Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



Baixar 2.12 Mb.
Página52/62
Encontro19.07.2016
Tamanho2.12 Mb.
1   ...   48   49   50   51   52   53   54   55   ...   62

Romanos


Os pagãos não-evangelizados estão realmente perdidos?

Romanos 2.12 diz: "Todo aquele que pecar sem a Lei, sem a Lei também perecerá, e todo aquele que pecar sob a Lei, pela Lei será julgado." (Parece que a referência aqui é à lei mosaica, ou ao at; portanto, seria melhor grafar "Lei", com l maiúsculo.) Romanos 2.14, 15 aplica esse princípio aos gentios em contradição aos judeus: "De fato, quando os gentios, não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam Lei; pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os." Devemos comparar Romanos 3.19 com essa passagem: "Sabemos que tudo o que a Lei diz, o diz àqueles que estão debaixo dela, para que toda boca se cale e todo o mundo esteja sob Deus."

A partir desses versículos deduzimos, primeiramente, que os gentios (e é certo que Paulo inclui os não-evangelizados nesse grupo) possuem um conhecimento da lei moral, certa conscientização do que é certo e errado, que os torna moralmente responsáveis diante de Deus, ainda que jamais tenham estado em contato com a Bíblia. Demonstram ter consciência da lei moral básica pelo fato de viver de conformidade genérica com tal lei, como se entendessem os princípios fundamentais estabelecidos nos dez mandamentos. Não existe nenhuma comunidade organizada na face da Terra em que todos vivam em total desconsideração para com os dez mandamentos que não seja considerada transgressora da lei e inimiga da sociedade humana.

Em segundo lugar, os gentios "tornam-se lei para si mesmos", isto é, têm dentro de suas consciências a certeza íntima de um padrão moral perante o qual são responsáveis, pois "os seus pensamentos" acusam-nos ou defendem-nos (Rm 2.15). Noutras palavras, percebem que até pelos seus próprios padrões do certo e do errado sentem-se culpados, porque nem sempre viveram à altura de tais conceitos. Podem "defender-se" das acusações de suas consciências, mas ao apelar para a autodefesa contra a lei moral, por implicação reconhecem sua validade, justeza e autoridade sobre si mesmos. Ainda que não tenham o padrão perfeito das Sagradas Escrituras e, por isso, só obscuramente compreendam sua própria culpa, são todavia conscientes de falhas e ofensas, pelas quais deverão prestar contas diante dos poderes celestiais, sejam quem forem os deuses que tenham engendrado.

Romanos 3.19 resume o assunto com clareza: Esteja toda boca fechada diante de Deus, e o mundo todo, tanto os judeus como os gentios, será responsabilizado pelos seus pecados e culpas diante de Deus. A humanidade toda se perdeu. Todos os homens necessitam de um Salvador. Sem que tenhamos um Redentor eficiente não sairemos livres do tribunal de Deus (nem dos poderes dos céus). João 3.18 declara: "Quem nele [Jesus] crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer nome do Filho Unigênito de Deus" (grifo do autor).

A expressão "condenado segundo a acusação" aplica-se a toda a raça humana, não havendo a menor esperança para ser humano algum, a não ser que o Rei lhe conceda perdão. É muitíssimo importante que João 3.18 esteja logo depois de João 3.16, que fala do amor de Deus pelo mundo, e do dom de seu Filho, cuja morte expiatória é suficiente para salvar qualquer crente, todos os remidos, os autênticos cristãos, livrando-os da morte eterna que por si mesmos merecem.



  • 327

Esse parágrafo de João 3 deixa bem claro que sem Cristo não há salvação. É como o próprio Jesus disse a Tomé: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai a não ser por mim" (Jo 14.6).

Às vezes alguém que refugiu do conceito evangélico da condição desesperadora da humanidade perdida, revive a esperança de que talvez haja um segundo caminho para o céu, além de Cristo: "Se uma pessoa que jamais teve a oportunidade de ouvir o Evangelho viver segundo a luz que lhe houver sido dada, e sinceramente procura a Deus, é certo então que tal pecador não está condenado ao Inferno, por causa da ausência de uma testemunha missionária". Diversas observações precisam ser feitas a respeito dessa teoria, mostrando que ela não se sustenta à luz das Escrituras.



1. Existe uma implicação na declaração de que se o evangelho for apresentado a um grupo de pessoas, Deus se torna obrigado a apresentá-lo imediatamente ao resto da humanidade, sem o concurso da agência humana. Se a mensagem veio aos discípulos de Cristo, ou aos judeus da Palestina, no Pentecostes, então Deus tem uma dívida para com o resto do mundo. A não ser que todas as nações em todas as partes da terra tenham igual acesso, e ao mesmo tempo, às boas-novas da morte expiadora de Cristo, Deus deve ser condenado como injusto. Esta é a implicação necessária da cláusula atenuante "aqueles que jamais tiveram a oportunidade de ouvir o evangelho", com suas insinuações de tons acusadores. Todavia, esse conceito deve ser analisado com máximo cuidado.

É o Evangelho uma questão da graça ou da obrigação, da parte de Deus? A Bíblia ensina com clareza que as boas-novas são uma dádiva divina: "Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores". (Rm 5.8). "Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé [...]" (Ef 2.8). Se, pois, o Evangelho é grátis e Deus não deve nada a ninguém (pois graça que é devida deixa de ser graça), como podemos, então, afirmar que Deus está proibido de levar as boas-novas de seu amor redentor a determinadas pessoas, a menos que todas elas, em todas as partes do mundo, ouçam a mesma mensagem, no mesmo momento, nas mesmas circunstâncias? Não diz o nt claramente que "Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor, será salvo" (Rm 10.13)? A lógica inescapável em que se baseia o imperativo missionário contido na Grande Comissão prossegue: "Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?" (Rm 10.14, 15). Se os ímpios pudessem na verdade viver à altura das luzes que lhes foram dadas — isto é, as luzes da revelação natural — toda essa lógica entraria em colapso, e Romanos 10 deveria ser rejeitado como ensino falso, destituído de autoridade.

2. Se os incrédulos pudessem salvar-se mediante as luzes que receberam, a dedução lógica, necessária, significaria que as pessoas podem salvar-se pelas suas boas obras. Se isso fosse verdade, Cristo teria morrido em vão e estaria errado ao afirmar: "... ninguém vem ao Pai senão por mim" (Jo 14.6).

3. Se os ímpios podem salvar-se mediante a busca sincera de Deus da melhor maneira que souberem e puderem, temos aqui outra forma especial de boas obras; a graça se torna desnecessária. Porém, a menos que a Bíblia esteja errada, ninguém na face da Terra se salva desse modo; não existem ímpios salvos pela sinceridade de seus corações ignorantes. Romanos 3.10-12 (citando Salmo 14.1-3 e Eclesiastes 7.20), diz o seguinte: "...como está escrito: Não há nenhum justo sequer não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer". Muito bem, se não há uma única pessoa que busque a Deus sinceramente, não precisamos preocupar-nos com a injustiça de o céu estar fechado para os ímpios que sinceramente buscam a Deus. O próprio Deus está afirmando que tais pessoas simplesmente não existem e



  • 328

nunca existiram. E ainda que existissem, a boa obra de buscar a Deus de nada lhes adiantaria no que concerne à salvação. Só Jesus pode salvá-los.

4. Ninguém é condenado ao Inferno pela falta de testemunhas missionárias. A pessoa é conduzida à condenação pelos seus pecados. Ela é culpada de colocar-se a si mesma acima de Deus, pois esse é o principal interesse de seu coração e, nesse sentido, repete a escolha de Eva. Ela decidiu fazer o que mais lhe agradava, o que lhe era mais vantajoso, a ela e a seu marido, em vez de decidir fazer a vontade de Deus, o que o Senhor lhe havia ordenado. Ela deveria ter colocado o desejo de Deus em primeiro lugar em sua vida. Todos os seus descendentes que viveram até a idade de tomar decisões morais seguiram-na e fizeram a mesma escolha — todos, menos Jesus! A condenação sobrevém não da falha em não se ouvir o evangelho, mas da total transgressão de não se guardar o primeiro mandamento, o maior de todos: "Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de toda a tua força" (Dt6.5; Mt 22.37).

À luz das quatro objeções que acabamos de apresentar, devemos concluir que ou os ímpios estão perdidos, e sem esperança, ou a Bíblia está completamente errada, precisando ser corrigida pelos teólogos que disponham de melhor visão do que a Palavra de Deus apresenta. Diversas passagens têm sido erroneamente interpretadas de modo que passem a afirmar que há esperança para os bons que ainda não ouviram a mensagem do evangelho — a despeito do que parecem ensinar passagens como João 3.18; 8.24; 14.6; e Romanos 2, 3 e 10. Uma dessas passagens é Miquéias 6.8: "Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus." Mas, no contexto, essas palavras foram dirigidas a crentes professos que mantêm o relacionamento da aliança com Iavé (o Senhor), o Deus da Bíblia; e servem para advertir esses que uma profissão de fé aceitável deve ser demonstrada por uma vida piedosa. Isso nenhuma influência exerce sobre o ímpio, que nenhum conhecimento tem do Senhor e, por isso, não consegue "andar humildemente com" Deus.

Insistimos: Malaquias 1.11 promete-nos: "'Pois do oriente ao ocidente, grande é o meu nome entre as nações. Em toda parte incenso é queimado e ofertas puras são trazidas ao meu nome, porque grande é o meu nome entre as nações', diz o Senhor dos Exércitos". Diga-se de passagem que tão forte ênfase em conhecer e honrar a Iavé, por seu nome, implica necessariamente ter ouvido a mensagem das Escrituras e nela crido. Sem se ouvir e crer não é possível conhecer esse nome grandioso e redentor.

Há mais: considere a afirmação de Pedro na residência de Cornélio: "...Agora percebo verdadeiramente que Deus não trata as pessoas com parcialidade, mas de todas as nações aceita todo aquele que a teme e faz o que é justo" (At 10.34, 35). Essa declaração não deseja ensinar que existem ímpios de coração reto, que se salvam pelas suas boas obras, ou pelo seu caráter bom. Indica apenas a conscientização desse apóstolo de que Deus aceita os que, como os judeus, são candidatos legítimos à salvação, ouvem o Evangelho e arrependem-se. De outra forma, Pedro poderia ter encerrado suas observações nesse ponto, e saído dali, deixando aqueles gentios cientes de sua nova compreensão da bênção de serem salvos. Ao contrário, Pedro prosseguiu em sua pregação sobre Jesus de Nazaré, sua vida de amor e seu poder para realizar milagres, sua morte expiatória e gloriosa ressurreição (v. 36-41).

Pedro encerrou seu sermão apresentando um apelo missionário de grande urgência, a seu auditório gentio: que eles se arrependessem de seus pecados e colocassem toda confiança em Jesus Cristo, como o Salvador. Vemos, pois, aqui, Pedro usando "as chaves do Reino dos céus" (Mt 16.19) e abrindo a porta da salvação para todos os perdidos, como já havia feito no Pentecostes, em Atos 2. E pela graça de Deus, é isso que todos nós faremos, se sinceramente crermos no que a Bíblia ensina com tanta clareza, que todos os seres humanos estão perdidos, sem Cristo, e ninguém tem acesso a Cristo, exceto quando lhe ouvimos a voz e acreditamos nele.



  • 329

(Quanto às crianças que morrem na infância, veja-se a discussão de Romanos 5.14: "Todavia, a morte reinou desde o tempo de Adão até o de Moisés, mesmo sobre aqueles que não cometeram pecado semelhante à transgressão de Adão, o qual era um tipo daquele que haveria de vir".)

Em Romanos 5.14, que significam as palavras: "... mesmo sobre aqueles que não cometeram pecado semelhante à transgressão de Adão..."?

Romanos 5.12-14 diz: "Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram; pois antes de ser dada a Lei, o pecado já estava no mundo. Mas o pecado não é levado em conta quando não existe lei. Todavia a morte reinou desde o tempo de Adão até o de Moisés, mesmo sobre aqueles que não cometeram pecado semelhante à transgressão de Adão, o qual era um tipo daquele que haveria de vir". Essa passagem nos ensina com toda clareza que 1) no caso do homem, criado à imagem e semelhança do Deus eterno, a morte não era uma necessidade, mas a penalidade do pecado — desobediência cometida por Adão e Eva no Jardim do Éden; 2) a aliança havia sido celebrada com Adão e com todos os seus descendentes, pelo que seu pecado de comer do fruto proibido envolveu não apenas ele próprio, mas toda a sua posteridade, num estado de pecado e morte; 3) as conseqüências penais daquela queda influíram sobre toda a humanidade, até mesmo antes da entrega da lei no monte Sinai, e antes de a primeira porção das Escrituras Sagradas ser revelada e entregue em forma escrita; e 4) por causa daquele pecado original, a morte atingiu toda a humanidade, a partir de Adão até Moisés — inclusive as pessoas (descendentes de Adão) que deliberadamente haviam decidido que não desobedeceriam a Deus, como fez Adão.

Isso suscita a questão: qual é o membro da raça humana que não se parece com Adão e, portanto, decidiu conscientemente que não transgrediria contra Deus, e não desobedeceu mesmo? Quem dentre nós não repetiu pessoalmente a ofensa de Adão, pelo uso de nosso livre-arbítrio? A resposta é: Ninguém, nenhum ser humano, nascido de mulher — exceto os que morreram na tenra infância, que não chegaram à idade da razão suficiente para tomar decisões morais responsáveis. É possível que se discuta a questão da duração desse estado inicial de inocência, após o nascimento da criança. Bem cedo os pais percebem a realidade da natureza rebelde de seus filhos; e vêem a si mesmos bem cedo, no processo de educá-los, dizendo-lhes que procederam bem, ou mal, em certos dias, sob certas circunstâncias. E assim é que o bebê talvez seja considerado culpado de pecado ao demonstrar seu mau humor, pela primeira vez, ou mais tarde, quando estiver engatinhando e dispondo-se a fazer algo errado, sua natureza adâmica está presente ali. Bem depressa nós os pais nos reconhecemos em nossos pequenos filhos!

Todavia, fica bem claro que nos primeiros estágios da vida de uma criança, ela é totalmente inocente no que diz respeito às suas manifestações morais. No entanto, como o versículo 14 salienta, a morte — que é a penalidade do pecado nos seres humanos adultos — "reinou" em toda a raça humana, inclusive nas criancinhas que, ao morrerem na infância, não tiveram oportunidade de repetir a queda de Adão. É claro, no entanto, estão incluídas na culpa de nosso primeiro pai.

