Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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João


Como podemos conciliar João 5.28, 29 com o evangelho da graça?

João 5.28, 29 diz: "Não fiquem admirados com isto, pois esta chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados". Uma declaração como essa, se for tirada de seu contexto, poderia estabelecer o princípio de que a salvação se obtém mediante as boas obras, pelas ordenanças da lei, em vez de pela graça mediante a fé. Todavia, tomada em seu próprio contexto, torna-se claro que Jesus não tencionou pregar a salvação pelas boas obras, mas apenas fornecer um critério válido referente à fé salvadora. No versículo 24 dessa mesma passagem, o Senhor afirmou: Eu lhes asseguro: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não será condenado, mas já passou da morte para a vida. A exigência para a salvação resume-se na aceitação de Cristo e na fé em Deus, que enviou seu Filho para salvar os pecadores da morte eterna.

A fim de que entendamos o que Jesus quis dizer aqui com o fazer o bem e praticar o mal, devemos lembrar-nos de que é o ponto de vista de Deus, e não o do homem, que determina o que seja o bem e o mal. O que o ser humano fizer pelo seu próprio interesse, ou para seu próprio crédito ou glória não possui valor algum, aos olhos de Deus, não importando quão útil ou admirável possa parecer aos olhos humanos. "A mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à lei de Deus nem pode fazê-lo. Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus." (Rm 8.7, 8). Então, do ponto de vista divino, somente o salvo é capaz de desenvolver um bom trabalho, isto é, praticar uma boa obra.

Só quando o Espírito Santo assume o controle do coração, da mente e das mãos do crente nascido de novo é que a boa ação se realiza. E só é boa porque Deus a produz, criando-a por meio de quem a Ele se entregou, passando a ser instrumento nas mãos de Deus (Rm 6.12-14).

No entanto, devemos observar que o fruto da fé genuína são as boas obras. Não se trata das obras que mereçam recompensa, mas as que glorifiquem a Cristo e expressem o próprio Cristo. Como a carta de Tiago esclarece muito bem, a fé falsificada nenhum valor tem perante Deus; mas a verdadeira é a que funciona e produz obras boas. "Assim também a fé, por si só se não for acompanhada de obras, está morta. Mas alguém dirá: "Você tem fé; eu tenho obras'." (Tg 2.17, 18).

Esse princípio resume todo o ensino de Cristo nos evangelhos. Em Mateus 7, o sermão encerra-se com o contraste entre o homem insensato que ouviu o ensino de Cristo, mas não o pôs em prática, e o sábio que fielmente obedeceu a seu Senhor. No parágrafo anterior, Jesus descreveu o triste pleito das pessoas que, no julgamento final, apresentam-se perante o Senhor ostentando suas boas obras, realizadas com vaidade, em nome de Cristo e a seu serviço, como se constituíssem uma credencial válida para a entrada no céu. Visto que na verdade tais pessoas não fizeram "a vontade de meu Pai que está nos céus" (v. 21), pois, não submeteram seus corações com sinceridade ao Senhor, o veredito deles é: "... Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês que praticam o mal!" (v. 23). Todas as suas boas obras, feitas ostensivamente, ainda que em nome de Cristo, de nada valem, porque as pessoas que as praticaram tentaram estabelecer sua própria retidão (Rm 10.3), em vez de entregar-se "a Deus, como instrumentos de justiça" (Rm 6.13).

Em outras palavras, o Senhor insiste em que uma fé viva, verdadeira, expresse-se em obras de justiça e


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amor, motivadas e dirigidas pelo seu Espírito. Na cena memorável descrita por Jesus em Mateus 25.31 -46, ele está sentado como juiz perante toda a igreja, formada pelos crentes de todas as nações ("todas as nações se reunirão diante dele", não para serem julgadas como unidades nacionais, mas como cristãos individuais de cada nação), e aplica o teste do comportamento piedoso a fim de medir a sinceridade da fé. Todos diante dele são crentes professos, pois se dirigem a Ele como "Senhor", crendo que os considera sua propriedade particular. Todavia, só os que expressaram seu amor e compaixão ao alimentar os famintos, ao dar de beber aos sedentos, ao receber o estrangeiro com hospitalidade, ao vestir os nus e ao visitar os presos por causa da justiça (v. 35-36) demonstraram sua verdadeira fé. Os que falharam e não fizeram a vontade de Deus, vivendo uma vida de serviço piedoso para os outros — de modo especial para os domiciliados na fé ("a algum dos [...] menores irmãos"), demonstram fé falsificada que não induz à salvação. Recebem, portanto, sua porção no Inferno, ao lado de todos os demais hipócritas (cf. Mt 24.51; 25.46).

