Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Zacarias


Que sólidas evidências existem de que Zacarias 9-14 foi escrito pelo mesmo autor de Zacarias 1-8?

Temos aqui um assunto difícil que requer uma discussão longa, técnica, cheia de envolvimento, para que seja entendido com propriedade. Discuti esse registro bíblico, defendendo a unidade e autenticidade de Zacarias em minha obra Merece confiança o Antigo Testamento? Todos os argumentos usuais em prol de uma data no século iii, ou início do século ii a.C, para Zacarias, foram descritos e refutados nessas seis páginas. O período de seu ministério estendeu-se de 520, quando ajudou Ageu na campanha pró-construção do segundo templo em Jerusalém, até alguma data posterior a 480 a.C, após a derrota do exército de Xerxes na tentativa de conquistar e subjugar os gregos (cf. 9: 13). É bem possível que algumas décadas tenham decorrido entre a composição dos capítulos 1-8 e os 9-14, visto haver uma diferença de foco e estilo que apontam para uma situação posterior, na vida da segunda comunidade judaica, em relação aos capítulos anteriores, os quais estão mais intimamente relacionados à reedificação do templo (terminado em 516 a.C.) e às questões ideológicas envolvidas no empreendimento todo. No entanto, não existem boas evidências literárias para que se negue que a composição das duas partes saiu da mesma pena, ou seja, do mesmo autor.

Nota especial a respeito das dificuldades de Zacarias

Seria muito útil a diversos leitores se pudessem devotar alguma atenção ao simbolismo das visões dos capítulos 1-6 e a diversas passagens que apresentam predições, nos capítulos 7-14. Tais registros exigem estudo atento e comparações trabalhosas com todas as fontes históricas e documentos antigos, relacionados a esse período, se quisermos chegar a uma compreensão clara desse fascinante profeta. Nesta enciclopédia, no entanto, eu só poderia limitar-me a sugerir as correspondências e os cumprimentos existentes que fui descobrindo, com muito trabalho, em meu estudo, que desenvolvi em salas de aula, ao ensinar o livro de Zacarias durante trinta anos. No entanto, apresentar as conclusões sem todas as evidências de apoio, em que se baseiam, não seria útil, ao leitor. E tendo em vista que a única solução satisfatória — a apresentação de um breve comentário a respeito das partes mais difíceis, espalhadas pelos quatorze capítulos — excederia de longe os propósitos desta enciclopédia e exigiria um tratamento semelhante ao do livro de Apocalipse, decidi renunciar ao desejo de mergulhar no simbolismo de Zacarias.



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Em vez disso, remeto o leitor interessado a certas obras recentes que tratam do assunto muito bem e estão à disposição no mercado, inclusive David Baron, Vision and prophecies of Zechariah, Londres, 1918; George L. Robinson, The twelve minor prophets, New York, Doran, 1926; Charles L. Feinberg, God remembers: studies in Zechariah, Wheaton, Van Kampen, 1950. O volume 7 de Zondervan Expositors Bible Commentary inclui o comentário de Kenneth L. Barker sobre Zacarias. À vista da competência comprovada desse erudito, sua obra, a que nos referimos, é valiosíssima.

Malaquias


Qual é a melhor tradução de Malaquias 2.15? Por que nossas versões surgem com textos tão diferentes entre si?

Malaquias emprega um estilo especial de conversação, ao discutir as acusações que Deus lança contra seu povo apóstata, espiritualmente rebelde, em Jerusalém. Numa conversa comum, informal, é provável que omitamos certas palavras as quais estariam implícitas no contexto. Visto que os vocábulos no hebraico não têm terminações referentes a casos, como no grego, às vezes é difícil distinguir o relacionamento existente entre os substantivos e o verbo, numa sentença. É o que acontece, por exemplo, com as frases desse versículo tão difícil, na tradução kjv: "Não fez ele um? No entanto, ele tinha o resíduo do Espírito. E por que um? Para que pudesse procurar uma semente piedosa. Portanto, cuida de teu espírito, e que ninguém trate traiçoeiramente da mulher de sua juventude". A ara diz: "Ninguém com um resto de bom senso o faria. Mas que fez um patriarca? Buscava descendência prometida por Deus. Portanto, cuidai de vós mesmos, e ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade".

Há alguns problemas relacionados à tradução kjv, o primeiro dos quais é que a primeira cláusula aparece como pergunta. No entanto, no hebraico bíblico em geral uma pergunta negativa vem antecipada por uma partícula interrogativa, ha-. Mas ha ocorre com muita freqüência em perguntas negativas. O segundo problema é que essa construção não dá um sentido muito claro, nem se alinha ao fluxo de pensamento que a precede. Em terceiro lugar, a referência a "um" é um tanto mistificadora; quem é esse "um" de que se fala nas primeiras duas sentenças desse versículo? O melhor meio de responder a estas perguntas é estudar o contexto que antecede esse versículo, de modo que se descubra a contribuição que esse versículo em particular possa oferecer para que o pensamento fique completo.

