Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas


Introdução: O valor da inerrância bíblica



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Introdução:

O valor da inerrância bíblica


Por toda a história da igreja, tem ficado claríssimo e bem entendido que a Bíblia, como Deus no-la concedeu, está livre de erro. À exceção dos grupos heréticos que romperam com a igreja, presumia-se que as Escrituras eram dotadas de total autoridade e dignas de confiança em tudo quanto afirmavam ser factual, quer se tratasse de teologia, quer de história, quer de ciência. Nos dias da Reforma protestante, assim afirmou Lutero: "Quando as Escrituras falam, Deus fala". Até mesmo seus oponentes católicos romanos tinham essa convicção, embora tendessem a colocar a tradição eclesiástica quase no mesmo nível de autoridade da Bíblia. Desde os dias dos primeiros gnósticos, com quem Paulo contendeu, até o advento do deísmo, no século xviii, não se manifestavam dúvidas com respeito à inerrância das Escrituras. Até mesmo unitaristas como Socíno e Miguel de Serveto baseavam sua posição na infabilidade das Escrituras.

O advento do racionalismo e do movimento deísta, no século xviii, conduziu à modificação drástica da posição de inerrância atribuída à Bíblia. Logo se demarcaram as linhas de separação, com nitidez, entre os deístas e os defensores ortodoxos da fé cristã histórica. Crescente aversão ao sobrenatural dominou a liderança intelectual do mundo protestante durante o século xix, e esse espírito cedeu lugar à "crítica histórica", tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Passou-se a supor que a Bíblia era uma coleção de sentimentos religiosos, compostos por autores humanos, completamente separados e isentos da inspiração de Deus. Se havia um poder tal como o Ser supremo, deveria tratar-se de uma força impessoal que permeia o Universo (perspectiva panteísta) ou que então estaria tão longe do homem a ponto de ser considerado totalmente outro e, como tal, inteiramente incogniscível (a alternativa de Kierkegaard). No máximo, as Escrituras poderiam oferecer apenas um tipo de testemunho que não se poderia comprovar e apontariam para a Palavra viva de Deus. Mas essa realidade jamais poderia ser adequadamente captada ou formulada como verdade proposicional.

Na primeira metade do século xx, traçaram-se com clareza as linhas que separavam os evangélicos ortodoxos dos que se opunham à inerrância escriturística. Os teólogos da crise (cujas perspectivas a respeito da revelação encontravam raízes em Kierkegaard) e os liberais, ou modernistas (que subordinavam a autoridade das Escrituras à autoridade da razão humana e da ciência moderna), rejeitaram de modo completo a doutrina da inerrância bíblica. Todos quantos se considerassem evangélicos, quer se intitulassem a si mesmos "fundamentalistas", quer não, cerraram fileiras para insistir que o at e o nt, como nos foram dados originariamente, estavam isentos de erro de qualquer tipo.

Entretanto, na segunda metade do século passado, surgiu uma nova escola, a dos "revisionistas", que ficou em preeminência, a qual assume uma postura de desafio frente à inerrância bíblica e, ao mesmo tempo, proclama ser verdadeira e integralmente evangélica. A crescente popularidade dessa posição resultou no abandono, por parte de grande número de seminários, antes evangélicos tradicionais, da posição histórica a respeito da inerrância da Bíblia, a qual até então mantinham — e isso até mesmo nos eua. Harold Lindsell documentou essa tendência em sua obra Battle for the Bible [Batalha pela Bíblia] (Grand Rapids, Zondervan, 1976), dizendo que praticamente todos os centros



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de treinamento teológico que aceitaram (ou pelo menos toleraram, julgando permissível) esse conceito modificado sobre a autoridade bíblica apresentam o padrão característico de erosão doutrinária. Parecem-se com navios que se soltaram dos ancoradouros e vagarosamente passaram a boiar sem direção no mar.

Sempre há, todavia, o período de transição, durante o qual esses seminários que se apartam da ortodoxia afirmam categoricamente — de modo especial à junta diretora da denominação e perante a igreja toda, da qual dependem quanto ao apoio financeiro — que ainda são completamente evangélicos na teologia e abraçam as doutrinas cardeais do cristianismo histórico. Eles apenas mudaram-se para o terreno mais firme, no qual poderão defender a verdade das Escrituras. Assim se expressou um dos defensores dessa posição: "Acredito que a Bíblia não contém erros, mas recuso-me a permitir que alguém de fora defina o que isso significa, obrigando-me a recorrer a extremos ridículos para defender minha fé".1 Os adeptos dessa posição invariavelmente argumentam que só eles, e mais ninguém, são advogados honestos, dignos de confiança, defensores da autoridade escriturística, visto que os "fenômenos das Escrituras" incluem erros demonstráveis (em questões de história e ciência, pelo menos), de modo que não se pode sustentar a inerrância integral e ainda manter a integridade intelectual. Os dados da evidência simplesmente não permitem a defesa bem-sucedida da posição cristã histórica das Escrituras. Até mesmo os originais em hebraico, aramaico e grego, disso podemos ter certeza, contêm erros factuais (exceto, talvez, em questões de doutrina).

Ao dar resposta a essa declaração, cabe aos evangélicos coerentes mostrar duas coisas: 1) a autoridade infalível das Escrituras seria objetivo logicamente inatingível se os manuscritos originais contivessem quaisquer tipos de erro; 2) nenhuma acusação específica de falsidade ou erro pode ser acolhida e comprovada com sucesso, à luz de todos os dados pertinentes. Por essa razão, o recurso aos fenômenos das Escrituras não nos leva à demonstração de sua falibilidade, mas, ao contrário, confirma ainda mais a inspiração divina e a origem sobrenatural da Bíblia. Por outras palavras, devemos demonstrar primeiro que qualquer alternativa que negue a infalibilidade, a ausência de erro na Bíblia, de modo nenhum constitui opção viável, visto que não conseguiria ser comprovada sem cair em contradições lógicas. Em segundo lugar, devemos demonstrar que todas as acusações ou provas de erro nos manuscritos originais das Escrituras carecem de fundamento quando examinadas à luz das regras da evidência.
Sem a inerrância, as Escrituras não podem ser infalíveis

Para todo crente professo, a autoridade do Senhor Jesus é inquestionável e suprema. Se em quaisquer das perspectivas e dos ensinos registrados no nt o Senhor pudesse ser acusado de erro ou engano, ele não poderia ser nosso divino Salvador. O cristianismo todo seria ilusão, embuste. Segue-se, portanto, que qualquer opinião sobre as Escrituras que seja contrária a Cristo deve ser de imediato e sem maiores considerações rejeitada. Se há alguma coisa de importante no nt é o testemunho da divindade de nosso Senhor e Salvador — desde Mateus, passando por todos os livros, até o Apocalipse. Todos os que se intitulam evangélicos concordam de modo cabal nesse ponto. Se esse fato é verdadeiro, segue-se que, seja o que for que Jesus Cristo aceitasse e nisso cresse, no que diz respeito à confiabilidade das Escrituras, deve ser aceito como verdadeiro, algo que está gravado na consciência de cada crente legítimo. Se Cristo cria na total exatidão da Bíblia hebraica, em todos os assuntos científicos ou históricos, devemos reconhecer que sua opinião nessas questões é correta e fidedigna em todos os aspectos. Ademais, tendo em mente a impossibilidade de Deus ser culpado de



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erro, precisamos reconhecer também que até mesmo questões de história ou de ciência, conquanto em si mesmas não teológicas, assumem importância de doutrina básica. Por que as coisas são assim? Porque Cristo é Deus, e Deus não pode enganar-se. Eis uma proposição teológica absolutamente essencial para a doutrina cristã.

O exame cuidadoso das referências que Cristo fez ao at evidencia, sem sombra de dúvida, que o Senhor aceitou integralmente como reais até mesmo as declarações mais controvertidas da Bíblia hebraica, no que concerne à história e à ciência. Seguem-se alguns exemplos:


1. Ao falar de sua morte e ressurreição, que se aproximavam, Jesus afirmou, em Mateus 12.40: "Pois assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre de um grande peixe, assim o Filho do homem ficará três dias e três noites no coração da terra". Afora qualquer tendência de proteger uma teoria, é impossível extrair dessa declaração qualquer outra conclusão senão que Jesus considerava a experiência de Jonas o tipo (ou, pelo menos, analogia claríssima) que apontava para a sua experiência, muito próxima, entre a hora de sua morte na cruz e a de sua ressurreição física, saindo da sepultura na manhã da Páscoa. Se a ressurreição foi historicamente factual e o antítipo da provação de Jonas no estômago do grande peixe, segue-se que o protótipo em si mesmo pode ter sido um fato histórico real — não obstante o ceticismo moderno a esse respeito. A realidade do fato da narrativa é confirmada também por Mateus 12.41: "Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração e a condenarão; pois eles se arrependeram com a pregação de Jonas, e agora está aqui o que é maior do que Jonas" (nvi) — isto é, o próprio Jesus. O Senhor deixa implícito que os habitantes de Nínive na verdade atenderam ao apelo e à denúncia fulgurantes de Jonas, em humildade sincera e temor — exatamente como está registrado em Jonas 3. Jesus declara que os pagãos ignorantes, que jamais tiveram conhecimento da Palavra de Deus, teriam menos culpa diante de Deus que os judeus dessa geração, que estavam rejeitando a Cristo. Esse julgamento pressupõe com toda a clareza que os ninivitas fizeram com exatidão o que Jonas registrou a respeito desse povo. Isso significa que Jesus não considerou o livro de Jonas mera ficção ou alegoria, como sugerem alguns pretensos evangélicos. Crer que Jonas é mera ficção é o mesmo que rejeitar a inerrância de Cristo e, portanto, sua divindade.
2. Outro registro das Escrituras tido como histórica e cientificamente impossível é o da arca de Noé e do Dilúvio, que encontramos em Gênesis 6-8. Entretanto, Jesus, em seu sermão no monte das Oliveiras, afirmou claramente que "nos dias anteriores ao Dilúvio, o povo vivia comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca; e eles nada perceberam, até que veio o Dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá na vinda do Filho do homem" (Mt 24.38, 39). De novo Jesus estava predizendo que um acontecimento ocorreria no futuro, como antítipo de um fato registrado no at. Portanto, o Senhor deve ter considerado o Dilúvio história verídica, exatamente como registra o livro de Gênesis.
3. O registro de Êxodo sobre a alimentação de mais de dois milhões de israelitas pelo milagre do maná, durante quarenta anos no deserto do Sinai, é rejeitado por alguns estudiosos que intitulam-se evangélicos, chamando-o lenda. Mas o próprio Jesus o aceitou como fato histórico ao dizer: "Os seus antepassados comeram o maná no deserto, mas morreram" (Jo 6.49). A seguir, no versículo seguinte, o Senhor se apresenta como o antítipo, isto é, como o verdadeiro Pão vivo, enviado do céu pelo Pai.
4. Podemos afirmar com tranqüilidade e segurança que jamais o Senhor Jesus, ou qualquer de seus apóstolos, fez a menor insinuação de que houvesse alguma inexatidão de ordem científica

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ou histórica em alguma declaração do at. Ao ceticismo científico ou racionalista dos saduceus, Jesus citou ipsis litteris Êxodo 3.6, em que Deus fala a Moisés de uma sarça ardente (arbusto que se queimava miraculosamente sem se consumir), nos seguintes termos: "Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó" (Mt 22.32). Pelo uso do tempo presente, que fica implícito na oração sem verbo do texto hebraico, o Senhor extrai a dedução de que Deus não descreveria a si próprio como Deus de meros cadáveres, que enfeitassem túmulos, mas apenas de personalidades permanentemente vivas, que estivessem usufruindo a comunhão com o Pai na glória. Portanto, o at ensinava a ressurreição dos mortos.
5. No que concerne à historicidade de Adão e de Eva, Cristo deixou implícita a veracidade do registro de Gênesis 2.24, em que se lê a respeito de nossos primeiros pais: "Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne" (Mt 19.5). No versículo precedente, o Senhor referiu-se a Gênesis 1.27, segundo o qual Deus criou a humanidade de modo especial, ao criar macho e fêmea — no início da história humana. A despeito das teorias científicas da modernidade, o Senhor Jesus acreditava que Adão e Eva foram personalidades verdadeiras, históricas. Encontramos confirmações semelhantes nas cartas de Paulo (que testificou ter recebido sua doutrina diretamente do Cristo ressurreto [Gl 1.12]), de modo especial em 1Timóteo 2.13, 14: "Porque primeiro foi formado [eplasthē, "moldado", "criado"] Adão, e depois Eva. E Adão não foi enganado, mas sim a mulher que, tendo sido enganada, tornou-se transgressora". A questão tratada aqui nesse trecho é o contexto histórico da liderança e da responsabilidade masculina tanto no lar como na igreja. Pressupõe-se, portanto, a historicidade de Gênesis 3. A esse respeito, devemos notar que, em Romanos 5.12-21, traça-se um contraste entre a desobediência de Adão, que atirou a raça humana no estado de pecado, e a obediência de Cristo, cuja morte expiatória trouxe redenção a todos os que crêem. Está registrado no versículo 14 que Adão é um typos ("tipo") "daquele [Cristo] que haveria de vir". Portanto, se Cristo foi uma personagem histórica, o antítipo de Adão, segue-se inevitavelmente que o próprio Adão também foi uma personagem histórica. Ninguém pode afirmar com sinceridade que dedica aceitação leal à doutrina da infabilidade das Escrituras e ao mesmo tempo crer na possibilidade de Adão, o ancestral singular da raça humana, ser uma figura mítica, lendária. O trecho eminentemente doutrinário de Romanos 5 (que serve de base para a doutrina do pecado original) pressupõe que os capítulos 2 e 3 de Gênesis contam uma história verídica.
Sem a inerrância, a Bíblia não pode ser infalível

