucodonosor foi coroado em 605 a.C; esse, segundo o sistema babilônico teria sido o "ano de acesso" dele. Seu primeiro ano de reinado, portanto, não começou antes do dia de Ano Novo, em 604. Mas, de acordo com o sistema judaico, o ano de acesso era contado como o primeiro ano do reinado. Visto que Jeoaquim subiu ao trono de Judá em 608, pelo faraó Neco, 605 seria o seu quarto ano de reinado (Jeremias teria contado assim, como residente em Jerusalém). Mas, segundo o cálculo babilônico (que Daniel, como residente na Babilônia, haveria naturalmente de seguir), 605 seria o "terceiro" ano de Jeoaquim (contando seu primeiro ano de reinado a partir do dia de Ano Novo de 607). É por isso que ambos os registros estão certos; o fato mencionado ocorreu em 605 — o ano da grande vitória de Nabucodonosor na batalha de Carquemis.



Por que Daniel se refere aos adivinhos como caldeus?

Daniel 2.2 fala pela primeira vez em "caldeus" (ra) (heb. kaśdîm) como sendo uma classe de astrólogos, ao lado de "magos, encantadores, e feiticeiros". É óbvio que esse termo não foi empregado em seu sentido étnico. De acordo com esse ponto de vista, Nabucodonosor e a maior parte de seus líderes políticos e militares eram "caldeus". Alguns eruditos têm argumentado que o uso desse termo em Daniel 2.2 e em outras passagens reflete uma confusão da parte do suposto autor do livro de Daniel que, provavelmente, tê-lo-ia escrito em 165 a.C. Entretanto, essa teoria está completamente ultrapassada, pelo fato de o verdadeiro autor (a saber, o próprio Daniel o escreveu em meados de 530 a.C.) também empregar a palavra kaśdîm de maneira étnica. Em 5.30, ele se refere a Belsazar como "o rei dos caldeus" (em aramaico: malkā’ ḵaśdā’ē). (É provável que "alguns homens caldeus" [guḇrîn kaśda’în] de 3.8, os acusadores dos três amigos de Daniel, fossem altos oficiais do governo, e não feiticeiros [assim indica Brown-Driver-Briggs, Lexicon, p. 1098].) Esse uso variado do termo não pode ser explicado com base numa suposição de autoria posterior. O fato é que o autor de Daniel usava esse nome em dois sentidos: 1) como nome astrológico e 2) como vocábulo étnico. Como foi isso possível? Haveria uma explicação para essa homonímia? Sim, há, mas deve ser encontrada na passagem dessa palavra por três línguas.

Como salientou Robert Dick Wilson, de Princeton (Studies in the Book of Daniel, Série 1 [Nova York: G. P. Putnam's Sons, 1917]), a combinação suméria gal-du significaria "principal Construtor", título que se dava aos sacerdotes-astrólogos que desenhavam mapas de astrologia dividindo as estrelas visíveis em pequenas áreas que pareciam plantas de casa. O termo gal-du aparece numa tableta datada do quarto ano de Samas-Sumuquim da Babilônia (668-648 a.C).

A confusão entre kal-du (forma acadiana do gal-du sumério) e o nome da nação caldaica ocorreu da seguinte forma: aquele termo, originalmente kasdu ou kašdu, mais tarde viria a ser pronunciado kaldu no dialeto babilônico da Acádia. Isso foi o resultado da modificação de uma sibilante para l, antes de uma dental; assim, a preposição ištu ("fora de") era pronunciada ultu na língua babilônica posterior; ašṭur ("eu escrevi") mudou-se para altur. O estágio final chegou com a ascensão do Império Neobabilônico, sob Nabopolassar e seu filho Nabucodonosor; porque nessa época de ressurreição nacional (havendo-se livrado finalmente do jugo assírio), tentaram restaurar sua língua à forma clássica primitiva. Isso significava que todas as sibilantes que se haviam transformado em l, antes das consoantes dentais, tinham que ser mudadas para as sibilantes originais. Era muito natural, portanto, que kaldu, que originalmente viera de kal-du (gal-du), fosse mudado não historicamente para kasdū (de que a forma



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plural era kaśdī, hebraico kaśdîm, aramaico kasdîn, ou ḵaśdā’ē quando é enfático). Assim, esse termo caiu junto com o étnico kaldu (plural kaldî), que viera originalmente de kašdu. (Observe que os gregos utilizavam esse nome antes da reforma neobabilônica, pois chamavam a nação de chaldaioi, da qual deriva a palavra portuguesa "caldeus".

