Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Como é possível concordar Mateus 20.20 com Marcos 10.35?

Mateus 20.20, 21 declara ser a mãe de Tiago e João que se dirigiu a Jesus com o pedido de que seus filhos fossem nomeados príncipes do Senhor em seu reino futuro. Todavia, Marcos 10.35 registra que os dois apresentaram pessoalmente essa solicitação a Jesus. Qual relato é o correto? Com toda probabilidade, ambas as versões estão corretas. Seria natural que a mãe e seus dois filhos fizessem um conluio a respeito desse pedido, ficando a cargo dela preparar o caminho para ambos, ao encontrar-se com o Senhor. Logo depois os dois teriam aparecido a fim de confirmar a petição que os favoreceria.



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Podemos entender bem isso, algo tão compreensível como a estratégia seguida pelo profeta Natã que, de início, colocou a mãe de Salomão, Bate-Seba, como uma espécie de embaixadora junto ao rei idoso e adoentado, Davi (1 Rs 1.11-21). A seguir, veio ele próprio e verificou as notícias daquela mulher, segundo as quais Adonias tentava obter o trono real, como sucessor do pai, em vez de Salomão, a quem Davi havia designado herdeiro do trono (v. 22-27). Temos aqui um relato realista, extraído da vida como ela se apresenta, sem incongruências.

Quantos cegos Cristo encontrou, e quando a cura ocorreu: no momento em que ele entrava em Jericó, ou ao sair da cidade?

Em Mateus 20.29, somos informados de que Jesus e seus discípulos saíam de Jericó, quando dois cegos apelaram pela misericórdia do Senhor. Marcos 10.46 está de acordo que isso aconteceu quando Cristo saía de Jericó; mas esse evangelista menciona apenas um cego, dando seu nome: Bartimeu, filho de Timeu. Lucas 18.35 declara que "um cego" (não menciona o outro companheiro, nem dá o nome do primeiro), o qual ouviu falar de Jesus e seus discípulos que entravam em Jericó. O versículo 36 acrescenta que foi quando a multidão estava passando por ali (ochlou diaporeuomenou) que o cego começou a perguntar o que estava acontecendo. A seguir, ele se pôs a clamar, dizendo: "Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!" (v. 38). Em seguida, os líderes daquela multidão começaram a repreendê-lo, para que ficasse quieto. No entanto, o cego gritava mais ainda, repetindo as mesmas palavras. No versículo 40, Jesus ouve o clamor e pára, para atender ao pobre homem. Em seguida, o cego é levado a Jesus (como em Mateus e Marcos) e faz seu apelo pessoal a Cristo: o desejo de ver.

Só depois de compararmos os testemunhos das três pessoas que escreveram a história em seus evangelhos é que obtemos uma compreensão melhor do episódio. De Lucas 18.35, ficamos sabendo que Bartimeu foi informado da visita de Jesus a Jericó quando o Senhor e seus discípulos entravam na cidade. A seguir, à medida que a multidão passava por ali, o cego tentou atrair a atenção de Jesus ao chamá-lo pelo nome, diretamente, do lugar onde estava sentado. Parece, contudo, que de início ele não obteve sucesso algum. Teria sido só depois de Jesus entrar na cidade, dialogado com Zaqueu, ensinado ao povo a parábola das minas, estando prestes a sair de Jericó, que Bartimeu finalmente conseguiu atrair a atenção de Jesus. É possível que isso fosse possibilitado pelo fato de a multidão estar mais quieta quando Jesus partiu, do que em sua chegada. Fosse como fosse, só nesse ponto é que Jesus parou e deu ordens para que o cego fosse trazido à sua presença.

Marcos 10.46, 47 deixa isso bem claro: "Então chegaram a Jericó. Quando Jesus e seus discípulos, juntamente com uma grande multidão estava saindo da cidade, o filho de Timeu, Bartimeu, [...] estava assentado à beira do caminho pedindo esmolas. Quando ouviu que era Jesus de Nazaré, começou a gritar. Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim!" Não podemos ter plena certeza de que se trata (v. 47-48) do primeiro clamor, sem sucesso algum, à chegada de Jesus, ou se esses versículos revelam a subseqüente petição desesperada, quando Jesus saía da cidade. De Mateus 20.30, obtemos a informação mais clara de que essa última hipótese é a certa. É que Mateus 20.29 declara explicitamente que o diálogo com o cego ocorreu quando Jesus saía da cidade. Informa-nos Mateus mais ainda: Bartimeu havia ido buscar o companheiro, nesse intervalo. Parece que ele lhe falou sobre sua grande esperança de chegar à presença de Jesus, quando o Senhor estivesse saindo da cidade pelo mesmo portão pelo qual havia entrado. Talvez o outro cego não fosse um amigo íntimo, porque Bartimeu aparentemente apela a Jesus em seu próprio nome, pelo menos de início (Mc 10.48; Lc 18.39).

