Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Qual foi o texto exato da inscrição na cruz?

As ligeiras diferenças entre os quatro evangelistas, quanto ao texto da aitia, ou acusação criminal, contra Jesus, redigida por Pilatos e afixada como titulus sobre a cabeça de Cristo, na cruz, têm deixado perplexos os estudiosos da Bíblia, especialmente por causa da doutrina da inerrância bíblica, que se tornou preeminente nos últimos tempos. Damos abaixo a versão de cada evangelista:



Mt 27.37

"Este é Jesus, o rei dos judeus"

Mc 15.26

"O rei dos judeus"

Lc 23.38

"Este é o rei dos judeus"

Jo 19.19

"Jesus de Nazaré, o rei dos judeus"

O único elemento comum nas quatro citações é "rei dos judeus". Como podemos conciliar esses títulos? João nos dá uma pista valiosa: "Muitos dos judeus levam a placa, pois o lugar em que Jesus foi crucificado próximo da cidade, e a placa estava escrita em aramaico, latim e grego". (19.20). Se a tabuleta estava escrita em três línguas, é certo que o próprio Pilatos, ainda que versado em latim (sua língua materna) e grego (a língua que ele usava ao conversar com os que não eram romanos), dificilmente seria capaz de escrever bem em hebraico ou aramaico. (João 19.20 emprega de propósito a forma adverbial hebraisti, que segundo o uso nos evangelhos não significa "em hebraico", mas "no dialeto judaico chamado aramaico". Sabemos disto porque cada vez que a palavra hebraisti aparece, como em João 5.2; 19.13, 17; 20.16, o termo é apresentado em sua forma aramaica e transcrito em letras gregas.)

É bem provável que de início Pilatos tivesse escrito o título em latim, em forma breve. Depois, ao registrar por baixo a forma grega, poderia ter achado por bem acrescentar o nome de Jesus e a cidade de onde proviera, visto que o grego seria legível para todos os presentes, independentemente de sua origem. A versão aramaica pode ser cópia da grega, com a omissão de "nazareno". Isso poderia explicar as variações relatadas nas quatro citações.

Aventuro-me a sugerir um formato possível para o título na cruz, que seria o seguinte:

Mateus 27.37 provavelmente continha a redação aramaica, visto que seu evangelho, de acordo com Papias, originalmente fora compilado em aramaico.

Marcos 15.26 parece ser uma forma abreviada do texto latino — suposição razoável se na verdade ele ajudou Pedro em Roma e anotou por escrito os ensinos orais de seu mestre, depois de esse apóstolo ter sido martirizado. Não podemos ter certeza sobre até que ponto a tradição religiosa é confiável (especialmente se José O'Callaghan estiver certo ao datar 7q5 como Marcos 6.52, 53 como Zierstil, copiado na década de 50 d.C), mas pelo menos há alguma base para supormos que Mateus estaria inclinado ao texto original de Pilatos (eliminando o pronome demonstrativo hic, "este").

Quanto a João, seu ministério parece ter-se destinado a uma população de fala grega, por todos os locais em que serviu o Senhor. Os últimos anos de sua vida com certeza teriam sido passados em Éfeso, ou suas imediações. Podemos, portanto, esperar dele que esse seu título seja inclinado para a forma grega.

Tudo isso indica o seguinte do título sobre a cruz, de acordo com a ordem das línguas, de João 19.20: aramaico, latim e grego:

(Aramaico) אידוחיד אכלמ עושי אנד

(Latim) rex ivdaeorvm hic

(Grego) ΙΗΣΟΥΣ Ο ΝΑΖΩΡΑΙΟΣ Ο ΒΑΣΙΛΕΥΕΣ ΤΩΝ ΙΟΥΔΑΙΩΝ.



O que o centurião realmente disse enquanto observava Jesus morrer (Mt 27.54; Mc 15.39; Lc 23.47)?

Mateus 27.54 cita o centurião e os soldados que estavam de pé, fazendo a guarda da cruz de Cristo, em meio à escuridão, ao vento, terremoto e tempestade que se manifestou no momento em que o Senhor expirou. Ele teria dito: "Verdadeiramente [alēthōs] este era Filho de Deus!". O



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texto de Marcos 15.39 é praticamente o mesmo (com a adição da palavra "homem" [anthrōpos] no grego, embora já estivesse implícito pelo masculino singular do pronome demonstrativo houtos ["este"]. Em Lucas 23.47, no entanto, o centurião teria dito "Certamente [ontos], este homem era justo".

Temos aqui porventura uma discrepância? É certo que não. Os que demonstram admiração pelo desempenho de certo ator, músico, ou orador, em geral empregam mais de uma expressão laudatória, a fim de descrever seus sentimentos por esse artista — ainda que não recorram a hipérboles padronizadas: "Extraordinário! Estupendo! Colossal! Fantástico! Magnífico!" Não há a mínima razão para julgarmos que o militar de pé ao lado da cruz houvesse limitado sua apreciação a uma só sentença. Ele teria dito algo assim: "Este homem verdadeiramente era Filho de Deus. Um homem justo!" Lucas julgou "homem justo" particularmente notável, visto terem sido pronunciadas pelo executor da sentença de morte sobre o criminoso, segundo os padrões de justiça hebraicos e romanos, por blasfêmia e rebelião contra a autoridade de César. Mateus e Marcos estiveram mais impressionados pela expressão do soldado concernente à origem divina que esse percebera no réu que expirava.



As muitas discrepâncias entre as quatro narrativas da ressurreição não lançam dúvidas sobre a historicidade desse fato?

Cada um dos quatro evangelistas dá sua contribuição com pormenores valiosos sobre os eventos que cercam a ressurreição do Senhor Jesus Cristo. Nem todas as minúcias do evento estão presentes nos quatro. Algumas estão em um ou dois apenas. No entanto, nada poderia ficar mais claro do que isto: eles testemunharam o mesmo acontecimento que haveria de marcar época. Testificam que o mesmo Jesus que fora crucificado na sexta-feira ressurgira na manhã do domingo de Páscoa.

O próprio fato de que cada evangelista apresentou uma contribuição pessoal, com minúcias exclusivas, de sua própria perspectiva e ênfase, fornece a mais forte evidência a respeito da historicidade da conquista da morte e da sepultura realizada por Cristo. Um exame cuidadoso comparando-se os quatro registros entre si demonstra que de modo algum são contraditórios, a despeito das acusações nesse sentido assacadas contra os evangelhos. Será útil sintetizar os acontecimentos, a fim de chegarmos a um quadro completo do que ocorreu no domingo de Páscoa e durante as semanas que anteciparam a ascensão de Cristo.

A primeira visita das mulheres ao túmulo

No sábado à noite, três das mulheres decidiram voltar ao túmulo pertencente a José de Arimatéia. Nele haviam visto o corpo de Cristo ser depositado na sexta-feira, ao pôr-do-sol. Elas queriam revestir o cadáver do Senhor com mais especiarias, além daquilo que Nicodemos e José já haviam colocado. Três mulheres planejavam isto (Mc 16.1): Maria Madalena, Maria, esposa (ou mãe) de Tiago e Salomé. (Lucas não nos dá seus nomes; Mateus refere-se apenas às duas Marias); elas haviam comprado aquelas especiarias com seu próprio dinheiro (Mc 16.1). Parece que saíram de casa, em Jerusalém, sendo ainda muito escuro (skotias eti ousēs), embora já fosse madrugada (prōi) (Jo 20.1 ). No entanto, quando elas chegaram ao túmulo, a aurora no horizonte (tē epiphōskousē) naquela manhã de domingo (eis mian sabbatōn) (Mt 28.1). (Mc 16.2, Lc 24.1, Jo 20.1 — todos usam o dativo: tē miā tōn sabbatōn.) Marcos 16.2 acrescenta que uma pontinha do sol já havia aparecido acima do horizonte (anateilantos tou hēliou — aoristo, particípio; o Códice Beza traz o particípio presente, anatellontos, deixando implícito "ao nascer do sol").

