Enciclopédia de Temas Bíblicos Respostas às principais dúvidas, dificuldades e "contradições" da bíblia Gleason Archer Publicado anteriormente com o título: Enciclopédia de dificuldades bíblicas



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Gênesis


De que maneira Gênesis 1 pode harmonizar-se com a evolução teística?

Ao tratar dessa questão, devemos definir cuidadosamente nossos termos, visto que "evolução" é palavra usada com vários sentidos por diversos tipos de pessoas. Devemos fazer distinção entre evolução como filosofia e evolução como mecanismo descritivo do desenvolvimento das espécies de um estágio inferior, primitivo, para outros "mais elevados" ou mais complexos, no decurso da história geológica. Além disso, precisamos estabelecer o que se quer dizer por evolução teística. Daí estaremos em melhores condições para tratar da relação entre a evolução e o criacionismo de Gênesis 1.



A evolução como filosofia

A evolução como filosofia procura explicar que o universo físico — e de modo especial o biológico — tem um autodesenvolvimento a partir da matéria bruta, cuja origem é desconhecida, podendo-se, todavia, considerar que tenha existência eterna, que não tenha possuído um começo. A evolução filosófica elimina toda e qualquer direção ou intervenção da parte de um Deus pessoal e lança dúvidas quanto à realidade até de um Poder Superior. A questão toda é regida por leis físicas imutáveis e, por último, é o produto de mero acaso. Não há razão para a existência, tampouco para um propósito real na vida. O homem deve agir como se fora um fim em si próprio. Ele é seu próprio legislador por excelência e a ninguém deverá prestar conta senão à sociedade humana. A lei e a ética têm base utilitária — produz o melhor para o maior número de indivíduos.

Nem todas essas posições foram propostas por Charles Darwin em sua obra clássica A origem das espécies. No entanto, ele não defenderia hoje uma posição de ateísmo persistente, própria da evolução filosófica, pois acreditava num Deus Criador como logicamente necessário para explicar a existência anterior da matéria bruta original, a partir da qual surgiram as formas primitivas de vida. Seria mais certo chamar Darwin teísta, em vez de ateísta, ainda que seu sistema tenha sido adotado por pessoas que negam a existência de Deus. No entanto, devemos salientar que o ateísmo persistente, o qual se autodefine como o método mais racional e lógico dentre todos os que se propõem a analisar a realidade, é na verdade um sistema derrotado por si só, incapaz que é de prover uma autodefesa lógica. Isso quer dizer que, se a matéria toda se associou de tal forma, por mero acaso, sem a direção de nenhum Poder Superior, nenhuma Inteligência Transcendental, segue-se necessariamente que


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as moléculas do cérebro humano também são produto do mero acaso. Em outras palavras, pensamos da forma que imaginamos simplesmente porque os átomos e as moléculas de nosso cérebro se associaram por acaso, sem nenhuma orientação ou controle transcendental. Portanto, até mesmo as filosofias dos homens, seus sistemas de lógica e todas as abordagens da realidade que apresentam são coisas fortuitas. Não existe absolutamente validade alguma em qualquer argumento apresentado pelo ateu contra a posição do teísmo.

Com base em pressuposições próprias, o ateu anula completamente a si próprio, visto que, pelas suas premissas, seus argumentos são destituídos de valor. Conforme o que ele mesmo professa, ele pensa como pensa simplesmente porque os átomos de seu cérebro se associaram do jeito que se associaram. Se assim for, o ateu não poderá dizer honestamente que sua opinião tem mais valor que a contrária. Seus postulados básicos se contradizem e anulam a si mesmos, pois, quando o ateu afirma que não existem absolutos, ao mesmo tempo está afirmando um absoluto dogmático. Tampouco consegue provar a inexistência do Criador sem apelar para uma lógica que essencialmente depende da existência de Deus para ter algum valor. Afora a garantia transcendental da validade da lógica, quaisquer apelos à lógica ou à argumentação são simples manifestações do comportamento descrito como associação das moléculas que compõem o cérebro do pensador.



A evolução como mecanismo descritivo

A evolução como mecanismo descritivo refere-se ao processo pelo qual formas menos avançadas de vida desenvolvem-se e atingem maior complexidade. Pensa-se que isso ocorre por causa de algum tipo de diretriz interna dinâmica que, sem nenhum controle ou interferência externa, opera de acordo com padrões próprios. Nos dias de Darwin, acreditava-se que esse desenvolvimento era resultante de um acúmulo de características casuais e da retenção de leves variações surgidas durante os estágios primitivos da evolução das espécies, sendo passadas de geração a geração mediante a genética.

No entanto, desde os dias de Darwin, essa fórmula de evolução baseada no processo mecanicista, governado pelo princípio da "sobrevivência do mais apto", por causa de uma variedade de razões, veio a perder apoio no século xx. As experiências de G. J. Mendel com a genética das plantas demonstraram de modo conclusivo que o grau de variações possíveis dentro da mesma espécie estava estritamente limitado, não oferecendo nenhuma possibilidade de evolução que permitisse o surgimento de uma espécie nova, diferente. Após grande número de experiências a respeito da impossibilidade de as características serem herdadas, ficou determinado pelos geneticistas, no final do século, que não existia absolutamente essa coisa chamada transmissão de características adquiridas, visto não haver um modo de codificá-las nos genes dos pais que as desenvolveram (cf. Darwin, before and after [Darwin, antes e depois], de Robert E. D. Clark, Chicago, Moody, 1967).

Quanto à série contínua de transição pela teoria de Darwin, para marcar a ascensão de espécies "inferiores" para "superiores", na escala do desenvolvimento biológico, a pesquisa mais aprofundada possível levou os cientistas finalmente a entenderem de modo conclusivo que não existem os chamados "elos faltantes". Assim é que Austin H. Clark (The new evolution, New Haven.Yale, 1930) confessa: "Se estivermos dispostos a aceitar os fatos, devemos acreditar que jamais existiram os chamados [seres] intermediários, ou, em outras palavras, que esses grupos maiores desde o início mantiveram entre si o mesmo relacionamento que possuem hoje". De modo semelhante, G. C. Simpson conclui que cada uma das 32 ordens de mamíferos apareceu de repente no registro paleontologia). "Os membros mais primitivos e mais antigos de cada espécie tinham já as suas características básicas, e nenhum caso se conhece de uma seqüência contínua aproximada que partiu de uma espécie para outra" (Tempo and mode in evolution, New York, Columbia, 1944, p. 106).

Portanto, foi necessário que Clark e Simpson propusessem um tipo inteiramente antidarwiniano de evolução, a que deram o nome


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"teoria do quantum" ou "evolução emergente". Tal teoria afirma que novas formas surgem ou dramaticamente por mero acaso ou por causa de algum tipo de resposta criativa a novos fatores ambientais. Nenhuma hipótese se aventou a respeito da origem dessa capacidade de "resposta criativa". Da perspectiva do darwinismo, isso dificilmente poderia ser considerado evolução. Assim observa Carl F. H. Henry: "A suposição do aparecimento abrupto ultrapassa o campo da pesquisa científica, da mesma forma que o recurso a forças criadoras sobrenaturais" (R. Mixter, org., Evolution and Christian thought today, Grand Rapids, Eerdmans, 1959, p. 211).

Quanto a algumas séries que passaram por desenvolvimento e são habitualmente mostradas em livros escolares e em museus, tentando demonstrar como a evolução funcionou nos cavalos e nos seres humanos desde os tempos mais antigos da era cenozóica até os tempos modernos, é preciso entender que tais demonstrações nada comprovam a respeito do mecanismo que presidiu esse desenvolvimento. A constatação de continuidade num projeto biológico básico não significa de modo algum estar comprovado que uma espécie "inferior" evoluiu para uma "superior" mediante algum tipo de dinâmica interna, de acordo com a exigência da teoria da evolução. Pois se esse visitante do museu se dirigisse a outra seção, a da ciência industrial, descobriria ali outra série análoga à primeira, esta de automóveis, iniciando-se em 1900 e chegando até nossos dias. Indo de estágio a estágio, de fase a fase, o visitante poderia traçar o desenvolvimento da série de carros Ford, desde o mais antigo modelo t até o grande e luxuoso ltd, da década de 1970. Todos sabemos que houve uma continuidade do projeto básico, que se alterava em estágios definidos, às vezes apresentando novas características, verdadeiramente surpreendentes. Entretanto, o visitante ficaria consciente de que foram os engenheiros da Ford Motor Co. que projetaram as mudanças e as implementaram, mediante técnicos especializados que seguiram seus desenhos. A subida do primitivo hippus até o moderno cavalo de corrida explica-se exatamente da mesma maneira — exceto que nesse caso o arquiteto ou engenheiro foi o próprio Criador.



Evolução teística

A evolução teística concebe a existência de Deus como Criador de todas as substâncias materiais do Universo, como Projetista de todos os processos seguidos pelas várias espécies botânicas e zoológicas no desenvolvimento de seu plano mestre. Diferentemente do evolucionista filosófico, o teísta insiste em que a matéria não era eterna, mas foi criada por Deus, do nada, tendo sido controlada em seu desenvolvimento segundo o plano que o Senhor traçou. Em outras palavras, o mecanismo todo do processo evolucionista foi e continua sendo traçado e controlado pelo Criador, não por alguma força misteriosa e inexplicável, que não se pode pesquisar nem entender.