Surge, pois, a pergunta: Por que as coisas têm de ser assim? Como pode haver justiça em condenar alguém que jamais pecou conscientemente? A resposta nós a encontramos no fato de Adão ser o representante da humanidade e no potencial previsto da criança que foi tirada da vida prematuramente. Romanos 5 estabelece Adão e Cristo como os dois responsáveis da humanidade (ou representantes das alianças). O primeiro foi nomeado representante de toda a humanidade; o segundo foi eleito representante da raça humana redimida. Adão reagiu à face da aliança das obras com um ato de desobediência, de rejeição a Deus; Cristo atuou diante dessa aliança com um ato de afirmação do amor a Deus, uma demonstração de obediência — mediante sua morte na cruz, como expiação pelo homem decaído — o clímax e selo de uma vida perfeitamente isenta de pecado, de obediência a Deus.


  • 330

Romanos 5 ensina que a reação moral de cada um dos dois passou seus méritos a todas as pessoas que participavam da aliança — mediante o princípio da imputação. O pecado de Adão foi transmitido a todos os seus descendentes — inclusive às crianças que morrem na infância. Da mesma forma, a obediência irrepreensível, sem pecado, de Cristo, foi atribuída a todos os seres humanos que pela fé pertencem a Ele.

Toda a raça humana caiu em pecado e culpa pela queda de Adão, mas todos quantos estão em Cristo foram redimidos pela sua justiça, atribuída a eles pela graça de Deus, estendida a todos quantos sinceramente crêem em seu Filho, Jesus Cristo, para a salvação. Deixar de aceitar o princípio envolvido na doutrina de Adão ser nosso representante implica também a rejeição da doutrina de Cristo como nosso Salvador. Quem despreza seu envolvimento pessoal com o pecado original (é isso que significa a aceitação de Adão como nosso representante) pela mesma medida rejeita a justificação que lhe cabe mediante a fé em nosso Salvador, Jesus Cristo. A passagem em pauta ensina as duas doutrinas; por isso, quem rejeita uma, despreza a outra também.

Todavia, quando tentamos aplicá-la às crianças que morreram na infância, surge um grave problema a respeito da salvação. Se os benefícios do Calvário estão disponíveis apenas para as pessoas que crêem e se arrependem, que esperança existe para uma criança que morreu antes de chegar à idade de poder crer e arrepender-se? A idéia nos conduz ao potencial previsto da criança que morreu. Em outras palavras, toda e qualquer criança que alcançar a idade da razão, em que pode prestar contas de si mesma, com absoluta certeza vai repetir o pecado de Adão, vai recapitular a desobediência de nosso primeiro pai, visto ter sido dotada de livre-arbítrio e capacidade de escolha voluntária, pela qual será responsável. Todavia, a criança que morreu antes de atingir esse nível moral, espiritual, se lhe tivesse sido permitido viver mais, é certo que teria reagido de algum modo, pela obediência ou desobediência, à face da oferta graciosa do Evangelho. A criança na idade da razão teria aceitado ou rejeitado o Evangelho. Deus sabe o que está no coração do ser humano antes ainda de ele nascer. Disse Deus a Jeremias: "Antes de formá-lo no ventre eu o escolhi; antes de você nascer, eu o separei e o designei profeta as nações". (Jr 1.5). Deus não precisou esperar para ver de que modo Jeremias reagiria ao chamado divino. Diga-se o mesmo de João Batista (Lc 1.13-15) e do Senhor Jesus (Is 49.1). Portanto, se Deus sabe de antemão o que cada criança vai fazer, e como reagirá ao atingir a idade das decisões morais, há razões de sobra para crermos que Deus sabe como elas reagirão a seu chamado e se aceitarão ou não sua oferta de graça redentora.

Portanto, pode-se considerar uma inferência necessária (embora talvez não exista ensino explícito nas Escrituras, sobre o ponto de que estamos tratando em particular) da presciência de Deus, da futura reação de cada criança, que o Senhor também sabe qual seria a atitude dela, se vivesse tempo suficiente para tomar tal decisão. Portanto, concluímos que todas as crianças que morrem na infância são julgadas de acordo com o princípio do potencial previsto por Deus.

Encerramos com uma observação à opinião comumente expressa de que todas as crianças que morrem na infância estão automaticamente salvas, visto que não cometeram pecado. Entretanto, por mais bondosa e bem intencionada que essa idéia possa ser, ela enfrenta duas objeções: primeira, na verdade rejeita a doutrina do pecado original, ensinada em Romanos 5, pois pressupõe que chegamos ao mundo tão isentos de pecado e culpa como se Adão jamais houvesse pecado — o que abertamente contradiz as Escrituras. Segunda, essa doutrina da salvação universal de todas as crianças mortas na infância induz-nos ao horrendo dilema moral enfrentado por todos os pais. Em outras palavras, se a morte na infância assegura a entrada livre dos filhos de alguém no céu — pois eles poderiam rejeitar o Senhor mais tarde e, desse modo, acabar no inferno — torna-se então quase obrigatório que cada pai estrangule seus filhos tão logo nasçam, pelo que todos os defensores e praticantes do aborto estão realizando um excelente trabalho! Ainda que alguém pratique infanticídio pode ser tecnicamente culpado de assassinato, seu motivo para praticar tal ato diminui grandemente a culpa (ainda que não a


  • 331

elimine de todo) que de outra forma se atribui a tão monstruoso crime. Seria concebível que Deus ordenasse seu universo moral de tal modo que desse um motivo especial, do tipo benevolentíssimo, para que cada pai ou mãe assassinasse seu filho antes que ele chegasse à idade da razão para a prestação de contas? No entanto, essa é a conseqüência inescapável da aceitação dessa doutrina da salvação universal das crianças em plena infância.

À luz de todos os fatores mencionados, encontramos uma declaração muito melhor na Confissão de fé de Westminster (cap. X.3): "As crianças eleitas que morrem na infância são regeneradas e salvas por Cristo pelo Espírito, que opera quando e onde e da maneira que lhe apraz. Assim também são salvas todas as demais pessoas incapazes de ser chamadas externamente pelo ministério da Palavra" — isto é, os mentalmente incapazes.



Era o faraó realmente responsável por sua rebelião contra Deus, de acordo com Romanos 9.17?

Romanos 9 devota-se em grande parte à discussão da graça soberana de Deus, e como essa opera em relação aos eleitos (i.e., os que foram escolhidos para a salvação) e os demais (os que não foram escolhidos). O princípio da graça soberana e livre é colocada em contraste com outro conceito, o que se refere a obter-se a salvação por boas obras. Surge em conexão com a escolha que Deus fez de Jacó, e rejeição de Esaú, antes ainda que esses irmãos gêmeos houvessem nascido (v. 13). A seguir prossegue a discussão com a menção do Faraó do Êxodo, sobre quem disse Deus: "Eu o levantei exatamente com este propósito: mostrar em você o meu poder, e para que o meu nome seja proclamado em toda a terra", (v. 17); [é citação também de Êxodo 9.16].

Nesse ponto, Paulo levanta a objeção que tem sido discutida desde então: "Então por que Deus ainda nos culpa? Pois quem resiste à sua vontade?" (Rm 9.19). O apóstolo dá a resposta, fazendo duas considerações: 1) a criatura finita, que derivou toda a sua compreensão moral de seu infinito Criador, é totalmente incapaz de julgar Deus, ou de questionar a administração divina da justiça (v. 20). 2) Deus sabe perfeitamente bem como demonstrar sua glória, em seu trato com as duas classes de pessoas: "os vasos de sua ira" (v. 22) e "os vasos de sua misericórdia" (v. 23). O Faraó desafiou arrogantemente o Deus dos hebreus (Êx 5.2) e representa os vasos de ira. Deus suportou seu desafio, sua blasfêmia e as repetidas violações de suas promessas feitas a Israel; e Deus lhe concedeu inúmeras oportunidades para que permitisse a saída dos israelitas do Egito, sem perda de vidas. Finalmente, porém, quando se esgotava a paciência divina, e o Faraó havia desfeito todas as oportunidades de Israel retirar-se (depois da celebração religiosa longe do país), o Senhor derramou sua ira sobre o Faraó e toda a nação egípcia. Todos os primogênitos de cada família (até entre os rebanhos por todo o domínio faraônico) — inclusive na casa do príncipe herdeiro — foram mortos na noite da primeira Páscoa.

Quanto aos "vasos de sua misericórdia", não compreendiam necessariamente "pessoas boas", que tivessem adquirido o favor de Deus mediante suas vidas exemplares e seus caracteres virtuosos. Ao contrário, esses vasos eram os verdadeiros crentes, judeus e gentios, que atenderam ao chamado de Deus com arrependimento e fé (Rm 9.23, 24). Finalmente Paulo encerra esse tópico com a seguinte observação a respeito da graça de Deus: "Que diremos, então? Os gentios que não buscavam justiça, a obtiveram; uma justiça que vem da fé; mas Israel, que buscava uma lei que trouxesse justiça, não a alcançou" (v. 30, 31).

Da linha de ensino do capítulo citado, podemos traçar a seguinte resposta em relação à culpa real atribuível ao Faraó (que provavelmente era Amenotepe ii). Do ponto de vista de Deus, a resposta negativa do Faraó à súplica de Moisés estava totalmente no domínio da presciência de Deus (Êx 3.19 contém a predição de Deus feita a Moisés perante a sarça ardente: "Eu sei, porém, que o rei do Egito não os deixará sair a não ser que uma poderosa mão a forre"). Além do mais, à vista da recusa prevista do Faraó, Deus lhe endureceria o coração, de modo que proibiria de fato o povo israelita sair do Egito, até mesmo para uma festividade religiosa no deserto (Êx 4.21). Parece


  • 332

que o propósito do endurecimento do coração do Faraó seria o de cancelar qualquer obrigação da parte dos israelitas de voltar ao Egito, após o término do culto de adoração ao Senhor. Depois de o rei ter quebrado sua promessa nove vezes, deixaria de existir qualquer obrigação moral de os israelitas retornarem. Então, na décima e última praga contra o Egito, Deus tiraria a vida do primogênito do Faraó.

Resta fazer uma observação importante sobre o faraó: o coração dele não foi endurecido por Deus senão depois de o próprio rei tê-lo fechado ao recusar atender à petição de Moisés. "Quem é o Senhor, para que lhe obedeça e deixe Israel sair? Não conheço o Senhor, e não deixarei Israel sair" (Êx 5.2). Desde que por sua própria decisão e livre-arbítrio o faraó havia rejeitado o pedido de Moisés e Arão, Deus iniciou o processo de endurecimento de seu coração (7.8, 13, 22; 8.19 etc), a ponto de o rei tornar-se quase irracional. Reiteradamente comprometeu sua honorabilidade ao recusar-se a manter sua palavra dada a Moisés, à medida que praga após praga caía sobre os egípcios. A seqüência causativa aqui é quase igual àquela descrita em Romanos 1.19-26. Primeiro, a humanidade havia recebido por revelação natural um conhecimento básico sobre o poder eterno de Deus e sua natureza divina; no entanto, os homens não o honraram como Ser supremo, nem lhe agradeceram (v. 21), mas tornaram-se orgulhosos de sua própria sabedoria e por isso caíram numa estupidez espiritual (v. 22). "Por isso Deus os entregou a impureza sexual segundo os desejos pecaminosos do seu coração, para a degradação do seu corpo entre si. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre..." (v. 24, 25). O mesmo endurecimento sobreveio ao coração da raça humana em geral, como o que se verificou no faraó em particular.

Voltando, pois, a Romanos 9.17 ("Eu o levantei exatamente com este propósito: mostrar em você o meu poder, e para que o meu nome seja proclamado em toda a terra".) chegamos ao plano imutável de Deus, segundo o qual não só o Senhor absorve a rebelião do homem, mas usa-a como oportunidade para demonstrar sua justiça e graça. O faraó recusou-se a atender os pedidos dos hebreus escravizados, apesar de todas as promessas que fizera quanto a libertá-los. No entanto, essa intransigência só serviu para justificar a quebra de relações com o Egito; o governo egípcio nenhuma razão tinha para apelar à justiça; os israelitas não estavam mais sob a obrigação moral de voltar ao cativeiro, após o término do culto no deserto. Segundo Êxodo 5.1, tudo o que os israelitas haviam pedido originalmente foi que pudessem ir ao deserto celebrar aquela adoração. Agora, os israelitas estavam livres, poderiam ir embora definitivamente; os egípcios que lamentassem a perda de suas colheitas, de seu gado, e das vidas de seus primogênitos, sob o impacto das dez pragas. O terror do Todo-poderoso se instalou no coração dos egípcios mediante a horrenda visitação das pragas, de que as nações vizinhas haviam recebido notícias. Essas souberam também do "status" especial de Israel como nação da aliança com o verdadeiro Deus — como o Senhor se lhes revelara.

Voltamo-nos agora para a questão mais ampla, a da tensão entre a predestinação e o livre-arbítrio, entre a soberana graça de Deus e a responsabilidade humana pelo pecado, deixando de lado esse caso particular do faraó. A soberania divina levanta uma aparente dificuldade com respeito a quem é o responsável real, último, pelo mal. Romanos 9.19 dispõe com muita agudeza: "Então porque Deus ainda nos culpa? Pois quem resiste à sua vontade?". Se é verdade que Deus tem misericórdia de quem quer ter misericórdia e rejeita quem quer endurecer, não se deduz daí que o ser humano está livre da responsabilidade final pelo seu pecado? Se Deus deliberou criar dois tipos de pessoas, os eleitos e os réprobos, e desse modo programou-os para que fossem livres apenas para reagir segundo a natureza com que foram criados — natureza que lhes foi predeterminada sem que tivessem escolha independente de sua parte — a responsabilidade última pela seu pecado e fracasso e falta de arrependimento não recai sobre a decisão de Deus de atribuir natureza corrupta ao homem? Não significa isso que o próprio Deus é o autor do pecado?



  • 333

Tal idéia contraria o ensino das Escrituras, que dizem: "Pois tu não és um Deus que tenha prazer na injustiça; contigo o mal não pode habitar" (Sl 5.4). "Teus olhos são tão puros que não suportam ver o mal; não podes tolerar a maldade..." (Hc 1.13). "Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz" (Tg 1.13, 14). O versículo de Isaías 45.7, tão freqüentemente citado (que kjv e ra erroneamente traduzem: "faço a paz e crio o mal") ensina que Deus construiu um universo moral em que depois do erro vem o castigo. A palavra-chave aqui é rā‘ que abrange toda a gama da maldade, desde provações entristecedoras a calamidades e desastres que derrubam os bons e os maus igualmente, e ao mal de natureza moral. Entretanto, nesse contexto, em que existe antes um par de idéias antitéticas ("luz" e "trevas"), é exegeticamente certo que rā‘ tenha a intenção de constituir o oposto, não da virtude ou da bondade, mas de šālôm ("paz" ou "bem-estar"). Portanto, a rsv traz uma tradução melhor: "Eu faço o bem-estar e crio a aflição"; nasb traz: "causando o bem-estar e criando a calamidade"; nvi diz: "promovo a paz e causo a desgraça". Por isso, Isaías 45.7 não dá indicação alguma de que Deus seja o autor último do mal.

