Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Os evangelhos sinóticos


Por que há diferenças entre os evangelhos sinóticos?

Dos três evangelistas sinóticos, só Mateus era um dos doze apóstolos. Parece que Marcos teria sido assistente de Pedro, pelo menos segundo a tradição da igreja; mas é provável que ele houvesse acompanhado os doze durante grande parte no final do ministério de Jesus. Há uma menção especial (que se encontra apenas em Marcos) sobre um certo jovem que fugiu nu no momento da prisão de Cristo no Getsêmani; é bem possível que o autor se refira a si próprio, embora não o afirme, nem mencione o nome. Lucas tornou-se companheiro de Paulo em sua viagem missionária à Macedônia (At 16.10) e, mais tarde, tornou-se amigo dos apóstolos em Jerusalém e da mãe de Jesus, ao dedicar-se a uma cuidadosa biografia de Cristo. Parece que não era judeu (nisso difere dos demais autores do nt: todos eram judeus), se pudermos decidir com base em Colossenses 4.11 e 14. É evidente que Lucas recebera uma excelente educação no grego literário, ainda que grande parte de suas narrativas revele um estilo hebraico simples (faça-se uma comparação entre Lucas 1.1-4 e o resto do capítulo). João fazia parte do círculo dos doze apóstolos; ele compôs seu evangelho após a publicação dos sinóticos. Grande parte de seu texto consistia de palestras proferidas perante crentes mais amadurecidos em sua compreensão da fé.

Quando comparamos entre si os relatos fornecidos pelos três sinóticos, descobrimos um determinado tipo de ênfase, ou pontos de interesse em cada um, que exerce influência controladora na seleção dos assuntos sobre o que escrevem, ou seja, devem incluir ou devem deixar de lado. Até mesmo no modo de dispor o texto há diferenças determinadas pelas próprias perspectivas. Existem cerca de cinqüenta e três unidades em comum entre si. Mateus possui quarenta e duas que lhe são peculiares, exclusivas, Marcos apenas sete, e Lucas cinqüenta e uma (encontramos noventa e duas em João), de acordo com uma tabulação feita por Westcott. Cerca da metade de Marcos encontra-se em Mateus, mas apenas uma quarta parte em Lucas. Quando procuramos casos de divergência entre os três sinóticos, pode ser útil reconhecer suas ênfases e interesses especiais ao relatar-nos a vida do Senhor Jesus.

Mateus coloca uma ênfase especial em Cristo, o Messias, ou o Rei que cumpre as promessas e predições do at. Parece que ele tem em mente uma constituinte judaica, ao incluir numerosas citações da Antiga Aliança, muitas das quais não vieram da lxx (em geral, os outros evangelistas tendem a citar a lxx), mas revela-se nele uma fidelidade maior ao Texto massorético (a forma padrão das Escrituras que chegaram até nós). Isso indica que a audiência de Mateus não dependia de uma tradução grega; e isto corrobora e confirma a idéia de que seu evangelho originalmente foi escrito "em hebraico" (esta declaração encontra-se não apenas em Papias [130 d.C.], em sua obra Exposição dos Oráculos do Senhor [citada por Eusébio], mas também em Irineu, Orígenes e Jerônimo). Quando Papias dizia "hebraico" provavelmente queria referir-se ao dialeto judaico chamado aramaico. Parece que só mais tarde o evangelho de Mateus seria traduzido para o grego, na forma que chegou até nós. Ele faz referências mais freqüentes à lei de Moisés do que os demais evangelistas e emprega a piedosa frase judaica "Reino dos céus" em substituição a "Reino de Deus" nos ensinos de Jesus. (Essa tendência de referir-se a Deus usando a palavra "céu" também é aparente na tradição



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judaica de mixná, dos rabis, não, porém, nos Targuns aramaicos, que usam a frase "Reino de Deus" quase tão coerentemente como Marcos, Lucas e João. Mateus usa "Reino dos céus" 32 vezes e "Reino de Deus" apenas quatro [12.28; 19.24; 21.31, 43]. É muito provável que Jesus tivesse usado ambas as expressões, mas Mateus usou "do céu" como a mais próxima da índole de sua audiência especial, os judeus palestinos.)

