Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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O Pentateuco


Que sólida evidência existe da autoria mosaica do Pentateuco?

É comum nos círculos liberais ou neo-ortodoxos afirmar-se que Moisés nada tem que ver com a composição do Pentateuco. A maior parte dos críticos que sustentam essa versão acredita que os ditos livros de Moisés foram escritos por diversos autores anônimos, tendo início no século ix a.C. e terminando com o "Código sacerdotal", por volta de 445 a.C. — a tempo de Esdras lê-lo em voz alta na Festa dos Tabernáculos (cf. Ne 8). Outros especialistas, de modo especial os da escola da crítica da forma, acham que só pequeníssima parte do Pentateuco foi escrita até o tempo de Esdras, ainda que algumas partes tenham existido antes sob a forma de tradição oral, durante séculos — talvez remontando ao tempo do próprio Moisés. Tendo em vista o consenso entre os especialistas não-evangélicos de que as vindicações da autoria mosaica são todas especiosas, é bom que façamos pelo menos uma breve reafirmação da evidência sólida e irresistível, tanto interna como externa, de que o Pentateuco inteiro é obra autêntica de Moisés, sob a inspiração do Espírito Santo.

Testemunho bíblico da autoria mosaica

O Pentateuco com freqüência refere-se a Moisés como seu autor, a começar por Êxodo 17.14: "Depois o Senhor disse a Moisés: 'Escreva isto num rolo, como memorial, e declare a Josué que farei que os amalequitas sejam esquecidos para sempre debaixo do céu'". Em Êxodo 24.4, lemos: "Moisés, então, escreveu tudo o que Senhor dissera". Lemos, ainda, no versículo. 7: "Em seguida, leu o Livro da Aliança para o povo...". Outras referências ao fato de Moisés ter escrito o Pentateuco encontram-se em Êxodo 34.27, Números 33.1, 2 e Deuteronômio 31.9, das quais, na última temos: "Moisés escreveu esta lei e a deu aos sacerdotes...". Dois versículos adiante, encontramos uma exigência severa a respeito do futuro: "... quando todo o Israel vier apresentar-se ao Senhor, o seu Deus, no local que ele escolher, vocês lerão esta lei perante eles para que a escutem". Essa norma sabidamente percorre Êxodo, Levítico, Números e a maior parte de Deuteronômio (pelo menos até o capítulo 30).

Mais tarde, após a morte de Moisés, o Senhor deu estas instruções a Josué, sucessor de Moisés: "Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito. Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem-sucedido" (Js 1.8). Negar a autoria de Moisés significa que todos os versículos acima citados são infundados e indignos de aceitação. Josué 8.32-34 registra que a congregação de Israel estava reunida fora da cidade de Siquém, no sopé do monte Ebal e do monte Gerizim, quando Josué leu em voz alta a lei de Moisés, escrita em tábuas de pedra, e os trechos de Levítico e de Deuteronômio referentes às bênçãos e às maldições, como Moisés havia feito anteriormente (cf. Dt 27 e 28). Se a hipótese documentária estiver correta, esse relato também deve ser rejeitado por se tratar de mera invencionice. Outras referências do at à autoria mosaica do Pentateuco são 1 Reis 2.3; 2 Reis 14.6; 21.8; Esdras 6.18; Neemias 13.1; Daniel 9.11-13 e Malaquias 4.4. Todos esses testemunhos também deveriam ser totalmente rejeitados por se tratar de erros.

Cristo e os apóstolos igualmente deram testemunho inequívoco de que Moisés foi o autor da Torá [Lei]. Em João 5.46, 47, Jesus disse: "Se vocês cressem em Moisés, creriam em mim, pois ele escreveu a meu



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respeito. Visto, porém, que não crêem no que ele escreveu, como crerão no que eu digo?". Deveras! De maneira semelhante, em João 7.19, Jesus disse: "Moisés não lhes deu a Lei? No entanto, nenhum de vocês lhe obedece. Por que vocês procuram matar-me?". Se a confirmação de Cristo de que Moisés foi de fato o autor do Pentateuco é descartada — como de fato o faz a teoria da crítica moderna —, segue-se indubitavelmente a negação da autoridade do próprio Cristo. Pois, se o Senhor estava enganado a respeito de uma verdade histórica desse tipo, poderia enganar-se também a respeito de princípios e doutrinas que estivesse ensinando. Em Atos 3.22, Pedro diz a seus compatriotas: "Pois disse Moisés: 'O Senhor Deus lhes levantará dentre seus irmãos um profeta como eu; ouçam-no em tudo o que ele lhes disser' (cf. Dt 18.15). Afirmou Paulo, em Romanos 10.5: "Moisés descreve desta forma a justiça que vem da Lei: 'O homem, que fizer estas coisas viverá por meio delas"'. Mas a teoria jedp* de Wellhausen, e a crítica moderna racionalista negam que Moisés tenha escrito quaisquer dessas coisas. Isso significa que Cristo e os apóstolos estavam totalmente enganados ao julgar que Moisés as tenha escrito de fato. Um erro dessa categoria, tratando-se de fatos históricos que podem ser atestados, levanta séria dúvida quanto a poderem os ensinos teológicos, que tratam de assuntos metafísicos, fora de nossa capacidade de comprovação, ser aceitos como dignos de confiança ou plenos de autoridade. Assim, vemos que confirmar Moisés como escritor do Pentateuco é assunto da maior importância para o cristão, pois a autoridade do próprio Cristo está em jogo.

Evidência interna da composição mosaica

Além dos testemunhos diretamente oriundos dos trechos do Pentateuco mencionados acima, temos o testemunho de alusões fortuitas a acontecimentos ou questões da época, a situações sociais ou políticas ou a assuntos relacionados ao clima ou à geografia. Quando todos esses fatores são pesados de modo imparcial e correto, chega-se à seguinte conclusão: o autor desses livros e seus leitores devem ter vivido no Egito. Além disso, esses fatores revelam que tiveram pouco ou nenhum conhecimento direto da Palestina, dela sabendo apenas por meio de tradições orais, vindas de seus antepassados. Citamos as seguintes evidências:

1. O clima e as condições atmosféricas mencionados no Êxodo são tipicamente egípcios, não palestinos (cf. a referência à seqüência da colheita, em relação à praga da saraiva, em Êxodo 9.31, 32).

2. As árvores e os animais a que se faz referência de Êxodo a Deuteronômio são todos naturais do Egito ou da península do Sinai, e nenhum deles é peculiar à Palestina. A árvore chamada acácia é nativa do Egito e do Sinai, mas dificilmente se encontra em Canaã, exceto ao redor do mar Morto. Essa árvore forneceu madeira para grande parte do mobiliário do tabernáculo. As peles com que o exterior do tabernáculo foi recoberto eram de um animal chamado taḥaš, ou dugongo, que é estranho à Palestina, mas encontrado nos mares adjacentes ao Egito e ao monte Sinai. Quanto à lista de animais limpos e imundos que encontramos em Levítico 11 e em Deuteronômio 14, alguns são peculiares à península do Sinai, como o dîśōn, ou ovelha montês (Dt 14.5), o ya‘anāh, ou avestruz (Lv 11.16), e o te’ô, ou antílope selvagem (Dt 14.5). É difícil imaginar como uma lista desse tipo poderia ter sido feita nove séculos depois, em uma terra onde não havia nenhum desses animais.

3. Mais conclusivas ainda são as referências geográficas que anunciam perspectivas de uma pessoa não familiarizada com a Palestina, mas boa conhecedora do Egito. 1) Em Gênesis 13.10, em que o autor deseja transmitir aos leitores como era verde o vale do Jordão, ele o compara a uma localidade


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bem conhecida da região oriental do delta do Nilo, perto de Mendes, entre Busiris e Tânis. Declara ele que o vale do Jordão era "como a terra do Egito, como quem vai para Zoar" (egip., T-; -r). Nada poderia ser mais evidente, com base nessa referência casual, que o fato de o autor estar escrevendo para um grupo de pessoas não familiarizadas com a aparência das regiões da Palestina, mas pessoalmente familiarizadas com a aparência do baixo Egito. Tal familiaridade só poderia ter se desenvolvido no próprio Egito, e isso se enquadra muito bem à datação mosaica para a composição do livro de Gênesis.

2) A fundação de Quiriate-Arba (nome pré-israelita de Hebrom, no sul de Judá), segundo Números 13.22, ocorreu "sete anos antes de Zoã, no Egito". Isso implica com toda a clareza que os leitores de Moisés estavam bem cientes da data da fundação de Zoã, mas desconheciam a data em que Hebrom — que se tornaria uma das mais importantes cidades de Israel após a conquista — havia sido fundada.

3) Em Gênesis 33.18 há uma referência à "cidade de Siquém, em Canaã". Para um povo que havia vivido na Palestina mais de sete séculos a partir da conquista (de acordo com a data atribuída a essa passagem pela escola de Wellhausen), parece-nos estranho ser preciso dizer que uma cidade tão importante como Siquém ficava "em Canaã". Todavia, seria perfeitamente cabível a um povo que ainda não se houvesse estabelecido ali — como era o caso do povo conduzido por Moisés.

4. A atmosfera e a ambientação do deserto prevalecem por toda a narrativa, desde Êxodo 16 até o fim de Deuteronômio (conquanto haja algumas referências à agricultura, como previsões das condições da terra que logo o povo haveria de conquistar). A importância atribuída a um grande tabernáculo (tenda) como lugar central de culto e reunião dificilmente teria pertinência a um público leitor que houvesse vivido na Palestina mais de sete séculos e só estivesse familiarizado com o templo de Salomão ou com o de Zorobabel como santuário central. A explicação de Wellhausen para isso, que o tabernáculo era simplesmente extrapolação artificial do templo, não se harmoniza aos fatos. O templo era muito diferente em tamanho e no mobiliário, em comparação ao tabernáculo descrito na Torá. Todavia, nem mesmo essa teoria de ficção histórica explica por que os contemporâneos de Esdras teriam estado tão interessados num mero tabernáculo a ponto de a ele devotar tantos capítulos em Êxodo (25-40) e a ele referir-se em quase três quartas partes de Levítico e também com tanta freqüência em Números e em Deuteronômio. Não se consegue encontrar em toda a literatura mundial outro exemplo de tamanha atenção dada a uma estrutura que na verdade (segundo Wellhausen) jamais existiu e nunca exerceu influência sobre a geração para a qual aqueles textos foram escritos.

5. Há grande evidência de natureza técnica e lingüística que se pode reunir em apoio da existência de um contexto egípcio para todo o texto da Torá. Podem-se encontrar exemplos cheios de minúcias a esse respeito em meu livro Merece confiança o Antigo Testamento? Basta que se diga que existe um enorme número de nomes egípcios e de palavras tomadas de empréstimo da língua egípcia que se encontram mais no Pentateuco que em qualquer outra seção das Escrituras. Isso é o que se poderia esperar de um autor que, educado no Egito, escrevesse para um povo nascido e vivido nesse mesmo ambiente.

6. Se o Pentateuco tivesse sido escrito entre os séculos ix e v a.C, como crê e ensina aquela escola documentária, e extrapolasse as práticas religiosas e as perspectivas políticas dos séculos v e vi, indo até os tempos de Moisés (mediante uma mentira piedosa), seria razoável esperar que esse documento espúrio, forjado muito tempo depois de Jerusalém tornar-se a capital do reino israelita, ter-se-ia referido a Jerusalém por esse nome em muitas ocasiões. É certo que teria incluído algumas profecias sobre as