Assumindo essa perspectiva, estaremos em posição melhor para entender 2 Coríntios 5.10: "Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio de corpo, que sejam boas quer sejam más". Nessa passagem não contemplamos "crentes professos" de fé falsificada, mas renascidos, que são avaliados pelos frutos e pela fidelidade durante seu ministério na Terra. A recompensa apropriada e a situação espiritual no céu serão concedidas por Cristo a cada servo seu, segundo a medida da fidelidade e zelo de cada um.

Vigorará o mesmo princípio no julgamento perante o grande trono branco de Apocalipse 20.12. Esse fato ocorrerá no final do Milênio; tanto os que nasceram durante essa dispensação, como os que participarem da última ressurreição, passarão por esse juízo. A Terra toda estará sujeita à autoridade de Cristo durante aquele período de mil anos, mas haverá pessoas que só externamente se conformarão com a ética cristã e professarão amor ao Senhor, sem que todavia sejam transformadas. Suas obras não serão reconhecidas como "boas" por Cristo. É por essa razão que os livros guardados nos céus serão abertos e consultados, à medida que cada um compareça diante do Senhor para o julgamento; não só os livros que registram os pecados dos ímpios, mas também o "livro da vida" (v. 12), que contém os nomes dos crentes sinceros. Todos serão "julgados segundo suas obras", com toda certeza. Mas somente os seguidores de Cristo, verdadeiramente regenerados, terão "boas obras" registradas em seu "prontuário". São genuinamente perfeitas, porque são as obras de Deus realizadas pelos seus instrumentos humanos, as pessoas que a ele se entregaram. Jesus havia dito ao moço rico: "Há somente um que é bom [que é Deus]" (Mt 19.17). Portanto, não existem boas obras, exceto as que são feitas pelo próprio Senhor, mediante os que se lhe submetem em fidelidade.

À luz dessas passagens, devemos concluir que nem João 5.28, 29, nem outras passagens semelhantes entram em conflito com o princípio da salvação pela graça, mediante a fé. É apenas uma questão de distingui-la da falsificada.



Como podemos conciliar João 8.11 com Romanos 13.4, com respeito à pena de morte?

Em Romanos 13.4, o apóstolo Paulo, falando da autoridade do governo humano, diz o seguinte: "... é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal". Esse versículo deixa bem claro que o autor inspirado por Deus ensina que a pena de morte (pois a palavra "espada" não é usada com o sentido de prisão, nem liberdade condicional concedida a criminosos) é ordenada por Deus, com a intenção de proteger a sociedade contra os assassinos que injustamente privam as pessoas de seu direito à vida.

No entanto, alguns estudiosos das Escrituras têm encontrado dificuldade em conciliar o tratamento dado à mulher adúltera, em João 8.3-11, com a imposição da pena capital para os crimes de morte. Notemos que, nesse caso, em particular, a ofensa foi infidelidade marital, em vez


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de assassinato em primeiro grau. No entanto, o adultério foi definido pela lei mosaica como crime hediondo, punível com a pena de morte — normalmente por apedrejamento (Dt 22.22-24). Porém, há implicações para outros crimes capitais, como o assassinato e a traição. Teve Jesus a intenção de abolir a pena de morte de vez, ao determinar que a mulher culpada de adultério fosse libertada?

As evidências dos manuscritos mais antigos do evangelho de João revelam que essa passagem em particular não havia sido incluída pelo próprio apóstolo, no seu texto original. O documento mais antigo que registra esse episódio parece ser o Códice Beza, do século vi, embora tenha sido incluído na coleção bizantina de manuscritos, ou coinê, sobre os quais se baseia o Texto Recebido (e a Versão do Rei Tiago, kjv). No entanto, parece ser um registro autêntico de um episódio do ministério de Jesus, escrito em estilo característico de João. Portanto, deve ser considerado a palavra autêntica de Cristo, a despeito da incerteza de seu relacionamento com o evangelho em sua forma primitiva.