Não há um erro em Daniel 5 com respeito à identidade do último rei da Babilônia? Não era Nabonido em vez de Belsazar?

Ao contrário, o registro bíblico tem sido confirmado de forma notável pelas evidências arqueológicas. Durante os séculos anteriores, muitos eruditos erroneamente presumiram que "Belsazar" teria sido mera figura lendária, porque nenhum dos historiadores gregos, a partir de Heródoto, sabia qualquer coisa a seu respeito, e sequer mencionava seu nome. É verdade que Nabonido (grafia cuneiforme de nabu-na’id), de fato, foi o principal rei da Babilônia, na direção do Império Caldeu, mas ficou bem estabelecido ultimamente que ele estava aquartelado em Tema, no norte da Arábia, à época da invasão medo-persa. Portanto era seu filho, Belsazar, quem estava na Babilônia (naquela época considerada indevassável por qualquer exército), o qual havia sido coroado vice-rei vários anos antes, durante o reinado de seu pai.

Escavações em Ur descobriram uma inscrição de Nabunaid que continha uma oração, primeiro por si mesmo, depois pelo seu filho primogênito, Bel-shar-uṣur. Tais súplicas só eram erguidas em prol do monarca em evidência (semelhantemente à celebração da Santa Comunhão pela Igreja Anglicana). Outros documentos em caracteres cuneiformes registram que Belsazar apresentava ovelhas e bois nos templos de Sipar, como "ofertas ao rei". Visto que seu nome havia sido esquecido à época de Heródoto (cerca de 450 a.C), fica bem claro que o autor de Daniel 5 deveria ter escrito sua obra muito antes de 450 a.C. Ele estava ciente de que Belsazar era o rei número dois da Babilônia, em 539 a.C., visto que tudo que ele podia oferecer ao homem de Deus, como recompensa pelo fato de o profeta ter decifrado a inscrição na parede da sala de banquetes, foi ser "o terceiro em importância no governo do reino" (Dn 5.29, grifo do autor). (Quanto a outros pormenores a respeito desse assunto, convidamos o leitor a consultar Raymond P. Dougherty, Nabonidus and Belshazzar [New Haven, Yale, 1929].)

Existe alguma confirmação da existência de "Dario, o medo"?

"Dario, o medo" aparece pela primeira vez em Daniel 5.31: "e Dario, o medo, apoderou-se do reino, com a idade de sessenta e dois anos. [sobre o antigo império caldeu]". Alguns eruditos, defendendo a teoria de uma data posterior para a composição de Daniel, argumentam que 1) jamais existiu um "Dario, o medo", pois este nunca é mencionado em documentos antigos preservados até nós; 2) que o nome "Dario" foi registrado pelo autor macabeu, que se confundiu com a seqüência verdadeira da história persa e misturou a lenda de um rei medo com Dario i (522-484 a.C), o qual era persa; 3) que o autor supôs, erroneamente, que foram os medos que conquistaram a Babilônia (quando na verdade foi Ciro, o persa) e sob esse lendário "Dario" supostamente mantiveram um império mundial, durante alguns anos, antes de caírem diante dos persas.

Dessa forma, os defensores da data estabelecida pelos macabeus conseguem explicar os "quatro reinos" do sonho de Nabucodonosor (Dn 2) assim: 1) caldeu, 2) medo, 3) persa, 4) grego — com a vantagem de estender o horizonte profético de "Daniel" no máximo até 165 a.C. (O problema dos defensores da data posterior é que a identificação tradicional do quarto reino com Roma faria com que a interpretação de Daniel se transformasse em verdadeira profecia, o que de modo algum é permitido pela alta crítica.) A defesa lógica da hipótese que atribui a data do livro à época dos macabeus repousa nessa explicação sobre "Dario, o medo". Portanto, ele é uma personagem sumamente importante e merece nossa atenção especial.


