Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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1 Coríntios


Teria Elifaz sido inspirado quando pronunciou Jó 5.13?

Em 1 Coríntios 3.19, Paulo cita uma declaração de Elifaz, feita em Jó 5.13: "Apanha [Deus] os sábios na astúcia deles", o que levanta um problema interessante, visto que Jó 42.7 cita Iavé dizendo a Elifaz: "Estou indignado com você e com os seus dois amigos, pois vocês não falaram o que é certo a meu respeito, como fez meu servo Jó". Essa expressão sugere que os sentimentos expressos pelos "confortadores" de Jó não tinham confiabilidade em seu ensino teológico. Um crítico, Dewey Beegle, coloca o problema nestes termos: "Tradicionalmente falando, Elifaz nunca foi considerado inspirado. Afirma-se, na verdade, que o inspirado foi Jó [...] Parece que a Paulo não interessou quem havia dito aquilo, nem se tal pessoa havia sido inspirada. A afirmação era verdadeira, assim pensava Paulo, pelo que ele a usou em sua argumentação" (Scripture, tradition and infallibilit) [Grand Rapids: Eerdmans, 1973], p. 194).



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O que esse comentário deixa de reconhecer é que Paulo na verdade trata das palavras de Elifaz como se fossem inspiradas, visto que o apóstolo as apresenta dizendo o seguinte: "Está escrito". Por todo o nt, Cristo, os apóstolos e os evangelistas Marcos e Lucas usam a fórmula "está escrito" a fim de citar As Escrituras cheias de autoridade para provar determinado ponto de vista. É lícito concluir que nesse exemplo, também, a passagem citada é considerada inerrante, digna de crédito e cheia de autoridade. Isso serve de lembrete de que muitos dos princípios gerais que os "confortadores" levantaram em seu diálogo com Jó eram verdadeiros, ainda que talvez não fossem apropriados para a situação de Jó, os quais por inferência poderiam não ter sido justos para com o patriarca. Mas devemos lembrar-nos de que o próprio Jó declarou a seus amigos: "quem não sabe dessas coisas?" (12.3) — i.e., essas propostas religiosas que os amigos vinham pregando a ele.

Na verdade, o próprio Jó em algumas de suas falas expressa sentimentos muito parecidos com os dos "confortadores" que tentaram consolá-lo. Pelo fato de terem reconhecido que Deus é justo e está pronto para receber o pecador penitente de volta, e ser-lhe gracioso, falavam a verdade divina. Mas, ao insistirem em que Deus provavelmente não permitiria que tanta desgraça acontecesse a Jó, a menos que o patriarca fosse culpado de algum pecado horrendo, oculto, erraram seriamente ao não interpretar corretamente as ações providenciais de Deus. De fato, aqueles homens tentaram empurrar Deus para dentro de sua mentalidade do tipo salvação pelas obras, fazendo do Senhor o patrono de sua doutrina de auto-justificação.

Devemos salientar ainda que nem tudo que Jó disse a respeito de Deus, naquele estado de ressentimento e frustração, era real. Por exemplo, em 10.3, ele reclama de Deus: "Tens prazer em oprimir-me, em rejeitar a obra de tuas mãos, enquanto sorris para o plano dos ímpios?" Também em 16.12, 13 Jó acusa Deus de crueldade ímpia no modo de tratá-lo. Devemos observar ainda que até mesmo um pecador de modo algum inspirado, como Caifás, em certas ocasiões pode exprimir um sentimento como o de João 11.50: "Não percebeis vós que é melhor que morra um homem pelo povo, e que não pereça toda nação". E João prossegue: "Ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus morreria pela nação judaica (v. 51).

Ao estudar-se qualquer livro da Bíblia, é necessário que se considere bem o ambiente de cada declaração, a fim de averiguar-se se o autor a fez com autoridade e inspiração do alto, ou se aquelas palavras apenas apresentam um relatório exato de pronunciamentos sem inspiração de crentes mal-orientados, ou do próprio Satanás. Todas essas distinções estão envolvidas na doutrina da inerrância.



Há coerência entre 1 Coríntios 7.12, 40 e a autoridade inerrante das cartas de Paulo?

