Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Jonas


Existem boas razões para que se classifiquem Jonas e algumas porções de Crônicas como tendo a natureza de midraxe?

O midraxe é um estudo especial, uma expansão vividamente imaginativa de um trecho das Escrituras. Esse termo deriva de dāraš, que significa "pesquisar", "investigar", de modo especial tendo em vista a adição da vivacidade e cor à narrativa do registro escriturístico. Por exemplo, o Genesis Apocryphon, composto em aramaico em cerca de 200 a.C, é a expansão de Gênesis 12.11-19, o relato de Abraão e Sara, quando vão visitar o Egito. A obra apócrifa acrescenta um diálogo longo, muito colorido, cheio de pormenores, a respeito da notável beleza e encanto físicos de Sara, os perigos mortais a que Abraão se expunha por causa da formosura de sua esposa e a imperativa necessidade de recorrer à falsidade, a fim de evitar que fosse assassinado pelos agentes de Faraó. A técnica do midraxe assemelha-se à de uma professora da Escola Dominical que deseja fazer a história bíblica adquirir nova vida diante das crianças. Com freqüência, há a tendência para justificar os motivos do herói bíblico cujas façanhas estão sendo descritas e magnificar-lhe a sabedoria, ou a coragem.

No que diz respeito a Jonas, deve-se salientar que, à parte os quatro capítulos os quais compõem o livro e trazem seu nome, existe apenas uma única referência ao profeta, no at, a saber, em 2 Reis 14.25: "Foi ele que restabeleceu [Jeroboão ii] as fronteiras de Israel, desde Lebo-Ramate até o mar da Arabá, conforme a palavra do Senhor, Deus de Israel, anunciada pelo seu servo Jonas, filho de Amitai, profeta de Gate-Héfer". Não há, praticamente, nenhuma conexão entre esse versículo e o assunto tratado no livro de Jonas, a não ser a sugestão implícita de um forte zelo patriótico, da parte deste profeta. Considerando-se que um midras é um texto expandido, imaginário, vivido, decalcado em uma passagem das Escrituras, não há a menor possibilidade de considerar-se Jonas como um deles, pois nada tem a ver em absoluto com as guerras de Jeroboão ii. Esse livro só pode ser comparado a um midraxe no sentido de ser uma narrativa vivida e excitante, ainda que na verdade seu estilo é muito mais enérgico e sucinto do que qualquer outro. Se esse relato de aventura emocionante fosse considerado midraxe, o mesmo se poderia dizer a respeito de Abraão em relação a Ló, ao livrar seu sobrinho dos invasores mesopotâmios, conforme descrição em Gênesis 14, e do encontro de Cristo com Satanás, em Mateus 4. Visto que visões elaboradas também fazem parte dos midraxes, Apocalipse, no nt, também poderia ostentar essa etiqueta. No entanto, é mais comum classificar esse livro como seu nome indica: obra de "revelação".

Se Jonas não pode ser classificado como midraxe, que diríamos daquelas passagens dramáticas de 1 e 2 Crônicas, caracterizadas por longos discursos (como o de Davi para Salomão em 1 Crônicas 28, ou a oração de Asa, antes da batalha contra Zerá, em 2 Crônicas 14.11)? Indicariam esses textos a ação ornamental, dramática, de um narrador de histórias posterior, em cima de textos mais sucintos ou concisos de Reis? A base deste julgamento é fraca; no entanto, quando consultamos uma harmonia como a de Crockett, Harmony of Samuel, Kings and Chronicles, aparecem episódios longos e dramáticos que não vemos de modo algum em Crônicas. Por exemplo, o relato do ministério e da trágica



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morte do profeta Judeu, que viera a Betel a fim de denunciar Jeroboão i (1 Rs 13), é registrado aqui de modo tão circunstancial e dramático, como qualquer outro episódio registrado em Crônicas, que não estão em Reis.