Nesse incidente, Cristo é retratado como que aceitando um desafio e respondendo a ele perante seus adversários, que desejavam apanhá-lo nas garras de um dilema. Se ele condenasse a mulher, segundo as leis de Moisés, mancharia sua imagem de mensageiro do amor de Deus. Todavia, se abstivesse de condená-la à morte, estaria sujeito a ser acusado de anular a lei de Deus, ou revogá-la — contrariando a sua afirmação em Mateus 5.17. Temos aí uma armadilha parecida com a que mais tarde se lhe preparariam com respeito ao pagamento de impostos a César, da parte dos judeus (Mt 22.17). Fosse qual fosse sua resposta, Cristo seria acusado de opor-se, ou à santa lei de Deus, ou ao governo soberano de Roma.

No final do diálogo sobre esse caso em particular, Jesus se viu a sós com a mulher pecadora, a quem disse: "Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado" (Jo 8.11). O que quis dizer o Senhor com isso? Porventura desejou afirmar que a mulher não era culpada daquela ofensa de que era acusada? Dificilmente, visto que nem ela mesma fez algum esforço no sentido de negar ter cometido adultério, e havia sido apanhada "no ato" (v.4). É claro que nesse sentido o Senhor a condenou; as palavras dele: "Abandone sua vida de pecado" indicam que ela era de fato culpada do crime capital de que era acusada. Entretanto, a palavra grega katakrino ("condenar") carrega consigo a conotação de impor uma sentença sobre o culpado, com vistas à execução. Compare Marcos 14.64: katekrinan auton enochon einai thanatou ("E todos o julgaram réu de morte", i.e., antecipa-se a sentença de Cristo à morte na cruz, pelo Sinédrio). Katakrino em outros contextos pode significar apenas definir a gravidade ou natureza da ofensa de que alguém é acusado, mas nesse âmbito forense de João 8.11, envolve a imposição de uma sentença, a autorização da pena de morte a essa mulher, por apedrejamento.

Enquanto analisamos a situação enfrentada por Jesus nesse confronto particular com seus inimigos, devemos levar em consideração os fatores especiais que macularam o processo todo com ilegalidade. Em primeiro lugar, a lei de Moisés exigia que ambos os ofensores recebessem o mesmo tratamento legal. Levítico 20.10 prescreve: "Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher de seu próximo, tanto o adúltero quanto a adúltera terão que ser executados". Deuteronômio 22.24 determina que ambos os adúlteros devem morrer, o homem que se deitou com a mulher e ela própria. Portanto, o procedimento descrito em João 8 foi ilegal, porque os seus acusadores não haviam trazido seu cúmplice. Sem ele, não se poderia tomar alguma ação legal contra a pecadora.

Em segundo lugar, uma condenação tão grave como aquela precisava ser pronunciada por um tribunal competente, legalmente constituído, como o agrupamento de anciãos ao pé do portão da cidade. Era dever desse júri atuar em casos desse tipo. Aqueles acusadores não tinham seguido o procedimento legal; desejavam um linchamento. Visto que Jesus nunca fora constituído juiz oficial de ações cíveis e criminais, como ele próprio esclareceu certa vez, quando se tentou criar um problema para que ele o resolvesse (a solução legal de uma disputa doméstica



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em Lucas 12.14: "... quem me designou juiz ou árbitro entre vocês?"), essa tentativa de fazer dele um juiz obviamente era uma farsa, totalmente ilegal, cujo objetivo era constranger o Mestre de Nazaré, a quem gostariam de torná-lo desacreditado.