Esses dois versículos apresentam um fator diferente com respeito à autoridade apostólica de Paulo, pelo que serão tratados separadamente. No parágrafo que se inicia com o versículo 8, Paulo está discutindo a questão de alguém permanecer solteiro ou casar-se. Também alude às alternativas que os casais enfrentam, quando um é incompatível com o outro. Nos versículos 10 e 11 ele cita uma expressão do Senhor Jesus, pronunciada no início de seu ministério (Mt 5.32; 19.3-9) pela qual marido e mulher não podem separar-se; em outras palavras, a esposa não deve abandonar o esposo, ele não deve despedi-la e divorciar-se dela. (Mateus 5.32 permite o divórcio se houver infidelidade.) A seguir, 7.12 trata da questão dos casais que se separaram: podem eles livremente casar-se com outras pessoas? O apóstolo observa que Jesus nunca falou explicitamente sobre essa questão (ainda que as implicações de Mateus 5.32 apontem com firmeza a proibição de um segundo casamento).

Seja porque ele esteja fazendo uma inferência (ainda que ela seja inevitável) do ensino de Cristo para o divórcio, ou talvez tenha recebido uma revelação explícita da vontade de Deus quanto a um tipo de tensão matrimonial, Paulo deixa bem claro que o que ele está prestes a dizer não é citação dos lábios de


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Jesus. Portanto, assim diz ele: "Aos outros, eu mesmo digo isto, não o Senhor". Jesus jamais discutiu o que deve ser feito a um cônjuge que se salva, enquanto o outro se opõe ao Evangelho; por isso, era necessário que Paulo fizesse uma distinção entre a proibição explícita do divórcio (sobre o qual Jesus fizera um pronunciamento claro e definitivo) e uma inferência lógica e necessária que Paulo tirara (sob a influência do Espírito Santo) para a situação aflitiva dos casais em litígio.

Havia, naturalmente, muitas revelações da parte de Deus nos escritos inspirados de Paulo. Tais cartas freqüentemente tratavam de assuntos sobre os quais o Senhor Jesus nunca havia discutido em seu ministério terreno. Contudo, à vista de todo o ensino de Paulo ter-lhe sido entregue mediante revelações do Cristo ressurreto, pela atuação do Espírito Santo, tal ensinamento tinha o mesmo peso de autoridade das palavras do próprio Senhor Jesus, quando ministrava entre os homens. Portanto, "eu mesmo digo isto, não o Senhor" não implica algo que prejudique a autoridade total da mensagem de Paulo (nem aqui nem em passagem alguma de suas cartas); relaciona-se apenas à questão de Paulo poder ou não citar uma expressão registrada por Jesus, antes de sua ressurreição e ascensão.

Quanto a 1 Coríntios 7.40, Paulo aconselha aos que estão indecisos em relação ao casamento, e assim diz ele: "Em meu parecer, ela [i.e., a mulher que perdeu seu marido por morte] será mais feliz se permanecer como está; [i.e., em viuvez]; e penso [dokō] que também tenho o Espírito de Deus. [i.e., ao exprimir esta minha opinião]". Dokō (de dokeō) tem a idéia de "julgar, achar, pensar, supor, ou ser de opinião que" (neste caso ou naquele). Não quer dizer necessariamente alguma incerteza ou dúvida da parte de quem emite sua opinião; apenas enfatiza que aquela era sua opinião pessoal, sua convicção. Dokeō significa que a opinião emitida é boa, e nada a prejudica. Por exemplo, em João 5.39, Cristo diz a seus ouvintes: "Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês tem a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; " (grifo do autor). O verbo dokeite ("pensam") certamente não sugere incerteza ou dúvida da parte de Cristo, quanto a se a vida eterna está registrada nas Escrituras, porque se cria inquestionavelmente que sim. Mas o Senhor usa dokeite a fim de enfatizar que as pessoas julgavam isso uma expressão da verdade.