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futuras conquistas dessa cidade e de sua situação privilegiada como localidade permanente do templo de Iavé. Entretanto, um exame minucioso de todo o texto de Gênesis até Deuteronômio leva-nos à espantosa conclusão de que o nome de Jerusalém jamais é mencionado. É certo que o monte Moriá aparece em Gênesis 22 como o local em que Abraão tentou oferecer o filho Isaque em sacrifício, mas nenhuma idéia existe ali de que aquele seria o local do futuro templo. Em Gênesis 14, há uma referência a Melquisedeque como "rei de Salém" — não de "Jerusalém" —, mas tampouco temos aqui algum indício de que mais tarde essa cidade haveria de tornar-se a capital política e religiosa da comunidade hebraica. Em Deuteronômio 12.5-18, encontramos referências a um "local que o Senhor, o seu Deus, escolher dentre todas as tribos para ali pôr o seu Nome e sua habitação. Para lá vocês deverão ir". Tais referências, é verdade, são tão genéricas que podem incluir cidades como Siló e Gibeom, em que o tabernáculo foi guardado por longos períodos antes da construção do templo de Salomão. Entretanto, é justo presumir que Deuteronômio 12.5 tenha a intenção de prever o estabelecimento do templo de Jerusalém. No entanto, é quase impossível explicar as razões por que essa obra de Moisés, alegadamente espúria, escrita muito mais tarde do que se supõe, deixe de mencionar Jerusalém pelo nome, embora houvesse muitas razões para que esse nome ali constasse. Só a suposição de que a Torá é autenticamente mosaica, ou pelo menos composta muito antes da conquista de Jerusalém (ano 1000 a.C.), pode explicar a ausência do nome dessa cidade.

7. Ao datar documentos literários, é da maior importância avaliar os termos-chave aparentemente em uso na época em que o autor executou seu trabalho. No caso de um livro religioso, os títulos pelos quais Deus é caracteristicamente chamado assumem grande importância. Durante o período entre 850-450 a.C, encontramos crescente realce atribuído ao título de yhwh eḇa’ôṯ (na maior parte das vezes traduzido em nossas versões por "Senhor dos Exércitos"). Esse nome confere especial realce à onipotência do Deus da aliança de Israel e ocorre cerca de 67 vezes em Isaías (final do século viii a.C), 83 vezes em Jeremias (final do século vii e início do vi a.C), treze vezes nos dois capítulos de Ageu (final do século vi a.C.) e 51 vezes nos quatorze capítulos de Zacarias (final do século vi e início do v a.C). Esses profetas cobrem quase todo o tempo durante o qual o texto do Pentateuco estaria sendo composto, na forma dos manuscritos ), e, d e p. Entretanto, é de espantar que nem uma única vez o título "Iavé dos Exércitos" se encontre no Pentateuco inteiro. Da perspectiva da ciência da literatura comparada, esse fato seria considerado a mais forte evidência de que a Torá teria sido composta numa época em que o título "Iavé dos Exércitos" não era utilizado. Portanto, toda a Torá, até mesmo o chamado Código sacerdotal, devem ter sido compostos antes do século viii a.C. Caso essa dedução seja válida, a hipótese documentária deve ser totalmente abandonada.

8. Se a parte do Pentateuco chamada Código sacerdotal foi de fato composta nos séculos vi e v a.C, seria de esperar que algumas instituições caracteristicamente levíticas e certos valores culturais do povo, introduzidos a partir dos dias de Davi, fossem mencionados com alguma freqüência. Dentre estes estariam os corais, formados pelos cantores do templo, os quais Davi organizou lançando 24 sortes (1Cr 25), e aos quais tantas referências se fazem nos títulos dos Salmos. No entanto, nenhum coral organizado por cantores levíticos é mencionado uma única vez na Torá.

A ordem dos escribas (pērîm) certamente teria sido mencionada", pois o grande chefe deles, o próprio Esdras, estaria concluindo grandes porções do Pentateuco, a tempo de celebrar-se a Festa dos Tabernáculos, em 445 a.C. — segundo a hipótese de Wellhausen. Entretanto, por alguma



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estranha razão, nenhuma referência se percebe, de modo algum, à ordem dos escribas nem à função deles, tampouco um indício profético de que um dia haveria de existir um corpo de guardiães do texto sagrado.

A partir da época de Salomão, passou a existir uma importantíssima classe de serviçais no templo, conhecidos por netinins ("os que foram dados", i.e., dados para o serviço do Senhor no templo). O número dos netinins (392), que se uniram aos 42 mil que retornaram da Babilônia em 538 a.C, está incluído nas estatísticas de Esdras 2.58 e de Neemias 7.60, ao lado da contagem dos levitas e dos sacerdotes. No entanto, não existem referências a eles ou previsão a respeito deles no "Documento p". Que estranho!