Em terceiro lugar, aqueles próprios homens admitiram que nem mesmo o Sinédrio tinha o direito, sob o governo soberano de Roma, de fazer executar a pena de morte. É verdade que possuíam o direito de lançar sentenças, mas a execução de morte só poderia ser efetivada com expressa autorização do Império Romano. Assim é que lemos em João 18.31, 32: Pilatos disse: "Levem-no e julguem-no conforme a lei de vocês". "Mas nós não temos o direito de executar ninguém", protestaram os judeus. Isso aconteceu para que se cumprissem as palavras que Jesus tinha dito, indicando a espécie de morte que ele estava para sofrer. Portanto, deduzimos que a proposta feita a Jesus para que a mulher adúltera fosse apedrejada até morrer, ali mesmo, diante dele, era flagrante violação da lei de Roma. Cristo não assumiria a responsabilidade por isso. Sendo um cidadão que acatava a lei, Jesus não poderia tomar parte em linchamentos.

Seja como for, levantou-se a questão sobre se a mulher mereceria a pena de morte. "Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz?" (Jo 8.5). Jesus poderia ter-lhes mostrado que haviam violado a lei de Moisés não trazendo também o homem adúltero. No entanto, ele tomou outro caminho, pois viu que os acusadores precisavam entender que também eram culpados diante de Deus, pelo que dificilmente estariam em posição de executar a penalidade que haviam exigido para sua prisioneira. Lemos que o Senhor se abaixou e pôs-se a escrever na areia, ou no pó da terra. O que ele anotou convenceu-os de seus pecados — julgavam que aqueles erros permaneceriam ocultos e desconhecidos. Só eles, ninguém mais, saberiam deles. Tendo o Senhor determinado que a testemunha a qual estivesse "sem pecado" tinha a responsabilidade de atirar a primeira pedra sobre a mulher culpada, era essencial que pelo menos um deles possuísse a consciência completamente limpa, diante da lei de Deus. No entanto, nem um sequer podia honestamente declarar estar livre de alguma falha diante de Deus. Por isso, todos os acusadores de repente viram-se acusados e culpados. Portanto, foram embora, um por um, até que nem um permaneceu ali.

Quando estudamos a resposta de Jesus a esse desafio, devemos observar que o Senhor jamais encobriu a culpa da mulher acusada (como se o adultério não fosse, afinal, um pecado tão hediondo assim, que merecesse a pena de morte, como julgava aquela sociedade de mente modernizada e iluminada, do século i d.C). Tampouco sugeriu o Senhor que a execução por apedrejamento deixava de ser o método apropriado de punir-se tal pecado. Cristo deixou implícito que aquela mulher tinha culpa a qual merecia pena de morte, e o método legal era o apedrejamento. O ponto levantado pelo Senhor era que os próprios acusadores da mulher eram culpados perante a lei, e dificilmente seriam competentes moralmente para executar a sentença. É certo que todos partilhavam a culpa de tentar executar uma pessoa por linchamento, totalmente em desacordo com a lei do governo romano, ao qual estavam todos sujeitos. Daí que o processo todo estava invalidado pela incompetência e ilegalidade.

Nesse episódio da mulher adúltera, dificilmente Jesus estaria afirmando que a pena capital não mais deveria ser aplicada, e tampouco revisava a lei mosaica, favorecendo uma nova política de compaixão para com as pessoas que merecessem a penalidade máxima. Ao contrário, o Senhor propugnou a sanção contínua da execução por crime capital. Todavia, ele ensinou a seus compatriotas — e na verdade, a toda a humanidade — a solene verdade que diante de Deus todo o ser humano é culpado de morte — da morte eterna — e que ele viera para o propósito expresso de pagar essa penalidade em lugar do pecador.

O que Jesus quis dizer ao afirmar que os homens são "deuses" (Jo 10.34)?

João 10.34 declara o seguinte: Jesus lhes respondeu: Não está escrito na lei de vocês 'eu disse: vocês são deuses'? Essa observação foi feita logo depois de os judeus terem-se preparado para o apedrejar,



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por causa de sua afirmação contida no versículo 30: "Eu e o Pai somos um". Os ouvintes de Jesus entenderam corretamente que o Senhor estava declarando sua divindade, em termos que sugerem a Trindade Santa. Então os judeus concluíram que Jesus havia blasfemado o nome do Senhor; pois, embora fosse apenas um homem (como supunham), ele se fazia igual a Deus (v. 33). A fim de anular a hostilidade e rejeição dos judeus, Jesus citou Salmo 82.6, que diz: "Eu disse: vocês são deuses, todos vocês são filhos do Altíssimo".

Ao citar Salmos 82.6, Jesus apelou para um versículo das Escrituras que atribui o nome ou título de "deus" a certos homens, não a todos, mas somente "... àqueles a quem veio a palavra de Deus..." (Jo 10.35). Acrescentou-se uma dimensão divina às pessoas que haviam sido especialmente escolhida por Deus para serem portadoras da verdade salvadora e administradoras de sua santa lei. No salmo 82, o Senhor dirige-se a juízes escolhidos a fim de que sirvam como seus representantes e cumpram seus mandamentos. É certo, contudo, que alguns deles, solenemente comissionados, exerciam seu ofício injustamente e demonstravam parcialidade para com os ricos comprovadamente errados no seu proceder (v. 2). Em essência, o salmo expressa a condenação de tais juízes ímpios, dizendo, na verdade, "conquanto vocês exibem o 'status' de membros da família de Deus, e embora tenham sido chamados pelo nome, por causa da infidelidade que demonstram no cumprimento de seus deveres sagrados, morrerão como os outros homens morrem, e cairão em desgraça como um dos príncipes do mundo condenado".

Ao usar Salmos 82.6 como argumento a fortiori para afirmar seu "status" único, exclusivo, de Filho de Deus, Jesus traça uma distinção significativa, ou contraste, entre ele próprio e a humanidade redimida, dizendo, em João 10.35, 36: "Se ele clamou 'deuses' àqueles a quem veio a palavra de Deus (e a Escritura não pode ser anulada), que dizer a respeito daquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo? Então, por que vocês me acusam de blasfêmia porque eu disse: Sou Filho de Deus?". Em outras palavras, os crentes do at que haviam entrado em um relacionamento de aliança com Deus, com base em suas graciosas promessas, tinham obtido o "status" de membros da família divina. Não era um direito essencial e eterno que haviam possuído por recompensa, por causa de sua virtude e obediência, mas simplesmente um privilégio conferido a eles pela graça de Deus. A filiação daqueles crentes era derivativa, não herdada. (Quanto a outras passagens em que os crentes do at, sob a aliança, são chamados benê ’elohîm, cf. Gênesis 6.2 — verdadeiramente se refere a crentes da linhagem de Sete, em vez de a anjos, como alguns têm sugerido — Deuteronômio 14.1; 32.5; Salmos 73.15 ["teus filhos"]; Oséias 1.10 [Hebreus 2: 1]).

Em João 10.36, Jesus traça uma linha divisória entre os pecadores redimidos, sob a aliança antiga, e ele mesmo, como o que sempre existiu com o Pai na glória — o Filho que foi "santificado" (ou solenemente separado) para a tarefa de Messias e Redentor do povo de Deus. Foi depois de Cristo ter sido santificado dessa maneira no céu que o Pai o enviou à Terra, ao mundo perdido e necessitado de um Salvador. Por todo o evangelho de João, nota-se uma ênfase especial no "status" de Jesus como o enviado de Deus, o Pai (Jo 4.34; 5.23, 24, 30; 6.38-40, 44, 57; 7.16, 18; 8.16, 18; 9.4; 10.36; 11.42; 12.45, 49; 14.24; 15.21; 16.5; 17.3, 18, 21, 23, 25; 20.21). Nesse sentido, Cristo é absolutamente único, pois, embora profetas como João Batista fossem enviados por Deus aos homens (Jo 1.6), oriundos da própria terra, só Cristo foi enviado do Céu (seu lar verdadeiro) à Terra. Nesse sentido, ele é Filho de Deus, em virtude de ser seu "status" divino; os crentes são filhos de Deus apenas pelo gracioso chamado de Deus e pelo seu ato de adoção. Portanto, de modo algum o Senhor deixa implícito aqui que somos filhos de Deus da forma como ele é — exceto que seríamos um pouco menores do que Cristo em santidade e virtude. Jamais! Nenhum mal entendido seria pior do que esse. O Senhor está afirmando aqui que nenhum de seus ouvintes deveria sentir-se chocado pelo fato de Jesus atribuir-se a si mesmo a deidade. Pois, as Escrituras Sagradas não concedem aos judeus certo "status" de divindade também, pela adoção em graça?