Talvez fosse bom acrescentar aqui que sendo Deus o Criador do universo moral, o Senhor o criou com a "possibilidade" do mal moral. Não pode existir tal coisa chamada bem moral, a menos que haja o mal moral. Sem a escolha voluntária do que é justo e certo, não pode existir a virtude; a liberdade para escolher-se o bem necessariamente implica a liberdade para escolher o mal — com todas as terríveis conseqüências decorrentes da escolha. Não pode haver a possibilidade do amor real, sem a existência da rejeição e do ódio. Portanto, se Deus criou os anjos e os seres humanos com o propósito de amá-los e manter comunhão com eles, tais criaturas deveriam ter a prerrogativa de reagir a ele em amor, por sua própria decisão. No entanto, a menos que haja a possibilidade de a pessoa rejeitar o amor, não pode haver a possibilidade de afirmar o amor. Sem essa liberdade de escolha, não existe moralidade, nem amor, apenas reação automatizada, mecânica. Que essa percepção sirva de resposta às perguntas que se levantam com tanta freqüência: Por que permitiu Deus a existência de uma pessoa como Satanás? Por que permitiu Deus que Satanás se aproximasse de Eva por meio de seu agente, a serpente? Por que Deus não fez Adão e Eva completamente bons, de tal modo que jamais caíssem em tentação? A resposta a todas as perguntas é: sem a possibilidade do mal, não haveria a possibilidade do bem.

Há outra distinção importante no que concerne ao ser humano, que não se pode deixar de lado. Gênesis 1.27 declara que Deus fez o homem à sua imagem. Significa, então, que em sua estrutura moral e mental, Adão seria parecido com Deus — dentro dos limites em que o finito possa assemelhar-se ao infinito. É certo que Deus é bom, e nele não há mal algum, nem engano. Deus é bom por causa de alguma força externa que o condicionou, de modo que ele não poderia ser outra coisa senão perfeito? Ou ele é bom porque ele escolheu a bondade e rejeitou o mal? Poder-se-ia levantar uma questão muito apropriada quanto a que se fora de Deus seria possível criar-se um padrão de medida moral, pelo qual sua bondade seria avaliada e determinada. É certo que a vontade de Deus é totalmente livre e não é determinada por outra autoridade ou poder externos. Então, não aconteceria que o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, também tenha sido dotado de uma capacidade análoga de escolha pessoal, em virtude da qual o ser humano é responsabilizado por ter colocado a si próprio acima de Deus, como o fez toda a raça humana (com exceção de Jesus). Concluímos, pois, que o ser humano é total e finalmente responsável pelo seu próprio pecado, pelo qual Deus não tem responsabilidade alguma, em grau nenhum. Quando o Senhor lança uma convocação a toda a raça humana para que haja arrependimento e retorno a ele, em fé e total submissão, (Atos 17.30, 31: "No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam. Pois estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou.


  • 334

E deu provas disso a todos, ressuscitando-o dentre os mortos.") esse apelo deve ser considerado um convite sincero, uma oferta de perdão e vida nova a todos os homens, em todos os lugares. Se recusarem essa oportunidade, serão responsáveis e totalmente culpáveis pela recusa.

Esse princípio da graça soberana envolve a rejeição total do esforço humano no sentido de merecer a salvação, ou ganhar o favor de Deus. "Graça" significa que é Deus quem faz todas as coisas, sem a ajuda do homem. A salvação deve advir como dádiva, um presente imerecido, pois o ser humano perdeu todo e qualquer direito e mérito para justificar-se. "Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom e Deus; não por obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2.8, 9). "Não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo" (Tt 3.5). O texto diz que nada oferecido a Deus à guisa de caráter bom, serviço nobre ou obras de justiça contribui de alguma forma para a nossa salvação. Os que verdadeiramente se salvam recebem Jesus Cristo (Jo 1.12) como Senhor e Salvador (Rm 10.9, 10). Tendo o poder do Espírito que em nós habita (Cl 3.1-4), produziremos obras de justiça e bondade que manifestem a vida de Cristo dentro de nós. ("Assim como o corpo sem espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta" [Tg 2.26].)

No entanto, a obra de santificação desenvolvida na vida do crente nascido de novo é basicamente a operação graciosa do próprio Deus (Rm 8.10-11, 14). Essa vida transformada produzirá continuamente o fruto de nove gomos (Gl 5.22, 23), se na verdade houve entrega pela fé, e não mera contrafacção ou auto-engano, e se o verdadeiro filho de Deus apresentar seu corpo continuamente como sacrifício vivo a Deus, que o redimiu (Rm 12.1). Portanto, o crente não mais se conforma com esse mundo, mas vai-se transformando pela renovação da mente, mediante a operação do Espírito de Cristo que nele habita (v. 2).