1 Coríntios 7.10-16 autoriza o divórcio quando há deserção da parte de um dos cônjuges?

1 Coríntios 7.10-16 trata primordialmente da situação que surge quando um cônjuge se converte a Cristo, mas o outro permanece incrédulo. Por causa da completa mudança na perspectiva e nos ideais que ocorre no que se converte, é certo que surgirão agudas diferenças de opinião e de objetivo entre o casal. Por causa do desejo de levar uma vida santa, o novo cristão pode ser tentado a achar melhor separar-se de seu cônjuge e, desse modo, dar um fim aos problemas que surgem pelo desacordo e incompreensões que passam a dividir o lar.

É sob essa luz que devemos entender os versículos 10-13, os quais ensinam que o marido cristão não deve expulsar (aphienai) a esposa incrédula, e tampouco ela deve "abandonar" (chōristhēnai apo, lit., "separar-se de") seu esposo incrédulo. Em outras palavras, a iniciativa quanto à separação sempre deve vir do cônjuge incrédulo, jamais do crente. O apóstolo salienta que o incrédulo fica sob a influência especial do Espírito Santo, enquanto ambos estiverem vivendo sob o mesmo teto; nesse sentido, um é "santificado" pelo outro. 1 Pedro 3.1, 2 explica como se exerce uma pressão na consciência do incrédulo por causa do novo modo de viver, da vida transformada do cristão: "Do mesmo modo, mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, a fim de que, se ele não obedece à palavra, seja ganho sem palavras, pelo procedimento de sua mulher, observando a conduta honesta e respeitosa de vocês".

Em segundo lugar, o apóstolo salienta que se as crianças desse lar dividido espiritualmente tiver um dos pais, pelo menos, que seja crente verdadeiro, a casa toda entra em um relacionamento com Deus,



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que considera aqueles filhos como "santos" (hagia), em vez de "imundos" (akatharta), como são necessariamente os filhos dos descrentes (1 Co 7.15). Em outras palavras, estão em posição de poderem ser recebidos em um relacionamento de aliança com Deus (mediante a apresentação), como se já pertencessem a Deus. Isso não significa que tais crianças já nasceram de novo, mas pertencem ao Senhor da mesma forma que Isaque após Abraão o circuncidar uma semana depois de ter nascido (Gn 17.12; 21.4). Observe-se que Ismael também foi circuncidado aos treze anos de idade, mas aparentemente ele se desviou do Senhor, depois de crescido, e poderia ter perdido os benefícios da aliança; cf. Gênesis 16.12.

1 Coríntios 7 ensina que a casa dividida espiritualmente não é obrigada a permanecer unida, marido e mulher sob o mesmo teto, se houver uma alienação ou amargura tal, que o cônjuge incrédulo não mais deseje estar ao lado de seu companheiro crente. Assim diz o versículo 15: "Todavia, se o descrente separar-se, que se separe. Em tais casos, o irmão ou a irmã não fica debaixo de servidão; Deus nos chamou para vivermos em paz". No versículo seguinte, Paulo salienta que não existe uma garantia de que as coisas vão melhorar, caso o cônjuge cristão decida ficar, e suporte a perseguição e abuso do incrédulo recalcitrante. Até mesmo essa devoção auto-sacrificial pode tornar-se totalmente inútil, no que diz respeito ao cônjuge incrédulo.

Essa passagem tem levantado muita discussão a respeito do divórcio. Mateus 5.32 e 19.9 estabelecem com clareza que a "infidelidade" (porneia) é o principal motivo para o divórcio, visto que o casamento recebe um golpe mortal quando um dos cônjuges pratica sexo ilícito com outrem. Todavia, será que 1 Coríntios 7 se refere mesmo a divórcio? Parece que não. A passagem de Mateus fala de um novo casamento, depois de o casal ter-se separado (sob a lei de Moisés, o cônjuge culpado e seu cúmplice deveriam ser executados por apedrejamento; cf. Levítico 20.10; Deuteronômio 22.24). Mas 1 Coríntios 7 nenhuma referência faz a que a parte inocente possa casar-se novamente com outra pessoa. Ao contrário, o versículo 11 diz: "mas, se o fizer [a esposa cristã que se separou do marido], que permaneça sem se casar ou, então, reconcilie-se com o seu marido" (grifo do autor). Inquestionavelmente o mesmo vale para um marido verdadeiramente crente que fosse obrigado por sua esposa incrédula a abandoná-la.