Bartimeu e seu companheiro anônimo movimentaram-se na direção de Jesus mais ou menos no mesmo passo. Enquanto abriam caminho até o Salvador, juntos pediram sua


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misericórdia (Mt 20.33). No entanto, por alguma razão, foi Bartimeu quem demonstrou maior energia ao importunar o Mestre, pelo que foi a ele que o Senhor dirigiu suas perguntas e advertências. A seguir, o Senhor curou o outro cego também, tendo talvez tocado os olhos de ambos com a mão, restituindo-lhes a vista (Mt 20.34). O resultado foi que ambos os homens se uniram à multidão que seguia Jesus e regozijavam-se ao testemunhar a todos que encontravam o que o Senhor havia feito por eles.

Os três relatos são complementares, de modo que alguns fatos se salientam: 1) Bartimeu teve iniciativa, de ação, e não se desencorajou, firme na fé, ao apelar a Jesus pela cura. Seu companheiro tinha personalidade menos agressiva na abordagem do Senhor, satisfeito em seguir Bartimeu e concordar com o que ele dissesse; 2) a persistência de Bartimeu era tão grande que ele não aceitaria um não como resposta, não importando quão severamente o povo o repreendesse e ordenasse-lhe que ficasse quieto. Chegou a aguardar uma segunda oportunidade para continuar a apelar para Jesus, pouco importando quanto tempo o Senhor demoraria para realizar em Jericó o que estava determinado a ser feito. Portanto, Bartimeu esperava Jesus com muita determinação, e finalmente o Senhor passou pelo mesmo portão outra vez.

Mateus estava interessado em mencionar todas as pessoas que estiveram envolvidas nesse episódio (da mesma forma como só ele, dos sinóticos, registrou o fato de que havia dois endemoninhados que se encontraram com Jesus no território de Gadara [Mt 8.28], mas tanto Marcos como Lucas falam de apenas um possesso tomado pela legião de espíritos maus). Mateus fica satisfeito em registrar o local da cura, enquanto Lucas dá atenção especial ao procedimento das pessoas, a partir do momento em que Bartimeu soube da chegada de Jesus — algo que Marcos apenas sugere, de leve, em 10.46 — pelo fato de estar interessado na persistência do mendigo em pedir a cura, até que essa se efetivasse. Quanto ao segundo cego, nem Marcos nem Lucas julgam-no bastante significativo sequer para ser mencionado; é de presumir-se que dos dois fosse a personalidade menos marcante.

Quantos jumentos foram utilizados na entrada triunfal de Jesus, em Jerusalém, no domingo de Páscoa? Um ou dois?

Mateus 21.2 menciona dois animais utilizados na entrada de Cristo em Jerusalém: a jumenta e seu filho. No relato paralelo de Marcos 11.2 e Lucas 19.30, só o jumentinho é mencionado; nada é dito a respeito de sua mãe. Isso, todavia, não é uma contradição, porque os três evangelhos estão de acordo em que Jesus cavalgou o jumentinho (pōlos) que nunca fora montado antes. A questão é a jumenta. Mas Mateus não enfeita sua narrativa; essa culpa não se lhe pode atirar. O evangelista salientou apenas (21.5) que a predição de Zacarias 9.9 cumpriu-se ao pé da letra por meio dessa ação simbólica de Cristo. Essa passagem encerra-se com estas palavras: "Eis que o seu rei vem a você, justo e vitorioso, humilde e montado num jumento [hamôr], num jumentinho [‘ayir], cria de jumenta [aṯōnōṯ]". Mateus registra que a jumenta trotava à frente de Jesus, que cavalgava sua cria (v. 7).

Qual a participação da jumenta nesse episódio? Um momento de reflexão salientará o fato de que se o jumentinho nunca antes foi cavalgado (o que era importante como elemento simbólico), ele provavelmente ainda estaria psicológica e sentimentalmente dependente de sua mãe, apesar de desmamado, a essa altura. A operação seria facilitada se a jumenta atraísse sua cria, conduzida à frente do jumentinho ao longo da estrada, na direção do portão de Jerusalém; naturalmente seu filhote a seguiria, embora não estivesse acostumado a servir de montaria e nunca tivesse andado em uma estrada.

A passagem de Zacarias não afirma explicitamente que a jumenta faria parte da montaria, na entrada triunfal; simplesmente descreve o jumentinho como a "cria de jumenta", à feição de um paralelismo poético. Todavia, Mateus acrescenta a observação de uma testemunha ocular (sendo muito possível que nem Marcos, nem Lucas, houvessem testemunhado pessoalmente o que Mateus observara), de que a



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jumenta seguia à frente de Jesus, naquela caminhada que levou o Senhor para a Cidade Santa. Não temos aqui, tampouco, uma contradição entre os relatos dos sinóticos; apenas alguns pormenores acrescentados por Mateus, alguém que contemplou a cena com seus próprios olhos.

Cristo amaldiçoou a figueira estéril antes ou depois de haver expulsado os cambistas do templo?

Em Mateus 21.12-17, lemos que depois de Jesus haver entrado triunfalmente em Jerusalém, no domingo da Páscoa, ele se dirigiu ao templo e pôs-se a expulsar do interior do recinto sagrado os que vendiam animais para os sacrifícios e os cambistas que trocavam dinheiro para os peregrinos, os quais traziam suas ofertas e dízimos para a tesouraria do santuário. Lucas 19.45, 46 traz uma versão abreviadíssima do mesmo episódio, em que se declara que a purificação do templo ocorreu quando Jesus nele entrou. Mas, em Marcos 11.11-19, está explicitado com clareza que Jesus não expulsou os vendilhões senão na segunda-feira, depois de haver amaldiçoado a figueira estéril (v. 12-14). Mateus não se refere a essa árvore senão depois de descrever a purificação do templo (21.18, 19). Lucas nem sequer menciona o incidente da figueira; só contamos, pois, com Mateus e Marcos para resolver a questão da seqüência de ações. Como poderemos conciliar as duas passagens? É óbvio que Jesus não poderia ter purificado o templo em duas tardes consecutivas, usando precisamente os mesmos termos: "A minha casa será chamada casa de oração".

Quando estudamos a técnica da narrativa de Mateus, em geral, descobrimos que o evangelista às vezes dispõe seus textos pela ordem de tópicos, ou de assunto, em vez de pela cronológica que caracteriza mais freqüentemente seus colegas Marcos e Lucas. A coletânea de ensinos de Mateus, que encontramos nos três capítulos (5-7) do sermão do monte, Jesus talvez a houvesse ensinado em certo momento, estando a multidão sentada ao pé do monte, em um nível abaixo do Senhor, no tradicional local do monte das Bem-aventuranças, junto à praia ao norte do mar da Galiléia. O fato de que algumas porções dos ensinos do sermão do monte encontrarem-se às vezes noutras passagens, em ambientes diversos, como no sermão da planície (Lc 6.20-49) e em outras passagens pode significar que Jesus com freqüência se referia a esses mesmos temas por onde passava, ao longo de seu ministério de três anos na Palestina e regiões adjacentes. Todavia, a tendência de Mateus de agrupar seus textos numa seqüência lógica de temas demonstra-se com clareza na série de oito parábolas sobre o reino dos céus que compõem o capítulo 13. Iniciada a discussão de um tema, Mateus prefere prosseguir nele até o fim; é a regra geral que ele segue.

Mateus e Marcos concordam em que tão logo Cristo entrou em Jerusalém, no domingo da Páscoa, encaminhou-se diretamente para o templo (Mt 21.12; Mc 11.11). Eles estão de acordo também que o Senhor entrou no templo nesse domingo. Marcos dá sua contribuição, dizendo que essa visita ocorreu no domingo à tarde, e o Senhor observou tudo ao seu redor. Sem dúvida, ele ficou perturbado pelo que viu e ouviu, a comercialização irreverente e barulhenta, exatamente como três anos antes, quando o Senhor expulsara os vendilhões com "um chicote de cordas" (Jo 2.13-17). Nessa ocasião, ele os havia denunciado por transformarem o Templo em "mercado" (em vez de mencionar Isaías 56.7, como o fizera no episódio da semana santa).