Em anos recentes, tem havido um esforço diligente por parte do movimento revisionista dentro do evangelicalismo americano pela defesa da autoridade infalível e da fidedignidade das Escrituras, apesar dos erros em questões de história e de ciência — até mesmo nos manuscritos originais. Bate-se com insistência na tecla de que jamais se intencionou que a Bíblia fosse um compêndio de ciência ou de história, mas apenas de teologia e de doutrina. Não se discuta a probalidade de encontrar erros esporádicos na área da astronomia ou da biologia, além de certas crenças que refletem visões atrasadas de uma época pré-científica, refletida no texto hebraico, mas é certo que tais discrepâncias não podem ser tidas como capazes de pôr em perigo ou de comprometer a validade dos ensinos teológicos que constituem a principal tônica desses livros antigos. Então, se porventura ocorrer de vez em quando uma contradição entre uma declaração de natureza histórica ou outra qualquer, nesse ou naquele trecho, tais erros podem ser livre e francamente admitidos, sem prejuízo da condição da Bíblia como compêndio infalível em questões metafísicas e teológicas. Defesa tão flexível assim facilitaria muito a manutenção de um apego leal à autoridade da Bíblia, sem que o crente tivesse de parecer ridículo perante historiadores ou cientistas, que questionam a veracidade das Escrituras em razão de suas inúmeras falhas factuais.



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Em resposta a esse argumento eloqüente e aparentemente plausível em prol da infalibilidade bíblica sem a inerrância, podemos ressaltar várias fraquezas e falácias que o tornam basicamente insustentável, impossível de ser defendido. As inúmeras contradições desse argumento o tornam opção inexeqüível para o cristão responsável que abraçou as verdades proclamadas por Jesus Cristo. Entretanto, tão séria investida contra a posição sustentada por muitos líderes eminentes do mundo evangélico moderno deve estar apoiada em argumentos convincentes, que não possam ser rechaçados. Por isso, exporemos tais argumentos, para a consideração de todos os leitores deste livro que tenham a mente aberta.

Evadir-se da acusação de que os erros factuais comprovados nas Escrituras são evidência do caráter ilegítimo da Bíblia como revelação de Deus não passa de manobra sem sucesso. Céticos e detratores da Bíblia sempre apelaram para esse tipo de ataque, a fim de tentar provar suas concepções, segundo as quais os 66 livros são basicamente documentos humanos, isentos de qualquer tipo de inspiração especial de Deus. A despeito da declaração neo-ortodoxa de que os documentos hebraicos e gregos da Bíblia, cheios de erros, de certo modo levam a alma sequiosa do verdadeiro crente ao nível de verdade supra-histórica, supracientífica e metafísica, a honestidade intelectual e moral exige que enfrentemos a validade dos ataques desses céticos. Essa via media oferecida pelos revisionistas evangélicos e teólogos neo-ortodoxos não pode ser defendida com sucesso. Não pode haver infalibilidade e ao mesmo tempo erro na Bíblia — nem mesmo em questões de história e de ciência —, e, mais cedo ou mais tarde, as faculdades de teologia ou denominações que aceitam essa via media desviam-se da posição original evangélica e chafurdam em terreno pantanoso, abandonando a fé cristã histórica. Há boas e sólidas razões para esse declínio doutrinário.

Em qualquer tribunal, quer se trate de causa civil, quer de causa criminal, a confiabilidade da testemunha que vá depor é de fundamental importância para que suas declarações sejam aceitas. É que o advogado de acusação envidará todos os esforços ao interrogá-la, para demonstrar que se trata de pessoa não confiável. Se esse advogado puder anular a testemunha com base em declarações contraditórias ou conseguir evidência de que em sua comunidade ela tem a reputação de não confiável, o júri pode ser levado a duvidar da validade e da exatidão do testemunho dessa pessoa — considerando que tal testemunho pese bastante no julgamento da questão judicial —, mesmo que essa não-confiabilidade se relacione a questões em nada ligadas ao caso. Embora a testemunha ouvida no tribunal possa ter fornecido versão verdadeira juízo, o juiz e o júri ficam sem base para ter certeza. Por isso, sentem-se logicamente compelidos a descartar o testemunho de tal pessoa.

É também o caso das Escrituras Sagradas. Se as declarações nelas contidas, respeitantes a questões de história e de ciência, são contrárias à verdade, e isso puder ser comprovado por registros extrabíblicos, por documentos antigos desenterrados em expedições arqueológicas ou mediante fatos da ciência moderna amplamente conhecidos, passaremos a nutrir sérias dúvidas quanto à confiabilidade da Bíblia em questões de religião. Em outras palavras, se os registros das Escrituras forem comprovadamente falíveis nas áreas que podem ser verificadas, dificilmente serão confiáveis naquelas que não se podem verificar. A Bíblia ficaria desacreditada, não mereceria crédito como porta-voz de Deus. Toda matéria nela contida, ainda que sólida verdade, ficaria à mercê de conjecturas, sujeita à intuição, entregue aos padrões de medida de cada indivíduo. Uma atitude de ligação sentimental à religião tradicional pode fazer a pessoa inclinar-se a aceitar praticamente como verdadeiros todos os ensinos fundamentais das Escrituras. Mas outra pessoa, com a mesma justificativa, poderia apanhar quaisquer ensinos na Bíblia que lhe agradassem e de igual forma alegá-los legítimos. Uma opinião é tão boa quanto outra qualquer. Todas as coisas são possíveis, mas nada é digno de confiança, se na verdade a Bíblia contém erros e enganos de todo tipo.

Os que se permitem crer na existência de contradições e inexatidões nos manuscritos originais da Bíblia em geral se refugiam no ministério de ensino do Espírito Santo, que para eles assume a natureza de um encontro existencial com Deus, encontro que ocorre no momento do estudo da


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Bíblia — ainda que essa Bíblia possa ser tão falível! Julgam (e nisso confiam) que o Espírito Santo os conduzirá de tal modo que atingirão a Palavra viva de Deus e usufruirão os sólidos benefícios da redenção e da comunhão com, benefícios que os evangélicos antiquados simplesmente imaginam erroneamente que esses livres-pensadores haviam perdido por terem descartado a inerrância bíblica. No entanto, esses revisionistas — talvez sem perceber — puseram em ação um processo dialético de degeneração e declínio espiritual que os empurra em direção a um ceticismo ou a um ecleticismo crescente. Tendem a explorar a liberdade de escolha, que a si mesmos atribuíram, a ponto de conformar-se com as opiniões prevalecentes nos círculos dentro dos quais se movimentam. Suas consciências não contam mais com a âncora estabilizadora da autoridade da Palavra escrita de Deus, como dizia Lutero.

A segunda dificuldade fundamental da posição revisionista (i.e., da infalibilidade da Bíblia apesar de seus erros) é que ela estabelece uma base de distinção totalmente rejeitada pelos autores das Escrituras e pelo próprio Cristo. Jamais se encontra apoio para a distinção entre a verdade histórico-científica e a verdade metafísico-doutrinária — segundo a qual "os erros de menor monta, secundários" podem ser admitidos para o primeiro tipo de verdade, mas devem ser excluídos do segundo.