Mas a exigência de a pessoa permanecer sem casar-se de novo, ou reconciliar-se com o ex-cônjuge, não significa que haja base para o divórcio, pelo menos segundo a lei de Cristo, que é definitiva e rege todos os crentes fiéis. Permite-se a separação caso os dois não consigam viver juntos em harmonia. Mas o divórcio definitivamente não é permitido só porque um cônjuge abandonou o lar. Acontecerá normalmente que, quando ocorrer tal separação, e a situação prosseguir durante longo tempo, o cônjuge incrédulo conseguirá o divórcio pelas leis civis e casar-se-á com outra pessoa. Essa atitude evidentemente constitui adultério, segundo o ensino de Mateus 5.32 e 19.9, sendo que a parte inocente estaria livre para casar-se de novo. No entanto, fora desse acontecimento, não se justifica um segundo casamento, pois violaria a autoridade de Cristo. A mera deserção não constitui razão para o divórcio.

Há mais duas questões sobre o tema a serem discutidas. Vamos supor que o cônjuge incrédulo viva anos e anos sem envolvimento sexual com outro. Deve o cônjuge cristão permanecer separado? Vamos supor que os filhos estejam em uma idade em que precisam muito de um lar no qual haja pai e mãe, para que possam desenvolver-se de modo normal, sadio? É freqüente existir situações assim, que suscitam problemas severos, angustiantes. Às vezes, a perspectiva de o crente casar-se com outra pessoa de gostos semelhantes, talvez com um cristão também, pareça-lhe uma opção sumamente atraente. Não resultaria tal casamento em coisas boas em vez de maiores danos? Os filhos não receberiam maiores benefícios no crescimento espiritual? A resposta é a mesma que se daria em qualquer outra situação em que aparentemente parece mais fácil realizar o que qualquer incrédulo faria, naquelas circunstâncias. A questão da total submissão à vontade de Deus e total confiança na fidelidade de Deus de fato é o que está em jogo aqui. Mais importante do que atingirmos e mantermos a assim chamada felicidade, que as pessoas


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do mundo consideram o padrão dos autênticos valores, é o teste da fé e da fidelidade a nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Deus não nos chamou para sermos felizes, mas chamou-nos para sermos discípulos de Jesus, com toda integridade e devoção. Hebreus 11.35 honra a memória dos crentes do at que "foram torturados e recusaram ser libertados, para poderem alcançar uma ressurreição superior". Os versículos 36-38 referem-se à terrível perseguição e provação que tiveram de suportar por amor de Cristo; a seguir, o versículo 39 declara que "receberam bom testemunho por meio da fé; no entanto, nenhum deles recebeu o que havia sido prometido". Nenhum deles gozou do que o mundo chama de "felicidade", mas conseguiram algo muito mais importante: a "aprovação" de Deus. É certo que isso se aplica a viver com os terríveis desapontamentos e frustrações de um casamento infeliz. O marido ou a esposa que faz o melhor que pode, vivendo em uma situação em que um funciona como pai solteiro (ou mãe solteira) talvez esteja pondo de lado a felicidade, mas o favor e a aprovação de Cristo no fim significará muitíssimo mais, para esse pai ou mãe crente — e até mesmo para os filhos — do que se ele recorresse a um segundo casamento, sem que houvesse base escriturística para o divórcio.

A segunda questão tem como dúvida um casal que se casou e divorciou-se antes de conhecerem o Senhor. Se o divórcio não ocorreu com base em adultério, ou se o marido e a mulher estiveram envolvidos na violação de seus votos matrimoniais, que faremos? Vamos supor que um deles — ou ambos — se case com outra pessoa, e a seguir converta-se a Cristo. Que deve fazer o novo crente? Precisa anular esse segundo matrimônio e tentar persuadir o antigo cônjuge a reassumir o primeiro casamento? Suponhamos que esse não concorde com isso. O novo crente deverá viver sob o peso da culpa pelo resto da vida? Não, se ele tiver feito o máximo de esforço no sentido da restituição. (Um ladrão que se converte certamente precisa devolver às suas vítimas a soma total de seu roubo; de igual modo, um caluniador deveria confessar sua calúnia e pedir perdão à pessoa a quem detratou antes de converter-se.)

Em alguns casos, parece que a restituição pode constituir em maior erro do que a ofensa original. Por exemplo, se nasceram filhos como resultado de um segundo casamento, parece que eles sofreriam grave injustiça se se fizesse a anulação do segundo casamento e reversão para o primeiro. É certo que essa decisão resultaria em maior mal do que bem. Parece que a única opção honrosa sob tais circunstâncias seria manter-se a fidelidade ao segundo casamento e um esforço honesto no sentido de educar os filhos do novo matrimônio "no temor e conhecimento do Senhor". No entanto, eles devem ser informados, mais cedo ou mais tarde, dos erros do passado cometidos por seus pais, e precisam ser ensinados com máximo cuidado quais são os padrões de Cristo para o casamento.

No entanto, ainda que se preserve a integridade do segundo casamento, o ensino claro de 1 Timóteo 3.2 e 12 é que os oficiais da igreja, tais como presbíteros e diáconos, não devem ser escolhidos das fileiras dos que não são "marido de uma só mulher", visto que qualquer pessoa nomeada para tais cargos seja "irrepreensível". (É claro que não existe alguma repreensão ou reprovação para o viúvo que se casa de novo, desde que seja com viúva ou uma jovem solteira. Por isso a exigência, "que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher" deve ser entendida como excluindo apenas os homens que se divorciaram, ou são polígamos.) Um crente sincero que se tenha casado de novo viu seu direito de tornar-se oficial da igreja proscrito, como ministro, presbítero ou diácono, mas isso não o impede de desempenhar um papel digno no trabalho na casa do Senhor, em outras áreas, como verdadeiro seguidor de Cristo. As igrejas ou denominações que se esquecem dessa restrição (incluindo as demais, positivas e negativas, delineadas em 1 Tm 3.2-12) fazem-no em flagrante desobediência à Palavra de Deus e, por isso, não podem contar com seu favor até que a questão seja adequadamente resolvida.

Como poderíamos conciliar 1 Coríntios 10.8 com Êxodo 32.28?

1 Coríntios 10.8 diz: "Não pratiquemos imoralidade, como alguns deles fizeram — e num só



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dia morreram vinte e três mil". Êxodo 32.28 diz: "Fizeram os levitas conforme Moisés ordenou, e naquele dia morreram cerca de três mil dentre o povo". Nos versículos precedentes de Êxodo 32, somos informados de que os levitas se haviam armado a fim de executar todos os líderes da festa inaugural do bezerro de ouro; por isso, Moisés os havia convocado, no versículo 27, dizendo: "Pegue cada um a sua espada, percorra o acampamento de tenda em tenda, e mate o seu irmão, o seu amigo e o seu vizinho". Os "três mil" foram mortos à espada por tal punição divina.

Paulo refere-se ao número total dos que pereceram naquele dia, não só pela espada dos levitas vingadores, mas também pela terrível praga que Deus enviou ao acampamento: "E o Senhor feriu o povo com uma praga porque quiseram que Arão fizesse o bezerro" (Êx 32.35). O relato de Êxodo não dá o número dos que morreram pela praga, mas em 1 Coríntios 10.8 temos o total: vinte e três mil. Presumimos que nessa quantidade se incluem os três mil mortos à espada, sendo os vinte mil restantes os que foram vitimados pela praga. Não existe confusão aqui com Números 25.8 que dá o total dos que morreram pela praga em Sitim como sendo vinte e quatro mil. Visto que 1 Coríntios 10.7 é citação de Êxodo 32.6, não pode haver dúvida de que Paulo se referia ao episódio do bezerro de ouro, e não a outro episódio, semelhante a esse, mas que ocorreu em Sitim.



Em 1 Coríntios 15.29 que significa batismo pelos mortos?