As ocasionais diferenças observáveis, na escolha de textos que tornam Reis diferente de Crônicas, derivam do propósito particular que motivou o autor de cada obra. O principal interesse e preocupação do escritor que redigiu Reis era a reação de cada líder do governo do reino dividido às exigências impostas, outrora, pela aliança sobre Israel, nos dias de Moisés. Mas o principal objetivo do autor era enfatizar as instituições religiosas que tencionavam salvaguardar o relacionamento de Israel com o Senhor (daí decorre a atenção dedicada às ordenações sobre culto e celebrações, aos regulamentos a respeito dos deveres dos sacerdotes e levitas). De igual modo, ele desejava ater-se aos grandes momentos de provação e triunfo que caracterizaram a carreira dos grandes líderes do Reino do Sul. Tais elementos nada têm em comum com a literatura midráxica, como a conhecemos. E as alegações de posteriores embelezamentos da parte de escritores profissionais não ficam de pé, se comparadas com as Crônicas, à luz de todos os dados objetivos estudados e julgados com imparcialidade. (Para maiores informações a respeito do midraxe como gênero literário, remetemos o leitor ao artigo sobre "Midrash", na Encyclopaedia Brittanica, 14. edição, 15: 415-6.)



Devemos considerar Jonas uma história real?

O livro de Jonas tem sido com freqüência desafiado quanto à sua credibilidade e valor histórico, por causa das aventuras espantosas que narra, a respeito do profeta de Gate-Hefer. Como pode um homem salvar-se da morte por afogamento mediante os bons ofícios de uma baleia (ou "grande peixe"), que o guardou em seu ventre com toda segurança durante três dias e, a seguir, vomitou-o na praia são e salvo? Como poderia uma cidade pagã tão grande como Nínive comover-se diante de um estrangeiro desconhecido, que lhe falou em língua estrangeira e ameaçou-a de destruição da parte de um Deus de quem nada sabia, de tal modo que todo o povo se pôs a chorar, jejuar e orar para que fossem poupados da terrível destruição? Não deveríamos, portanto, tomar Jonas como um conto histórico com propósitos alegóricos, tencionando arrancar os judeus da Palestina do século v a.C. de suas idéias nacionalistas preconceituosas, próprias de uma mentalidade estreita, e encorajá-los a que evangelizassem as nações pagãs ao seu redor?

Há várias fraquezas nesta teoria moderna, tão bem aceita no meio teológico. O mais importante argumento contra esse assunto é que, de acordo com Mateus 12.40, Jesus, o Filho de Deus, cria ser Jonas real. Ele o declarou ao dizer: "Pois assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre de um grande peixe, assim o Filho do homem ficará três dias e três noites no coração da terra". Essa passagem coloca a questão na perspectiva correta. Jesus declara aqui que a experiência de Jonas no ventre da baleia foi um tipo de morte, sepultamento e ressurreição, fatos que o aguardavam entre a sexta-feira Santa e a manhã de domingo. A iminente experiência de Cristo, que certamente foi histórica, serve de base à experiência do profeta Jonas. Se o antítipo foi histórico, o tipo também o é. Nenhum episódio fictício do passado pode servir como tipo profético com um cumprimento literal no futuro. Ficção corresponde a ficção; os fatos a fatos. Todos os outros tipos de Cristo no at foram históricos (o fato de Isaque quase ser sacrificado no monte Moriá, o sumo-sacerdote Melquizedeque, Moisés, Davi, Salomão são tipos de Cristo), como o foram os eventos de Êxodo a que se refere 1 Coríntios 10 numa série de exemplos para os cristãos nos dias de Paulo.

A espantosa reação de Nínive perante a pregação de Jonas, ainda que nos pareça improvável, foi confirmada historicamente por Jesus, quando o Senhor disse: "Os homens de Nínive se levantarão no dia do juízo com esta nação e a



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condenarão; pois eles se arrependeram com a pregação de Jonas, e agora está aqui o que é maior do que Jonas" (v. 41). Se na realidade eles nunca se arrependeram (como os racionalistas da alta crítica querem fazer-nos crer), qualquer julgamento escatológico sobre os contemporâneos de Jesus seria totalmente injusto. Cristo afirmou que os ninivitas de fato se humilharam e estabeleceram um grande exemplo para os israelitas de seus dias. Todavia, se os habitantes de Nínive não se arrependeram e Jonas foi apenas um conto folclórico, aquele registro não podia envergonhar os judeus contemporâneos de Jesus, por causa de sua incredulidade. No entanto, Cristo tinha certeza de que tudo aquilo acontecera, segundo o relato do livro de Jonas. Portanto, seus verdadeiros seguidores também devem crer assim.
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