A atenção de Mateus também se focaliza no judeu palestino, em minúcias a respeito da vida judaica contemporânea e seus costumes religiosos. O ensino de Jesus objetivava corrigir interpretações erradas da Torá, que não passavam de evasões sofistas do verdadeiro objetivo da lei de Deus; elas recebem ênfase especial no evangelho de Mateus. Ele devota atenção particular ao ministério de ensino de Jesus e tende a agrupar temas logicamente ligados, em blocos separados, dos quais temos quatro exemplos mais significativos. Os mais proeminentes são: 1) o sermão do monte (que talvez foi pregado de uma vez, embora pudesse ter sido apresentado em repetição em outras ocasiões, a julgar-se pelo sermão mencionado em Lc 6.17-49); 2) as parábolas do reino, de modo semelhante registradas em Mateus 13.1-52, que tendem a ocorrer de modo separado em Marcos e Lucas; 3) o sermão no jardim das Oliveiras de Mateus 24 que não difere substancialmente de Marcos 13 e Lucas 21. Todavia, se o considerarmos ligado a Mateus 25 (as virgens imprudentes, a parábola dos talentos e o julgamento das nações), representa um agrupamento que não se encontra nos demais evangelhos; e 4) a longa denúncia da hipocrisia farisaica de Mateus 23, que não se encontra nos outros três.

Há também um registro interessante sobre o tema da salvação mediante Cristo, como objetivando primordialmente os judeus (em cumprimento das promessas do at e o alargamento de sua abrangência às nações gentílicas, de acordo com a Grande Comissão [Mt 28.16-19]). Mas Jesus sempre enfatizou que sua missão primordial era buscar "a ovelha perdida da casa de Israel" (15.24), o que se comprova na tendência do Senhor de evitar as áreas gentílicas ao redor da Palestina (10.5). (Só Marcos 7 menciona a breve visita de Jesus à região de Tiro.) Cristo até animou seus discípulos a seguir os ensinos da lei de Moisés, segundo os escribas e fariseus (23.2). Todavia, só Mateus registra a visita dos magos, logo após o nascimento de Jesus (2.1-12), como que enfatizando o alcance do governo de Cristo sobre todas as nações da Terra. Ao registrar a parábola dos lavradores maus, Mateus menciona o texto completo do julgamento de Jesus sobre seus patrícios incrédulos: "Portanto, eu lhes digo que o Reino de Deus será tirado de vocês e será dado a um povo que dê os frutos do Reino" (21.43). Os textos paralelos de Marcos e Lucas resumem a declaração do Senhor dizendo simplesmente "será dado a outros".

Marcos não está muito preocupado com Jesus como o Profeta messiânico, mas se interessa por ele como o Vencedor de Satanás, do pecado, da doença e da morte — o Homem de ação que triunfa, o Servo sofredor (Is 53). Ele focaliza o dinamismo de Cristo, suas obras redentoras, em vez de a filosofia e o ensino teológico do Mestre. Em sua biografia, a ação tem movimentos rápidos, e sua palavra-chave é "imediatamente" (euthys). A tradição da igreja de que Marcos de início havia servido ao lado de Barnabé e Paulo e depois se tornara assistente de Pedro em Roma (se é que de fato Pedro esteve em Roma) pode ser correta. Se assim for, grande parte de sua narrativa a respeito de Cristo seria um resumo da apresentação que o próprio Pedro faria da vida e das obras do Senhor, com a ênfase nos sofrimentos de Cristo e nos acontecimentos da semana da paixão (capítulos 11-16), quase dois quintos do texto inteiro do evangelho. As referências a Simão, o cireneu, que ajudou a carregar a cruz de Jesus, como "pai de Alexandre e Rufo" podem ligar-se ao Rufo mencionado em Romanos 16.13, membro da comunidade cristã em Roma.

Marcos apresenta várias citações interessantes — ipsissima verba (palavras literais) — de Jesus, que falava o aramaico, sua língua materna, como por exemplo Boanērges (traduzido "filhos do trovão") em Marcos 3.17; ephphatha (para ’eṯpāttah, com o sentido de "abre-te!" em 7.34; talitha koum (i), traduzido por "menina, levanta-te!" em 5.41; e Elōi (ou melhor ainda Elî) lema sabachthani (traduzido por "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?") em 15.34. Tais palavras parecem explicações aos


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judeus da dispersão não familiarizados com o aramaico, ou aos gentios, que talvez apreciassem essas interpretações. Além disso, Marcos teve o cuidado de explicar em minúcias certos costumes religiosos judaicos (cf. 7.3ss.). Clark Pinnock resume a ênfase desse evangelista ao dizer que ele estava interessado primordialmente em apresentar Jesus como o "Filho de Deus, o glorioso Filho do homem e Redentor" (em Tenney, Zondervan Pictorial Encyclopedia, 2: 786).

