Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Colossenses


Colossenses 1.20 ensina que todas as pessoas hão de se salvar?

Colossenses 1.19, 20 diz o seguinte: "Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude, e por meio dele reconciliasse consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão nos céus, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz". Surge, pois, a questão: Se a Deus agradasse reconciliar todas as pessoas consigo mesmo, tanto na Terra como no céus, daí não se infere que todas os homens, sem distinção, de fato estão salvos, mediante a encarnação e morte expiatória de Cristo? É assim que a passagem tem sido interpretada pelos universalistas de todas as eras, e é certo que constitui uma questão que a Igreja deve resolver com máximo cuidado, à luz de todas as demais passagens pertinentes aos indivíduos que herdam a salvação de Cristo.

Da posição universalista, deduz-se de imediato que se Cristo morreu a fim de salvar todas as pessoas sem distinção, as seguintes conseqüências são inescapáveis:

1. A fé é totalmente desnecessária, pois o sangue remidor de Cristo traria a salvação a todos os seres humanos, quer atendam ao chamado de Deus, quer não, quer se arrependam e creiam, ou não; quer abandonem o pecado e seu trabalho gigantesco que prestam a Satanás, ou não; quer desistam de todo o mal que o Diabo representa, ou não.

2. O inferno jamais teve inquilinos, no presente momento não possui, e jamais terá; e todas as passagens escriturísticas que mencionam os ímpios sofrendo eternamente no lago de fogo estão completamente erradas.

3. Se a reconciliação de que Colossenses 1.20 fala deve ser entendida como garantia de salvação final para todas as pessoas, até mesmo para as que morrem em seus pecados, sem arrependimento, qualquer punição existente no inferno nada mais é que mero castigo temporário, quase equivalente ao purgatório. Tal lugar, contudo, será esvaziado completamente, e todos os moradores dele serão transferidos para o céu, sem distinção entre os que rejeitaram Cristo e os que a ele entregaram o coração e a vida.

4. Se assim interpretarmos Colossenses 1.20 e todas as passagens correlatas, como resultado teremos: Deus não faz diferença permanente entre o bem e o mal, visto que nenhuma distinção final foi feita no tratamento dispensado àqueles que honram sua lei moral e os que a desprezam. Portanto, significaria que não existe diferença genuína entre o certo e o errado; e não há dimensões morais para a vida ou para as experiências humanas, exceto as que são temporárias, ilusórias e subjetivas. Além disso, não haveria necessidade de Bíblia, nem de revelação, tampouco da oferta divina de perdão e graça, os quais se instalariam automaticamente em toda alma vivente, pouco importando o grau de desprezo ou rejeição, da abominação que os pecadores alimentariam contra Deus, e tudo o que é bom e santo.


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Todas essas conseqüências emanariam natural e inevitavelmente dessa interpretação de Colossenses 1.20. Se o sacrifício de Cristo significa a reconciliação de todos os agentes morais de qualquer época, no céu ou na terra, quer creiam, quer não; quer se tenham arrependido e crido, ou não, não existiria a realidade da justiça divina (exceto em que Cristo sofreu e morreu na cruz pelo pecado). O céu estaria cheio de degenerados com o coração repletos de ódio, blasfemadores, desprezadores de Deus, escarnecedores de Cristo, os quais condenaram como loucos todos quantos nessa vida negaram a si mesmos e muitas coisas que desejaram, por causa dos escrúpulos de ordem moral. Nesse tipo de lugar, Satanás reinaria supremo, pois sua causa seria propugnada de modo magnífico.

À face desse horrível espetáculo do Inferno em pleno céu, o universalista replicará, objetando que jamais teria tais cenas em mente. Ele quer dizer que depois de alguns sofrimentos temporários em um inferno transitório, todos os perversos que ali entrassem dali sairiam santificados. Nos excruciantes tormentos de sua peregrinação pelas regiões dos perdidos, aprenderiam a amar a Deus; chegariam a ter verdadeiro ódio ao pecado; e entregariam seus corações a Cristo, sem que neles houvesse algo errado, como o egoísmo (o desejo de escapar dos tormentos do inferno). Articular essa idéia é o mesmo que provar como é absurda. Nessa vida, por exemplo, contamos com a influência do Espírito Santo, sempre disponível, mas os criminosos endurecidos trancafiados nos presídios jamais experimentam uma mudança real de coração, mediante as punições a eles impostas pelos tribunais desse mundo. Antes, acabam mais endurecidos ainda no pecado, esperançosos de escapar das punições futuras, apesar de prosseguirem na vida de crimes, sendo agora muito mais sagazes do que antes. Então, que possibilidade existiria, na ausência da influência do Espírito Santo (só ele pode trazer a regeneração aos corações dos pecadores), de que os perversos que estivessem cumprindo suas sentenças no inferno pudessem mudar seus corações e voltar-se para Deus e acatar suas leis morais?

Em Apocalipse 16.8-11, lemos a respeito da verdadeira reação dos ímpios à face da punição divina:

O quarto anjo derramou a sua taça no sol, e foi dado poder ao sol para queimar os homens com fogo. Estes foram queimados pelo forte calor e amaldiçoaram o nome de Deus, que tem domínio sobre estas pragas; contudo recusaram arrepender-se e glorificá-lo.

O quinto anjo derramou a sua taça sobre o trono da besta, cujo reino ficou em trevas. De tanta agonia, os homens mordiam a própria língua, e blasfemavam contra o Deus dos céus, por causa das suas dores e das suas feridas; contudo, recusaram arrepender-se das obras que haviam praticado.

Se essa é a reação do coração endurecido do homem decaído, estando ainda aqui na terra, qual será a perspectiva, quanto às agonias do inferno, da punição sob a forma de sofrimento? Haverá, porventura, verdadeiro arrependimento ou reconciliação com Deus? Nada disso.

Pouco importa quanto tempo o incrédulo apodreça ou definhe no inferno, ele jamais atingirá o ponto do quebrantamento, estará sempre em violenta oposição a Deus. Nenhum tipo ou quantidade de sofrimento será capaz de operar a mudança de sua mente, ou levá-lo à purificação do coração. Daí concluirmos que a premissa que serve de base ao purgatório é falsa, porque se esquece da natureza incorrigível do coração endurecido no pecado. A pessoa que houver negado e rejeitado Cristo até o fim de sua vida, jamais poderá aprender a amá-lo e nele crer, na atmosfera impregnada de puro ódio do inferno, ou no lago de fogo que os pecadores partilharão com Satanás, e ali terão sua habitação eterna (Ap 20.10; 21.8).

O Senhor Jesus foi muito claro em seu ensino a respeito do tormento infindável dos que se perdem. "Então ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: 'Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos'" (Mt 25.41). Esse capítulo encerra-se com o mesmo conceito de eternidade tanto para os redimidos como para os perdidos: "E estes irão



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para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna" (v. 46). Observemos que a palavra aiōnios é empregada para ambos os lugares, e é usada para a vida eterna em João 3.16. Não há como degradar o termo aiōnios de tal modo que signifique menos do que eternidade sem fim (é o que os universalistas tentam fazer), porque o inferno também é sofrimento eterno. Tampouco se poderia reduzir a "vida eterna" a algo temporário, como moradia provisória dos salvos.

Em outras palavras, as Escrituras ensinam que tanto a vida com Cristo no céu e o tormento dos perdidos no inferno são igualmente "eternos". Escreveu o apóstolo João: "... ele colocou sua mão direita sobre mim, e disse: 'Não tenha medo. Eu sou o Primeiro e o Último. Sou aquele que Vive. Estive morto mas agora estou vivo [eis tous aiōnas tōn aiōnōn] para todo o sempre! E tenho as chaves da morte e do Hades'" (Ap 1.17, 18). Comparemos essa passagem com Apocalipse 20.10: "O Diabo, que as enganava, foi lançado no lago de fogo que arde com enxofre, onde já haviam sido lançados a besta e o falso profeta. Eles serão atormentados dia e noite, para todo o sempre [eis tous aiōnas tōn aiōnōn]". Essa passagem descreve a última morada de todos os que se perdem, de acordo com Apocalipse 21.8 ("o lago de fogo que arde com enxofre. Esta é a segunda morte"). A natureza eterna dessa perdição mata de vez a teoria do universalismo e expõe-na ao ridículo diante da verdade bíblica.

No que concerne à objeção dos universalistas quanto à moralidade de um inferno eterno, basta-nos salientar que todos os seres humanos foram criados por Deus, feitos à imagem do Senhor (Gn 1.27), um Deus eterno. Portanto, sendo os seres humanos criaturas que existirão para sempre, deverão levar sua existência consciente a algum lugar do universo, céu ou inferno (a Bíblia não menciona outra alternativa). Visto que os réprobos usaram mal seu livre-arbítrio e decidiram permanecer em estado de rebelião contra Deus, e rejeitaram seu chamado ao arrependimento e nova vida, nada lhes resta senão a eternidade sem fim no lugar de sua preferência, a habitação de Satanás.

Não existe a mínima possibilidade de arrependimento e mudança de coração para o pecador atirado ao inferno. Dizem-nos as Escrituras: "Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo" (Hb 9.27). Depois que o Senhor fechou a porta da Arca, pondo em segurança lá dentro Noé e sua família (Gn 7.16), não havia possibilidade de alguém daquela geração entrar na Arca e livrar-se do Dilúvio. Todos se deliciaram em zombar das advertências do patriarca, durante 120 anos, enquanto ele os admoestava em vão a que se arrependessem e procurassem refúgio da forma que o Senhor havia deliberado. Fechada a porta, os céus se abriram em uma chuva torrencial, mortífera, e ficou tarde demais para alguém do lado de fora mudar de idéia. Seu destino estava traçado. Não poderia ser diferente.

Tampouco é objeção válida contra a bondade do Senhor a que se levanta como protesto comum: Como pode um Deus bondoso condenar alguém ao inferno eterno? Se Deus é bom, deve ficar ao lado da justiça, do direito e da verdade. Nada permitiria que a culpa da rebelião contra um Deus Infinito pudesse ser expiada por uma estada temporária no inferno, onde não existe arrependimento nem mudança de coração (pelas razões que discutimos anteriormente). As pessoas seriam tiradas do inferno, mas ainda o carregariam no coração, de modo que sua presença no céu só o transformaria em um covil de discórdia e miséria. Portanto, devemos replicar ao desafio do universalista dizendo que o bom Deus nada mais poderá fazer senão condenar o pecador impenitente, que morre em seus pecados, para ser confinado no Lago de fogo. Aos olhos de Deus, fazer qualquer outra coisa senão lançar tais pecadores no inferno seria o mesmo que Deus colocar-se ao lado da injustiça, da destruição da lei moral.

Qual é, pois, a interpretação correta de Colossenses 1.20? Que quer dizer isso, Deus reconciliando consigo mesmo todas as coisas mediante Cristo? Nesse contexto, torna-se aparente que a alienação e a divisão já se instalaram, estando o céu separado da Terra, e "sejam tronos, ou soberanias, poderes ou autoridades" (v. 16), tanto o mundo visível como o invisível, as forças do mal e as do bem estão divididas em campos opostos. Os que são leais a Deus e vivem



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para sua glória ficam de um lado; do outro os que não se submeteram de verdade ao Senhor. Além disso, existe certa hostilidade entre os anjos de Deus nos céus e os descendentes de Adão, na terra, desobedientes e rebeldes, merecedores do destino de Satanás. A única forma por que as exigências justas de Deus, à vista da lei rejeitada, podem ser satisfeitas é mediante o sangue de Jesus derramado na cruz, e pela sua ressurreição, sua vitória sobre a morte, para tornar-se Cabeça da nova aliança, a família dos redimidos. Só mediante Cristo todas essas forças opostas podem reconciliar-se e chegar à harmonia entre si, quando todos se curvarem perante o Senhor (Fp 2.10, 11) no dia final, quando Jesus for coroado na presença do universo todo: "para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a Glória de Deus Pai".

Nesse contexto, poderemos compreender a frase di’ autou apokatallaxai ta panta eis auton ("por ele reconciliar todas as coisas consigo mesmo", isto é, com sua autoridade soberana). Naquele dia, o poder de Satanás será aniquilado, toda resistência proveniente do mundo rebelde será inteiramente destruída e todos em uníssono confessarão que Cristo é Senhor. Ta panta implica todas as criaturas morais, dotadas de inteligência, onde quer que estejam vivendo e seja qual for o reino a que pertençam, todos se unirão nessa confissão da soberania absoluta de Cristo.

No caso dos poderes demoníacos e prepostos humanos do reino de Satanás, a confissão de Cristo como Senhor será a admissão relutante desse fato, em vez da entrega do coração e vida ao Senhor. Em outras palavras, admitirão e reconhecerão que Jesus é Senhor todo-poderoso e soberano, quer gostem disso ou não (até mesmo Satanás e seus demônios reconhecerão a divindade de Jesus, durante seu ministério terreno). A vitória de Cristo será total e todas as coisas serão reconciliadas com Deus, mediante Jesus. O dia da oportunidade para rebelar-se contra Deus e desafiá-lo ter-se-á encerrado. Todos, salvos e perdidos, eleitos e réprobos, reconhecerão que estão sob a autoridade do Senhor e submeter-se-ão ao seu poder. Os anjos nos céus se regozijarão em perfeita harmonia com todos os redimidos de Deus, oriundos das três raças humanas. Todas as tensões e barreiras foram removidas pela cruz e ressurreição do grande Mediador, a quem Deus, o Pai, nomeou herdeiro de todas as coisas (Hb 1.2, 3). É nesse sentido que ele reconciliará "consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra, quanto as que estão nos céus" pelo sangue derramado no Calvário.

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