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Não é possível identificar Dario, filho de Histaspes, com Dario, o medo, pelas seguintes razões:

1. Dario i era persa de nascimento e primo do rei Ciro; não era medo.

2. Dario era jovem quando assassinou o impostor Gaumata (que declarara ser Smerdis, filho de Ciro) em 522. Ele não podia ter sessenta e dois anos de idade. Provavelmente estaria com vinte e poucos.

3. Dario não precedeu Ciro como rei da Babilônia; antes, começou seu reinado sete anos depois da morte deste. No entanto, a teoria liberal alega que o autor supôs que ele viera antes de Ciro.

4. Essa confusão a respeito da verdadeira nacionalidade e seqüência de tempo de Dario, o Grande, teria sido observada no mundo helenístico do século ii a.C. Até no Oriente Próximo todo estudante era obrigado a ler Xenofontes, se não Heródoto, e outros historiadores gregos dos séculos v e iv a.C. Até mesmo na Palestina, tais autores eram muito lidos e admirados. Recebemos deles as nossas informações a respeito de Ciro e Dario. Qualquer escritor que escrevesse em grego, ou qualquer um, que vivesse na órbita grega e tentasse colocar Dario antes de Ciro, receberia vaia do público em geral e nenhum crédito seria dado ao que ele escrevesse.

Devemos concluir, portanto, que Dario, o medo, e Dario, o persa, nada têm a ver entre si, e que a confusão está na mente das pessoas que criaram (ou defendem) a teoria da data posterior, e não na do profeta Daniel, autor do livro que leva seu nome. No entanto, é verdade que não se descobriu uma referência a "Dario, o medo" nos achados arqueológicos. (Até fins do século xix d.C, o mesmo poderia ser dito a respeito de Belsazar, vice-rei do seu pai, Nabonido. Os críticos adeptos da datação dos macabeus alegavam tratar-se de outra personagem fictícia no livro de Daniel, antes que se descobrissem as tabletas babilônicas desse período, as quais confirmam que Belsazar atuou como "vice-rei" nos últimos anos do reinado de Nabonido.) No entanto, como vamos verificar, há uma identificação de Belsazar óbvia e interessante.

Há diversas indicações no texto de Daniel de que Dario não era rei por seu próprio direito, mas havia sido nomeado temporariamente para ocupar o trono por alguma autoridade superior. Em 9.1 declara-se que Dario "foi constituído rei". A raiz passiva (hophal) é usada para o verbo homlaḵ, em vez da forma usual malaḵ ("tornou-se rei"), que teria sido usada, houvesse Dario obtido o trono mediante conquista ou herança. Em 5.31 somos informados de que Dario "se apoderou (qabbel) do reino", como quem o faz com a devida autoridade. Também é apropriado afirmar que os reis subalternos, ou vassalos, eram de modo semelhante nomeados, ou indicados por Ciro, de acordo com a inscrição na pedra Beistum, feita por Dario i, em fins do século vi. (Assim o próprio antepassado de Dario, Histaspes, teria dito que havia "sido feito rei" durante a época de Ciro, o Grande.) Como ocupante do trono da Babilônia, que o passar do tempo enchera de honrarias, a questão para o jovem nomeado por Ciro era apenas a de usar o protocolo adequado e, assim, assumir em seus decretos oficiais os mesmos títulos que sempre estiveram ligados ao trono. Por isso, o documento mencionado em 6.25 é dirigido aos "povos, nações e homens de todas as línguas... em toda a terra" (’ar‘ā’ pode ser traduzido por "terra" no sentido de globo terrestre). O título tradicional vinha do tempo remoto de Hamurábi (século xviii a.C.), šár kiššati ("rei do universo"). Portanto, essa frase não precisa ser traduzida como que implicando que Dario estivesse afirmando ser rei sobre o mundo todo habitado, inclusive a própria Pérsia, como alguns críticos têm feito.