Lucas realizou sua tarefa da perspectiva de um grego educado, um médico cujo maior interesse estava nas minúcias dos milagres realizados por Cristo. Ele se interessou por apresentar uma biografia abrangente, historicamente exata de Jesus, como o perfeito Filho do homem, enfatizando sua grandiosa e inexcedível ternura ao tratar das pessoas.

O grande propósito de Lucas, que ele mesmo anunciou de início, foi registrar cuidadosamente os fatos, "depois de acurada investigação de tudo desde sua origem", de tal modo que Teófilo e os demais leitores tivessem "plena certeza das verdades" a respeito das palavras e obras do Senhor Jesus. O termo akribōs kathexēs ("uma exposição em ordem") indica o método seguido por Lucas de seguir a ordem cronológica na disposição de seus textos e, também, a inclusão de elementos biográficos omitidos por outros sinóticos, os quais, no seu entender, completariam o retrato de Cristo em toda a sua majestade e grandiosidade. (Um notável desvio da ordem cronológica podemos encontrar no relato de Lucas das tentações de Cristo no deserto, embora tal exceção seja objeto de polêmica entre muitos estudiosos.) Lucas inclui mais minúcias da vida do Senhor do que os demais evangelistas. Ele descreve o contexto do nascimento de João Batista e inclui todos os pronunciamentos proféticos que acompanharam o nascimento do precursor de Cristo, bem como o de Jesus. Só Lucas registra o anúncio angelical a Maria, a visita dos pastores a Belém e o nascimento do Senhor numa estrebaria. Somente ele narra a apresentação de Cristo no templo, a profecia de Simeão e a ida do menino Jesus a Jerusalém, aos doze anos de idade. No capítulo 4, Lucas fala da rejeição do Filho de Deus pela multidão furiosa de Nazaré, e só ele relata a história da ressurreição do filho da viúva de Naim (7.11-17).

Lucas devotou grande interesse ao relacionamento de Jesus com as mulheres e crianças e à ternura e grande consideração do Senhor para com tais pessoas. Ele menciona não só as mulheres bem conhecidas como Maria e Marta (que aparecem com grande destaque em João) como também várias outras (pelo menos treze, talvez), não mencionadas em outros textos. É importante que se registre a ênfase de Jesus aos que eram considerados párias sociais, como os samaritanos e os publicanos (como Mateus [Levi] e Zaqueu), o grupo de dez leprosos (17.11-19), as mulheres de Jerusalém que choravam (23.27-31) e o ladrão arrependido pendurado na cruz ao lado do Senhor (23.29-31). Detalhes valiosos omitidos por outros evangelistas dizem respeito a fatos ocorridos no domingo da Páscoa, como o encontro com os dois discípulos no caminho de Emaús e sua primeira visita aos discípulos reunidos, após a crucificação (24.36-39). Só Lucas nos dá minúcias a respeito da ascensão de Cristo, no monte das Oliveiras (24.50-53; At 1.9-11).

Por causa de seu zelo em busca da exatidão, Lucas usou cerca de cento e oitenta termos em seu evangelho que não ocorrem em nenhum outro texto do nt, muitos dos quais são raros ou técnicos. Ele devota atenção especial a vários tipos de doenças e sofrimentos físicos, como a "grande febre" que afligia a sogra de Pedro (4.38). É digna de nota a descrição que ele faz da agonia de Cristo no jardim de Getsêmani, cujo suor corria pela sua face como grandes gotas de sangue (22.44). O outro livro de Lucas, chamado Atos, também é caracterizado por uma atenção semelhante aos pormenores. No capítulo 28, por exemplo, ele descreve o naufrágio do navio perto de Melita (Malta) e emprega pelo menos dezessete termos náuticos com exatidão técnica. Fala também da víbora que não conseguiu fazer mal a Paulo, ao feri-lo com suas presas venenosas, e da febre e disenteria que afligia a Públio.

