Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Apocalipse


Quem são os sete espíritos diante do trono de Deus em Apocalipse 1.4?

Apocalipse 1.4 diz: "... A vocês, graça e paz da parte daquele que é, que era e que há de vir, dos sete espíritos que estão diante do seu trono". Quem são os sete espíritos? Representam a terceira Pessoa da Trindade (o Pai e o Filho foram mencionados antes, no v. 2)? É surpreendente, mas a resposta correta a essa pergunta parece que é sim. (Pode-se conceber a idéia de tratar-se de sete anjos, mas dificilmente poderiam ser os das sete igrejas da Ásia, que são relacionados em separado [v.4].)

Como poderia o Espírito Santo ser representado por sete, em vez de um? Bem, a primeira aparição do Espírito Santo em sete facetas ocorre em Isaías 11.2: "O Espírito do Senhor [1] repousará sobre ele [o Messias], o Espírito que dá sabedoria [2] e entendimento [3], o Espírito que traz conselho [4] e poder [5], o Espírito que dá conhecimento [6] e temor [7] do Senhor". No simbolismo bíblico sete é o número da obra perfeita de Deus (cf. Gn 2.2, 3), de modo que "o tronco de Jessé" (Is 11.1) será dotado do Espírito Santo ao iniciar seu ministério messiânico.

Há outra passagem em que ocorre a menção do Espírito em sete facetas, que é Zacarias 3.9: "... vejam a pedra que coloquei na frente de Josué! Ela tem sete pares de olhos...". Nessa passagem há perfeita supervisão, o cuidado providencial de Deus, o Espírito Santo, representado pelos sete olhos gravados na"pedra" (provavelmente uma gema enorme) colocada diante do sumo sacerdote. Aparecem de novo em Zacarias 4.10 e 11: "Pois aqueles que desprezaram o dia das pequenas coisas terão grande alegria ao verem a pedra principal nas mãos de Zorobabel". Então ele me disse: "Estas sete lâmpadas são os olhos do Senhor, que sondam toda a terra!". O Espírito Santo em sua amorosa providência é prometido para a dedicação do segundo templo que estaria pronto em 516 a.C.

Mas é no Apocalipse que os "sete espíritos" aparecem como indivíduos, não apenas em 1.4, mas em 3.1: "Estas são palavras daquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas: Conheço as tuas obras...". Em 4.5: "...Diante dele [do trono] estavam acesas sete lâmpadas de fogo, que são os sete espíritos de Deus". Em 5.6: "Depois vi um Cordeiro, que parecia ter estado morto, em pé, no centro do trono, cercado pelos quatro seres viventes e pelos anciãos. Ele tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados a toda a terra".

Parece haver uma conexão bem definida entre o Espírito em sete facetas de Isaías 11.2 e o de igual número em Apocalipse, que representa o Senhor, em disfarce externo de sete espíritos distintos, número apropriado à perfeição de Deus, ao seu cuidado providencial, o tema central de Apocalipse. O livro todo está cheio de simbolismos; portanto, não deveríamos considerar demasiado surpreendente que o número sete represente a unidade, de forma tão extraordinária e impressionante. Afinal, já vimos como o próprio Cristo de início foi representado em sua glória e ressurreição como o Filho do homem, de cabelos brancos e olhos flamejantes, trajando uma toga longa que lhe encobria os pés de cobre reluzente (1.14, 15); em 5.6 ele é representado pelo Cordeiro, cuja aparência era de quem havia sido morto, dotado de sete chifres e sete olhos. Outra vez temos o simbolismo de sete que representa um; nesse caso, porém, trata-se de Deus, o Filho, em vez do Espírito Santo.

De modo semelhante, Satanás é representado por um dragão vermelho, que expele fogo, de sete cabeças e dez chifres (12.3), parecido com seu primeiro-ministro e representante na Terra, a besta de dez chifres, dez diademas e sete cabeças, com semelhança de leopardo, tendo, porém, os pés de


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urso e a boca de leão (13.2). (No caso de Satanás e do ditador mundial, o número sete representa a declaração vã de possuir o poder perfeito de Deus.) Assim também a igreja mundana e apóstata é simbolizada por uma prostituta vestida de azul e vermelho, sentada sobre a besta de igual cor (17.3, 4). Os símbolos apresentam não a pessoa, nem o poder cósmico, na aparência real, mas em forma simbólica; o objetivo é ensinar o observador humano (João) algo a respeito das qualidades e características do Espírito Santo.

Uma pomba representou o Espírito Santo quando Jesus foi batizado (Mt 3.16), e a diversidade de línguas como que de fogo representou o Senhor no Pentecostes, quando ele deu poder e expressão verbal às testemunhas de Cristo (At 2.3). É provável que houvesse quase 120 línguas semelhantes a tochas, se todos os discípulos do cenáculo estivessem presentes naquela festa (At 1.13, 15). Assim vemos que o Espírito Santo também é simbolizado de maneiras diferentes por toda a Escritura, sempre usando uma espécie de disfarce apropriado à ocasião.



Quem são os 144 mil de Apocalipse 7.3-8 e 14.1?

Em Apocalipse 7.3, Deus dá uma ordem aos quatro anjos que controlam os ventos de destruição da Terra; deveriam impedir que se infligisse a destruição até que os "servos do nosso Deus" fossem selados a ostentando marca de Deus na testa. Compõem um exército de 144 mil (v. 5-8), de todas as tribos de Israel, ou 12 mil de cada tribo. (Observe-se que a tribo de Dã é omitida — talvez porque alguns de seus membros voluntariamente decidiram ocupar as terras ao norte do território destinado a Aser. Fizeram-no como ato de agressão não provocada, segundo Juízes 18.27, trazendo consigo uma estola sacerdotal idólatra, que haviam roubado com violência de um efraimita (Jz 18.18-26.) Outro fato interessante: Levi é mencionado como uma das doze, em vez de manter aquela posição especial de tribo sacerdotal sob o estabelecimento antigo, religioso, de pré-crucificação, da lei mosaica. Efraim deve ser o mesmo que "José", nessa lista; Manassés é mencionado separadamente. Visto que Efraim permaneceu na margem ocidental, enquanto Manassés se estabeleceu como "meia-tribo" na margem oriental, era razoável que se desse a Efraim a honra de levar o nome de seu pai.

Quanto à composição étnica desses 144 mil, é difícil imaginar que ganharíamos um número idêntico de convertidos a Cristo na primeira metade dos últimos sete anos, pouco antes do Armagedom, com homens de cada tribo, de modo especial quando se considera que praticamente todos os modernos judeus se consideram filhos de Judá, exceção feita aos Levines e Cohens, que afirmam ser descendentes de Levi. Seria razoável supor que ainda se pudessem localizar os descendentes das outras dez tribos, haveria grande preponderância de convertidos de Judá. Até mesmo no século i d.C. essa era a situação quase prevalecente, como resultado das deportações assírias das dez tribos em 721 a.C. e nos anos seguintes.

No que concerne aos doze grupos de 12 mil pessoas, todos os especialistas cristãos reconhecem ali uma associação especial com o povo de Deus no at, composto de doze tribos, e outra com o povo de Deus no nt, sob a liderança dos doze apóstolos. Ambas as divisões parecem ser representadas pelos 24 anciãos que figuram de modo tão preeminente no cenário dos céus, apresentado em 4.4; 5.8; 11.16; 19.4. Portanto, se esses dois grupos de doze fossem multiplicados entre si, em vez de somados, o resultado seria 144 em vez de 24. Quanto à multiplicação por mil, compare-se Números 31.4-6 quanto ao primeiro registro de um exército de crentes designado de modo especial para enfrentar belicamente os inimigos do Senhor. Procedimento semelhante foi adotado ao selecionar-se um exército que punisse a tribo impiedosa de Benjamim, nos dias dos Juízes (Jz 20.10). O tamanho normal de um regimento nos exércitos dos dias de Moisés e de Davi era de mil homens.

Reunindo-se todos esses fatores poderíamos ter o seguinte resultado: durante a última semana (das setenta semanas de Daniel, em 9.25), os crentes gentios e judeus operarão juntos com tal eficácia e vigor que alcançarão aquela geração para Cristo num esforço missionário bastante frutífero. Talvez os 144 mil sejam o número de missionários engajados no trabalho, os quais constituiriam regimentos de obreiros dedicados, subordinados a doze autoridades regionais. Seja como for, de acordo com 7.9, eles serão muito bem-sucedidos. Pelo


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esforço ganharão para o Senhor "uma multidão tão grande que ninguém podia contar" de todas as raças e tribos. Os primeiros três anos e meio da sétima semana de anos serão um tempo de evangelização como nunca antes se fizera, antes de a igreja ser arrebatada. (Essa interpretação presume que o arrebatamento ocorrerá no meio da semana de anos, porém é opinião que está aberta a debates, não havendo provas suficientes.)

Quanto aos 144 mil de 14.1-5, a identificação numérica sugere (embora não comprove necessariamente) uma identificação de conteúdo. Parece que representam a Igreja arrebatada aos céus, que se regozija por estar em comunhão com Cristo nas Bodas do Cordeiro. Essa interpretação requer que se tome o "monte Sião" como referência simbólica à contrapartida do céu, e não à Jerusalém histórica. É certo que havia a celestial (bem como outra, terrena) de acordo com Gálatas 4.26: "Mas a Jerusalém do alto é livre, e é nossa mãe". E Hebreus 12.22 fala tanto de Sião, a cidade do Deus vivo, como de uma "Jerusalém celestial, e milhares e milhares de anjos", etc. Há, portanto, muitos precedentes para interpretar esse monte Sião de 14.1 como a designação da corte celestial na presença dos anjos que tocam harpa e dos santos glorificados.

Nessa passagem dá-se ênfase especial à fidelidade e pureza desses 144 mil. Eles têm o nome de Deus inscrito na testa; recusaram aceitar a marca da Besta. Em segundo lugar, são chamados "virgens" (parthenoi) porque não se macularam "com as mulheres". (Não pode se referir a relações sexuais dentro do matrimônio, pois nele não existe mácula; o sexo conjugal é honroso, de acordo com Hebreus 13.4. Portanto, deve referir-se à fornicação e ao adultério, que se espalharão por toda a sociedade corrupta nos últimos dias.) Todavia, o termo parthenos aqui sem dúvida estende-se além da castidade sexual a uma atitude de completa fidelidade e devoção casta ao noivo celestial, cujo retorno iminente todos aguardam, para a alegre festa de casamento do Cordeiro (Ap 19.9).

Os comentários evangélicos tendem a cair em dois campos distintos, no que concerne à identificação desses 144 mil missionários. Em geral, J. B. Payne (Encyclopedia of biblical prophecy, p. 597), Bengel, Alford, Lenski e Milligan identificam-nos com a Igreja, tanto no capítulo 7 como no 14. Têm pouca coisa a dizer a respeito das doze tribos de Israel especificamente nomeadas, mas sugerem apenas que tal número é simbólico, pois reflete os doze patriarcas e os doze apóstolos. No entanto, Bengel faz este comentário: "Desde que as cerimônias levíticas foram abandonadas, Levi encontra-se de novo em pé de igualdade com seus irmãos" (Gnomon of the New Testament [Londres: Nutt, Williams & Norgate, 1962], ad loc).

Lembremo-nos, porém, da promessa de Cristo a seus discípulos em Mateus 19.28: "[...] vocês que me seguiram também se assentarão em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel". É certo que isso sugere que no julgamento final as doze tribos estarão representadas na Terra, para os propósitos desse juízo. (No entanto, alguém pode afirmar que isso significa que no julgamento final os membros das doze tribos, falecidos há tantos milênios, nos tempos do at, estarão diante do tribunal celestial para esse juízo de conseqüências eternas). A divisão do território da Terra Santa durante o Milênio certamente reconhecerá a identidade contínua das doze tribos (pelo menos para os propósitos de atribuir nomes adequados, históricos, a cada uma das doze regiões). De acordo com Ezequiel 48, deverá haver sete tratados paralelos de Leste a Oeste, para sete tribos (Dã, Aser, Naftali, Manassés, Efraim [não José!], Rubem e Judá). Ao sul da cidade estarão as seguintes tribos: Benjamim, Simeão, Issacar, Zebulom e Gade. (Não haverá nenhum representante delas do outro lado do rio Jordão.)

Estudiosos dispensacionais entendem que os 144 mil de Apocalipse 7 são exclusivamente judeus por causa da enumeração das tribos, que encontramos nos versículos 5-8. Assim comenta Fausset: "De todas as tribos será preservado um remanescente, que escapará do julgamento que destruirá a confederação anticristã" (Jamieson-Fausset-Brown, Commentary, ad loc). Harold Lindsell (ed., Harper Study Bible [New York: Harper & Row, 1964], p. 1871) assume uma visão medianeiro: "Os 144 mil dificilmente poderiam ser considerados um número exato de judeus convertidos; alguns entendem que esse número representa o contingente total de judeus que são filhos de Abraão pela fé, conhecidos de antemão e escolhidos de Deus, que se voltarão para Cristo nos últimos anos da presente dispensação (grifo do autor).


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