O versículo 10 apresenta a acusação da parte de Deus contra os habitantes de Jerusalém, que se divorciaram de suas primeiras esposas, as quais eram judias, com o objetivo de casar-se de novo com mulheres estrangeiras, mais jovens, cujas crenças eram pagãs. Tal envolvimento em casamentos mistos constituía grave violação da lei de Deus, conforme a revelação dada a Moisés (cf. Êxodo 34.16; Deuteronômio 7.3, 4), e essa delinqüência levava à adoração de ídolos. Tal perigo está bem delineado no versículo 11: "Judá tem sido desleal [...] profanou o santuário do Senhor [...] e se casou com adoradora de deus estranho". Os versículos 12 e 13 revelam que essa traição é a razão por que Deus se recusa a responder às orações dos adoradores judaicos, que se aproximam de seu altar e pedem-lhe uma bênção. Diz Malaquias que Deus não lhes aceita as ofertas, por causa da "traição" que praticaram contra suas esposas envelhecidas, porém legítimas. A todos esses ofensores da lei o Senhor diz: "... sendo ela a



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tua companheira e a mulher do seu acordo nupcial" — acordo sancionado com ela diante de Deus, quando se casaram (v. 14). A partir desse contexto, penetramos no versículo 15, que diz o seguinte (segundo a ordem das palavras no texto hebraico):

"E/ mas/ no entanto/ nenhum o fez/ feito [welō’ ‘ehād ‘ãśāh] e/ mas/ enquanto/ um remanescente do Espírito/ espírito para ele/ Ele [ûše’ārrûah lô]; e que/ por que/ o que procura o Deus da posteridade/ de Deus? [ûmāh hā’ehād meḇaqqēš zera‘ ’elōhîm]. Portanto, cuidai de vosso espírito, e contra a esposa de vossa mocidade não ajais traiçoeiramente [ûḇe’ēšeṯ ne‘ûreykā ’al-yiḇgōḏ]."

A kjv toma Iavé como sujeito de "fez" (‘aśah) e presume que a intenção é o casal original de noivos (seguindo a pista de Gênesis 2.24: "tornando-se os dois uma só carne" [ḇāśār ’ehād]"). É certo que essa é uma tradução possível, conquanto seja necessário torná-la interrogativa ("Não fez ele um"), ainda que a partícula interrogativa ha- é quase obrigatória antes da negativa lō’, segundo o uso bíblico normal. Uma interpretação muito mais direta seria a seguinte: "Mas ninguém fez [assim]" (i.e., ninguém tratou traiçoeiramente a esposa de sua mocidade, sua primeira esposa, a que adorava Iavé — conforme fica implícito no versículo anterior). A rsv faz de ’ehāḏ o sujeito, mas entende que se refere ao único Deus; mas a seguir engaja-se numa paráfrase livre, no resto da sentença, e elimina de vez o segundo hā’ehāḏ, dizendo: "e sustentou para nós o espírito de vida".

Então, se a primeira cláusula refere-se ao judeu que manteve a fé, ao lado de sua esposa original, a segunda provavelmente também relaciona-se a ele: "Mas ninguém que [tomando o vau conetor û antes de še’ār como cláusula circunstancial ou virtual-relativa] tenha o resíduo do Espírito ['tenha' é expresso regularmente por ("a ele') em hebraico] agiu assim". Isso significa que rûah refere-se não ao espírito humano individualmente, mas ao de Deus, que produziu fé dentro do coração de todos os verdadeiros crentes, firmes na aliança com Deus desde o princípio da humanidade. A cláusula seguinte faz então essa pergunta: "E que esse homem — o marido que guarda a aliança a qual acabamos de fazer referência — procura? Descendência divina!" Em outras palavras, o pai temente a Deus, fiel à aliança que celebrara com sua esposa judia e com o Deus a quem ambos amam e servem, procura educar seus filhos como crentes verdadeiros, os quais igualmente serão fiéis à aliança da graça. Portanto, por estas razões, os habitantes de Jerusalém são incentivados com rigor a cuidar de si mesmos e do Espírito Santo que fez deles filhos de Deus, sob a aliança, e resistam a quaisquer tentações no sentido de praticar traições contra suas esposas, ao casar-se com outras mulheres. Estas, embora sejam mais jovens e bonitas, não amam o Senhor e produzirão filhos que também rejeitarão o único Deus, preferindo adorar os falsos deuses do paganismo.

A melhor tradução desse versículo, portanto, seria algo assim: "Mas quem tem um resíduo do Espírito não age assim. Que procura tal pessoa? Uma descendência piedosa! Portanto, cuidai do vosso espírito [como verdadeiro crente que ama a aliança], e que ninguém dentre vós trate deslealmente a esposa de sua mocidade [i.e., a moça com quem ele se casou quando jovem]". Essa interpretação enquadra-se tão suavemente no fluxo do pensamento deste parágrafo, que parece quase certo ser essa a intenção do profeta. Se assim for, a tradução da nasb é preferível à da nvi, neste versículo, (nasb diz: "Mas ninguém que tem um remanescente do Espírito agiu assim. E que fez tal pessoa, enquanto aguardava a descendência piedosa?" A nvi, porém, diz: "Não os juntou o Senhor numa só pessoa? Na carne e no espírito lhe pertencem. E por que uma pessoa? Porque procurava descendência piedosa.")


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