Desde o tempo de Davi, "o amado cantor de Israel" (2 Sm 23.1, nvi, nota de rodapé), fazia-se uso abundante de vários instrumentos musicais (de corda, de sopro, de percussão — desses três tipos) em relação ao culto público diante de Deus. É certo que a sanção de Moisés a tão importante característica do culto levítico deveria aparecer na Torá, tivesse esta sido composta tardiamente, no século x a.C. ou depois. É de surpreender, no entanto, que não exista uma única referência a instrumentos para acompanhamento musical no culto do tabernáculo. É impossível harmonizar esse fato com a data de uma composição do século v a.C. Não resta a menor dúvida de que um corpo sacerdotal profissional como esse, descrito pelos autores da crítica documentária, teria tido a maior das motivações para se incluir tais instituições, tão queridas entre as ordenações, de "Moisés".

9. O Pentateuco, especialmente Deuteronômio, contém várias referências à futura conquista de Canaã pelos descendentes de Abraão. O autor de Deuteronômio escreve, cheio de confiança, que as hostes hebraicas vencerão toda oposição dentro da terra de Canaã, derrotarão todos os exércitos inimigos e implodirão todas as cidades que decidirem atacar. Isso se reflete com clareza nas repetidas exortações para que se destruam todos os templos e santuários cananeus e tudo se reduza a pó (Dt 7.5; 12.2, 3; cf. Êx 23.24; 34.13).

Visto que todas as nações defendem seus relicários sagrados com a máxima força de que são capazes, a presunção de que Israel seria capaz de destruir todos os santuários pagãos por toda a terra presume a supremacia militar do povo de Iavé após a invasão de Canaã. Em que outra circunstância na carreira da nação hebréia poder-se-ia nutrir tão grande confiança senão nos dias de Moisés e de Josué? Aqui, outra vez, a evidência interna aponta fortemente para uma data de composição coincidente com os dias de Moisés. Nada mais fora da realidade supor que Josias, em 621 a.C, quando Judá era um pequenino estado vassalo sob o domínio do Império Assírio, pudesse almejar destruir todos os altares idólatras, demolir todos os altos (maṣṣēḇāh) e árvores veneradas (’ašērāh) e esmagar todas as estruturas de templos, reduzindo-os a pó, de norte a sul e de leste a oeste da Palestina. Como poderia a pequenina colônia que lutava para sobreviver esperar eliminar todos os relicários religiosos de Dã até Berseba?

A única conclusão que se pode tirar das ordens exaradas no Pentateuco para que destruíssem todos os traços da idolatria é que estava na capacidade militar de Israel o poder de fazer cumprir essas ordens por todo o país. Nada, porém, seria menos cabível nos dias de Zacarias, de Esdras e de Neemias que planejar e executar tão grande extirpação do culto idólatra em toda a Palestina. A grande batalha deles era a sobrevivência, em face das reiteradas más colheitas e de grandes hostilidades por parte das nações vizinhas. Nem o "Documento p" do tempo de Esdras nem o Deuteronômio dos dias de Josias poderiam harmonizar-se com as passagens aqui mencionadas.

10. Deuteronômio 13.2-11 prescreve a pena de morte por apedrejamento para qualquer idólatra ou falso profeta, fosse irmão, esposa ou filho. Os versículos seguintes (12-17) dizem que até mesmo uma cidade toda que se voltasse para a idolatria deveria ter todos


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dos seus moradores sentenciados à morte. Todas as suas casas deveriam ser reduzidas a pó e cinza e todas as propriedades condenadas a essa excomunhão. Isso não é teoria visionária, mas ordem séria com procedimentos investigativos nela embutidos, o que refletia um programa que deveria ser posto em execução no Israel da época. No entanto, quando examinamos o registro bíblico da situação espiritual de Judá no século vii a.C. (ou, na verdade, no século viii, a partir do tempo de Acaz), descobrimos que a adoração aos ídolos era tolerada em quase todos os recantos do reino — exceto durante a reforma religiosa empreendida por Ezequias e por Josias. Isso teria induzido à destruição de todas as cidades e vilas, incluindo-se Jerusalém. Ninguém cria leis cuja implementação seja totalmente impossível de ser executada, por causa das condições reinantes. A única época em que tal legislação poderia ter sido posta em vigor era a dos dias de Moisés e de Josué — e possivelmente nos dias de Davi. (Já nos dias de Salomão, o culto às relíquias nos "lugares altos" estava sendo praticado.)

Qualificações de Moisés como autor do Pentateuco

Tendo em mente as referências bíblicas à educação acadêmica de Moisés, torna-se logo patente que ele possuía as qualificações exatas para empreender uma obra do porte da Torá.

1. Moisés recebeu excelente formação, como príncipe criado na corte do Egito (At 7.22), num país em que a cultura era superior a de qualquer outra nação do Crescente Fértil. Até mesmo os cabos dos espelhos e das escovas de dente eram adornados com inscrições hieroglíficas, bem como as paredes de todos os prédios da administração pública.

2. De seus ancestrais israelitas, Moisés deve ter recebido as leis orais que eram obedecidas na Mesopotâmia, de onde Abraão viera.

3. De sua mãe e parentes consangüíneos, Moisés deve ter recebido conhecimento pleno da vida dos patriarcas, desde Adão até José e, com base nessa riqueza, a tradição oral, teria recebido todas as informações contidas no livro de Gênesis, por estar sob a orientação do Espírito Santo ao redigir o texto inspirado da Torá.

4.Tendo residido por muitos anos no Egito e também na terra de Midiã, no Sinai, Moisés teria adquirido conhecimento pessoal sobre o clima, as práticas agrícolas e as peculiaridades geográficas, tanto do Egito quanto da península do Sinai, o que se torna óbvio por todo o texto dos quatro livros — Êxodo a Deuteronômio —, que descrevem o mundo do século xv a.C., nas vizinhanças do mar Vermelho e do rio Nilo.

5. Sendo designado por Deus para ser o fundador de uma nova nação, nação que deveria ser governada pela lei concedida por Iavé, Moisés teria tido o máximo de incentivo para compor essa obra monumental, incluindo-se Gênesis, com todos os relatos integrais do relacionamento gracioso de Deus com os ancestrais dos israelitas antes da migração da família de Jacó para o Egito. E, visto que a jovem nação deveria ser governada segundo as leis de Deus, em vez de por um déspota real, à semelhança das nações pagãs circunvizinhas, Moisés recebeu a responsabilidade de compor (sob inspiração e orientação de Deus) uma lista cuidadosamente pormenorizada de todas as leis que Deus havia concedido, a fim de que o povo guiasse pelo caminho da justiça, da piedade e do culto. Ao longo de um período de quarenta anos de peregrinação no deserto, Moisés teve todo o tempo e oportunidade de que precisava para esboçar o sistema integral de leis religiosas e civis que Deus lhe havia revelado, as quais serviriam de constituição para a nova comunidade teocrática.

Portanto, Moisés tinha todos os incentivos e todas as qualificações para compor essa obra magnífica.



A falácia principal em que se baseia a hipótese documentária

A mais séria de todas as falsas pressuposições subjacentes à hipótese documentária e à abordagem da crítica da forma (a primeira presume que nenhuma parte da Torá teve forma escrita



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senão depois de meados do século ix a.C, e a segunda afirma que todo o texto hebraico do Pentateuco somente foi redigido depois do exílio) é que os israelitas esperaram durante muitos séculos, após a fundação de sua comunidade, até ver a Torá na forma escrita. Tal pressuposição desaparece diante de todas as descobertas arqueológicas dos últimos oitenta anos, segundo as quais todos os vizinhos de Israel conservaram registros escritos de sua história e religião desde antes dos tempos de Moisés. Talvez as grandes quantidades de inscrições em pedra, barro e papiro exumadas na Mesopotâmia e no Egito pudessem ser questionadas como prova do extenso uso da escrita na própria Palestina — até a descoberta, em 1887, dos tijolos de barro de Tell el-Amarna, no Egito, que datam de cerca de 1420 a 1380 a.C. (época de Moisés e Josué). Esse arquivo contém centenas de tabuinhas escritas em caracteres cuneiformes babilônicos (nessa época, era a língua da correspondência diplomática no Oriente Próximo). Eram comunicações à corte egípcia por parte de oficiais e de reis palestinos. Muitas dessas cartas contêm relatos de invasões e ataques dos Habiru e dos chamados sa.gaz (a pronúncia desse logograma pode ter sido "habiru" também) contra as cidades-estados de Canaã.

O próprio Wellhausen chegou à conclusão de que teria de desprezar completamente essa evidência, após a divulgação da descoberta desses tijolos de Amarna, em 1890, mais ou menos. Ele se recusou a considerar as implicações dos fatos descobertos e agora estabelecidos de que Canaã, até mesmo antes de a conquista israelita completar-se, possuía uma civilização de elevado nível de instrução literária (ainda que escrevessem na língua babilônica, em vez de em seu próprio idioma). Os proponentes posteriores da hipótese documentária revelaram-se igualmente incapazes de uma abertura no que concerne às implicações dessas descobertas.

O golpe mais cruel sobreveio, porém, quando se decifraram as inscrições alfabéticas de Serabit el-Khadim, na região das minas de turquesa do Sinai, exploradas pelos egípcios durante o ii milênio a.C. Tais inscrições consistiam num novo jogo de símbolos alfabéticos, parecidos com os hieróglifos egípcios, mas escritos num dialeto cananeu muito parecido com o hebraico. Eles continham registros de quotas de mineração e dedicatórias à deusa fenícia Baalat (ao que tudo indica, equivalente da divindade egípcia Hátor). O estilo irregular da execução exclui toda possibilidade de atribuir esses escritos a um grupo seleto de escribas profissionais. Existe apenas uma conclusão possível a ser tirada dessas inscrições (publicadas em The proto-Sinaitic inscriptions and their decipherment [As inscrições proto-sinaíticas e sua decifração] (Cambridge, Harvard Univ., 1966). Já nos séculos xvii e xvi a.C, até mesmo as pessoas das camadas sociais mais baixas da população cananéia, os escravos das minas que trabalhavam sob feitores egípcios, sabiam ler e escrever em sua própria língua.

Uma terceira descoberta importante foi a biblioteca de tabuinhas de barro na região síria ao norte de Ras es-Shamra, conhecida em tempos antigos como Ugarite, onde havia muitas centenas de tabuinhas escritas por volta de 1400 a.C, num dialeto cuneiforme cananeu, muito parecido com o hebraico. Ao lado de cartas comerciais e documentos do governo (alguns dos quais registrados em caracteres babilônicos cuneiformes), esses tijolos continham muita literatura religiosa e também relacionada aos amores, às guerras e a aventuras empolgantes de várias divindades do panteão cananeu, como El, Anate, Baal, Asserate, Mote e muitos outros, composta em forma poética, à semelhança da poesia hebraica de paralelismos, como as que se encontram no Pentateuco e nos Salmos de Davi. Temos aqui novamente provas irrefutáveis de que os conquistadores hebreus sob o comando de Josué, tendo emigrado de uma cultura que atribuía grande valor às letras, a egípcia, chegaram a outra civilização que usava a escrita com incomum liberdade. Além disso, a alta porcentagem de literatura religiosa encontrada tanto em Ras Shamra como em Serabit el-Khadim nega veementemente a suposição de que, de todos os povos do antigo Oriente Próximo, somente os hebreus não se interessaram ou não se esforçaram por dar forma escrita a seus conceitos religiosos, senão mil anos mais tarde. Só a mais inalterável modalidade de desvio mental por parte de estudiosos liberais pode explicar como



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desprezam e evitam a grande massa de dados objetivos que agora dão apoio à proposição de que Moisés poderia ter escrito e com toda a probabilidade realmente escreveu os livros que lhe são atribuídos.

