Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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2 Tessalonicenses


Se Deus condena todos os mentirosos ao lago de fogo (Ap 21.8), como se explica que ele tinha colocado um espírito de mentira nas boca dos profetas de Acabe (1 Rs 22.23), ou uma influência enganadora dos homens nos últimos dias, de modo que creiam no que é falso (2 Ts 2.11)?

A resposta a essa pergunta encontramos nos versículos precedentes, isto é, 2 Tessalonicenses 2.9, 10, os quais falam da vinda do "perverso" (i.e., o Anticristo) "...com todo o poder, com sinais e com maravilhas enganadoras. Ele fará uso de todas as formas de engano da injustiça para os que estão perecendo, porquanto rejeitaram o amor à verdade que os poderia salvar". Em outras palavras, Deus entregará à influência de Satanás, o Príncipe da mentira, quem deliberadamente decidiu não ouvir a verdade divina, mas preferiu apegar-se ao erro. O Senhor não concede garantia de que livrará



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os pecadores da transgressão, se na realidade eles preferem apegar-se ao pecado. Não há por que Deus tenha de livrá-los contra sua vontade.

Quanto aos profetas de Acabe que falsamente lhe predisseram a vitória se tentasse recapturar Ramote-gileade do poder dos sírios, caem todos na mesma categoria. Esse rei não quis saber da verdade divina; ele odiava Deus e opunha-se à lei moral de Deus, sempre que ela contrariasse sua vontade. Por isso, Acabe não podia esperar orientação do céu sobre a libertação de Ramote-gileade. O tempo desse rei estava no fim. O fato de ter confiscado a vinha de Nabote, com base em uma acusação forjada, pela qual o servo de Deus foi apedrejado até morrer, foi um crime gravíssimo pelo qual deveria pagar. Por isso, a decisão do Senhor e seus anjos, em conferência celestial — conforme disse Micaías francamente a Acabe, na presença de Josafá — foi enviar um espírito de mentira a fim de levar o grupo de profetas da corte a dar encorajamento ao rei para que marchasse contra a cidade, em guerra — na qual ele morreria (1 Rs 22.18-23).

A fé depositada numa mentira, que Deus permitiu e até mesmo aprovou, nesses casos, simplesmente representa um corolário da lei moral. Se os homens recusam o verdadeiro Deus, deverão conviver com os falsos deuses que eles próprios criaram. Se rejeitam a verdade, devem ficar contentes com alimentar-se da falsidade.

1 Timóteo


1 Timóteo 2.12 proíbe a ordenação de mulheres?

1 Timóteo 2.11, 12 diz: "A mulher deve aprender em silêncio [hēsychia], com toda a sujeição [hypotagē]. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o [authentein] homem. Esteja, porém, em silêncio [ou 'quietude' — hēsychia]". A razão da distinção entre os sexos no que concerne à liderança na Igreja e no lar baseia-se no relacionamento existente entre o homem e a mulher que se estabeleceu logo no princípio da criação (v. 13, 14): "Porque primeiro foi formado Adão e depois [eita] Eva. E Adão não foi enganado, mas sim a mulher que, tendo sido enganada [exapatētheisa], tornou-se transgressora. Entretanto a mulher será salva [sōthēsetai de sōzein, que aqui implica que é salva ou redimida da desvantagem ou da vergonha de ter sido a primeira a sucumbir às tentações da queda] dando à luz filhos — [i.e., mulheres que dão à luz — e até mesmo todas as mulheres, como capazes potencialmente de dar à luz] permanecer na fé, no amor, na santidade, com bom senso [sōphrosynê, que implica 'moderação', 'bom julgamento', 'auto-controle', 'castidade' ou 'domínio próprio']". (Sōthēsetai não deve ser tomado fora de seu contexto, de modo que venha a significar que uma mulher que dê à luz é salva mediante sua boa obra de trazer uma nova vida ao mundo. Para ela como para o homem, a salvação do pecado e da morte é concedida apenas pela graça, mediante a fé, como Efésios 2.8, 9 ensina com toda clareza.)

Temos aqui um princípio muito claro de subordinação da mulher ao homem na estrutura da Igreja como corpo organizado e na família como uma equipe doméstica. Deus deseja que a liderança esteja com o marido, em vez de com a esposa, em ambos os casos. No entanto, tanto o homem como a mulher são igualmente preciosos e dignos diante do Senhor (Gl 3.27, 28), e o nível de responsabilidade atribuída ao marido não lhe confere quaisquer vantagens especiais, nem uma posição inerentemente mais elevada diante de Deus do que a que a mulher é relegada.


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Os seguintes ensinos emergem dessa passagem:

1. Há uma distinção entre o que é permitido aos homens e o que é lícito às mulheres. Por implicação, visto que elas são expressamente proibidas de ensinar os homens (i.e., os membros da mesma congregação, os quais são homens) de modo autoritário (didaskein e authentein parecem ter a intenção de ser um conceito combinado e descrevem a função do presbítero docente, ou ministro do Evangelho, que exorta e instrui a congregação usando para isso o púlpito), o que não se permite às mulheres concede-se aos homens. Parece-me, como autor, que esse princípio não pode ser redigido de novo, de modo que venha a significar que a elas se atribuam os mesmos privilégios e situação concedidos aos homens. (Algumas pessoas que tentem contrariar isso correm o risco de violar os direitos da língua e reduzir as Escrituras a um meio termo, que podem ser interpretadas segundo a vontade livre do intérprete. A manipulação voluntária, proposital, do sentido claro da Bíblia deve ser considerada negação da autoridade objetiva da Palavra de Deus.)

2. Todavia, esse versículo não proíbe as mulheres de ensinar ao homem individualmente, (como Priscila, ao lado de seu marido Aqüila, que ensinou Apolo o caminho do Senhor mais acuradamente [Atos 18.26]. Tampouco esse versículo proíbe as mulheres de "profetizar" de maneira respeitosa e submissa (atitude que é simbolizada por um véu sobre a cabeça nas reuniões da igreja [1 Coríntios 11.5, 6]) e dirigir-se aos membros da mesma congregação, homens e mulheres, "para edificação, encorajamento e consolação dos homens" (1 Coríntios 14.3 define assim a "profecia").

Na verdade, há um campo imenso de oportunidades para as mulheres possuidoras de tais dons; as quatro filhas de Filipe, o evangelista, eram igualmente dotadas do charisma da profecia (At 21.9). Sem dúvida alguma, elas eram baluartes do esforço cristão voltado para a evangelização das que não podiam ser contatadas em reuniões públicas, mas deviam ser evangelizadas em seus lares, sem dúvida alguma ao lado de suas crianças. Lídia, em Filipos, estabeleceu um padrão apostólico de estudo bíblico e oração, em grupos familiares. Lídia foi a primeira mulher européia a converter-se pela evangelização de Paulo. Não apenas no local de trabalho das mulheres, que lavavam roupas no rio, mas também no lar dela promovia-se o evangelismo a todos quantos entrassem em sua casa (At 16.14, 40). Ela aproveitou ao máximo a presença de Paulo em sua residência (com Silas e os demais membros da equipe evangelística) a fim de que seus hóspedes fossem apresentados a Jesus. Exemplos como esse demonstram claramente que o Senhor usa mulheres cheias de dons e piedosas, no processo de ganhar almas, e também na instrução de jovens e idosos (de ambos os sexos) para que sigam o Senhor Jesus. Temos aqui uma sólida base para aquele exército nobre de missionárias (do sexo feminino, casadas e solteiras) a quem Deus tem usado poderosamente na expansão do Evangelho em toda a face da Terra.

3. No entanto, o mandato claro continua em vigor, na Palavra de Deus, que no caso de a igreja já estar estabelecida, não importando quão talentosas e excelentes obreiras sejam as mulheres, essas não devem exercer autoridade eclesiástica sobre os homens. Precisam ser auxiliadoras na obra de Deus, mas não podem ter a autoridade de ministros ordenados, ou pastores, na liderança do trabalho local. 1 Timóteo 2.12 com toda clareza proíbe tal coisa, e o exemplo de Cristo, que chamou doze apóstolos e enviou setenta discípulos para que evangelizassem as cidades da Palestina, fornece um padrão claro, cheio de autoridade, a respeito da questão. Essa prescrição deve ser observada, ainda que seja verdade ter Cristo aparecido em primeiro lugar a Maria Madalena e suas duas companheiras, logo após sua ressurreição, antes de encontrar-se com quaisquer dos seus discípulos. Essas distinções devem ser mantidas, ainda que também seja verdade ter Paulo empregado


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extensivamente ajudantes do sexo feminino, como Lídia (At 16), Febe (Rm 16.1, 2), Evódia e Síntique (Fp 4.2, 3), e elogiou o excelente trabalho delas em termos elevadíssimos, de sincera apreciação. (Alguns estudiosos têm entendido que o termo prostatis aplicado a Febe em Romanos 16.2 é equivalente a "pessoa que preside uma assembléia". No entanto, não está comprovado ser esse o sentido da palavra nos tempos do nt; antes, significa "auxiliar", "assistente", ou "patrocinadora", "protetora". Nem mesmo a forma masculina prostatēs chega a significar "presidente" no nt, mas apenas "defensor", "guardião", "auxiliar" [cf. Arndt e Gingrich, Greek-English Lexicon, p. 726].)

4. Nesse parágrafo se faz uma clara correlação entre a subordinação da mulher no que concerne à ordem na igreja e sua submissão ao marido no lar. Ainda que a esposa possa ser muito mais talentosa e erudita no conhecimento das Escrituras, para ensinar a Palavra, e tenha maior piedade de vida e de propósitos, como mulher ela recebeu de Deus um papel subalterno, estando sob a autoridade de seu esposo. O marido é o responsável pelas decisões últimas nas questões domésticas (embora ele não possa jamais usurpar a autoridade singular de Cristo no que concerne à fé de sua esposa, ou de seu relacionamento pessoal com Deus). A autoridade masculina deve ser respeitada em todos os momentos, exceto no caso em que ela ponha de lado o supremo domínio de Deus, caso venha a determinar que sua esposa cometa pecado, ou ela abandone sua lealdade a Cristo. Essa provisão está implícita com clareza em Efésios 5.22-24: "Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos".

É verdade que o versículo 21 diz: "sujeitem-se uns aos outros por temor a Cristo"; mas esse ensino não pode ser entendido como negação da determinação dos versículos 22-24, que proclamam o papel subalterno da esposa, em relação a seu marido. Ao mesmo tempo, o versículo 22 indica que há algumas áreas importantes nas quais o marido deve sujeitar-se à esposa, recebendo-a como tesouro precioso de Cristo, pela qual deverá prestar contas responsável e estritamente. Dentre essas particularidades, à parte o compromisso óbvio de fidelidade conjugal — há algumas em que ele reconhece ser a competência da esposa maior do que a sua própria, ou o envolvimento dela é muito maior do que o seu.

Saliente-se, ademais, que a exigência de Efésios 5.25-33 aos maridos é muito maior do que a que se faz às mulheres. Ela deve estar "sujeita" (hypotassesthai é usado quando a pessoa recebe uma designação especial no exército, ou numa equipe, sujeita à linha de comando que governa a unidade) a seu marido, e ela "respeite a seu marido" (phobeisthai, lit., "temer"). Mas o esposo recebeu ordens de amar a sua esposa "assim como Cristo amou a igreja [não por que ela era digna, satisfizesse as necessidades, ou apreciasse a Jesus — mas ainda que fosse imperfeita e exigisse muita paciência do Senhor] e entregou-se por ela". Essa responsabilidade é muito mais valiosa do que a da esposa, e nenhum homem deveria citar tal passagem à guisa de admoestação ou reprimenda à sua mulher, enquanto ele não tiver certeza em primeiro lugar de que está cumprindo seu papel tão bem definido nesse capítulo. O marido deve amar sua esposa como Cristo ama a Igreja.

Portanto, se a posição subalterna da mulher em relação ao homem na economia do lar e da igreja impede a ordenação delas — com toda certeza isso acontece — que se dirá das presbíteras e diaconisas, do sexo feminino? Alguns têm sugerido que a referência a presbyteras (feminino plural no acusativo) em 1 Timóteo 5.2 assinala uma mulher no cargo de presbítera, visto que a forma masculina presbyter é usada com regularidade para um homem, "presbítero", no sentido eclesiástico. Todavia, tal interpretação não pode sustentar-se em uma passagem como a citada, que com toda clareza refere-se a todos os membros, companheiros entre si, de uma igreja, inclusive


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homens e mulheres idosas, senhores e senhoras mais jovens; a questão em pauta é a atitude respeitosa ou fraternal que Timóteo deve manter para com cada grupo etário da congregação. Isso nada tem a ver com os oficiais da igreja. A mesma observação se aplica às "viúvas" (khērai), a que se faz referência nos versículos 3-6. Elas dificilmente teriam tido algum 'status' de 'governadoras' (líderes) na igreja. Trata-se apenas da questão de se saber que tipos de viúva serão colocadas na assistência social. Nem todas receberão ajuda, mas apenas as que tiverem pelo menos sessenta anos de idade e convivido com o mesmo marido até a viuvez, fazem boas-obras, andam segundo a conduta adequada e não têm filhos ou netos que as sustentem.

O mesmo se aplica à passagem de Tito 2, que discute o papel a ser desempenhado pelos velhos e jovens. As presbytidas (feminino plural no acusativo) a que o versículo 3 se refere, dificilmente se aplicaria a presbíteras, no sentido eclesiástico, visto que ficam ao lado das moças (neās) e dos rapazes (neōterous — masculino plural no acusativo), quanto às virtudes que cultivariam de modo especial e aos vícios que evitariam igualmente. Portanto, não existe base real para considerar-se presbyterai ou presbytidas como presbíteras.

Entretanto, no caso das diaconisas, há possibilidades, quer fiquem no mesmo nível dos diáconos, ou não. Parece claro em Romanos 16.1 e 2 que Paulo considerava Febe como diaconisa (diakonos): "Recomendo-lhes nossa irmão Febe, serva [ou diaconisa — diakonon] da igreja em Cencréia. Peço que a recebam no Senhor, de maneira digna dos santos, e lhe prestem a ajuda de que venha a necessitar; pois tem sido de grande auxílio para muita gente, inclusive para mim". Arndt e Gingrich (Greek-English Lexicon, p. 184) hesitantemente classificam essa ocorrência como exemplo genuíno (o único do nt) de uma diaconisa. Outras são citadas na obra Visão (2.4.3) e Similitude (9.26.2) (século iii d.C), de Hermas.

O termo eclesiástico para diaconisa (diakonis-sa) jamais ocorre no nt, pelo que singular referência a diakonor no feminino não tem respaldo na lxx. Ou seja, a respeito da Igreja Apostólica, uma mulher diaconisa era coisa excepcional, ainda que permissível. Os sete diáconos a que Atos 6.5, 6 se refere certamente eram homens; e haviam sido separados para a tarefa depois da oração e imposição de mãos, e após serem eleitos pela congregação. Não há como descobrir se Febe teria sido formalmente ordenada do mesmo jeito pela igreja em Cencréia. Mas, se Paulo usou a expressão de modo eclesiástico (em vez de na forma genérica, com o sentido de "serva") é bem provável que ela fosse uma diaconisa.

Encerramos com um comentário interessante de Elisabeth Elliot:

A autoridade suprema tanto na igreja como no lar recai divinamente sobre o marido, como representante de Cristo, que é a cabeça da Igreja. Em submissão voluntária e alegre, e não como capitulação frustrada é que a mulher na igreja (seja casada, ou solteira), e a esposa no lar encontram sua realização" "Why I oppose the ordination of women", Christianity Today 880 [1975]: 14).

Um pouco antes, no mesmo artigo, a sra. Elliot fez a seguinte observação:

O moderno culto à personalidade faz da submissão uma coisa degradante. Dizem-nos que não podemos ser "pessoas integrais" se nós nos submeter-nos. Julga-se a obediência como restritiva e, por isso mesmo, perversa. Define-se "liberdade" como ausência de restrições, bem o oposto do princípio escriturístico incorporado pelas palavras de Jesus: "Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". A liberdade sob a ótica divina sempre está na disciplina estrita, o que significa obediência... A tentativa de aplicar ideais democráticos ao reino de Deus, o qual é com toda clareza de natureza hierárquica, só pode resultar em perda de poder e por fim em destruição. O próprio Cristo, o Servo e Filho, aceitou limitações e restrições. Ele se sujeitou. Ele aprendeu a obediência (ibid., p. 13).



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