Ao examinar o at, procuramos em vão quaisquer formas de distinção entre doutrina teológica abstrata e os acontecimentos miraculosos que marcaram a história da redenção. No salmo 105, por exemplo, composto pelo menos cinco séculos depois do Êxodo, deparamos com uma jubilosa sinfonia de louvor a Iavé pelas dez pragas que infligiu ao Egito a fim de compelir faraó a libertar Israel. Esses acontecimentos miraculosos, relacionados à história e à ciência, são claramente tratados como factuais, episódios reais do passado de Israel. No poema seguinte, o salmo 106, o nome do Senhor é exaltado por livrar seu povo poderosamente ao separar as águas do mar Vermelho e permitir a travessia de uma multidão de mais de dois milhões de seres humanos, os hebreus, e ao juntá-las novamente, de modo que afogou seus perseguidores com suas carruagens e cavalos. Alçam-se ações de graças a Deus aqui, não por tal fato ser lenda ou mito, mas por ser um acontecimento histórico sólido — um episódio que encerra milagre, obra extraordinária resultante da quebra ou da suspensão das leis naturais. O salmo prossegue rememorando a súbita destruição de Datã e de Abirão, quando tentaram pôr de lado Moisés e sua revelação dotada de autoridade da parte de Deus. O próprio chão que pisavam abriu-se num sismo, em grandes crateras, e ninguém mais, senão suas famílias, foi tragado pelos precipícios que se formaram. Isaías 28.21 refere-se à vitória histórica sobre os invasores cananeus e seus aliados gibeonitas, tornando-a base de comparação com uma futura intervenção militar de juízos contra a tribo apóstata de Judá. "O Senhor se levantará como fez no monte Perazim, mostrará sua ira como no vale de Gibeom, para realizar sua obra, obra muito estranha, e cumprir sua tarefa, tarefa misteriosa". (Foi na batalha de Gibeom que a maior parte dos inimigos foi morta por pedras de saraiva caídas do céu, em vez de pelas armas dos israelitas.)

Assim, vemos que os escritores do at posteriores a esse fato tinham tanta certeza da travessia do mar Vermelho e de outros milagres quanto os apóstolos tinham certeza da morte expiatória de Cristo no Calvário. Os discípulos também tinham certeza da inspiração divina dos salmos davídicos. "Ó Soberano...", oraram eles em Atos 4.24-26, "... falaste pelo Espírito Santo por boca do teu servo, nosso pai Davi". "Mas ele era profeta e sabia que Deus lhe prometera sob juramento que colocaria um dos seus descendentes em seu trono. Prevendo isso, falou da ressurreição do Cristo, que não foi abandonado no sepulcro e cujo corpo não sofreu decomposição" (At 2.30, 31).

A total fidedignidade e autoridade das Escrituras hebraicas eram constantemente reconhecidas pelos escritores do nt, sempre que citavam as passagens proféticas a respeito de Cristo. Mateus, de modo particular, enfatizou essa condição de autoridade, dizendo: "... tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta..." (v., e.g., Mt 1.22; 2.5, 15, 23; 13.35; 21.4; 27.9). Assim se expressa L. Gaussen: "Em lugar algum encontraremos uma única passagem que nos permita


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separar uma única parte [i.e., o at] dizendo ser essa menos divina que o resto" (Theopneustia: the Bible, its divine origin and inspiration [Teopneustia: a Bíblia, sua origem e inspiração divina] (trad. D. D. Scott, Cincinnati, Blanchard, 1859, p. 67). Assim, vemos ser completamente desconhecida a distinção crucial entre os textos histórico-científicos e os teológico-doutrinários do at, tanto entre os últimos autores do at quanto entre os escritores do nt em suas menções às Escrituras hebraicas.