Diz-nos Marcos, a seguir, que Jesus nada fez em público a fim de expressar sua indignação, naquela tarde de domingo. Ao contrário, Ele voltou a Betânia — presumivelmente ao lar de Lázaro, Maria e Marta — onde passou a noite. Podemos ter certeza de que o Senhor ficou parte da noite em oração, procurando a orientação do Pai quanto ao que deveria fazer no dia seguinte. Pode muito bem ter acontecido que Jesus viu naquela figueira estéril que ele encontrara a caminho de Jerusalém, naquela segunda-feira de manhã, da semana santa, um lembrete vivido da falta de frutos em Israel, como nação de Deus. Por essa razão, usou aquela árvore como ilustração dramática de sua lição aos discípulos.

A figueira havia produzido apenas folhagem. Naquele clima, o fruto normalmente precede as folhas. (Marcos 11.13 observa que não era



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época de figos, mas parece que esta árvore em particular se recobrira de folhagem sem produção de algum fruto.) Jesus também usou o rápido ressecamento da figueira (parece que isso ocorreu na própria segunda-feira) a fim de ensinar aos discípulos que a oração com fé (e a maldição do Senhor havia tido a natureza de uma oração no julgamento daquela árvore) pode realizar maravilhas ainda maiores (como atirar montanhas ao mar; cf.Mt 21.20-22; Mc 11.20-25).

Prossegue, pois, Marcos, segundo seu método de seqüência cronológica, dizendo que Cristo voltou para Jerusalém, indo visitar o templo. O Senhor então expulsou os mercadores barulhentos, veniais, e os cambistas do recinto sagrado, usando a linguagem a que já nos referimos acima: "A minha casa será chamada casa de oração; mas vocês estão fazendo dela um covil de ladrões" (Mt 21.13; Mc 11.17; Lc 19.46). Mateus, no entanto, julgou ser mais adequado e eficiente usar sua abordagem tópica, e incluiu um ato acontecido na segunda-feira à tarde na observação inicial de domingo à tarde, enquanto Marcos preferiu seguir a estrita seqüência cronológica. (Nada diz Lucas sobre este assunto, pois não incluiu o episódio da figueira em seu evangelho.)



Mateus 22.39 ensina o amor por nós mesmos?

Mateus 22.39 contém a citação de Cristo em Levítico 19.18: "...amarás o teu próximo como a ti mesmo". Alguns concluem daí que Jesus ensinou o amor a nós mesmos, pois ninguém pode amar direito o seu próximo se não gostar de si próprio também. Pode haver uma certa verdade nisto. Mas essa interpretação envolve uma compreensão um tanto diferente da palavra "amar" — diferente de uma percepção qualquer. É certo que o segundo grande mandamento envolve o adequado respeito, a aceitação e consideração no trato do próximo. No entanto, parece-nos que é errado, e muito perigoso, afirmar que a Bíblia nos ensina o amor a nós mesmos.

É interessante que só existe uma passagem nas Escrituras que nos fala do amor a si mesmo, que é 2 Timóteo 3.1-3: "Sabe disto: nos últimos dias, sobrevirão tempos terríveis. Os homens serão egoístas [philautoi, ou 'amantes de si mesmos'], avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, ímpios, sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem[...]". É interessante analisar as categorias de fraquezas de caráter e perversões pecaminosas em que este termo, philautoi, aparece. Devemos notar com máximo cuidado que o termo "egoístas" aparece ao lado de"sem amor pela família" (astorgoi — pessoas a quem falta a afeição natural para com sua própria carne e sangue), "inimigos do bem", e "antes amigos dos prazeres do que amigos de Deus". Está inteiramente fora de dúvida que o termo "egoístas", ou "amantes de si mesmos", diz respeito a uma fraqueza de caráter, uma face sinistra do pecado. Por essa razão há pouca justificativa para um ministro, ou conselheiro cristão, referir-se ao 'amor a si mesmo' com aprovação. Será que seremos justificados em louvar aquilo que as Escrituras condenam? Dificilmente. Antes, por causa do engano, e da perversidade do coração humano (Jr 17.9), faríamos bem em assimilar o ensino das Escrituras, em vez de crer em uma falácia derivada de uma distorção sofista de termos.