Portanto, Lucas é preeminentemente o evangelho da humanidade de Cristo e de seu amor e ternura infinitos, como Filho do homem. Além disso, esse evangelista é também o mais abrangente de todos os quatro biógrafos de Cristo, ao fornecer tantos pormenores da vida terrena do Senhor.

O propósito dessa breve caracterização de cada um dos sinóticos é fornecer uma espécie de guia,


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uma avaliação factual, lógica, que explique a razão por que cada evangelista inclui ou exclui certos dados, ao redigir seu evangelho à sua maneira particular. Deve-se entender, porém, que os três registraram com precisão os acontecimentos do ministério de Cristo e as palavras de sua boca, ainda que só incluíssem aquilo que se encaixasse em sua abordagem pessoal. Quando a sala de certa residência é fotografada por diversos fotógrafos, a câmera pode captar diferentes ângulos e objetos, dependendo da criatividade e do interesse de cada profissional. Todas as fotos são exatas e genuínas, embora de modo algum sejam iguais. Diga-se o mesmo das notas tomadas em classe, por diferentes estudantes que assistem à aula de um professor. Cada aluno captará pelo menos algumas minúcias, que talvez não sejam anotadas pelos outros colegas. No entanto, nenhum deles estará produzindo um relatório falso do que o mestre ensinou.

De modo semelhante, devemos encaixar harmoniosamente os testemunhos dos evangelhos sinóticos. Cada um deles está atento aos pormenores que se enquadram bem em sua visualização a respeito de Jesus, pelo que haverá naturalmente inclusões e omissões que corresponderão aos objetivos específicos de cada evangelho. (Os estudantes da literatura clássica observam fenômeno semelhante no perfil que Platão traçou de Sócrates, seu amado mestre de Atenas, e a outra ênfase que lhe dá Xenofontes, outro aluno do filósofo ateniense. O primeiro demora-se na habilidade de seu mestre no diálogo, e no tratamento magistral de temas filosóficos; o segundo em sua obra Symposium concentra-se no caráter e personalidade de Sócrates, como o indicam os seus vários registros de experiências pessoais. As duas testemunhas extraem aspectos diferentes desse mestre, mas nenhum está errado!)

Quando estudamos alguns episódios importantes da vida do Senhor Jesus, pelo fato de os três evangelistas (e às vezes até mesmo João) os incluírem em seus relatos, nossa tarefa é alinhá-los lado a lado e verificar de que modo cada um se encaixa entre os demais, ou como os suplementa. Em quase todos os casos, um estudo cuidadoso produzirá um relato sintético que lembra a semelhança a um aparelho de som estereofônico que comparamos com um mais simples, ou com um trio destituído de polifonia. Alguns autores depreciam a obra de Taciano, Diatessaron (que faz uma tessitura dos elementos dos quatro evangelhos de modo que forma uma composição única, seqüencial, dos ensinos e das obras de Jesus), tendo, porém, uma justificativa duvidosa. Segue-se em essência esse mesmo método em todas as investigações ou audiências nos tribunais, quando é preciso que se ouça uma multiplicidade de testemunhas. Cada uma delas poderá contribuir com detalhes diferentes relacionados ao caso pendente, mas o juiz e o júri que ouvem os vários relatos devem ser capazes de encaixar de modo apropriado as contribuições de cada testemunha, de modo que se forme um quadro coerente, lógico, do episódio todo.

Os críticos da Bíblia que jamais receberam treinamento em leis evidenciais poderão caluniar e execrar o quanto quiserem o "método de harmonização". Todavia, quer gostem ou não, é essencialmente seguido todos os dias em que o tribunal de justiça funciona, em todo o mundo civilizado. Essa maneira tem profunda e bem definida influência sobre os procedimentos válidos da crítica textual bíblica, bem como na conduta prática a respeito de um ato impróprio, ou criminoso, ou até mesmo no caso de um contrato legal. Aconteceria, então, que os críticos acabariam descobrindo serem suas abordagens artificiais, falazes, ilógicas e basicamente eivadas de distorções e desvios, quando se debruçam sobre as Sagradas Escrituras desafiadas e desfeitas até mesmo por um defensor inexperiente e condenadas pelo juiz. Do ponto de vista de uma abordagem científica e objetiva, como a que se segue de modo responsável num processo legal, os três evangelhos sinóticos nada têm que temer no que diz respeito à credibilidade e à análise de conteúdo. Diga-se o mesmo sobre o resto das Escrituras.



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