Quem, então, era Dario, o medo? Em seu cuidadoso estudo de documentos arqueológicos importantes, J. D. Whitcomb (Darius the Mede, Grand Rapids: Eerdmans, 1959) reuniu todos os textos que se referem a 1) Ugbaru, o general que engendrou a captura da Babilônia, em 539 a.C; 2) Gubaru, com freqüência é mencionado em tabletas que datam de 535 a 525 a.C, como sendo o governador da Babilônia; e 3) Gaubaruva, um líder mencionado nas inscrições de Dario, o Grande. Os dois primeiros nomes não são a mesma



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pessoa (Xenofontes escreve o nome de Gubaru como sendo Gobrias, mas confunde-o com Ugbaru). Ugbaru foi um velho general que morreu algumas semanas depois da queda do império caldeu. Gaubaruva é uma personagem posterior que chegou a ser proeminente depois de Ustani ser nomeado governador da Babilônia nos últimos anos da década de 520 a.C. A respeito de Gubaru, temos poucas evidências de sua origem étnica; teria sido medo. É certo que a colocação de representantes deste povo talentosos e leais, como o general Harpago, em posições-chave de seu governo, estaria em consonância com a política de Ciro. Quanto ao nome "Dario" (do persa Dārayawush) parece que se relaciona a dara, e aparece em Avestão como termo equivalente a "rei". À semelhança de augustus entre os romanos, dārayawush ("o rei") seria um título honorífico, que também fora usado como nome próprio (assim como "Reis" é sobrenome em português).

Parece, portanto, que logo após a queda da Babilônia diante das tropas medo-persas, a presença de Ciro era necessária com urgência em um ponto da vanguarda de seu império em plena expansão. Por isso, ele achou conveniente colocar Gubaru-Dario como responsável, com o título de rei da Babilônia, para que governasse durante um ano mais ou menos, até que pudesse voltar pessoalmente e celebrar a sua coroação formal, como rei, no templo de Marduque. Então, durante esse período em que reinou como vice-rei, Dario atuou como rei da Babilônia, mas a coroa seria transferida a seu senhor, Ciro (o qual subseqüentemente faria que seu filho mais velho, Cambises, fosse coroado rei da Babilônia). O fato de Daniel não mencionar outra datação senão o "primeiro ano de Dario" (9.1) indica que seu reinado teria sido muito curto. Deve-se observar que um império com a duração de apenas um ano representaria completa falta de possibilidade para a hipótese da datação na época dos macabeus. Um reinado que durou um ano dificilmente seria considerado o segundo reino, numa série de governos que inclui o império caldeu (que durou 73 anos), o persa (permaneceu 208 anos) e o grego (que no ano 165 a.C. já teria alcançado por 167 anos.)

Encerramos essa discussão com o estabelecimento de Dario no palco da história, na narrativa de Daniel. O capítulo 5 relata o episódio dramático da escrita na parede da sala de banquetes onde se encontrava Belsazar, feita pela mão misteriosa. O terceiro termo daquela inscrição era peres, que o próprio Daniel (no v. 28) interpreta assim: "peres: Dividido [perîsaṯ, da mesma raiz p-r-s de peres] foi o teu reino, e dado aos medos e aos persas [pārās]". Esse trocadilho duplo com a raiz p-r-s torna absolutamente certo que o autor deste livro acreditava que o reino número um (o império caldeu) passou direta e imediatamente para o controle dos persas, aliados aos medos, como sendo o governo número dois. Isso não deixa margem para a teoria da alta crítica a respeito de um império medo, a que o autor de Daniel estaria se referindo. Portanto, esse escritor deve ter acreditado que o império número dois era o persa (i.e., medo-persa), o de número três (de Dn 2) era o macedônio-grego-sírio, e o de número quatro haveria de deslocar, derrubar e substituir o grego. O único império que efetivamente realizou essa façanha foi o romano. Portanto, a profecia genuína, coroada de êxito, não pode ser eliminada de Daniel, nem mesmo por uma hipótese baseada em data atribuída pelos macabeus!

Como é possível ver-se algum sentido na profecia de Daniel, a respeito das setenta semanas, para que seja entendida?