Pode ser que enquanto estavam a caminho da sepultura, fora dos muros da cidade, um terremoto entrou em ação, mediante o qual o anjo do Senhor rolou a grande pedra circular que selava a entrada do túmulo. A aparição angelical foi tão gloriosa que cegou os guardas especialmente postados ali, os quais desmaiaram de terror, ficando como mortos (Mt 28.2-4). Dificilmente aquele fenômeno teria tido conseqüências maiores; parece que as mulheres nem o perceberam. Teria ocorrido antes de saírem de Jerusalém? Ou quando já estavam a caminho? Não há evidências de que o terremoto tenha


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destruído alguma coisa na cidade. Todavia, foi suficiente para romper o selo colocado sobre a pedra circular, que fora colocada sobre o lugar onde estava o cadáver, e fazê-la rolar de novo no trilho ou ranhura, para deixar aberto o túmulo.

As três mulheres se surpreenderam, muito alegres, ao verificar que o problema que teriam de enfrentar já estava resolvido; havia livre acesso ao corpo do Senhor, a pedra já tinha sido removida para elas (Mc 16.3, 4). A seguir entraram no sepulcro, passando ao lado dos soldados inconscientes. No túmulo depararam-se com um dos anjos, que lhes pareceu ser um jovem vestido de roupas brancas brilhantes (Mc 16.5); é possível que eles não se lhes manifestaram enquanto não descobriram a ausência do cadáver (Lc 24.2, 3). Mas logo em seguida elas verificaram que o primeiro anjo estava acompanhado, pois havia dois no túmulo. Um deles as encorajou: "Não tenham medo! sei que vocês estão procurando Jesus, que foi crucificado" (Mt 28.5). Todavia, elas estavam aterrorizadas diante do esplendor daqueles visitantes celestiais, e com o espantoso desaparecimento do corpo que esperavam encontrar no sepulcro.

O anjo prosseguiu: "Porque vocês estão procurando entre os mortos aquele que vive? Ele não está aqui! Ressuscitou! [Lc 24.5, 6], como tinha dito. [Mt 28.6]. Vejam o lugar onde haviam posto [Mt 16.6]; venham ver o lugar onde ele jazia (Mt 28.6). Ele não está aqui! Ressuscitou! Lembrem-se do que ele lhes disse, quando ainda estava com vocês na Galiléia: É necessário que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, seja crucificado e ressuscite no terceiro dia"' (Lc 24.6, 7).

Depois de os anjos terem dito essas coisas, as mulheres de fato se lembraram da predição de Cristo (especialmente em Cesaréia de Filipos); e ficaram grandemente encorajadas. Então o anjo encerrou com esta ordem: "Vão depressa e digam aos discípulos dele: Ele ressuscitou dentre os mortos e esta indo adiante de vocês para a Galiléia; ali vocês o verão. Notem que eu ja os avisei" (Mt 28.7). Após receber tão alegres notícias, as três mensageiras saíram apressadas, a fim de juntar-se ao grupo de discípulos entristecidos, na cidade (possivelmente na casa de João Marcos), e dar-lhes as boas-novas. Nem pararam pelo caminho, para informar alguém, mas foram com toda a pressa (Mc 16.8), em parte porque estavam cheias de medo e chocadas por causa do encontro com os anjos no sepulcro vazio. Ansiosas por comunicar o acontecido, voltaram para a cidade (Mt 28.8) e proclamaram a notícia aos discípulos que ali estavam.

Maria Madalena teve o trabalho de procurar Pedro e João, a quem disse atônita, sem fôlego: "Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o colocaram" (Jo 20.2). Aparentemente ela ainda não havia crido totalmente na mensagem do anjo o qual lhe dissera que o Senhor havia ressurgido, estava vivo. Confusa e espantada, ela só conseguia pensar que o corpo do Senhor não estava lá; não sabia o que havia acontecido a Jesus. Onde ele estaria agora? Por essa razão solicitava que Pedro e João voltassem lá e tentassem descobrir alguma coisa.

Pedro e João no sepulcro

Os evangelhos sinóticos não mencionam esse episódio, que para João teve a máxima importância, pelo que procurou registrá-lo com todos os pormenores. Quando os dois homens se aproximaram do sepulcro de José de Arimatéia, puseram-se a correr, ansiosos que estavam por ver o que havia acontecido (Jo 20.3, 4). João chegou ali primeiro, sem dúvida pelo fato de ser mais jovem, e poder correr mais do que Pedro. Todavia, o discípulo amado não era tão perceptivo como o amigo, pois ficou parado à entrada da sepultura, abaixado, olhando para dentro dela; lá estava a mortalha que envolvera Jesus (v. 5). Pedro, no entanto, sempre ousado e mais curioso, entrou no túmulo que, de fato, estava vazio. A seguir examinou atentamente o lençol, que se apresentava de modo inusitado. Em vez de estirado em todo o seu comprimento e largura, estava cuidadosamente dobrado e colocado à parte [entetyligmenon eis hena topon). Além disso, o soudarion ("lenço") que cobrira a cabeça de Jesus não estava solto, atirado sobre o lençol, mas colocado à parte (v. 6 e 7).

Em outras palavras, ninguém havia removido as mortalhas do cadáver de maneira usual; foi como


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se o corpo tivesse saído de seu invólucro — todo enfaixado pelos lençóis e lenço — deixando-o vazio. Esse fato era notável, pelo que Pedro chamou João e chamou-lhe a atenção para os detalhes.

De repente, o apóstolo mais jovem, João, entendeu que ninguém havia removido o cadáver daquele sepulcro. O corpo tinha simplesmente deixado a sepultura, e ali haviam ficado os panos; Jesus deixara aquelas camadas de pano sem que esse se desenrolasse! Foi quando João se convenceu do seguinte: Cristo não havia sido removido por mãos humanas; tinha ressurgido de entre os mortos. O Senhor estava vivo realmente. Eles decidiram voltar a Jerusalém e contar aos demais discípulos essas evidências espantosas de que de fato Jesus havia triunfado sobre a morte.



As entrevistas particulares com as mulheres e com Pedro

Por alguma razão, Pedro e João não disseram a Maria Madalena o que haviam descoberto. Talvez nem houvessem percebido que ela os havia seguido até o sepulcro, em seu passo muito mais lento. Na verdade, é possível que ela não tivesse chegado de volta ao sepulcro senão depois de os homens terem saído dali. Ela chegou, pois, sozinha, mas não entrou novamente, senão depois de chorar durante algum tempo. A seguir ela se curvou mais uma vez, para observar, com os olhos turvos de lágrima, o interior da sepultura (Jo 20.11). Para espanto dela, o túmulo brilhava, resplandecente, cheio de luz; e ela viu dois anjos em roupagem alva, esplêndida, sentados cada um em uma extremidade do sepulcro onde estivera Jesus (v. 12). Imediatamente, o mesmo que havia falado às três mulheres, que visitavam o túmulo pela primeira vez, perguntou-lhe: "Mulher, por que você está chorando?" Não havia ela entendido a notícia gloriosa que eles lhe haviam comunicado um pouco antes? Contudo, Maria só pensava no desaparecimento do corpo de Cristo. "Levaram embora o meu Senhor, e não sei onde o puseram", lamentou-se ela. Mas os anjos não precisaram dar resposta a essa pergunta pois observaram o vulto de Jesus atrás dela. Sabiam que a palavra do Senhor seria melhor do que qualquer coisa que dissessem.

Maria percebeu que alguém havia chegado, pelo que ela virou-se bem depressa e tentou vislumbrar, com olhos turvos de lágrima, quem seria aquele estranho. Não era pessoa de sua intimidade, foi o que ela descobriu; por isso, deveria ser o jardineiro, que cuidava daquele jardim onde José de Arimatéia instalara seu sepulcro. Conversando com o "jardineiro", ela não reconheceu a voz de Jesus, quando ele bondosamente lhe perguntou: "Mulher, por que você esta chorando? Quem você esta procurando?" (v. 15). Ela só conseguia chorar e lamentar, acusadoramente: "Senhor, o senhor o levou embora, diga-me onde o colocou e eu o levarei" — como se de alguma forma sua força feminina estivesse à altura de tão grande tarefa.

Foi nesse ponto que aquele homem estranho se revelou a ela, usando sua voz familiar ao chamá-la pelo nome: "Maria!" Ela percebeu, então, imediatamente, que o corpo que procurava estava de pé, à sua frente; deixara de ser um cadáver, pois, era um ser humano vivo, que respirava e falava — e mais do que isso, ali estava o Deus encarnado. "Rabôni!" exclamou ela (que quer dizer: "Mestre") e lançou-se a seus pés. Ela o tocou por uns breves instantes; o Senhor se desvencilhou gentilmente dizendo: "Não me segure [a frase no imperativo negativo mē mou haptou implica a descontinuação de uma ação iniciada], pois ainda não voltei para o Pai...". Se o Senhor subiu mais tarde e depois regressou, para falar aos dois discípulos que caminhavam para Emaús, e ao resto dos discípulos em Jerusalém naquela noite, não está bem claro. Mas, se ele pediu a Maria que não o tocasse, naquele momento, naquele dia, e os discípulos tiveram plena permissão de tocá-lo naquela noite, devemos inferir que Jesus subira até Deus, o Pai, no céu, e voltara à Terra para um ministério pós-ressurreição de quarenta dias.

Essa entrevista com o Senhor ressurreto foi breve, no que diz respeito a Maria; o Senhor lhe pediu que voltasse depressa aos discípulos, na cidade, e preparasse-os para recebê-lo ressuscitado."... Vá, porém, a meus irmãos e diga-lhes: Estou voltando para o meu Pai e Pai de vocês, para meu Deus e Deus de vocês" (Jo 20.17). Estas palavras confirmam definitivamente a dedução de que Cristo de fato realizou uma breve


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visita ao céu, no meio do domingo de Páscoa, antes de reaparecer a Cleofas e seu companheiro no caminho de Emaús.

No entanto, Jesus não subiu aos céus neste momento preciso, pois esperou as outras duas mulheres que, anteriormente, haviam acompanhado Madalena na primeira visita ao túmulo, ao nascer-do-sol. Parece que Maria, mãe (ou esposa) de Tiago, e Salomé haviam decidido voltar ao sepulcro vazio. Presume-se que elas haviam notado ter Madalena saído imediatamente, depois de haver conversado com Pedro e João, e não sabiam aonde ela teria ido. Logo depois de Maria Madalena haver deixado Jesus e voltado para a cidade (sem encontrar-se com as outras duas mulheres), essas se aproximavam do lugar onde encontraram os anjos, na primeira visita que fizeram ao sepulcro (Lc 24.4).

Não sabemos se as mulheres entraram outra vez no sepulcro, ou encontraram Jesus do lado de fora; parece que o Senhor se aproximou delas e as saudou (Mt 28.9). (O grego chairete aqui deve representar a palavra hebraica šālôm ou o aramaico šelāmā. O vocábulo grego quer dizer literalmente "alegrai-vos!" enquanto o termo hebraico significa "paz!".) A reação dessas duas mulheres ao ver Jesus foi semelhante à de Madalena; prostraram-se a seus pés e beijaram-nos, abraçadas ao Senhor. Jesus as tranqüilizou, enquanto se refaziam do susto de vê-lo vivo novamente: "Não tenham medo!". E deu-lhes uma ordem semelhante à que havia dado a Maria Madalena: "vão dizer [apangeilate] a meus irmãos que se dirijam à Galiléia; lá eles me verão" (Mt 28.10).

É sumamente significativo que o Senhor, em seu corpo ressurreto, revelou-se primeiramente não aos homens, aos onze apóstolos, mas a três mulheres do grupo de discípulos. Parece que ele as encontrou muito mais dispostas, mais cheias de percepção do que os seus amigos mais próximos, nos quais ele investiu tanto tempo, a maior parte dos três anos de seu ministério de ensino. Seja como for, parece-nos perfeitamente claro que Jesus decidiu honrar as mulheres com suas primeiríssimas aparições pós-ressurreição, antes de revelar-se a qualquer dos homens — até mesmo Pedro.

No entanto, devemos entender que Pedro foi o primeiro dos discípulos a ver o Senhor vivo novamente. Em algum momento, depois de Maria Madalena ter voltado para casa, após sua segunda visita ao túmulo, tendo encontrado Jesus ali, Simão Pedro teve um encontro pessoal com Jesus. Sabemos disso por intermédio de Lucas 24.34, o qual nos informa que os discípulos estavam no cenáculo, em Jerusalém, quando ele lhes disse que já havia visto Jesus, com quem conversara. Esse encontro ocorrera antes de o Senhor caminhar ao lado dos dois discípulos de Emaús, os quais voltaram a Jerusalém dizendo que haviam conversado com Jesus. Quando retornaram com suas notícias auspiciosas, julgavam que todos ficariam surpresos com a novidade, de terem conversado com o Senhor ressurreto, mas descobriram que os discípulos já estavam cientes desse fato maravilhoso. Os dois ficaram contentíssimos em encontrar imediata aceitação de suas palavras, da parte daqueles com quem conversavam, pois todos os seus amigos lhes diziam: "... que diziam: 'É verdade! O Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!'." (Lc 24.34). Presume-se que os discípulos já estivessem cientes de tudo (cf. v. 22) pelos encontros anteriores relatados a eles por Maria Madalena (que lhes dissera: "Eu vi o Senhor!", e a seguir passou-lhes a mensagem de que Jesus subira ao Pai celeste; cf. Jo 20.18) e pelas outras duas mulheres que lhes entregaram as instruções do Senhor sobre o importante encontro que teriam na Galiléia.

Não temos mais informações a respeito desse encontro pessoal de Jesus com Pedro. Por isso, não sabemos se foi antes ou depois de sua visita ao Pai, e subseqüente retorno, no domingo da Páscoa. Sabemos apenas (e até isso é discutível) que Jesus conversou com Pedro antes de ir encontrar-se com os dois discípulos no caminho de Emaús. É interessante que Paulo confirma ter Cristo aparecido de fato a Pedro, antes de revelar-se aos outros (1 Co 15.5).



O encontro com os discípulos no caminho de Emaús

O acontecimento mais importante, a seguir, naquele domingo de Páscoa, e da ressurreição de



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Jesus, é o que diz respeito a dois discípulos que não faziam parte do grupo dos onze apóstolos (Judas Iscariotes não mais existia.) Cleofas não se destacava no círculo dos seguidores de Jesus; pelo menos seu nome não é mencionado nos demais registros do nt. Quanto ao seu companheiro, nem sequer sabemos seu nome, ainda que lhe coubesse a honra de ser o primeiro a caminhar ao lado de Cristo, após sua ressurreição. Parece que Jesus escolheu esses dois discípulos que não pertenciam ao círculo dos onze a fim de deixar bem claro perante toda a igreja que ele estava igualmente à disposição de todos os crentes, ou era acessível a todos que nele pusessem sua confiança, como Senhor e Salvador, quer pertencessem a algum círculo especial, ou houvessem conhecido num período anterior ou posterior. É possível também que o Senhor julgasse que para o testemunho futuro deles ser válido perante o mundo, era necessário que estivessem plenamente convictos de sua ressurreição corporal, até mesmo à face da presunção inicial de que Ele havia morrido e desaparecido, pois aquela manifestação especial a eles seria de grande ajuda para as gerações futuras.

Uma coisa é certa: o verdadeiro crente não precisa pertencer ao grupo restrito dos apóstolos escolhidos a fim de experimentar uma transformação completa de vida e uma nova compreensão de que a existência com Cristo dura para sempre, a despeito de todas as adversidades atuais e da malignidade de Satanás, com os terrores do túmulo. Assim afirmaram os discípulos de Emaús: "Perguntaram-se um a outro: "Não estava queimando o nosso coração, enquanto eles nos falava no caminho e nos expunha as Escrituras?" (Lc 24.32). Assim foi que eles se tornaram os dois primeiros exemplos do que significa caminhar com Jesus em comunhão viva, e ouvi-lo falar a partir de diversas passagens das Escrituras Sagradas.

O relato acima encontra-se apenas no evangelho de Lucas, o evangelista que assumiu um interesse especial pelos relacionamentos pessoais ternos, calorosos, que Jesus cultivava com os seus discípulos, tanto mulheres como homens. Podemos mostrar-lhe nossa profunda gratidão (e ao Espírito Santo que o guiou) pelo fato de esse registro tão comovente ter sido incluído nos testemunhos da ressurreição de Jesus. É que esse encontro, cujo registro é mais completo do que os demais, mostra-nos como a vida pode ser transformada, a partir do desencorajamento e desapontamento para um caminhar cheio de satisfação e de frutos da fé, ao lado de um Salvador maravilhoso que derrotou o pecado e a morte, em benefício de todos os que colocam sua confiança nele.

Um fator interessante do encontro com Jesus merece um comentário especial. Como no caso de Maria Madalena, ele não apareceu aos discípulos de Emaús com seu aspecto costumeiro, quanto às feições e à voz; pelo que eles não conseguiram identificá-lo. Pensaram ser algum estrangeiro que havia chegado recentemente a Jerusalém (Lc 24.18). Só depois de o Senhor ensinar-lhes como o at predizia claramente que o Messias teria de sofrer, antes de entrar em sua glória — na verdade, só após Jesus ter-se sentado para participar de uma refeição e ter orado em agradecimento pelo pão partido, que os discípulos descobriram quem ele era. A seguir, no momento do reconhecimento, o Senhor subitamente partiu, desaparecendo de suas vistas. O súbito acontecimento mostrou-lhes que esse amigo, dotado de carne e osso, o qual podia usar as mãos para partir o pão para eles, era um ser sobrenatural. O Filho de Deus que havia triunfado sobre a morte, e ressurgido da sepultura, a fim de reassumir seu corpo, dotado de poderes para aparecer e desaparecer, segundo sua vontade e propósito, como bem entendesse.

Tão logo Jesus os deixou, eles voltaram a Jerusalém, tão rapidamente quanto suas pernas lhes permitiram. Não perderam tempo, mas se dirigiram de imediato aos discípulos reunidos em assembléia e compartilharam as notícias emocionantes do longo e bendito encontro que tiveram com o Senhor ressurreto. "Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como Jesus fora reconhecido por eles quando partia o pão" (Lc 24.35).

O encontro com os discípulos reunidos

Diz-nos Lucas que enquanto os dois concluíam seu relatório aos discípulos reunidos, o próprio



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Senhor entrou pelas portas trancadas e apareceu no meio deles (Lc 24.36), para grande espanto de todos quantos não o haviam visto ressurreto dentre os mortos. Com a graça divina Jesus os saudou com a costumeira expressão "Paz seja com vocês" (o grego eirēnē hymin sem dúvida representa o aramaico šelāmā ‘ammekôn [Jo 20.19]). A seguir, o Senhor se apressou em dissipar-lhes os temores ao mostrar-lhes as evidências físicas de sua ressurreição corporal, de sua restauração à vida. "Por que vocês estão perturbados e por que se levantam dúvidas no coração de vocês?", perguntou Jesus (Lc 24.38), enquanto lhes estendia as mãos transpassadas, para que as examinassem e removia as sandálias para mostrar-lhes as perfurações que os cravos produziram em seus pés (v. 39-40). O Senhor chegou a mostrar a cicatriz do ferimento produzido pela lança do soldado, em seu lado, quando já estava morto na cruz (Jo 20.20). "Vejam as minhas mãos e os meus pés. Sou eu mesmo! Toquem-me e vejam; um espírito não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho" (Lc 24.39).

Não podemos saber quantos se aproveitaram do oferecimento de Cristo, para que o tocassem. No entanto, alguns dos presentes acharam que até mesmo essas evidências eram espantosas demais para serem suspeitas; então, o Senhor lhes ofereceu uma prova mais contundente. "Vocês têm aqui algo para comer?" perguntou-lhes Jesus. Deram-lhe um pedaço de peixe assado, que ele se pôs a saborear, enquanto os discípulos olhavam admirados e alegres (Lc 24.42, 43).

Tendo assim demonstrado que não era outro, senão o Mestre querido, o qual ressurgira dentre os mortos, Jesus continuou a explicar-lhes, da mesma forma como havia dito aos dois discípulos de Emaús, que todas as ocorrências daquela semana estavam preditas nas Escrituras Sagradas — desde o Gênesis até Malaquias. As passagens usadas como referência eram de origem tríplice: de Moisés (i.e., do Pentateuco), dos Profetas e dos Salmos. (Observe que, a essa altura, todos os livros do at, menos o Pentateuco e Salmos, estavam classificados como "Profetas" — incluindo os históricos, Daniel e provavelmente os livros poéticos, a menos que Salmos represente todos os cinco livros de poesia.) O at todo fala a respeito do Filho de Deus. Contudo, o Senhor dirigiu-se às predições de seu ministério, sofrimento e morte, que se encontram no Pentateuco (Gn 3.15; 49.10; Dt 18.15-18, e todos os tipos de sacerdócios e sacrifícios contidos na Torá), nos Profetas (e.g., Is 7.14-9.6; 52.13-53.12), e nos Salmos (esp. 16.10 e 22), que indicam todos os eventos cujo ápice ocorreu naquele dia de Páscoa (Lc 24.44-46). Assim, o Senhor lhes assegurou que todos os eventos aparentemente trágicos dos últimos dias eram o cumprimento do plano preventivo da humanidade, decretado por Deus antes da fundação do mundo. Em vez de sentir-se intimidados e desapontados pela vergonha da cruz, deveriam ver nela a maior vitória de todos os tempos; e precisavam apregoar por toda parte as boas-novas de salvação que o Senhor, com sua expiação, comprara para todos os pecadores arrependidos, pelo mundo todo.

Esses fatos levaram Jesus a fazer o mais antigo pronunciamento da Grande Comissão. Disse ele aos discípulos que o arrependimento deveria ser pregado em seu nome a todas as nações, para perdão dos pecados, iniciando-se em Jerusalém; e eles, como testemunhas oculares, tinham a obrigação de incumbir-se dessa proclamação. Mas o Senhor reconhecia que, a fim de cumprir cabal e eficazmente essa missão, precisariam do poder divino, aquele revestimento especial que Deus havia prometido em sua Palavra (cf. Jl 2.28, 29). A seguir, Jesus concluiu sua exortação com a fórmula de comissão evangelística: "Assim como o Pai me enviou, eu os envio. E com isso, soprou sobre ele e disse: Recebam o Espírito Santo" (Jo 20.22). Esses discípulos receberam o Espírito Santo, o poder santificador, e tornaram-se sua habitação antes da concessão geral a toda a igreja, no Pentecostes. Sendo templos do Espírito Santo, a eles foi confiada a grande responsabilidade de comunicar à raça humana o conhecimento do Senhor Jesus como o caminho, a verdade e a vida, sem o qual ninguém pode vir a Deus e ser salvo (Jo 14.6).

Portanto, sendo profetas de Deus, os pregadores do Evangelho, cheios do poder do Espírito e por ele usados, deveriam levar aos pecadores perdidos, no mundo, os benefícios do Calvário.


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Todavia, visto que o homem não pode crer no Evangelho, enquanto esse não lhe for apresentado, o perdão de Deus mediante Cristo só está disponível às pessoas que foram evangelizadas pelo testemunho fiel de seus servos. Portanto, nesse sentido, "Se perdoarem os pecados de alguém [aphēte tās hamartiās]" — isto é, se os levardes a Cristo — "estarão perdoados" (Jo 20.23). Em outras palavras, tais pessoas foram contadas com os eleitos de Deus, de acordo com sua presciência e graça eletiva (o passivo perfeito grego apheōntai deixa-o implícito); e mediante os mensageiros do Evangelho de Cristo, passam a pertencer às fileiras dos perdoados e redimidos. Entretanto, segundo o mesmo critério, os que permanecem na ignorância, não têm acesso a esse perdão e a essa salvação. A impossibilidade de levar-lhes a mensagem sela-lhes o destino eterno. "... se não os perdoarem [os pecados a alguém], não estarão perdoados" (pelo próprio Deus, em sua vontade predestinadora). Cristo já havia falado desta responsabilidade solene, antes, por ocasião da confissão de Pedro a respeito de Jesus; nessa passagem Cristo havia demonstrado essa responsabilidade e poder no simbolismo das "... chaves do Reino dos céus..." (Mt 16.19). E no Pentecostes, mediante sua mensagem transformadora de corações e consciências, Pedro usou pela primeira vez o poder das chaves do reino. Ele as utilizou a fim de abrir as portas para os céus aos quase três mil que creram.

João registra que, de todos os onze, apenas um estava ausente: Tomé (cujo nome grego era Dídimo — "Gêmeo"). Talvez houvesse sido providencial que ele estivesse ausente, durante aquela reunião inicial da igreja com Cristo ressurreto, pois mais tarde ele poderia imaginar se não teria sido confundido, em sua capacidade crítica, contagiado pelo entusiasmo enganoso dos seus companheiros. Tomé foi o que insistiu em provas concretas, objetivas, para que fosse convencido intelectualmente. Ele precisou tornar-se convicto, persuadido contra sua própria vontade, visto que até então acreditara firmemente que uma vez morto, o homem chegava ao fim. Como podia um cadáver ressurgir dentre os mortos? Eis aí um conceito absurdo, impossível, se é que ele o houvesse ouvido! Portanto, ele não daria crédito nem às mais solenes declarações de seus companheiros, em quem tanto confiava, de que de fato haviam visto o Senhor ressurreto e falado com Ele (Jo 20.25). Com toda certeza, todos foram vitimados por alucinações.

Ninguém poderia jamais esperar que Tomé acreditasse em coisas tão contrárias à natureza. No entanto, seria uma semana mais tarde, no domingo seguinte ao da Páscoa, que Jesus tornou a aparecer ao grupo (cf. Jo 21.14). Agora, no entanto, o cético estava presente, aquele incrédulo que havia declarado: "Se eu não vir as marcas de pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado [i.e., onde a lança havia penetrado em seu peito], não crerei" (Jo 20.25). Quando Cristo entrou na sala, outra vez passando pelas portas trancadas, saudou-os da mesma forma anterior: "Paz seja com vocês". A seguir, dirigiu-se a Tomé, diante de quem se pôs, dizendo-lhe: "Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia".

O tipo de prova que Tomé havia exigido estava li, diante dele, de forma que não admitia outra explicação. Aquele mesmo corpo que havia sido crucificado estava perante ele. De súbito, quando Tomé tocou as marcas dos cravos nas mãos de Jesus, toda a sua incredulidade lhe pareceu infantil e indigna. Só lhe restava cair de joelhos em arrependimento e adoração, e foi o que Tomé fez, exclamando: "Senhor meu e Deus meu!" (Jo 20.28).

Passamos agora ao terceiro encontro de Jesus com seus apóstolos logo após a ressurreição quando os discípulos haviam deixado Jerusalém e partido para a Galiléia, a fim de aguardar o encontro com o Senhor, como lhes tinha prometido (Mt 28.10; Mc 16.7). Essa era uma ocasião bem menos formal, e apenas cinco discípulos estavam presentes — na pescaria, pelo menos (Pedro, Tomé, Natanael, Tiago e João). A idéia de ir pescar foi de Pedro, porque isso poderia aliviar um pouco a grande tensão de ficar esperando o Senhor, que um dia lhes apareceria. Não existe nenhuma razão aqui para inferir-se, como alguns têm feito, que esse discípulo tinha a intenção de deixar sua vocação apostólica e voltar ao seu antigo ofício de pescador. Até mesmo em


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nossos dias, muitos pastores de vez em quando relaxam suas tensões seguindo o exemplo de Pedro. À vista do seu vestuário sumário (Jo 21.7), deduzimos que era uma noite de verão; teria sido difícil pegar no sono. Fosse como fosse, eles foram à pescaria, mas nada apanharam.

Finalmente, quando o nevoeiro da manhã caiu sobre eles, perceberam um vulto na praia que os saudava. "Filhos", chamou-os o estranho, "vocês têm algo para comer?" Responderam-lhe: "Não". Então ele lhes disse: "Lancem a rede do lado direito do barco e vocês encontrarão". A sugestão lhes pareceu bastante improvável, mas atenderam-na, apesar disso. De imediato, as cordas das redes começaram a ser esticadas e puxadas, de um lado para o outro, parecendo-lhes que haviam encontrado um grande cardume! Reconheceram de imediato que se tratava de um milagre de Deus. Só Jesus seria capaz de transformar aquela pescaria fracassada em um sucesso total. "É o Senhor", exclamou João.

O resto da história é tão conhecida, que se torna desnecessário repeti-la aqui. Mas os componentes mais importantes desse incidente, no que diz respeito a João — que o colocam como último item de seu evangelho — teriam sido a correlação entre o amor e o serviço. "Simão, filho de João, você me ama...? Cuide dos meus cordeiros" (João 21.15). O amor a Cristo é absolutamente fundamental. Jesus obrigou Pedro a reafirmar seu amor por ele três vezes — correspondentes ao número que ele havia negado seu Mestre no palácio do sumo sacerdote. Nada que ele pudesse fazer pelo Senhor satisfaria ou agradaria a Jesus, a menos que fosse baseado numa afeição pessoal arrebatadora, que estivesse acima de tudo, um compromisso inquebrantável, em sincero cumprimento do primeiro mandamento, o maior de todos. Todavia, se esse amor fosse real, deveria expressar-se na forma de alcançar as pessoas, para que se tornassem povo de Deus; ovelhas e cordeiros de Deus (crianças e adultos igualmente). No caso de Pedro, pelo menos, a sua fidelidade para com Jesus representaria um dia sua própria morte (Jo 21.18, 19). Tendo grande amor a Cristo, ele também deveria estar disposto a dar a vida pelos seus "amigos".

Pode ter havido muitas outras ocasiões de estreita comunhão entre Cristo e seus apóstolos durante quarenta dias, entre o domingo de Páscoa, o da ressurreição do Senhor, e a sua ascensão aos céus, segundo Atos 1.9. Lucas simplesmente registra que Jesus era sempre visto (optanomenos) pelos seus discípulos, no decorrer daquele período, ensinando-lhes a respeito do "Reino de Deus" (At 1.3). Mas o registro do encontro final encerra-se com uma grande assembléia dos seguidores de Cristo — possivelmente o grupo se compunha de mais de quinhentos discípulos nessa época (cf. 1 Co 15.6) — em algum monte da Galiléia (Mt 28.16), cujo nome não é revelado aqui, mas poderia ter sido o Tabor, a montanha mais elevada daquela província. Foi ali que Jesus fez um apelo para que se dedicassem ao evangelismo. Ele assegurou a seus discípulos que o Pai havia dado a ele, como o Messias, toda autoridade (pāsa exousia) no céu e na terra; e até mesmo depois de sua ascensão à glória, continuaria sempre com eles, até à consumação dos séculos (Mt 28.20). A responsabilidade de seus seguidores seria a de fazer discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Deus Triuno, ensinando-as a observar todos os seus mandamentos. Mateus 28.19, 20 dá-nos o relato mais completo da Grande Comissão.

O último dia do ministério de Cristo após sua ressurreição não aconteceu na Galiléia. Esse pode ter sido o lugar onde se reuniu a maior assembléia de seus seguidores, como acabamos de ver; mas a partida do Senhor deu-se no cume do monte das Oliveiras, próximo de Betânia. Há algo especialmente adequado a esse local, como ponto de partida do Senhor, visto que na profecia de Zacarias 14.4 lemos que esse será o local para onde ele se dirigirá no término da Grande Tribulação. Quando o Senhor colocar o pé naquele monte, um grande terremoto o dividirá em duas partes, formando um extenso vale de leste a oeste.

Não temos meios de saber quantos discípulos se reuniram no cume do monte das Oliveiras, naquele encontro com o Senhor, no último dia de seu ministério terreno. Talvez houvesse quase 120 discípulos ali, a julgar pela declaração



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de Atos 1.15. É concebível que aqueles "mais de quinhentos irmãos de uma só vez" (1 Co 15.6) estivessem ali, em vez de na Galiléia. Mateus 28.16 menciona apenas os onze como fazendo parte desse número; no entanto, eles poderiam ter sido apenas o cerne, ao redor do qual reunia-se um grupo muito maior. Mas se havia tantos discípulos reunidos no monte das Oliveiras, no dia da ascensão, é improvável que mais de trezentos e oitenta deles tenham desconsiderado as solenes instruções de Cristo, desprezando a ordem para aguardar o revestimento de poder (Lc 24.49; At 1.4), quando o Espírito Santo desceria dos céus sobre eles.

Quando os discípulos se reuniram ao redor de Jesus, a fim de despedir-se dele, antes de sua partida para o céu, fizeram-lhe uma pergunta de suma importância: se o Reino de Deus iria estabelecer-se logo na terra? Eles estavam ansiosos por saber qual era o plano do Senhor, quanto ao triunfo de sua causa, e estabelecimento de sua soberania por todo o universo. Em resposta à assertiva deles, Jesus não corrige a premissa que lhes sublinha a pergunta — que o Senhor um dia estabeleceria o reino de Deus na Terra — mas indica que haveria tempos e estações intermediários, usando uma fraseologia um tanto semelhante à do sermão do monte das Oliveiras (Mt 24.5-14), como indicação clara de que muitas coisas aconteceriam antes que a presente dispensação chegasse ao fim. Era-lhes, portanto, desnecessário e inapropriado que tentassem saber a data exata da segunda vinda de Cristo; a tarefa deles era simplesmente fazer parte da Grande Comissão e divulgar o Evangelho até os confins da Terra (At 1.7, 8).

O último gesto de Jesus no cume do monte, perto de Betânia, foi erguer as mãos para abençoar seus discípulos (Lc 24.50); e nessa atitude o Senhor lentamente ascendeu ao céu, até desaparecer da vista dos discípulos, além das nuvens. Estando com os olhares fixos nos céus, mudos de espanto, surgiram de repente dois anjos (talvez os mesmos que haviam saudado as primeiras visitantes da sepultura vazia, as três mulheres) os quais lhes asseguraram que Jesus um dia retornaria à Terra da mesma forma como o viram subir. Tendo essas palavras alegres ressoado em seus ouvidos, os discípulos desceram do monte das Oliveiras, a fim de passar os próximos dez dias em comunhão e oração, até que ocorresse o derramamento do Espírito Santo em todos, no Pentecostes.

A Bíblia realmente ensina que Deus é uma Trindade?

O batismo cristão ordenado por Cristo na Grande Comissão (Mt 28.19) deve ser efetuado "em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo". Observe que o texto diz "nome" e não "nomes". A idéia é que o nome de Deus é Pai-Filho-Espírito Santo. É verdade que o termo Trindade não se encontra no texto hebraico nem no grego, na Bíblia; e tampouco aparecem termos como "soteriologia" — no entanto, existe na teologia sistemática a doutrina da salvação, também se encontra a da "hamartologia", a da "transcendência" e "imanência", ou a da "preexistência" de Cristo, ou a "cristologia". Poucas pessoas que discutem os ensinos bíblicos levantam uma bandeira vermelha e objetam contra o uso de tais termos, quando estudam a natureza das graciosas obras de Deus. Tais designações servem como rótulos convenientes, didáticos, para conceitos ou ensinos complexos a respeito de assuntos intimamente relacionados. É impossível discutir teologia como disciplina sistemática, filosófica, sem se usar esses termos técnicos. Nenhum deles se encontra na Bíblia, disso temos certeza. No entanto, todos eles formam um complexo grandioso de conceitos coerentes, organizados, que são ensinados nas Escrituras. Portanto, devemos rejeitar como irrelevante a objeção de que a palavra precisa, "Trindade", não se encontra na Bíblia.

No entanto, aventuramo-nos a insistir em que alguns dos ensinos básicos e fundamentais a respeito de Deus tornam-se praticamente incompreensíveis, sem que tenhamos uma boa compreensão da doutrina da Trindade.

Em primeiro lugar, vamos definir com clareza o que significa "Trindade". Esse termo implica que o Senhor é uma unidade que subsiste em três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo — sendo os três um só Deus. Que Deus é uno tanto



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o at como o nt o asseveram: Deuteronômio 6.4: "Ouça, ó Israel: O Senhor, o nosso Deus, é o único Senhor"; Marcos 12.29: "Respondeu Jesus: o mais importante é este: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor!"; Efésios 4.6: "[Há] um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos". Vemos aqui afirmações claras, inequívocas de monoteísmo: Deus é um só. Não há outros deuses além dele. Isaías 45.22 menciona Deus dizendo: "Voltem-se para mim e seja salvos, todos vocês confins da terra; pois eu sou Deus, e não há nenhum outro". Ou ainda Salmos 96.4, 5: "Porque o Senhor é grande e digno de todo louvor, mais temível que todos os deuses! Todos os deuses das nações não passam de ídolos [hebr. elîlîm tem conotação de 'fraco, sem valor']; mas o Senhor fez os céus". Isso se torna muito explícito em 1 Coríntios 8.5, 6: "Pois, mesmo que haja os chamados deuses, quer no céu, quer na terra (como de fato há muitos "deuses"e muitos "senhores"), para nós, porém, há um único Deus, o Pai, de quem vêm todas as coisas e para quem vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem vieram todas coisas e por meio de quem vivemos.

Mas, a Bíblia também ensina que Deus não é uma mônada estéril, mas existe eternamente em três pessoas. Isso fica implícito no registo da criação, em Gênesis 1.1-3: "No princípio Deus [elōhîm, plural na forma, tendo o final îm; esse plural para 'Deus' provavelmente é um 'plural majestático'; entretanto, compare-se Gênesis 1.26, 27, que discutimos abaixo] criou [bārā, verbo no singular, não no plural bāre’û] os céus e a terra. Era a terra, porém, estava sem forma e vazia... e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas [mostrando o envolvimento da terceira Pessoa na obra da criação]. Disse Deus [elōhîm]: Haja luz, e houve luz". Temos aqui Deus falando como a Palavra Criativa, o Verbo (Jo 1.3), que é a segunda Pessoa da Trindade.

Diz a Bíblia que cada pessoa da Trindade tem uma função especial, tanto na obra da criação como na da redenção.

O Pai é a Fonte de todas as coisas (1 Co 8.6) "... de quem vêm todas as coisas"). Ele é aquele que planejou e ordenou a redenção. "Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3.16; grifo do autor). A encarnação foi o cumprimento de seu decreto previamente anunciado em Salmos 2.7: "Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: 'Tu és meu Filho; eu hoje te gerei". Ele também deu-nos o Messias como expiação pelos nossos pecados (Is 53.6, 10). De maneira semelhante, ele concedeu o Espírito Santo a seu povo (At 2.18; Ef 1.17). Ele derramou a salvação sobre os redimidos (Ef 2.8, 9), pela fé, que também é dom de Deus. E a seu Filho entregou a Igreja (Jo 6.37).

Quanto a Deus, o Filho, foi por meio dele que toda a obra da criação se realizou (Jo 1.3; 1 Co 8.6); significa que ele era também o Senhor Deus, ao qual se refere o Salmo 90, o Criador que fez as montanhas, as colinas e toda a Terra. Ele é também o Sustentador e Preservador do universo material que ele criou (Hb 1.2, 3). No entanto, ele também é o Deus que se tornou "carne" (Jo 1.14), isto é, um verdadeiro ser humano — sem deixar de ser divino, a fim de explicar ("exegete") Deus à humanidade. Ele era a Luz que veio ao mundo para salvar os homens do poder das trevas (Jo 1.9; 8.12) por meio de sua perfeita obediência à lei e sua morte expiatória na cruz (Hb 1.3). Ele é também aquele que venceu o poder da morte, e, como o Salvador ressurreto, estabeleceu sua Igreja e comissionou-a como seu templo vivo, seu corpo e sua noiva.

O Espírito Santo é aquela pessoa da Trindade que inspirou a redação das Escrituras (1 Co 2.13; 2 Pe 1.21), e manifesta o Evangelho aos redimidos de Deus (Jo 16.14). Ele comunica os benefícios do Calvário a todos quantos verdadeiramente crêem e receberam Cristo como Senhor e Salvador (Jo 1.12, 13); e Ele penetra em suas almas a fim de santificar seus corpos como templos vivos de Deus (1 Co 3.16; 6.19), depois de terem nascido de novo pela sua graça transformadora (Jo 3.5, 6). A seguir, ele ensina aos crentes as palavras de Cristo, de modo que possam entendê-las e crer nelas (Jo 14.26; 1 Co 2.10), e dá testemunho de Jesus tanto por sinais externos como por convicção interna (Jo 15.26; At 2.33, 38, 43). Ele santifica e congrega os membros de Cristo



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num organismo vivo, que é o verdadeiro templo do Espírito Santo (Ef 2.18-22) e concede a cada membro dons especiais da graça e do poder (charismata) mediante os quais possam enriquecer e fortalecer a Igreja como um todo (1 Co 12.7-11).

O nt afirma reiterada e claramente que Jesus Cristo é Deus encarnado. Ele veio como o Verbo criador, que também é Deus (Jo 1.1-3). De fato Ele é "o Deus unigênito" (Jo 1.18; segundo os manuscritos mais antigos, os melhores, essa era a redação original) em vez de "único Filho gerado". Em João 20.28, a afirmação de Tomé, que deixara de ser incrédulo, "Senhor meu e Deus meu" foi aceita por Cristo como sua verdadeira identidade; assim comentou o Senhor: "Porque me viu, você creu? Felizes os que não viram e creram" (grifo do autor). Creram em quê? Acreditaram naquilo que Tomé acabara de reconhecer, que Cristo é Senhor e Deus!

Nas cartas de Paulo e nas epístolas gerais, encontramos outras afirmações claras sobre a deidade de Cristo:

1. Falando dos israelitas, assim diz Paulo: "... Deles são os patriarcas, e a partir deles [ōn, o particípio realmente exige essa tradução; ho ōn ('ele é') tem de ser uma construção modificadora de ho Christos, como seu antecedente] se traça a linhagem humana de Cristo, [i.e., do ponto de vista físico], que é Deus acima de todos, bendito para sempre! Amém" (Rm 9.5).

2. Em Tito 2.13, Paulo diz: "enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação [epiphaneia noutras passagens só se refere ao surgimento de Cristo, nunca de Deus Pai] de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo".

3. Hebreus 1.8 cita Salmos 45.6, 7 como prova da divindade de Cristo, ensinada no at: mas acerca do Filho: "O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre" [o hebraico usa ’elōhîm aqui].

4. Hebreus 1.10, 11 cita Salmos 102.25, 26, declarando: "No princípio [o salmo todo dirige-se a Iavé, pelo que o autor insere o vocativo Senhor aqui, partindo de um contexto anterior], firmaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; envelhecerão como vestimentas. Como roupas tu os trocarás e serão jogados fora". Aqui Cristo é mencionado como o Deus que sempre existiu, até mesmo antes da criação, que viverá para sempre, até mesmo depois de os céus terem cessado de existir.

5. Em 1 João 5.20, esse apóstolo diz: "...estamos naquele que é o verdadeiro, em seu Filho Jesus Cristo. Este [lit., esta pessoa] é o verdadeiro Deus e a vida eterna".

No que concerne às passagens do at, os seguintes fatos relacionam-se à Trindade:

1. Gênesis 1.26 cita Deus (’elōhîm) que diz: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...". Essa primeira pessoa dificilmente pode ser um plural editorial ou real, referente a uma única pessoa, a que fala, visto que tal uso não se verifica em parte alguma do hebraico bíblico. Portanto, precisamos enfrentar a pergunta: Quem são as pessoas incluídas em "façamos nós" e em "nossa". Dificilmente incluiríamos os anjos, que estariam sendo consultados, pois em parte alguma se diz que o homem foi criado à imagem deles; só de Deus. O v. 27 afirma: "Criou Deus ['elõhím], pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; o homem e a mulher os criou". O Senhor — o mesmo Deus que falou de si mesmo no plural — declara agora que criou o homem à sua imagem. Em outras palavras, o plural equivale ao singular. Só podemos entender isto em termos da natureza trinitária de Deus. O verdadeiro Deus subsiste em três pessoas, as quais são capazes de discutir entre si e executar seus planos, pondo-os em ação, juntos — sem deixarem de ser um único Deus.

Para nós, que fomos criados à imagem de Deus, essa doutrina não deveria ser difícil de entender. Existe um sentido muito


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bem definido em que temos uma natureza tríplice, ou trinitária. 1 Tessalonicenses 5.23 indica-o com clareza: "Que o próprio Deus de paz os santifique inteiramente. Que todo o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo" (grifo do autor). Com freqüência, encontramo-nos engajados em debate entre nosso espírito, alma e corpo, quando enfrentamos uma decisão moral, uma escolha entre a vontade de Deus e o desejo de nossa natureza carnal, que busca o prazer egoísta.

2. Salmos 33.6 diz: "Mediante a palavra do Senhor foram feitos os céus, e os corpos celestes, pelo sopro [rûah, Espírito] de sua boca". Aqui de novo temos o mesmo envolvimento das três pessoas da Trindade na obra da criação: o Pai decreta, o Filho, sendo o Verbo, executa o decreto do Pai, e o Espírito concede a dinâmica vital ao processo.

3. Salmos 45.6 já foi citado em conexão com Hebreus 1.8: "O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de eqüidade é o cetro do teu Reino". Mas 45.7 traz uma referência a um Deus que abençoara ao Verbo que é o perfeito Rei: "Amas a justiça e odeias a iniqüidade; por isso Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros ungindo-te com óleo de alegria". O conceito de Deus abençoando Deus só pode ser entendido em um sentido trinitário. Um conceito de Deus unitário torna essa passagem ininteligível.

4. Isaías 48.16 mostra as três pessoas em ação, na obra da revelação redentora: "Aproximem-se de mim e escutem isto: 'Desde o primeiro anúncio não falei secretamente; na hora em que acontecer, [i.e., o livramento do povo de Deus dos grilhões e da escravidão], estarei ali.' E agora o Soberano, o Senhor, me enviou, com seu Espírito". Temos aqui o Deus-homem Redentor falando (o que se descreveu a si mesmo no v. 12 dizendo: "eu sou o primeiro e eu sou o último", e no v. 13, assim: "... a minha própria mão lançou os alicerces da terra, e a minha mão direita estendeu os céus...". Agora ele diz, no v. 16: "... o Soberano, o Senhor, me enviou, com seu espírito (que nesse caso se refere a Deus, o Filho, e a Deus, o Espírito, a terceira Pessoa da Trindade). É possível que "e o seu Espírito" possa ligar-se a "me", como objeto direto de "enviou", mas no contexto do original hebraico, a impressão é que "seu Espírito" (rûah, Espírito) está ligado a adōnay yhwh ("Senhor Iavé), como mais um sujeito, em vez de um objeto. Seja como for, a terceira Pessoa torna-se distinta da primeira e da segunda, nesses versículos.

Além dos exemplos mencionados acima, de versículos do at que não fazem sentido a não ser que se admita a natureza trinitária de Deus, do Senhor triúno, existem múltiplos exemplos da atividade do "Anjo de Iavé" que se iguala ao próprio Deus. Consideremos as seguintes passagens:

1. Gênesis 22.11 descreve o momento dramático da experiência de Abraão no monte Moriá, quando estava prestes a sacrificar seu filho Isaque: "Mas o Anjo do Senhor o chamou do céu: '?Abraão! Abraão!'' Eis-me aqui', respondeu ele". O versículo seguinte prossegue, igualando esse ser celestial ao próprio Deus: "... Agora sei que você teme a Deus, porque não me negou o filho, o seu único filho". Depois, nos versículos 16 e 17, o anjo declara: "Juro por mim mesmo, declara o Senhor, que por ter feito o que fez, não me negando seu filho, o seu único filho, esteja certo de que o abençoarei e farei seus descendentes [...] numerosos...". Fica bem claro que o anjo de Iavé aqui é o próprio Deus. "Iavé" é o nome de aliança do Deus Trino, e o seu anjo também é o próprio Deus. Em outras palavras, podemos identificar o anjo de Iavé em passagens como essa, como a pré-encarnação do Redentor, Deus o Filho, já engajado na obra redentora e mediadora, antes ainda de tornar-se um homem, filho da virgem Maria.

2. Em Gênesis 31.11, 13 observamos o mesmo fenômeno; o anjo de Deus na verdade é o próprio Deus: "O Anjo de Deus me disse no


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sonho: 'Jacó!' Eu respondi: 'Eis-me aqui!' [...] Sou o Deus de Betel, onde você ungiu uma coluna...'".

3. Êxodo 3.2 declara: "Ali o Anjo do Senhor lhe apareceu numa chama de fogo que saía do meio de uma sarça". Depois, no versículo 4, lemos: "O Senhor viu que ele se aproximava para observar. E então, do meio da sarça Deus...". A identificação completa nós a temos no versículo 6: "Eu sou o Deus de seu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Então Moisés cobriu o rosto, pois teve medo de olhar para Deus". Outra vez verificamos que o Anjo do Senhor não é outro senão Iavé em pessoa.

4. Juízes 13.20 declara: "Quando a chama do altar subiu ao céu, o Anjo do Senhor subiu na chama. Vendo isso Manoá e sua mulher prostraram-se, rosto em terra". Os versículos 22 e 23 completam a identificação do anjo como sendo o próprio Senhor: '"Sem dúvida vamos morrer!' disse ele à mulher, 'pois vimos a Deus!'". Mas sua esposa lhe disse: "Se o Senhor quisesse nos matar, não teria aceitado o holocausto e a oferta de cereal das nossas mãos, não nos teria mostrado todas essas coisas e não nos teria revelado o que agora nos revelou".

À face dessa pesquisa das evidências bíblicas, concluímos que as Escrituras verdadeiramente ensinam a doutrina da Trindade, ainda que não empregue esse termo. Além disso, devemos observar que o conceito de Deus como sendo um, em essência, mas três nos centros de consciência — a que a Igreja grega se referia como três hypostases e a latina como três personae — é concepção singular, exclusiva, na história do pensamento humano. Nenhuma outra cultura ou movimento filosófico jamais apareceu com uma idéia semelhante a essa a respeito de Deus — pensamento que continua difícil à nossa mente finita, para que o entendamos. No entanto, a inabilidade nossa para compreender completamente a riqueza e a plenitude da natureza de Deus, como Trindade Santa, não deve constituir motivo para o ceticismo. Se só tivermos de aceitar aquilo que podemos entender totalmente, e nisso acreditar, estaremos, nesse caso, desesperançosamente além da redenção. Por quê? Pois jamais entenderemos plenamente como poderia Deus amar-nos de tal maneira que enviasse seu Filho Unigênito à terra para morrer por nós, pelos nossos pecados, e tornar-se nosso Salvador. Se não aceitarmos uma idéia que não podemos entender, como creríamos em João 3.16? Como receberíamos a certeza do Evangelho e salvar-nos?


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