O primeiro apelo ao amor egoísta ocorre em Gênesis 3.4, 5, em que a "serpente" aparece como amiga e conselheira do ser humano: "Certamente não morrerão [a despeito do que Deus teria dito]. Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão os olhos e, vocês como Deus [ou 'deuses'], serão conhecedores do bem e do mal". Ao dizer essas coisas, Satanás mexeu em uma forte percepção de amor egoísta da parte de Eva, e ela sentiu-se atraída a comer do fruto proibido. A partir desse momento, o Diabo tem apelado insistentemente ao amor egoísta — a si mesmo — ao tentar o ser humano decaído. A influência do amor a si mesmo e da vontade própria tem levado a humanidade para longe da vontade de Deus e para dentro da vergonhosa escravidão do mal. "Egoísmo" é o nome de uma doença da alma; por isso, não pode ser o remédio certo para a cura do pecado.

Então, de que forma entenderemos Mateus 22.39: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo"? Devemos observar que a Palavra ordena


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exatamente o contrário do egoísmo, visto que esse dita o amor a si mesmo em vez de ao próximo. Esse segundo mandamento ordena-nos que façamos o contrário: devemos colocar os direitos e as necessidades dos outros no mesmo nível dos nossos. Portanto, o conceito de amor ao próximo é a negação e rejeição do amor egoísta (visto que este "amor" é apenas preferência por nós mesmos). A mesma idéia é enfatizada com clareza por Cristo, ao ensinar sua "regra áurea" em Mateus 7.12: "Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam ". Devemos tratar as pessoas com a mesma consideração e amor que gostaríamos de receber das mesmas. Temos aqui, portanto, de novo a antítese do egoísmo.

Quando os primeiros cristãos da igreja em Jerusalém vendiam suas propriedades e davam o dinheiro para ser distribuído entre os mais pobres, segundo suas necessidades, havia aí demonstração de amor a todos igualmente. Ali estava uma manifestação de altruísmo, e não de egoísmo. Esse teria determinado que cada um retivesse sua propriedade para sua própria vantagem, para usufruto pessoal. A humanidade decaída já conhece esse tipo de atitude e não precisa de alguma exortação ou encorajamento da parte de conselheiros profissionais — sejam eles cristãos ou não — no sentido de incrementar o amor a nós mesmos.

O que verdadeiramente deveria ser a preocupação do conselheiro cristão é a tendência para a baixa auto-estima, ou a total auto-rejeição que com freqüência se encontram nas pessoas emocionalmente perturbadas. Quase sempre elas se desapontaram na vã tentativa de atingir seus objetivos pessoais e condenam-se pelo fracasso, por causa do sentimento de orgulho ferido. Ou foram tão rejeitadas e desprezadas pelos outros que acabam odiando-se. O psicólogo procura atacar esse autodesprezo ou auto-rejeição com a introdução de um conceito totalmente diferente que a pessoa deve fazer de si própria — no que está certo, sem dúvida. Entretanto, o remédio não está em fazer ressurgir o mesmo vício que talvez tenha contribuído para a queda desses indivíduos — e isto é importantíssimo: o amor a si próprio não é a solução. O certo é o amor a Cristo e o que procede dele. "Porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo todos morreram. E ele morreu por todos para aqueles que vivem já não vivam para si mesmos, mas para aquele que por eles que por eles morreu e ressuscitou" (2 Co 5.14, 15).

O fato de que o Filho de Deus me amou tanto, e morreu por mim, confere-me o privilégio da glória maior do que aquilo que o egoísta (amante de si mesmo) pode perseguir e obter para si mesmo. "Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em cristo. Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença escolheu, nele, antes da fundação do mundo [...] em amor, nos predestinou para ele..." (Ef 1.3, 4). Se Deus nos amou, livrou-nos, derramou sobre nós suas bênçãos e reservou para nós um lugar na glória dos céus — tudo isso por causa de sua graça, jamais devido a algum mérito ou bondade que houvesse em nós — como podemos condenar, rejeitar e desprezar-nos a nós mesmos? "Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus?" pergunta Paulo em Romanos 8.33. Se absolutamente ninguém no céu, na terra, nem no inferno pode lançar uma acusação contra os que foram justificados pelo sangue de Cristo, tampouco nós podemos desprezar-nos ou odiar-nos. Pois seria a mesma coisa de rejeitar o julgamento do amor que o próprio Deus nos concedeu (a nós que pela fé estamos em Cristo, o amado Filho de Deus).

