Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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A importância dos documentos originais inerrantes

Agora, depois de termos firmado a inerrância dos manuscritos originais das Escrituras como elemento essencial que comprova sua autoridade divina e, portanto, inerrante também, precisamos tratar do problema real do completo desaparecimento dos documentos originais. Nem mesmo os melhores e mais antigos manuscritos que possuímos estão totalmente livres de erros de transmissão. Vez por outra, os números não são bem copiados, os nomes próprios ficam mutilados e também ocorrem os mesmos tipos de falha que aparecem em outros documentos antigos. Nesse sentido — e só nesse sentido — pode-se dizer que até mesmo os melhores documentos manuscritos do at hebraico e aramaico e do nt grego não estão totalmente isentos de erro. Não que contenham erros de fato ou informações imperfeitas que não possam ser retificadas pelo exercício adequado da ciência da crítica textual. Mas, considerando que erros de cópia ocorrem até mesmo nos melhores manuscritos, é tecnicamente verdade que não existem originais isentos desse tipo de erro.

Ora, se não possuímos os manuscritos originais livres de erro, os quais originaram o texto da Bíblia que nos foi transmitido, por que não nos contentarmos com as cópias não totalmente isentas de erros, aceitando o fato indubitável de que Deus não julgou ser a inerrância tão vital para a revelação escrita que ele preservou para nós? Qual a vantagem de discutir a respeito de uma compilação de manuscritos que já não existem? Não seria uma questão puramente acadêmica, do tipo mais obscuro, um assunto que com toda a certeza não deveria causar divisões entre os evangélicos?

Colocar a questão sob esse prisma é o mesmo que distorcer o assunto básico em discussão, de maneira que também nos desviará dele completamente. Já vimos que Cristo considerava os registros documentais — as declarações dos autores do at — exatos, dignos de toda a confiança, quer tratassem de teologia, quer de história, quer de ciência. É isso o que na verdade constitui o cerne da questão. O que estamos discutindo é o nível de veracidade, e não a infalibilidade técnica na arte dos escribas. Do copista que inadvertidamente errou na grafia de alguma palavra de João 3.16 não se pode dizer que introduziu algum erro no sentimento ou na mensagem desse versículo sobre a salvação, ainda que possa ter escorregado na ortografia. Quando se versa sobre a inerrância das Escrituras, o que consideramos essencial não é o erro tipográfico, mas algo muito mais importante.

Em resposta a esse desafio, apresentamos as seguintes considerações:
1. A integridade das Escrituras como revelação de Deus plena de autoridade liga-se à inerrância dos manuscritos originais. É impossível que um Deus santo e justo tenha inspirado alguém a tornar-se autor de um livro das Escrituras e que ele escrevesse algo que em qualquer nível esteja repleto de elementos desorientadores ou falsos. Aquele que julga toda a perversidade e engano jamais se inclinaria a favor do uso ou da tolerância da falsidade no registro de sua revelação falada ou de fatos históricos e científicos escolhidos para compor os 66 livros da Bíblia Sagrada. Tampouco se pode conceber que Deus, em sua perfeição, permitiria que algum ser humano a quem usou na redação das Escrituras introduzisse elementos de erro ou de engano simplesmente por causa de sua condição humana. O soberano Senhor que pôde usar o cajado de Moisés para fazer cair sobre o Egito as dez pragas e para dividir as águas do mar Vermelho certamente utilizou um ser humano falível como profeta a fim de comunicar sua vontade e sua verdade, sem confusão ou engano de espécie alguma. A inerrância da Palavra de Deus escrita,


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como fora originalmente inspirada, é um corolário inevitável da infalibilidade do próprio Deus. Devemos, portanto, considerar a atitude de indiferença para com a inerrância dos manuscritos originais da Bíblia um erro teológico sério.

2. É errado afirmar que a existência de um original perfeito é assunto sem importância, uma vez que tal original já não existe para que o examinemos. Tomemos como analogia o campo da engenharia ou do comércio: faz grande diferença se existe ou não uma medida perfeita para o metro, o quilo ou o litro. É questionável que possamos dizer que o metro, o quilo e o litro, usados nas transações comerciais ou nos projetos de construção, sejam absolutamente perfeitos. Talvez estejam quase totalmente conformes aos pesos e medidas-padrão preservados nos laboratórios oficiais do país, mas, no que diz respeito a esses padrões oficiais internacionais, os que estão em uso entre o povo estão sujeitos a erros, ainda que diminutos. Todavia, que tolice seria alguém afirmar, dando de ombros: "Nem eu nem você jamais vimos os pesos e medidas de padrão internacional; assim, podemos desconsiderá-los — não precisamos nos preocupar com eles. Portanto, vamos simplesmente nos ajustar aos pesos e medidas imperfeitos de que dispomos e usamos diariamente". Ao contrário: a existência de tais pesos e medidas - padrão, onde quer que estejam, é vital para o funcionamento adequado de toda a nossa economia. Para os milhões de brasileiros que jamais viram tais padrões de pesos e medidas, eles são absolutamente essenciais para que possam confiar na veracidade dos pesos e medidas dos objetos com os quais lidam diariamente, ao longo de suas vidas.

3. Pode ser verdade que já não possuímos nenhuma cópia perfeita dos manuscritos originais inerrantes da Bíblia. Todavia, é igualmente verdade que hoje dispomos apenas de cópias imperfeitas do Senhor Jesus. Cristo subiu aos céus, ao seu glorioso trono, à direita do Pai. Tudo que nós, observadores, temos para olhar agora são representações e agentes imperfeitos de Cristo, sob a forma de cristãos santificados e dedicados ao Reino. Então, por causa da ausência física de Cristo, vamos afirmar que não precisamos nos preocupar com padrões de amor absoluto e de excelência moral? Não. Em Hebreus 12.2, lemos a ordem para que fixemos os olhos em Jesus (embora ele esteja além de nosso alcance físico e não possamos tocá-lo ou vê-lo), como Autor e Consumador de nossa fé. O Cordeiro imaculado de Deus ainda é o modelo inerrante para nossas atitudes e nosso modo de vida, ainda que não tenhamos o privilégio de contemplá-lo com os olhos da carne, como o tiveram os apóstolos, antes da ascensão. Assim também devemos manter em altíssima conta os originais inerrantes das Sagradas Escrituras, tendo-os como livres de erro de qualquer sorte, ainda que jamais os tenhamos examinado.

4. Caso houvesse alguns erros nos escritos originais da Bíblia, isso não teria grande importância para a crítica textual. Toda a motivação por trás desse exame cuidadoso dos primeiros manuscritos em hebraico e grego ou de suas traduções antigas para outras línguas baseia-se na premissa maior da inerrância original. Que propósito útil haveria em acompanhar com desgastante trabalho o caminho que conduz aos originais, se estes contêm falsidades ou erros? O estudante da Bíblia apenas ficaria mais confuso ou se sentiria prejudicado pelas informações inconfiáveis contidas no que se tem chamado Palavra infalível de Deus. Assim, vemos que a crítica textual, se tem algum valor ou sentido real, pressupõe a existência de um original inteiramente livre de erros e enganos.


A impressionante confiabilidade do texto que recebemos das Escrituras Sagradas

Por que não temos em mãos agora algumas cópias fiéis dos originais infalíveis? Porque a produção de uma cópia perfeita, até mesmo de um único livro, está tão longe da capacidade de um escriba



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humano que se torna necessário o Senhor Deus realizar um milagre para que se produza tal cópia. Ninguém pode esperar que o mais cuidadoso dos copistas seja capaz de reunir infalibilidade técnica para transcrever um documento original e assim produzir uma cópia idêntica. Não importa quão preocupado esteja com pingar todos os is, com cortar todos os tês e com evitar confusão entre parônimos, homônimos, homógrafos e homófonos (como "vultoso" e "vultuoso", "Saul" e "Saulo", "conhecer" [saber] e "conhecer" [copular], "laço" e "lasso"), acabará cometendo um deslize, ainda que involuntário. É por essa razão que os escritores precisam verificar tudo quanto escreveram e os editores devem empregar revisores e leitores de provas qualificados. No entanto, até os mais atentos desses profissionais por vezes deixam passar erros. Foi o caso da "Bíblia imoral", do século xvi, que foi para a imprensa com o sétimo mandamento alterado: "Adulterarás". Embora essa edição fosse imediatamente recolhida, o erro chegou ao conhecimento do povo, para enorme embaraço do editor. Tais enganos acontecem de tempos em tempos, simplesmente por causa da atenção imperfeita de qualquer ser humano. Nada senão a intervenção divina pode impedir o erro e garantir uma cópia inteiramente isenta de engano, neutralizando a propensão humana para o deslize na pontuação ou na grafia. Permanece, porém, o fato importante de que a comunicação perfeita é possível, a despeito dos erros técnicos de um original.

A verdadeira questão diz respeito a erros de um copista: um eventual acúmulo de deslizes resultaria em obscuridade ou na perversão da mensagem que se pretendeu passar originalmente? Críticos textuais bem treinados, trabalhando com base em metodologia sadia, são capazes de retificar praticamente qualquer má informação resultante de um erro em qualquer manuscrito. Entretanto, no caso de documentos em que o ato de copiar foi realizado com a intenção deliberada de alterá-los ou com o desejo pessoal do copista de pervertê-los, é bem possível que a mensagem original fique alterada para sempre, sem que se possa recuperar. A questão que se relaciona ao texto da Bíblia concentra-se nos dados da crítica textual. Existiria alguma prova objetiva da parte dos manuscritos das Escrituras de que os 66 livros nos foram transmitidos num grau de exatidão que nos garanta terem sido as informações contidas nos originais preservadas com perfeição? A resposta é um sim bem grande.

Contrastando com a maior parte de outros documentos antigos que sobreviveram em múltiplas cópias (tais como o Conto de Sinuhe, egípcio, ou a "pedra de Behistun", inscrição trilíngüe de Dario i), a verificação cuidadosa de muitas centenas de cópias manuscritas do século iii a.C. até o século vi d.C. apresenta uma quantidade espantosamente limitada de variações na redação. Na verdade, os melhores especialistas da crítica textual reconhecem desde tempos antigos que, havendo qualquer variante que seja comprovada de modo aceitável e tomada do aparato no rodapé da página, a fim de substituir o texto aceito do manuscrito-padrão original, isso de modo algum indica alterações significativas na doutrina ou na mensagem. Essas poucas variações só podem ser explicadas como o resultado de medidas especiais de controle, as quais seriam exercidas por Deus, o inspirador dos manuscritos originais, tendo ele assegurado a sua preservação, para benefício de seu povo. Um grau de desvio tão sério que alterasse o sentido redundaria na impossibilidade de se atingir os propósitos da revelação divina original: que os homens tivessem certeza da santidade e da graça de Deus e pudessem conhecer sua vontade para eles, a salvação.

Os leitores porventura interessados em pesquisar mais ainda a questão da crítica textual do at ou desejosos de maiores informações a respeito das antigas cópias das Sagradas Escrituras descobertas



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nas grutas de Qumran, nas proximidades do mar Morto, deverão consultar a obra de Ernest Würthwein, The text of the Old Testament (Oxford, Basil Blackwell, 1957) ou minha obra Merece confiança o Antigo Testamento? (4.ed., São Paulo, Vida Nova, 1996, caps. 3 e 4). Quanto ao texto do Novo Testamento, consulte-se An introduction to the textual criticism of the New Testament, de A. T. Robertson (2.ed., New York, Doubleday, 1928) ou The text of the New Testament, de Vincent Taylor (London, Macmillan, 1961).*
As Escrituras e a inerrância

A exposição precedente demonstrou que a autoridade e os objetivos das Escrituras exigem que não haja erro nos escritos originais. Argumentamos, também, que a infalibilidade exige que haja inerrância, e isso seria seu corolário indispensável. Todavia, como observamos nas páginas iniciais desta "Introdução", os revisionistas têm declarado com veemência que os chamados fenômenos das Escrituras não permitem que se faça uma defesa confiável da isenção de erros da Bíblia em seus originais, até mesmo em questões de história e de ciência. As muitas contradições e discrepâncias das Escrituras compelem-nos a escolher entre dois enunciados: o certo e o errado. Os que advogam essa abordagem invariavelmente nos apresentam listas com as tais contradições ou declarações que colidem com as descobertas da crítica histórica e da ciência. Esse desafio não deve permanecer sem resposta, pois, se o argumento dos revisionistas estiver correto, deveríamos na verdade abrir mão da inerrância — e assumir todas as implicações devastadoras da possibilidade de uma revelação objetiva. A principal tarefa desta obra é demonstrar a insensatez dessa acusação, mediante o exame das alegadas discrepâncias e comprovar também, caso a caso, que a acusação é infundada, uma vez que toda a evidência correspondente tenha sido considerada.

Outra importante linha de evidência seguida por esses estudiosos diz respeito ao uso pronunciado que fazem os autores do nt da tradução grega do at chamada Septuaginta (lxx). Argumenta-se que, pelo fato de o texto da (lxx) desviar-se demais e com muita freqüência do texto hebraico massorético, o emprego de uma tradução tão inexata demonstra que, para os autores do nt, a autoridade do at era conceituai, e não verbal. Assim, se o ensino dotado de autoridade das Escrituras hebraicas só era encontrado em seus conceitos, e não em sua redação, isso excluiria quase todo e qualquer apego significativo à inerrância. De modo particular nos casos (ainda que raros) em que a lxx é um tanto inexata na tradução do original hebraico (pelo menos quanto ao hebraico que nos foi transmitido no texto massorético), é preciso concluir que os autores do nt não consideraram a redação exata e precisa do at questão de máxima importância.

Embora à primeira vista essa conclusão pareça lógica, não leva em consideração várias questões sumamente importantes, como seguem:

1. A razão maior para que se usasse a lxx (originada entre os judeus de Alexandria, no Egito, nos séculos ii e iii a.C.) encontrava raízes no esforço missionário de evangelistas e apóstolos da igreja primitiva. Muito antes de os primeiros discípulos do Senhor se engajarem na divulgação das boas-novas, a lxx já havia aberto caminho em direção a quase todas as regiões do Império Romano de fala grega. Na verdade, tratava-se da única versão do at em circulação fora da Palestina. Indo os apóstolos de uma cidade gentílica para outra, levando a mensagem de Cristo aos judeus da Dispersão, seu propósito primordial era mostrar que Jesus de Nazaré havia cumprido os desígnios e as promessas do at, usando para isso o registro sagrado da verdade salvífica de Deus que já estava em suas mãos. Que outra forma de at dispunham eles além da lxx? Somente os rabinos e peritos tinham acesso aos manuscritos hebraicos, e nenhuma outra tradução grega estava à disposição deles, senão a versão que ao passar dos séculos adquiriria reputação, a versão elaborada em Alexandria. Por isso, quando os "nobres bereanos" voltavam para


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casa depois do culto na sinagoga para conferir os ensinos de Paulo e de Silas, de que outras Escrituras dispunham para consultar que não a lxx.?

Suponhamos que Paulo tivesse decidido elaborar nova tradução, mais exata, para a língua grega, com base no texto hebraico, sem intermediações. Os bereanos poderiam replicar: "Não é assim que lemos em nossa Bíblia. Como vamos saber se você não distorceu a palavra, produzindo versões diferentes aqui e ali, com o objetivo de favorecer seus novos ensinos a respeito de Cristo?". A fim de evitar suspeitas e más interpretações, era imperativo que os apóstolos e evangelistas permanecessem fiéis à lxx em sua pregação e ensino, tanto na forma oral quanto na escrita. Por outro lado, descobrimos que nos livros de Mateus e Hebreus a lxx desempenha papel de menor importância. As citações abundantes do at que se encontram nesses dois livros são com freqüência apresentadas em linguagem diferente, estando perceptivelmente mais próximas do original hebraico que a própria lxx. Isso se explica pelo fato de que ambos, Mateus e o autor de Hebreus, escreveram para leitores judeus radicados na Palestina, para os quais o texto massorético estava bem à mão.



2. Na imensa maioria dos casos em que a lxx é mencionada nos documentos do nt, a tradução grega fica acima da crítica no que concerne à exatidão. Os exemplos em que se menciona uma tradução mais parafraseada da lxx ficam em restrita minoria — ainda que esses pequenos desvios tenham gerado muitos debates por parte dos críticos. Entretanto, mesmo nos registros em que há notáveis diferenças de linguagem, quase não existem exemplos de citações do hebraico que não dêem apoio ao ensino que os autores do nt tencionam frisar ao citar o at. Visto que a lxx contém muitas seções que diferem substancialmente do hebraico do texto massorético, só se pode inferir que os escritores apostólicos evitaram de propósito quaisquer passagens da lxx que pervertessem o sentido do original.

3. O argumento do uso da lxx, segundo o qual os autores do nt consideravam a inspiração do at meramente conceituai, e não verbal, é completamente negado pelo exemplo do próprio Cristo. Por exemplo, em Mateus 22.32 o Senhor ressalta as implicações da redação exata de Êxodo 3.6: "... Eu sou o Deus de seu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó". Essa citação em particular corresponde ipsis litteris ao texto da lxx, que apresenta a palavra "sou" (eimi), que não está de fato expressa no original hebraico, embora fique claramente subentendida numa oração sem verbo como essa, de acordo com as regras padronizadas da gramática hebraica. Jesus salienta um ponto aqui: Deus não teria falado de si mesmo como Deus de meros cadáveres em decomposição na sepultura por três ou quatro séculos. "Ele não é Deus de mortos, mas de vivos", disse Jesus. Portanto, Abraão, Isaque e Jacó eram considerados vivos na época em que Iavé falou a Moisés na sarça ardente, em inícios do século xv a.C.

Atenção muito semelhante à linguagem exata do texto original do at vê-se no emprego por parte de Cristo de Salmos 110.1 [109.1, na lxx], quando o Senhor discutia com os fariseus (Mt 22.43-45). A citação difere da lxx em apenas uma palavra (hypopodion, "debaixo de teus pés"). Mas a questão é que o Senhor (Iavé) havia dito ao Senhor de Davi — ao mesmo tempo seu descendente messiânico — "Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo de teus pés". Com essa passagem extraordinária, Jesus demonstrou que o Messias não só era descendente físico do rei Davi (do século x a.C), mas também seu Senhor divino.



4. Essa linha de raciocínio, segundo a qual a citação das Escrituras com base em uma tradução do original menos que perfeita necessariamente implica uma atitude de sujeição diante do texto inspirado, é raciocínio viciado por uma flagrante falácia. Todos nós, até mesmo os peritos altamente qualificados em línguas bíblicas, costumeiramente citamos as Escrituras fazendo uso

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de traduções publicadas tidas com padrão, disponíveis a nossos leitores e ouvintes. Entretanto, esse uso de várias versões, em inglês, em alemão, em francês, em espanhol ou em português, de modo algum comprova que optamos por um padrão rebaixado de inerrância escriturística. À semelhança dos apóstolos do século i, valemo-nos dessas traduções padronizadas para ensinar ao povo o que possa ser verificado na leitura individual da Bíblia. Entretanto, como se sabe, nenhuma dessas versões está totalmente isenta de falhas. Porém as usamos para uma comunicação mais eficaz do que se tivéssemos de traduzir diretamente do hebraico e do grego. No entanto, o uso de traduções que ficam aquém da perfeição de modo algum implica o abandono da convicção de que as Escrituras, como foram originalmente inspiradas, estavam livres de todo erro.
Devemos, portanto, concluir que o emprego da lxx em citações no nt nada absolutamente prova a favor da idéia de que a Bíblia está cheia de erros.
O papel da crítica textual na correção de erros de transmissão

No comentário anterior referimo-nos várias vezes ao papel desempenhado pela crítica textual quanto aos erros de copistas na transmissão do texto bíblico. Para que o leitor possa compreender um pouco da metodologia seguida pelos especialistas na análise desses desvios, os quais aparecem mesmo nos manuscritos mais antigos e nos melhores documentos, daremos as linhas mestras a serem seguidas para a solução desses problemas. O procedimento-padrão quanto aos erros de transmissão aplica-se a todos os documentos antigos, tanto sagrados quanto seculares. Fique claro, porém, que certos elementos relacionam-se às línguas bíblicas. Incluímos nesses casos o formato das letras hebraicas e o modo como evoluíram desde o período mais remoto até os tempos mais recentes, com a introdução de letras vocálicas (i.e., consoantes que indicavam sons vocálicos ou sua duração nas palavras). No caso do nt, composto numa língua que usava caracteres vocálicos ao lado de consoantes (grego coiné), as mudanças no formato das letras também davam ensejo a erros de cópia ao longo das várias gerações de copistas.


A. Tipos de erros de transmissão

Certos tipos de erros são susceptíveis de surgir quando se copia um documento original qualquer (Vorlage). Estamos todos sujeitos a substituir uma palavra homófona por outra; i.e., "cozer" por "coser" ou "massa" por "maça". Em português, temos vários sons que podem ser escritos de diferentes maneiras, resultando em palavras diferentes: "haja" e "aja", "haver" e "a ver", "passo" e "paço". Esse problema não era tão grave no hebraico antigo, nem no grego, mas existem grafias erradas até nos manuscritos mais antigos dos livros bíblicos, em grande parte por causa da semelhança de sons. Um dos erros mais comuns envolve a palavra lō. Se for escrita assim: l-’ (lamedh-aleph), temos o advérbio de negação "não". Se, porém, for escrita assim: l-w (lamedh-waw), significa "a ele" ou "para ele". Em geral, o contexto indica com clareza qual é o que se tem em vista. Todavia, às vezes tanto "não" como "a ele" seriam possíveis, e isso resulta em alguma confusão.

Um bom exemplo de confusão com a palavra encontra-se em Isaías 9.2 (9.3 no texto em português). O tm traz l-', o que significa "não". A Versão atualizada de Almeida, na sua segunda edição, traz: "Tens multiplicado este povo, a alegria lhe aumentaste; alegram-se eles diante de ti, como se alegram na ceifa...". A Versão autorizada, do rei Tiago, traz: "Tens multiplicado este povo, e [em itálico] não lhe aumentaste a alegria; alegram-se diante de ti segundo a alegria da colheita". O tradutor entendeu que aquele l-’ era "não" em vez de "lhe", i.e."para ele", "para o povo". Mas essa tradução introduz uma estranha inversão no pensamento: Deus aumentou o povo, no entanto, não


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lhe aumentou a alegria; ainda assim, alegram-se como os que se reúnem numa grande colheita. Mas até mesmo os copistas judeus massoréticos perceberam que havia aqui um lapso involuntário na escrita, pelo que colocaram na margem a grafia correta l-w. Portanto, o texto correto é o que aparece na Atualizada. A Versão siríaca Peshita e o Targum do pseudo-Jônatas, além de vinte manuscritos medievais hebraicos, traduzem a passagem dessa forma, com l-w em vez de l-’. O rolo lqIsa não colabora muito aqui, uma vez que grafa l-w-’, com aleph e waw. A lxx não ajuda em absolutamente nada, porque o tradutor mutilou o hebraico de vez, de modo que não existe sinais de nenhum dos dois tipos de lō, como se vê pela sua tradução ("A maioria do povo, que aumentaste em tua alegria, também se alegrará diante de ti como os que se regozijam na ceifa"). A nasb está pelo menos 90% certa ao traduzir: "Multiplicarás a nação, tu lhe aumentarás a alegria; ela estará alegre na tua presença, com a alegria da ceifa".

Depois de examinar esse exemplo de correção textual, vamos pesquisar os onze principais tipos de erro de transmissão conhecidos no campo da crítica textual.

1. Haplografia

Essencialmente, haplografia significa escrever uma vez o que deveria ter sido escrito duas vezes. Nas provas dos alunos de qualquer grau, é comum encontrarmos a palavra "asunto" em vez de "assunto": um s apenas, em vez de dois — o que daria à palavra o som de azunto. No hebraico, pode haver o caso de se encontrar uma única consoante, quando deveria haver duas. Há também a possibilidade de existirem duas palavras. Por exemplo, em Isaías 26.3 — "Tu, Senhor, guardarás em perfeita paz aquele cujo propósito está firme; porque em ti confia" —, as palavras finais são literalmente: "em ti confiando", seguidas de "confiai em Iavé", no v. 4. No hebraico, porém, a palavra final "confiando" é bāṭûaḥ, que se escreve b-ṭ-w-ḥ. O vocábulo inicial "confiai", no versículo 4, é biṭḥû, que se escreve b-ṭ-ḥ-w. Como aparecem no texto, consoantes sem sinais, temos b-ṭ-w-ḥ b-ṭ-ḥ-w. Portanto, essas duas palavras são muito semelhantes, quase idênticas na aparência, embora a primeira seja um adjetivo masculino singular, e a segunda, um verbo no imperativo, na forma plural. O rolo lqIsa traz apenas b-k b-ṭ-ḥ-w, omitindo assim totalmente a palavra anterior, b-ṭ-w-ḥ. Daí resultou que os manuscritos do mar Morto, de Isaías, condensam os versículos 3 e 4 de forma que os lemos assim: "Uma mente apoiada guardarás em paz real [lit., lôm šālôm, 'paz paz']; porque em ti [...] confiaram [ou uma nova frase: 'Confiai'] em Iavé para sempre". O tm traz corretamente: "A mente apoiada tu guardarás em paz real, porque está confiando em ti. Confiai em Iavé". Devemos acrescentar que a palavra traduzida por "confiai" implica a vocalização biṭḥû. O contexto do lqIsa poderia implicar uma vocalização diferente, i.e., bāthü, que significa "eles confiaram". A lxx traz um único šālôm e um único verbo bāṭḥû, porque traduz a seção inteira (incluindo-se o v. 2) da seguinte maneira: "Abri os portões, deixai entrar um povo que observa a justiça e observa a verdade, arraigando-se à verdade [aparentemente tomando yēṣer ('mente') como se fora o particípio nōṣēr ('observando, guardando')] e observando a paz. Por ti [v. 4] têm eles esperado [ou 'em ti têm eles confiado'], ó Senhor [palavra que com regularidade substitui Iavé] para sempre [adê-‘ad, lit., 'pelas eras', sendo essa tradução atestada tanto pelo tm quanto pela redação corrigida de lqIsa]".

Em outros casos, pode ter havido ocorrência de haplografia, no próprio tm, como talvez no exemplo de Juízes 20.13. É comum o at referir-se aos homens de Benjamim como benê-binyamîn, mas o texto consonantal traz o nome tribal binyamîn apenas (que também ocorre vez por outra). Porém, a lxx traz a redação normal "filhos de Benjamim" (hoi huioi Beniamin), tanto na versão a como na b (Juízes, na lxx, tem duas versões diferentes, ambas com raízes, ao que tudo indica, no mesmo Vorlage hebraico). É interessante que até os escribas massoréticos acreditavam que a expressão "filhos de" deveria encontrar-se ali, por estarem presentes as vogais de be("filhos de"), ainda que não se sentissem livres para incluir as consonantes nas palavras, de modo que se alterasse o texto consonantal que haviam recebido.


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2. Ditografia

Esse erro comum de transcrição consiste em escrever duas vezes o que se deveria escrever uma única vez. Exemplo claro disso no tm é Ezequiel 48.16: amēš ḥamēš mē’ôṯ ("cinco quinhentos"). Notando esse erro, os massoretas deixaram o segundo amēš sem a vocalização, o que indicaria ser a palavra omitida de vez na leitura. No lqIsa, em Isaías 30.30, lemos: hašmia‘ hašmia‘ ("Ouvi, ouvi" [no imperativo]), em vez de um simples hašmia‘, como aparece no tm, sendo atestado pelas versões.

Outro exemplo de provável ditografia ocorre em Isaías 9.5, 6 (6, 7 em nossas Bíblias). No final do versículo 5, nessa passagem, lemos śar-šālôm ("príncipe da paz") e, no início do versículo 6, lemarbēh hammiśrāh ("para que se aumente o seu governo"). Ora, faz sentido no hebraico, como o texto está, mas há algo de curioso na grafia de lemarbēh. O m (mēm) está escrito da forma especial, o que ocorre no final da palavra. Isso mostra com a máxima clareza que os escribas encontraram duas tradições diferentes a respeito dessa grafia: uma delas considera apenas a palavra šālôm (no final do versículo 5) e o início do versículo 6 como se fosse r-b-h (que deve ser vocalizado como rabbāh, "grande"; i.e., "grande será o governo").

Um último exemplo de ditografia tomamos de Salmos 23.6: "... e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre" (ra). Conforme a vocalização feita pelos massoretas, a forma verbal wešḇtî deveria significar "e eu voltarei [para a casa]" — como se o salmista tivesse saído da casa do Senhor, e agora se espera que ele volte a ela permanentemente. Entretanto, se as consoantes foram vocalizadas — wešḇtî —, teríamos, então, a tradução que se encontra na lxx: kai to katoikein me ("e minha habitação [será na casa]". Isso seria um tanto inusitado, levando-se em conta o estilo hebraico, ainda que não seja de todo impossível. Porém, a opção mais atraente é tomar tais palavras como um caso de haplografia. Depois da introdução da forma hebraica quadrática no alfabeto, que ocorreu após o retorno do cativeiro babilônico, o formato da letra w (waw) ficou muito parecido com o da letra y (yodh). Na época de lqIsa, freqüentemente acontecia que um yodh de perna comprida ficava parecido muito com um waw de perna curta. Assim, tornava-se fácil a ocorrência de haplografia sempre que um yodh e um waw estivessem juntos. O copista grego, portanto, teria visto duas letras, dois waws juntos, e entendeu que deveria haver um único waw, pelo que deixou de lado o "segundo waw" — sem perceber que se tratava de um yodh. Se nossa dedução estiver correta, a linguagem original, usada por Davi, teria sido weyāšaḇtî, que significa "e habitarei", expressa na forma hebraica costumeira.

3. Metátese

Diz respeito à mudança inadvertida da ordem correta das letras ou das palavras. Por exemplo, o rolo lqIsa traz, no final de Isaías 32.19 esta frase, traduzida livremente: "seja o bosque inteiramente abatido", em vez da redação corrigida do tm: "seja a cidade inteiramente abatida". O que ocorreu é que a palavra correspondente a "bosque" (ya‘ar) é escrita com as mesmas consoantes do vocábulo equivalente a "cidade" (‘ir). Visto que o verbo tišpal ("seja nivelada inteiramente") está na forma feminina e ya‘ar é palavra masculina, a palavra equivalente a "cidade" — que é feminina — é a única opção de leitura possível. Mas a confusão do escriba do rolo de Isaías é compreensível, visto que a palavra ya‘ar ocorre na primeira parte deste versículo: "ainda que a saraiva faça cair o bosque [hayyā‘ar]".

Em Ezequiel 42.16, no entanto, é óbvio que o tm contém erro, ao grafar: "canas de cinco cúbitos" (amēš-’ēmôṯ qānîm), em vez de "quinhentas canas" (amēš mē’ôṯ qānîm), que é a correção indicada pelos massoretas, quando se colocam sinais vocálicos na palavra que significa "centenas", em vez de vocalizar a que significa "cúbitos". A lxx, a Vulgata e todas as demais versões trazem "quinhentas" aqui, em vez de "cinco cúbitos".


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4. Fusão

Fusão consiste na combinação da última letra da primeira palavra com a primeira letra da palavra seguinte ou na combinação de duas palavras distintas, de modo que se forme uma terceira palavra composta. Exemplo possível desse último tipo de erro encontra-se em Amós 6.12, em que o tm diz: "Acaso correm os cavalos nos rochedos? Poderá alguém ará-los com bois?".

É óbvio que o fazendeiro lavra a terra com bois, e cavalos não correm sobre rochas. Pois bem, foi possível inserir o termo "nelas" depois do verbo "lavrar" (foi o que fez a nasb) ou introduzir o advérbio "ali" (foi o que fizeram a kjv e a niv). No entanto, não existe palavra no hebraico nem para "nelas" nem para "ali". Seria melhor, portanto, dividir a terminação do plural, -î(y)m da palavra beqārî(y)m ("bois") e entendê-la como a palavra yām ("mar"). Daí, a frase emendada seria lida da seguinte maneira: "O boi lavra o mar?" — exemplo de atividade inútil, sem sentido, semelhante a de cavalos que correm sobre a rocha. O único problema dessa emenda, defendida pelo aparato crítico da Bíblia hebraica de Kittel, é que nenhuma versão antiga e nenhum manuscrito hebraico sobrevivente dividem a palavra dessa forma.

Outro problema textual de grandes conseqüências é a aparente referência a um misterioso "Azazel", ou "bode emissário", em Levítico 16.8. Entre as prescrições para o Dia da Expiação, o sumo sacerdote deveria lançar sortes entre os dois bodes escolhidos para o sacrifício. Assim lemos na ara: "Lançará sortes sobre os dois bodes: uma, para o Senhor, e a outra, para o bode emissário (‘azā’zēl) ". O tm indica um nome próprio, que, à parte dessa menção, é inteiramente desconhecido, Azazel, que os rabinos da Idade Média explicavam ser designação de um demônio peludo do deserto. Então Arão estaria lançando sortes por um demônio. Ora, não se faz inclusão do culto ou adoração de demônios em parte alguma da Torá, e não pode existir a mínima possibilidade de que tal culto surja aqui (e nos versículos seguintes do mesmo capítulo). A óbvia solução desse enigma encontra-se na separação das duas partes da palavra azā’zēl, de modo que fique ‘ēz ’āzêl, i.e. "o bode da partida ou da demissão". Noutras palavras, como o versículo 10 deixa bem claro, esse segundo bode deve ser conduzido para fora, ao deserto, para onde deverá encaminhar-se e, de modo simbólico, levar embora os pecados de todo o Israel, retirando-os do acampamento do povo. É inquestionável que a lxx entendeu o versículo e o nome "Azazel" dessa forma, ao apresentar a grafia tō apopompaiō ("para o que for enviado para longe"). De forma semelhante, a Vulgata traz capro emissario ("para o bode que deve ser despedido"). Assim, ao separarmos duas palavras que foram indevidamente fundidas numa só, no hebraico, passamos a ter um texto que faz sentido perfeito no contexto, sem fazer concessão a demônios que não existem nas Escrituras. Noutras palavras, "bode emissário" (kjv, nasb, niv) é a verdadeira tradução a ser empregada, em vez de "para Azazel" (asv, rsv).

5. Fissão

Refere-se à divisão indevida de uma palavra em duas. Por exemplo, em Isaías 61.1, a palavra final em hebraico é pe qaḥ-qôaḥ, de acordo com o tm. A não ser nesse caso, não existe outra separação de qôaḥ de que se tenha notícia no at nem, a bem da verdade, qualquer escrito hebraico. Até mesmo lqIsa grafa essa palavra como raiz duplicada, pq.2, e isso mesmo fazem muitos outros manuscritos hebraicos posteriores. Nenhuma das versões indica a existência de duas palavras aqui, mas todas traduzem o hebraico por "liberação" ou "livramento", "soltura" e até mesmo "visão recobrada" — relacionando pqḥwḥ à raiz pqḥ, que se refere à abertura dos olhos de uma pessoa para que passe a ver com clareza. Portanto, não existe a menor dúvida de que o hífen (ou maqqēf) deve ser removido do texto, para que as duas partes da palavra sejam lidas como uma única palavra.

Outro exemplo interessante de fissão encontra-se em Isaías 2.20, em que o tm registra laḥpōr pērôṯ ("às toupeiras"[ra]). De modo algum temos aqui um texto difícil. Ele faz sentido, como lugar


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adequado para jogar ídolos pagãos. Mas a grafia do lQIsa funde as duas palavras, formando outra, lḥrprm (com uma terminação no masculino plural, em lugar do feminino), que provavelmente significa "aos ratos do campo". O texto grego de Teodósio não sabe o que fazer com essa palavra, pelo que se limita a transcrevê-la e assim cria uma palavra sem sentido, pharpharōth. Pelo menos ela indica que o Vorlage hebraico considera as duas partes uma única palavra. O sentido seria, então, que os ratos do campo, fariam um excelente trabalho ao roer e destruir os ídolos pagãos atirados ao campo pelos seus desiludidos adoradores. Entretanto, é preciso admitir que essa emenda proposta ainda não é conclusiva, devendo ser considerada mera tentativa de correção.
6. Homofonia

Com muita freqüência ocorre, em todas as línguas, que palavras de sentidos inteiramente diferentes tenham o mesmo som. Vejam-se as palavras em português: "caçar" e"cassar", "estático" e "extático". Já discutimos um exemplo notável, de Isaías 9, em que ("para ele") foi incorretamente transformado no tm como se fosse lō’ ("não"). Outro exemplo bem claro é Miquéias 1.15, em que o tm traz ’a ḇî lāk ("meu pai para vocês"), em vez de ’aḇî lāk ("trarei a vocês" — sentido óbvio exigido pelo contexto). A vocalização massorética na margem favorece a adição de um (aleph) a ’aḇî. É assim que a lxx a traduz (agagō soi), bem como a Vulgata (adducam tibi). É admissível, todavia, que nos dias de Miquéias (século viii a.C.) o tempo imperfeito do verbo "trazer" fosse opcionalmente grafado sem o aleph, em virtude da maior brevidade na indicação do som vocálico.


7. Leitura errônea de letras parecidas

Esse é um tipo de erro cujo início ser datado na história da escrita, visto que nos vários estágios do desenvolvimento do alfabeto algumas letras eram muito semelhantes entre si na forma e só mais tarde passaram a ser grafadas de modo que ficassem facilmente discerníveis. Exemplo notável de confusão é a letra y (yodh), antes bem diferente de waw, vindo mais tarde a ficar muito semelhante a ele a partir do período pós-exílio, quando se introduziu o formato quadrático das letras hebraicas. No Sermão do Monte, Jesus se referiu ao yodh ("i" ou "til", na ra) como a menor letra do alfabeto — "nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra" (Mt 5.18). Mas, até o começo do século vi a.C, o yodh era uma letra tão grande como qualquer outra do alfabeto, não tendo nenhuma semelhança com o waw. Portanto, podemos com toda a confiança datar todos os exemplos de confusão entre o yodh e o waw como do século iii a.C. em diante.

No lQIsa sobejam exemplos de grafia errônea de letras semelhantes. Em Isaías 33.13 temos yd‘w ("saibam eles" ["atentem" na nvi, ] ), em vez de wd‘w, como aparece no tm ("e sabei vós"). Mais significativo ainda é encontrarmos no tm, em Salmos 22.16, a estranha frase "como o leão minhas mãos e meus pés" (kā’arî yā ḏāy we raglāy) num contexto em que se lê "Cães me rodearam! Um bando de homens maus me cercou! Como o leão minhas mãos e meus pés!". De fato, não faz sentido, visto que o leão não rodeia os pés de suas vítimas. Ele salta sobre suas presas e estraçalha-as com os dentes. Além disso, a palavra "leão" (a), como tradução, é mais que duvidosa, pelo fato de que, no versículo 13 (14 no tm), aparece de forma normal (’aryēh). É muito improvável que o autor tenha usado duas grafias diferentes para a mesma palavra, havendo apenas três versículos entre elas. É mais provável que esteja certa a tradução usada pela maioria das versões: kā’rû ("eles [i.e., os cães ou os malfeitores] traspassaram-me as mãos e os pés"). Para isso, basta que se substitua a última letra, o yodh, por um waw, o que resultaria na terceira pessoa plural do verbo no passado. Foi o que a lxx fez, visto que ōryxan ("eles traspassaram") é a tradução de kārū, do verbo kūr ("perfurar, traspassar"). A Vulgata adota essa tradução ao grafar foderunt ("eles perfuraram"). A Peshita traz baz‘w, que significa "eles perfuraram/ penetraram"). É provável que o (aleph) de kā’rû represente apenas um sinal de alongamento


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da vogal, que por vezes aparece nos manuscritos hasmoneanos, como o lqIsa e na literatura sectária do século ii a.C.

Outro par de letras facilmente confundíveis é o d (daleth) e o r (rēš). Em todos os estágios do desenvolvimento do alfabeto hebraico, tanto a antiga letra epigráfica quanto a posterior, quadrática, eram muito semelhantes. Então, verificamos que a raça de que nos fala Gênesis 10.4, a de "Dodanim", aparece em 1Crônicas 1.7 como "Rodanim" (em algumas versões). Pensa-se de modo geral que Rodanim é a melhor grafia, porque a referência parece ser aos habitantes de Rode, na costa da Ásia Menor. A tradução um tanto estranha da lxx na passagem de Zacarias 12.10 explica-se melhor como conseqüência de confusão entre r e d. Assim temos no tm: "Olharão para mim aquele a quem traspassaram [dāqārú]". Mas a versão grega diz: "Olharão para mim, porque dançarão em triunfo sobre [mim]". Esse incongruente "dançarão" resulta do erro em ler-se dāqārú como se fosse rāqāḏú, em que o d é tomado por r, e vice-versa, ambas as confusões na mesma palavra. O texto de Teodósio preserva a grafia correta, ao traduzir a palavra para o grego exekentēsan ("eles perfuraram").

Um dos casos mais interessantes e envolventes de confusão entre letras encontra-se na tradução da lxx do nome de um deus pagão mencionado em Amós 5.26 (Quium). O tm grafa seu nome como kywn ("Chiun", na kjv), mas a lxx traz Renfã, o que implica ser rypn a grafia de seu Vorlage. Acontece que, na época dos papiros elefantinos (século v a.C), k (capa) tinha um formato muito semelhante ao de r (resh), e o w (waw) parecia-se demais com o p (pê). Isso significa que a palavra kywn poderia ser erroneamente tomada por rypn. Se o Vorlage trazido pela lxx parecia rypn, os tradutores não tinham meio de corrigir o erro, por tratar-se de um nome próprio estrangeiro e pagão. Mas agora sabemos, mediante a grafia acadiana do nome desse deus, associado ao planeta Saturno e pronunciado Kaiwanu, que kywn era a grafia verdadeira e histórica desse deus nos dias de Amós. O interesse a respeito de Renfã, no entanto, é ter sido escrito dessa forma na citação que Estêvão faz em Atos 7.43 do versículo de Amós (em que aparece "Quium"). Estêvão, que se dirigia a um auditório misto, formado de judeus que falavam grego e outros que falavam aramaico, e representando ele a dispersão dos judeus de fala grega, cita a lxx, em vez de mencionar o texto hebraico original. Para propósitos missionários, a maioria dos apóstolos citava a lxx, simplesmente porque esse era o único texto do at disponível às populações de língua grega durante o Império Romano. Se os crentes quisessem "ler as Escrituras" e verificar se Paulo e outros evangelistas cristãos estavam usando o at corretamente, tinham de examinar essa versão, a fim de confirmar que a mensagem apostólica era a verdade de Deus.

Mas, em certos casos, a lxx parece ter preservado o texto melhor que o tm, embora isso aconteça raramente. No Concilio de Jerusalém, narrado em Atos 15.17, Tiago apresenta um forte argumento a favor da aprovação divina quanto à aceitação de convertidos gentios na igreja sem que primeiro se tornassem prosélitos judeus. Tiago baseia-se na promessa de Amós 9.11, 12, que ele cita como "para que o restante dos homens busque o Senhor, e todos os gentios [ethnē, (nações)] sobre os quais tem sido invocado o meu nome". No Texto recebido lê-se: "De modo que possam possuir o remanescente de Edom e todas as nações que invocam o meu nome". Fosse esse o texto do original hebraico em meados do século i d.C, teria sido considerado errado e tido como grosseiramente citado. É que o ponto central da passagem, de acordo com Tiago, é que "o restante dos homens" iria buscar "o Senhor". Todavia, se a única grafia válida fosse yîre šû ("possuir"), em vez de yiḏre šû, registrada pela lxx ("que possam buscar"), a argumentação de Tiago estaria totalmente fora de contexto. Pode-se reconstruir com facilidade o desenvolvimento da corrupção textual. Se presumirmos que o texto original trazia le ma‘an yiḏre šû ’ōṯô (w) še ’ērîṯ ’āḏām ("para que os demais homens pudessem buscá-lo"), poderíamos verificar que a palavra ’āḏām ("homens") teria sido bem cedo confundida com ’eḏôm ("Edom"), visto que, segundo o formato de letras anterior, as duas palavras eram parecidas e podiam ser facilmente confundidas. A palavra yidrešû poderia ter sido confundida com yirrešû, especialmente depois de o d (daleth) ter adquirido um traço curto no período dos Óstracos de Laquis



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(época de Jeremias). Talvez o copista pensasse estar diante de uma ditografia, necessitando de correção, para tornar-se yirešû — que por sua vez poderia ser tomado como equivalente de (y) rešû (de yāraš, "possuir"), visto que o segundo y dificilmente teria aparecido na escrita com o antigo formato. O ’ēṯ do tm, que é o sinal do objeto direto, pode ter sido copiado de um original como ’ōtô (w), que deixou de aparecer com o w (waw) final. Essa variação toda poderia ser o resultado da má interpretação visual de duas letras: o r em lugar do d, com a eliminação involuntária do w final de ’ōtô (w). O simples fato de que os anciãos judeus, presbíteros companheiros de Tiago que viviam debruçados nas Escrituras hebraicas, não apresentaram nenhuma objeção baseados em cópia ou citação equivocada é evidência poderosa de que a lxx é fiel ao texto hebraico original nesse caso.
8. Homoteleuto

Esse termo grego significa "que tem o mesmo final". Identifica o tipo de falha textual que ocorre quando a visão do copista passa inadvertidamente por cima de várias palavras que se acham entre dois segmentos idênticos de frase. Tendo afastado a visão de sobre o Vorlage a fim de copiar aquilo que acabou de ler, o escriba retorna ao texto e vê as palavras que acabou de copiar. Imaginando-se pronto para escrever a próxima frase, não percebe que deixou de lado todas as palavras que precedem o segmento de frase repetido. Por exemplo, em Isaías 4.4-6, o copista que escreveu o rolo lqIsa deparou com alguns versículos que continham duas ocorrências de yômām ("de dia"). O texto completo seria o seguinte: "Então Iavé criará por cima de toda a área do monte Sião e por sobre as assembléias uma nuvem de dia, e fumo e o brilho de fogo flamejante de noite; por cima de toda a glória haverá uma abóboda. E haverá um abrigo para dar sombra e proteção contra o calor de dia, e refúgio e proteção contra a tempestade e a chuva". Pois bem, quando a visão do escriba saltou da primeira ocorrência de "de dia" para a segunda, deixou para trás quatorze palavras hebraicas entre a primeira e a segunda. Infelizmente, isso poderia acontecer até mesmo na tradução textual cuidadosamente preservada do próprio tm. Exemplo notável ocorre no salmo 145, um acróstico. Cada versículo se inicia com uma letra do alfabeto hebraico por ordem, havendo um para cada uma das 22 letras. Acontece que no tm o versículo 13 inicia-se com um m (mem), isto é, sua primeira palavra é malḵûṯe ḵā ("teu reino"). Porém, o versículo seguinte inicia-se não com um n (nün, a letra seguinte do alfabeto hebraico), mas com um s (samekh, a letra que se segue a nūn): sômēḵ yhwh le ḵol-hannō pelîm ("Iavé ampara a todos os que caem"). Onde está o versículo que deveria encontrar-se entre ambos? Felizmente foi preservado no texto grego da lxx e, ao traduzi-lo de novo para o hebraico, chegamos à provável linha original: ne’emān yhwhe ḵolde de ḇārāyw weḥāsîd be ḵol-ma ‘aśāyw ("Iavé é fiel em todas as suas palavras e gracioso em todas as suas obras"). O reaparecimento de yhwh be ḵol ("Iavé em tudo") logo depois de yhwh le ḵol ("Iavé para todos") foi suficiente para atrapalhar o escriba. Algum tempo depois de o Saltério estar concluído na lxx, o versículo que se inicia com n veio a perder-se completamente no Texto massorético.


9. Homoarcto

Essa palavra significa "o que tem início semelhante", acarretando perda semelhante à do homeoteleuto, mas quando a visão do escriba salta de um início para outro. Exemplo marcante encontra-se em 1Samuel 14.41, em que o tm diz: "E Saul disse a Iavé: 'Ó Deus de Israel, concede-me um perfeito [i.e., "destino"]'". A situação exigia a descoberta da orientação de Deus em época de crise nacional. Mas, de acordo com a lxx, Saul prefaciou o pedido de um destino perfeito com uma petição longa, em que dizia: "Por que não respondeste a teu servo hoje? Se a falta está em mim ou no meu filho Jônatas, responde-me pelo Urim, mas, se os homens de Israel pecaram, responde pelo Tumim". A grafia de "perfeito" (ṯāmîm) e "Tumim" ( ṯummîm) teria sido a mesma no texto consonantal do Vorlage hebraico. (Deve-se explicar que o Urim e o Tumim eram duas pedras preciosas que ficavam



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num compartimento especial do peitoral do sumo sacerdote, as quais deveriam ser usadas para descobrir a vontade de Deus quando uma decisão a ser tomada envolvesse duas alternativas.) Saul e seu exército, em perseguição aos filisteus derrotados, precisavam saber se Deus queria que eles continuassem a persegui-los durante mais um dia. Mas Deus se recusou a dar-lhe orientação clara. Portanto, Saul concluiu que alguém de seu exército havia feito grave transgressão contra o Senhor, pelo que estava pronto a praticar o lançamento de sortes para descobrir quem era o culpado. Aconteceu que Jônatas, ignorando o voto do pai, lançado contra qualquer pessoa que comesse algum alimento antes de os filisteus serem completamente destruídos, havia descoberto uma colméia cheia de mel silvestre no bosque e provara um pouco do mel, levando-o à boca. Por isso, Jônatas, até então o maior herói das batalhas — o moço começara a desalojar os filisteus, embora não tivesse nenhuma probabilidade de vitória — estava prestes a ser condenado à morte. Infelizmente, porém, o olho do escriba hebreu pulou do primeiro elōhê yiśrā’ēl ("O Deus de Israel") para o segundo, passando por cima de não menos de 26 palavras hebraicas de entremeio. Mas de novo a lxx supriu no grego todas as palavras que faltavam e, por causa disso, podemos reconstruí-las em hebraico, como se fez no aparato crítico da edição de Kittel.

10. Omissão acidental de palavras

O homoteleuto e o homoarcto explicam a omissão de um número substancial de palavras. Aqui, todavia, examinamos a perda esporádica de uma palavra numa situação em que a fonte da dificuldade não reside em expressões semelhantes. Nesse caso, alguma versão antiga, como a lxx, fornece-nos um indício de que se perdeu uma palavra no texto hebraico recebido. Às vezes, essa omissão pode ter ocorrido antes do século iii a.C, pelo que nem mesmo a lxx pôde recuperá-la para nós. Um exemplo acha-se em 1Samuel 13.1, que no tm diz: "Saul tinha [...] anos de idade quando começou a reinar". O numeral desapareceu completamente, não havendo a menor possibilidade de detectar-lhe a idade. Muitos críticos textuais apresentam outras passagens, das quais uma palavra desapareceu. Isso, todavia, entra na categoria de mera conjectura e continua a ser uma questão de opinião, e nada mais. É melhor nos contentarmos com os dados objetivos do texto que recebemos e das versões primitivas. Na ausência de orientação especial da parte de Deus, nenhuma dessas hipóteses tem maior valor que a formulação de conjecturas.

11. Variantes baseadas somente em sinais vocálicos

Como já vimos, o texto das Escrituras hebraicas existiam apenas na forma de consoantes durante todo o período do at e, na verdade, até boa parte dos séculos vii ou viii d.C. Não existe evidência clara do emprego de vogais até a época dos massoretas. Verifica-se demora semelhante na inserção de sinais vocálicos também nos textos siríacos e arábicos. Contudo, havia uma tradição oral bem definida, preservada pelos escribas, sobre como as consoantes deveriam ser vocalizadas. A partir da lxx, podemos aprender muita coisa a respeito da pronúncia primitiva do hebraico, nos séculos i e iii a.C, à vista dos muitos nomes próprios escritos em grego, com o uso, evidentemente, de vogais gregas. Aliás, um estudioso chamado Orígenes preparou no século iii d.C. uma vocalização do at, mediante o uso de uma transliteração na segunda coluna de sua obra Héxapla, mas infelizmente pouquíssimo desse trabalho foi preservado.

A origem tardia do sistema de sinais vocálicos, que não passaram a ser inseridos no texto consonantal senão no período massorético, significa que precisamos confiar bastante na tradição oral dos guardiães judaicos dos originais do at. Podemos com toda a segurança presumir que, na vasta maioria de casos, o sistema de vocalização deles é fiel às intenções do autor. Pode restar uma pequena porcentagem de trechos discutíveis, em que uma sinalização ligeiramente distinta venha a



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afetar muito o sentido. É claro que o texto hebraico é perfeitamente compreensível para quem fala com regularidade essa língua, ainda que não disponha dos sinais vocálicos. Quase todos os documentos de Israel hoje são impressos apenas com consoantes, e jamais surgem dúvidas quanto ao som ou ao sentido das palavras grafadas. (O mesmo acontece com o siríaco e o árabe.) No entanto, quando se lida com literatura produzida há dois mil anos, permanece a verdade segundo a qual os padrões da fala são muitíssimo variados — de modo particular no gênero poético — mais do que se diria a respeito do hebraico moderno. Nesse caso, os sinais vocálicos são salvaguardas necessárias para uma interpretação precisa.

A fim de ilustrar alguns dos problemas que envolvem a sinalização vocálica correta, permita-me apresentar alguns textos relacionados ao Senhor Jesus. Cada um deles foi sinalizado de modo diferente pelos massoretas e diferem do que está indicado nas versões primitivas ou (em alguns casos) até do nt.



1. Isaías 7.11 contém um convite ao rei Acaz para que solicite qualquer sinal miraculoso que desejar, a fim de que se confirme se é divina a mensagem do livramento de Judá, vinda da parte de Isaías. Diz então Isaías, de acordo com o tm: "Peça ao Senhor, ao seu Deus, um sinal miraculoso [še’ālāh], seja das maiores profundezas, seja das alturas mais elevadas". Isso significa um convite para que Acaz escolha qualquer tipo de milagre no céu, em cima, ou embaixo, na terra. É muito interessante que todas as versões gregas apontam para uma sinalização vocálica diferente de še’ālāh, a saber, še’ālāh, que significa "para o Sheol [Hades]". A lxx traz eis bathos ("para as profundezas"); da mesma forma Áqüila, Símaco e Teodósio traduzem a palavra por eis bathos ou eis Hadēn ("para o Hades"). Assim faz também Jerônimo, na Vulgata: in profundum inferni ("Nas profundezas do Hades"). Isso dá grande peso à propriedade da emenda.

2. Em Isaías 9.5 (6, em português), o tm traz: "E alguém [ou 'ele'] chamará "seu nome Maravilhoso. Mas a lxx (que demonstra o desleixo, com certeza, com que essa passagem foi traduzida) traz o tempo presente passivo kaleitai, que significa "seu nome é chamado". O termo usado pela Vulgata, vocabitur, é igualmente passivo: "será chamado"; a Versão siríaca traz ethqrī, que é o presente passivo, como a lxx. Todas essas evidências apontam para a nova sinalização vocálica do tm, de yiqrā’ para a voz passiva yiqqārē’ ("será chamada"). O sentido é melhor, no contexto, e não implica mudança de consoantes.

3. Em Miquéias 5.2, profecia concernente ao nascimento de Cristo em Belém, o tm diz: "Tu és pequena para estar entre os milhares [‘alpê] de Judá", com o sentido de "para ser contado entre as comunidades que têm mil famílias ou mais". Mas em Mateus 2.6 a passagem está citada assim: "Tu [...] de forma alguma és a menor entre as principais cidades de Judá". A palavra grega traduzida por "principais" (hēgemosin) reflete a palavra hebraica ’allupê, em vez de ’alpê. Isso não é reflexo da lxx, entretanto, que apóia o tm, registrando chiliasin ("milhares"). Portanto, deve provir de alguma tradução anterior e independente.

4. Salmos 2.9, que traz a palavra de Deus, o Pai, a seu Filho messiânico, diz o seguinte, de acordo com o tm: "Tu as quebrarás com vara de ferro", referindo-se aos reis hostis que se rebelarão contra o Messias. A sinalização vocálica de terō’ēm ("esmagar") parece ser confirmada pela segunda metade do versículo: "as despedaçarás como a um vaso de barro". Mas a lxx traz poimaneis ("Tu regerás"), implicando uma vocalização tir’ēm. Isso se confirma pela palavra que significa "vara", que é šeḇeṭ, palavra normal que se usa para o cajado do pastor ou cetro do rei. É muitíssimo significativo que esse versículo seja citado em Apocalipse 2.27: " Ele as governará com cetro de ferro [ou "pastoreará"],

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e as despedaçará como a um vaso de barro". De novo em Apocalipse 12.5, lemos: "Ela deu à luz um filho, um homem, que governará [poimainein] todas as nações com cetro de ferro". Em ambas as passagens, a ênfase não recai na destruição ou no esmagamento tanto quanto no pastoreio ou no governo que se exercerá sobre toda a terra. Há maiores probabilidades, portanto, de que precisemos refazer a vocalização do tm, mudando terō’ēm para tir’ēm. Esta é a forma seguida pela Vulgata (regēs) e pela Peshita (ter‘e’), pois ambas as palavras significam"governarás".

5. O salmo 22, o hino da crucificação, traz no versículo 9 (de acordo com o tm): "Confia [gōl] em Iavé; ele o livrará [ou, 'que ele o livre'], ele o salvará [i.e., o salmista, em seu sofrimento e humilhação], porque dele se apraz". Esse versículo contém uma estranha mistura da segunda com a terceira pessoa, referindo-se, contudo, sempre à mesma pessoa, no mesmo versículo. Mas a redação da lxx é: "Ele confiou no Senhor; que o Senhor o livre então". Isso implica a vocalização de gōl para gal: as mesmas consoantes, mas uma vogal diferente. Isso conta com o apoio da Vulgata (speravit), e também da Versão siríaca (’ettekel). O mais importante de tudo é que Mateus 27.43 traz a terceira pessoa do singular: "Ele confiou [pepoithen] em Deus. Que Deus o salve". Os exames do contexto, as versões primitivas e a citação do nt, tudo confirma a emenda de gōl para gal.

6. Salmos 90.2 no tm diz: "Antes que os montes nascessem, ou que tu desses nascimento [watteḥôlēl] à terra ou ao mundo [...] tu és Deus". Mas em quase todas as versões mais antigas, o verbo "dar nascimento" apresenta-se na voz passiva (watteḥôlal, foi dado nascimento a") o que faz com que o segundo verbo esteja na voz passiva, em harmonia com o primeiro, "foram nascidos". A lxx, Áqüila, Símaco, Jerônimo e até o Targum (que na verdade acompanha o tm) unanimemente trazem o segundo verbo na voz passiva. Existe até um manuscrito hebraico primitivo proveniente de Genizá do Cairo (Ec 1) que traz a voz passiva, em vez da ativa. Podemos, portanto, com toda a segurança adotar essa emenda e usar a voz passiva — "foram dados à existência, à luz" —, o que sugere contorções de dor, como uma mulher em trabalho de parto.

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