Ensaio final avanços em Neurociências e Epilepsia Patricia Manczak



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Instituto Edumed para Educação em Medicina e Saúde

Introdução à História da Neurociência III



ENSAIO FINAL

Avanços em Neurociências e Epilepsia



Patricia Manczak

p.czak@ibest.com.br



Blumenau, dezembro de 2003.

Instituto Edumed para Educação em Medicina e Saúde

Curso de Extensão Universitária

Introdução à História da Neurociência III


Responsável: Prof. Dr. Renato M. E. Sabbatini



ENSAIO FINAL

Avanços em Neurociências e Epilepsia


Escrita do Egito Antigo: Nesejet (nsjt =epilepsia).

O termo significava doença mandadada por Deus

e que seria extremamente perigosa.

(em www.epilepsiemuseum.de)




Patricia Manczak


Blumenau, dezembro de 2003.

A epilepsia não é um fenômeno recente, mas mesmo sendo abordada e investigada há milênios, é inquietante como os pacientes ainda morrem ou são tratados de forma inadequada nos dias atuais, particularmente nos países em desenvolvimento, como o Brasil, onde ainda é um problema de saúde pública, apesar dos avanços no desenvolvimento de métodos diagnósticos, de prevenção e tratamento.

A evolução das discussões em torno da epilepsia, confunde-se e acompanha as linhas que conduzem a História da Neurociência, como a descoberta das causas físicas para problemas neurológicos, a descoberta da atividade elétrica no cérebro, a descoberta de medicamentos e técnicas de neuroimagem, para diagnóstico e tratamento. Nos últmos anos, os avanços em neurociências, têm sido revolucinários e promovido mudanças de paradigmas. A seu rico campo de conhecimento multidisciplinar, somam-se a cada dia, novas descobertas e recursos tecnológicos, como a genética molecular e a sofisticação de imagens do cérebro humano in vivo, e avança-se na compreenssão da dinâmica do cérebro, tanto em estado de normalidade como em estados patológicos, e de suas relações com o comportamento. Mas apesar de séculos se passarem, conceitos, conhecimentos e tratamentos mudarem, evoluírem, preconceitos e desinformação ainda existem, como existiam no passado.

Fatores com a falta de: informação, acesso a saneamento básico, programas de assitência à saúde, profissionais capacitados, tem contribuído, para a, ainda alta incidência da doença, o baixo acesso às formas de tratamento, e a manutenção dos estigmas em torno da epilepsia.

Associada a possessões divinas e demoníacas, a doenças contagiosas ou à loucura, a epilepsia, no decorrer da história, encontrou diferentes formas de definição, diagnóstico e tratamento. Assim como a loucura, a epilepsia foi estigmatizada, imprimindo marcas que persistem até os dias de hoje.

As mais remotas descrições da epilepsia, são dos egípcios e dos sumérios e datam de 3500 a.C. Referências sobre epilepsia também, foram encontradas em documentos que datam de 2000 a.C. aproximadamente, na antiga Babilônia. Esses documentos traziam restrições ao casamento de pessoas epilépticas, por atribuir à epilepsia um caráter mágico e sagrado. Assim como no famoso papiro cirúrgico de Edwin Smith escrito no Egito por volta de 1700 a.C. O principal documento que trata de neurologia no Egito Antigo, o Papiro, cita possíveis crises convulsivas. Neste período todas as idéias relacionadas à medicina vinculavam-se a superstição e a fé religiosa. Avanços significativos na compreensão das doenças, entre elas a epilepsia, occorreram na medicina grega. Por volta de 400 a.C., Hipócrates, o Pai da Medicina, inferiu que o cérebro seria a sede da mente, e tentou desfazer mitos sobrenaturais, afirmando que a causa da epilepsia não estava em espíritos malignos, e sim no cérebro. Desta época são as primeiras referências de causas físicas para as doenças e afecções neurológicas, e eleição do cérebro como o local chave para o entendimento do comportamento humano. Diversos pesquisadores estudaram a epilepsia, como Galeno, autoridade médica no Império Romano no século II d.C. Galeno foi um intenso dissecador, e fez a primeira classificação de diferentes formas da doença.

Na Idade Média, a epilepsia foi relacionada com doença mental e contagiosa - concepção equivocada que persiste até hoje. Na Renascença e com a revolução científica, a anatomia passou a ser realmente estudada, à exemplo da grande obra de Andreas Vesalius, no século XVI: o tratado de anatomia “de Humani Corporis Fabrica, concluído em 1543, uma das obras mais importantes da História da Medicina. No século XVII os espíritos ainda dominavam as funções mentais. Desta época são os estudos de René Descartes, que apesar de independentes da neuroanatomia, abriram as portas para a pesquisa neurofisiológica experimental. Ele também afirmava que a epilepsia originava-se no cérebro.

No século XVIII, o neurologista John Hughlings Jackson, juntamente com Russell Reynolds, and Sir William Richard Gowers inauguram a era moderna da epilepsia. As primeiras evidências conclusivas apareceram em 1870, quando Gustav Fritsch, Eduard Hitzig e David Ferrier demonstraram que o estímulo elétrico do córtex cerebral podia provocar convulsões em animais de laboratório. Hughlings Jackson, pouco depois, sugeriu explicitamente a ligação entre as crises epilépticas e descargas anormais e excessivas no cérebro. Ele também, reconheceu que as crises alteravam comportamento, sensação e consciência.

Foi no século XVIII que se iniciou a separação entre psiquiatria e neurologia. Essa separação se efetivou no século XIX, com a emergência da neurologia como uma disciplina distinta e com a afirmação de que a epilepsia era um distúrbio cerebral. Nesse período, Samuel-Auguste Tissot escreve o Tratado da Epilepsia, no qual descreve diferentes tipos de crises e síndromes.

Em 1904, o termo epileptologista, é usado pela primeira vez pelo neurologista William Spratling, para descrever o especialista em epilepsia. EM 1929, um psiquiatra alemão, chamado, Hans Berger anunciou ao mundo, que era possível gravar correntes elétricas geradas no cérebro, sem ter que abrir o crânio, e representá-las graficamente, em uma tira de papel. Berger desenvolveu assim o electroencefalograma (EEG), que assumiu importante papel, dos anos 30 em diante, no campo da epilepsia. O EEG revelou diferentes padrões nas descargas das ondas elétricas cerebrais, associadas com diferentes tipos de crises. Assim com ajudou a localizar o sítio das descargas durante a crise, o que expandiu as possibilidades de tratamentos neurocirúrgicos, que se tornaram mais largamente acessíveis a partir dos anos 50s. Os primeiros trabalhos demonstrando que a atividade epiléptica era acompanhada de alterações típícas do EEG, foram feitas em Boston, em 1935 e 1936, pelos médicos americanos Frederic A. Gibbs e William G. Lennox . Em Breslau, na Alemanha, Otfrid Foerster e H. Altenburg foram os primeiros a registrar potenciais elétricos no córtex com o intuito de verificar focos epilépticos, uma metodologia que posteriormente foi aprimorada no Instituto Neurológico de Montreal, no Canadá, por Penfield, Jasper e Rasmunssen. Wilder Penfield e colaboradores, numa abordagem pioneira marcada pela atitude interdisciplinar, demonstraram, que era possível intervir cirurgicamente, de maneira sistemática, em alguns casos de epilepsia.

Nesta época houve uma crescente descoberta de drogas, impulsionada pelo aprofundamento na compreeensão da atividade eletroquímica do cérebro, especialmente, os neurotransmissores. Nos anos 50 e 60, também, vários estudos epidemiológicos demonstraram as primeiras evidências científicas para uma predisposição genética nas várias formas de epilepsia. Estudando mais de perto o tipo de fator genético envolvido na suscetibilidade para epilepsia, Lennox, em 1951, e Inouye, em 1960, demonstraram que a concordância clínica entre gêmeos monozigóticos, quando comparada com a concordância em pares dizigóticos, sugere a presença de um fator genético importante, mas demonstra também que o modelo de herança não é monogênico. Nos anos 70, Andermann, propôs o modelo multifatorial para as epilepsias, no qual fatores genéticos e ambientais interagem na determinação dos riscos de recorrência familiar da doença.

Um recente impulso em direção a comprensão e tratamento da epilepsia nas últimas décadas, tem sido o desenvolvimento de equipamentos de neuroimagem, revelando as mais sutis e diferentes formas de lesão que podem levar à epilepsia: trauma, congênita, infecção, tumor, degenerativa, vascular.

Com os avanços recentes da biologia molecular as teorias sobre genes implicados na transmissão das epilepsias poderão ser finalmente comprovadas experimentalmente. Com os avanços das técnicas de mapeamento, novos genes responsáveis pela transmissão das epilepsias poderão ser mapeados. Além disso, interações entre múltiplos genes e fatores ambientais poderão ser melhor investigados. Isso possibilitará avanços importantes no entendimento dos mecanismos básicos da epileptogênese, e eleição de terapêuticas mais específicas e eficientes.

Ainda hoje as causas da doença não foram totalmente elucidadas. Nas últimas décadas, houve várias tentativas de se estabelecer uma teoria única para os mecanismos básicos da doença, mas nenhuma suficientemente bem sucedida. Atualmente, não se tenta mais buscar uma teoria única, visto que a epilepsia não é uma doença específica, mas um grupo de doenças, e que suas diversas formas correspondem a diversos mecanismos diferentes.

Embora tenha havido um considerável progresso na pesquisa em epilepsia nos últimos anos, questões fundamentais relacionadas a essa condição permanecem ainda por serem esclarecidas. Uma vez que epilepsia designa uma variedade de situações patológicas que apresentam como aspecto comum a ocorrência de crises recorrentes, essa multiplicidade de fatores relacionados à etiologia e à sintomatologia da epilepsia pede uma rede de colaboração científica, com a integração de especialistas de diferentes áreas. Atualmente, esforços tem sido realizados no que tange a disseminação das informações a respeito da doença e a disponibilização dos serviços de saúde adequado à prevenção e tratamento. “Tratar” a epilepsia, envolve redução da incidência desta, diminuição do dano às pessoas que sofrem deste problema, e reabilitação das pessoas incapacitadas por ela. Diversas campanham tem lutado pela conscientização da necessidade de se capacitar os profissionais envolvidos e pelo alargamento das ações informativas e preventivas.

A prevenção da epilepsia envolve: aconselhamento genético; cuidados pré-natais adequados, através do controle e diminuição dos problemas da gravidez, tais como abortos, hemorragias, eclâmpsia e toxemia, podem ajudar a diminuir o risco de epilepsia. A imunização da mulher grávida também pode ter o mesmo resultado. Além disso, um cuidadoso pré-natal que prognostique um parto difícil, pode evitar que ocorram complicações na hora do parto, como a asfixia neonatal e a hipóxia que são causas importantes da epilepsia. A melhora da qualidade de assistência ao parto também pode reduzir uma variedade de outras complicações obstétricas que podem contribuir para posteriores crises epilépticas. Imunização de doenças, como a difteria, coqueluche, tétano, sarampo e tuberculose através de vacinas, tem força de reduzir o dano cerebral direto causado por estas doenças, controle de doenças infecciosas e parasitárias, como a cisticercose, malária, esquistossomose e meningite, consideradas como importantes fatores causais e de aumento da freqüência da epilepsia. Portanto, a maioria delas são passíveis de prevenção se esforços forem dirigidos visando sua erradicação.

Durante as últimas décadas uma grande atenção tem sido dada a qualidade de vida, bem-estar psicológico e social, das pessoas com epilepsia. O progresso ainda é lento e a quantidade de serviços deficitária. Estima-se que os estudos não estejam disponíveis para a cerca de 80% de pessoas com epilepsia, principalmente nos países em desenvolvimento. O estigma ainda prevalece, contaminado de explicações sobrenaturais, e preconceitos. Até mesmo em países desenvolvidos, o tema é tratado como tabu. Há estados norte americanos, que ainda sustentam leis contra, por exemplo, casamento com pessoas com epilepsia. E em muitos casos a epilepsia ainda não é encarada como uma condição médica tratável.

Então, nesse contexto, acompanhando o desenrolar da história até os tempos atuais, onde o avanço tecnológico e científico se encontra num nível singular de extraordinário desenvolvimento, talvez o maior desafio seja o de que as metodologias de diagnóstico, as técnicas de abordagem terapêutica, as formas de apoio psicológico e social, pesquisas científicas fundamentais em vários campos do conhecimento, se integrem em ações, realmente efetivas e acessíveis, de atenção a saúde, e que a abordagem da epilepsia, seja ela preventiva, terapêutica ou social, se torne, historicamente, democrática e humanizante, abandonando, de uma vez por todas os equívocos cometidos ao longo da história.


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