Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



Baixar 2.12 Mb.
Página59/62
Encontro19.07.2016
Tamanho2.12 Mb.
1   ...   54   55   56   57   58   59   60   61   62

1 João


Todo aquele que é nascido de Deus não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; João 3.9 ensina a perfeição total?

Na kjv, 1 João 3.9 diz: "Quem é nascido de Deus não comete pecado; porque sua semente permanece nele: não pode cometer pecado, porque nasceu de Deus". Num aspecto a tradução (que noutros aspectos é perfeita) falha e não esclarece uma característica muito importante de hamartanein ("pecar") depois de ou dynatai ("não ser capaz"): o infinitivo presente em grego implica ação contínua, repetitiva. (A ação simples, singular, teria sido comunicada pelo infinitivo aoristo, hamartein.) Por essa razão, alguns dos tradutores mais recentes expõem e salientam a verdadeira ênfase do termo, traduzindo a expressão assim: "não pode continuar pecando" (nvi). A nasb tira a inferência do infinitivo presente hamartanein que o verbo anterior poiei (presente do indicativo) em "não comete pecado"



  • 360

(kiv) implica "ninguém que é nascido de Deus pratica o pecado", visto que essa frase faz contraste com hamartanein da última cláusula. Provavelmente isso se justifica, embora seja errado dizer que o presente do indicativo grego necessariamente implica ação contínua (porque com freqüência não é assim que acontece).

No entanto, é necessário estudar com muito cuidado o sentido real do verbo, visto que o mais experiente dos cristãos pode sucumbir à tentação e praticar pecados de vários tipos (até mesmo os mais hediondos, considerados crimes pelas leis humanas). O apóstolo nos ensina com clareza em 1 João 1.8: "Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós". Mas o que ele está enfatizando aqui é o milagre do novo nascimento (cf. 2 Co 5.17), mediante o qual a vida de Cristo toma posse do coração do crente e leva-o a um novo relacionamento com Deus e com a sua santa vontade. Em vez de prender-se ao velho princípio que diz "eu em primeiro lugar" a pessoa aceita o senhorio de seu Salvador e faz um propósito consciente de agradar a Deus, porque ama o Senhor e a ele pertence.

Usufruindo de sua nova posição de "alguém que nasceu de Deus" (gegennēmenos —particípio passado perfeito — ek tou theou), o crente possui a semente santa de Deus (sperma) dentro dele; e esse sperma desenvolve-se, à semelhança da semente em um vaso de flores, até que produza folhas, flores e frutos — ocupando cada vez mais todo o espaço do recipiente. A sujeira do solo pode macular tudo que o toca, mas a função da planta que cresce não é a imundície, mas o desenvolvimento da nova vida e beleza que procedem continuamente da semente. Enquanto o crente conscientemente habita em Cristo (v. 6, ho en autō menōn) e fixa seus olhos em Cristo (Hb 12.2) não cai em pecado mas prossegue firme em sua carreira para a glória de Deus.

Quanto à força especial atribuída a hamartia aqui, devemos prestar especial atenção ao versículo 4: "Todo aquele que pratica/comete [particípio presente] o pecado [hamartian], transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da lei [anomian]". Faz-se referência, então, ao Diabo como sendo o modelo, o patrono da ilegalidade (v. 8); e é ele (e naturalmente todos os que se acham sob seu controle), cuja função é praticar o pecado, a transgressão. Em outras palavras, as Escrituras fazem distinção entre as duas grandes famílias existentes no mundo: os filhos da luz (1.7) e os filhos das trevas e da desobediência (1.6).

O que caracteriza um verdadeiro filho de Deus é o compromisso de fidelidade feito no coração, aceitando a santa vontade e padrão de Deus; o que caracteriza o filho deste mundo (cujo pai espiritual é realmente Satanás, de acordo com João 8.44) é o compromisso pela autopromoção, autodeificação e as transgressões de todo tipo. Esse princípio tinha que ser enfatizado pelo apóstolo em sua carta, visto que os hereges antinomianos (os quais ensinavam que a vida pecaminosa era permissível ao crente, porque a "graça cobre todas as coisas") confundiam as pessoas de sua igreja. Essas estavam perdendo o poder da vida santificada, como fruto de uma fé viva e real. João nos traz à memória que o verdadeiro crente tem compromisso com uma vida cujo padrão é Cristo, e sendo portador da semente de Cristo (isto é, o Espírito Santo) praticará a justiça constantemente. Só os incrédulos e os falsos crentes praticam a vida de pecado, caracterizada pela autopromoção e busca de interesses egoístas.

Em sua obra Bible questions answered, p. 68-72, W. L. Pettingill devota especial atenção a um estudo perceptivo a essa passagem de 1 João 3, e oferece-nos essa bela paráfrase dos versículos 4-10:

Quem comete pecado também comete ilegalidade, porque o pecado é ilegalidade. E você sabe que ele se manifestou a fim de levar nossos pecados, e nele nunca existiu ilegalidade. Quem habita nele nunca comete ilegalidade: todos os que estão na ilegalidade nunca o viram nem o conhecem... O que comete ilegalidade é do Diabo, porque o Diabo é ilegal desde o início [...] Quem nasceu de Deus nunca permanece ilegal, porque é a semente de Deus que permanece nele; e tal pessoa não pode viver cometendo ilegalidade porque nasceu de Deus. É assim que se manifestam os filhos de Deus, entre os filhos do Diabo.


  • 361

Judas


Judas teria errado ao mencionar fontes seculares?

Judas 9 e 14 são as passagens que suscitam essa pergunta. O versículo 9 refere-se a uma controvérsia entre o arcanjo Miguel e o Diabo com respeito ao local onde se depositou o corpo de Moisés, que morrera no monte Pisga: "Contudo, nem mesmo o arcanjo Miguel, quando estava disputando com o Diabo acerca do corpo de Moisés, ousou fazer acusação injuriosa contra ele, mas disse: 'O Senhor o repreenda!'". Esse registro não se encontra no at, mas julga-se ter sido incluído em um tratado cristão (que se perdeu) intitulado "A Assunção de Moisés" (cf. Buttrick, Interpreter's dictionary, 3: 450), pelo menos de acordo com Orígenes (De principiis, 3.2.1).

Seria uma falácia da lógica argumentar, no entanto, que um escritor bíblico inspirado, como Judas, estivesse estritamente limitado ao conteúdo do at canônico para colher informações válidas do passado. Estêvão (At 7) e o Senhor Jesus (Mt 23) fazem referências a episódios históricos não registrados no at. Aparentemente havia uma boa quantidade de tradições orais disponíveis aos crentes do período neotestamentário. E sob a orientação do Espírito Santo, estavam perfeitamente habilitados a relatar tais ocorrências em conexão com seu ministério do ensino. Devemos deduzir dessa passagem que se travava uma terrível guerra espiritual entre os representantes do céu e os do inferno, a respeito do corpo de Moisés.

A mesma observação é pertinente a Judas 14, quanto à citação do patriarca antediluviano Enoque. Nesse caso, a obra pseudepigráfica foi preservada, na qual se encontra essa citação (todavia, o livro de Enoque não existe em uma tradução tão antiga quanto a época de Judas). Enoque é citado, e teria dito o seguinte: "Eis que veio [provavelmente o aoristo grego ēlthen representa um perfeito profético no hebraico ou aramaico, de modo que pode ser traduzido como futuro: 'virá'] o Senhor entre suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele".

Temos aqui um exemplo notável de pronunciamento profético poderoso que chega a nós vindo antes dos tempos de Noé. O simples fato de que Gênesis não traz essa declaração feita por Enoque não serve de evidência de que o patriarca não a tenha pronunciado. Isso de modo algum demonstra que tudo no livro de Enoque é exato, historicamente, nem que seja válido teologicamente. Grande parte do livro de Enoque pode ser ficção. Todavia, não existe base sólida para que se condene tudo que ali está escrito como sendo falso, só porque o livro é considerado expúrio. Até mesmo um texto pagão poderia conter itens verdadeiros, como o comprova Paulo quando citou a obra de Arato, Phaenomena 5 aos seus ouvintes atenienses (At 17.28).


  • 362

1   ...   54   55   56   57   58   59   60   61   62


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal