Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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O Novo e o Antigo Testamento


Por que muitas das citações do Antigo no Novo Testamento não são literais?

Muitos estudantes da Bíblia têm notado esse fenômeno. Com freqüência tem-se explicado esse fato dizendo-se que uma tradução literal do hebraico não faz sentido em grego. Portanto, seriam necessários pequenos ajustes para conseguir-se boa comunicação. No entanto, em alguns casos, a nova linguagem chega a ser uma espécie de paráfrase solta. É o que ocorre com as citações da lxx (tradução do at para a língua grega, por eruditos judeus, em Alexandria, no Egito, durante os séculos iii e ii a.C.) De modo geral, ela é fiel ao texto original, mas em alguns casos há desvios muito perceptíveis na forma de expressão do pensamento, ainda que não haja diferenças essenciais no seu próprio conteúdo.

Alguns eruditos chegaram à conclusão, por causa de tais desvios de tradução, que os autores do nt não criam na doutrina da inspiração verbal; se acreditassem, teriam voltado atrás, ao texto hebraico, e produzido uma tradução meticulosa, exata, de sua própria palavra, ao transcrever o original para o idioma grego. Tem-se argumentado que o uso ocasional de traduções inexatas, como as que aparecem na lxx, em citações do próprio nt, demonstra a rejeição da doutrina da inerrância, pelos seus escritores apostólicos. O fato de esses autores incluírem citações da lxx, que contêm inexatidões, parece indicar uma atitude realista quanto a essa questão de inerrância bíblica. Com base na inferência de fenômenos das Escrituras, argumenta-se que a Bíblia não afirma ser inerrante.

Contradizemos essa linha de raciocínio com a seguinte réplica: A razão exata do uso da lxx enraíza-se no alcance missionário dos evangelistas e apóstolos da Igreja primitiva. A lxx já havia penetrado em todas as cidades do Império Romano às quais os judeus da dispersão haviam ido. Essa era virtualmente a única forma do at de que dispunham os judeus cristãos de cultura helena e certamente era a única forma disponível aos convertidos gentios à fé judaica, ou ao cristianismo. Os apóstolos estavam propagando um evangelho que apresentava Jesus Cristo como sendo o cumprimento das promessas messiânicas do at. Os freqüentadores das sinagogas por todo o Oriente Próximo e Mediterrâneo deviam consultar a lxx a fim de verificar a verdade das afirmações apostólicas, segundo as quais Jesus havia cumprido as promessas de Deus em sua própria pessoa e no seu trabalho. Houvessem os escritores do nt citado estas promessas em qualquer outra forma que não a da lxx, teriam engendrado incertezas e dúvidas na mente de seus ouvintes. Quando tais pessoas consultassem o at, teriam notado de imediato as discrepâncias — ainda que fossem pequeninas — e a uma voz teriam objetado: "Não é isso o que está escrito em minha Bíblia!" Os apóstolos e seus colaboradores palestinos poderiam estar bem equipados para realizar sua tradução, a partir do texto original hebraico. Todavia, teriam sido mal-sucedidos se substituíssem essa, mais literal, por aquela do at já nas mãos do povo. Na verdade, não tinham muito que escolher, senão aderir à lxx em todas as suas citações.

Mas os leitores a quem o evangelista Mateus se dirigia — e mais notavelmente o público da carta aos Hebreus — não exigiam essa aderência constante à lxx, como sendo algo necessário aos gentios. Daí decorre o fato de Mateus e Hebreus com freqüência trazerem citações do at de outras fontes, e não da forma que aparece na lxx, em geral em linguagem que se aproxima muito do texto original hebraico.


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Deve-se observar também que em alguns casos, pelo menos, as citações escriturísticas em grego (tanto as que vieram da lxx como outras) do at, apontam para variantes de textos originais, melhores do que os que chegaram até nós na Bíblia Sagrada padrão. Deve-se notar com máximo cuidado que nada disso constitui evidência de modo algum de descuido ou desconsideração da parte dos apóstolos com respeito ao texto grego, cotejado com o hebraico. Longe disso! Em alguns casos, o próprio Cristo baseou seu ensino na exegese cuidadosa do texto da Torá. Por exemplo, Ele salientou em Mateus 22.32 as implicações de Êxodo 3.6 ("Eu sou... o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó" — grifo do autor), com base no tempo presente, implícito na cláusula hebraica destituída do verbo. O Senhor declarou que Deus não falaria de si mesmo, como o Deus de meros cadáveres que apodrecem em sepulturas ("[Deus] não é Deus de mortos, e, sim, de vivos". Portanto, Abraão, Isaque e Jacó estavam vivos e muito bem, na outra vida, quando Deus se dirigiu a Moisés na sarça ardente, cerca de quatrocentos ou quinhentos anos mais tarde. De modo semelhante, a discussão de Cristo com os fariseus a respeito da identidade da pessoa a quem o salmista se refere com as palavras "meu Senhor" no salmo 110.1, gira em torno dos termos exatos empregados nessa cláusula, ou oração. Portanto, Jesus lhes perguntou: "Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é ele seu filho?" (Mt 22.45). Em outras palavras, o Messias deve não apenas ser descendente de Davi, mas seu divino Senhor também (kyrios)!

Voltando, pois, ao uso da lxx pelos apóstolos, descobrimos que essa linha de raciocínio (que citações inexatas implicam baixo prestígio para a Bíblia) na verdade não tem fundamento. Todos nós empregamos traduções das Escrituras em nossa pregação e ensino, até mesmo os que são bem versados nas línguas originais: hebraico e grego. Entretanto, o uso que fazemos de qualquer tradução em inglês, francês, português ou qualquer língua moderna de modo algum implica que abandonamos a crença na inerrância bíblica, ainda que alguns erros de tradução ocorram em todas as versões modernas. Nós as usamos a fim de ensinar a nossos leitores o Evangelho, em termos que possam verificar em suas próprias bíblias. Todavia, a maioria dos eruditos evangélicos tem o cuidado de salientar que a única autoridade final, no que concerne ao sentido das Escrituras, é o texto nas línguas originais. Não existe uma tradução infalível. Todavia, esse fato não envolve a entrega ou desistência da convicção de que os manuscritos originais da Bíblia estão isentos de erro. Devemos, portanto, concluir que o uso da lxx pelos autores do nt de modo algum implica negação da inspiração verbal ou da inerrância escriturística.



Não apresenta o at um tipo diferente de Deus, em relação ao referido no nt?

As pessoas que não estudaram cuidadosamente a Bíblia comumente pensam que o at apresenta um Deus vingativo, cheio de ira, que exige o cumprimento dos padrões de justiça, enquanto o nt revela um Deus cheio de compaixão e amor, sempre disposto a perdoar e restaurar pecadores culpados. Na realidade, porém, o at contém um número maior de versículos que falam da misericórdia e longanimidade de Deus do que todo o nt, em parte porque aquele ocupa três partes da Bíblia. Deuteronômio coloca a maior ênfase no amor fiel e infinito de Deus, pelo seu povo. Assim diz o capítulo 7.8: "Mas foi porque o Senhor os amou e por causa do juramento que fez aos seus antepassados. Por isso ele os tirou com mão poderosa e os redimiu da terra da escravidão, do poder do faraó, rei do Egito". Salmos 103.13 diz: "Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem". O v. 17 diz: "Mas o amor leal do Senhor, o seu amor eterno, está com os que o temem, e a sua justiça com os filhos dos seus filhos". Jeremias 31.3 registra essa mensagem: "E o Senhor lhe apareceu no passado, dizendo: 'Eu a amei com amor eterno; com amor leal a atraí'". O salmo 136 afirma não menos de 26 vezes: "O seu amor dura para sempre".

No nt existe uma grande demonstração do amor de Deus. De fato, a sua maior prova se vê no sacrifício de seu Filho unigênito na cruz do Calvário. E ninguém jamais conseguiu demonstrar de forma


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mais emocionante, e comovedora, o amor de Deus, do que Jesus no sermão do monte, em João 3.16, e em todos os evangelhos. É possível que não se encontrem palavras mais sublimes do que Romanos 8.31-38, as quais revelam o amor infalível e inesgotável de Deus pelos seus filhos.

Mas ao mesmo tempo deve-se observar que o nt ensina a ira de Deus com tanta força quanto o at. Assim diz João 3.36: "Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece". Romanos 1.18 declara: "Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça". De novo, em Romanos 2.5, 6, lemos: "Contudo, por causa da sua teimosa e do seu coração obstinado, você está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento. Deus 'retribuirá a cada um conforme o seu procedimento'. Declara 2 Tessalonicenses 1.6-9:

É justo da parte de Deus retribuir com tribulação aos que lhes causam tribulação, e dar alívio a vocês, que estão sendo atribulados, e a nós também. Isso acontecerá quando o Senhor Jesus for revelado lá dos céus, com os seus anjos poderosos, em meio a chamas flamejantes. Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder.

Esse tema repete-se por todo o nt, do começo ao fim, como em Apocalipse 6.15-17: "Então os reis da terra, os príncipes, os generais, os ricos, os poderosos — todos, escravos e livres, esconderam-se em cavernas e entre as rochas das montanhas. Eles gritavam à montanhas e às rochas: 'Caiam sobre nós e escondam-nos da face daquele que está assentado no trono e da ira do Cordeiro! Pois chegou o grande dia da ira deles; e quem poderá suportar?'". Nenhuma passagem do at pode comparar-se com a descrição da ira judicial de Deus, que se encontra em Apocalipse 14.9-11. Verdadeiramente nosso Deus justo e santo é "fogo consumidor" — em ambos os Testamentos — tanto no Antigo como no Novo (Dt 4.24; Hb 12.29).

Esse retrato de Deus é completamente coerente em todos os sessenta e seis livros da Bíblia. A ira divina é o outro lado de seu amor. Sendo o mantenedor da lei moral — o Senhor não seria santo, mas semelhante a Satanás se deixasse de sustentá-la — Deus precisa exercer o julgamento e sentenciar os pecadores que não se arrependeram, quer sejam demônios, ou humanos. O sacrifício de seu Filho na cruz foi a suprema exibição da indignação de Deus contra o pecado, pois na hora da agonia final até Jesus clamou em agonia de alma: "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?" No entanto, a mesma cruz também representa a maior demonstração do amor infinito de Deus. Foi o Verbo encarnado que ali sofreu por nós, o Justo pelos injustos, para que pudesse levar-nos a Deus.


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