O indubitável e claro endosso de nosso Senhor Jesus Cristo, até mesmo às passagens do at referentes aos fatos sobrenaturais mais comumente rejeitados pelos críticos racionalistas de nossos dias, é a prova mais decisiva contra essa espúria divisão entre os elementos histórico-científicos e teológico-doutrinários. Como já vimos, Cristo aceitou como literalmente verdadeiros: 1) a historicidade de Adão (Mt 19.5); 2) o livramento de Noé e sua família do Dilúvio, por meio da arca (Mt 24.38, 39); 3) a exatidão literal da entrevista entre Moisés e Deus na sarça ardente (Mt 22.32); 4) a alimentação do povo liderado por Moisés com o maná caído do céu (Jo 6.49); 5) a historicidade do livramento de Jonas depois de três dias no ventre do grande peixe (Mt 12.40); 6) o arrependimento da população pagã de Nínive, em resposta à pregação de Jonas (Mt 12.41). Nada poderia ser mais claro que isto: o Senhor Jesus cria na verdade literal de todo o at, quer esses registros se relacionassem a assuntos doutrinários, quer fossem questões de ciência ou de história. Quem se recusar a acompanhar Jesus em seu julgamento das Escrituras, estará declarando que Deus pode errar (visto que Jesus é Deus feito homem) e que o soberano Criador (Jo 1.1-3) precisa de algumas instruções e correções da parte da finita sabedoria humana. É por essa razão que não podemos concordar em que possa estar em harmonia com o verdadeiro evangelicalismo ou com a fé cristã histórica.

Em terceiro lugar, os adeptos da inerrância parcial (quer neo-ortodoxos confessos, quer revisionistas evangélicos) corroem de modo fatal a base sadia de sua posição teórica mediante a má prática no que tange ao ensino da Bíblia. Em outras palavras, quando eles pregam a uma congregação ou ensinam a Escritura num estudo bíblico, abandonam totalmente a lealdade à inerrância parcial — pelo menos no que concerne à proclamação que fazem da mensagem plena de autoridade da própria Escritura. Sempre que um pregador declara a verdade oriunda da Bíblia e convoca seu ouvinte a crer e agir segundo esse ensino, tal pregador pressupõe que a Bíblia toda é inerrante. Em outras palavras, o pregador que disser que determinada declaração é verdadeira porque é a Bíblia que a afirma só estará sendo íntegro se assumir a posição de que tudo quanto a Bíblia ensina é necessariamente verdadeiro. De outro modo, ele sempre será obrigado a anexar à sua pregação a seguinte nota de advertência: "Neste caso particular, temos total garantia para crer no que a Bíblia está afirmando — ainda que vez por outra ela esteja errada em questões de história ou de ciência —, visto que nem sempre parece concordar com as descobertas da ciência moderna ou do conhecimento histórico". Sob o prisma da lógica, portanto, a honestidade exige que todo e qualquer pregador descrente do princípio de que tudo o que a Bíblia afirma é verdade só por afirmá-lo pregue de maneira que deixe implícito ser necessária uma comprovação adicional das declarações da Bíblia.

Configura-se uma questão de contradição básica a pessoa que crê na inerrância parcial da Bíblia afirmar que em assuntos de história e de ciência a Escritura pode conter erro e, no entanto, pregar sobre uma passagem bíblica escolhida como se tivesse plena autoridade em si mesma. É possível que tal pessoa preserve grande parte de sua integridade, caso o texto sobre o qual prega for puramente teológico ou doutrinário. Entretanto, ela estará traindo sua própria posição, por não conseguir justificar a condição de inerrante que concede à referida passagem. Quase todas as doutrinas centrais da Escritura inserem-se em textos de estrutura histórica e muito comumente num contexto sobrenatural. Não age com sinceridade o pregador cristão, porta-voz da Palavra de Deus, que assegura a seus ouvintes que determinada afirmação doutrinária da Bíblia deve ser aceita como factual, a menos que ao mesmo tempo ele forneça ao povo alguma forma de segurança crítica, segundo a qual "neste caso a Escritura está falando a verdade". Se o contexto bíblico ou a estrutura histórica do texto precisam de corroboração, devendo ser primeiro "peneirados" pela crítica para



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eliminar os erros, a doutrina ali contida deve ser também considerada suspeita. Se, por exemplo, a ressurreição de um corpo que se tornou pó na sepultura for considerada impossível pela maioria dos cientistas, o pregador que advoga a inerrância parcial das Escrituras deve justificar cuidadosamente sua aceitação da ressurreição física de Cristo (se de fato ele crê nela), aduzindo outro tipo de confirmação, além da mera declaração da Bíblia. De outra forma sua proclamação de que Jesus ressurgiu de entre os mortos "porque as Escrituras assim o dizem" significa que tal pregador crê na inerrância completa, até mesmo numa questão científica que traga em si o miraculoso.