A profecia das setenta semanas de Daniel 9.24-27 é uma das predições mais notáveis, de maior alcance quanto ao tempo, de toda a Bíblia. Sem dúvida alguma, é uma das mais amplamente discutidas por estudantes e eruditos de todos os credos evangélicos, dentro do cristianismo. No entanto, quando ela é examinada com muito cuidado à luz dos dados mais relevantes da história, e das informações disponíveis, obtidas em outras partes das Escrituras, vemos que se trata de uma profecia referente à época da vinda de Jesus, uma previsão do ato final, emocionante, da história humana que antecede esse advento.



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Assim diz Daniel 9.24: "Setenta semanas estão decretadas para o seu povo e sua santa cidade... [i.e., sobre a nação de Israel e Jerusalém]". A palavra para "semana" é šāḇuac, que deriva de šeḇa‘, e significa "sete". A forma plural é feminina: šeḇû‘oṯ. Ela aparece apenas neste capítulo, no livro de Daniel, no masculino plural, šāḇû‘îm. (A única ocorrência extraordinária nós a temos na combinação šeḇu‘ê šeḇu‘ôṯ ["grupos de sete"] em Ezequiel 21.28 [21.23 no texto em inglês]). Portanto, é muito sugestiva a idéia de "grupo, ou conjunto, de sete" (uma série de combinações de sete), em vez de uma "semana", no sentido de um conjunto de sete dias. Não há a menor dúvida de que neste caso estamos diante de setenta conjuntos de sete anos, em vez de dias. A soma total é 490 anos.

No término desses quatrocentos e noventa anos, de acordo com o versículo 24b, aparecerão seis resultados: 1) "fazer cessar a transgressão" [ou 'o pecado da rebelião']; 2) "dar fim [ou 'selar'] aos pecados"; 3) "expiar a iniqüidade"; 4) "trazer a justiça eterna"; 5) "selar a visão e a profecia"; e 6) "ungir o Santo dos Santos". Portanto, no final deste período, o atual mundo amaldiçoado pelo pecado chegará ao fim (1 e 2), o preço da redenção dos pecadores terá sido pago (3); o reino de Deus será estabelecido na Terra, e todo o mundo será permanentemente cheio de justiça, assim como as águas do mar (4); e o Santo dos Santos (Cristo?), ou o Santuário Santíssimo (é a opção mais provável, visto que Cristo já havia sido ungido pelo Espírito Santo em sua primeira vinda), será solenemente ungido e inaugurado para o culto, em Jerusalém, a capital religiosa e política da mundo, durante o Milênio (5 e 6).

Daniel 9.25 diz: "Saiba e entenda que, a partir da promulgação do decreto [ou 'decreto'; lit., 'palavra' — ḏāḇār] [nāgîd], ['haverá'; o texto hebraico omite o verbo] que manda restaurar e reconstruir Jerusalém até que o Ungido, o líder, venha, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas. Ela será reconstruída com suas ruas e muros, mas em tempos difíceis". Temos aqui, portanto, duas etapas: 49 anos e 434 anos, somando 483 anos. É muito significativo que a septuagésima semana fique em suspenso até o versículo 27. Temos, portanto, quase cinco séculos entre a emissão do decreto real para que se reconstrua Jerusalém e a vinda do Messias.

Quando examinamos cada um dos três decretos emitidos pelos reis, a respeito de Jerusalém, depois de Daniel ter tido sua visão (538 a.C, a julgar-se por Daniel 9: 1), descobrimos que o primeiro desses editos foi o de Ciro (2 Cr 36.23: "... O Senhor, o Deus dos céus, deu-me todos os reinos da terra e designou-me para construir em templo para ele em Jerusalém, na terra de Judá". Esse documento, emitido em 538 ou 537 a.C. diz respeito apenas à reconstrução do templo, e não da cidade de Jerusalém. O terceiro decreto deve ser inferido pela concessão do pedido de Neemias ao rei Artaxerxes i, em 446 a.C, conforme registro no capítulo 2.5-8 deste escritor: "... peço-te que me envies a Judá, à cidade dos sepulcros de meus pais, para que eu a reedifique". A seguir, lemos: "Marquei um prazer com o rei, e ele concordou que eu fosse [para minha volta ao palácio]". O monarca também lhe concedeu madeira para os portões e as vigas da cidade.