O assunto discutido em 1 Coríntios 15.16-32 é a validade da esperança cristã quanto à ressurreição do corpo de todos os verdadeiros cristãos. A opinião então corrente nos círculos filosóficos gregos e entre os saduceus era que tal reconstituição do corpo era impossível, a partir do momento em que a morte ocorresse. O aparecimento de crentes do at, ressurretos, em forma corpórea, a muitos habitantes em Jerusalém, após a morte de Jesus (Mateus 27.52) aparentemente foi descartado como mera alucinação, fruto de superstições grosseiras. Todavia, por todo esse parágrafo o apóstolo demonstra que a ressurreição do corpo antes do arrebatamento da Igreja e no final dos tempos foi garantida pelo ressurgimento do próprio Cristo.

É nesse contexto que Paulo parte para a discussão da aplicação pessoal dessa alegre perspectiva dos crentes. Quando os mais idosos caíam doentes e ficava cada vez mais certo de que o fim se aproximava, chamavam seus entes queridos à beira da cama e apelavam aos que ainda não eram crentes para que endireitassem seus caminhos diante de Deus. "Logo deixarei vocês todos, meus queridos", diziam os santos às portas da morte, "mas desejo vê-los outra vez a todos, no céu. Devem, portanto, encontrar-se comigo lá! Lembrem-se de que ninguém poderá ir ao Pai senão mediante a fé viva no Filho. Entreguem seus corações a Jesus".

Quando os parentes saíam de perto da cama, profundamente emocionados pela admoestação sincera e ardente, muitos dos que ainda não haviam assumido um compromisso de fidelidade a Cristo passavam a dar a devida atenção ao convite do evangelho e recebiam Jesus como Senhor e Salvador. Despertados pelo ente querido que partiu, e bem lembrados de suas últimas palavras, preparavam-se para a confissão pública e o batismo, de acordo com a prática da igreja. Quando, mais tarde, compareciam perante as testemunhas para submeter-se ao batismo, em um sentido muito real faziam-no "por causa dos mortos", isto é, "por amor dos mortos" (a preposição hyper significa "por amor de" em vez de "em prol de" ou "em lugar de", neste contexto particular, ainda que a principal motivação fosse endireitar suas veredas diante de Deus, como pecadores que precisavam de um Salvador).

Nenhum crente do século i, que lesse a carta de Paulo, poderia interpretar erroneamente a expressão hyper tōn nekrōn ("por amor dos mortos"), como se quisesse dizer que a fé de uma pessoa viva poderia ser atribuída a um incrédulo morto, fosse parente ou não daquele cristão. Por todas as Escrituras está muito claro que a graça salvadora não é concedida a alguém mais senão àquela pessoa que crer e exibir sua fé pessoal. Mas alguém que tenha ficado profundamente comovido pelo testemunho de um santo de Deus, à hora


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da morte, certamente pode ser levado a unir-se ao moribundo, na mesma fé, no mesmo arrependimento, na mesma fidelidade ao Senhor, e na alegre expectativa de encontrar seus queridos na ressurreição. É isso, pois, que ficou implícito no versículo 29: "Se não há ressurreição, que farão aqueles que se batizam [por amor dos] pelos mortos? Se absolutamente os mortos não ressuscitam, por que se batizam por [amor a] eles?" O versículo 30 transmite o mesmo pensamento: "Também nós, por que estamos nos expondo a perigos o tempo todo?" E a seguir no versículo 32 Paulo conclui: "Se foi por meras razões humanas que lutei com feras em Éfeso, que ganhei com isso? Se os mortos não ressuscitam [fisicamente, de suas sepulturas], 'comamos e bebamos, porque amanhã morreremos'."

Em outras palavras, se a esperança da ressurreição corpórea dos cristãos é uma ilusão, o próprio Cristo não poderia ter ressuscitado fisicamente da sepultura. E se o Senhor nunca ressuscitou, a proclamação do evangelho é uma fraude, e não há libertação do pecado, da morte e do Inferno. "E, se Cristo não ressuscitou, inútil é a fé que vocês têm, e ainda estão em seus pecados" (v. 17). Portanto, a doutrina da ressurreição corpórea não é uma questão de opinião para o cristão; é a própria essência da salvação. Mas a salvação está à disposição apenas dos que pessoalmente reagem com arrependimento e fé ao chamado do Mestre. Não existe conversão por procuração. Jamais encontraremos tal ensino em parte alguma das Escrituras, sendo inteiramente estranho ao que a Bíblia ensina a respeito da salvação.


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