Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Lucas


Estaria Lucas enganado sobre Quirino e o recenseamento?

Lucas 2.1 fala-nos de um decreto de César Augusto, pelo qual o "mundo" todo (oikoumenē, na verdade, significa as nações sob a autoridade de Roma) seria registrado em recenseamento para fins de cobrança de impostos. O versículo 2 especifica o tipo de censo a que se refere o texto em que José e Maria tiveram de ir até Belém e registrar-se, sendo descendentes do rei Davi. Foi esse o primeiro recenseamento realizado por Quirino (ou "Cirênio"), como governador (ou pelo menos agindo como se fora governador) da Síria. Josefo não menciona nenhum censo durante o reinado de Herodes, o Grande (morto em 4 a.C), mas registra um realizado por "Cirênio" (Antiquities, 17.13.5) logo depois de Herodes Arquelau ter sido deposto em 6 d.C: "Cirênio, o que havia sido cônsul, foi enviado por César para computar os efetivos populacionais na Síria e vender a casa de Arquelau". (Parece que o palácio do rei deposto seria vendido e o valor da venda entregue ao governo romano.)

Se Lucas data o recenseamento em 8 ou 7 a.C, e se Josefo data-o em 6 ou 7 d.C, existiria aparentemente uma discrepância de quatorze anos mais ou menos. Além disso, em vista de Saturnino (de acordo com Tertuliano, em Contra Marcião 4.19) ter sido embaixador da Síria de 9 a 6 a.C, e Quintílio Varo, o embaixador de 7 a.C. a 4 d.C (observe uma sobreposição de um ano entre os dois períodos), há dúvida quanto a se Quirino chegou realmente a ser o governador da Síria.

Como solução desse problema, notemos de início que Lucas afirma ser esse o "o primeiro" censo feito sob Quirino (hautē apographē prōtē egeneto). A menção do "primeiro" pressupõe a existência do "segundo", algum tempo depois. Portanto, Lucas estava ciente desse segundo censo feito por Quirino, em 7 d.C, a que Josefo faz alusão na passagem acima mencionada. Sabemos disso porque Lucas (que viveu muito mais perto dessa época do que Josefo) também menciona Gamaliel, que faz alusão à insurreição de Judas, o galileu, "nos dias do recenseamento" (At 5.37). Os romanos tinham o hábito de realizar um censo de 14 em 14 anos, o que se enquadra no esquema do primeiro censo em 7 a.C. e do segundo, em 7 d.C.

Todavia, seria Quirino (chamado Kyrēnius pelos gregos, por causa da ausência do q no alfabeto ático, ou talvez porque esse procônsul foi realmente um governador bem-sucedido de Creta e Cyrene, no Egito, cerca de 15 a.C.) na verdade o governador da Síria? O texto lucano diz aqui hēgemoneuontos tēs Syrias Kyrēniou ("enquanto Cirênio estava conduzindo — governava — a Síria"). Ele não é chamado de legatus (o título oficial romano para o governador de uma região), mas o particípio hēgemoneuontos é usado aqui, termo apropriado para um hēgemōn como Pôncio Pilatos (chamado de procurator, mas não de legatus).

Não se deve dar muito valor ao título oficial. Mas sabemos que entre 12 e 2 a.C, Quirino era o responsável pela captura sistemática de montanheses rebeldes, nos planaltos de Pisídia



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(Tenney, Zondervan Pictorial Encyclopedia, 5: 6), pelo que era uma personagem militar de grande prestígio, no Oriente Próximo, nos últimos anos do reinado de Herodes, o Grande. A fim de assegurar eficiência e rapidez, é possível que Augusto tenha colocado Quirino como responsável pela execução do recenseamento, na região da Síria, no período de transição entre o final da administração de Saturnino e o início do governo de Varo, em 7 a.C. Certamente, foi por causa do seu modo eficiente de executar o censo de 7 a.C. que o imperador o colocou como responsável pelo de 7 d.C.

Quanto à falta de referências seculares a um recenseamento geral do Império Romano nessa época, não há problema algum. Kingsley Davis (Encyclopaedia Britannica, 14th ed., 5: 168) declara: "A cada cinco anos, os romanos contavam seus cidadãos e propriedades, a fim de determinar seu potencial. Esse costume estendeu-se por todo o império romano em 5 a.C."



Por que a expressão "de espírito" está ausente na versão de Lucas da primeira bem-aventurança?

Mateus 5.3 registra a primeira bem-aventurança assim: "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus". Mas no texto paralelo de Lucas 6.20, Cristo diz apenas: "Bem-aventurados vocês, os pobres, pois a vocês pertence o reino de Deus". Existiria realmente aqui uma discrepância? De modo algum. São dois pronunciamentos diferentes, feitos em ocasiões distintas, em ambientes diversos.

Como está implícito o termo "Sermão do Monte", Mateus 5-7 foi pregado em uma encosta da Galiléia. Foi pronunciado principalmente para os discípulos de Jesus. (cf. Mt 5.1). O local em que a versão um tanto condensada das bem-aventuranças foi pregada, conforme registro de Lucas, não foi a montanha, mas uma planície (epi topou pedinou — Lc 6.17). Não foi anunciada apenas aos apóstolos, mas a uma grande multidão de discípulos, e ao povo em geral de todas as partes da Judéia, Jerusalém, Tiro e Sidom. Por isso, diz-se que o auditório era heterogêneo. A segunda bem-aventurança em Mateus assemelha-se à terceira de Lucas. A terceira em Mateus nem sequer aparece em Lucas. A quarta em Mateus é a segunda de Lucas, com a omissão de "e sede de justiça". A quinta, sexta e sétima em Mateus estão ausentes em Lucas; a oitava em Mateus aparece como a quarta, de Lucas, bastante alterada. É claro que se trata de duas mensagens diferentes, pronunciadas em épocas distintas. Por isso, não pode haver discrepâncias entre ambas.

Como podemos conciliar Lucas 11.23 com Lucas 9.50?

Lucas 11.23 diz (é Cristo quem fala): "Aquele que não está comigo é contra mim, e aquele que comigo não ajunta, espalha". Lucas 9.50, no entanto, cita Jesus afirmando: "Não o impeçam", disse Jesus, "pois quem não é contra vocês, é a favor de vocês". Esse último ditado parece mais expressivo, pois reveste-se de maior bondade do que o primeiro.

A dificuldade fica descontada pelo fato de que virtualmente todos os manuscritos gregos anteriores ao século viii d.C. não trazem "contra nós [...] por nós" (kath’ hēmōn... hyper hēmōn), mas antes "contra vocês [...] a favor de vocês" (kath’ hymōn [...] hyper hymōn). Em outras palavras, antes disso, todas as evidências disponíveis apontam para um texto que diz "vocês". (A razão dessa confusão é que por volta do século viii essas duas palavras gregas de sentidos tão diferentes eram pronunciadas exatamente do mesmo modo — ēmōn — e dessa forma são pronunciadas pelos nascidos na Grécia em nossos dias. Há uma considerável diferença entre o próprio Cristo e seus discípulos, pelo que não existe contradição alguma entre as duas declarações.

Entretanto, devemos notar que se a palavra "nós" (em vez de "vocês") fosse a original, exata, de Lucas 9.50, ainda assim não haveria contradição. A razão disso é que o contexto total precedente de Lucas 11.23 contém uma série de hostilidades e oposições: Cristo contra



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Belzebu (v. 15); reino contra reino (v. 17); Satanás lutando contra si mesmo (v. 18); um cidadão forte na postura de defensor de sua casa contra um possível intruso ou ladrão arrombador (v. 21). É nesse contexto que Cristo diz: "Aquele que não está comigo é contra mim". Os ouvintes de Jesus (alguns dos quais haviam sugerido que o poder libertador de Jesus era proveniente de Satanás) precisavam decidir-se diante do dilema que os atormentavam, enquanto contemplavam seus milagres e ouviam seus ensinos. Deveriam dedicar toda sua lealdade a Cristo, ou a Satanás. Precisavam saber que se uma determinada pessoa não estava realmente ao lado de Cristo, sua vida o conduz à dissolução e ao fracasso.

No contexto de Lucas 9.50, no entanto, a questão em jogo era se um discípulo (presumivelmente sincero), que não fazia parte do grupo dos apóstolos, tinha permissão para expulsar demônios em nome de Jesus. O Senhor respondeu que se tal crente não pertence aos doze, é semelhante a um deles. Deve, portanto, ser reconhecido como alguém de seu grupo, e encorajado nesse sentido. Portanto, visto dessa perspectiva, alguém que prega em nome de Jesus estava ao lado dos apóstolos, era por eles e não deveria ser considerado um inimigo. Portanto, não existe contradição entre essas duas declarações, se consideradas em seus próprios contextos — quer leiamos "por nós" quer "por vocês".



Como poderia o ladrão moribundo estar com Cristo no paraíso no dia de sua morte?

Lucas 23.43 registra a promessa de Cristo ao ladrão arrependido que estava pendurado na cruz ao lado do Senhor: "Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso". Mas Cristo só ressurgiu da sepultura no domingo de Páscoa, quando subiu ao Pai. Se o próprio Senhor não subiu ao céu senão no domingo, como poderia o ladrão arrependido ter estado no paraíso com Cristo na sexta-feira? A resposta está na localização deste lugar.

Parece que o paraíso não havia sido elevado ao céu até o domingo de Páscoa. Aparentemente Jesus se refere a ele na parábola do homem rico e Lázaro, como o lugar "junto de Abraão", para onde o pobre mendigo foi transportado pelos anjos após sua morte (Lc 16.19-31). Assim, "junto de Abraão" referia-se ao lugar onde as almas dos redimidos aguardavam até o dia da ressurreição de Cristo. Presumivelmente esse lugar equivalia ao paraíso. Ainda não havia sido elevado aos céus, mas seria uma seção do Hades (heb., še’ôl), reservado para os crentes que haviam morrido na fé, porém, sem serem admitidos à presença gloriosa de Deus, no céu, enquanto não fosse pago o preço da redenção, no Calvário.

Sem dúvida alguma, foi para o Hades que as almas de Jesus e do ladrão arrependido se dirigiram, depois de terem morrido naquela sexta-feira à tarde. Mas depois, no domingo de Páscoa, quando o Senhor ressurgiu e apareceu a Maria Madalena (Jo 20.17) e a suas duas companheiras (Mt 28.9), presumivelmente o Senhor levou consigo para a glória todos os habitantes do Hades (incluindo Abraão, Lázaro e o ladrão arrependido). Lemos em Efésios 4.8 a respeito de Cristo: "Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativos muitos prisioneiros e deu dons aos homens". Prossegue o versículo 9: "Que significa "ele subiu", se não que também havia descido às profundezas da terra?" — i.e., ao Hades. Acrescenta o versículo 10: "Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de encher todas as coisas". Presume-se que o Senhor tenha levado consigo todos os moradores do Hades (i.e., toda a população do paraíso antes da primeira ressurreição) à glória dos mais altos céus, à habitação do Deus trino.



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