Deve-se notar que, quando Neemias ouviu da boca de seu irmão Hanani que os muros de Jerusalém ainda não haviam sido reconstruídos, ficou desapontado e deprimido — como se imaginasse que já haviam sido reconstruídos (Ne 1.1-4). Isso sugere com muita evidência que já havia sido promulgado um decreto anterior {o segundo} autorizando a reconstrução dos muros da cidade. Esse documento relaciona-se ao grupo liderado por Esdras, que voltara a Jerusalém em 457 a.C, o sétimo ano de Artaxerxes i. O capítulo 7.5 deste escritor diz-nos: "...esse Esdras subiu de Babilônia... e, segundo a boa mão do Senhor, seu Deus, que estava sobre ele, o rei lhe concedeu tudo quanto lhe pedira". (Observe-se a semelhança com Neemias 2.8, na última sentença.) De acordo com o versículo seguinte, Esdras se fez acompanhar de um grande grupo, inclusive cantores do templo, guardas dos portões, serviçais do santuário e um séquito de leigos ("alguns dos filhos de Israel"). Depois de haverem chegado a Jerusalém, ele se ocupou com a reedificação moral e espiritual de seu povo (Ed 7.10). Tinha permissão do rei para usar as ofertas que houvessem sobrado, para qualquer propósito que julgasse necessário (v. 18); Esdras recebeu autorização para nomear magistrados e juízes, e


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implantar e fazer cumprir as leis de Israel, com penalidades de confisco, exílio e morte (v. 26). Parece, por isso, que ele teria recebido autorização para iniciar a reconstrução dos muros da cidade, com vistas à proteção do monte santo e dos direitos religiosos da comunidade judaica.

Em 9.9, Esdras refere-se à sua autoridade, em uma oração pública, penitencial: "... somos escravos, mas o nosso Deus não nos abandonou na escravidão. Ele tem sido bondoso para conosco diante dos reis da Pérsia; ele nos deu vida nova para reconstruir o templo do nosso Deus e levantar suas ruínas e nos deu um muro de proteção em Judá e em Jerusalém." (grifo do autor). Embora "um muro" possa ser em parte uma metáfora de "proteção", pode ter incluído a restauração das muralhas defensivas de Jerusalém. Infelizmente, não temos pormenores a respeito dos anos que transcorreram antes de 446 a.C; é possível que tenha havido um esforço total sob a liderança de Esdras, no sentido de se reconstruir os muros externos da cidade. O povo foi frustrado — talvez por causa da falta de zelo da parte dos exilados que voltaram a Jerusalém, ou devido à forte oposição dos vizinhos pagãos de Judá. Isso explicaria o profundo desapontamento de Neemias (conforme mencionamos acima), quando seu irmão lhe disse: "... os muros de Jerusalém estão derrubados e as suas portas queimadas a fogo" (Ne 1.3).

Portanto, se o decreto promulgado em 457 a.C. concedido a Esdras for considerado o início das 69 "semanas de anos", ou 483 anos, chegamos precisamente à época em que Jesus de Nazaré surgiu como o Messias (o Cristo): 483 menos 457 dá 26 d.C. Mas como se ganha um ano ao passar de 1 a.C. para 1 d.C. (porque não existe um zero ano), na verdade temos 27 d.C. Concorda-se de modo geral que Jesus foi crucificado em 30 d.C, depois de um ministério de um pouco mais de três anos. Isso significa que seu batismo e início de ministério teria ocorrido em 27 d.C. — uma exatidão extraordinária no cumprimento de uma profecia tão antiga. Só Deus poderia ter predito a vinda de seu Filho com tão espantosa precisão; é algo que desafia toda explicação racional.

Daniel 9.25 prossegue, dizendo: "... as praças e as circunvalações se reedificarão, mas em tempos angustiosos". É justo que se deduza daí que o término das obras de reconstrução da cidade, tanto dos muros como dos edifícios, ocuparia "sete semanas de anos", ou quarenta e nove anos. Portanto, logo depois de 400 a.C, os muros, as circunvalações, as ruas e as construções estavam completamente restaurados.