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É necessário mais uma observação a respeito do emprego ocasional de Elohim, no at, a fim de referir-se a crentes sob a aliança. Parece que atua por analogia das designações nacionais como benê Yiśrā’ēl ("os filhos de Israel"), benê 'Ammôn ("os filhos de Amom"), benê Yehûdāh ("os filhos de Judá"), benê Bābēl ("os filhos de Babilônia"), etc. Quaisquer dessas tribos ou nações podiam ser mencionadas sem a palavra be("filhos de"), como Yiśrā’ēl, 'Ammôn, ou Yehûdāh. Por analogia, a combinação benê ’elōhîm podia ser encurtada para um simples elōhîm e nada mais, i.e., um membro dos filhos (ou do povo) de Deus. (Outras passagens classificadas assim, que se referem a governadores e juízes israelitas como representantes de Deus na terra, incluem Êxodo 21.6; 22.7, 8, 27; Salmos 8.5; 82.1; 138.1 [ou "anjos"]. Salmos 82.1b [nasb, nota marg.: "deuses", mas "governadores" no texto] pertencem a esta mesma categoria.)

Como pode a declaração de Jesus, "o Pai é maior do que eu" (Jo 14.28) estar coerente com a doutrina da Trindade?

Em João 14.28, Jesus diz o seguinte: "Se vocês me amassem, ficariam contentes porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu". A Trindade é definida no Breve Catecismo de Westminster (n.° 6) como segue: "Há três pessoas na Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; esses três são o único Deus, e cada um o mesmo em substância, igual em poder e glória". Como, pois, pode o Filho afirmar que o Pai é maior (meizon) do que ele?

Jesus está falando aqui, não de sua natureza divina, mas da humana, como Filho do homem. Cristo veio para sofrer e morrer, não como Deus, que não pode padecer, mas como o segundo Adão, nascido de Maria. Só como ser humano poderia Jesus servir como o Messias, ou Cristo (o Ungido). A menos que tivesse uma natureza humana verdadeira, genuína, jamais poderia ter representado os descendentes de Adão e levar sobre si os nossos pecados na cruz. Por isso, como Filho do homem, é certo que ele era inferior a Deus, o Pai. Isaías 52.13-53 esclarece a questão: Jesus só poderia ser nosso Salvador ao tornar-se o Servo de Iavé que, por definição, jamais pode ser tão grande como seu senhor. Daí decorre que Jesus só entraria na presença do Pai, que é maior em dignidade e posição do que o Filho do homem, como o Redentor que venceu a morte.

Todavia, como Deus, o Filho, à parte a encarnação, as Escrituras nunca sugerem a existência de algum contraste em glória, entre o Pai e o Filho. As seguintes passagens deixam esse ponto claríssimo: João 1.1, 18; 8.58; 10.30; 14.9; 17.5; Romanos 9.5 ("Cristo [...] Deus acima de todos, bendito para sempre"); Colossenses 2.2; Tito 2.13; Hebreus 1.8; 1 João 5.20; cf. também Isaías 9.6 (afirma que Emanuel, nascido da virgem também é Deus forte — ’el gibbôr).

Quanto a 1 João 5.7, que diz: "Há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a Palavra, e o Espírito Santo; e estes três são unânimes". A única parte desse versículo que aparece em algum manuscrito grego, anterior ao século xv, é a primeira cláusula apenas: "Há três que dão testemunho", e em seguida vem o versículo: "o Espírito, a água e o sangue, e os três são unânimes" (lit., "são só um"). O resto do versículo aparece em manuscritos em latim antigo, datados do século v, não em grego, senão em 635 d.C, como nota marginal. Portanto, parece-nos melhor omitir esse versículo da lista de passagens que comprovam a Trindade divina, ainda que aparente conter excelente teologia.

Cristo foi crucificado na quinta ou na sexta-feira?

A impressão uniforme transmitida pelos evangelhos sinóticos é que a crucificação aconteceu na sexta-feira da semana santa. Se não fosse João 19.14, esse ponto jamais seria discutido. Mas esta passagem afirma: "Era o Dia da Preparação [paraskeuē] na semana da Páscoa, por volta do meio-dia. 'Eis o rei de vocês', disse Pilatos aos judeus". Primeiro, a palavra paraskeuē já havia adquirido no século i de nossa era a qualificação de termo técnico com o sentido de "sexta-feira", visto que era o dia de preparação para o sábado, isto é, o de descanso. No grego moderno paraskeuē quer dizer "sexta-feira".



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Segunda observação: o termo grego tou pascha (lit., "da páscoa") é equivalente a semana da páscoa. É referência à festa dos pães asmos, de sete dias (heb. maṣôt) que se seguia imediatamente à morte do cordeiro pascal, que era comido a seguir, na noite do décimo quarto dia do mês de abibe. Pelo modo de contar o tempo dos judeus, seria o início do décimo quinto dia, logo após o pôr-do-sol. A semana do massôt, vinda após a páscoa (na qual o massôt era comido, com o cordeiro, ervas amargas, etc.) de modo natural tornou-se conhecida como semana da páscoa (cf. Encylopaedia Britannica, 14a. ed., 12: 1041), estendendo-se de quinze a vinte de abibe, inclusive. (Arndt e Gingrich [Greek-English lexicon, p. 638-9] declaram: "Esta [a páscoa] era seguida imediatamente por uma festa, a dos pães asmos [...] no décimo quinto até o vigésimo primeiro dia. O costume do povo produziu a união das duas festas, que eram tratadas como uma só, para propósitos práticos".) Era desnecessário inserir um termo específico para 'semana' (como šaḇûa‘) para que isso fosse entendido. Portanto, aquela expressão, que poderia ser traduzida literalmente como "preparação da páscoa", nesse contexto deve ser traduzida assim: "sexta-feira da semana da páscoa".

O resultado, portanto, é que João afirma com clareza, à semelhança dos sinóticos, que Cristo foi crucificado na sexta-feira, e sua morte sacrificial representava o cumprimento antitípico da própria páscoa, que havia sido instituída por Deus, nos dias do êxodo, como meio de fazer com que o Calvário estivesse disponível pela fé, aos israelitas, antes mesmo da vinda de Cristo.

Observemos que em 1 Coríntios 5.7, Paulo se refere a Jesus como o cordeiro pascal dos cristãos: "Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado". A declaração de E. C. Hoskyns a respeito de João 19.14 é muito apropriada: "Está chegando a hora do duplo sacrifício. É meio dia. O cordeiro pascal está sendo preparado para o sacrifício, e o Cordeiro de Deus também já foi sentenciado à morte" (The fourth gospel [London, Farber and Farber, 1940], ad loc). É necessário esclarecer que os cordeiros sob referência aqui não são os que eram mortos e comidos nos lares dos israelitas, rito judaico que Jesus e seus discípulos haviam observado na noite anterior ("no lavapés da quinta-feira"), mas os cordeiros que deveriam ser oferecidos no altar do Senhor em prol de toda a nação de Israel. (Quanto à observância doméstica, na noite do décimo quarto dia de abibe, cf. Êxodo 12.6; quanto ao sacrifício público no altar, cf. Êxodo 12.16, 17; Levítico 23.4-8; 2 Crônicas 30.15-19; 35.11-16. Esses sacrifícios eram conhecidos como próprios da Páscoa, pois eram feitos durante a semana pascal.)

Portanto, chegamos à conclusão de que houve um mal-entendido a respeito da frase paraskeue tou pascha que ocasionou essa perplexidade; até mesmo Guthrie (New Bible commentary, p. 964) achou que era um erro para o qual não havia solução. As várias explicações engenhosas que outros estudiosos ofereceram, que Cristo celebrou sua Páscoa na véspera, sabendo que ele seria crucificado antes da noite do décimo quarto dia; que Cristo e suas ações dizem respeito a uma data diferente, segundo a qual o décimo quarto dia era um dia antes do calendário oficial do sacerdócio judaico em Jerusalém; ou que o Senhor estaria seguindo um outro qualquer, observado pelos essênios de Qumran — nenhuma dessas teorias é provável, possível ou necessária. Não há contradição entre João e os sinóticos quanto ao dia em que Cristo morreu — o Senhor morreu na sexta-feira.



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