O desprezo e o ódio a si mesmo se desfazem de todo pelo poderoso amor de Deus, que o Senhor derramou sobre nós. Ele nos chamou com uma vocação elevada e santa; convocou-nos para sermos embaixadores das cortes celestiais, fomos comissionados para pregar Cristo e a reconciliação com Deus, por meio da morte expiatória do Senhor (2 Co 5.19, 20). Ele consagrou nossos corpos para que viessem a ser templos do Espírito Santo (1 Co 6.19). Que melhor dignidade e maior glória seria possível ao homem? Devo em todos os momentos, todas as horas, todos os dias, apresentar meu corpo como sacrifício vivo diante de Deus, no altar da devoção; preciso


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clamar constantemente a Deus, para que ele me capacite a cumprir minha mordomia total, de modo apropriado, jamais desprezarei, portanto, a mim mesmo, e rejeitarei minha própria pessoa, porque verdadeiramente confio no que Deus disse a meu respeito em sua Palavra. Essa autoconfiança e essa auto-estima derivam de Jesus, pela fé, e erguem-me a alturas imensuráveis, acima do "egoísmo". Não estou perdido no amor de Cristo, mas nele eu me encontro de novo.

Como podia Zacarias, filho de Baraquias, ser o último dos mártires? E não era ele na verdade filho de Joiada?

Em Mateus 23.34, 35, Jesus diz aos escribas e fariseus que tramavam sua morte: "Por isso, eu lhes estou enviando profetas, sábios e mestres. A uns vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão nas sinagogas de vocês e perseguirão de cidade em cidade. E, assim, sobre vocês recaíra todo o sangue justo derramado na terra, desde o sangue do justo Abel, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias a quem vocês assassinaram entre o santuário e altar". Supõe-se de modo geral que Jesus referia-se a Zacarias, filho de Joiada, que fora apedrejado até morrer no pátio do templo, por ordem do rei Joás, porque ele praticou a temeridade de repreender o rei e sua corte e todo o povo, pelo pecado da idolatria. O fato está registrado em 2 Crônicas 24.20-22. Todavia, desde que esse aparente erro a respeito do nome do pai do mártir seja explicado, como falha do copista, pode-se verificar que Zacarias, filho de Joiada, que morreu em 800 a.C, de modo algum foi o último mártir do at. Por isso, ele não se equilibra nessa gangorra, face a face com Abel, que realmente foi o primeiro mártir.

A solução óbvia é começar tudo de novo, e presumir que Mateus 23.25 relata de modo correto as palavras de Jesus, e o Senhor sabia muito bem de que estava falando. Se assim for, descobriremos que o Zacarias a quem Cristo se referia era na verdade o filho de Baraquias (e não o de Joiada) e, de fato, esse foi o último mártir do at, mencionado nas Sagradas Escrituras. Em outras palavras, Cristo está relembrando ao seu auditório as circunstâncias da morte do profeta Zacarias, filho de Baraquias (Zc 1.1), cujo ministério iniciou-se por volta de 520 e encerrou-se pouco depois de 480 a.C. O at não contém o registro do que aconteceu durante as primeiras décadas do século v a.C, até cerca de 457, data do retorno de Esdras a Jerusalém. Entretanto, pode muito bem ter acontecido que, em certo ano, entre 580 e 570 a.C, Zacarias, o profeta, tenha morrido assassinado pela multidão, da mesma forma que outro de igual nome, filho de Joiada, fora martirizado cerca de três séculos antes. Visto que Jesus se referiu a Zacarias como sendo o último dos mártires do at, não pode haver dúvida alguma de que esse, na mente do Senhor, era o décimo primeiro dos doze profetas menores. Portanto, podemos concluir que este profeta morreu da mesma forma que o filho de Joiada, vítima do ressentimento popular, por causa da acusação de seus pecados.

Como existem cerca de vinte e sete pessoas com o nome de Zacarias, mencionadas no at, não é de surpreender que duas delas tenham sofrido o mesmo tipo de morte. Noutras palavras, se tomarmos Mateus 23.35 exatamente como o conhecemos, faz sentido o contexto; e não constitui uma contradição entre fatos plenamente conhecidos da história. Na ausência de quaisquer informações sobre como o profeta Zacarias teria morrido, concluímos que Jesus nos forneceu um relato fiel do que aconteceu, e podemos colocá-lo no rol dos nobres mártires dos tempos bíblicos.


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