Uma falácia mais absurda ainda acha-se sob a abordagem moderna da teoria documentária, não só com respeito à autoria do Pentateuco, mas também no que se refere à composição de Isaías 40-66 como obra autêntica do próprio Isaías, que viveu no século viii a.C, e com respeito à data do século vi para o livro de Daniel. Todas essas teorias racionalistas, que atribuem datação muito posterior e natureza espúria a esses livros do at, repousam numa suposição firmemente sustentada: a impossibilidade categórica da profecia bem-sucedida sobre acontecimentos futuros. Toma-se por absolutamente certa a inexistência da revelação divina autêntica nas Escrituras, de modo que todas as profecias que pela aparência teriam sido cumpridas na verdade foram resultado de mentira piedosa. Em outras palavras, as predições não foram escritas senão depois de "cumpridas" — ou quando prestes a cumprir-se. O resultado é uma falácia lógica conhecida como petitio principii, ou "raciocínio em círculo". Isso significa que a Bíblia dá testemunho da existência de um Deus pessoal que opera milagres e revelou seus propósitos futuros a profetas escolhidos para orientação e o estímulo de seu povo. Mediante a abundância de predições cumpridas, as Escrituras fornecem a mais impressionante evidência dos fenômenos sobrenaturais, demonstradas por um Deus pessoal que tem cuidado de seu povo o suficiente para revelar-se a ele e revelar sua vontade quanto à salvação. No entanto, o racionalista aborda essa evidência toda com a mente completamente fechada, presumindo que não existe o chamado sobrenatural e que, portanto, não é possível que se cumpram as profecias. Existindo esse tipo de desvio, é impossível dar a devida atenção a qualquer evidência que diga respeito ao assunto que estamos investigando.

Após cuidadosa ponderação e estudo da história do surgimento da alta crítica moderna, segundo a prática dos adeptos da doutrina documentária e da escola da crítica da forma, este autor está convicto de que a razão básica para a recusa em aceitar a evidência arqueológica objetiva, que parece hostil ante a teoria desses críticos, que desaprovam o sobrenatural, encontra-se na mentalidade de autodefesa essencialmente subjetiva. Assim é que se torna absolutamente essencial que os documentaristas atribuam as predições do cativeiro babilônico e a subseqüente restauração (como as que encontramos em Lv 26 e em Dt 28) a uma época em que tais acontecimentos já pertenciam ao passado. Essa é a verdadeira base filosófica para que se atribuam tais partes (incluídas no "Código dos Sacerdotes" ou "Escola Deuteronômica") ao século v a.C, ou mil anos depois da época em que se crêem tenham sido escritas. E que, obviamente, nenhum mortal pode predizer com sucesso o que ainda jaz no futuro, ainda que a uns poucos anos.

Visto que um Moisés do século xv a.C. precisaria ter previsto o que haveria de acontecer em 587 e em 537 a.C. a fim de poder escrever capítulos como esses, na verdade ele nunca poderia tê-los escrito. No entanto, o Pentateuco afirma que Moisés escreveu apenas o que o Deus Todo-Poderoso lhe revelou. Ele não registrou o mero produto de uma previsão. Daí não haver nenhuma dificuldade lógica em supor que Moisés pudesse ter previsto, sob inspiração divina, acontecimentos que ainda estavam num futuro longínquo — ou que Isaías no início do século vii soubesse de antemão do cativeiro babilônico e do subseqüente retorno a Judá, ou que Daniel pudesse ter predito os grandes acontecimentos da história ainda por ocorrer entre seus próprios dias (530 a.C.) e a vinda de Antíoco Epifânio em 170 a.C. Em todos esses casos, a profecia foi proveniente de Deus, o Senhor da história, e não de algum homem. Portanto, não existe razão lógica para que Deus ignore o futuro que ele próprio faz acontecer.

Além de tudo, o horizonte profético de Daniel (Dn 9.24-27) na verdade aprofunda-se e vai além do período dos macabeus, que lhe atribuíram os estudiosos racionalistas, pois a profecia aponta para 27 d.C como o ano exato em que Cristo nasceu (Dn 9.25, 26). O mesmo se deve dizer a respeito da predição de Deuteronômio 28.68


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sobre as conseqüências da queda de Jerusalém em 70 d.C. e da predição de Isaías 13.19, 20, da total e definitiva desolação da Babilônia, que não aconteceu senão depois da conquista pelos muçulmanos no século vii d.C. Não há como refutar o cumprimento de profecias como essas, tanto tempo depois, mediante a alegação de que os livros que as contêm foram escritos depois dos acontecimentos. Vemos, assim, que esse princípio orientador subjacente à estrutura da hipótese documentária de modo algum pode manter-se em base objetiva e científica. Portanto, essa teoria deve ser abandonada em todas as instituições de ensino superior nas quais ainda é ensinada.

(Quanto aos textos que alegadamente não são de Moisés, com base em evidência interna, veja-se o artigo sobre Êxodo 6.26, 27.)


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