Quando sopesamos a questão da evolução teística poder ou não ser harmonizada com Gênesis 1, precisamos analisar com o máximo cuidado e verificar se estamos tratando de um conceito teísta ou semiteísta de um Deus que apenas lançou o sistema, tendo-o programado antecipadamente, como se faz com um computador, e depois retirou-se para ficar observando o funcionamento automático do maquinismo cósmico. Esse Criador está fora do alcance da oração e não se interessa de modo ativo e contínuo pelas necessidades de suas criaturas. Não existe, então, comunicação com o Senhor, de quem tampouco podemos esperar salvação. Tudo se encerra no arcabouço do determinismo rígido.

Outra alternativa é que estejamos tratando de uma evolução teística em que há lugar para a oração e para o relacionamento entre os seres humanos e o Criador. Tal evolução teística, contudo, concebe Deus como o que determina a ascensão das espécies biológicas, mediante certo tipo de mecanismo evolutivo, cujo dinamismo e direção encontram-se em si mesmas. Diante do fraco fundamento científico em que assentam os dados concernentes à evolução proposta por Darwin e diante do fato de que foi praticamente rejeitado pelos evolucionistas "emergentes", parece existir pouquíssimo espaço até para o



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cientista teísta poder apegar-se com firmeza a algum tipo de evolucionismo. Essas duas modalidades de evolucionismo apresentam entre si a mesma semelhança que se verifica entre a democracia americana e a "democracia" dos países da extinta cortina de ferro. Se algum cientista aceitar as implicações da integridade das espécies de acordo com os limites de Mendel, poder-se-á talvez afirmar que ele aceita os sucessivos estágios da criação das espécies botânicas e animais e os gêneros e ordens "segundo a sua espécie", como está bem claro em Gênesis 1.11, 12, 21. Se esse cientista entender que os seis dias da criação, na mente do Criador, são uma sucessão de estágios definidos no desenvolvimento ordenado do mundo biológico até a criação do homem, concordaríamos então que isso se harmoniza com a intenção básica do primeiro capítulo de Gênesis.

Tudo isso, naturalmente, depende de o evolucionismo teísta aceitar Adão e Eva como indivíduos literais, históricos, criados. Muitos deles não o fazem, mas concebem que o homo sapiens se desenvolveu gradualmente de um hominídeo subumano para depois, finalmente, desenvolver uma consciência de Deus — momento em que, seja lá quando tenha ocorrido, o homem-macaco tornou-se "Adão". Esse, por exemplo, foi o conceito de Lecomte de Noüy em Human destiny [Destino humano] (New York, Longmans, Green & Co., 1947), para quem talvez em torno de 30000 a.C, o Cro-Magnon se tornou verdadeiramente homem por uma espécie de mutação espiritual que lhe conferiu a capacidade de fazer escolhas morais responsáveis. Esse tipo de abordagem dificilmente se pode conciliar com a apresentação de Adão e de Eva como indivíduos históricos com emoções e reações pessoais conforme aparecem em Gênesis 2 e 3 — e certificadas por 1Timóteo 2.13, 14. Qualquer interpretação supra-histórica de Adão, tal como defende a neo-ortodoxia, sem dúvida alguma entra em choque com a Escritura Sagrada e com a fé evangélica.


Debates úteis sobre o tema

Anderson, J. K. & Coffin, H. G. Fossils in focus. Grand Rapids, Zondervan, 1977.

Lammerts, W. E., org. Why not creation? Grand Rapids, Baker, 1970.

Morris, H. M. The twilight of evolution. Grand Rapids, Baker, 1963.

Newman, R. C. & Eckelmann, H. J Genesis one and the origin of the earth. Downers Grove, Intervarsity, 1977.

Young, E. J. Studies in Genesis one. Philadelphia, Presbyterian and Reformed, 1973.
Como Gênesis 1 pode harmonizar-se com os imensos períodos indicados pelas camadas fósseis?

Uma das objeções mais freqüentemente apresentadas à confiabilidade da Escritura encontra-se na aparente discrepância entre a narrativa da criação dada em Gênesis 1 e a suposta evidência de fósseis e minerais físseis nas camadas geológicas que dão indícios de ter a Terra bilhões de anos de idade. Contudo, Gênesis 1, como se sabe, ensina que a criação ocorreu em seis dias de 24 horas, ao fim dos quais o homem já estava na terra. Mas esse conflito entre Gênesis 1 e os dados científicos fundamentados (em contraposição às teorias de alguns cientistas que tiram inferências de seus dados e são capazes de chegar a uma interpretação bem diferente da de pessoas igualmente capacitadas em geologia) é apenas aparente, não real.

Com certeza, se tivéssemos de entender Gênesis 1 de forma completamente literal — o que pensam alguns ser o único princípio apropriado de interpretação no caso de a Bíblia ser verdadeiramente inerrante e completamente confiável — então não haveria possibilidade de conciliação entre a teoria científica moderna e a narrativa de Gênesis. Mas uma crença verdadeira e adequada na inerrância da Escritura não implica numa única regra de interpretação, seja literal, seja figurada. O que de fato se requer é uma crença no sentido que o autor bíblico (humano e divino) tenha de fato atribuído às palavras usadas.