Daniel 9.26 prossegue, narrando a morte trágica do Messias: "Depois das sessenta e duas semanas [contadas a partir de completados os quarenta e nove anos, ou sete semanas], será morto o Ungido...". A idéia inerente é que ele sofreria morte violenta, sem que houvesse seguidores para protegê-lo. Morreria sozinho! É referência ao grandioso evento ocorrido no Gólgota, em 30 d.C. Há eruditos competentes que preferem datar o episódio em 33 d.C, mas há evidências de calendário que parecem indicar 27 d.C. Seja como for, a declaração anterior "... até ao Ungido, ao Príncipe...", no versículo 25, refere-se à primeira vinda de Jesus a Israel, como o Redentor de seu povo que foi batizado e ungido; não se refere ao ano de sua morte, visto que a profecia: "... será morto o Ungido..." só é mencionada no v. 26.

Daniel 9.26b prediz, a seguir, o que aconteceria como retribuição à "cidade santa" que rejeitou Jesus e exigiu que Ele fosse "morto". "... o povo de um príncipe [i.e., Tito, o vitorioso comandante das tropas romanas em 70 d.C] que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será num dilúvio [de desgraças], e até ao fim haverá guerra; desolações são determinadas". Tão vividos termos apontam para a destruição total que caiu sobre Jerusalém naquele ano de angústias.

Daniel 9.27 diz: "Ele fará firme aliança com muitos por uma semana [i.e., sete anos]; na metade da semana, fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares; sobre a asa das abominações..." O sujeito de "fará firme aliança" está oculto, no hebraico, ou seja, não está expresso; mas podemos deduzir quem é a partir do último sujeito pessoal mencionado no versículo anterior: "um príncipe que há de vir, " isso é, o líder que vai estabelecer uma aliança ou pacto com a comunidade judaica ("com muitos" é termo que encontramos em Isaías 53.11, 12) é um antítipo do general romano que destruiu Jerusalém após o término das sessenta e nove semanas de sete anos (i.e., Tito, em 70 d.C). Esse personagem já aparecera em Daniel 7.25, como o pequeno chifre dos últimos dias, que


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vai perseguir "os santos do Altíssimo" durante "um tempo [aramaico: ‘iddān], dois tempos e metade de um tempo", i.e., no decorrente três anos e meio. Esse mesmo período reaparece em Daniel 12.7, em que o poderoso anjo afirma ao profeta que "... seria depois de um tempo [heb. mô‘ēḏ, dois tempos e metade de um tempo. E, quando se acabar a destruição do poder [lit., 'mão'] do povo santo, estas cousas todas se cumprirão" — i.e., a semana de sete anos terá chegado ao fim. Os dados do versículo 26 indicam que haveria um longo intervalo, indeterminável, entre 27 d.C. (fim das sessenta e nove semanas de sete anos) — depois surgiria o Messias; dar-se-ia sua crucificação; Jerusalém seria destruída pelos romanos; e finalmente viria o período de destruição horrenda, com guerras e desolações — e a inclusão dos últimos sete anos nesses últimos dias (v. 27). No início desta "última semana", o príncipe, o supremo ditador, fará uma aliança com o povo judeu, estabelecendo-se sete anos de tolerância religiosa que será revogada após três anos e meio.

Mediante uma exegese gramatical, é possível descobrir todo o sentido da profecia das Setenta Semanas de Daniel 9 e observar uma correspondência notável com a história subseqüente, até a sexagésima nona semana e todos os eventos que ocorreram até agora. Mas a referência a "sacrifício e oferta de manjares" em 9.27 não parece pressupor a construção de um templo e altar, no monte do Templo, no início dos últimos sete anos, antes da batalha do Armagedom, o estabelecimento do reino de Deus na Terra e o governo milenar de Cristo no trono de Davi.



As predições pormenorizadas de Daniel 11, a respeito de eventos que aconteceriam no século iii e início do ii a.C, não indicam com clareza que o livro teria sido escrito mais ou menos em 160 a.C?

Daniel 11 apresenta-nos um panorama da história futura, subseqüente ao reinado de Ciro, o Grande, incluindo o aparecimento do Anticristo, ou a besta dos últimos dias, antes da volta de Cristo e da batalha do Armagedom. O versículo 2 refere-se a outros três reis persas (i.e., Cambises, Dario e Xerxes) antes da invasão grega, em 480 a.C. O versículo 3 prediz as conquistas de Alexandre, o Grande, na década de 330 a.C, e o versículo 4, a divisão em quatro partes do império, após sua morte. Os versículos 5-9 cobrem o período de conflito entre os impérios Ptolemaico e o Selêucida, a partir de 320 até a morte de Seleuco iii em 223. Os versículos 10-19 predizem a carreira de Antíoco iii, o Grande, e o versículo 20 a de seu sucessor, Selêuco iv. Os versículos 21-35 dão uma descrição pormenorizada e vivida de Antíoco iv (Epifânio), o qual envidaria o supremo esforço para erradicar a fé de Israel e converter todos os judeus ao paganismo grego.

Até esse ponto, o racionalista erudito que procura evitar os fatores sobrenaturais envolvidos na predição dos eventos futuros, a 365 anos de distância, será necessariamente levado para a explicação de que o autor de Daniel na verdade viveu e escreveu ao redor de 160 a.C, em vez de em torno de 530. Mas, infelizmente para essa explicação, os versículos 36-45 não estão coerentes com o que se conhece sobre a vida de Antíoco Epifanes. Uma excelente discussão desses versículos e sua influência na carreira do futuro Anticristo pode-se encontrar na obra de Leon, A commentary on Daniel, Grand Rapids, Zondervan, 1973, p. 304-14.

A frase tão significativa "No tempo do fim" de Daniel 11.40 aponta sem possibilidade de erro para os últimos dias, em vez de aos acontecimentos de 160 a.C. Muitas das características e políticas distintivas atribuídas a esse "rei do Norte" não se adaptam ao que está registrado a respeito de Epifânio. Ele morreu em Tebas, na Pérsia, depois de uma tentativa frustrada de saquear um rico templo em Elymais. Essa metrópole ficava a quase 3 200 quilômetros da Palestina. Mas Daniel 11.45 diz: "[O rei do Norte] Armará as suas tendas reais entre os mares no belo e santo monte. No entanto, ele chegará ao seu fim, e ninguém o socorrerá". Isso significa que esse tirano escatológico encontrará seu fim em algum lugar entre o Mediterrâneo e o mar Morto, nas proximidades do monte Sião. Nenhuma teoria a respeito da composição dos macabeus pode explicar um erro tão sério como esse — se na verdade o versículo 45 teve a intenção de profetizar o fim de Antíoco Epifânio.



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Por último, devemos salientar que de Daniel 2 até 7 a perspectiva do autor desse livro inclui o Império Romano como sendo o quarto reino no esquema dos quatro governos do capítulo 2. Todas as tentativas no sentido de inserir-se o domínio medo separado, mais recente, que teria precedido o persa, são frustradas pela sentença que os dedos misteriosos escreveram na parede do palácio de Belsazar. Em outras palavras, o terceiro termo da inscrição é peres que, interpretado pelo próprio Daniel, significa: "Dividido [̅perīsaṯ — verbo derivado da raiz p-r-s] foi o teu reino e dado aos medos e aos persas [Pārās]". Nada poderia ser mais claro, segundo esse versículo (5.28), que o autor do livro de Daniel acreditava ter o poder imperial passado diretamente dos babilônios para os medo-persas, como império federado — não primeiramente para os medos e, alguns anos mais tarde, os persas (como o exige a hipótese da datação à época dos macabeus). Ao contrário, o próprio escritor deve ter acreditado que o segundo reinado era o medo-persa. Isso significa que o império grego, fundado por Alexandre, o Grande, deve ter sido o de número três, e o romano, que não conquistou o Oriente Próximo de modo decisivo, final, senão em 63 a.C., foi o de número quatro. Esse fator faz com que a hipótese do tempo dos macabeus seja indefensável pela lógica.

Resta apenas uma alternativa. O autor de Daniel sabia todo o curso da história futura, a partir de Ciro, o Grande, até o império romano, por direta revelação divina. Nenhuma outra teoria se enquadra nos dados objetivos do texto, nem nos fatos conhecidos pertencentes à história.


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