Em quarto lugar, os adeptos da errância bíblica fazem um esforço especialmente atraente para que aceitemos "com frieza o doloroso fato" de que a Bíblia, como a temos hoje, na verdade contém várias discrepâncias de toda sorte e que, na ausência de manuscritos originais infalíveis, seria melhor que desistíssemos dos esforços por defender textos inerrantes que já não existem. Eles nos instam fortemente a que apenas apreciemos a Bíblia como ela é e façamos dela o melhor uso que pudermos, na forma que ela chegou até nós — marcada por erros esporádicos de pequena monta, mas ainda assim eminentemente utilizável como manual que nos leva a Deus, por conter um conhecimento de sua vontade capaz de salvar-nos. É muito mais honesto de nossa parte, exortam eles, que sejamos perfeitamente francos e admitamos os erros da Bíblia sempre que aparecerem, prosseguindo daí em diante, confiando na mensagem principal, central, sem que nos deixemos perturbar por minúcias insignificantes e insolúveis.

Os adeptos dessa posição perante a Escritura deixam de observar que é fundamentalmente desonesto adotar a postura de menor resistência ante a dificuldade e dizer ao cético racionalista: "Está bem, neste caso você pode ter razão. Mas ainda tenho o direito de apegar-me à minha fé, não importa quantos erros técnicos você descubra no texto da Bíblia". Alguém que assume uma posição assim, de entrega intelectual, só pode ser classificado de irracionalista fraco, escondido na sua concha de subjetividade, que deixou de apresentar algo significativo, uma contribuição para a arena dos debates, para a inteligente consideração de todas as pessoas dotadas de raciocínio, as quais têm a responsabilidade de tomar parte nessa arena.

É moralmente inaceitável que a Bíblia — a qual se apresenta como a Palavra de Deus dotada de autoridade de modo singular — seja colocada como objeto do julgamento crítico do homem, de maneira que alguém possa decidir (pelo menos por si mesmo, pessoalmente) que partes das Escrituras têm autoridade e quais podem ser descartadas com tranqüilidade e segurança. Tratar a Bíblia dessa forma significa menosprezar a Deus, só podendo resultar num processo de embrutecimento progressivo e na persistente perda de certeza teológica e de convicção moral. Na verdade, pode-se argumentar, com razão, que o esforço para que deixemos de defender a exatidão da Bíblia e a confiança que nela depositamos cada vez que ela é atacada a respeito de assuntos factuais dificilmente pode ser separado do princípio de defender um padrão moral estabelecido pelas Escrituras e a ele ater-se somente quando não conflita com os modernos princípios da moral ou, na vida pessoal de um indivíduo, quando esse padrão bíblico não entra em conflito com o que o crente professo quer fazer (quer seja, quer não da vontade de Deus).

Provações sobrevêm à nossa vida e à de todo crente quando temos de escolher entre o caminho árduo da obediência, da integridade moral diante de Deus e dos homens, que renega a carne, e o caminho fácil da vida regalada, da entrega à tentação, que nos permite fazer aquilo que parece mais fácil e agradável da perspectiva do ego. O crente que não ergue uma resistência resoluta contra o caminho sedutor e fácil, agradável à carne, descobrirá que perdeu a integridade, o respeito próprio e, se não houver arrependimento e total mudança de rumo, toda a esperança de salvação. Existe uma analogia muito clara entre essa reação flácida diante do desafio da própria vontade à integridade moral do cristão e a reação dele diante do desafio da autoridade inerrante da Bíblia e da total confiança que nela deve depositar. Se o crente preferir o caminho fácil da concessão frouxa, na esperança


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de salvaguardar sua posição de salvo, conservando a fé apenas nos elementos básicos da doutrina cristã, descobrirá que com o tempo sua decisão de entregar-se à vontade do inimigo fará com que este se torne senhor absoluto de sua possessão. O fato de o crente ter deixado de estabelecer uma defesa séria das Escrituras finalmente resultará na perda da certeza e do conforto, quando a crise sobrevier e o perigo ficar espreitando.




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