A literalidade absoluta, por exemplo, nos enredaria na proposta de que em Mateus 19.24 (e em passagens paralelas) Cristo de fato tencionava ensinar que um camelo poderia passar pelo buraco da agulha. Mas está claro que Cristo usava apenas uma conhecida figura de retórica, a



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hipérbole, a fim de ressaltar como é difícil espiritualmente um rico (por seu orgulho quanto às riquezas materiais) chegar ao arrependimento e à fé salvadora em Deus. Interpretar literalmente essa passagem equivale a uma heresia ou no mínimo a uma perversidade para com a ortodoxia. Ou, ainda, quando Jesus disse à multidão que o desafiava a operar algum milagre: "Destruam este templo, e eu o levantarei em três dias" (Jo 2.19), aquelas pessoas erraram deploravelmente ao interpretar sua declaração de forma literal. João 2.21, 22 explica que Jesus não pretendia que essa predição fosse tomada literalmente, e sim de modo espiritual. "Mas o templo do qual ele falava era o seu corpo. Depois que ressuscitou dos mortos, os seus discípulos lembraram-se do que ele tinha dito. Então creram na Escritura e na palavra que Jesus dissera." Nesse caso, então, a interpretação literal estava completamente errada, porque não era o que Jesus queria dizer: ele se referia ao milagre — muito mais grandioso — de sua ressurreição corporal.

Assim, torna-se claro que, ao estudar o texto de Gênesis 1, não podemos fugir à responsabilidade de fazer cuidadosa exegese a fim de estabelecer com clareza o que o autor divino quis dizer com a linguagem que seu profeta inspirado (provavelmente Moisés) foi orientado a empregar. Seria o verdadeiro propósito de Gênesis 1 ensinar que toda a criação começou apenas seis dias de 24 horas antes de Adão "nascer"? Ou será essa apenas uma inferência enganosa que não leva em conta outros dados bíblicos relacionados diretamente a essa passagem? Para responder a essa pergunta, precisamos observar cuidadosamente o que se registra em Gênesis 1.27 com respeito à criação do homem como o último ato do sexto dia da criação. Ali se declara que, no sexto dia (ao que tudo indica, quase no fim do dia, após todos os animais terem sido criados e colocados sobre a terra — portanto não muito tempo antes do ocaso do mesmo dia), "criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou". Isso só pode significar que Eva foi criada na última hora do sexto dia, junto com Adão.

Ao examinar Gênesis 2, entretanto, descobrimos que um intervalo considerável de tempo deve ter ocorrido entre a criação de Adão e a criação de Eva. Em 2.15, lemos que Iavé Elohim (i.e., o Senhor Deus) colocou Adão no jardim do Éden, o ambiente ideal para seu desenvolvimento, e ali ele deveria cultivar e manter o enorme parque, com todas as suas boas árvores, colheita abundante de frutos e quatro rios poderosos que fluíam do Éden para outras regiões do Oriente Próximo. Em 2.18, lemos: "Então o Senhor Deus declarou: 'Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda'". Essa afirmação sugere claramente que Adão estivera diligentemente ocupado em sua responsabilidade de podar, colher frutos e manter o solo livre de vegetação rasteira por tempo suficientemente longo para ter perdido o entusiasmo inicial e o senso de euforia diante dessa ocupação maravilhosa no belo paraíso edênico. Ele começara a sentir certa solidão e uma insatisfação íntima.

A fim de compensar a solidão, Deus incumbiu Adão de uma tarefa importante na história natural: classificar todas as espécies de animais e aves encontradas na reserva. Com seus cinco rios poderosos e vasta extensão, o jardim deve ter abrigado centenas de espécies de mamíferos, répteis, insetos e aves, sem mencionar os insetos voadores, que também são indicados pelo termo hebraico básico ‘ôp ("ave"). O cientista sueco Linnaeus levou diversas décadas para classificar todas as espécies conhecidas dos cientistas europeus do século xviii. Sem dúvida, havia muitas mais a essa altura que nos dias de Adão, e, naturalmente, a gama da fauna no Éden pode ter sido mais limitada que a encontrada por Linnaeus. Ainda assim, Adão deve ter precisado de muito estudo para examinar cada espécime e determinar-lhes um nome adequado, especialmente considerando o fato de que não havia absolutamente nenhuma tradição humana a que recorrer no que dizia respeito à nomenclatura. Devem ter sido necessários alguns anos ou, no mínimo, um número considerável de meses para que ele concluísse esse abrangente inventário de todas as aves, animais selvagens e insetos que povoavam o jardim do Éden.



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Por fim, após essa tarefa ter sido completada, o que contou com o envolvente interesse de Adão, ele experimentou novamente o senso de vazio. Gênesis 2.20 termina com as palavras: "Todavia não se encontrou para o homem alguém que o auxiliasse e lhe correspondesse". Deus, portanto, submeteu-o a um sono profundo, removeu de seu corpo o osso mais próximo do coração e, daquele cerne físico do homem, moldou a primeira mulher. Finalmente Deus apresentou a Adão a mulher em toda a sua beleza, cheia de frescor e de pureza, e Adão sentiu-se extasiado de alegria.

Visto termos comparado a Escritura com a Escritura (Gn 1.27 com 2.15-22), ficou muito patente que Gênesis 1 não foi escrito para ensinar que o sexto dia da criação, no qual tanto Adão quanto Eva foram criados, durou apenas 24 horas. Tendo em vista o longo intervalo de tempo entre o surgimento de ambos, parece irracionalidade insistir que toda a experiência de Adão em Gênesis 2.15-22 pode ser comprimida nas últimas horas de um dia literal de 24 horas. A única conclusão razoável a que se pode chegar é que o propósito de Gênesis 1 não é dizer com que rapidez Deus realizou a obra da criação (embora, naturalmente, alguns de seus atos, como a criação da luz no primeiro dia, devam ter sido instantâneos). Antes, seu verdadeiro propósito foi demonstrar que o Senhor Deus, que se havia revelado à nação hebraica e entrado num pacto de relacionamento com seu povo, era de fato o único Deus verdadeiro, o Criador de todas as coisas. Isso se colocava em direta oposição às noções religiosas dos pagãos que os rodeavam, que presumiam o surgimento de um panteão de deuses em fases sucessivas a partir de matéria pré-existente de origem desconhecida, ativados por forças para as quais não havia explicação.

Gênesis 1 é um manifesto sublime que rejeita totalmente as cosmogonias das culturas pagãs do mundo antigo, considerando-as nada além de superstição infundada. O Senhor Deus todo-poderoso existia antes de toda a matéria e, por sua própria palavra de comando, trouxe todo o Universo à existência, governando todas as grandes forças do vento, da chuva, do Sol e do mar segundo sua vontade soberana. Esse conceito se posicionava em nítido contraste com as pequenas divindades e deuses conflitantes, briguentos, caprichosos e gerados pela imaginação corrompida dos pagãos. A mensagem e o propósito de Gênesis 1 são a revelação do único Deus verdadeiro que criou todas as coisas do nada e mantém para sempre o Universo sob seu controle soberano.

O segundo aspecto principal de Gênesis 1 é a revelação de que Deus realizou sua criação de maneira ordenada e sistemática. Houve seis fases principais nessa obra de formação, e essas fases são representadas por dias sucessivos da semana. A esse respeito, é importante observar que nenhum dos seis dias da criação traz um artigo definido no texto hebraico — as traduções "o primeiro dia", "o segundo dia" etc. estão erradas. O hebraico diz: "E a tarde teve lugar, e a manhã teve lugar, dia um" (1.5). Em hebraico, "o primeiro dia" seria hayyôm hāri’šôn, mas esse texto diz simplesmente yôm ’eḥād ("dia um"). Além disso, no versículo 8, lemos não hayyôm haššēnî ("o segundo dia"), mas yôm šēnî ("um segundo dia"). Na prosa hebraica desse gênero, o artigo definido era usado em geral quando se desejava definir o substantivo. Somente no estilo poético ele podia ser omitido. O mesmo acontece no restante dos seis dias: nenhum deles traz o artigo definido. Assim, eles são bem adaptados a um padrão seqüencial, e não a unidades de tempo estritamente delimitadas.

Gênesis 1.2-5 estabelece a primeira fase da criação: a formação da luz. Isso deve ter significado basicamente a luz do sol e de outros corpos celestes. A luz solar é de modo geral precondição indispensável ao desenvolvimento da vida vegetal e animal (embora haja algumas formas subterrâneas de vida que consigam viver sem ela).

Gênesis 1.6-8 apresenta a segunda fase: a formação de um "firmamento" (rāqîa‘), que fez separação entre a umidade suspensa no céu e a umidade suficientemente condensada para permanecer na superfície da terra. O termo rāqîa‘ não significa um dossel de metal batido, como alguns escritores já alegaram — nenhuma cultura antiga jamais ensinou essa idéia em seu



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conceito de céu —, mas significa apenas "um firmamento estendido". Isso fica bem evidente em Isaías 42.5, em que o verbo cognato rāqa‘ é usado: "E o que diz Deus, o Senhor, aquele que criou o céu, e o estendeu [do verbo nāṭāh, "estender" cortinas ou cordas de tendas], que espalhou [rāqa‘] a terra e tudo o que dela procede [o substantivo ṣe’e‘ṣā’îm se refere sempre a plantas e animais]" (ra). Obviamente, rāqa‘ aqui não poderia significar "batido", "estampado" (embora seja usado dessa forma com freqüência ao referir-se ao trabalho em metal). O paralelismo com nāṭāh (destacado acima) prova que aqui ele tem a força de estender ou expandir. Portanto, o substantivo rāqîa‘ pode significar apenas "firmamento", sem nenhuma conotação de chapa dura de metal.

Gênesis 1.9-13 relata a terceira fase da obra criadora de Deus: o ajuntamento das águas dos oceanos, mares e lagos em uma altitude inferior à das massas de terra que surgiram acima delas, permitindo que secassem. Sem dúvida, o resfriamento gradual do planeta Terra levou à condensação de água necessária para causar esse resultado. As pressões sísmicas que produziram montanhas e colinas indubitavelmente contribuíram ainda mais para essa separação entre terra e mar. Uma vez que a terra seca (hayyabbāšāh) apareceu, tornou-se possível à vida vegetal e às árvores brotar na superfície da terra, auxiliadas pela fotossíntese do céu ainda nublado.

Gênesis 1.14-19 revela que na quarta fase criadora Deus abriu o manto de nuvens o suficiente para que a luz direta do Sol caísse sobre a Terra e para que tivesse lugar a observação correta dos movimentos do Sol, da Lua e das estrelas. Não se deve entender que o versículo 16 mostra a criação dos corpos celestes no quarto dia. Antes, ele nos informa que o Sol, a Lua e as estrelas, criados no primeiro dia como fonte de luz, foram colocados em seus lugares designados por Deus com a idéia de funcionar como indicadores de tempo ("sinais, estações, dias, anos") para os observadores terrestres. O verbo hebraico wayyaaś, do versículo 16, seria traduzido melhor por "Fizera Deus os dois grandes luminares etc", em vez do passado simples, Fez Deus". (O hebraico não tem uma forma especial para o tempo mais-que-perfeito, mas usa o tempo perfeito ou o imperfeito conversivo, como é o caso aqui, para expressar ou o passado ou o mais-que-perfeito do português, dependendo do contexto.)

Gênesis 1.20-23 relata que no quinto dia da criação Deus desenvolveu totalmente a vida marinha e a vida de água doce, introduzindo criaturas voadoras (insetos ou aves aladas). É interessante observar que as camadas com fósseis da era paleozóica contêm a primeira evidência de vida animal invertebrada, que surge com surpreendente brusquidão no período cambriano. Não há nenhum indício nas camadas pré-cambrianas de como as 5 mil espécies de vida animal marinha e terrestre da era paleozóica se teriam desenvolvido, pois não há nenhum registro delas antes dos níveis cambrianos. Gênesis 1.24-26 relata que na sexta e última fase do processo criador Deus produziu todos os animais da terra conforme suas várias espécies (lemînāh, no versículo 24, e lemînēhû, no versículo 25, significam "conforme a sua espécie", quer o antecedente seja masculino, quer feminino no gênero gramatical), culminando afinal com a criação do homem, conforme discutido mais amplamente acima.

Com referência a isso, seria oportuno um comentário relacionado com a fórmula repetida no fim de cada dia da criação: "Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o dia" [ordinal]. A razão para essa declaração final parece ter sido dupla. Em primeiro lugar, era necessário deixar claro se a unidade simbólica em questão era um mero dia que ia do nascer do sol até o ocaso, ou se era um dia de 24 horas, pois o termo yôm ("dia") pode significar qualquer um dos dois. De fato, a primeira vez que yôm ocorre é no versículo 5: "Deus chamou à luz dia, e às trevas chamou noite". Portanto, era necessário mostrar que cada um dos dias da criação era simbolizado por um ciclo completo de 24 horas, começando com o ocaso do dia anterior (segundo os nossos cálculos) e terminando com a parte que tinha a luz solar, até o ocaso, no dia seguinte (conforme calcularíamos).

Em segundo lugar, o dia de 24 horas é um símbolo melhor que um mero dia de luz solar para



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distinguir o início e o final de uma fase da criação antes da fase seguinte. Houve fases definidas e distintas no procedimento criador de Deus. Se essa foi a verdadeira intenção da fórmula, então ela não serve como evidência de um conceito de 24 horas literais por parte do autor bíblico.

Alguns têm argumentado que a referência no Decálogo (no quarto mandamento) quanto a Deus ter descansado no sétimo dia, que serve de base para se honrar o sétimo dia de cada semana, sugere enfaticamente a natureza literal de "dia" em Gênesis 1. Esse argumento, todavia, não é tão persuasivo assim, tendo em vista o fato de que, se era para haver qualquer dia da semana especialmente separado para o descanso, para o culto e para o serviço ao Senhor, teria de ser um dia de 24 horas (sábado), de qualquer forma. Na realidade, a Escritura não ensina de forma alguma que Iavé descansou apenas um dia de 24 horas ao concluir sua obra criadora. Não há nenhuma fórmula final no encerramento do sétimo dia mencionado em Gênesis 2.2, 3. E, de fato, o nt ensina (em Hb 4.1 -11) que aquele sétimo dia, aquele "sábado de descanso", conservou um sentido muito definido até a era da igreja. Assim, seria impossível alinhar o sábado com o Sétimo Dia, que concluiu a obra criadora original de Deus!

Uma última observação referente à palavra yôm conforme usada em Gênesis 2.4. Ao contrário de algumas versões modernas, a Versão do rei Tiago traduz corretamente esse versículo: "Essas são as gerações dos céus e da terra quando foram criados, no dia em que o Senhor Deus fez a terra e os céus". Visto o capítulo anterior ter indicado que houve pelo menos seis dias na criação dos céus e da terra, é evidente que o yôm de Gênesis 2.4 não pode de forma alguma ser compreendido como um dia de 24 horas — a menos que a Escritura esteja em contradição! (Para uma boa dissertação sobre esse tópico por um professor cristão de geologia, v. Creation and the Flood and Theistic evolution [Criação e o dilúvio e a evolução teísta], de Davis A. Young [Grand Rapids, Baker, 1977]. Alguns pormenores estão abertos ao questionamento, e o autor nem sempre é preciso na terminologia, mas em geral o trabalho fornece uma sólida contribuição para essa área de debate.)

A antigüidade da raça humana

Tendo apresentado a evidência para compreender os seis dias da criação de Gênesis como fases distintas no desenrolar do processo, prosseguimos agora para a questão da antigüidade de Adão e o começo da raça humana. Essa questão já foi discutida até certo ponto em meu livro Merece confiança o Antigo Testamento? (4. ed., São Paulo, Vida Nova, 1986). A grande era atribuída pelos paleantropólogos aos esqueletos de várias espécies de antropóides é uma questão consideravelmente debatível. L. S. B. Leakey usou a análise de potássio-argônio para chegar à estimativa de 1 750 000 anos para a idade do que ele identificou como o "Zinjan-thropus" de Tanganykia ("Exploring 1, 750, 000 years into man's past" [Explorando 1750000 anos no passado do homem], National Geographic, outubro de 1961). A outros espécimes da área da garganta Olduvai foi atribuída idade ainda mais antiga.

Considera-se que o homem de Neanderthal viveu de cem mil a cinqüenta mil anos atrás e parece ter desenvolvido aptidões como a manufatura de setas de pedra e cabeças de machado. O homem de Neanderthal parece também ter usado fogo para cozimento na preparação de alimentos. Ele pode ter tido também algum envolvimento com arte, embora as notáveis pinturas nas cavernas de Altamira e de outros lugares talvez sejam produto da raça posterior dos Cro-Magnons.

A essa altura, algo deve ser dito sobre as novas e surpreendentes descobertas geológicas que tornam as antigas estimativas da ciência geológica convencional quase impossíveis de serem mantidas no presente. Uma análise aprofundada da evidência fornecida por uma camada exposta do leito do rio Paluxy, em Glen Rose, no Texas, foi publicada por Cecil Dougherty, de Temple, no Texas, sob o título Valley of the giants [ Vale dos gigantes] (Minneapolis, Bible-Science Association, s.d.), agora na sexta edição. No Bible-science Newsletter de abril de 1979 (p. 4), há um relatório de Fred Beierle de Lyons, de Kansas, referente a uma viagem de estudos feita a esse lugar extraordinário. Ele mostra na mesma camada uma boa marca de pegadas de um dinossauro de três dedos e, depois, logo acima, as pegadas características de um tiranossauro



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e também de um brontossauro. O baixo nível de água durante a seca do verão tornou muito fácil descobrir e ver áreas em que pegadas claras de alguma espécie humana primitiva cruzam as pegadas desses dinossauros!

Ademais, num nível adjacente na mesma camada crustácea dessas pegadas, havia um longo risco preto que se descobriu ser um galho de árvore caído que fora reduzido a carvão pelo fogo e subseqüentemente submerso na superfície calcária. Ele tinha cerca de cinco centímetros de diâmetro e pouco mais de dois metros de comprimento, estando localizado cerca de duzentos metros abaixo das pegadas humanas e dos dinossauros. Uma seção desse galho foi removida e enviada a R. Berger, geofísico da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, para uma análise de carbono-14. Ele relatou depois o que descobriu: o galho tinha 12800 anos de idade, duzentos anos a mais ou a menos. Se seu veredicto for confirmado por outros laboratórios, isso parece indicar que toda a ciência da geocronologia, conforme praticada pelos geólogos tradicionais, está precisando de uma revisão completa. Aqui temos uma camada do fim da era mezozóica com evidência de hominídeos primitivos vivendo na mesma época que os mais altamente desenvolvidos dinossauros e datada por um galho de árvore com não mais de 13 mil anos!

Um editorial na página 2 desse mesmo número do Bible-Science Newsletter fornece uma pista importante quanto à fonte desse erro tão grosseiro nos métodos geocronológicos convencionais para a computação do tempo. A análise cuidadosa dos minerais físseis (como a decomposição do urânio em chumbo ou do argônio 40 em argônio 36) tem operado a partir da premissa simplista de que todos os depósitos desse tipo eram originariamente compostos de elementos precursores puros. Então, depois que o magma esfriou, o elemento precursor supostamente começou a se decompor com a perda gradual de elétrons e se tornou o elemento derivado com uma contagem atômica inferior. Mas amostras bem recentes tiradas do núcleo de vulcões, com mil anos ou menos de idade, trazem espécimes que evidenciam idades de muitos milhões ou até mesmo bilhões de anos — a julgar pela proporção de elementos derivados dos elementos precursores na mesma amostra. Isso inevitavelmente demonstra que, mesmo na fase inicial do depósito, as formações físseis já continham uma alta proporção de elementos derivados. Portanto, não têm praticamente nenhum valor ou são completamente enganosas para datar os níveis nos quais são encontradas. Será interessante ver como os teoristas da geologia convencional tratarão essa nova descoberta. Ela não pode permanecer ignorada nem ser oculta ao público permanentemente, não importando o quanto os teoristas antigos possam sentir-se ameaçados.

Mas, independentemente de quão pouco confiáveis possam ter sido os métodos de datação que levaram a estimativas tão elevadas da antigüidade desses antropóides, permanece o fato de que eles não podem ser datados como anteriores à criação de Adão e Eva, a que se refere Gênesis 1 — 3. Não importando como as estatísticas de Gênesis 5 sejam tratadas, elas dificilmente podem determinar para Adão uma data muito anterior a 10000 a.C. Se os números em Gênesis merecerem qualquer tipo de confiança, mesmo admitindo a ocorrência de lacunas esporádicas na corrente genealógica, somos forçados a considerar todos esses antropóides primitivos como pré-adâmicos. Em outras palavras, todas essas espécies, desde os cro-magnons, voltando até os zinjantropos, devem ter sido de macacos avançados ou antropóides possuidores de considerável inteligência e criatividade — mas que desapareceram completamente antes que Adão e Eva fossem criados.

Se examinarmos o registro bíblico cuidadosamente, teremos de reconhecer que, quando Deus criou Adão e Eva à sua imagem (Gn 1.27), soprou neles algo de seu próprio Espírito (Gn 2.7), de uma maneira que não havia feito em nenhuma ordem prévia da criação. Essa imagem divina consistiu de alguma forma material, algum tipo especial de esqueleto ou estrutura anatômica? Claro que não, pois Deus é espírito, não carne (Jo 4.24). Portanto, o que tornou Adão tão superior foi sua constituição interior — alma (nepeš) e espírito (rûaḥ), bem como sua estrutura física e natureza corpórea, com suas paixões e impulsos animais. Daquele primeiro ser humano verdadeiro, como agente moral responsável, como pessoa possuidora


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de espírito que permanece em um relacionamento de pacto com Deus, é que descende todo o restante da raça humana (Rm 5.12-21).

Pode ter havido hominídeos adiantados e inteligentes que viveram e morreram antes de Adão, mas que não foram criados à imagem de Deus. Essa é uma linha de distinção à qual a Palavra de Deus nos compele, e é aqui que devemos rejeitar qualquer interpretação de dados paleantropológicos que suponha que uma semelhança no esqueleto estabelece os antropóides pré-adâmicos como verdadeiros seres humanos, no sentido bíblico do termo. Embora esses habitantes primitivos das cavernas possam ter desenvolvido certas aptidões em sua busca de alimento e se engajado em guerras entre si — como o fazem outros animais —, não há, todavia, nenhuma evidência arqueológica de que uma alma humana verdadeira animava seus corpos.

Estudos recentes do chipanzé e do gorila mostram inquestionavelmente que espécies subumanas de macacos são capazes de confeccionar ferramentas —"Os chipanzés usam mais objetos como ferramentas e para mais finalidades que qualquer outra criatura, exceto nós" (Jane Goodall, "Life and Death at Gombe" [Vida e morte em Gombe], National Geographic, maio 1979: 598 —, dar as mãos, dar tapinhas uns nos outros, abraçar e beijar. São também capazes de refinada crueldade entre si, chegando mesmo a canibalizar as próprias crias. Os gorilas podem falar através de sinais com seres humanos e mentir-lhes, e já chegaram a aprender a usar uma máquina fotográfica (Francine patterson, "Conversation with a gorilla" ["Conversa com um Gorila"], National Geographic outubro 1978: 458-59). Portanto, evidências de inteligência semelhante no "homem" pré-histórico não são provas decisivas de humanidade no sentido adâmico nem de capacidade moral e espiritual. Portanto, essas raças não-adâmicas, pré-adâmicas, não ameaçam de forma alguma a credibilidade bíblica, não importa quão antigas sejam.

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