No entanto, permanece a verdade que o homem nenhuma contribuição pode fazer em prol de sua salvação — se é que vai salvar-se, é claro. Até mesmo a fé salvadora é dom de Deus (Ef 2.9). Tudo o que o ser humano perdido pode fazer é considerar as palavras de Cristo e aceitar a oferta de sua graça. E nem sequer a reação positiva se assemelha a uma obra meritória; é apenas um ato de mendigo que estende a mão vazia e suja para aceitar uma ajuda de seu benfeitor. É ato que nada tem a ver com méritos; não atribui ao pedinte merecimento algum, pois continua igual ao que oculta a mão no colo, em vez de estendê-la. A salvação é outorgada por piedade e graça. "Tendo Deus, por mera boa vontade, desde toda a eternidade, eleito alguns para a vida eterna, celebrou com estes uma aliança da graça, para livrá-los do estado de pecado e miséria, e conduzi-los a um estado de salvação mediante um Redentor" (Confissão de fé de Westminster, 20). Dificilmente essa declaração poderia ser melhorada como formulação clássica da doutrina da graça.

De acordo com esses versículos, Deus escolheu seus redimidos desde a eternidade, "antes da fundação do mundo" (Ef 1.4). Ele não precisou esperar para ver; aquele que sabe todas as coisas desde o início até o fim conhece qual seria a reação de cada pessoa ao chamado de Cristo. Portanto, esses verdadeiros crentes, que constituem o templo espiritual de Cristo, o corpo místico do Senhor, sua esposa amada, são considerados dádiva de amor do Pai ao Filho (Jo 17.6: "Eu revelei teu nome àqueles que do mundo me deste. Eles eram teus; tu os deste a mim, e eles têm obedecido à tua palavra").

Em que base escolheu Deus os seus eleitos? Não foi de acordo com os méritos que tivessem (Ef 2.8, 9), quer pelo caráter, quer pelas boas obras, tampouco pela fé (como obra meritória), mas "nos escolheu nele" (Ef 1.4). Essas palavras parecem deixar implícito que Deus, o Pai, só escolhe as pessoas que estão no Filho, Jesus Cristo. No entanto, há um mistério a respeito da reação dos pecadores ao chamado do Salvador. É óbvio que não podemos estar em Cristo a menos que estejamos unidos a ele pela fé. Mas quem determina a nossa fé? Por que duas pessoas na mesma reunião evangélica ouvem a mesma mensagem do mesmo pregador, mas uma delas reage positivamente ao convite e vai à frente a fim de receber a Cristo, enquanto a outra permanece teimosamente em seu lugar,



  • 335

agarrada aos seus pecados e egoísmo? Disse Jesus em João 6.37: "Todo aquele que o Pai me der virá a mim, e em que vier a mim eu jamais rejeitarei", ou seja, nada existe no princípio da eleição ou predestinação que impeça um pecador arrependido de vir a Cristo e receber sua salvação.

Em João 6.44, no entanto, Jesus disse também: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair...". Os que vêm a Cristo fazem-no como resultado de uma obra graciosa de Deus em seus corações; é Deus, o Pai, que os atrai ao Filho, como Salvador e Senhor. Assim, devemos dar a Deus todo o crédito e toda a glória pelo impulso em nosso coração para reagir positivamente ao chamado de Cristo, quando o Evangelho nos é apresentado. De outra maneira, poderíamos dizer a nós mesmos: "Bem, de certa forma, eu mereci a graça de Deus, porque eu obedeci quando ele me chamou; fui diferente do pecador impenitente que estava sentado perto de mim, e não quis ir à frente quando o apelo foi feito". Não há lugar para mérito pessoal no que diz respeito à nossa eleição. É apenas uma questão "da mera boa vontade de Deus", o qual recebe toda a glória quando um pecador se salva. Todo aquele que rejeita o Senhor deve receber toda a culpa por preferir permanecer condenado e perdido, mas toda pessoa que se salva deve dar a Deus toda a glória e louvor pela sua salvação, e sua nova vida em Cristo.

Resumindo, então: Deus escolhe desde a eternidade todos os que hão de salvar-se; e a única base de sua decisão é sua boa vontade, assim como a única razão da salvação e justificação é o mérito da morte expiatória de Cristo. No entanto, Deus jamais escolhe os que não vão crer e nem querem aceitar Cristo; Deus só levará a Cristo para a salvação os que crêem nele. O que faz um pecador abrir seu coração à verdade de Deus e tornar-se disposto a crer, na verdade não está esclarecido nas Escrituras. Tudo de que podemos ter certeza é que Deus "é paciente com vocês, não querendo que nenhum pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento" (2 Pe 3.9) e não faz a escolha no lugar das pessoas. Cada uma assume total responsabilidade por sua própria escolha; como ser humano criado à imagem de Deus (portanto, o homem recebeu responsabilidade moral), em quem o Espírito de Deus operou (pois só ele pode evocar fé verdadeira e salvífica), a pessoa precisa decidir por si mesma entre a vida e a morte, a bênção e a maldição — "escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam" (Dt 30.19).

1   ...   48   49   50   51   52   53   54   55   ...   62


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal